IFE - Instituto de Formação e Educação
RSS

Compre o Livro

A lágrima feroz

Filed under: Cinema,Religião incluído por Martim Vasques da Cunha
Data do post: 16 de dezembro de 2011

But Love is not a victory march,

It´s a cold and it´s a broken

Hallelujah

Leonard Cohen

A dor mais insuportável é a do amor não-correspondido. Existem, obviamente, outras dores, como a da doença incurável, a da morte surpreendente, a da perda de um ente querido, a da despedida sem razão – mas elas passam conforme o ritmo do tempo, conforme as lembranças se transformam em lições para as cicatrizes do futuro. Já a dor do amor não-correspondido tem seu impasse peculiar. O tempo não cura suas chagas; a memória não a afaga com a maturidade; ela ecoa pelas épocas e através dos séculos porque, simplesmente, nunca foi consumada em sua forma completa. É uma espécie de maldição que espera um milagre para sua realização definitiva e, enquanto isso, somente será lembrado como um lamento ou, no seu extremo, uma paixão.

Este foi o caso de Jesus de Nazaré, profeta judeu, filho de carpinteiro, amigo de doze pescadores rudes, condenado e crucificado como criminoso, numa morte violenta e estúpida que, sabe-se lá porque, não resistiu de forma alguma. Dois mil e onze anos depois desses fatos, o nome de Jesus ainda é invocado por várias pessoas, em um daqueles enigmas que ninguém tem a coragem de compreender. Ele abençoa, irrita, incomoda, fascina, transforma a vida delas de uma maneira que nenhum outro homem fez. Quando alguém arrisca fazer uma definição precisa sobre quem foi este sujeito, a única coisa que alcança é uma pálida silhueta, uma visão que, se não tomar cuidado, pode envolvê-lo nas sombras se fitar demasiadamente a luz que O envolve.

Estas reflexões me vêm à mente neste momento de Natal e me fazem voltar também à Paixão. O nascimento e a morte de Cristo sempre foram vistos como coisas separadas e isso sempre me pareceu um equívoco. Afinal, como diria São João de Ávila, a madeira da cruz já esta na madeira da manjedoura.

Leia mais…


Comments (9)

Especial 11 de setembro parte 6 – A origem do mal

Filed under: Religião incluído por Joel Pinheiro
Data do post: 10 de setembro de 2011

Crédito da foto: Scott Eaton

O atentado às Torres Gêmeas marcou indelevelmente a memória de quem viveu aquele dia. Cada um lembra onde estava quando soube que o WTC tinha sido atacado. Havia um clima de ansiedade e perda de sustentação; tudo estava em aberto. O trabalho e as aulas pararam. Eu estava no primeiro ano do ensino médio, e voltava para casa mais cedo. Muitos colegas foram ao anfiteatro da escola assistir os noticiários. Não vi, mas fiquei sabendo que se comemorou naquele anfiteatro quando o segundo avião bateu, o que não me surpreende: todos ali eram muito conscientizados.

Aplaudir o ato, ou ver nele qualquer semblante de justiça, é quase obsceno. Creio desnecessário argumentar longamente sobre isso. No fundo até os terroristas o sabiam. Marwan al-Shehhi, um deles, respondera certa vez quando lhe perguntaram por que ele nunca sorria: “Como você pode sorrir quando há pessoas morrendo na Palestina?” Por admissão própria, ele via a morte violenta de pessoas como má. Ao decidir cometer os atentados, os jovens fundamentalistas aceitaram ser um canal, um meio de realização, desse mal. Aceitando-se a lógica consequencialista dos terroristas (que é também aceita por importantes filósofos ocidentais) tudo é potencialmente permitido.

Quando especialistas indagam pelas causas de uma atrocidade como essa, as motivações políticas e religiosas tomam o primeiro plano, mas um importante componente filosófico desses crimes, a ideia de que os fins justificam os meios (lembram-se do que Anders Breivik disse sobre seu crime? “Atroz, mas necessário”), é sempre deixada de lado. Talvez porque nossa cultura já a tenha internalizado de tal forma que ela nem figure mais como uma posição filosófica, e pareça antes um elemento imutável da condição humana. Não se concebe mais a possibilidade daquela inflexibilidade que preferia ver o mundo desmoronar nas mãos dos bárbaros e infiéis do que pecar.

Enfim, aceito sem sombra de dúvida que os terroristas eram maus. Nego, contudo, que a maldade explique seus atos. Uma saudável reação aos determinismos psicológicos, neurológicos, sociológicos tem insistido em que a ação criminosa é uma decisão livre e consciente. E até aí não vejo problema, que só surge quando, dessa razoabilidade inicial, dá-se um passo a mais e afirma-se que, portanto, não se pode falar em nenhuma causa além da livre decisão pessoal, posto que qualquer outra coisa tolheria a autonomia, e assim a responsabilidade moral, do agente. Mas qual o preço de se aderir a essa visão de que o ato mau é uma livre escolha alheia a qualquer causalidade? A maldade se torna ininteligível, uma força que vem não se sabe de onde e sem explicações ou propósito.

