Balde de água fria
Data do post: 28 de agosto de 2010
Pensando em escrever seu grande ensaio e vender milhões de cópias? Detesto ser um estraga-prazeres, mas a coisa não é fácil. Este artigo de Thomas Woods Jr., autor muito bem-sucedido (especialmente pelo “Politically Incorrect Guide to American History”), dá uma idéia das dificuldades do mercado de não-ficção. Segundo ele, menos de 10% dos títulos ultrapassam as 2000 cópias vendidas.
Para tranquilizar os escritores em formação, ele olha também para o lado positivo: há muitos benefícios não-monetários em se escrever um livro. E realisticamente, é nesses que o escritor deve pensar. Reconfortante.
Só uma nota final: tudo o que Woods fala é sobre o mercado de língua inglesa. Agora imagine os números do mercado editorial em português.
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Um convidado bem perturbador
Data do post: 24 de agosto de 2010

Os primeiros sintomas de que a sociedade está doente são a descrença de que o mal existe e a insensibilidade em relação ao bem, já dizia Jean Bodin.
É o que acontece atualmente no Brasil – e no restante do mundo.
Querem provas? Nem falo da eleição que já está decidida desde o início dos tempos, muito menos da imbecilidade que reina nos centros pensantes dos EUA e da Europa.
Falo de um sentimento que, apesar de ser pouco palpável, algumas pessoas podem sentir no zeitgeist: a cegueira do ser humano em saber que é capaz de realizar atrocidades – sempre com as melhores intenções, é claro.
Anos e anos de iluminismo, anos e anos de razão, anos e anos de ciência e progresso – e para quê? Para termos Auschwitz, Dachau, Treblinka. Os Gulags. O 11 de setembro.
Como disse Theodore Dahlymple em artigo magistral para o City Journal, o mal é sempre uma presença incômoda em nossas vidas, que queremos vê-lo embaixo do tapete, mas não podemos porque, afinal, ele é a verdadeira prova de nossa tão querida igualidade: a capacidade de ferir o seu semelhante.
Além disso, há um outro problema: o mal tem uma persistência assustadora. Ele sabe se disfarçar. Sabe se esconder. E é incapaz de chegar ao seu ladinho e disser: “Olá, eu sou o Mal, prazer em conhecê-lo”.
Mas o fato é que as pessoas pensam dessa forma. Acreditam que ele se anuncia como se tivesse um mínimo de sensibilidade. Meus caros, esqueçam tal idéia pois ele não tem essa politesse, apesar de, muitas vezes, se camulfar na aparência de um gentleman (leiam King Lear, ouçam Sympathy for the Devil e saberão do que falo).
Quando entramos nessa espiral, não há retorno. Pode demorar, mas a derrocada é inevitável. A doença se alastra pela sociedade e não se pode fazer mais nada. Exceto, é claro, dançar um tango argentino e fantasiar de que o mal possa ter a aparência de um Peter Sellers.
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De viagens e promessas não cumpridas
Data do post: 21 de agosto de 2010

Há alguns meses prometi aqui e aqui que faria uma série de crônicas sobre uma viagem que fiz à Itália no fim do ano passado. Foram dois posts, o que tecnicamente é suficiente para definir uma série, mas a verdade é que não cumpri essa foi uma promessa não cumprida.
Como sempre, obviamente tenho duas dúzias de desculpas e mais de uma delas envolve a dedicação – silenciosa, por enquanto – ao IFE e à Dicta. Mas desculpas continuam sendo desculpas: não resolvem o problema e abusam da paciência de quem não tem por que se preocupar com elas.
Mas se não posso mais voltar atrás, tenho ao menos mais um texto a oferecer: depois de escrever aqueles dois posts fui convidado a fazer algo parecido para uma revista chamada Itália em São Paulo. O que vai abaixo foi publicado por lá em junho deste ano. E espero poder compensar essa falha injustificável com bons resultados nas várias Dictas e otras cositas mas que estão por vir. E, para a sorte de vocês, nestes casos os outros responsáveis são muito melhores que eu.
