There is no such thing as an online saint
Data do post: 3 de março de 2013
Extrato de um processo de beatificação extinto sem julgamento de mérito em 2023 A.D —
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Beatificatio ser. D. Caius “El Catolico” Domingus [...]
ANIMADVERSIONES R. P. PROMOTOR FIDEI
super dubio an constet de virtutibus de quo agitur?
349. …frequentabat retes sociales…
473. …melus perductorium… conversationes catholicae… confusio maxima [...] virtutes… propagand@ fidei virtualis…
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Causa de beatificação de Caio “O Católico” Domingo [...]
COMENTÁRIOS DO PROMOTOR DA FÉ
sobre se é lícito falar em virtudes [na sua ação]
349. …frequentava as redes sociais…
473. …o motivo que coordenava a sua vida… eram as conversas católicas… e a confusão entre virtudes… e propagand@ da fé virtual…
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Adaptei a passagem acima de um processo real, das coisas mais empoladas que já li em latim, mas na qual se pode substituir apenas “redes sociais” por “congregações”. O promotor não conseguia entender como o processo veio parar em sua mesa, mas compreendia por que a minuta de positio super virtutum tinha apenas 2 páginas e muitas piadas internas.
Sugiro trocar esse tipo de passatempo degradante por algo intelectualmente produtivo.
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AND NOW FOR SOMETHING COMPL
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O legado de Bento XVI

Não sei o que dizer sobre a abdicação de Bento XVI, por isso decidi escrever um texto a respeito. Quanto aos motivos da renúncia, sem dúvida o que o papa disse é verdade: ele está fraco para os fardos que o ofício exige. Entre esses fardos, deve figurar a intensa oposição que enfrenta dentro da própria Igreja.
A grande mídia, como de costume, foi muito injusta com o papa, selecionando apenas aqueles pontos de seu pontificado que reforçam, para quem olha de longe, a imagem de um retrógrado altamente reacionário a vociferar contra um mundo liberal que deseja apenas ser feliz. Olha só os “pontos principais” do pontificado selecionados pelo G1: “O papado do conservador alemão foi marcado por algumas crises, com várias denúncias de abuso sexual de crianças e adolescentes e acobertamento por parte do clero católico em vários países, que abalou a igreja, por um discurso que desagradou aos muçulmanos e também por um escândalo envolvendo o vazamento de documentos privados por intermédio de seu mordomo pessoal, o chamado ‘VatiLeaks’, que revelou os bastidores da luta interna pelo poder na Santa Sé.”
Faltou dizer: o abuso sexual sistemático – que acometeu igualmente a diversas instituições, não só religiosas (o ensino público americano, por exemplo, foi palco da mesma exata dinâmica perversa) – é um problema de décadas, bem como seu acobertamento. E Bento XVI foi, tudo considerado, alguém que se portou de forma exemplar, com tolerância zero para com abusos e sem conivências vergonhosas para salvar “a imagem” da Igreja. É uma crise, mas não começou no pontificado dele e nem consta que a postura dele tenha deixado a desejar.
O discurso que “desagradou aos muçulmanos” é um enorme não evento, a não ser por seu valor filosófico e histórico, que era muito bom. A revolta muçulmana foi comparável a de charges de jornal com Maomé. E de todo o modo, se irritar alguns muçulmanos fanáticos for uma falha, é, se tanto, de relações públicas, e não de substância.
O Vatileaks de fato marcou o fim do papado, mas novamente ele não evidenciou nada que desabone ao papa, e como até hoje o vazamento das cartas em si tem recebido muito mais destaque do que o conteúdo de qualquer uma delas, é bem provável que o “escândalo” caia no esquecimento em breve.
Para mim, o pontificado de Bento XVI teve outros pontos memoráveis. A ênfase no aprimoramento da liturgia, que incluiu a liberação do rito antigo e o maior cuidado com a celebração do rito novo. A jornada mundial da juventude na Espanha, em 2011, que reuniu 2 milhões de pessoas. O ordinariato para a inclusão dos anglicanos à plena comunhão com a Igreja católica. As medidas para tornar públicas e transparentes as finanças do Vaticano. A criação do “átrio dos gentios”, uma inciativa que visa a estreitar os diálogos entre intelectuais e cientistas católicos e agnósticos/ateus. Por fim, as encíclicas e demais textos e falas de Bento XVI, que revelam inteligência e erudição e apontam para a possibilidade de se ser ortodoxo e, ainda assim, intelectualmente vivo.
Assim, acho curioso que vejam Bento XVI como um conservador terrível. Alguns falam até em um papa nazista, isso sim uma mentira pura e simples. Ratzinger, de família antinazista, tendo perdido um primo com síndrome de Down para as políticas genocidas de Hitler, foi forçado a se juntar à juventude nazista, e nem mesmo comparecia às reuniões mandatórias, sendo nisso ajudado por um professor benevolente que falsificava a lista de presença em seu favor. Claro, ele poderia ter se negado abertamente a participar e ser mandado para a morte em algum campo de concentração, como alguns de fato fizeram. Mas levantar tal falta de um heroísmo belo, embora quixotesco, contra um adolescente de 15 anos (!) me parece fora de propósito, se não hipócrita. Por fim, próximo ao fim da guerra, sem ter lutado diretamente, desertou o exército.
O mito do nazismo é um golpe de mídia. Mas e o conservadorismo empedernido? Uma coisa podemos afirmar: Bento XVI acredita na doutrina oficial da Igreja tal qual ensinada no Catecismo. Quem olha de fora talvez não perceba o tamanho da revolução que seria mudar algo aparentemente inócuo: passar a aceitar, por exemplo, a licitude moral da pílula anticoncepcional. Pelo ensino oficial atual, isso é algo que nem o papa pode mudar, dado que a lei moral não é determinada pela vontade humana e que papas anteriores já se pronunciaram definitivamente a respeito. O que não quer dizer que o ponto não devesse ser discutido com muito mais honestidade e abertura…
Enfim, no campo das doutrinas, especialmente morais, Bento XVI foi (e será ainda por duas semanas) um papa ortodoxo e que segue e reflete o ensinamento que chegou até ele. Um ensinamento que, se por vezes é inflexível para com certos atos, é também – ou tenta ser, dentro de suas restrições – receptivo a todos. A condenação aos “atos homossexuais” e aos casais de segunda união vem sempre aliada à compaixão para com eles e à afirmação de que todos, héteros e homos, divorciados ou não, são igualmente pecadores. Por mais que se questione ou discorde da postura da Igreja quanto à homossexualidade, ela não é homofóbica; pelo contrário, condena as tentativas de se humilhar ou hostilizar os homossexuais.
