Pirateando Paulo Coelho
Data do post: 3 de fevereiro de 2012
“Pirates of the world, unite and pirate everything I’ve ever written!” Posso não ser dos maiores fãs obra de Paulo Coelho, mas seu grito de ordem é sim matéria para uma boa análise, se por nada, pelo fato de estarmos lidando com uma das inteligências mais argutas de nosso tempo. Argúcia não é sofisticação e como não é meu tema o arrivismo gauche de artistas, fico livre para dispensar malandragens filosóficas e tecer comentários sobre coisas menos sutis que os “novos valores” e a “nova era” que surgem com a pirataria digital. O que quero entender é algo bem mais prosaico: como a estratégia de liberar ao público a distribuição gratuita do próprio trabalho pode ser uma saída comercialmente estimulante – ao menos para um dos escritores mais ricos de todos os tempos.
Para isso precisamos retirar as premissas falaciosas. Paulo Coelho se tornou célebre por fazer algo que muitos costumamos chamar de literatura de auto-ajuda, mas é importante saber que seu pedido de pirataria não foi feito para ajudar os outros – embora possa parecer quando em algum momento do seu artigo diz, sem qualquer modéstia, “uma boa ideia não precisa de proteção”, fazendo referência às próprias idéias, é claro. Todos que já trabalhamos em alguma atividade competitiva sabemos que para propor algo assim abertamente, a liberação do uso livre de determinado produto, deve-se avaliar muito bem o xadrez da complexa cadeia produtiva em que se insere, e saber o quão protegido se está – e, no mundo da cultura, aquela cadeia do mercado editorial é das mais fechadas e complexas que há. Ninguém, ali ou qualquer lugar, ganha dinheiro por ser bonzinho, mas por saber organizar e vender seu produto. Neste sentido, o Paulo Coelho que libera seu material na internet não é um coroa saudosista da contracultura. Se o escritor fez, com a proposta espalhada aos quatro ventos seu “turn on” e “tune in”, definitivamente ele não é um “drop outer”.
Então se seu gesto é calculado e descontamos a possibilidade de benemerência, alguém de tino para negócios certamente não tão bom quanto o escritor poderia achar que Paulo quis surfar em uma onda da ocasião. Afinal, o post invocando a própria “profanação” saiu no dia 20 de janeiro passado em seu blog pessoal. Naquele momento é imaginável que o escritor tenha agido provocado pelos fatos mais quentes do período quando o mundo viu a prisão do incrivelmente rico e obeso Kim Dotcom, fundador do site de troca de arquivos digitais Megaupload e o Congresso norte-americano discutia a SOPA, lei antipirataria que, pelo poder econômico e político dos EUA, teme-se, tornar-se-á inevitavelmente uma espécie de padrão a partir de onde todos os outros países civilizados discutirão a sua legislação autoral para mídias digitais.
Talvez tenha algo de oportunismo publicitário na escolha do momento certo, mas a publicidade e seu senso de ocasião é apenas um elemento para uma boa estratégia de marketing. Devemos descontar de imediato tal leviandade, antes de tudo, por respeito à personalidade do escritor – as correntes de opinião mudam com o tempo e um sujeito bem sucedido como ele não poderia sê-lo se agisse por mera resposta a correntes de opinião, mobile qual piuma al vento.
Não há qualquer resquício de saudosismo hippie, bom mocismo politicamente correto ou sensacionalismo publicitário na chamada de ordem de Paulo Coelho para que seja pirateado tudo que escreveu. O que há é método.
Ao debruçar sobre seus porquês qualquer um perceberá que para fazer o que faz, ao contrário dos nossos analistas mais sabichões, o escritor se atém a fatos – e como bom mago que é, não os esconde. Em 1999, Paulo Coelho era publicado na Rússia com uma tiragem de cerca de 3000 exemplares, prejudicada pelo alto preço do papel; ao descobrir uma versão pirata online, a torna imediatamente pública em seu próprio site – e quando a crise do papel acaba, um ano depois, percebe que suas vendas sobem ao volume de mais de 10.000 cópias. Desde então suas vendas só têm aumentado, chegando, na Rússia, a quase 12 milhões de exemplares. Neste processo, o que chama sua atenção foi o fato de saber, através de encontros casuais, que muitas pessoas travaram contato com sua obra primeiramente através das edições piratas – inclusive aquelas veiculadas online!