*****
Num dos mais famosos versos da poesia latina, dizia Horácio que caelum non animum mutant qui trans mare currunt. “Mudam de ares, mas não de ânimo, os que cruzam os mares”. Amante dos prazeres da vida como era, só pode existir uma razão para ter dito uma coisa como essa: ele vivia na Itália. Para nós que estamos longe, só nos resta arrumar as malas e cruzar estes mares com a certeza de que muito, muito em nós pode mudar nessa viagem.
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O sacrilégio de Obama
Data do post: 18 de agosto de 2010

Uma das maneiras de indicar vitória em uma guerra é, sem dúvida, marcar a posse de algo – fincar uma bandeira ou construir um prédio no território onde ocorreu a luta.
É uma espécie de “etiqueta” entre os vencedores e os vencidos.
Por isso, enquanto o Brasil se preocupa com uma eleição que já está decidida desde o início dos tempos, algo mais grave ocorre nos EUA: o debate sobre se deve ou não construir uma mesquita a dois quarteirões do Ground Zero*, o lugar onde ficavam as torres do World Trade Center, as mesmas que desabaram com o ataque terrorista de 11 de setembro.
As discussões ficaram tão acaloradas que até Barack Hussein Obama entrou na confusão – e, pela primeira vez na história dos EUA, um presidente americano defendeu explicitamente os muçulmanos, afirmando que não havia problemas na construção da mesquita, claro, desde que tudo fosse mantido dentro dos limites da “tolerância religiosa”. Não seria hora de mudar seu nome para Al-Bama?
Como bem apontou Charles Krauthammer, trata-se de um sacrilégio de marca maior. Não se deve construir nenhuma mesquita naquele lugar porque simplesmente deve-se respeitar os mortos que ali foram abatidos.
Mas a suposta tolerância liberal pensa diferente. Acha que todos devem ter uma chance de expressão. Não se sabe se isto é culpa ou pura pusilanimidade.
O que estes supostos democratas não percebem é que a democracia, para funcionar corretamente, deve ter e impor seus limites. É por essa razão que ela não é um valor em si e apenas um sistema de governo; a democracia precisa de uma ordem pré-existente antes de que possa providenciar as liberdades e os direitos de seus cidadãos. E tal ordem não está inscrita nas leis e sim nos costumes de cada povo, que foram alimentados por uma determinada tradição que tem os anos para comprovar a sua eficácia. Em outras palavras: uma democracia nunca pode ser uma anarquia.
Contudo, o que Obama et caterva propõem não é nem uma democracia, nem uma anarquia. É a mais absurda das oligarquias – que, se não for controlada a tempo, se tornará uma oclocracia, o governo da ralé. Sim, da ralé – a ralé espiritual que pensa que uma construção é só uma construção e que uma rosa é só uma rosa.
E, enquanto isso, ficamos aqui, de camarote, pensando em nossas eleições já decididas e vendo o caso mais grave de inflitração muçulmana em um governo americano desde que Alger Hiss foi descoberto como espião da KGB.
C´est drôle, n´c´est pas?
* Agradeço ao leitor Marco pela correção a respeito da proximidade da mesquita em relação ao Ground Zero, mas ainda assim isto não é motivo para “deixar para lá”. Dois quarteirões, mesmo no padrão nova-iorquino – quem foi àquela cidade sabe que caminhar nela, mesmo que seja por um quarteirão, é uma distância considerável – ainda possui um simbolismo de posse que não pode ser negado.
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“Human kind cannot bear too much reality?”
Data do post: 15 de agosto de 2010
Há alguns dias, escrevi um post, a partir de um texto de Jeffrey Goldberg, em que perguntei se deveríamos ou não rezar por Christopher Hitchens, o polemista inglês que foi diagnosticado com um câncer no esofago.
Muitos sugeriram que eu estava sendo irônico com a tragédia pois Hitchens alega ser ateu.
Nada mais errado. Não estava sendo irônico em hipótese nenhuma. Estava sendo sincero, muito sincero.
Na semana passada, li o texto que Hitchens escreveu para a sua coluna na revista Vanity Fair no qual descreve como foi descobrir o diagnóstico e como foram as primeiras sessões de quimioterapia. É uma peça literária comovente e que não deixa também de manter a sua ironia costumeira, a começar pelo título, uma referência ao romance de Henry Miller, Trópico de Câncer.
