Encontro de culturas
O embaixador japonês na Santa Sé explica porque o Cristianismo permanece algo “estrangeiro” aos japoneses. Partindo de sua espiritualidade que mistura elementos de Budismo e Xintoísmo, Kagefumi Ueno enumera três pontos principais.
- Diferentes concepções do “eu” (ou “self”): para o japonês, é algo a ser superado e eliminado, para o ocidental, algo a ser afirmado e aperfeiçoado.
- Relação diferente com a natureza: para o ocidental, matéria inferior, para o oriental, algo divino a ser reverenciado.
- modo de encarar os valores: para os ocidentais, valores são absolutos e devem ser afirmados a qualquer custo (sejam os valores da fé cristã, da liberdade de imprensa ou dos direitos dos animais); já os japoneses consideram mais prudente relativizar os valores quando isso evitar a violência.
No fim das contas, a fala envereda para a economia, na qual, apesar das diferenças de fundo, o embaixador reconhece preocupações comuns entre a Igreja Católica e o Budismo.
Não vejo como discordar das idéias apresentadas (ao menos na parte inicial e mais importante), mas ao mesmo tempo fico querendo fazer a pergunta: “Sim, as diferenças culturais são reais; mas então qual das duas responde melhor aos anseios da natureza humana?”
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Comer = Rezar, Amar
Não li “Comer, Rezar, Amar”, o best seller de Elizabeth Gilbert, e não vi “Comer Rezar Amar”. Nem pretendo; quando chegar à TV, quem sabe. Mas depois de ler inúmeras resenhas (como esta), sinto como se o conhecesse sem experimentar, a uma distância psicológica e espiritualmente segura. Afirmo com a mais absoluta certeza, por exemplo, que a Elizabeth interpretada por Julia Roberts come durante o filme. Relutaria, contudo, em dizer se ela reza ou ama.
Há que se notar que a reza, se acontece, é um tanto peculiar. Depois de um mês gastro-intestinal na Itália, Elizabeth vai à Índia entrar em contato com o Absoluto. O curioso é que sua atitude na hora de rezar e de amar seja tão parecida com a da hora de comer. Come-se aquilo de que se gosta; claro que a pessoa de gosto bem desenvolvido estará aberta a todas as comidas; mas mesmo assim, dentro de uma restrição mínima de nutrição e comestibilidade, é o gosto que determina o prato, ainda que se escolha as poucas opções de um balcão self-service.
Na hora de rezar e amar, ela também escolhe o que gosta; não tenta moldar-se a uma realidade objetiva fora dela (o sagrado no rezar, uma outra pessoa no amar), mas procura o que molda-se ao seu gosto. Poderia ter ido ao shopping, mas achou mais divertido descobrir os segredos de Deus e da alma.
Elizabeth Gilbert é o centro do universo. Sim, é um fato: Elizabeth Gilbert é Deus. Não estou exagerando. O filme confirma isso explicitamente com pérolas do tipo “God dwells in me as me” – ou seja, Deus se identifica com Elizabeth Gilbert não enquanto ela é um ser humano, ou uma imagem de Deus, ou uma individualidade ilusoriamente separada de Deus, mas na medida em que ela é Elizabeth Gilbert.
É preciso notar que isso é o exato oposto do que ensina o Hinduísmo ou, para dizer a verdade, todas as religiões. Sim, Atman é Brahman, “Tu és Aquilo”; ou seja, o princípio interno do indivíduo identifica-se com o princípio externo e infinito por trás de todas as aparências de multiplicidade, mas essa identificação se dá exatamente na medida em que o indivíduo não é um indivíduo. Toda a disciplina dos monges e dos yogis visa a se libertar do próprio ego, dos egoísmos que colocam o “eu” no centro, do “eu” que come-reza-ama. É quando rompem com esse ego que se descobrem idênticos ao princípio não-pessoal de todas as coisas e se libertam dos infinitos ciclos de nascimento e renascimento. (Os especialistas em cultura indiana me corrijam se disse alguma grande besteira – você sabe quem você é!).