Sua explicação para esta realidade mostra uma sensibilidade particular para entender a natureza do produto cultural. Paulo Coelho defende que, à diferença de outros bens de consumo, um objeto cultural não se resume aos seus elementos materiais mas pelo seu valor imaterial. E este valor imaterial é, também, afetivo. É isso que, de alguma maneira, segue preservado apenas em experiências específicas e faz com que a música não se resuma à sonoridade do disco, e o teatro à imagem da tela. Eles são coisas diferentes que prevêem formas tipo específicas de experiência.
Já se pensou que a foto acabaria com a pintura, o gramofone com a sala de concerto, o cinema com o teatro. Hoje, mesmo com a volta do vinil, muitos ainda advogam que o youtube vai acabar com a indústria fonográfica. Mas o que muitos chamam de extinção é apenas uma radical transformação. Uma nova tecnologia dificilmente esgota as potencialidades de outra e talvez jamais ouçamos música como antigamente. Mas o fluxo dos museus, das salas de concerto, a proliferação de livrarias e cinemas já deveriam nos deixar desconfiados: talvez hoje tenhamos muito o maior público em toda história da cultura para cada uma dessas velhas atividades.
A boa percepção de Paulo Coelho foi compreender que o maior potencial de redes sociais e sites de compartilhamento, a natureza mesma destes meios, é funcionar como canal divulgação – e não de distribuição. Estas são duas etapas distintas da cadeia produtiva e, para ele, a internet jamais poderá substituir a experiência da leitura física de um livro de papel. Não há Ipad que suporte uma rasura, e a aposta de Paulo Coelho é que a pirataria se torne apenas – quando tratando de objetos culturais – uma apresentação, uma antecipação da experiência. Há sim algum risco, mas no caso do livro, um risco calculado pois ele preserva uma vantagem evidente frente a outras tecnologias. Como diz o Millôr, livro não enguiça.
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Questão de Honra
Data do post: 1 de fevereiro de 2012
Deve um capitão afundar com seu navio? Qualquer que seja a resposta, uma coisa é certa: ele não deve fugir na surdina e deixar os passageiros desamparados. Theodore Dalrymple, tomando o recente e trágico caso italiano do Costa Concordia como ponto de partida, indaga sobre o dever de um capitão, e James Bowman aponta o que, segundo ele, foi perdido mas é essencial para esse debate: o vocabulário da honra.
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A Lei Rouanet

Nove bilhões de reais, seis ministros e vinte anos depois, a Lei Rouanet se tornou fundamental. Como aponta Henilton Menezes, o Secretário de Fomento e Incentivo à Cultura do MinC, hoje a Lei é responsável pela manutenção de instituições como o Centro Cultural Banco do Brasil, o Museu de Arte de São Paulo e a Fundação Iberê Camargo, publicações como a Bravo, a Cult ou a Revista de História, a restauração de edifícios como o Theatro Municipal e o Convento de Santo Antônio. Através dela são viabilizados o Festival de Gramado, o Festival de Cinema de São Paulo, a Festa Literária Internacional de Paraty (FLIP), o Festival de Teatro de Curitiba e praticamente todo movimento teatral das cidades do Rio de Janeiro e de São Paulo. Com ela mantém-se o Teatro Oficina, o Grupo Galpão, o grupo “Corpo”, a Cia. de Dança Deborah Colker. A Lei dá uma forcinha nada singela ao Instituto Cultural Itaú, à Academia Brasileira de Letras, ao Rock In Rio, aos carnavais do Rio de Janeiro, de Pernambuco e da Bahia, às festas juninas do Nordeste…
Tudo de uma vez só. É de se pensar o que foi a produção cultural brasileira antes da Lei e a impressão que uma lista como essa nos dá, inevitavelmente, é que antes não havia nada. Muito embora contemos com lembranças melancólicas da atividade operacional da cultura em franco diletantismo, a indústria do cinema em frangalhos, as orquestras sinfônicas miseráveis e de teatros funcionando em guerrilha [link restrito para assinantes do UOL], há hoje, com a lei em vigor, evidentemente algo para lamentar e o mais relevante é que sua penetração na vida cultural cria uma cadeia insólita de artistas que não arriscam ou do sucesso que prescinde de público. E cria a figura curiosa do mecenas que não gasta dinheiro.
