Uma luta muito antiga…
Data do post: 14 de março de 2010
Neste post esclarecedor, Richard Fernandez explica e comenta as raízes da luta entre cristãos e muçulmanos que desembocou, por exemplo, no massacre de 500 pessoas que ocorreu na cidade de Jos, na Nigéria, há cerca de uma semana – e que foi tratado com desprezo pela mídia e pela casta política (obviamente, se as vítimas fossem muçulmanas e não cristãs, tenho certeza de que a reação seria diferente).
Fernandez se inspira nas observações do prof. Philip Jenkins, que afirma claramente que o futuro do Cristianismo não se encontra mais no Ocidente secularizado e sim no Terceiro Mundo africano. Vejam só um trecho:
The relationship between Christianity and Islam poses a challenge for at least half of the 20 nations expected to have the world’s largest populations by 2050. By present projections, three of these future mega-states—Nigeria, Ethiopia, and Tanzania—will be almost equally divided between the two faiths. In several others, like the Congo, the Philippines, Russia, and Uganda, predominantly Christian nations will have Muslim minorities of 10 percent or more. Mainly Muslim states will coexist with comparable Christian sub-populations in Indonesia, Egypt, and the Sudan. In all of these places, if relations between the faiths do not improve over the next 40 years, prospects for civil order are terrifying. The world’s roster of failed states would have several new members.
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Relembrando Eric Rohmer
Data do post: 12 de março de 2010
Porque é bom lembrar de quem sempre foi elegante com Deus e também com os homens.
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Vocação na obscuridade
Data do post: 11 de março de 2010
Interessante artigo de Gary North, sobre músicos e intelectuais que trabalharam anos – ou décadas – a fio na mais completa obscuridade para serem fiéis a sua vocação, isto é, a um projeto cuja importância eles perceberam claramente e que ninguém mais no mundo se disporia a fazer. Após décadas de trabalho árduo, solitário e frequentemente não-remunerado, tendo criado uma obra respeitável ou completado um projeto visionário, morreram antes de alcançar qualquer fama (ex: o tradutor do código de Justiniano para o inglês). Mas o mundo lhes é imensamente grato pelos frutos de seus esforços. Graças à internet ou outras novas tecnologias, uma multidão pode agora se beneficiar deles.
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O drama das idéias
Data do post: 10 de março de 2010
Um romance não é apenas uma boa história – é também sobre uma idéia que nos perturba há muito tempo. Logo o catalogam de “romances de idéias”, mas é uma das coisas mais difíceis de serem feitas. Até mesmo Otto Maria Carpeaux, esse gigante que usava o papel de jornal para lançar seus pensamentos, não gostava muito do gênero – e, uma vez, atacou Thomas Mann justamente por isso, alegando que ele escrevia mais um ensaio do que propriamente um drama.
Rebecca Goldenstein, autora de um romance razoável sobre Kurt Gödel (Incompletude), discordaria disso. Em uma seleção de cinco melhores livros de idéias para o Wall Street Journal, apresentou uma lista impecável, que chega ao topo com um dos meus romances favoritos: Herzog, de Saul Bellow. Mas sobra espaço para o próprio Thomas Mann (que comparece com uma pérola que poucos conhecem, O Eleito), George Eliot e até mesmo a minha querida Iris Murdoch; talvez para a lista ficar verdadeiramente perfeita, eu acrescentaria O homem sem qualidades, de Robert Musil, Os sonâmbulos, de Hermann Broch, e qualquer romance de Dostoievski, seja os de menor ou de maior fôlego (respectivamente, Memórias do Subsolo e Os Demônios).
Tudo isso para fazer a seguinte pergunta: será que a literatura brasileira já fez algo parecido no gênero ou ela também sofre de esterilidade até mesmo nesse formato? Eis um drama para as gerações futuras pensarem.
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Dicta, a revista que antecipou o Oscar
Data do post: 8 de março de 2010
Onde você ouviu em primeiro lugar sobre um filme modesto sobre a Guerra do Iraque que ganhou de uma baboseira magalomaníaca? Sim, foi aqui, na Dicta. Mas temos que ser honestos e admitir que este jornalista só pegou carona com o Filipe Furtado (que anda sumido) e o Sergio Alpendre (que anda a escrever uns posts esquizofrenicos cada vez melhores).