Em outros campos, Bento XVI é extremamente aberto: em sua relação com outras religiões e, especialmente, com outros grupos e igrejas cristãs, como protestantes e ortodoxos. Vejam o que o Patriarca de Constantinopla disse sobre a abdicação: “Rezamos para que o Senhor manifeste um sucessor digno para a Igreja irmã de Roma, e que possamos com ele continuar nossa jornada em comum pela unidade de todos rumo a glória de Deus”. Uma tal afirmação vinda da autoridade honorífica da Igreja ortodoxa representa um progresso ecumênico formidável. O mesmo se dá para com o diálogo de pessoas da Igreja com intelectuais seculares, ateus e agnósticos. Bento XVI não foi, de forma alguma, um papa ranzinza e fechado para o mundo. A acusação de conservadorismo obscurantista tem muito mais de sensacionalismo do que de justiça.
A injustiça midiática, contudo, foi ajudada pelas falhas de relações públicas e de procedimento do próprio Vaticano. Ninguém lá percebe que, em meio ao aparecimento generalizado de casos de abuso sexual infantil, posar de mestra moral do mundo e condenar a camisinha e a homossexualidade pega um pouco mal? E pega mal com razão. A Igreja é muito ciosa de sua existência como pessoa jurídica, como a instituição impessoal, com hierarquias e regras claras e que, por isso mesmo, pode emitir doutrinas “vindas do céu”, e não pensadas por indivíduos concretos ao longo da história. Sendo assim, o papa, como líder e representante máximo da instituição, tem o dever de responder pelos atos de seus membros e que foram permitidos e agravados pela dinâmica interna de autopreservação institucional. Bento XVI se esforçou para cumprir esse dever (com algumas lacunas, como a omissão de encontro a vítimas no México, terra dos Legionários de Cristo), mas ao mesmo tempo não viu incoerência em adotar discursos moralistas em outros contextos, quando talvez o mundo precisasse de um exemplo de humildade.
O papa, os cardeais próximos a ele e seus funcionários vivem em um mundo à parte, sem a menor ideia de que a reverência e o servilismo que vigora em seu meio não reflete o que a população normal, mesmo católica, está disposta a aceitar. Estão acostumados a tomar decisões sem nenhum diálogo, ou, o que é até pior, apenas com a aparência de diálogo. Nos últimos anos, muitas vozes de dissenso receberam um “cala a boca” do Vaticano, algumas simplesmente perdendo toda a base de sua existência. A um longo e omisso silêncio segue-se um ato canônico definitivo e implacável como raio em céu azul (algo similar, penso, ao infeliz episódio de escolha da reitoria da PUC-SP). O conflito que se anuncia com um enorme grupo de freiras americanas, se o Vaticano endurecer o jogo, é sério; e o mesmo vale para um grande grupo de padres austríacos. Se a faísca for lançada, sabe-se lá que outros grupos contribuirão para o incêndio. Será preciso muita energia e capacidade de dialogar para impedir esse desastre.
Conheço mais de uma pessoa cuja conversão ao Catolicismo se deu, em parte, pela influência do pensamento de Bento XVI. Lembro também que compareci a uma audiência pública dele em Roma no início de 2006, acompanhado de agnósticos que, embora sem nenhuma inclinação a se converter, ficaram bem impressionados com sua erudição e profundidade (a esse respeito, recomendo as considerações de Marcelo Coelho a seu respeito).
Talvez seja a produção intelectual o maior legado de Bento XVI. Se sua administração não foi marcada pela capacidade do diálogo interno, preferindo o silenciamento e as sanções institucionais, ele próprio é extremamente afeito à troca de perspectivas e a consideração aprofundada das questões com que se depara. Mesmo que para discordar (como discordo da proposta da ONU como uma espécie de governo mundial feita na encíclica Caritas in Veritate – na questão política, é interessante notar como João Paulo II era mais afeito ao empreendedorismo e à livre iniciativa em geral), elas nos mostram uma mente profunda, erudita e equilibrada (quem, no mundo não católico, esperaria um papa que cita Marx?). Mas, mais importante do que isso, iluminada pelas chamadas virtudes teologais: pela fé convicta na revelação de Deus ao mundo, pela esperança de que todos possam encontrar a redenção, e pela caridade que busca levar todos à luz de Cristo. Virtudes que, sem dúvida, ele continuará a exercer mesmo destituído do cargo de uma instituição jurídica que, embora de certa maneira indispensável, é também um obstáculo a seu exercício.
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Hipocrisia pornográfica
Os homens de espírito costumam dizer o contrário do que repetimos sem perceber.
W. H. Auden recebia muitos poetas iniciantes. Imediatamente lhes perguntava o que queriam com a sua poesia. Aqueles que diziam escrever porque teriam algo de muito importante a dizer eram desencorajados e mandados para casa, com péssimo humor. Aqueles que declaravam que apenas gostavam do som das palavras, dizia ele, tinham esperança. O mesmo dizia o metafísico Stephen Yablo em uma entrevista recente. A mera declaração de que a filosofia trata de questões importantes arruína o tom do ofício. “Brincar com ideias” constitui, em vez disso, a verdadeira atividade filosófica. (E, podemos imaginar, diz-se dessa forma despretensiosa as coisas importantes.)
Exageros à parte, essa intratabilidade dos gênios parece dizer algo sobre o perigo de declarar-se X ou Y.
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Nesse sentido, um tema sociológico difícil, mas de muito interesse, é o da projeção exterior e discursiva de ideais de vida.
Vamos decodificar já o que isso significa. Minha intenção é investigar a possibilidade de uma pessoa escapar, com proveito para as próprias virtudes, de toda projeção própria e alheia sobre o seu plano vital. Para isso, trabalharemos com um exemplo.
Suponha que José se identifique com o budismo. Imagine, no entanto, que esse processo de identificação tenha sido lento e quase imperceptível: nenhum dos amigos ou familiares de José o notaram, e em nenhum momento a conversão foi anunciada. Todos estes ignoram, em consequência, a sua afiliação espiritual. Mas suponha também que Heitor julgue identificar-se com o budismo. Heitor, contudo, fez questão de deixá-lo claro a todos os que o rodeiam de que é budista: seu perfil nas redes sociais, livros que carrega para todos os destinos, longas conversas e até um proselitismo, tudo concorre para que o seu título se evidencie.
A minha pergunta é:
(1) excluídos outros aspectos e considerações, quem está mais perto do ideal budista — José ou Heitor?
Trato aqui o predicado ‘budista’ como um ideal de vida, nos termos da nossa expressão central. Para cada ação de José/Heitor considerada, tão mais budista é essa ação quanto mais ela se aproxima do ideal de vida correspondente. Instâncias de aproximação desse ideal seriam e. g. meditar diariamente, manter o silêncio, dizer a verdade, ter compaixão efetiva por todos os seres, disciplinar cada movimento anímico e físico com senso de proporção e exatidão. Cada vez que José/Heitor medita corretamente, José/Heitor se aproxima do ideal. E assim por diante.
Percebam que não é minha intenção falar do budismo, mas sim de qualquer ideal de vida. Ser mais concreto é apenas uma exigência conatural às circunstâncias da exposição.
