IFE - Instituto de Formação e Educação
RSS

Compre o Livro

Discutindo mentiras

Arquivado em: Filosofia incluído por Joel Pinheiro
Data do post: 3 de julho de 2009
Tags:

Sua esposa está dormindo e alguém do trabalho dela liga para sua casa. O que você responde? “Ela não está.”, talvez? Bem, trata-se de uma mentira. Não sei se justificada ou não, mas não há dúvida de que suas palavras não correspondem à sua crença. Num caso como esse muitas outras saídas são possíveis: “Ela não pode atender”, “Será que eu posso anotar o recado e ela te liga depois?”, etc., então o dilema não é tão forte.

Vamos dificultar um pouco as coisas. Seu amigo escreveu um poema destestável. A cada verso lido você franze a testa perante tamanho mau gosto. As rimas são todas de verbos no infinitivo ou oxítonas terminadas em “ão”. Contudo, ele se dedicou muito à obra-prima. Eis que ele aparece, todo ansioso, e pergunta: “E aí? Gostou?”. O que se deve dizer? Aqui muito depende do jeito que se fala, e acho que a maioria das pessoas concordaria que, se ele pressionasse mesmo, o certo seria falar sinceramente a verdade (ainda que, na prática, predomine a mentira branca preservadora de egos).

Mas e aqueles casos em que a verdade traz uma consequência grave? O melhor exemplo é o do oficial nazista que pergunta se você está escondendo judeus em casa. Você está. Qualquer resposta que não seja um “Não!” direto e reto, qualquer tentativa de equivocação ou mudança de assunto, ele interpreterá como uma evasiva e invadirá sua casa atrás dos judeus. Nesse caso extremo, a grande maioria julgaria que o correto é mentir.

Contudo, na história da filosofia, muitas figuras de peso disseram que a mentira é errada sempre. E não estou pensando só no Kant, não! Sto. Agostinho e Sto. Tomás de Aquino, por exemplo, chegaram à mesma conclusão: a verdade deve ser dita sempre não importando as conseqüências. Se possível, em alguns casos, é lícito fazer algum tipo de equivocação (”Achei esse o seu melhor quadro!”, sem dizer que você detestou todos, e que mesmo o melhor é uma porcaria) ou evasiva, mas mentir nunca. Punha-se uma ênfase excessiva na verdade literal das palavras, sem levar tanto em conta a intenção de enganar.  Afinal, na mentira e na equivocação a intenção é a mesma: enganar; a diferença é apenas que, no segundo caso, as palavras são literalmente verdadeiras.

Tomás de Aquino diferenciava entre três tipos de mentira: a viciosa, que visa enganar por um fim vil mesmo; a oficiosa, que visa algum bem (por exemplo, a vida da pessoa); e a jocosa, que visa divertir ou entreter. Essas duas últimas são, na opinião dele, pecado venial, ou seja, não muito graves, mas ainda assim moralmente erradas.

Hoje em dia, a maioria de nós (inclusive eu) pensa diferente. Mentir é errado, mas há casos que o justificam, como salvar a vida de um inocente, por exemplo. E  para outros bens, menores do que a vida? Contar uma pequena mentira para tirar um inocente da prisão? Ou para ajudar alguém a conseguir um emprego? Ou para não ferir sentimentos? É um pouco arbitrário dizer que só se pode mentir para salvar uma vida e excluir outros valores importantíssimos (liberdade, honra, dignidade, sustento, bem-estar material). Uma vez feita a exceção, fica difícil impedir que novas desculpas entrem em cena. Ou a verdade deve ser sempre obedecida e dita, ou então é sempre uma questão de ponderar a verdade com outras considerações.

E se os beneficiados com a mentira formos nós mesmos, e não outra pessoa, a licitude da mentira muda? Se a vida ou o emprego na berlinda forem meus, posso mentir para mantê-los?

A posição radical me parece a mais adequada para a formação do caráter. A outra, mais liberal,  parece que aos poucos cria o hábito de mentir, ou pelo menos torna-nos insensíveis à mentira, de forma que mentir se torna quase um reflexo para sair de situações embaraçosas, para não ferir os sentimentos de um conhecido, etc. Mas, ao mesmo tempo, não acho nada errado mentir nos casos extremos em que algo sério está em jogo. Como sair dessa inconsistência?