Nesse sentido, a fé cristã é mais próxima do impulso da Elizabeth do que o Hinduísmo no qual ela (e a própria Julia Roberts, que nas filmagens passou de católica a hindu praticante) foi buscar as respostas às grandes perguntas. Pois o Cristianismo, ao dar importância central ao amor, por isso mesmo afirma a existência do indivíduo realmente distinto de Deus; a união divina, e até mesmo a transformação divina que o Cristianismo prega não é a dissolução do ego no Absoluto, mas a elevação da pessoa a um estado de participação no ser de Deus. A luta contra o egoísmo é a mesma que nas religiões orientais; mas paradoxalmente, quanto mais o indivíduo se liberta do poder dominador do ego auto-idolátrico, mais ele se transforma naquela pessoa individual que ele poderia, e deveria, ser. No caminho hindu, Elizabeth Gilbert teria que abandonar Elizabeth Gilbert, como a gota que se dissolve no oceano. No Cristianismo, ela se tornaria a verdadeira Elizabeth Gilbert, divinizando-se de forma particular e irrepetível, e então ela iria Comer, Rezar e Amar com todo seu ser.
Alguma coisa boa o livro deve ter; não se fica 2 anos no topo dos mais vendidos à toa. Mas esse bem só encontraria seu lugar legítimo no caminho espiritual que ela nem sequer pensou em seguir (Roma é lugar de comer! Quem pensaria que lá também se reza?), e não naquele que ela fingiu, para si mesma, trilhar.
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Algo extraordinário está acontecendo…
Um dos trechos instigantes da República, de Platão, é o final da alegoria da caverna. Nele, o filósofo prevê que o homem que volta à caverna, depois de ter visto a realidade de fora, poderia não ser entendido pelos que continuaram na escuridão. Estes considerariam que não valeria a pena sair da caverna, e talvez até tentassem matar aquele que os procurava libertar das ilusões. Esse ódio contra quem vê além é, infelizmente, recorrente na história da humanidade.
Recentemente, veio-me à cabeça que a previsão de Platão se confirma, no seu essencial, com o que ocorre em relação ao Papa e boa parte dos seus detratores. Detestam-no porque, de algum modo, percebem que ele é intelectualmente superior. Em outras palavras, o que parece incomodar muita gente em Bento XVI é que ele atingiu a sapiência. E justo ele: o homem que está à frente da Igreja Católica; aquele que, quando auxiliar direto de João Paulo II, era acusado de ser uma espécie de buldogue obscurantista da ortodoxia; a pessoa que denunciou a “ditadura do relativismo” (não conheço expressão mais sintética e precisa para caracterizar a nossa época)!
Quando digo que ele alcançou a sapiência, não falo apenas de erudição, mas de algo bem mais sério. Ele entendeu as coisas, é isso. E entendeu-as a fundo. Não basta estudar para alcançar esse estágio, não é suficiente ler o que o espírito humano produziu de melhor, não adianta meditar durante horas buscando uma iluminação… Em certo sentido, abrange isso e muito mais. Principalmente, exige uma vida moral reta, um desprendimento pleno de si mesmo – no fundo, o orgulho é o maior inimigo da verdade dentro de nós –, e uma inteligência profunda, ampla e meticulosa. E sobretudo contar com a ajuda da graça, pela qual é derramado o dom da sabedoria, essa conaturalidade com Deus através da caridade.
Acredito ser muito difícil conseguir juntar todas as qualidades necessárias para ser um autêntico sábio. Aliás, penso que isso pode ficar sem acontecer por gerações. Nos dias de hoje, não conheço outra pessoa que, como ele, possa dissertar sobre os mais variados assuntos com uma maestria, uma simplicidade e uma profundidade desconcertantes. O que se lê dele sempre traz algo surpreendente, um ângulo inesperado, uma clarificação deliciosa. E isso acontece em teologia dogmática, em ética, em filosofia, em literatura, em arte, em política…
A sabedoria de Bento XVI se manifesta na visão de conjunto que esclarece o sentido de cada uma das partes, dando a elas um colorido diferente e uma compreensão mais aguda. A extraordinária amplitude com que esse homem examina os acontecimentos não prejudica, antes aperfeiçoa, a apreensão do detalhe. Ele une primorosamente o generalista com o especialista. É um autêntico pensador, no sentido de que ilumina tudo o que estuda.
O Papa escreveu dezenas de livros e centenas de artigos. No Brasil, foi publicada uma parcela diminuta. Apesar da pequena quantidade, a qualidade é ótima. Introdução ao cristianismo, Edições Loyola, 2006, e Fé, verdade, tolerância, Instituto Raimundo Lúlio, 2007, são livros para ler e reler: valem mais do que milhares de páginas de outros autores que versam sobre os mesmos temas. Depois, Jesus de Nazaré, Editora Planeta, no qual mesmo a tradução deficiente não impede de perceber que ali está algo excepcional, uma obra-prima (em breve virá o segundo volume dessa biografia, aguardado com ansiedade). O diálogo com o jornalista Peter Seewald, recolhido em O sal da terra, Imago, 2005, é surpreendente, inclusive duro em alguns momentos, pela clareza com que examina a situação do mundo e da Igreja.