A pergunta (1) não é fácil de ser respondida. Não sabemos quem pratica melhor o budismo. Não encontramos nenhuma premissa explícita nesse sentido em nosso caso concreto. Sabemos apenas que José é discreto (sua afiliação espiritual é desconhecida de todos) e Heitor verbalizou e publicou a sua adesão. Sabemos implicitamente que a discrição de José é uma virtude aos olhos do ideal budista, e que a verbosidade pode ser um vício, a publicidade uma ocasião de vaidade e, portanto, de aprisionamento e sofrimento (um eco civil de samsara); mas com a pergunta (1) procurei desvincular qualquer consideração desse tipo.
Se a pergunta fosse:
(2) do ponto de vista de uma das virtudes humanas, a discrição, quem vive melhor o budismo, José ou Heitor?
Creio que a resposta seria fácil. O favorecido seria José. Tanto a verbosidade ou loquacidade quanto a ampla publicidade são prejudiciais ao desenvolvimento espiritual, dirão muitos; e é difícil refutar essa posição em qualquer tradição espiritual. Mesmo o “ateu discreto” (que pode ser, inclusive necessariamente, uma intersecção com o budista) é simpliciter superior, idealmente, ao ateu loquaz. A discrição é religiosamente indiferente, como toda virtude humana.
Na verdade, surpreendentemente a resposta a (2) nos dá uma pista para nossa resposta a (1). As considerações anteriores nos levam a sugerir que a discrição é uma virtude humana fundamental, e que portanto vale para qualquer adesão. Eu creio que isso seja verdade. Mas não pretendo utilizar essa premissa.
Nosso objeto material aqui é, como é fácil perceber, a projeção exterior e discursiva de um ideal de vida. José evita-a a todo custo, enquanto Heitor a exercita em todas as circunstâncias.
Heitor diz: “sou budista”. Como a vinculação foi feita como uma declaração, do ponto de vista da projeção exterior e discursiva, Heitor é ipso facto um budista independentemente de como leva a sua vida. Exteriormente, o budismo se resume a uma declaração. Essa declaração é feita a si mesmo e, em seguida, à sociedade, em todos os compartimentos frequentados pelo declarante. A repetição leva à associação de terceiro a terceiro diante do declarante: “Este é o Heitor, que é budista”. O mesmo passa a acontecer na ausência de Heitor: “ontem conheci um budista chamado Heitor” (projeção transitiva). E Heitor diz a si mesmo, com prazer: “sou budista”, fechando o ciclo como o iniciou, com uma projeção reflexiva.
Essa projeção cria uma imagem independente da ação de Heitor. Como o budismo assume a intenção e a exterioridade apenas material (que essencialmente dispensa a declaração), e não a declaração, essa imagem está em disjunção com o plano da ação. Se estive ontem com Heitor o dia todo e reparei que Heitor não meditou, posso pensar por um momento que Heitor é um budista relapso. Mas de modo algum deixarei de dizer: “Ontem encontrei Heitor, que me falou sobre o dharma” ou “Heitor vendeu-me esse troço bizarro de fazer oração”. Tudo o que reenvia Heitor ao budismo não escapa à esfera da declaração.
O que dizer de José diante do critério da projeção exterior e discursiva? Um conjunto vazio. José nunca me disse que é budista. Isso pode dificultar o meu entendimento sobre as suas ações (vi-o ontem entrando num quarto e saindo apenas depois de quarenta minutos, e não faço ideia do que ele foi fazer), mas a pergunta sobre o budismo de José não se coloca. Eu posso espontaneamente avaliar se José é compassivo, sincero, firme, corajoso, viril, sem qualquer associação com o budismo; posso inclusive dizer que José me lembra a descrição de um bodhisattva que li numa obra do cânone na língua Pali, o sutra Ariyapariyesana, provavelmente o mais antigo dos relatos sobre a iluminação de Sidarta: o de um sábio que atingiu a iluminação. Mas em nenhum momento poderei dizer com certeza que José é budista. Julgo-o apenas pelas suas ações, e não pela sua adscrição a um ideal declarado. José corre todos os riscos — menos o de ser visto como um falso, ou mau budista. Risco que, como vimos, Heitor corre a todo momento.
Mas o maior risco que José evita é o escândalo. Vendo Heitor passar o dia longe da meditação ou, pior, chutando cachorros, gritando, trapaceando no jogo ou cortando a cabeça do Buda, pensarei — mesmo errando — que o budismo é um péssimo estímulo ao bom comportamento. Ou que todo budista é um hipócrita, se conheço apenas Heitor. Se José age dessa forma pouco exemplar, toda a censura se dirigirá a José; o budismo, ou qualquer outro ideal de vida, será salvo do escândalo.
Duas coisas ficam evidentes, pelo caso concreto examinado:
(3) a declaração, que cria a projeção exterior e discursiva, aumenta estrondosamente o risco de escândalo e corrupção social. Tudo que se associa ao budismo, diante do comportamento pouco exemplar de Heitor, ficará contaminado. E se o budismo faz parte das esferas de coesão social, isso é uma catástrofe;
(4) a estratégia de José e de Heitor são incomuns, constituindo dois extremos.
O risco de catástrofe que envolve a via de Heitor, apesar de extrema, indica um comportamento a evitar com todas as forças. O ideal dos ideais, em termos procedimentais, é a opção de José. Embora, caso descontextualizada, essa atitude beire o secretismo, a sua adoção cum grano salis é recomendável por todas as versões da ética de virtudes. É bastante provável que a atitude imprudente de Heitor corresponda a um desestímulo ‘evolutivo’, e que em escala macroscópica o beato esteja sempre destinado a — felizmente — desaparecer. Por isso todo manual de sabedoria, em todas as tradições, contém a recomendação forte, que atua como pressuposto da prudência: “Sê discreto”.
A história parece confirmar essa análise horizontal. Toda sociedade que se tornou pornograficamente hipócrita ou carola* afundou em poucas décadas.
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* Uso “carola” em sentido amplo (Caldas Aulete: “Lus.: Fanático, apaixonado por uma ideia, sistema ou religião”). Heitor é um exemplo teórico de carola total ou omnibeato: um indivíduo que vive do seu título de budista, liberal, ateu, defensor dos valores tradicionais, hippie, gay, direitista, ou qualquer ideal de vida que se imagine, corrompendo toda tentativa autêntica do seus pares autônomos de associar algum aspecto positivo, vital, à sua projeção. O carola total surgiu no seio do cristianismo, e é a versão efeminada e kitsch do censor romano. Mas a figura já não é mais monopólio cristão.
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Ironia e fundamentalismo
Pode ser proveitosa a leitura do artigo de Christy Wampole, “How to Live Without Irony“, que associa os hipsters à cultura da ironia, e clama por um mundo mais sério. Mesmo que seja para jogar pedra.