Comentários (9)

O alienista

Arquivado em: Religião incluído por Martim Vasques da Cunha
Data do post:

A presença de Richard Dawkins na FLIP me lembra muito a de Simão Bacamarte na novela de Machado de Assis: insiste em querer parecer ser inteligente quando, na verdade, o que milita é mais uma variação da burrice irracional. Provas? Então leiam este texto de Theodore Dalrymple, por sinal também um não-crente, mas que mostra que o tal do “novo ateísmo” é de uma estreiteza assustadora.


Comentários (1)

Fãs inconsoláveis choram a morte de Haydn

Arquivado em: Música incluído por Joel Pinheiro
Data do post: 2 de julho de 2009
Tags:

Em 1809, morreu Joseph Haydn, sem dúvida um dos maiores compositores que já existiram. Aqui, um breve ensaio em sua homenagem e uma resenha das principais gravações de suas obras.


Comentários (2)

Será mesmo?

Arquivado em: Sociedade incluído por Martim Vasques da Cunha
Data do post:

Este não é um site que trata de assuntos políticos em geral (e sim sobre assuntos de cultura que afetam a vida política), mas não podemos ficar omissos ao que está a ocorrer em Honduras. Trata-se de um verdadeiro acontecimento, não só pelo problema institucional que envolvem os interesses em jogo, como pelo fato de que é uma resistência que vai contra o consenso coletivista que tomou conta da América Latina. Ainda assim, o texto de Guy Sorman - um sujeito que podemos chamar de “liberal clássico” -, chamado Revolution Fatigue, esboça uma espécie de raciocínio limitado, em especial neste trecho:

After his 1995 election, Brazil’s Fernando Henrique Cardoso began dismantling a stifling state bureaucracy, and the nation’s economy took off. Cardoso’s nominally leftist successor, Ignacio Lula de Silva, has followed the same globalization strategy, with positive results: as growth trickles down to the poor in Brazil, as it did in Chile, social injustice has eased. Other governments in the region, from conservative (Mexico) to socialist (Uruguay), now take for granted that free markets in the long run can cure the continent’s age-old woes: poverty, inequality, social unrest, and ethnic confrontation.

As former Brazilian president Cardoso puts it: “They are now two Latin Americas, one which is still mired in the obsolete populist, revolutionary rhetoric and the other which has joined the modern world.” The Hondurans and the Argentineans have now chosen to leave the old Latin America behind. For Chavez and his newly displaced cronies (he subsidized Zelaya and the Kirchners), this looks like the end of the party. Unexpectedly, it comes in the midst of an economic downturn: one would think that in a time of crisis, many in Latin America would reject capitalism. On the contrary, the economic crisis seems to favor conservative parties. Earlier this year, the Conservatives in Brazil won the local elections against Lula’s leftist “Workers Party.”

Aqui estão as fraquezas de alguém inteligente, mas que não consegue ver nada além do nariz porque pensa apenas em termos ideológicos e , sobretudo, econômicos. Na cabeça de Sorman, Lula é uma forma de reação “esclarecida” ao Chavismo, quando todos sabem que são farinha do mesmo saco. Ou seja: ele não percebe que o que domina na América Latina não é Hugo Chávez, mas sim “Sto. Antonio Gramsci, ora por nobis“. Resumo da situação: pouco importa se você é da direita ou da esquerda neste mundo. Se não ficar claro para a sua pseudo-cosmologia que os coletivistas tomaram conta da cultura de um continente e já realizaram o golpe na mente das pessoas - até mesmo em sujeitos “liberais” como Guy Sorman - tenho a leve impressão de que a resistência de Honduras terá um longo e tenebroso inverno pela frente.


Comentários (2)

Michael Jackson, drogas e o sentido da vida

Arquivado em: Geral incluído por Guilherme Malzoni Rabello
Data do post: 1 de julho de 2009

“Toda unanimidade é burra.”

Apesar de nunca ter encontrado alguém que discordasse da afirmação, eu também fico extremamente incomodado quando todo mundo parece estar falando a mesma coisa. E a bola da vez, como não poderia deixar de ser, é o Michael Jackson.