Explico-me: em toda ação o agente persegue algo que considera bom. Se não considerasse que o fim de seu ato é bom, não quereria agir. O movimento que não tem causas finais é na melhor das hipóteses um reflexo mecânico, algo que nem chega a configurar uma ação propriamente humana. Portanto buscamos algo que consideramos bons. E não somos nós que decidimos o que consideramos bom. Ao deliberar, escolhemos meios para alcançar um fim que, para essa ação, tem o caráter de um dado imutável. É possível questioná-lo, e compará-lo a outros fins que também são atraentes; essa comparação, todavia, necessariamente se dá à luz de algum fim maior, para os quais esses em consideração são apenas meios. Se não for assim, se a comparação entre os possíveis fins de nossos atos não tiver um critério à luz do qual ser resolvida, então a escolha de um desses fins é um evento fortuito, aleatório do ponto de vista do agente (embora tenha suas causas, vá lá, microfísicas).

Na prática, isso se traduz, por exemplo, em que nenhum homem tem a capacidade ver a dor, a morte, a inimizade, a ignorância como bons em si mesmos. Não está em nosso poder deixar de querer o bem e nem decidir sobre o que é o bem que queremos. Está em nosso poder, contudo, querer o bem de maneira errada, por exemplo subordinando bem maior a um menor, evadindo a consideração racional que mostraria o quanto essa escolha nos distancia daquilo que verdadeiramente procuramos. Isso é o mal. O mal não é uma inclinação contrária a nossa inclinação natural (no sentido de que não a escolhemos), mas sua corrupção. O mal parasita o bem, e toda existência que ele tem é, na verdade, a existência do bem parcialmente mutilado.  Mesmo o aparente desejo do mal pelo mal, o desejo de transgredir a moralidade pelo mero fato de ser proibido, tem algum bem que o anima: a admiração dos colegas, a afirmação da própria autonomia e poder, etc.

Assim, não basta saber que o terrorista “era mau” e dar-se por satisfeito da mesma maneira que se soubéssemos que “era louco” (caso em que não mais esperaríamos alguma explicação plausível, ou mesmo inteligível, para seu ato). Precisamos conhecer de onde veio sua maldade; qual era o bem que foi corrompido. Esse é um exercício que será sempre politicamente incorreto, e não tem como não sê-lo. Pois ao nos perguntar sobre as causas de um ato mau, perguntamos, entre outras coisas, pelas crenças e valores que levam a tal distorção do caráter (ou, ainda, que atraem àqueles cujo caráter já é distorcido), e que são elas também, por consequência, más.

No caso do 11 de setembro, sabemos bem a origem intelectual do crime: o Islã de tipo sunita fundamentalista. Para eles, todas as respostas para a existência humana, tanto individual quanto social, estão perfeitamente dadas pelo Corão e pelas falas documentadas de Maomé. Tudo o que passa disso é, na melhor das hipóteses, distração. É preciso dizer o que isso representa para a ciência? Para a arte? Para a filosofia? Se quem pensa assim ficasse contente com sua escolha de vida, até tentando convencer aos demais por seu exemplo e argumentos, e convivendo em paz com eles, não haveria grandes problemas. O problema é que essa versão do Islã inclui a prescrição sobre como a sociedade deve se organizar, e essa prescrição não é exatamente uma carta de direitos individuais. Uma sociedade na qual mulheres não podem mostrar o rosto em público ou conviver com homens não-aparentados, na qual quem não é muçulmano (e da mesma exata variante) é reprimido de várias maneiras, e na qual o muçulmano que decide deixar sua fé recebe a pena de morte. Mesmo com tudo isso, poderia ser que, apesar da proposta política monstruosa, essa ideologia religiosa fosse consistente e respeitasse os próprios mandamentos, não os violando quando fosse conveniente. Contudo, nem aí encontramos consolo: pois para essa visão de mundo não existe certo e errado cognoscíveis racionalmente. Toda a ética deriva do capricho arbitrário de Deus, que pode inclusive dar a ela quantas exceções e auto-contradições ele quiser. Portanto, muito embora Deus condene o homicídio, se for pela causa de destruir os inimigos da fé, tudo bem.

É possível ter um mínimo de decência e sanidade e não ver nisso algo tenebroso? Como fingir que todas as crenças são iguais, que todas as culturas são boas, se há crenças e culturas que pregam isso?