E eu tenho certeza de que, enquanto você lê este texto, o responsável pelo marketing da Europa Filmes foi demitido por justa causa.
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O fenômeno Avatar
Data do post: 5 de março de 2010
Ainda não vi Avatar, embora tenha lido tanto a respeito que sinto já conhecê-lo a fundo. Sei da história absolutamente convencional de civilizados malvados contra nativos bonzinhos, da filosofia/religião panteísta que permeia a vida mais nobre e pura dos N’avi, das caras na minha opinião muito feias, mesclas azuis de gato e homem, e que o grande atrativo são os efeitos especiais em 3D. Sei também que só conhece mesmo o filme quem o experimentou, pois Avatar é antes de tudo uma experiência sensorial, e não algo para se pensar a respeito. Os casos de “blues pós-Avatar”, espectadores que entram numa leve depressão depois de ver o filme pois o mundo real supostamente não chega aos pés da beleza de Pandora deixam-me intrigado.
Até chegar o dia fatídico, fico com a análise de James Bowman sobre o filme e o fenômeno por ele gerado.
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Ignorantes, mas com opinião
Data do post: 4 de março de 2010
Indivíduos que cursaram as melhores universidades dos EUA não têm mais conhecimento sobre a história, economia ou instituições do país do que aqueles que não fizeram curso superior. O único efeito de se ter educação universitária parece ser a radicalização (para a esquerda) das opiniões políticas. Pelo menos é isso que diz um recente estudo.
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A política e os bispos
Data do post: 3 de março de 2010
Os bispos católicos da Inglaterra e de Gales lançarão um documento com seus pensamentos acerca da campanha política pelo poder no país. Tudo indica que os conservadores se elegerão, depois de uma longa hegemonia trabalhista, então a hora é boa para pronunciamentos desse tipo. Muito já era esperado: crítica às políticas que negam a vida humana, à aceitação civil do homossexualismo e à intolerância religiosa por parte do governo (que quer obrigar escolas católicas, por exemplo, a ensinar seus alunos onde fazer um aborto). E no meio dessas declarações, um insight novo, e que considero na mosca: os bispos alertam para o dano de se tentar substituir a virtude pessoal e cívica por regulamentações burocráticas.
Quanto da civilização ocidental não padece disso? Serviços e leis desenhados para resolver os problemas da vida dos cidadãos, mas cujo efeito acaba sendo destruir pouco a pouco suas vidas. Criação de direitos infinitos (direito à educação, ao lazer, à cultura, ao trabalho – ou seja, direito de ficar de braços cruzados enquanto outros provêm os serviços). Leis que prescrevem integralmente como deve se dar a conduta humana. Vigilância 24 horas por dia para se certificar que ninguém quebra as regras. Nem preciso dizer que a educação, o lazer, a cultura e o trabalho vão todos por água abaixo.
Infelizmente, os bispos ainda não enxergaram que seu ranço anti-mercado tem sua parte nesse sistema de incentivos torpes, e que o governo socialmente solidário que propõem é idêntico ao governo burocrático e viciador que condenam.
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Política de um filho
Data do post: 2 de março de 2010
Todos conhecemos a infame política chinesa de um só filho. Este livro relata algumas das experiências terríveis que a lei gerou.
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Viagem à Itália II – O Natal é para todos
Data do post: 26 de fevereiro de 2010
Um mês foi o tempo que passei na Itália; um mês é o tempo que passou desde o primeiro post sobre a viagem. Mas viajar não é bater ponto, e escrever é aceitar que o tempo passa.
Então voltemos a uma tarde chuvosa. Havíamos almoçado no Trastevere e a garoinha que caía não deixou dúvidas quando um taxi apareceu. Era véspera de Natal e todos me diziam que seria impossível conseguir um taxi às nove da noite para ir ao Vaticano. Perguntei ao motorista se era mesmo tão difícil:
- Ma certo… C’é Natale per tutti!
- Vabbè… ma non ci sono taxisti mussulmani?