É claro que, como todo mundo, eu também virei fã do Rei do Pop na última semana, eu também ressuscitei os discos empoeirados e esquecidos no fundo do armário, eu também tomei banho cantando Billie Jean e precisarei me controlar para não ficar emocionado com o funeral. Mas, vocês hão de convir, existe algo de errado em transformar aquela aberração em modelo para os nossos filhos.

Se eu não estou totalmente errado, vale a pena ler o que o Dr. Theodore Dalrymple escreveu sobre o assunto na FrontPage de ontem:

Michael Jackson is interesting to me in the way that a circus freak is interesting to me: that is to say, a certain morbid fascination attaches to him. By the end of his life, I confess that he put me in mind of those bottles in pathological museums containing six-legged lambs and babies with two heads. He was a monster, in the Eighteenth Century sense of the term, even if his monstrosity was the product of society and culture rather than of nature.”

[...]

Trained to perform from a very early age, he lived and breathed and took his being from extreme vulgarity and bad taste. His life was Las Vegas made biography. I have nothing against Las Vegas, but it is for excursions, not the whole of existence.”

Como médico que é, o texto vai além da simples monstruosidade de Micheal Jackson e aborda as questões éticas na relação entre ele e os seus médicos: afinal, até que ponto um médico deve fazer as vontades do seu paciente? Em que momento ele deve falar “não” a certos pedidos esdrúxulos e simplesmente recusar um ”tratamento” claramente desnecessário?

O que me leva a outra questão, levantada pelo mesmo Dalrymple. Sempre tive um desconforto com a maneira  com que habitualmente olhamos os drogados, tratando-os como vítimas de uma doença gravíssima. Na minha irrelevante experiência, sempre me pareceu que há uma inversão no que é normalmente aceito: não é a droga que leva alguém para o “mau caminho” (como as vovós gostam de dizer…), mas o mau caminho que leva às drogas e, normalmente, esse caminho foi escolhido por alguém que poderia muito bem ter ido para outro lado.

Por isso, foi uma enorme surpresa encontrar este livro, Romancing Opiates, no qual Dalrymple - falando com a experiência de quem tratou milhares de casos semelhantes - diz simplesmente que não há viciados em heroína, pelo menos do jeito que estamos acostumados a pensar. Diz ele que, do ponto de vista médico, um viciado em heroína que tente se livrar da droga não terá problemas maiores do que se tivesse com uma gripe forte.

Sim, eu também achei difícil de acreditar quando ouvi, mas a argumentação é muito convincente. Como é também interessante a apresentação do livro que ele fez em NY em 2006.

O vídeo, longo!, está aí embaixo. Antes, porém, preciso revelar o real motivo deste post. Na verdade não dou a mínima ao Micheal Jackson, nunca cantei Billie Jean e nem conheci nenhum drogado. Mas depois de assistir a esse vídeo, descobri o sentido da minha vida: quando eu crescer quero ser igual ao Myron Magnet. Ele é o editor do City Journal que faz a introdução do vídeo: isso sim é um editor que se preze!

Aviso às navegantes que já comprei outro óculos para usar em cima da cabeça e já estou deixando a barba como a dele; quanto à careca e à barriga… bem, essas vou deixar por conta da Mãe Natureza…

Leia mais…


Comentários (6)

Elogio da paranóia

Arquivado em: Geral incluído por Martim Vasques da Cunha
Data do post:

Confesso que tenho um pendor para conspirações. Tenho uma vontade absolutamente incontrolável de ver conexões em tudo e em qualquer lugar, de perceber as coisas a caminhar para o “fim dos tempos”, como um velho puritano inglês do século XVII, pronto para abraçar o Apocalipse. Talvez seja o gnóstico em mim. Não sei. O que sei, de fato, que se não há conspirações, a impressão que tenho é que o mundo está saindo do meu controle.

A pergunta que faço é: será que o mundo deveria estar sob o meu controle? É claro que não - mas isso é o que é divertido em ser um paranóico em potencial. A tensão entre saber e não saber; entre ignorância e conhecimento; entre acaso e necessidade; enfim, entre a vida e a morte.