Ao mesmo tempo que temos os livros, sugiro a leitura dos discursos, homilias e aulas de Bento XVI, frequentemente publicados no site do Vaticano. Acredito que não há nada melhor sendo produzido hoje em dia, ao menos que eu conheça. Os discursos para bispos, para o corpo diplomático, para grupos que o visitam, as aulas em seminários, os diálogos com jovens, sacerdotes, crianças e pensadores, tudo isso é um tonificante intelectual e espiritual de primeira ordem.
Apenas como aperitivo, cito um trecho – um exemplo dentre centenas possíveis – de sua homilia da última Quinta-feira Santa: “A vida verdadeira é que Te conheçam a Ti – Deus – e o teu Enviado, Jesus Cristo. Com surpresa nossa, é-nos dito que vida é conhecimento. Isto significa antes de mais nada: vida é relação. Ninguém recebe a vida de si mesmo e só para si mesmo. Recebemo-la do outro, na relação com o outro. Se é uma relação na verdade e no amor, um dar e receber, a mesma dá plenitude à vida, torna-a bela. (…) Na filosofia grega, já existia a ideia de que o homem pode encontrar uma vida eterna, se se agarrar àquilo que é indestrutível – à verdade que é eterna. Deveria, por assim dizer, encher-se de verdade, para trazer em si a substância da eternidade. Mas, somente se a verdade for Pessoa, é que pode levar-me através da noite da morte”.
O trabalho que Bento XVI está realizando é de importância ímpar. Suas contribuições em relação à liturgia, ao ecumenismo e à preparação da Igreja para o futuro, para não dizer de outros temas, dificilmente podem ser sobreestimadas. Entretanto, as pessoas estão um pouco surdas ao que o Papa vem dizendo em virtude do barulho causado por fatos tristes e lamentáveis, diante dos quais esse gênio alemão agiu sempre de maneira exemplar, firme e sensata, como pouco a pouco vai sendo demonstrado de modo cabal. Todo esse ruído está fazendo com que se perca o fundamental: o que ele está nos indicando, as respostas intelectuais e espirituais que o homem de hoje procura, enfim, a luz que ele conseguiu atingir através da sapiência.
Com candura e gentileza, Bento XVI mostra que as respostas da Modernidade são insuficientes. Ele valoriza o que elas têm de positivo, não é um adversário, e sim alguém que deseja compartilhar com os outros as soluções mais ricas e abrangentes que sabe possuir. Isso humilha os intelectuais, que julgavam o cristianismo uma caveira à espera de ser enterrada e não admitem que nele possa haver tal vigor. E nada irrita tanto quanto mostrar que somos incompletos; preferimos estar rotundamente errados na grandeza, do que estar na mediocridade de quem “não chegou lá”. Por isso, não tenho esperança de que essas censuras injustas terminem tão cedo; se não o conseguirem atacar de uma maneira, descobrirão outra.
Não quero aqui esconder a verdade de algumas censuras a membros da Igreja, inclusive da hierarquia, porque não é disso que se trata. O que desejo ressaltar é que algo maravilhoso está ocorrendo, e as pessoas frequentemente não o percebem. Bento XVI está falando, e de modo sublime. Vale a pena escutá-lo, mesmo que seja para discordar dele; se isso for feito com educação e civilidade, que infelizmente não têm comparecido com a freqüência desejável no atual debate público, um grande bem virá para a inteligência e o coração dos homens.
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Diplomacia e religião
Data do post: 30 de abril de 2010
Neste texto de Nathan Ritchen que, de certa forma, pode ser lido como uma continuação do texto que o Joel postou ontem, tenta provar, com simples palavras, que a liberdade religiosa é a única solução para uma diplomacia mais racional e razoável. Mas, na prática, não é isso o que está acontecendo:
Here is an empirical fact we must all face: the world is far more religious than secular, and to a vast global majority, religion is a realistic way of living in the world [Statistical extrapolations suggest that only 15% of the world’s population is “non-religious” while Christians, Muslims, and Hindus compose 66% of the world’s population. See Johnson and Barrett, 2001.] The United States is itself an overwhelmingly religious nation, as sociologist Peter Berger confirmed with the U.S. Religious Landscape Survey published by the Pew Forum in 2008. Consequently, any new realism must take religion seriously. The U.S. foreign policy bureaucracy, however, does not take religion as seriously as it might; Civil and Foreign Service professionals still exist who regard religion as epiphenomenal, emotive, a source only of conflict, and in the least, irrational. The disconnection between the views of U.S. foreign policymakers and their Arab Muslim counterparts on religious life is an enormous problem.