Pois é costumeiro, embora inverídico, dizermos por aí que não temos no Brasil a cultura do mecenato. Nossa história conta o contrário, e temos personalidades relevantes no patrocínio das artes no passado recente, em figuras como Paulo Prado, Francisco Matarazzo, Arnaldo Guinle, Octávio Gouveia Bulhões, Osvaldo Riso, João Moreira Salles, Mario Henrique Simonsen, entre outros. Nenhum deles usou a Rouanet. Atualmente poderíamos discorrer uma lista similar com novos nomes, atores significativos que mantém acervos particulares, realizam contribuições regulares ou se lançam em projetos de absoluta relevância cultural e impossível retorno financeiro – e que não estão nem aí para leis de incentivo.
Há uma parcela da crítica cultural que acusa a Lei Rouanet de ter acabado com esta figura quase ingênua do amante que investe em arte – leia-se, artistas. A Lei teria permitido que o investidor seja vilão não do próprio dinheiro, mas do dinheiro público. A Rouanet realizaria essa perversa “democratização” do mecenato, não no sentido em que todos possamos investir em arte mas a de obrigar a todos, querendo ou não, que invistamos em arte. O dinheiro que paga parte da produção das festas juninas, do filme nacional que ninguém vê, e do sucesso da Festa Literária de Paraty é descontado daquele que uma empresa deveria pagar ao governo em forma de imposto de renda; ao invés de dar ao estado, ela direciona ao projeto que lhe convém. Ou seja, ao invés de tornar-se dinheiro público segue sendo dinheiro privado, de uso público (mais ou menos, dependendo do projeto).
Em sua defesa podemos comentar o óbvio: sabemos muito bem da destreza do funcionalismo em investir e podemos imaginar, por inferência, os caminhos que o dinheiro do imposto devido passaria para retornar como investimento em cultura. O pensamento por trás da Rouanet é, portanto, uma forma curiosa de pragmatismo liberal: se temos que pagar impostos altíssimos, e tais impostos são notoriamente mal usados, melhor seria não pagar tais impostos; mas isso seria crime, então, por que não criar um mecanismo que permita ao contribuinte usar diretamente parte do valor do imposto devido? Imagino que se tivéssemos um mecanismo como a Rouanet em outros ambientes que não o cultural, e a empresa ou cada um de nós, ao invés de dar ao governo parte do exorbitante imposto devido, aplicássemos diretamente na escola do bairro, no recapeamento das estradas e ruas… Seria uma solução engenhosa, que criaria outros problemas curiosos, mas certamente não o fortalecimento do funcionalismo.
No entanto, nestes termos específicos, o dilema maior da Rouanet segue sendo exatamente um fato, o de que o mecenas não tira do bolso seu investimento. O imposto é devido, e muito embora possamos fazer críticas severas à alta carga tributária do país e seu mau uso, o fato é que, pelas regras do jogo, aquele dinheiro não deixa de ser dinheiro do governo – ou seja, de todos os contribuintes. A única forma de tornar a Rouanet menos perversa, nestes termos, é diminuindo a carga tributária e, concomitantemente, aperfeiçoando os serviços da estrutura estatal. Alguém vê isso no horizonte?
Não deixa de ser um acaso feliz que tenha sido o meu, o nosso dinheiro a financiar o sucesso do primeiro “Tropa de Elite”, a vinda de Tom Stoppard para a FLIP e a de Peter Brook para o Festival de Porto Alegre, os quentões e salsichões dos arraiais deste Brasilzão de Deus. Não ter desfrutado de tudo daquilo não é realmente um problema; parodio a máxima de Sergei Diaghilev, empresário dos balés russos: afinal, por que perder minha imaginação (e dinheiro) comigo mesmo? Tranquilizo-me pensando que poderia ter servido para coisas piores, como aparentemente servirá em breve, com a aprovação dos games e do gospel como modalidades passíveis de patrocínio… Mas isso é outra história.