Hitchens reage como qualquer ser humano reagiria perante uma situação de beco sem saída: com dignidade e resignação. Talvez o trecho mais pungente do texto seja este:
I had real plans for my next decade and felt I’d worked hard enough to earn it. Will I really not live to see my children married? To watch the World Trade Center rise again? To read—if not indeed write—the obituaries of elderly villains like Henry Kissinger and Joseph Ratzinger? But I understand this sort of non-thinking for what it is: sentimentality and self-pity. Of course my book hit the best-seller list on the day that I received the grimmest of news bulletins, and for that matter the last flight I took as a healthy-feeling person (to a fine, big audience at the Chicago Book Fair) was the one that made me a million-miler on United Airlines, with a lifetime of free upgrades to look forward to. But irony is my business and I just can’t see any ironies here: would it be less poignant to get cancer on the day that my memoirs were remaindered as a box-office turkey, or that I was bounced from a coach-class flight and left on the tarmac? To the dumb question “Why me?” the cosmos barely bothers to return the reply: Why not?
Creio que mesmo mais penitente dos crentes nunca conseguiria fazer tal raciocínio - o de que o universo não se importa contigo – com tamanha coragem.
Paralelamente a isto, um dos rivais de Hitchens, Terry Eagleton, foi o único a dar uma aula de honestidade intelectual na FLIP 2010. Na sua palestra, Eagleton foi descrito pelo apresentador Sirio Bocannera como um “intelectual punk e polêmico” e logo deu o cruzado de direita: “Parecem que descrevem um boxeador e não a minha pessoa”.
Em uma entrevista ao caderno Sabático, do jornal O Estado de S. Paulo, Eagleton respondeu pacientemente às perguntas insossas de Laura Greenhalgh e foi direto ao ponto ao fazer o diagnóstico dos novos ateus – dos quais Hitchens é um dos expoentes – e do “islamo-fascismo” que ronda a Europa e os EUA. Segundo ele, ambos são ameaças retrógadas a uma civilização que, mesmo doente, tem ainda muito a dizer.
Como todos sabem, Terry Eagleton é um marxista convicto e é da opinião deste escriba de que qualquer um que abrace esta linha de pensamento sofre de um escotoma no cérebro.
Então, como podem um ateu e um revolucionário-caviar encararem a realidade de forma tão correta, tão corajosa? Será que podemos falar em uma equivalência das ideologias, em que a direita e a esquerda começam a ter o mesmo discurso porque têm a mesma raiz em querer deformar o real?
Acredito que não é este o caso. O insólito nas reações destes dois sujeitos não se deve ao fato de pertencerem a uma determinada ideologia, mas sim ao fato de que são, afinal de contas, seres humanos racionais, com virtudes e vícios - um detalhe que nenhuma linha de pensamento pode mudar.
Hitchens enfrenta o seu câncer com coragem porque é próprio do ser humano querer manter um mínimo de respeito; Eagleton percebe o perigo que ronda o Ocidente porque ele é evidente e ninguém pode fechar os olhos a isso.
Não se trata de um dilema entre a direita ou a esquerda. Trata-se de fazer o que deve ser feito: encarar a realidade como é. Basta apenas fazer a escolha certa. Isto requer coragem – algo em falta nos nossos dias.
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Gilberto Freyre na Flip Parte 2, ou: O impasse de FHC
Data do post: 10 de agosto de 2010
Ou Fernando Henrique Cardoso leu Leo Strauss, ou eu vivo em um mundo dominado pela newspeak de George Orwell.
Infelizmente, a última opção é a mais provável. Em sua palestra de abertura da FLIP, FHC discorreu sobre Gilberto Freyre, autor que deveria ser homenageado, mas que acabou por ser esculhambado por todos que resolveram discuti-lo.
Não por culpa do morto, que tem uma obra que ficará acima de tudo o que já foi dito sobre ele, mas sim por culpa de seus “admiradores”, a começar pelo ex-presidente da República.