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Teologia no American Idol
Desde que o movimento da auto-estima ganhou força (impulsionado em grande parte por Nathaniel Branden, ex-pupilo e ex-amante de Ayn Rand – para quem, inclusive, já nos anos 40 e 50, a auto-estima era um conceito importante, embora com um significado muito mais são), julgar e criticar as ações alheias é um pecado gravíssimo. Esse sentimento tem sim alguma origem no “não julgar” bíblico, mas as diferenças são mais profundas que as semelhanças.
A máxima dos evangelhos é antes de tudo um chamado à realidade, que exige, em primeiro lugar, não se deixar levar pelas aparências, mas julgar “com justiça”. Em segundo, não tomar uma ação alheia, por pior que seja, como representação fiel da totalidade do caráter do agente. Isso para criar em todos a consciência de que mesmo no pior dos próximos pode haver um valor desconhecido que o torne superior a quem o julga. A prostituta está mais próxima do céu do que o fariseu. É um alerta contra a tendência quase natural a condenar nos outros o que seria justificado em si mesmo. Julgamentos precipitados podem ferir a sensibilidade de seus alvos, mas não é para preservar o ego alheio que devemos nos abster de julgar; a meta é, antes de tudo, preservar-nos do orgulho, fonte de todos os pecados, e assim fortalecer o amor ao próximo.
Na auto-estima contemporânea, o objetivo é justamente preservar o ego alheio em seu auto-contentamento, por mais distante da realidade que esteja. Essa nova política do “não julgar” permite que cada construa para si sua bolha de ilusões e auto-justificativas sem medo de que seja estourada pelo graveto alheio. (A construção da bolha, contudo, não é um processo especificamente moderno; repete-se em cada indivíduo humano desde que as coisas deram errado num certo Jardim.) Assim, todos podem nutrir a ilusão de serem homens bons, talentosos, honestos, bem intencionados, sem medo de que apontem os defeitos que ignoram ter. Ninguém julga e ninguém é julgado; I’m ok, you’re ok; auto-estimas intactas, o rei desfila nu e todos se prostram em reverência.
Causa alguma surpresa, então, que os programas de maior sucesso da TV, reality shows, tenham o julgamento como elemento central. E mais: arrisco a dizer que a diversão de assisti-los reside exatamente na expectativa dos juízos negativos e da honestidade brutal que será desferida contra o participante indefeso. O ridículo será, finalmente, objeto de riso – a justiça será feita. O que seria do American Idol sem Simon Cowell? (Leitores de hábitos mais educados, perdoem o mergulho no que há de mais vulgar e massificado na cultura pop.) Isso revela algo sobre a constituição moral humana, ou ainda sobre a relação entre homem e Deus? O padre Robert Barron acha que sim.
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Uma luta muito antiga…
Data do post: 14 de março de 2010
Neste post esclarecedor, Richard Fernandez explica e comenta as raízes da luta entre cristãos e muçulmanos que desembocou, por exemplo, no massacre de 500 pessoas que ocorreu na cidade de Jos, na Nigéria, há cerca de uma semana – e que foi tratado com desprezo pela mídia e pela casta política (obviamente, se as vítimas fossem muçulmanas e não cristãs, tenho certeza de que a reação seria diferente).
Fernandez se inspira nas observações do prof. Philip Jenkins, que afirma claramente que o futuro do Cristianismo não se encontra mais no Ocidente secularizado e sim no Terceiro Mundo africano. Vejam só um trecho:
The relationship between Christianity and Islam poses a challenge for at least half of the 20 nations expected to have the world’s largest populations by 2050. By present projections, three of these future mega-states—Nigeria, Ethiopia, and Tanzania—will be almost equally divided between the two faiths. In several others, like the Congo, the Philippines, Russia, and Uganda, predominantly Christian nations will have Muslim minorities of 10 percent or more. Mainly Muslim states will coexist with comparable Christian sub-populations in Indonesia, Egypt, and the Sudan. In all of these places, if relations between the faiths do not improve over the next 40 years, prospects for civil order are terrifying. The world’s roster of failed states would have several new members.