Mas esse é só o primeiro passo da minha proposta de reflexão: identificar o que há de errado nas concepções dos terroristas, que é praticamente tudo. O segundo é, lembrando novamente que o mau tem causas, perguntar-se acerca do que causa uma crença como essa; ou mais especificamente, o que leva alguém a aderir a essa visão de mundo? Trata-se de um estado de revolta profundo. Não revolta contra a “modernidade” (o que é isso, afinal?), mas contra a razão: contra a capacidade do ser humano de conhecer, agir, convencer e criar, a ser substituída pela imposição da fé cega e da obediência muda, o preço a ser pago para se alcançar alguma paz de espírito em meio ao caos, miséria e injustiça que assolam a existência.

E como não se revoltar contra o mundo ao crescer nas condições de pobreza e, o que é pior, falta de perspectivas e a mediocridade existencial nas quais crescem tantos jovens muçulmanos, seja nos países originais de suas famílias ou nas nações europeias para as quais seus pais imigraram? Sua situação é ruim e o sentimento de revolta contra um estado de coisas aviltante é justo. Só que a causa de sua miséria não é o Ocidente, não são os EUA e nem Israel.

A existência de uma nação na qual impere a razão e os direitos individuais, que é o que os EUA ainda simbolizam (na prática, o são parcialmente) é incompatível com a ideologia islâmica fundamentalista, que sempre os odiará. Mas por que essa ideologia encontra adeptos? É tudo manipulação e mentira dos líderes da militância fundamentalista, ou será que os EUA e Israel dão alguns bons motivos para a revolta que se dirige contra eles?

Se o individualismo e a razão são os responsáveis pela morte dos parentes de um rapaz numa operação do exército americano, ou pela violência expansionista do Estado de Israel, a negação desses valores deve ser uma coisa boa. Preservar o mito de que o mal é inexplicável, ou de que não tenha causas boas, serve à ilusão de que não há nada que os EUA e Israel possam fazer para reduzir o ânimo fundamentalista contra eles. Mas os atos do governo americano no Oriente Médio fornecem largo incentivo para que mais jovens muçulmanos se interessem pelo ideário fundamentalista.

Dar as causas de um ato é muito diferente de atribuir responsabilidade. Quem sai na rua ostentando celular e relógio caros e é roubado não é, de forma nenhuma, culpado pelo crime. Mas é impossível de negar que suas ações incentivaram o crime. Da mesma forma, afirmar que a política desastrada dos EUA no Oriente Médio incentive o ânimo fundamentalista anti-americano não é afirmar que os americanos e israelenses, ou mesmo seus governos, sejam culpados do terrorismo. Além disso, é claro que o caso de Israel é o mais complicado, pois ela luta, ao contrário dos EUA, por sua existência, que deve ser assegurada (e não há dúvidas de que, apesar do uso excessivo da violência, Israel tem a superioridade civilizacional, cultural e moral da região). Ainda assim, não dá para deixar de pensar que, se o governo fosse menos expansivo, atrairia para si muito menos ódio (que é partilhado por quase todos no mundo árabe, mesmo não-muçulmanos).

Desde o 11 de setembro os EUA vêm travando uma longa guerra ao terror e intensificando sua presença no mundo muçulmano. No desmantelamento da Al Qaeda essa operação tem sido bem-sucedida. Mas e no que diz respeito ao fanatismo e ao fundamentalismo islâmico que alimentam o tipo de pensamento dos quais a Al Qaeda é um caso particular? Ainda é cedo para dar um veredito, mas o fundamentalismo parece crescer, especialmente entre os jovens (inclusive entre os jovens imigrantes, menos integrados à cultura europeia que seus pais). Talvez estejamos assistindo os últimos suspiros de um tipo de ideologia que não tem como sobreviver em meio ao mar de informação incensurável que é a Internet. Ou talvez o crescimento e articulação de um novo adversário do Ocidente para as próximas gerações. Seja qual for o caso, a presença do exército americano tem sido sempre um motivo para aumentar o ressentimento das populações locais por seu “salvador” indesejado. Foi assim no Afeganistão, no Iraque (e lembrem-se que na entrada em Bagdá os americanos foram efusivamente saudados pelo povo), e continua sendo.

As revoluções no mundo árabe são um momento crítico. Paralelo ao apreço pela democracia (que pode servir tanto para garantir direitos individuais como para violá-los com o aval da maioria) está o fortalecimento do fundamentalismo sunita (que não é equivalente a terrorismo mas está a um passo dele). Se elas seguirão o caminho de abertura e sanidade com que aparentemente começaram, ou se serão cooptadas pela militância islamista, só o tempo dirá. O mal sempre procurará pretextos para odiar o bem; o melhor que o bem pode fazer é não dar motivos. O terrorismo muçulmano que destruiu o WTC e a “conscientização” marxista que se alegrou ao vê-las cair (ramos de uma mesma árvore intelectual) usam meios nefastos para um fim terrível; mas se originam, em parte, de uma revolta justa contra um mal real.

