Salingaros sobre o Modernismo
Data do post: 31 de julho de 2012
Meu amigo virtual de pouco contato, o prolífico matemático grego Nikos Salingaros, colaborador da Dicta&Contradicta impressa, acaba de publicar em co-autoria com Mark A. Signorelli um artigo na New English Review, acessível online: The Tyranny of Artistic Modernism. Vale conferir imediatamente.
Tendo a desconfiar das críticas imoderadas, mas a observação de Salingaros/Signorelli de que ”all artistic creation is law-like” parece-me verossímil, até como ponto de partida. Os excessos do modernismo elegeram, como formas de arte, até o caos puro e a imprecação. Essa atitude merece a crítica que lhe fizeram tanto os tradicionalistas mal-humorados quanto os expoentes do alto modernismo (estes últimos, a meu ver, em geral mais dignos de apreço, como Geoffrey Hill, W. H. Auden e Gerhard Richter, para dar exemplos aleatórios).
A arte precisa de regras, e só empreendimentos de longo prazo — que permitam à criatividade impor-se com solidez e forma — parecem merecer o valor que lhes conferimos. O darmos valor a artefatos como os de Duchamp fora do seu contexto histórico (de meras curiosidades) parece-me, por esse motivo, mais wishfull thinking do que qualquer outra coisa. Permanecem obscuras, todavia, as razões dessa relação entre a arte e as regras.
Ademais, casas como o MMOMA (o museu de arte moderna de Moscou), que visitei esse mês, têm mostrado que a boa arte do século XX não é brincadeira de crianças.
(Aproveitem para ler o artigo de Scruton que menciona, e analisa, ideias de Salingaros; e um outro post meu que o apresenta.)
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Arquitetura Evolutiva
Data do post: 14 de janeiro de 2011
Certas formas de arte são mais passíveis de experimentos do que outras. Pense num quadro. O sujeito vai ao museu, olha a chocante aberração por uns dois minutos, acha que gostou e volta para casa. Com música é mais difícil; poucos se dispõem a aturar meia-hora que seja num concerto dodecafônico; na hora de encher as salas de concerto, são os barrocos, clássicos e românticos que salvam a orquestra.
Na arquitetura, por outro lado, pouco pensamos, embora ela interfira muito no nosso dia-a-dia e bem-estar. O suposto princípio da arquitetura moderna é a submissão da forma (aparência) à função. O problema é que a função pensada pelos arquitetos-artistas do século XX não era, muitas vezes, a vida normal e natural do ser humano, mas a vida que o homem por eles sonhado deveria ter.
Há uns dois anos foi disponibilizado no Google Video a série de documentários How Buildings Learn do escritor Stewart Brand cujo principal interesse não é com a fotografia do prédio na revista ou com as inovações da planta, e sim em como o prédio se adapta à vida humana e como, em consequência disso, ele muda ao longo dos anos.
“Na Bibliotèque Nationale, as notórias torres de vidro mostraram-se muito quentes para os livros lá dentro. Um dia de sol forte e eles assariam. Venezianas de madeira tiveram de ser adicionadas por todo o prédio, aumentando em muito os custos da construção.” No todo, a manutenção do prédio é tão cara que as autoridades tiveram que diminuir o orçamento da compra de livros.
A vida humana segue independente dos delírios grandiloqüentes de um Corbusier (ou de um Niemeyer); e se a tomarmos como critério, então as obras mais louvadas publicamente são também as menos úteis, as mais caras de se manter e as mais difíceis de se adaptar a novos usos e tecnologias. Prédios menos vistosos são frequentemente superiores; dê a eles alguns séculos, e uma obra-prima emerge das incontáveis alterações.
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A arquitetura da tirania
Data do post: 24 de novembro de 2009
Finalmente, alguém teve cojones para afirmar o que era o óbvio ululante: o de que o arquiteto Le Corbusier não passa de um falastrão com pretensões totalitárias. Oh, estão chocados com essa afirmação? Bem, quem tem de aguentar as penitenciárias chiques de Oscar Niemeyer – um dos mais famosos discípulos de Le Corbu – que o diga (inclua nessa categoria lato sensu a maravilhosa magalomania que se chama Brasília).
O responsável por tal “descoberta” (na verdade, Tom Wolfe já tinha feito as mesmas afirmações em From Bauhaus to Our House em 1981) foi o nosso Theodore Dalrlymple, que, em seu mais recente artigo para o City Journal, destrói, com penetrante senso de humor, essa lenda da falsificação arquitetônica em parágrafos como este:
Le Corbusier does not belong so much to the history of architecture as to that of totalitarianism, to the spiritual, intellectual, and moral deformity of the interbellum years in Europe. Clearly, he was not alone; he was both a creator and a symptom of the zeitgeist. His plans for Stockholm, after all, were in response to an official Swedish competition for ways to rebuild the beautiful old city, so such destruction was on the menu. It is a sign of the abiding strength of the totalitarian temptation, as the French philosopher Jean-François Revel called it, that Le Corbusier is still revered in architectural schools and elsewhere, rather than universally reviled.
(E aí vem a pergunta que não quer calar: alguém se aventura em ler o texto em vez de reclamar na caixa de comentários?)
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Tributo a um gênio
Data do post: 31 de julho de 2009
Belo ensaio sobre o gênio da arquitetura Frank Lloyd Wright, cujos desenhos, fotografias e modelos estão em exposição no Museu Guggenheim de Nova Iorque, ele próprio uma criação do arquiteto. Não deixe de clicar no “Slideshow”!
Por mais que se critique (muitas vezes com razão) a arquitetura moderna – ou certas correntes dentro dessa ampla categoria – ela também produziu construções de valor e beleza imensuráveis.
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It’s gobbledygook
Data do post: 21 de janeiro de 2009
Would you really compare an education in modernist architecture to a cult indoctrination?
Nikos Salingaros: Yes. The groundwork was laid out brilliantly by both Frank Lloyd Wright and by Gropius. They studied cult techniques in order to use them to promote their sort of architectural education. The Bauhaus was a hotbed of cultish affinity. There were several distinct cults there — really weird cults, which is the reason the government finally closed them down (extrato de uma entrevista cujo link, só por chatice, vai só lá no final).
Salingaros é uma figura excêntrica: um matemático da Universidade do Texas nascido na Austrália, PhD. em física teórica pela Universidade de Nova York. É autor do best-seller Anti-architecture and Deconstruction e membro da International College of Traditional Practitioners, apadronado pelo Príncipe Charles, e um grande autor na área do urbanismo. Um homem imerso no mundo da ciência-da-computação-tecnologia-biologia-física que, de repente, após travar conhecimento com o teórico da arquitetura Christopher Alexander, autor do conhecido The Nature of Order, resolve… travar uma ácida batalha de palavras contra o modernismo arquitetônico.
Não é necessário concordar com Nikos Salingaros. Não é fácil saber se ele está certo – embora o seja perceber que Le Corbusier era um cara meio tantã, um agorafóbico que fugia o tempo todo de pessoas e queria acabar com a agitação das ruas.
A sua preocupação é com algo análogo à sustentabilidade, mas com um acento meio, digamos, reacionário na dignidade do homem… O sujeito é uma mistura de Gaudi com Turing com Gomez Dávila (ao que parece, por esse motivo, troquei uns e-mails com ele há uns 5 anos).
Confiram a primeira parte da entrevista cheia de wit e condenações sumárias e vejam se é possível escapar ao contágio desse estranho vírus.
Ah, e aproveitem para conferir (não com tiros) o site pessoal de Nikos Salingaros.
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