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Nosso desejo de morte favorito
Data do post: 31 de janeiro de 2010
Quer saber qual é a visão-de-mundo que está por trás da Jihad terrorista e do Aquecimento Global? Então leia esta entrevista com Richard Landes, o único scholar que tem coragem de fazer esta conexão, sempre com a lucidez assustadora que lhe é peculiar.
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A voz judaica no debate religião-secularismo
Nas disputas intelectuais entre ateísmo e religião, é incomum ouvir a voz do Judaísmo. Pois aqui está ela: num discurso incisivo, o rabino chefe do Commonwealth britânico lida com as principais questões que confrontam a religião: por que ela sobrevive até hoje, tendo sua morte sido prevista tantas vezes no passado, ao menos desde o século XVIII? Qual o lugar dela nas democracias liberais? E qual deve ser sua postura no futuro?
Homem bem versado na cultura ocidental, e que no passado já foi um estudante de filosofia cético, Jonathan Sacks aponta os paralelos entre a cultura ocidental contemporânea e a cultura grega em seu período de declínio. Políbio comentava no século III a. C., sobre seus conterrâneos: ”O fato é que o povo de Hellas seguiu pelo caminho falso da ostentação, da avareza e da preguiça, e ficaram, portanto, indispostos a se casar, ou, se se casavam, a criar os filhos; a maioria estava apenas disposta a criar um ou dois.” É, algum paralelo há.
No final das contas, argumenta o rabino, só a religião dá significado à vida humana. O mercado, o Estado, a ciência e mesmo a filosofia são incapazes de cumprir esse papel. E o homem anseia por significado. É por isso que, mais de dois séculos depois do Iluminismo, editores da The Economist escrevem um livro notando o fato surpreendente (que também surpreendera Tocqueville em suas viagens à América) que “God is back”.
O Judaísmo sempre foi parte da cultura ocidental, mas uma parte à parte: tem suas peculiaridades e traços distintos da cultura cristã. São esses toques (por exemplo – novamente reproduzindo o que diz Sacks – a teologia, que nunca foi muito dependente da metafísica aristotélica, e que portanto não se sente diretamente abalada quando a teoria da seleção natural questiona a idéia de finalidade na natureza; ou ainda a observação de que, para um rabino, é muito mais difícil pregar para judeus do que para gentios, algo que já ocorrera com os profetas) que dão ao artigo um interesse especial, para além da argumentação central do autor, bem embasada em fontes históricas, lúcida e lógica.
E aqui um pequeno artigo de comentário sobre o discurso, que faz uma boa síntese dele.
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Religião e vida pública
Data do post: 14 de janeiro de 2010
Tiger Woods deu suas escapulidas extra-conjugais. O fato caiu na boca do povo e agora a reprovação midiática é geral. Numa entrevista casual de rádio, perguntado sobre o que Tiger Woods deveria fazer agora, um jornalista sugeriu que ele se convertesse ao Cristianismo para obter o perdão de seus pecados. A celeuma foi geral.
A maioria das pessoas que tem alguma religião concorda que ela é algo importante em suas vidas; frequentemente o mais importante, que dá sentido e rumo à toda existência. Assim, não é algo que possa ser simplesmente ignorado fora da vida íntima. Um católico continua católico, e um budista continua budista, no trabalho, na política e na vida social.
Mas se o membro de cada religião se sentir mortalmente ofendido com as opiniões contrárias daqueles que não partilham de suas crenças e quiserem proibir suas manifestações públicas, o resultado será exatamente o banimento da religião da vida pública. Leiam a análise refinada (ainda que incitada por um debate um tanto ridículo) deste articulista do New York Times.
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Feliz Natal
Data do post: 24 de dezembro de 2009
As aparências podem enganar. O verdadeiro sentido do Natal não é comprar presentes, e nem mesmo celebrar o nascimento do Papai Noel. Quer saber um pouco mais sobre essa festa, oriunda de uma cultura tão estranha à nossa? Leia aqui sobre as origens do velho rechonchudo, em artigo de Alastair Sooke para o Telegraph. E se os seus interesses pendem mais para a arqueologia do que para a história, que tal entrar na busca pelos ossos de S. Nicolau? Agora parece que eles estão na Irlanda.
O nascimento de um menino pobre num estábulo num canto esquecido do Império é comemorado 2010 anos depois; e seus ensinamentos e exemplos, uma religião excluída dentro de uma religião excluída, fundaram uma civilização. Dá o que pensar, e traz à mente as palavras de Sto. Agostinho: se o mundo se converteu sem milagre algum, então este é um milagre ainda maior.
Feliz Natal a todos!
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