Falar de hipsterismo é como tratar de temas escatológicos ou de Teologia Moral em público, mesmo que seja para demonstrar repugnância (confesso que nada me repugna mais do que os maneirismos que cercam a cultura hipster). Há coisas sobre as quais não se fala. Recentemente, o escritor Fabrice Hadjadj declarou que não pretende, jamais, falar da sua conversão, ciente de que se trata de um assunto infamante. Será excessivo senso do ridículo, concessão ao laicismo ou simples discrição? Estou seguro de que se trata de mera discrição. O fato é que a menção a uma moda fadada ao desaparecimento macula a respeitabilidade de qualquer artigo, e por isso manteremos os hipsters no seu lugar conveniente: a insignificância. Mesmo assim, vale a pena discutir a raiz disso tudo.
A ironia não é um defeito, e nem uma virtude pessoal, mas uma camada de civilização, um modus operandi mais ou menos superficial. Uma sociedade fundamentalista, em oposição à irônica, é monolítica, direta e pessoal. Não é possível avaliar o grau de perigo que a ironia oferece. É um fato cultural, um pretexto, e não uma opção. É possível ser sincero numa cultura irônica, e é possível ser cínico numa cultura de sinceridade aparente, como a antiga. (Observe, por exemplo, os modos de Cálicles e Protágoras nos diálogos fictícios de Platão.) Dado que valores humanos reais — como o respeito ao sono e ao silêncio e a repulsa ao homicídio — são mesmo reais, não desaparecem sob os modos cambiantes da cultura. Um burguês confortável que sofre um acidente, sofre-o como um aborígene: com dor física, choque e sangue momentâneos, lembrança e tristeza posteriores. A realidade, como observou Wampole, iguala convictos e descrentes.
Nossa cultura não é apenas irônica em seu discurso. Fatos irônicos ocorrem o tempo todo: ateus exemplares se desesperam, budistas dão exemplo de simplicidade; agnósticos triunfam na alegria e protestantes sofrem de depressão profunda. Crentes célebres, como Chesterton, diziam que ateus são infelizes porque não têm a quem agradecer quando recebem algo de bom. Mas nunca vimos um só descrente reclamar que não tivesse um ente metafísico a quem agradecer. Nessa ânsia por autojustificação — Chesterton tinha consciência de ser um rhētor inteligente e sofisticado –, o inimigo cultural ou filosófico é sempre desqualificado como um infeliz (o que chamei alhures de ‘projeção dogmática sobre a realidade’), apesar dos fortes indícios empíricos em contrário. O outro lado também é pródigo em desqualificar cristãos sob a mesma alegação de infelicidade dogmática.
Mas mesmo camadas profundas de cultura são incapazes de alterar a realidade do nascimento, do crescimento e da morte, que atinge os bons, os maus e os claudicantes da mesma forma. Todos lembrar-se-ão da chuva eclesiástica a cair igualmente sobre eles. A vantagem de uma formação religiosa de tipo forte, nos termos de Charles Taylor, é que ela nos permite comprovar na carne que Deus é incapaz de necessariamente alterar um só centímetro do caráter e da vida de um homem. Quem o nega, nunca acompanhou as manifestações de um católico oficial (um troll) em um grupo de discussão. Nossos anti-irônicos mais sérios, os mais convictos soldados do bem, costumam exceder-se em perversidade.
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A ironia atingiu proporções monstruosas porque nós, mais do que nunca, acreditamos nas camadas culturais que nos envolvem e lhes conferimos o status de realidade inalterável. Acreditamos na ironia e no estar à deriva. Sempre acreditamos em algo.
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Parte do fascínio exercido pela ética é a imprevisibilidade do bem. Ele é encontrado apenas no que não se identifica explicitamente com ele (o que na tradição clássica é chamado, de modo patético, de ’força do exemplo’). O estudo do fenômeno moral demonstra, a todo momento, a incapacidade da pregação ex cathedra ou do púlpito de reformar o espírito humano. No momento em que se mostra e se exibe, mesmo sob a capa da discrição, como flecha dirigida ao Sumo Bem, toda boa intenção eficaz desaparece. Eis o mistério da moral: exaltamos o bem na mesma proporção em que fracassamos no esforço por perpetuá-lo.
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Bento XVI vai à USP
Ocorreu ontem, em plena Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da USP, um debate inusitado entre o professor da casa José Arthur Giannotti e um membro do IFE e editor da Dicta, Henrique Elfes. De um lado, um ateu de formação marxista; de outro, um católico estudioso do pensamento de Bento XVI.
O título do evento era “Dialética da Secularização Revisitada: Razão, Religião e Estado Secular”, e fazia referência ao debate entre Jürgen Habermas e Joseph Ratzinger em 2004. Talvez pela ambiguidade do título (o tema do debate atual era o debate de 2004 ou o tema do debate de 2004?), Giannotti e Elfes prepararam falas muito diferentes.
Giannotti fez um comentário aos pressupostos de Habermas, em particular sua fundamentação do Estado e da política em um conceito de razão que seria impossível de se sustentar em face à multiplicidade de razões que o século XX descobriu. Não é mais possível falar em uma razão, garantidora de discursos verdadeiros ou válidos; diferentes concepções de razão levam a resultados diferentes. É possível, contudo, afirmar o valor da tolerância – fruto, até onde entendi, do embate e do equilíbrio de forças políticas – e permitir que diferentes opiniões e crenças convivam em paz. Embora ateu, disse concordar mais com Ratzinger do que com Habermas.
Já Elfes, sem fazer referência direta ao diálogo entre Habermas e Ratzinger, traçou brevemente um panorama histórico do secularismo no Ocidente, de suas raízes na Idade Média até hoje. Identificou a causa desse processo no excessivo clericalismo da Igreja Católica em seu primeiro milênio de existência.
Depois dessa fala, que dava uma perspectiva francamente católica e, dentro do catolicismo, conservadora, nada restou a Giannotti senão exclamar: “Olha, devo dizer que concordo mais com o Habermas do que com você!”. E daí o pau comeu.
Seguiram-se trocas entre os dois sobre vários assuntos: história da tolerância no Ocidente; religião como experiência pessoal do inefável ou como instituição detentora de missão divina; crise nas religiões institucionais; papel da razão na política; fundamentação última da ética e dos direitos; até a história da Igreja e o número atual de seminaristas entrou na discussão. O evento foi todo gravado pela organização, então imagino que em breve ele estará acessível a todos.
Curiosamente, foi justamente Elfes, o partidário da religião, que defendia a existência de uma razão objetiva – e secular – que deve fundamentar a vida política, e ser o critério para definir direitos, deveres e leis. Ao mesmo tempo, sua leitura da história me pareceu um tanto enviesada e pré-pronta para enaltecer a Igreja, vendo tudo o que discorda da visão católica conservadora como uma espécie de “ressentimento” contra a Igreja ou mesmo contra Deus.