A paranóia é mais que um modo de vida; é, sobretudo, uma ramificação subterrânea da cultura ocidental, pelo menos segundo este ensaio de Frank Furedi, The Politics of Hidden Agenda. Alguns trechos para a cabeça fundida de todos nós (alguém quer fazer uma conexão aí?):

A conspiracy theory provides a view of the world that both explains the background to events and, more importantly, provides a warning for the future. Its focus is not merely on behind-the-scenes machinations and plots against groups and individuals; instead it offers a comprehensive perspective that purports to reveal the real workings of the world we live in. The main theme of the conspiracy theory is the heinous act of moral subversion, allegedly carried out by a cabal of powerful people. In order to shed light on the importance of some global conspiracy, conspiracy theorists use the ideology of evil. This ideology offers a view of the world where unexpected occurrences and acts of misfortune are re-presented as the product of malevolent forces. In providing a comprehensive account of the threats that face a community, this ideology of evil seeks to give meaning to an otherwise incomprehensible world. Historically, the concept of evil has helped to explain why bad things happened; it provided an answer to society’s need to understand the cause of misfortune and it provided guidance on who should bear the blame for such misfortune.

(O raciocínio, sem dúvida, é ousado e adoraria concordar com o autor se ele não insistisse em usar o termo “ideologia do mal” para algo que, como todos sabem, não possui nenhuma ideologia, apenas a pura força da destruição)

Today, conspiracy theories that insist the world is ruled by a secret cabal, such as the Bilderberg Group, continue to flourish. The idea that there is a New World Order run by a coterie of evil conspirators is most influential in the United States. However, these current conspiracy theories tend to have only a minimal influence over society.

(Ah, é? Então não existe Nova Ordem Mundial? E o que faz o sr. Maurice Strong no palco deste mundo?)

Contudo, toda vez que leio sobre eventos estranhos que me fazem ter a sensação (porque, afinal de contas, neste mundo pós-moderno, o que conta é a sensação, o sentimento de que a verdade está lá fora, não é mesmo?), sempre me lembro do seguinte trecho de uma palestra de Eric Voegelin, em que o bom e velho filósofo de Colônia dá a sua alfineta nesta “perigosa deformação na percepção do mundo”:

A alienação e a paranóia não são apenas problemas individuais, mas eles dominam a cena contemporânea na forma de várias ideologias, que sempre tentam perseguir alguém, ou sentem-se perseguidas por alguém, ou ambos os casos. E foi nesta ocasião que eu me deparei com o problema da paranóia no sentido teorético, o que não havia ficado claro para mim antes, porque a paranóia é geralmente tratada pelos psicopatologistas. Mas isto não é um problema, uma vez que se você tem várias pessoas em um estado paranóico (em termos práticos), isto é mais do que o caso de um paciente com uma psicopatalogista. Há alguma estrutura fundamental da consciência envolvida nesta situação.

E a estrutura fundamental envolvida - eu fui guiado por Thomas Pynchon nisso - está associada ao problema geral das ideologias como concepções de ordem na história, nas quais você deve inserir uma determinada natureza. Agora, de onde vêm estas idéias como uma ordem da história - com um rumo determinado, indo para um fim preciso -, senão de certos contextos filosóficos e cristãos, em que um criador que faz um mundo e está a par do que este mundo está fazendo? Ele tem Providência, ele tem a pronoia. (Geralmente eu lido com este problema chamado-o de pronoia, logo o seu contrário é a paranoia). E se você tem a concepção da pronoia e esta concepção é pervertida no sentido em que é imaginada como um conhecimento humano das coisas, e não como um conhecimento divino (como foi analisado por Boécio no último livro de “As Consolações da Filosofia”), você tem a alienação de um estado imanente. Você ainda acredita na pronoia, na providência, apenas para admitir que a providência é suprida pelos seres humanos; e, se for necessário, para defender-se contra a pronoia dos seres humanos, você tem de criar um contra-ataque, e criar a sua própria pronoia em oposição à das pessoas que estão, aparentemente, te perseguindo.