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A festa da reflexão irresponsável
Data do post: 17 de janeiro de 2012
Quais são os ingredientes para um debate público de qualidade no Brasil? A reedição das obras de José Guilherme Merquior pela É Realizações é uma boa notícia para quem quer dar uma resposta honesta à questão. Reconhecido por seu trabalho como crítico literário, leitor incomparável de poesia, Merquior desempenhou na vida da inteligência nacional ainda o papel do crítico cultural em sentido mais amplo, essa figura comum nas tradições europeia e americana, como um Walter Benjamin ou um George Steiner. A amplitude dos temas abordados pelo autor é prova mais que suficiente disso, e o leitor poderá conferir por conta própria e com grande prazer à medida que vá lendo seus trabalhos, felizmente de volta ao mercado, agora em edições preparadas pelo professor João Cézar de Castro Rocha, da UERJ.
Merquior acreditava na relevância do artigo de jornal ou revista, no texto de intervenção pontual, dito “atualidade” em outros tempos; sobre o tema, citava, aprovando, Ortega y Gasset, que via nesse tipo de texto “uma forma indispensável do espírito”. Uma lição simples, mas cujos resultados são, ao menos potencialmente, tremendos. Pensada nesses termos, a intervenção pública nos assuntos da hora deixa de ser banal, personalista e inócua, e assume os contornos civilizatórios que por tanto tempo teve em outras terras – na Inglaterra e na França, sobretudo. Se não me equivoco, apenas o intelectual que entra na arena pública tendo aprendido essa lição faz seu trabalho com o senso de responsabilidade moral que a coisa exige.
Com livros como As Ideias e as Formas (1981) voltando a circular mais amplamente, talvez seja possível reconhecer algumas de nossas fraquezas em matéria de vida intelectual, quem sabe mesmo dar-lhes o devido combate. Não me refiro ao eterno “circuito do elogio mútuo”, que impede o atrito autêntico, a crítica em seu sentido mais forte; tampouco à superficialidade e ao baixo-nível que parecem ter triunfado com a mesma força nas bancas de jornais e nas de doutoramento país afora. Refiro-me a traços menos óbvios, mas não por isso menos atuantes em nossos esquemas mentais, e que Merquior, no artigo que dá nome ao livro de 1981 citado acima, mapeou muito bem.
Um desses elementos o autor chamou de “purismo misológico”, uma atitude “intransigentemente hostil à racionalidade da ideia”. Foi em seu Formalismo e Tradição Moderna (1974) que Merquior tentou rastrear essa degenerescência da poética romântica – para usar seus próprios termos – que resultou em nada menos que uma “fúria misológica”, uma variedade muito peculiar de irracionalismo. Mais que anti-intelectualismo, trata-se de um ódio ao conceito: Imagem contra conceito, sintetiza o autor. Um prêmio aos que pensaram em Nietzsche, para quem as ideias são obras de arte… Ao constatar a usurpação da forma pela ideia e escrever-lhe a genealogia, ao atacar a estetização do pensamento, enfim, Merquior parece que falava para nosso tempo:
O irracionalismo ambiente não reclama outra coisa: “insights” em lugar de análises, intuições indemonstráveis, conceitos altamente “artísticos”, em suma: a festa da reflexão irresponsável.
Essa ojeriza ao argumento, à análise (por definição algo lógico e racional), enfim, essa “fúria misológica” de que fala Merquior contaminou as mais elementares condições de possibilidade para um debate esclarecido sobre o que quer que seja, com um agravante em nosso tempo: no lugar de um homem de gênio como Nietzsche, enfrentamos hoje pessoas que sequer são capazes de compreender o que seja um argumento ou uma análise. No atual estado do problema, a investigação de Merquior parece ir longe demais, mas tal impressão se dá somente porque o irracionalismo já triunfou, virando moeda corrente tanto nas redes sociais como nas aulas de pós-graduação das melhores universidades, tanto nas palavras inflamadas dos porta-vozes do multiculturalismo como na prática moralizante dos desiludidos à esquerda e à direita no espectro político.