Eu estava na plateia, e tentei provocar o prof. Giannotti. Ele afirma o valor da tolerância; mas nem todos o afirmam. Como defender a tolerância sem algum tipo de justificativa racional e portanto acessível a todos os homens? Ele respondeu que essa defesa se dá não no plano racional, e sim no político. E a discussão política não envolve a argumentação racional?, retruquei. Como resposta ele ofereceu o exemplo da última campanha de prefeito de São Paulo. Mas sem razão, a política não se reduziria a um mero jogo de poder? Não, respondeu, mas a um jogo de persuasão política.
Ele provavelmente levou a melhor sobre mim nessa curta troca, mas ainda estou convencido de que no próprio posicionamento dele está contida a premissa implícita do valor e da capacidade da razão como meio de se chegar à verdade objetiva, do qual a política não pode prescindir, sob pena de se reduzir ao maquiavelismo puro e simples: ao poder das armas e à persuasão mentirosa. Sem a convicção racional, resta apenas saber quem grita mais alto e engana o maior número de trouxas. E nesse jogo, valores como a tolerância por ele defendida não têm garantia nenhuma. Há algo além de um capricho subjetivo na defesa da tolerância? Se sim, então por mais que se o negue, é ainda a razão humana que dá as cartas. Se não, então não temos motivo nenhum para defendê-la. Todo o discurso secular de direitos humanos inalienáveis parte de uma tradição iluminista oposta à de Giannotti, e não fica claro como, negando os pressupostos dela, ele ainda queira manter essas conquistas não apenas como fatos constatáveis historicamente, mas como valores a serem preservados.
Acho que debate poderia ter chegado mais às situações concretas de nossos dias: os perigos do fanatismo, as questões sociais e morais que volta e meia chegam à política e que são sempre associadas à religião (aborto, eutanásia, casamento homossexual), laicidade do Estado e presença social de símbolos religiosos, etc. Que concessões um católico está disposto a fazer a um Estado que não segue sua religião? E um ateu a um Estado que respeita todas as religiões? É possível chegar a um ponto de acordo nos princípios e superar enfim a briga desgastante entre laicistas e religiosos? Mesmo assim, achei o saldo muito positivo; esse é um tipo de discussão e diálogo que precisa ser incentivado. O debate de discordâncias frontais, ainda que contrarie um pouco a tendência brasileira a tudo conciliar, é imprescindível para nossa cultura. Fico imaginando o que os partidários da visão de Giannotti ali presentes acharam do evento.
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Reverberações de William Lane Craig
Conforme largamente divulgado, o filósofo e apologeta cristão americano William Lane Craig esteve no Brasil há duas semanas. Tive o privilégio de, no dia 12 de março, um pouco antes de sua palestra na Faculdade S. Bento, fazer uma longa entrevista com ele, de teor bastante filosófico. Enquanto esta não é publicada, recomendo a leitura da entrevista que ele concedeu à Veja, que aborda seu lado apologeta (que tem, obviamente, intersecções com a filosofia; por exemplo, na questão da existência de Deus), ou seja, de quem defende racionalmente a fé.
Alguns consideram essa uma tarefa inútil; afinal, se é fé, se é algo desprovido de motivações racionais, como defendê-la usando a razão? Se fosse passível de prova racional, não seria fé. O que os críticos não se dão conta é que, embora a fé seja de fato incompatível com prova, com demonstração, é compatível com indícios, com motivos racionais que indicam mas que não fecham a questão. Há muitas fés no mercado; por que aderir a uma e não a outra, ou a nenhuma? Necessariamente, algum fator externo à fé em si decidirá essa questão; e é aí que entra a tal da apologética.
Sem em nenhum instante negar o valor do trabalho de Craig, há alguns pontos que não posso deixar de discordar. Um deles, e que surgiu também na entrevista que fiz, é o da ontologia moral; ou seja, da fundamentação última da ética. Para Craig, esse fundamento é a vontade de Deus, expressa por meio de um mandamento, que implica uma obrigação (como o homem conhece esse mandamento, se por meio da fé na Bíblia ou por meio de uma intuição moral de sua mente, não vem ao caso). Sendo assim, ele não tem como escapar da posição de que a moral depende, em última análise, do capricho de Deus; e que esse capricho pode mudar.
Então se Deus ordena um assassinato, este assassinato passa a ser ético. Felizmente, “a forma normal com que Deus conduz os assuntos humanos” não é essa; em geral, Ele condena o assassinato. Mas Ele também pode abrir exceções quando bem entender. Se um interlocutor me disser que Deus abre exceções apenas quando o homicídio será bom, então não é a vontade de Deus que fundamenta a ética; ela apenas a reflete. Pela posição de Craig, é preciso afirmar que mesmo o homicídio mais injusto e odioso imaginável seria bom se Deus assim o comandasse.
E daí se coloca um dilema teórico sério para o fiel. Se Deus te ordenasse que assassinasse um inocente, você o faria? Não? Então há algo superior a Deus. Sim? Então você é basicamente um terrorista em potencial, aguardando um comando de Deus para cometer uma atrocidade? Sem falar no problema epistemológico de saber se é realmente Deus, e não uma alucinação, ou, ainda, um espírito mau, quem ordena o assassinato. Afinal, se o que é pedido é algo imoral, ainda que se proclame da parte de Deus, como avaliar?
Na história do pensamento teológico moral, há uma outra abordagem a esse problema, que é a da lei natural: a moral está fundamentada na natureza humana, e o único jeito de mudá-la seria mudando a natureza do homem. Da natureza humana, criada por Deus, decorre uma ética, que é portanto querida por Deus também. Não dependemos de conhecer algum mandamento mutável de Deus; os mandamentos refletem o que se depreende de nossa natureza de animais racionais em busca da felicidade. Por esse motivo, teólogos renascentistas católicos gostavam de afirmar que suas conclusões morais valeriam mesmo se Deus não existisse.
Claro que, nesse caso, teremos uma dificuldade de interpretação bíblica. Pois, como Craig bem aponta, se acreditamos na Bíblia, então acreditamos que Deus mandou Abraão matar seu filho inocente (sacrifício que foi impedido na hora H; mas Abraão não tinha como sabê-lo de antemão). Assunto não falta para teólogos e filósofos da religião…
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As igrejas dos árabes

No último sábado faleceu o Papa. Refiro-me, obviamente, ao Papa Shenouda III, primaz da Igreja Copta, comunidade de cristãos egípcios que se separou (junto com outras comunidades) do restante dos cristãos no Cisma ocasionado pelo Concílio de Calcedônia, em 451. Shenouda reinou por mais de 40 anos a Igreja egípcia, tempo no qual ela se fortaleceu e expandiu tanto em casa quanto ao redor do mundo. Um líder ao mesmo tempo carismático e contemplativo, sua morte foi lamentada por autoridades políticas e eclesiásticas ao redor do mundo, recebendo condolências de figuras como o Arcebispo de Canterbury Rowan Williams e do Papa Bento XVI (Papa, por sinal, é um título honorífico, tradicionalmente dado tanto ao primaz de Roma quanto ao de Alexandria; não representa, de forma alguma, uma tentativa de usurpação nem nada do tipo).