Então eu diria que há um íntima conexão entre as experiências da providência pervertida e as concepções de ser perseguido por alguém, seja lá quem for: os burgueses para um Marxista; os comunistas para um burguês; ou a CIA ou as companhias de petróleo para um esquerdista; e por aí vai - todas essas concepções de perseguição são perversões do conceito de pronoia, produzindo então uma reação paranóica. E estas reações paranóicas são, em “Gravity´s Rainbow”, de Pynchon, narradas de forma detalhada. Pode-se dizer que não se deixou nada de fora em suas descrições.

E é um insight. Não é apenas uma interpretação de um romance de Pynchon, mas ele sabe disso: ele fala daquelas pessoas que estão num estado de paranóia como se fossem “vítimas de um vácuo” - sendo este vácuo o vazio espiritual e intelectual, a perda de tensão em direção ao Além. E esta perda de tensão nos leva ao seguinte problema: como ninguém pode viver em um vácuo, ele deve ser preenchido com alguma espécie de realidade; e se não é a verdadeira realidade, você tem as segundas realidades. O termo “Segunda Realidade” não é uma invenção minha, mas foi desenvolvido pelos grandes romancistas do século XX como Heimito von Doderer em seu “Os Demônios” e Robert Musil em “O Homem Sem Qualidades”. Assim, a Segunda Realidade é a realidade substituída pela qual você imagina se a verdadeira realidade está em um estado de alienação. Agora, o que está por trás de todo este estado de alienação? O que está por trás, é claro, é um ser extirpado de um contexto em que a vida tem um sentido.

Bem, se tudo isso é esta confusão mesmo, talvez o negócio seja apelar mesmo para os santos, os mártires e Charles Fort.


Comentários (1)

Sociedade anti-épica

Arquivado em: Sociedade incluído por Joel Pinheiro
Data do post: 30 de junho de 2009

E se todo o aparato de seguridade social que define as sociedades contemporâneas for uma das causas do tédio, da frustração e do niilismo que crescentemente caracterizam a vida nessas sociedades, por tolherem toda forma de heroísmo e de vitalidade dos seres humanos? Onde foi parar aquele outro ideal de existência, tão bem representado nos filmes de John Ford ? (E, acrescentaria eu, nos de Sergio Leone também, embora de uma forma talvez excessivamente nietzscheana).

Não conheço o autor, mas o artigo traz ideias a meu ver interessantes.


Nenhum comentário ainda.  Seja o primeiro a comentar!

Whytube

Arquivado em: Filosofia, Geral incluído por Julio Lemos
Data do post: 29 de junho de 2009

Em Crimes and Misdemeanors (1989), Woody Allen conta a história de um homem comum, integrante de uma família comum, que tem a oportunidade de matar um homem, vamos dizer assim, sem a mínima possibilidade de ser descoberto. E então entra uma discussão cinematográfica razoavelmente profunda sobre teodicéia, ou seja, sobre o destino, Deus e a liberdade humana. No background, a vida de um filósofo humanista capturada em um documentário (posteriormente o velhinho comete suicídio).

Não podemos reclamar do fato de que Allen dá a sua resposta, ou melhor, de que ele faz prevalecer a sua visão de mundo durante todo o filme. O absurdo sempre vence – o absurdo é a substância das coisas que não se vêem; nós damos sentido às coisas, mas no fim das contas esse “sentido” é uma criação virtualmente ex nihilo. Mas a pergunta está lá: será mesmo assim? O suicído do filósofo prova alguma coisa? (e aqui ponho a velha pergunta, raramente digna de nota: quando algo dá errado com alguém que representa um ideal de virtude, isso é sinal de que a virtude não existe?).

Com isso Allen, fiel a Heidegger, insere-se num ambiente tipicamente moderno, morto lá nos anos 40 ou 50, se muito. Ele está totalmente fora de moda, e por isso o filme, apesar de ser considerado por muitos críticos o melhor do diretor, só costuma ser visto por woodymaniacs.