E esta lição, sim, é antiga: sem razão, não há responsabilidade; e “debate público” sem ambas, razão e responsabilidade, é a festa do pensamento irresponsável – com cada vez menos pensamento, aliás.
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Perdão: estatal ou pessoal
Data do post: 4 de janeiro de 2012
Ano Novo é tempo de propósitos de melhora pessoal. Melhora pessoal pressupõe que, no ano velho, tivemos falhas, pecados, erros (escolha a opção mais de acordo com sua visão de mundo). Algumas dessas falhas, por infringirem os direitos alheios ou serem perigosas ao bem comum, são criminalizadas.
Todos nós, que vivemos em sociedades moldadas por valores judaico-cristãos, entendemos o valor do perdão. Todo mundo peca. Todo mundo precisa de segundas chances. Por isso, todo mundo merece uma segunda chance de seus semelhantes. Mesmo um criminoso. E que chance ele terá na vida se tiver que expor seu passado criminal a todo empregador potencial? Deveria o Estado, portanto, proibir que empregadores tivessem acesso à ficha criminal de seus candidatos? Uma pergunta válida.
Vejam a resposta ponderada e muito lúcida de Theodore Dalrymple, pseudônimo famoso de nosso contribuidor habitual Anthony Daniels.
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Ano Novo
Data do post: 2 de janeiro de 2012
No texto passado falei do Natal, festa cheia de significados, tanto religioso como laico, que corre o risco de se esvaziar. Já o Ano Novo é uma festa, a primeira vista, sem significado; a celebração pela celebração, com uma data arbitrária pra servir de pretexto. Cumpre que encontremos seu significado, se é que ele existe.
O que comemoramos duas noites atrás? A passagem do ano. O tempo que continua passando como sempre passa. Ou seja: a volta da Terra a um ponto arbitrariamente escolhido em sua órbita do Sol. O Ano Novo, aliás, nem sempre foi em 1 de janeiro. Na Inglaterra e colônias era celebrado, até meados do século XVIII, em 25 de março.
Talvez o melhor símbolo da festa sejam os fogos de artifício: uma beleza exuberante, brilhante, que dura poucos segundos e se apaga, como a alegria fugaz das pessoas a festejar a passagem de um dia e a determinação igualmente ilusória de grande mudanças para o ano que se inicia.
Ou estarei talvez sendo cínico demais? Pois imaginemos um mundo sem Ano Novo. Um mundo em que fosse mês após mês após mês, sem nunca fechar um ciclo maior. Ou ainda semana após semana, ou dia após dia. Estamos no dia 734017 d.C. (valor aproximado), amanhã será o dia 734018 d.C., e continuamos assim, sem respiro, sem nenhum horizonte de prazo mais longo para descansar a vista. Um pouquinho opressivo, não é?
O tempo é linear, mas o homem precisa que essa linha seja composta de ciclos que dêem à sua vida rotinas, prazos e metas, como cenouras à frente dos cavalos para que eles sigam sempre em frente. Felizmente, calhou de que o ciclo de translação da Terra ocorra num período bem adequado à vida humana: longo o bastante para que nos permita fazer planos e não se banalize, mas não longo demais, que nos levaria ao desespero. Providência? Evolução? Ambos, talvez. O fato é que o homem, que é o que há de mais valioso no universo, demanda marcos de passagem, e que o ano constitui, por sua natureza, uma unidade muito importante na vida humana, devido aos ciclos sazonais. Sim, o ponto que escolhemos é arbitrário, mas o ciclo que ele celebra não é. Sendo assim, o Ano Novo é uma celebração da humanidade, ou melhor, do que a humanidade poderia ser; e daí os propósitos de fim-de-ano.
Comemoremos, então o Ano Novo, e que nossos desejos de melhora para esse novo ciclo não tenham duração tão curta quanto os fogos de artifício e o gás da champanhe.
Feliz 2012 a todos!