Até agora, não sei o que ele queria ao fazer sua palestra sobre Freyre. O texto em si, publicado no Estadão.com, é um primor de scholarship acadêmica a lá USP, com a clareza de explanação, as fontes bem citadas, o raciocínio que pende entre a admiração e o ceticismo, características da turma da antiga Maria Antônia. Enfim, tudo aquilo que se esperava do princípe dos sociólogos.
Contudo, a palestra em si, feita em um “clima descontraído de bate-papo” (uma destas expressões que o jornalismo cultural usa quando não se entende direito os conceitos expostos…), mostra um FHC que insiste em classificar Gilberto Freyre como “conservador” e “racista”, termos que, no nosso mundinho politicamente correto, são sinônimos depreciativos.
Ora, quem viu e depois leu a palestra achará que foram escritas por duas pessoas diferentes. Da minha parte, dei o benefício da dúvida a Fernando Henrique: achei que ele praticava a linguagem cifrada descrita por Leo Strauss em seu Persecution and the art of writing e estava enganando todo mundo.
Mas não estava.
Tudo bem, admito que a oralidade de uma palestra pode levar a uma certa imprecisão. E nisso não responsabilizo o ex-presidente, que, afinal, não pode forçar o público a compreender exatamente o que ele quer. Mas a reação do jornalismo cultural que fez a cobertura do evento ecoou a versão politicamente correta da palestra, chegando ao ponto de, olhem só, repetir sem pensar (e, o mais sério, sem checar) os bordões de “racista” e “admirador de regimes fascistas” para o coitado do homenageado.
O problema de toda esta situação é que a obra de Gilberto Freyre não admite compartimentos ideológicos. Neste caso, temos até de admirar a iniciativa da FLIP em homenagear um sujeito de matizes tão complexos. Porém, como o próprio Freyre dizia, ele não era um sociólogo – e sim um antropólogo que, ao iniciar novos métodos de pesquisa (reconhecidos por FHC em sua palestra escrita), unia o homem com a sociedade e apresentava um novo painel cheio de contrastes e paradoxos. E o paradoxo, como se sabe, confunde a mente de muitas pessoas. Para expressá-lo, Freyre decidiu investir em um estilo proustiano, que recuperava simultaneamente a memória pessoal e coletiva, usando de toda a plasticidade da língua portuguesa para que o leitor tivesse a mesma impressão de que o tempo, este bichinho fugidio, podia ser recuperado na intensidade da experiência histórica original.
Agora, imaginem Florestan Fernandes ou Caio Prado Júnior fazendo o mesmo. Não conseguem, hem?
O impasse de FHC – uma característica que o faz ser considerado o nosso Hamlet tupiniquim – é o mesmo impasse da nossa elite acadêmica e intelectual. Quando nos deparamos com uma obra única que a mente humana não pode abarcar sem cair nas gavetinhas do pensamento, não sabemos se devemos nos curvar a ela, com a humildade necessária, ou desprezá-la como os adolescentes que querem provar que são sempre originais.
Na FLIP 2010, fizeram isso com Gilberto Freyre. Só espero que, da próxima vez, os organizadores do evento tenham mais finesse e escolham um outro homenageado que se adeque aos interesses de seu público. O próprio Fernando Henrique sugeriu o nome de Sérgio Buarque de Hollanda. Tenho outra sugestão que acalmará os nervos: Que tal Santo Antonio Gramsci, ora pro nobis?
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Calvin Coolidge para presidente
Data do post: 6 de agosto de 2010

Em A Democracia na América, Alexis de Tocqueville comenta espantado como os EUA podem existir sem ter um governo centralizado. Para o francês, as nações européias só conseguiriam permanecer graças a uma centralização de poder que, no caso da França, ia do rei para as assembléias, das assembléias para os estados, dos estados para as cidades, das cidades para os funcionários públicos, dos funcionários públicos para os cidadãos normais.
Nos EUA, tudo acontecia ao contrário – e, talvez por um milagre que só uma nova ciência política poderia explicar, era justamente o fato de ser um governo descentralizado que permitia os americanos a exercerem sua liberdade e sua igualdade de maneira harmoniosa.
É claro que, hoje, se Tocqueville visse os EUA, diria sem misericórdia que não gostaria de forma alguma ver o seu diagnóstico realizado.