Não há espaço para algo próximo ao “existencialismo” no mundo contemporâneo – ao menos no mainstream. O que tem emplacado é a ocultação do absurdo; a ocultação da pergunta. Não há fundamento e ponto final: e portanto a pergunta por um fundamento é perda de tempo. Nesse sentido, a contemporaneidade é uma afirmação nietzscheana; por isso triunfou a MTV, o otimismo naif auto-ajuda, os reality shows (experimente analisar filosoficamente a banalidade – o banal é o absurdo inquestionável – e prepare-se para não sair do lugar) e tudo o mais que nos autos consta. Uma grande suma do que é mais trendy hoje é o empreendedorismo total: não questione, seja simplesmente pró-ativo.

Num universo paralelo, o dos estilos de vida ligados à música, temos um novo culto da tristeza e do desespero; mas mesmo aí, só há afirmação epidérmica. (Le plus profond, c’est la peau, dizia profeticamente Paul Valéry). E um revival da colagem pós-moderna, que pensei ter enxergado em “Daniel”, do Bat for Lashes: ela soa como The Cure, mas a pergunta pela existência, característica do “gótico” inglês, que aparece explicitamente até em álbuns medianos e tardios como Bloodflowers, está completamente ausente. A figura exterior está lá, mas foi recortada e não resta qualquer memória da sua origem. Musicalmente, estamos ainda nos anos 90, apesar do sucesso do gosto pelo underground (indie=pop), inimaginável uma década atrás.

Uma geração extremamente conservadora e conformista, a que nasceu nos anos 80-90. Não se deixe enganar pelas aparências. A única pergunta que ela realmente faz a si mesma é “por que devo questionar?” E os mais novos, nascidos depois de 2000, perguntam coisas do tipo (o caso é real): “como vocês ficavam online antes da Internet?” Eles fazem parte da geração atual, que nasceu conectada, e que sequer pode imaginar uma sociedade offline.

(Não é fácil dizer se isso desembocará numa era de pessimismo, saudável ou não, dado o movimento pendular das visões de mundo. Alguém disse que a crise econômica pode despertar questionamentos. Não duvido. Mas sou “individualista” a ponto de só acreditar em pessoas concretas, e de afastar prudentemente, quando se torna perigosa, a divisão ingênua entre pessimistas e otimistas).

Mesmo assim, espero a volta da pergunta e do questionável ao amado mundo dos i-phones. Isso me lembra a especulação de um matemático dos anos 80: como seria a vida de um objeto tridimensional num mundo bidimensional?


Comentários (5)

Dois anos sem Bruno Tolentino

Arquivado em: Literatura incluído por Martim Vasques da Cunha
Data do post: 27 de junho de 2009

“(…) e o mundo é cada vez mais estrangeiro”.

Soneto 99 de A Imitação da Música (in: O Mundo como Idéia)

Toda vez que alguém me pergunta sobre ou então me lembro da minha convivência com Bruno Tolentino, chego sempre à seguinte conclusão: ele foi o único sujeito de quem posso dizer com certeza que era um gênio.

Mas hoje, dois anos depois de sua morte, não sei se responderia da mesma forma. É claro que Bruno era, de facto e de jure, aquilo que, na falta de expressão melhor, chamaríamos de “gênio” - até porque era realmente capaz de momentos brilhantes e de momentos em que era nada mais nada menos que “genioso”. Entretanto, depois de ter muito meditado sobre o uso e o abuso desta palavra - até mesmo Arnaldo Jabor conseguiu torná-la insuportável quando elogia alguém em suas colunas ou em declarações na televisão - creio que Bruno Tolentino não era apenas um “gênio”. Era, sobretudo, e aqui plagio descaradamente o ensaio de Joseph Brodsky sobre W. H. Auden (por sua vez, um exemplo para Bruno), a pessoa mais inteligente que já conheci - e acho que não conhecerei outra.

Explico-me: como já disse uma vez aqui, creio que o “gênio” é uma espécie de ruptura, não de continuidade, dentro do continuum da tradição de um país ou de vários países - aquilo que denominaremos mais tarde, se tudo der certo, de “civilização”. O próprio Bruno, alías, baseou a sua argumentação de polêmica cultural neste princípio ao se confrontar com o concretismo em Os Sapos de Ontem; para ele, os irmãos Campos eram uma ruptura para pior, herdeiros da anti-tradição do Modernismo de 1922, enquanto o modernismo europeu (o de Eliot e de Yeats) era um diálogo com a tradição ocidental e também a sua superação. O exemplo mais próximo que tivemos nesta linha foi a chamada Geração de 45, com Cecília Meirelles, João Cabral de Melo Neto e Murilo Mendes, sem contar, claro, com os inclassificáveis Carlos Drummond de Andrade e Manuel Bandeira.