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Morre Daniel Piza
Data do post: 31 de dezembro de 2011
Esse fim de ano está, ao menos é o que me parece, especialmente tétrico. Vaclav Havel, Joãosinho Trinta, Cesária Évora, Christopher Hitchens; e agora o jornalista Daniel Piza, vítima de um AVC inesperado na noite de ontem, 30/12. A natureza é mesmo indiferente às expectativas humanas. Leva-nos a pensar na fragilidade da vida.
Aguardem, contudo, para hoje ou amanhã, uma mensagem mais otimista sobre a passagem do ano.
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Lei da Palmada, ou Xuxa vai ao Congresso
Data do post: 28 de dezembro de 2011
Os ilustres do Congresso conseguiram mais uma: aprovaram a Lei da Palmada, que agora segue para o Senado. Sim, a palmadinha será proibida e passível de punição; basta que alguém delate o agressor. O benefício é 2 em 1: não só coíbe uma prática violenta e perigosíssima como estimula a virtude cívica da delação. O projeto de lei é da ex-deputada, hoje ministra, Maria do Rosário; a mesma que considera o aborto questão de saúde de pública. Ou seja: palmada no bumbum, ato criminoso; esquartejar feto e jogá-lo no lixo, medida profilática. Detalhes. Vamos à discussão da palmada em si.
O que mais chama atenção é a ausência de qualquer dado objetivo para embasar a afirmação principal: palmadas esporádicas na criança pequena têm consequências danosas no longo prazo? Há pesquisas que mostram que maus tratos e violência doméstica têm; mas essas práticas já eram proibidas. Por que ir além da lei existente e punir também a palmada leve? Leia mais…
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Os três espíritos do Natal
É lugar-comum conservador criticar a época do Natal como desprovida de seu sentido espiritual original, tendo sido reduzida a mera festividade egoísta e materialista, celebração vazia do comércio e do consumismo exacerbado.
Sou o primeiro a deplorar o exército de Papais Noéis que dominam a cidade em novembro, impondo em terras brasileiras o império da cafonice americana (não que careçamos de muitas e abundantes cafonices nacionais!), e que hoje começaram a bater em retirada. Mas não é verdade a afirmação de que, se o Natal não é religioso, ele é egoísta, materialista, ou o que o valha.
O Natal continua a ser uma celebração, ao menos em intenção, do amor entre os homens; de um amor benevolente, generoso, que quer espalhar esperança e alegria a todos. Os dois rituais do Natal laico o ilustram bem: a troca de presentes e a ceia.
Tomem a troca de presentes. Ela não é, de forma alguma, uma mostra de egoísmo e ganância. O que egoístas fariam? Comprariam presentes para si, e não para os outros. Do ponto de vista material, o Natal é uma grande perda econômica. Faça o cálculo com você mesmo: calcule o montante que você gastou com presentes este ano. Suponha que este montante de dinheiro equivalha precisamente ao valor monetário dos presentes que você recebeu. Agora pegue todos esses presentes recebidos (os calções de banho, as meias, etc.), olhe-os com calma e reflita honestamente: valem o que custaram? Não valem. Se o dinheiro tivesse sido dado em sua mão, você poderia fazer um uso muito melhor dele. Quem melhor sabe o que você quer é você mesmo; não seu tio-avô.
O valor da troca de presentes está em ser troca; em pensarmos nos nossos familiares e amigos e dar-lhes algo de que gostem. Fora um ou outro presente ideal – categoria mítica que designa o presente tão bom que supera o que a própria pessoa poderia comprar para si – o benefício dos presentes está nos laços de amor que unem os participantes da troca, que são com ela fortalecidos. A ceia também não vale pelo peru e pela farofa, mas pela união familiar que celebra e efetua. Para muitas famílias, é a grande reunião do ano; e, em geral, uma reunião alegre. Assim, a festa de Natal laica, a festa de Dickens, de Frank Capra e do Papai Noel, não é a festa do egoísmo, mas do amor entre os homens.