[CONTINUA AMANHÃ]


Nenhum comentário ainda.  Seja o primeiro a comentar!

O Pastor Ateu

Filed under: Religião,Sociedade incluído por Joel Pinheiro
Data do post: 5 de agosto de 2011

O Reverendo Klaas Hendrikse é pastor da Igreja Protestante Holandesa, mas suas crenças fogem um pouco do comum. Que o eventual leitor cristão não fique chocado por ele negar a ressurreição física de Cristo. Essa posição é das mais conservadoras, até tradicionalistas, dentre as que o pastor defende.

Pois o Rev. Hendrikse é da opinião que não só a ressurreição, mas a própria existência de Jesus Cristo são eventos simbólicos, mitológicos, assim como (na opinião dele) Sócrates ou Dionísio. Filho de Deus? Bem, para isso ter algum sentido Deus teria que ser uma coisa, existir de alguma maneira. E isso já seria ir longe demais no fanatismo. “Deus não é, de maneira alguma, um ser. Deus não é, de maneira alguma, uma coisa.” Aqui os estudantes de teologia tradicional podem até ver uma esperança, um insight apofático e inegavelmente ortodoxo. Para não dar margem a mal-entendidos, o entrevistador da BBC pergunta, perplexo: “O que é Deus?”, ao que o pastor responde: “É uma palavra para experiência, experiência humana.”

Seu livro “Acreditando num Deus Inexistente” provocou ultraje em setores mais tradicionalistas do protestantismo holandês, mas como suas opiniões são bastante difundidas entre outros pensadores da Igreja, o comitê decidiu mantê-lo em seu cargo. De fato, um estudo constatou que 1 em cada 6 clérigos da Igreja Protestante Holandesa é ateu ou agnóstico. Toda essa inovação doutrinal, missionária e até litúrgica (em outra igreja, os fiéis escrevem em placas coisas que impedem que a terra seja o paraíso – câncer, guerra, fome – e as destroem) tem como meta manter a religião relevante para uma população que vive num livre mercado de crenças e procura alguma satisfação espiritual, embora longe dos conceitos ultrapassados de “Deus”, “existência”, “certo” e “errado”, etc.

A quem espera algum tipo de vida eterna, algo que dê esperanças face à inevitabilidade da morte, Rev. Hendrikse já avisa: “Pessoalmente, não tenho talento para acreditar em vida depois da morte.”


Comments (22)

Sobre o “terrorismo cristão”

Filed under: Religião,Sociedade incluído por Joel Pinheiro
Data do post: 27 de julho de 2011

Agora que o consenso dos bem-pensantes já decidiu que Anders Breivik era cristão, neo-liberal e membro do Tea Party, olhemos para o depoimento que ele próprio deixou.

“Se você tem um relacionamento pessoal com Jesus Cristo e Deus, então você é um cristão religioso. Eu e muitos outros como eu não temos necessariamente um relacionamento pessoal com Jesus Cristo e Deus. Acreditamos, contudo, no Cristianismo como uma plataforma cultural, social, moral e de identidade. Isso nos faz cristãos. … A Cristandade européia e a cruz serão o símbolo no qual todo conservador cultural pode se unir em nossa defesa comum. Ele deve servir como o símbolo de união para todos os europeus, sejam eles ateus ou agnósticos.” (pág. 1309 do manifesto)

Ou seja: por admissão própria, Breivik não é um cristão religioso. Bem, o Cristianismo é uma religião. Uma religião que gerou, junto com outras influências, uma cultura e uma civilização a que chamamos de ocidentais. Breivik é “cristão” apenas no sentido de querer preservar essa cultura historicamente ligada ao Cristianismo, mas que não se confunde com ele. Afinal, é possível ser cristão sem ser ocidental: coptas, maronitas e siro-malabares são todos cristãos, mas não são ocidentais. O Cristianismo dessas terras data de antes de existir uma civilização ocidental propriamente dita, à qual sempre correu paralelo. Assim, podemos até dizer que Breivik gosta e adere a um dos frutos do Cristianismo, embora rejeite a árvore (embora mesmo isso seja altamente questionável; pois a ética consequencialista que o criminoso usa para justificar seus atos é justamente uma das coisas que tem servido para destruir o Ocidente).

Mark Juergensmeyer, no Huffington Post, argumenta que, se Breivik não é um terrorista cristão, então Osama Bin Laden não era terrorista islâmico, pois seu foco também era mais político que religioso. Primeiro há que se ver se a relação de Bin Laden com o Islã era meramente cultural e política. Se for o caso, então de fato Bin Laden também não era propriamente um terrorista islâmico. Agora, o mero fato de dar muita importância à política e à história não faz dele, necessariamente, um muçulmano meramente cultural. A adesão sincera a uma religião, principalmente quando essa religião se preocupa com o mundo e com a sociedade, como o Cristianismo e o Islã, não é incompatível com uma forte preocupação política. Bin Laden falava mais de política e história do que de teologia; e daí? Não é preciso ser teólogo para se aderir, profunda e honestamente, a uma religião.