Se estes poetas não eram propriamente “gênios”, eram também pessoas inteligentes que construíram uma obra idem porque preservavam a estrutura da língua e da linguagem - algo que os concretistas sempre quiseram derrubar com a chamada “morte do verso”. Mas este não é o xis da questão: para mim, Bruno Tolentino não pode ser catalogado como um “gênio” porque sua obra - um verdadeiro enigma para as limitações provincianas da nossa intelligenstia - cumpre exatamente aquilo que esperamos de pessoas inteligentes. Mas o que seria isso - ser inteligente?

Uma pessoa inteligente caracteriza-se por estar disposta a estar aberta à verdade do real - e esta verdade pode ser expressada por um paradoxo terrível que Bruno sabia muito bem como comunicar com o uso do famoso adágio lux sine umbra non est. Não há luz sem sombra. Ele foi a pessoa mais inteligente que conheci porque era capaz, muitas vezes em uma questão de segundos, de agarrar a essência de uma pessoa ou de um problema intelectual, e defini-la de um modo supreendente para todos, sem ser abstrato, chegando ao ponto de usar a linguagem chula. Uma tarde, por exemplo, enquanto conversávamos sobre um jovem poeta que era aclamado pela crítica nacional, Bruno definiu a sua poesia da seguinte forma: “Esse sujeito é incapaz de pedir uma pizza pelo telefone” (E era verdade: os versos daquele sujeito pareciam ser de alguém que preferiu a dislexia como modo de vida). Mas é claro que essa atitude - que era honesta e impiedosa, chegando ao limite da insensibilidade com muitas pessoas que realmente o admiravam - não era somente uma grife de gypsy-scholar metido a besta. Era sobretudo um princípio moral: Bruno Tolentino sabia que a vida era um palco de luz e sombra, ambas misturadas, e que a função do poeta era trazer ao leitor aquela firmeza de alma que só um permanente state of wonder pode provocar nas pessoas, e isso quando elas decidem ver o mundo tal como é - e não como eles querem que seja.

Se Bruno fosse um “gênio”, sua obra teria fracassado - o que não acontece porque ela é um portal para novas descobertas, não o fim de uma era. Cada vez que releio um poema, um ensaio ou estudo um verso tolentiniano, percebo que Bruno não só dialogava com toda a tradição - de Machado de Assis a Yves Bonnefoy, passando por Santa Teresa D´Ávila e Charles Baudelaire - mas também sempre desbravava um novo caminho para os novos poetas. Há, contudo, sempre um pseudo-contraponto. Li recentemente um artigo escrito por um desses “falsos novos poetas” badalados por essas editoras de butique, que, a partir da análise de um único soneto de A Imitação do Amanhecer, já diagnosticava que Bruno Tolentino era um fóssil do passado. Uma verdadeira estultice: como analisar a obra de um sujeito através de um soneto de um livro que é, na verdade, um painel de mais de 537 sonetos? O que falta a este rapaz é a apreensão de que a obra de Bruno exige do leitor a aceitação do mesmo princípio moral que o guiou em sua complicada vida: o de que a vida (e a poesia) tem uma margem de ambigüidade inexplicável - e que as coisas não podem ser definidas tão facilmente.

