Cronocentrismo e crítica literária
Por Rodrigo de Lemos.
Curioso como os detratores do eurocentrismo e do logocentrismo e do falocentrismo deixam passar em silêncio uma categoria que, a um observador desinteressado, não deveria ser motivo de menor escândalo do que as primeiras: o cronocentrismo, a mais ou menos consciente transformação do tempo (ou de um certo momento do tempo) em coisa, em algo cuja essência pode ser definida a exemplo de uma cadeira, em algo que pode ser estudado como um bicho de laboratório, alçando-se daí a causa de fenômenos, a critério de julgamento, a móbil de ações. Nunca encontrei quem hoje defendesse a sério essa posição tal qual; creio, entretanto, que nem por isso ela está menos viva, e viva exatamente porque anônima e difusa, quer como pressuposição tácita entre palestrantes e suas audiências, quer como o sentimento secreto unindo autor e leitor.
O cronocentrismo pode, claro, manifestar-se em meios intelectuais restritos como fetichização de um período pretérito (e uma Idade Média de cartolina em alguns círculos católicos é o primeiro exemplo que me vem à mente), mas, para a massa dos educados lato sensu, ele aparece como aquilo que Jacques Maritain chamou de cronolatria, o uso dos in e dos outs das revistas de moda no campo das idéias, seguindo-se daí a fatal legitimação do presente e a transformação do conceito em voga ontem em algo tão risível e tão absurdo quanto uma anágua ou um gorrinho de melindrosa. É a adoração narcísica da própria época – essa época não se definindo por mais do que pelo espaço entre dois derniers cris. Talvez por isso os defensores do multi- a qualquer preço sejam de uma inconsciência tão complacente quanto ao cronocentrismo: é ele que os legitima; por trás da poeira levantada pela caravana de palavras vagas, difícil é escutar, no seu contexto e nos seus próprios termos, o discurso dos homens sobre as mulheres na longa era de trevas anterior ao advento de Simone de Beauvoir ou o que os padres da Igreja entendiam realmente por pecado da carne. Para “dar voz” aos excluídos (usando a metáfora de que eles mesmos se servem), é preciso abafar a dos seus supostos algozes. Leia mais…
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