Se Osama era muçulmano, não sei. Sei que Anders Breivik pode até se dizer cristão, e alguns podem até chamá-lo de cristão; só tenhamos em mente que esse “Cristianismo” é, pela própria admissão do terrorista, essencialmente diferente da religião cristã, que condena inequivocamente o massacre de inocentes.


Comments (1)

They´ve decided to fight for it

Filed under: Religião incluído por Martim Vasques da Cunha
Data do post: 22 de julho de 2011

É assim que os ateus e os crentes devem debater pela existência de Deus.


Nenhum comentário ainda.  Seja o primeiro a comentar!

Ritos Finais

Filed under: Religião incluído por Joel Pinheiro
Data do post: 6 de maio de 2011

Talvez seja a proximidade da morte; não sei. Mas o New York Times tem estado surpreendentemente teológico, como bem ilustra este artigo de Ross Douthat, nada mais nada menos que uma defesa do Inferno. “Você realmente acredita que Gandhi esteja no Inferno?” objetam muitos, e com uma boa dose de justiça.  Douthat replica: e por acaso dá para aceitar que Tony Soprano esteja no Céu?


Nenhum comentário ainda.  Seja o primeiro a comentar!

Teologia South Park

Filed under: Religião incluído por Joel Pinheiro
Data do post: 3 de maio de 2011

Matt Stone e Trey Parker, criadores do South Park, acabam de lançar um musical na Broadway; e o alvo de seus ataques – sim, você acertou – é a religião. Mais especificamente a religião Mórmon (convenhamos, um alvo fácil), que representa para eles a religião doutrinária e institucional por excelência. Dois missionários mórmons vão para Uganda, onde têm que lidar com a epidemia de AIDS, senhores da guerra sanguinários, mutilação feminina e mais um monte de atrocidades. A moral da história, que os dois caracterizaram como “uma carta de amor de dois ateus à religião”, não podia ser mais previsível ou menos profunda. Kevin Smith a resumiu aptamente, falando de seu filme Dogma (o qual assisti quando era ateu e nem por isso vi graça alguma), que partilha da mesma mensagem: “Faith good; religion not so good.” Ou seja, a espiritualidade é positiva quando não passa de sentimentos adocicados e um desejo vago de fraternidade universal; quando vira uma religião com crenças específicas, daí é ridícula ou, pior ainda, má.

Muito bonitinho no papel; mas, como bem aponta David Brooks em sua resenha do musical para o New York Times, falso no mundo real. Na prática, os grandes feitos e os atos que fazem a diferença vêm de pessoas com religiões de verdade (doutrinas, dogmas, pecado, inferno; a coisa toda) e não nobres sentimentos filantrópicos.


Nenhum comentário ainda.  Seja o primeiro a comentar!

Servidão voluntária

Filed under: Religião,Sociedade incluído por Joel Pinheiro
Data do post: 11 de abril de 2011

Bem que gostaríamos de culpar o extremismo islâmico até pelo assassino do Realengo. Mas sejamos justos: tudo indica que ele era apenas louco; e para um louco até um filme ou uma música dos Beatles pode servir de pretexto para matar; quanto mais uma religião cuja relação com a violência é ambígua.

O que é um fato inegável é a conversão de europeus ao Islã, ou melhor,  a versões particularmente virulentas do Islã. Quão profundo é o poço de desespero no qual alguém tem que cair para que se sinta atraído a uma religião (que se entenda que me refiro a certo tipo de Islã, e não a todas as suas possíveis variações) que tem a oferecer basicamente duas coisas: um sistema de obrigações sobre as quais não é preciso pensar, apenas obedecer; e um inimigo facilmente identificável a se demonizar (os EUA)? Que o secularismo relativista facilitaria a expansão do Islã (o velho truísmo: you can’t beat something with nothing) era de se esperar; mas que ele próprio forneceria uma massa de niilistas desesperados dispostos a se submeter ao culto da pura irracionalidade e da força bruta é uma constatação surpreendente.

3/4 dos conversos são mulheres. O que se conclui disso? Que talvez elas sejam as mais vitimadas pela ausência de valores e pelo culto hedonista que se tornou a religião semi-oficial da Europa? Seja como for, eu só espero que, para o bem delas, os novos muçulmanos europeus não importem de terras tradicionalmente islâmicas as antigas tradições do assassinato de honra (bem, já estão importando; e sendo justo com o Islã, há muitos muçulmanos que condenam a prática como contrária à sua religião) e da punição física às vítimas de estupro.