- Èh… ma non è tanto una questione religiosa… Perchè oggi c’è da mangiare. [vira para trás como se a rua fosse um detalhe desprezível]. È Il giorno che si mangia di più in tutto l`anno!
Isso me lembra da resposta dos italianos à proibição de cruzes em locais públicos e todo o rebuliço que se seguiu: prefeitos indignados, senhoras chorando, cruzes de 10m em praça pública, etc. e etc. O pessoal da Dicta ficou todo contente, como se fosse um gesto realmente heróico. Não sei não, acho que mais preciso foi meu taxista: non è tanto una questione religiosa, perchè c’è da mangiare!
Por lá, nada substitui a teatralidade do gesto; e nada passa muito da teatralidade do gesto…
*****
25.12.2009
- Hai vissuto un giorno storico ieri!
- Non lo sai, Principe, ero proprio li. La ragazza era a due passi di me!
Essas foram as únicas palavras que consegui dizer ao anfitrião no almoço de Natal – e elas não expressam completamente a frustração da noite anterior. Ao contrário do que havia previsto o taxista no Trastevere, encontrar um taxi foi a parte mais fácil daquela noite.
No dia anterior havia conseguido um convite todo especial para a Missa do Galo. Vermelho. Com lugar marcado. Na décima segunda fila. Tudo indicava que seria uma noite de Natal muito especial – e não seria um atraso a acabar com o programa. A missa começaria às dez da noite e o convite avisava que “a entrada será permitida a partir das 20hs30″. “Vamos chegar às nove; é cedo o suficiente para não correr risco e, afinal, temos lugar marcado” – foi o que pensei. Mas não o que aconteceu.
Chegamos à Piazza San Pietro e o que impressionou não foram as colunas de Bernini, mas uma fila que fazia um caracol de duas voltas entre elas. “Mas meu convite é vermelho”. Perguntei a um guarda onde seria a entrada e ele começou a acompanhar a fila com os olhos: era a mesma para todos. Pensei em furar a maldita, mas logo senti um misto de vergonha e medo – “furar fila de missa é Inferno na certa!”
Quarenta e cinco minutos se passaram e quando finalmente entramos na basílica uma sensação especial tomou conta de todos. Era como se estivéssemos na final do campeonato italiano, Roma x Lazio. Eu devia mesmo era ter furado aquela fila e chegado ao meu lugar em paz. Mas que nada, nesse momento até as Carmelitas davam cotoveladas umas nas outras para garantir o seu cantinho. Uma desordem completa.
Oito cotoveladas depois, cheguei à lateral da igreja rumo ao bendito lugar marcado, mas agora para ouvir da guarda papal que não poderíamos entrar. “É uma questão de segurança. O papa está chegando e lá dentro já está tudo lotado”, dizia o mais bravo. “Daqui a pouco a gente dá um jeito”, dizia o outro, mais caridoso com as várias pessoas que como eu tinham ficado presas naquela fila sem sentido.
E de repente entra o Papa. Agora sim uma comoção real, capaz até de ultrapassar a coluna que bloqueava completamente minha visão da cena. Foi sem ver nada que ouvi apenas um grito histérico, seguido de um silêncio completo. Devem ter tido vários gritos e o silêncio certamente não foi completo. Mas não importa: para mim foi um grito e o mais completo silêncio. Vocês lembram da história. Só voltei ao normal quando cinco guardas passaram exatamente na minha frente arrastando uma moça com a brutalidade esperada para ocasião.
“Viva il Papa”. E a multidão respondeu: “Viva il Papa”. A música voltou a tocar e minha esperança de chegar ao lugar foi embora junto com o Cardeal que passou numa cadeira de rodas. O papa levantou, a missa prosseguiu e tudo o que conseguia ver era uma coluna da Basílica de San Pietro. Ainda tentei achar um lugar, furar o bloqueio, subornar o guarda… Não, antes de subornar o guarda simplesmente reconheci que todo aquele teatro – a fila, a multidão, a louca – tinham acabado com minha chance de assistir à Missa do Galo. Fui-me embora.
*****
“Mas e o Príncipe?” – dirá o leitor curioso.
Na Itália é assim: nada passa da teatralidade do gesto porque tudo está na teatralidade do gesto.
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