Os últimos anos de Shenouda III dão uma boa mostra das dificuldades e complexidades da situação política, cultural e religiosa do Oriente Médio. O Cristianismo oriental é tema pouco visível, mas é de capital importância para o futuro das sociedades e da convivência cultural e religiosa da região. E o fato que tem ficado cada vez mais patente mesmo para a grande mídia, é que a dicotomia ditadura-democracia não basta para explicar o processo pelo qual passa o Oriente Médio. As ditaduras seculares ou semi-seculares que caíram e estão em risco de cair não eram exatamente pró-cristãs ou defensoras ardorosas das minorias que existem em seus territórios; mas mantinham conflitos religiosos sob algum controle. As democracias populares que supostamente as sucederão são muito mais suscetíveis a surtos e movimentos fundamentalistas ou islamistas sem nenhum respeito por direitos e minorias tradicionais. Para se ter ideia do tipo de mentalidade que pode prevalecer, tenha-se em mente que o grão-mufti da Arábia Saudita afirmou recentemente, sem nenhum receio, que “é necessário destruir todas as igrejas” da Península Árabica.
É por isso que autoridades cristãs, como o próprio Shenouda III, eram ou muito reticentes ou mesmo contrárias às revoltas populares (que, todavia, também uniram cristãos e muçulmanos jovens e esperançosos nas ruas). O patriarca Gregório III Laham (que é líder da Igreja Melquita, uma igreja bizantina árabe em comunhão com Roma, ou seja, parte integrante da Igreja Católica) vê na Síria de Assad, essa mesma que é capaz de brutalidades indizíveis contra manifestantes, um exemplo de convivência religiosa a ser imitado; ele pede que o Ocidente não ajude a mudar o regime, mas ajude o regime a mudar. O patriarca ortodoxo antioqueno é da mesma opinião.
Esses regimes, cuja derrubada tem sido apoiada pelas potências ocidentais, representam uma proteção a populações não-islâmicas (ou, se islâmicas, de vertentes minoritárias, como é o caso do grupo dos alawitas ao qual o próprio Assad pertence) que, sob um regime muçulmano sunita mais devoto, seriam extirpadas sem grandes remorsos, e sob um governo enfraquecido ficam à mercê de turbas fanáticas, terroristas e outros males. A título de ilustração: a população cristã do Iraque (que chegava a 1,5 milhões) caiu para menos da metade desde a invasão americana; um êxodo em massa que reflete a piora da situação para os cristãos, vítimas de terrorismo constante, embora o governo seja agora aliado do Ocidente. Já viraram corriqueiros, também, os ataques a igrejas e indivíduos cristãos egípcios desde a queda de Mubarak.
Em certo sentido, a própria existência de cristãos árabes e orientais (que se dividem em quatro grandes grupos institucionais: católicos de vários ritos, ortodoxos, pré-calcedonianos como os coptas – também chamados de ortodoxos, o que às vezes gera confusão – e assírios) é uma refutação da tese do embate civilizacional entre árabes muçulmanos e ocidentais cristãos. Para os governos ocidentais, são um inconveniente, vítimas de violação de direitos por parte (ou pela negligência) de governos aliados, radicalmente contrários à presença estrangeira em seus países e apoiadores da causa palestina. Pelos islamistas, são pintados como uma verdadeira quinta coluna ocidental.
Enfim, a situação é delicada, crítica e tem se deteriorado. Shenouda III foi um homem que, devotamente, liderou sua Igreja em meio a um ambiente hostil, que exige cautela e prudência constantes. É fácil criticar líderes como ele (e como os demais, sejam católicos ou ortodoxos, cujo posicionamento é o mesmo) pela subserviência aos poderes estabelecidos e ao Islã em geral (são unânimes em dizer que o Islã não é o problema) e pelo ânimo antiocidental e anti-Israel que frequentemente demonstram. Ao mesmo tempo, é graças a homens como esses que perdura a esperança de uma coexistência pacífica entre cristãos e muçulmanos pertencentes a uma mesma cultura.
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A lágrima feroz
Data do post: 16 de dezembro de 2011
õîááèò èëè òóäà è îáðàòíî ñìîòðåòü îíëàéí áåñïëàòíî

But Love is not a victory march,
It´s a cold and it´s a broken
Hallelujah
Leonard Cohen
A dor mais insuportável é a do amor não-correspondido. Existem, obviamente, outras dores, como a da doença incurável, a da morte surpreendente, a da perda de um ente querido, a da despedida sem razão – mas elas passam conforme o ritmo do tempo, conforme as lembranças se transformam em lições para as cicatrizes do futuro. Já a dor do amor não-correspondido tem seu impasse peculiar. O tempo não cura suas chagas; a memória não a afaga com a maturidade; ela ecoa pelas épocas e através dos séculos porque, simplesmente, nunca foi consumada em sua forma completa. É uma espécie de maldição que espera um milagre para sua realização definitiva e, enquanto isso, somente será lembrado como um lamento ou, no seu extremo, uma paixão.
Este foi o caso de Jesus de Nazaré, profeta judeu, filho de carpinteiro, amigo de doze pescadores rudes, condenado e crucificado como criminoso, numa morte violenta e estúpida que, sabe-se lá porque, não resistiu de forma alguma. Dois mil e onze anos depois desses fatos, o nome de Jesus ainda é invocado por várias pessoas, em um daqueles enigmas que ninguém tem a coragem de compreender. Ele abençoa, irrita, incomoda, fascina, transforma a vida delas de uma maneira que nenhum outro homem fez. Quando alguém arrisca fazer uma definição precisa sobre quem foi este sujeito, a única coisa que alcança é uma pálida silhueta, uma visão que, se não tomar cuidado, pode envolvê-lo nas sombras se fitar demasiadamente a luz que O envolve.
Estas reflexões me vêm à mente neste momento de Natal e me fazem voltar também à Paixão. O nascimento e a morte de Cristo sempre foram vistos como coisas separadas e isso sempre me pareceu um equívoco. Afinal, como diria São João de Ávila, a madeira da cruz já esta na madeira da manjedoura.
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Especial 11 de setembro parte 6 – A origem do mal
Data do post: 10 de setembro de 2011

Crédito da foto: Scott Eaton
O atentado às Torres Gêmeas marcou indelevelmente a memória de quem viveu aquele dia. Cada um lembra onde estava quando soube que o WTC tinha sido atacado. Havia um clima de ansiedade e perda de sustentação; tudo estava em aberto. O trabalho e as aulas pararam. Eu estava no primeiro ano do ensino médio, e voltava para casa mais cedo. Muitos colegas foram ao anfiteatro da escola assistir os noticiários. Não vi, mas fiquei sabendo que se comemorou naquele anfiteatro quando o segundo avião bateu, o que não me surpreende: todos ali eram muito conscientizados.
