IFE - Instituto de Formação e Educação
RSS

Compre o Livro

O romance que salva toda uma literatura

Filed under: Geral,Literatura incluído por Martim Vasques da Cunha
Data do post: 4 de agosto de 2008

Depois de meses de enrolação, setenta e duas páginas lidas, mas interrompidas porque as circunstâncias me impediam de dedicar o tempo necessário, somente agora consegui terminar de ler o romance “As Benevolentes”, de Jonathan Littell.

Vocês já devem ter ouvido falar dele: o catatau de 900 páginas sobre um carrasco nazista gay da SS, ganhador dos prêmios Goncourt e da Academia Francesa, mais de 700 mil exemplares vendidos, escrito em francês por um americano residente em Barcelona. Enfim, o mito está feito e impresso.

O que vocês não ouviram é se o livro vale realmente a pena. Muitas críticas a ele são obtusas, para não dizer limítrofes. Alguns não entenderam nada; outros simplesmente perceberam que não tinham condições para o compreender adequadamente – e deram uma opinião frouxa.

 (A exceção é a resenha de Jessé de Almeida Primo para o primeiro número de Dicta&Contradicta. Mas, apesar de corajosa, não concordo com alguns aspectos de sua análise).

Enfim, perguntará o leitor, o livro é bom? Não, ele é excelente: é possivelmente um dos poucos romances que colocaria lado a lado com “Doutor Fausto”, de Thomas Mann, a grande obra que mostra o pacto demoníaco que a Alemanha fez com o Nazismo. Mas não se trata de uma tragédia; na verdade, Littell construiu o romance como uma farsa que, em alguns momentos, atinge a alucinação pura. Há um norte ético nessa decisão estética. Dizia Eric Voegelin, em seu “Hitler e os alemães”, que não se podia retratar o nazismo como uma tragédia, mas sim como uma farsa, pois o absurdo da situação era tamanho que ela não podia ser representada como algo “real”. Quando Littell chama o seu romance de “As Benevolentes”, sem dúvida quer nos despistar, jogar com nossas expectativas para depois quebrá-las em pedacinhos.

Assim, sugiro ao leitor que, se quiser aventurar-se a ler o catatau de Jonathan Littell, se prepare para trechos de alta voltagem sensorial e intelectual. Trata-se de um romance que retrata o nosso fascínio pelo Mal, não hesita em identificar o nazismo com as ideologias socialistas, sionistas e afins (não poupa sequer a ideologia GLS), narrado com uma força de imaginação que faz inveja a qualquer aspirante a escritor.

Além disso, o nosso escritor globe trotter também cria uma enigmática reflexão sobre o sutil poder do Bem, mesmo quando tudo parece ser dominado pelo Mal – daí o título, que tem, sem dúvida, uma ressonância irônica. Apesar de ser um olhar sem misericórdia no coração das nossas trevas, Jonathan Littell reconhece que a luz sempre vem para aqueles que também a recusam; e é a noção deste paradoxo que cria as obras de artes e os romances que podem, por alguns momentos, salvar toda uma literatura em decadência.


Comments (3)

3 Comentários »

  1. Martim, você não achou que mesmo com o tom farsesco do livro, aquele desfecho, com a cena do encontro com o Hitler, ficou um tanto deslocado, em termos de tom?

    Comentário by Jonas — 4 de agosto de 2008 @ 4:54 pm

  2. Enfim alguém teve a coragem de dizer que o livro é excelente.
    *
    Depois de Milan Kundera _ que já merecia ter ganho o Nobel a muito tempo _ vem Jonathan Littell, um americano, salvar a Literatura não só da orgulhosa França, mas do Ocidente inteiro.
    *
    Se os velhinhos de Estocolmo tiverem coragem, que dêem o Nobel a Littel e que o mito se torne ainda maior.
    *
    E por falar em Nobel: tomara que o grande Solzhenitsyn tenha partido deste mundo tendo lido “As Benevolentes”. A memória do Mal não pode ser esquecida jamais. Solzhenitsyn sabia disso, Littell não deixará que nos esqueçamos.

    Comentário by Carlos Eduardo — 4 de agosto de 2008 @ 7:16 pm

  3. É excelente, de fato. Um relato indefinível de um absurdo inumano numa epoca de trevas onde os homens se escondiam de suas taras vestindo uniformes e seguindo ordens inquestionáveis. A loucura transita entre o individual e o coletivo e estabelece um limite invisivel entre a sanidade e os desvios irracionais que se mesclam numa pretensa nova ordem mundial. Duro e delicado. Terrível e sensível. Chocante e suave. Um susto.

    Comentário by carlos Lima — 14 de dezembro de 2009 @ 3:51 pm

Deixe um comentário

*
To prove you're a person (not a spam script), type the security word shown in the picture. Click on the picture to hear an audio file of the word.
Click to hear an audio file of the anti-spam word