Contudo, isso não acontece somente na América. O governo centralizado parece ser a idéia fixa do momento tanto no resto do mundo como, olhem só, na nossa terra papagalis.
Aí vem a pergunta: Por acaso já existiu alguém que praticou esse elemento alienígina chamado “auto-governo”, descentralizado, que deixa as coisas acontecerem de forma natural, sem qualquer espécie de intervenção nos assuntos do mercado e do indivíduo?
A resposta é “sim” e foi praticada por Calvin Coolidge.
Quem? Em um mundo em que a mídia faz você acreditar que Roosevelt e Kennedy foram bons presidentes e que Lula e Barack Obama são exemplos de estadistas, é óbvio que ninguém ouviu falar neste sujeito.
Calvin Coolidge foi o presidente que governou os EUA entre Warren Harding (que morreu de ataque cardíaco) e Herbert Hoover (que foi seu secretário de Estado e com quem não se dava bem). Era um homem taciturno, de poucas palavras (seu State of the Union tinha só três linhas…), um quase puritano à maneira de Cromwell e deixava o governo se mover naturalmente.
Resultado: foi nesta época, os chamados roaring twenties, que os EUA tiveram uma das maiores fases de prosperidade econômica – e que terminou logo depois com o crash de 29.
Muitos esquerdopatas e liberais de meia-tigela afirmam que Coolidge foi o responsável pelo desastre porque não autorizou as intervenções necessárias. Talvez tenham razão: Paul Johnson conta, em seu A History of American People, que Coolidge realmente sabia que a bonança não duraria por muito tempo e queria deixar a bomba cair no colo de Hoover – que piorou a situação com mais intervenção estatal. Mas Calvin era também um realista implacável: ele afirmou que a bonança tinha de acabar porque as coisas boas não duram para sempre.
Ou seja, apenas afirmou um princípio básico da arte de governar que, atualmente, muitos insistem em esquecer.
Nos tempos atuais, esta é a lição mais díficil que um presidente pode absorver. Afinal, todos querem dar riquezas inimagináveis ao seu povo. Mas, infelizmente, não podem fazer porque a política não é a arte de agradar a todos e sim, como bem definiu Henry Adams, “a organização sistemática dos ódios“.
Por isso, meu voto para presidente é Calvin Coolidge. Mas, como ele morreu, ficamos a chupar o dedo e a dançar um tango argentino.
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Gilberto Freyre na Flip Parte 1
Data do post: 5 de agosto de 2010

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De olhos bem fechados
Data do post: 14 de julho de 2010
Um das opiniões mais lamentáveis do nosso zeitgeist é a crença idiota de que a China pode ser civilizada simplesmente porque é um “país em franca expansão econômica”, como se isso fosse garantia de que lá pode se respirar um pouco de liberdade.
Qualquer um com dois dedos de testa sabe que isso não é verdade – e Guy Sorman escreveu um texto no City Journal relatando o que realmente acontece na China.
Anotem estes três nomes: Wei Jingsheng, Hu Jia, and Liu Xiaobo. O primeiro está exilado nos Estados Unidos depois de ser expulso por defender o retorno da democracia na China. O segundo está preso em Pequim porque denunciou como a burocracia se omitiu em relação aos casos de AIDS no país. E o terceiro também está preso e, como seu motivo foi justamente a defesa da abertura da Internet e da criação de leis na China, resolveram deixá-lo incomunicável durante os seus onze anos de encarceramento, sem poder falar com um advogado ou sequer escrever para a sua esposa.
E olha que o aspecto econômico não está tão bom como parece. Como explica Sorman:
The new China seduces us with the Olympic Games in Beijing and with “Expo 2010,” a world’s fair currently taking place in Shanghai. But when we look behind the stage curtain, we see a nation divided in two. There are the rich, who consist of Communist bureaucrats and military brass. And then there are the ordinary people, who show themselves to be well-informed and ready to rebel against the Party and its clients. Peasants rise up to overthrow local potentates; workers demand decent salaries; migrants, who work in factories or building construction, refuse to be driven back to their villages (where there is no work) at the whim of the Party; some courageous journalists denounce corrupt officials; Taoists, Buddhists, and Christians organize in groups to pray or to offer charitable services; university scholars call for democracy, or at least decency, from leaders, and for social equity. Between these two social classes there is, to be sure, a hesitant new middle class, but inflation is wearing it down and a real estate bubble will, sooner or later, bring it to ruin.