Aplaudir o ato, ou ver nele qualquer semblante de justiça, é quase obsceno. Creio desnecessário argumentar longamente sobre isso. No fundo até os terroristas o sabiam. Marwan al-Shehhi, um deles, respondera certa vez quando lhe perguntaram por que ele nunca sorria: “Como você pode sorrir quando há pessoas morrendo na Palestina?” Por admissão própria, ele via a morte violenta de pessoas como má. Ao decidir cometer os atentados, os jovens fundamentalistas aceitaram ser um canal, um meio de realização, desse mal. Aceitando-se a lógica consequencialista dos terroristas (que é também aceita por importantes filósofos ocidentais) tudo é potencialmente permitido.
Quando especialistas indagam pelas causas de uma atrocidade como essa, as motivações políticas e religiosas tomam o primeiro plano, mas um importante componente filosófico desses crimes, a ideia de que os fins justificam os meios (lembram-se do que Anders Breivik disse sobre seu crime? “Atroz, mas necessário”), é sempre deixada de lado. Talvez porque nossa cultura já a tenha internalizado de tal forma que ela nem figure mais como uma posição filosófica, e pareça antes um elemento imutável da condição humana. Não se concebe mais a possibilidade daquela inflexibilidade que preferia ver o mundo desmoronar nas mãos dos bárbaros e infiéis do que pecar.
Enfim, aceito sem sombra de dúvida que os terroristas eram maus. Nego, contudo, que a maldade explique seus atos. Uma saudável reação aos determinismos psicológicos, neurológicos, sociológicos tem insistido em que a ação criminosa é uma decisão livre e consciente. E até aí não vejo problema, que só surge quando, dessa razoabilidade inicial, dá-se um passo a mais e afirma-se que, portanto, não se pode falar em nenhuma causa além da livre decisão pessoal, posto que qualquer outra coisa tolheria a autonomia, e assim a responsabilidade moral, do agente. Mas qual o preço de se aderir a essa visão de que o ato mau é uma livre escolha alheia a qualquer causalidade? A maldade se torna ininteligível, uma força que vem não se sabe de onde e sem explicações ou propósito.
Explico-me: em toda ação o agente persegue algo que considera bom. Se não considerasse que o fim de seu ato é bom, não quereria agir. O movimento que não tem causas finais é na melhor das hipóteses um reflexo mecânico, algo que nem chega a configurar uma ação propriamente humana. Portanto buscamos algo que consideramos bons. E não somos nós que decidimos o que consideramos bom. Ao deliberar, escolhemos meios para alcançar um fim que, para essa ação, tem o caráter de um dado imutável. É possível questioná-lo, e compará-lo a outros fins que também são atraentes; essa comparação, todavia, necessariamente se dá à luz de algum fim maior, para os quais esses em consideração são apenas meios. Se não for assim, se a comparação entre os possíveis fins de nossos atos não tiver um critério à luz do qual ser resolvida, então a escolha de um desses fins é um evento fortuito, aleatório do ponto de vista do agente (embora tenha suas causas, vá lá, microfísicas).
Na prática, isso se traduz, por exemplo, em que nenhum homem tem a capacidade ver a dor, a morte, a inimizade, a ignorância como bons em si mesmos. Não está em nosso poder deixar de querer o bem e nem decidir sobre o que é o bem que queremos. Está em nosso poder, contudo, querer o bem de maneira errada, por exemplo subordinando bem maior a um menor, evadindo a consideração racional que mostraria o quanto essa escolha nos distancia daquilo que verdadeiramente procuramos. Isso é o mal. O mal não é uma inclinação contrária a nossa inclinação natural (no sentido de que não a escolhemos), mas sua corrupção. O mal parasita o bem, e toda existência que ele tem é, na verdade, a existência do bem parcialmente mutilado. Mesmo o aparente desejo do mal pelo mal, o desejo de transgredir a moralidade pelo mero fato de ser proibido, tem algum bem que o anima: a admiração dos colegas, a afirmação da própria autonomia e poder, etc.
Assim, não basta saber que o terrorista “era mau” e dar-se por satisfeito da mesma maneira que se soubéssemos que “era louco” (caso em que não mais esperaríamos alguma explicação plausível, ou mesmo inteligível, para seu ato). Precisamos conhecer de onde veio sua maldade; qual era o bem que foi corrompido. Esse é um exercício que será sempre politicamente incorreto, e não tem como não sê-lo. Pois ao nos perguntar sobre as causas de um ato mau, perguntamos, entre outras coisas, pelas crenças e valores que levam a tal distorção do caráter (ou, ainda, que atraem àqueles cujo caráter já é distorcido), e que são elas também, por consequência, más.
No caso do 11 de setembro, sabemos bem a origem intelectual do crime: o Islã de tipo sunita fundamentalista. Para eles, todas as respostas para a existência humana, tanto individual quanto social, estão perfeitamente dadas pelo Corão e pelas falas documentadas de Maomé. Tudo o que passa disso é, na melhor das hipóteses, distração. É preciso dizer o que isso representa para a ciência? Para a arte? Para a filosofia? Se quem pensa assim ficasse contente com sua escolha de vida, até tentando convencer aos demais por seu exemplo e argumentos, e convivendo em paz com eles, não haveria grandes problemas. O problema é que essa versão do Islã inclui a prescrição sobre como a sociedade deve se organizar, e essa prescrição não é exatamente uma carta de direitos individuais. Uma sociedade na qual mulheres não podem mostrar o rosto em público ou conviver com homens não-aparentados, na qual quem não é muçulmano (e da mesma exata variante) é reprimido de várias maneiras, e na qual o muçulmano que decide deixar sua fé recebe a pena de morte. Mesmo com tudo isso, poderia ser que, apesar da proposta política monstruosa, essa ideologia religiosa fosse consistente e respeitasse os próprios mandamentos, não os violando quando fosse conveniente. Contudo, nem aí encontramos consolo: pois para essa visão de mundo não existe certo e errado cognoscíveis racionalmente. Toda a ética deriva do capricho arbitrário de Deus, que pode inclusive dar a ela quantas exceções e auto-contradições ele quiser. Portanto, muito embora Deus condene o homicídio, se for pela causa de destruir os inimigos da fé, tudo bem.
É possível ter um mínimo de decência e sanidade e não ver nisso algo tenebroso? Como fingir que todas as crenças são iguais, que todas as culturas são boas, se há crenças e culturas que pregam isso?