Não foi Dickens, contudo, quem inventou o Natal. Ele sempre foi uma ocasião festiva no Ocidente, com banquetes, cantigas, peças dramáticas religiosas, trocas de presentes (dados seja pelas muitas versões locais do Papai Noel, oriundos de S. Nicolau, ou pelo Menino Jesus em pessoa) e celebrações várias. A árvore de Natal existe desde pelo menos o século XVI na Europa central. A cantiga “Noite Feliz”, criada por um padre austríaco e até hoje uma expressão clara da ternura e alegria do espírito natalino, data de 1818, ou seja, é anterior ao conto de Dickens. O Natal antes dele nem passava batido e nem era uma bacanália camponesa.
Enfim, se Dickens não criou a festa, podemos dizer que seu conto manifesta, com maior força, o espírito do Natal laico; espírito cuja gênese histórica está no Natal religioso mas que busca se afirmar como realidade autônoma, aberta e atrativa a todos, não apenas aos cristãos. É esse o Natal público de nossos dias, naquilo que ele tem de melhor, e seu representante é o Papai Noel, figura que só alguém inacreditavelmente ranzinza quereria destruir.
Essa festa laica, contudo, corre o risco de se esvaziar. Quando a compra dos presentes vira uma obrigação custosa e estressante e a escrita dos cartões um processo burocrático; quando a ceia familiar é um ritual tedioso e do qual se quer escapar; quando as decorações de Natal, cujo objetivo é transmitir alegria, tornam-se objetos de competição e vaidade. Então, a “good will to all men” sai gradativamente de cena, deixando em seu lugar enfeites e embalagens coloridos que escondem um espírito cinza, um espírito que com o tempo convencerá a todos que a festa custa mais do que vale. Esse terceiro espírito, o do puro egoísmo materialista, terá vencido quando, e se, o mundo não mais celebrar o Natal e não mais trocar presentes.
Pode ser que o espírito laico do Natal, universalmente acessível e valorizado, se descolado do espírito religioso que o originou, degenere irremediavelmente no espírito materialista que o nega. E se esse for o caso, não se ofendam os ateus com presépios e manjedouras. Permitam, tolerem; ou melhor, abracem, encorajem e até participem das cantigas, Missas e rezas, pois o império do Papai Noel pode levar à morte do Papai Noel. Sem esperança de ressurreição.
Um feliz Natal a todos!
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David Cameron finalmente virou macho…
Data do post: 13 de dezembro de 2011

… e resolveu enfrentar a loucura da tirania fiscal que a dupla Merkozy quer impor ao resto da Europa.
Querem saber mais sobre isso? Então leiam o blog de Daniel Hannah, no Telegraph, que explica direitinho o que está em jogo na União Européia:
What have they got against the City? Some Eurocrats dislike capitalism in principle. Others regard London as a lawless entrepot that has grown rich from the sweat of ‘proper’ workers elsewhere. Some simply don’t like the British. Still others resent the way in which their highest earners are paying taxes to our Exchequer rather than their own treasuries. Nicolas Sarkozy, who launched his presidential campaign among the large French community in Kensington, was recently overheard gloating that, if the UK had to raise its taxes much further, ‘we might get our young people back’.
I can count 47 pieces of legislation on financial services currently clanking their way through the EU machinery – not counting the recently-adopted ‘six pack’, and not counting flagrantly anti-British measures that have already been passed, such as the AIFM Directive.
What can we do about it? Since the EU plainly intends to be unhelpful, if not downright vindictive, we shall need to find unilateral ways to protect our interests. And when I say ‘our interests’, I mean those of the nation as a whole, not those of a handful of bank executives. As I never tire of arguing, there is a world of difference between being pro-market and being pro-business. The trouble with the EU’s agenda on financial regulation is not that it is anti-business – on the contrary, some of the mega-corporations welcome it, knowing that they can assume the compliance costs more easily than their smaller competitors – but that it is damaging to our national prosperity.
The financial services sector is one of the few in which Britain leads the world. Its impact is felt well beyond London. My South East England constituency benefits enormously from the wealth generated by London: hundreds of thousands of my constituents owe their jobs directly or indirectly to the City. The industry also employs 100,000 people in Birmingham and 150,000 people in Scotland. It generates nearly 12 per cent of the government’s total tax take, and 3 per cent of our export revenue. It is as important to us as heavy industry is to Germany or agriculture to France. They, of course, would not countenance accepting EU rules that damaged those sectors.
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