Uma nota curiosa: na página do New York Times linkada acima (o último link), o comentário com maior número de recomendações é de um sujeito que iguala o tratamento dado à mulher nas tribos de Bangladesh (onde uma jovem de 14 anos foi morta a chicotadas por ter sido vítima de estupro) ao machismo dos EUA. A isso só se pode dizer: depois não venham reclamar!


Comments (4)

Testemunha de um massacre

Filed under: Geral,História,Religião,Sociedade incluído por Renato Moraes
Data do post: 17 de março de 2011
Immaculée Ilibagiza

Há livros que entram na categoria de testemunhos. Alguns deles são verdadeiramente históricos, e isso pode acontecer por dois motivos. Primeiro, porque o autor foi protagonista dos eventos que narra, sendo estes grandiosos e influentes. Um exemplo evidente dessa subcategoria são as memórias de guerra de Winston Churchill ou de De Gaulle, duas figuras de ação, dotadas, ao menos tempo, de uma sólida bagagem intelectual. Contudo, há muito lixo dentre esses testemunhos de protagonistas, porque são também uma forma fácil de ganhar dinheiro, aproveitando-se da própria popularidade e alimentando-a. Daí que políticos e gente famosa adore entrar nesse tipo de empreitada, como Tony Blair, Obama e Sarah Paulin, estes dois últimos contando dos seus sonhos e projetos. Os resultados são muito díspares, e não vou criticá-los, porque não os li, nem tenho interesse em fazê-lo. De fato, é preciso ser criterioso para encontrar aquilo que realmente ajuda e não é um mero panfleto datado.

O outro motivo para um relato desses ser histórico é que os autores, mesmo sendo gente então anônima e sem participação direta nas grandes decisões, possuem qualidades humanas extraordinárias, além de conseguirem descrever com talento e honestidade o que vivenciaram. Para mim, um dos mais importantes livros do século passado é Em busca de sentido – um psicólogo no campo de concentração, de Viktor Frankl, que entra exatamente nesta classe. Juntamos aí um homem brilhante, com enorme sensibilidade e talento literário, sincero e profundo, observando e descrevendo a vida em um campo de concentração durante o holocausto. O resultado não defrauda: é uma obra impactante, enriquecedora, que nos torna mais humanos e, se o permitimos, mais sábios. Acredito que esse livro deveria ser distribuído por todos os lugares, em cópias populares; é uma pena que não tenha a divulgação que merece.

Pois é exatamente com uma citação de Viktor Frankl que se inicia outro livro que incluo nessa mesma categoria: Sobrevivi para contar, de Immaculée Ilibagiza. São as lembranças de uma jovem de vinte e quatro anos, sobrevivente do genocídio de Ruanda, em 1994. Essa moça passou três meses em um banheiro, de aproximadamente 1,20 m2, junto com outras seis mulheres, enquanto o inferno acontecia à sua volta. Nada menos do que um milhão de membros da etnia tutsi foram massacrados em um par de meses. Ela esteve várias vezes a um passo da morte, com as milícias hutus procurando-a incansavelmente e revistando minuciosamente a casa em que ela se encontrava. Um armário diante da porta do esconderijo serviu para despistar os assassinos, o que ela atribui a uma intervenção da Providência.

Não quero adiantar história do livro. Apenas desejo comentar que ler sobre essas situações limite leva a ponderar a própria vida e a enxergar o mundo de uma maneira diferente. A selvageria humana, quando libertada dos seus freios, é algo assustador, que se repete com frequência em lugares e tempos díspares. Amigos e vizinhos, que a recebiam em suas casas, querem três dias depois – literalmente – esquartejá-la. A propaganda falsa e a instilação do ódio possuem uma eficácia diabólica. As centenas de milhares de cadáveres são o mais visível de uma tragédia como essa, e podem fazer com que duvidemos do homem e mesmo de Deus.

Contudo, para mim, esses eventos são uma das melhores provas de que Deus existe e o ser humano tem valor. Porque neles sempre aparecem respostas excepcionais, que dignificam a nossa espécie. A reação de Immaculée é impressionante, e culmina com o perdão aos assassinos da sua mãe e de seu irmão. A evolução espiritual dessa mulher, acontecida em um minúsculo banheiro, no qual ela passava os dias e noites em silêncio, apenas rezando e meditando, mostra que o mais importante é o que passa no interior do ser humano, e que suas ações decorrem disso. Quanto a Deus, se ele não estivesse presente, qual o sentido do sofrimento daquela gente? Interessante que Voltaire, em seu confortável escritório em alguma cidade europeia, escreva palavras indignadas contra Deus devido ao terremoto de Lisboa, enquanto os portugueses, que sofreram na pele o desastre, tenho certeza que rezavam e pediam ajuda à divindade.