Mas esse é só o primeiro passo da minha proposta de reflexão: identificar o que há de errado nas concepções dos terroristas, que é praticamente tudo. O segundo é, lembrando novamente que o mau tem causas, perguntar-se acerca do que causa uma crença como essa; ou mais especificamente, o que leva alguém a aderir a essa visão de mundo? Trata-se de um estado de revolta profundo. Não revolta contra a “modernidade” (o que é isso, afinal?), mas contra a razão: contra a capacidade do ser humano de conhecer, agir, convencer e criar, a ser substituída pela imposição da fé cega e da obediência muda, o preço a ser pago para se alcançar alguma paz de espírito em meio ao caos, miséria e injustiça que assolam a existência.
E como não se revoltar contra o mundo ao crescer nas condições de pobreza e, o que é pior, falta de perspectivas e a mediocridade existencial nas quais crescem tantos jovens muçulmanos, seja nos países originais de suas famílias ou nas nações europeias para as quais seus pais imigraram? Sua situação é ruim e o sentimento de revolta contra um estado de coisas aviltante é justo. Só que a causa de sua miséria não é o Ocidente, não são os EUA e nem Israel.
A existência de uma nação na qual impere a razão e os direitos individuais, que é o que os EUA ainda simbolizam (na prática, o são parcialmente) é incompatível com a ideologia islâmica fundamentalista, que sempre os odiará. Mas por que essa ideologia encontra adeptos? É tudo manipulação e mentira dos líderes da militância fundamentalista, ou será que os EUA e Israel dão alguns bons motivos para a revolta que se dirige contra eles?
Se o individualismo e a razão são os responsáveis pela morte dos parentes de um rapaz numa operação do exército americano, ou pela violência expansionista do Estado de Israel, a negação desses valores deve ser uma coisa boa. Preservar o mito de que o mal é inexplicável, ou de que não tenha causas boas, serve à ilusão de que não há nada que os EUA e Israel possam fazer para reduzir o ânimo fundamentalista contra eles. Mas os atos do governo americano no Oriente Médio fornecem largo incentivo para que mais jovens muçulmanos se interessem pelo ideário fundamentalista.
Dar as causas de um ato é muito diferente de atribuir responsabilidade. Quem sai na rua ostentando celular e relógio caros e é roubado não é, de forma nenhuma, culpado pelo crime. Mas é impossível de negar que suas ações incentivaram o crime. Da mesma forma, afirmar que a política desastrada dos EUA no Oriente Médio incentive o ânimo fundamentalista anti-americano não é afirmar que os americanos e israelenses, ou mesmo seus governos, sejam culpados do terrorismo. Além disso, é claro que o caso de Israel é o mais complicado, pois ela luta, ao contrário dos EUA, por sua existência, que deve ser assegurada (e não há dúvidas de que, apesar do uso excessivo da violência, Israel tem a superioridade civilizacional, cultural e moral da região). Ainda assim, não dá para deixar de pensar que, se o governo fosse menos expansivo, atrairia para si muito menos ódio (que é partilhado por quase todos no mundo árabe, mesmo não-muçulmanos).
Desde o 11 de setembro os EUA vêm travando uma longa guerra ao terror e intensificando sua presença no mundo muçulmano. No desmantelamento da Al Qaeda essa operação tem sido bem-sucedida. Mas e no que diz respeito ao fanatismo e ao fundamentalismo islâmico que alimentam o tipo de pensamento dos quais a Al Qaeda é um caso particular? Ainda é cedo para dar um veredito, mas o fundamentalismo parece crescer, especialmente entre os jovens (inclusive entre os jovens imigrantes, menos integrados à cultura europeia que seus pais). Talvez estejamos assistindo os últimos suspiros de um tipo de ideologia que não tem como sobreviver em meio ao mar de informação incensurável que é a Internet. Ou talvez o crescimento e articulação de um novo adversário do Ocidente para as próximas gerações. Seja qual for o caso, a presença do exército americano tem sido sempre um motivo para aumentar o ressentimento das populações locais por seu “salvador” indesejado. Foi assim no Afeganistão, no Iraque (e lembrem-se que na entrada em Bagdá os americanos foram efusivamente saudados pelo povo), e continua sendo.
As revoluções no mundo árabe são um momento crítico. Paralelo ao apreço pela democracia (que pode servir tanto para garantir direitos individuais como para violá-los com o aval da maioria) está o fortalecimento do fundamentalismo sunita (que não é equivalente a terrorismo mas está a um passo dele). Se elas seguirão o caminho de abertura e sanidade com que aparentemente começaram, ou se serão cooptadas pela militância islamista, só o tempo dirá. O mal sempre procurará pretextos para odiar o bem; o melhor que o bem pode fazer é não dar motivos. O terrorismo muçulmano que destruiu o WTC e a “conscientização” marxista que se alegrou ao vê-las cair (ramos de uma mesma árvore intelectual) usam meios nefastos para um fim terrível; mas se originam, em parte, de uma revolta justa contra um mal real.
[CONTINUA AMANHÃ]
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O Pastor Ateu
O Reverendo Klaas Hendrikse é pastor da Igreja Protestante Holandesa, mas suas crenças fogem um pouco do comum. Que o eventual leitor cristão não fique chocado por ele negar a ressurreição física de Cristo. Essa posição é das mais conservadoras, até tradicionalistas, dentre as que o pastor defende.
Pois o Rev. Hendrikse é da opinião que não só a ressurreição, mas a própria existência de Jesus Cristo são eventos simbólicos, mitológicos, assim como (na opinião dele) Sócrates ou Dionísio. Filho de Deus? Bem, para isso ter algum sentido Deus teria que ser uma coisa, existir de alguma maneira. E isso já seria ir longe demais no fanatismo. “Deus não é, de maneira alguma, um ser. Deus não é, de maneira alguma, uma coisa.” Aqui os estudantes de teologia tradicional podem até ver uma esperança, um insight apofático e inegavelmente ortodoxo. Para não dar margem a mal-entendidos, o entrevistador da BBC pergunta, perplexo: “O que é Deus?”, ao que o pastor responde: “É uma palavra para experiência, experiência humana.”
Seu livro “Acreditando num Deus Inexistente” provocou ultraje em setores mais tradicionalistas do protestantismo holandês, mas como suas opiniões são bastante difundidas entre outros pensadores da Igreja, o comitê decidiu mantê-lo em seu cargo. De fato, um estudo constatou que 1 em cada 6 clérigos da Igreja Protestante Holandesa é ateu ou agnóstico. Toda essa inovação doutrinal, missionária e até litúrgica (em outra igreja, os fiéis escrevem em placas coisas que impedem que a terra seja o paraíso – câncer, guerra, fome – e as destroem) tem como meta manter a religião relevante para uma população que vive num livre mercado de crenças e procura alguma satisfação espiritual, embora longe dos conceitos ultrapassados de “Deus”, “existência”, “certo” e “errado”, etc.
A quem espera algum tipo de vida eterna, algo que dê esperanças face à inevitabilidade da morte, Rev. Hendrikse já avisa: “Pessoalmente, não tenho talento para acreditar em vida depois da morte.”
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