Uma maravilha, não é mesmo?
E enquanto isso, na nossa América Latrina, Hugo Chávez, o bufão da Venezuela, cada vez mais explícito com suas conexões cubanas, mandou prender Alejandro Peña Esclusa, presidente da Unoamérica, a única entidade civil que resolveu ter a coragem de ir contra os mandos e os desmandos chavistas. Em uma história digna de relatório da KGB, acusam Peña Esclusa de terrorismo ao descobrirem, dentro de sua casa, explosivos que seriam usados para uma bomba; como acredito que um terrorista jamais esconderia seus artefatos de maneira tão displicente, só há uma única possibilidade para tal fato: a de que Esclusa não é e nunca foi um terrorista e que isso não passa de uma tremenda armação.
O problema é que, tanto no caso da China como no da Venezuela, a mídia e a opinião pública ficaram de olhos bem fechados. Não querem ver o que realmente acontece debaixo de seus narizes. É uma omissão que ninguém sabe se é proposital ou um dos sintomas da loucura coletiva. Se for uma mistura de ambos, só posso dizer que isso não é um bom prognóstico para nós, especialmente após as eleições de Outubro, seja lá quem for vencê-las.
Edmund Burke dizia que a única coisa necessária para o triunfo do mal é que os bons não façam nada. Não tenham dúvidas de que o mundo se encontra exatamente nessa situação.
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Devemos rezar por Christopher Hitchens?
Data do post: 7 de julho de 2010
Semana passada soube-se que Christopher Hitchens, o famoso polemista que xingou Madre Teresa e disse que Deus não é tão grande assim, foi diagnosticado com um câncer no esôfago.
Como diria Conrado Soprano nesses momentos, foi surpreendido pelo big cassino.
Ou não: depois de anos gabando-se de suas bebedeiras, suas carreiras de cocaínas e seus experimentos em waterboarding, alguma coisa tinha de acontecer.
Mas isso é um pensamento vulgar para nos acomodar e – pior – nos confortar para algo que pode acontecer a qualquer um de nós.
Um dos colegas de Hitchens na revista The Atlantic, Jeffrey Goldberg, faz a impertinente pergunta aos seus leitores mais crentes: Devemos rezar por Christopher?
Antes que os leitores carolas da Dicta resmunguem, este humilde escriba não hesita e diz que a resposta é sim.
Contudo, o texto de Goldberg, leve, ameno, com pitadas de ironias salpicadas até para o próprio doente, mostra sem saber um problema mais profundo: o fato de que, quando alguém se depara com a indesejada, não há outra maneira de enfrentá-la exceto… rezando. Mas para quem?
O detalhe dessa história é que quem se encontrou com a dita-cuja é um intelectual – e quando isso acontece com um, afeta todos os outros.
Afinal, o raciocínio é o seguinte: se aconteceu com ele, um sujeito que se vendia como alguém “bigger than life”, pode muito bem acontecer comigo.
Mas não era um intelectual qualquer. Era um intelectual que negava a possibilidade de qualquer perspectiva metafísica na vida cotidiana.
Logo, quando se está no portão da agonia, a quem apelar? A Deus, este conceito estranho que abarca algo que ninguém na História conseguiu entender direito? Aos deuses da medicina? Aos átomos de Epicuro? Ao Johnny Walker? Não, o intelectual se mantém fechado em sua auto-suficiência e apela para a ironia, para as seitas do Aloha-ei (se não entendeu a referência, leia o texto…) e, no fim, tudo isso se revela como disfarce para esconder a hubris.
O que é algo sintomático da nossa cultura. Se todos rezam por alguma coisa, quem será que vai te atender?
Devemos rezar por Christopher Hitchens? Sim, é óbvio. Mas creio que, antes de tudo, é melhor ter alguém para nos escutar (e, claro, escutá-lo).
Atualização: Os comentários sobre este texto foram bloqueados. Aqui não é a casa da Mãe Joana.
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