A mesma lição traz a ruandesa. Seu testemunho está salpicado de relatos miraculosos, sobre os quais se pode ou não acreditar. O indubitável é a fortaleza de Immaculée, que ela afirma, uma vez e outra, tirar da oração. Lendo o que ela escreveu, é difícil deixar de lhe dar um voto de confiança. Sem alçar os voos psicológicos e mesmo literários de Frankl, ela foi capaz de legar um testemunho tão sincero e poderoso quanto o do psiquiatra judeu. Isso não é pouco! Conhecer a tragédia que se abateu sobre o povo ruandês, e a maneira como essa jovem superou-a, é uma lição valiosa.


Comments (1)

Islã na Encruzilhada dos valores

Filed under: Religião,Sociedade incluído por Joel Pinheiro
Data do post: 1 de fevereiro de 2011

Talvez seja cedo para dizer, mas tudo indica que as atuais revoltas populares no mundo islâmico terão impacto duradouro. Por décadas ditadores permaneceram no poder sem grande contestação, e agora nenhum deles sente-se seguro. É possível que haja alguma conspiração por trás dessas revoltas; mas pela primeira vez na história não é necessário, como bem argumenta Gary North. As redes sociais, devido a seu baixíssimo custo de entrada, permitem a publicação dos sentimentos e a articulação de movimentos de massa sem organização central.  Ela também diminui muito a possibilidade de reação do governo. Se em décadas passadas um regime autocrático não hesitaria em abrir fogo contra os manifestantes, seguros de que poucos fora dali ficariam sabendo, hoje é uma questão de minutos entre o disparo de uma bala e a transmissão da morte de um civil a milhões de computadores.

A grande questão é o que sairá desses movimentos. Há fortes traços islamistas, o que não impede que cristãos tomem parte (apesar das sempre cautelosas palavras do papa Shenouda III pedindo oração e não-participação; o momento é extremamente delicado). Islamismo não necessariamente significa algo pior ou mais odioso do que o que está no poder agora. É um fato curioso: governos seculares de países islâmicos incentivam a propagação do salafismo wahhabita importado da Arábia Saudita, pois ele nada tem a dizer de política, e portanto apresenta menos perigo imediato ao governo do que islamismos menos fundamentalistas mas mais politizados.

Rashid Ghannouchi, que voltou à Tunísia depois de anos exilado, defende governo secular, direitos das mulheres e poder aos sindicatos. Sua mensagem, embora sempre baseada no Corão, é essencialmente a mensagem de um movimento social por direitos humanos, sem nada do fanatismo de uma Al Qaeda. No próprio Egito, pouco antes dos ataques, foi publicado o “Documento de Renovação do Islã” assinado por diversos intelectuais; seu conteúdo é surpreendentemente moderno. Jihad, por exemplo, só defensiva e em terras islâmicas; convivência entre homens e mulheres aceita em universidades e ambientes de trabalho. Pode parecer pouco, mas se trata de um país onde, devido à influência saudita, o próprio convívio social entre os sexos ia sendo proibido, e no qual as mulheres são constrangidas a usar roupas cada vez mais “modestas”.

A principal característica do Islã saudita é a preocupação exclusiva com a adesão exterior a preceitos legais; todo homem deve ter barba e usar túnica, toda mulher deve estar completamente coberta, todo intercâmbio social entre os sexos é proibido, não se pode ter conta em banco, etc. Recentemente uma mulher perguntou a um doutor da lei em seu programa de rádio o que ela deveria fazer agora que as circunstâncias a obrigavam a trabalhar no mesmo recinto que um homem. O doutor sugeriu que ela amamentasse o colega. Sim, você leu isso mesmo: que ela desse de mamar a ele do próprio peito, e dessa forma seriam como mãe e filho, e portanto livres do risco da fornicação.  No limite, o legalismo viola o espírito de suas próprias leis. A reação pública foi geral. A mesma reação que está por trás do documento dos intelectuais e das revoltas populares.

O discurso salafista (do qual o wahhabismo é uma vertente) de se manter fiel às práticas das primeiras gerações parece perder legitimidade entre o povo (ufa! Resta algum bom senso!). O documento dos intelectuais também adota o discurso de se preservar os valores originais do Islã. Só que, para eles, os valores não são a barba e o niqab, e sim “liberdade, igualdade, conhecimento, justiça e ciência”. Se isso tudo estava de fato na origem do Islã eu não sei; mas é bom que os intelectuais advoguem tais coisas.

