A lição do mestre
Data do post: 10 de julho de 2012
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A visão interior de Lou Reed
Data do post: 22 de novembro de 2010

Enquanto me recuperava de uma forte gripe e lia JR, de William Gaddis, soube como foi a reação do público do SESC Pinheiros em relação ao show de Lou Reed em São Paulo e dei várias gargalhadas. Esperavam o quê? Que ele cantarolasse Perfect Day? Fizesse as pessoas suspirarem com Walk on the Wild Side? Nada disso. Lou Reed veio para apresentar Metal Machine Music, um de seus projetos mais esquizofrenicos que nunca consegui entender.
Contudo, vislumbrei o homem quando esteve no Conjunto Nacional, para uma sessão de autógrafos na Livraria Cultura, depósito da Companhia das Letras. Parecia um cover punk do Bruno Tolentino: tudo enrugado, rosto chupado, óculos enormes, pequenininho, estilo what the fuck do i care. Não me impressionou em nada. Voltei para casa, comecei a perceber que a gripe iria ficar pesada e coloquei Berlin para me acalmar.
Para completar, resolvi aumentar a intensidade da gripe com JR, de William Gaddis, um dos meus autores de cabeceira. Quando crescer quero ser alguém como Gaddis. Minha ambição é escrever um romance com o escopo de The recognitions, a melancolia de Berlin e o bom humor de Set the Twilight Reeling.
Obviamente, Gaddis entrou no delírio da minha gripe. O romance – um dos mais díficeis que já li na minha vida, estou no encalço de sua leitura há cerca de dois anos – conta a história de um garoto de 11 anos que resolve fazer algumas especulações financeiras, monta um império, destrói a vida de várias pessoas e termina incólume, como se fosse um rapaz inocente. A trama é absurda porque o mundo é absurdo – mas quando se nota que o livro foi escrito na década de 70, torna-se realmente profético.
O que há de perturbador em Gaddis é a visão de que a vocação artística não tem chance no mundo tal como conhecemos. O artista sempre estará fadado ao fracasso. Não há como preservar a sua visão interior porque os homens irão corrompê-lo através das tentações do poder e do dinheiro. Afinal, não se come de literatura. Logo, para sobreviver, o artista faz pequenos pactos fáusticos para conseguir manter a sanidade do corpo e se esquecer do “ser que poderia ter feito algo mais”.
Ao ler sobre a reação do público do SESC Pinheiros ao show de Lou Reed, minhas gargalhadas tiveram também um toque de inquietação. Os jornais informaram que mais de metade da platéia se levantou depois de 20 minutos de apresentação; muitos gritaram um fuck you para Lou enquanto ele tocava sentado com uma guitarra, com mais dois músicos que o acompanhavam com um saxofone e um laptop (?!). Para quem escreveu Kill your sons, isso foi fichinha.
Será que ninguém avisou o público que Lou sempre foi dessa maneira? Será que o organizador do show sabia o que havia contratado? A reação de tamanha turba lembrou-me do dia em que gritaram a Bob Dylan em 1966 que ele era um Judas porque trocara o folk pelo rock elétrico. Os anos passam, a malta continua a mesma.
Não fui ao show porque eu já sabia o que ia acontecer. Mas depois do que foi narrado gostaria de ter estado ali. Seria uma oportunidade única: ver um artista mantendo a sua visão interior independentemente do que o seu público quer ou espera. Isso é algo raro, muito raro. Sem dúvida, Lou Reed é hoje metade do homem que foi antes, mas a sombra de sua vocação sempre estará dependurada em seu pescoço – e ele sempre exigirá muito do “ser que poderia ter feito algo mais”. E, nos tempos atuais, isso é uma atitude que deve ser comemorada sem hesitação.
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A literatura como salvação
Data do post: 30 de agosto de 2010

E, de novo, lá vamos nós.
Para onde? Para o mundo maravilhoso das esperanças antecipadas do universo literário.
A bola da vez agora é Jonathan Franzen, o autor de As Correções, que, junto com As Benevolentes, do também xará Jonathan Littell, salvaram a literatura do esquecimento completo nesta primeira década dos anos 2000.
Franzen lança esta semana nos EUA seu novo romance, Freedom. É um outro catatau que nem li, mas me parece que já gostei. As Correções era um livro invulgar porque era capaz de misturar William Gaddis, C.S. Lewis, crítica social, inquietação existencial, sem se perder nos maneirismos de estilo e, sobretudo, sem deixar que o leitor parasse de se preocupar com seus personagens idiossincráticos.
Parece-me que Freedom vai pelo mesmo caminho, mas desta vez coloca, no seu quadro de referências, Tolstói com uma pitada de Richard Yates. Uma espécie de Guerra e Paz em versão suburbana WASP.
O problema é que a crítica já entoou em unanimidade que Jonathan Franzen é o Grande Romancista Americano (como apontou a Time em uma reportagem de capa).
Não é. Querem um exemplo? Seu longo ensaio sobre William Gaddis pode ser divertido, mas é extremamente equivocado ao tratar da obra deste que foi o pai de todos os Pynchons, todos os DeLillos, todos os David Foster Wallaces e, claro, de todos os Franzens.
Mas por que a crítica entra na vertigem do hype? Por que querem logo eleger alguém como a salvação da literatura?
Suponho que o motivo é que as pessoas – mesmos os críticos, estes sujeitos sem coração – querem a própria salvação a qualquer custo – e a literatura pode fazer isso em um piscar de olhos. Basta o leitor querer.
Contudo, como todos nós sabemos, nem isso a literatura pode fazer. Afinal de contas, a vida se encarrega de nos avisar direitinho do nosso lugar no mundo. De preferência, no último lugar da fila ou na pior carteira da sala de aula.
Jonathan Franzen pode ser um escritor talentoso. Disso não tenho dúvidas. Mas não poderá nunca nos dizer como sair da enrascada em que nos metemos e que damos o apelido de “nossa vida”.
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