Ao mesmo tempo em que as revoltas nos dão motivos para ter esperança, elas também trazem algo de preocupante. É o medo de dizer abertamente o que está em jogo, de apontar o verdadeiro valor a ser defendido, que acaba tomando segundo plano para uma outra bandeira que é necessariamente secundária: a democracia. Colocar a esperança na democracia enquanto tal é ingênuo. Ahmadinejad foi eleito democraticamente; seria ele muito melhor que Mubarak? Democracia é uma forma de se organizar o funcionamento da política; ela não traz consigo nenhum conteúdo; será o que a maioria quiser. E se a maioria quiser uma teocracia islâmica na qual cristãos e judeus pagam impostos extras e membros de outras religiões são expulsos ou mortos, é o que terão, democraticamente. O ponto fundamental, o valor que a democracia supostamente defende melhor do que outras formas de governo e por isso deve ser preferida, é o respeito aos direitos individuais. Sem isso, não há governo justo e não há esperança de melhora.  Há algo de angustiante em um intelectual cristão animado com o prospecto de democracia no Egito (num dos artigos acima citados), sob a qual a minoria cristã (entre 5% e 10%) poderia ser representada. Mas minoria no governo não significa nada; nem uma maioria significa se não há comprometimento do Estado em fazer valer os direitos individuais, como o Líbano tem mostrado claramente. A bandeira tem que ser os direitos individuais; não a democracia e não o direito das religiões ou das minorias; pois aglomerados não têm direitos, e é perfeitamente possível representar uma minoria oficialmente no governo e ainda assim tratar muitos de seus membros como cidadãos de segunda classe (por exemplo, impondo infinitas restrições à sua fé, como ocorre na Turquia, onde é praticamente impossível conseguir permissão para coisas como consertar o telhado de uma igreja), deixando os representantes oficiais da minoria a choramingar por uma tolerância cada vez menos respeitada. O que realmente importa é o direito individual, que inclui o direito a aderir à religião que lhe parecer verdadeira (e cujo corolário é, portanto, o direito a mudar de religião sem qualquer sanção), até mesmo se ela não constituir uma minoria significativa.

Os direitos individuais são a pedra de toque para saber se uma convivência minimamente harmônica entre Ocidente e Islã é possível. O que distingue o Ocidente das demais civilizações é sua base espiritual, que se concretiza em posições filosóficas: a afirmação da razão humana como eficaz para conhecer a realidade e, como consequência disso, a descoberta de uma moral objetiva. Um dos maiores méritos de S. Tomás de Aquino é exatamente esse: a elaboração racional da ética sem necessidade de fé e não circunscrita a um “povo eleito”. Nossos direitos universais inalienáveis são descendentes diretos da lei natural de S. Tomás. É muito significativo que, nos séculos XVI e XVII, enquanto a Espanha expandia seu império e escravizava povos inteiros, os teólogos de Salamanca afirmassem que os índios tinham direito às suas terras e liberdade, que nada justificava o roubo de suas posses e sua escravização, nem mesmo a recusa em se converter ao Cristianismo. Parece pouco, dado que os crimes ocorreram sem grandes empecilhos práticos? É verdade, ocorreram; mas ninguém duvidava seriamente de que eram crimes, ou seja, violações de uma ordem moral objetiva. No campo do espírito Salamanca venceu, e isso fez toda a diferença.

As grandes conquistas do Ocidente decorrem da afirmação da eficácia da razão humana no plano teórico e dos direitos individuais no plano prático. A ciência, a arte, a riqueza são consequências disso. Os muçulmanos não têm nenhum pudor em se apropriar da tecnologia ocidental (embora incapazes de contribuir eles próprios com ela) e de certas filosofias ocidentais. Marxismo, relativismo, desconstrucionismo; de fato, todas vieram do Ocidente; mas o que as caracteriza é justamente a negação daquilo que nos constitui. A razão humana é incapaz de conhecer o mundo real, e o discurso moral e político não passa de máscara para jogos de poder. Elas caem como uma luva para uma visão de mundo fideísta como é a do Islã convencional (e isso vem de muitos séculos): a razão é impotente, portanto tudo é questão de fé, e portanto ninguém tem como criticar minha fé. Não há certo e errado objetivos, apenas vontades arbitrárias em conflito; portanto, entreguemo-nos à vontade arbitrária de Deus; e ninguém pode questionar as minhas práticas. Como evidência deste casamento funesto apresento este artigo de opinião pós-moderno da Al Jazeera.

A grande questão nas atuais manifestações é se os muçulmanos serão capazes de aceitar (e eu acredito que serão, pois o bom senso natural do homem está do nosso lado) o nosso verdadeiro patrimônio, a idéia de direitos individuais válidos para todo e qualquer homem, que é o que permite que a democracia não degenere na mera vontade tirânica da maioria. A outra possibilidade é bem representada pela queima de uma efígie de Mubarak com a estrela de Davi desenhada no rosto. E daí teremos mais do mesmo: nações pobres espiritual e materialmente por restrições irracionais auto-impostas, violando a dignidade de seus próprios cidadãos e atribuindo suas mazelas a terceiros que não têm nada a ver. Importa se isso ocorre democrática ou ditatorialmente?


Comments (12)

Posts Antigos »