Desta maneira, creio que Bruno Tolentino não foi um “gênio”, mas sim uma pessoa extremamente inteligente que criou uma obra genial. Este paradoxo - tão comum em seus versos e em sua postura diante das outras pessoas - mostra a dificuldade de entender o que ele queria. Bruno foi um homem muito solitário - e talvez esta tenha sido a sua verdadeira tragédia. Mas, mesmo assim, não desistiu: a sua inteligência o fez ser mais que um professor - era também um “educador de sensibilidades”. Ele nos fazia retornar à experiência verdadeira da poesia e nos forçava a ver que a arte tinha uma dinâmica particular que não podia ser insultada. Isto foi, alías, o meu primeiro insight para sentir sua ausência quando, um dia, ao escutar uma excelente palestra de um amigo meu sobre Hamlet em um ambiente repleto de supostos magistrados, chegou o momento dos debatedores. Era uma mulher e um homem: ela era uma juíza federal, cheia de referências aos Derrida-e-desce e aos Foucaults da vida, e ele era um advogado beletrista, sócio de uma importante casa de cursos. A juíza fez uma palestra de quase uma hora sobre como a peça de Hamlet deveria ser chamada de Ofélia porque Shakespeare era, afinal de contas, um machista misógino, enquanto o tal advogado perguntou ao palestrante se era possível uma interpretação GLS de Hamlet. Fiquei chocado que alguém se aventurasse a fazer tal pergunta; certamente, se Bruno estivesse vivo e ali presente, levantaria-se de imediato e daria um safanão na cara do sujeito. Claro que o motivo não seria apenas a polêmica pela polêmica - acusação injusta que atingiu postumamente a obra de Bruno. A verdadeira razão seria essa “educação de sensibilidade” que Bruno cultivava em cada um que conhecia e que ele fazia questão de extrair em conjunto sobre os mais variados assuntos: desde como era trabalhar com Auden, passando sobre como era uma conversa com Bonnefoy e Geoffrey Hill, até o vislumbre de um detalhe em um quadro de Uccello e, sem dúvida, o respeito que devemos ter com a luz do dia que some em um pôr-do-sol.

Confesso que só fui sentir falta de Bruno muitos meses depois da sua partida porque, de certa forma, a sua obra inteira nos ensinou a ficarmos preparados para a sua morte. Mas não era algo mórbido: quando leio O Mundo como Idéia ou As Horas de Katharina tenho a impressão de que, apesar de seu sentimento trágico da vida, Bruno Tolentino sabia que ela valia muito a pena. Não é à  toa que resistiu a uma doença cruel até o fim, independentemente do sofrimento - do qual saiu irreconhecível, mesmo para os seus amigos mais próximos. Havia uma perseverança nele que, sem dúvida, deixava todos espantados - e que talvez não fosse deste mundo.

Assim, à guisa de despedida, deixo-lhes a seguinte citação:

“Ele foi um grande poeta (a única coisa que está errada com esta frase é o tempo de seu verbo, já que a natureza da linguagem faz com que o que alguém realiza em seu contexto permaneça invariavelmente no presente), e me considero intensamente afortunado por tê-lo conhecido. Mas mesmo que não o tivesse encontrado de todo, ainda me restaria a realidade de sua obra. Devemos agradecer ao destino por termos sido expostos a esta realidade, pela generosidade dessas dádivas, mais preciosas ainda porque não se destinavam a alguém em particular. Podemos dizer que se tratava de uma generosidade do espírito, só que o espírito sempre precisa de um homem para refratar-se através dele. Não é o homem que se torna sagrado devido a esta refração: é o espírito que, assim, se torna mais humano e compreensível. Isto - e o fato de que o homem é finito - já bastaria para nos fazer venerar este poeta”.

As palavras são de Joseph Brodsky e são sobre W.H. Auden. Mas eu não mudaria uma linha, pois dizem a mesma coisa sobre Bruno Tolentino. Independentemente de ser um gênio ou uma pessoa inteligente, o fato é que era um grande poeta - e um dos maiores, em qualquer língua. E quando os grandes poetas se encontram, seja lá onde estão, sabemos que são um dos poucos grupos - junto com os santos e os mártires - que podem dizer com certeza que, independentemente das sombras dentro das luzes existentes em nossas vidas, eles realmente venceram o mundo.


Comentários (15)

From Russia With Love

Arquivado em: Geral, Sociedade incluído por Rodrigo Duarte Garcia
Data do post: 26 de junho de 2009

Vejo com interesse a notícia de que algumas agências de turismo russas vêm oferecendo cruzeiros na costa da Somália, a clientes que pagam pequenas fortunas para participar de viagens de caça aos piratas que aterrorizam a região.

São iates fortemente armados que percorrem e patrulham calmamente - a menos de 5 milhas náuticas - uma das rotas marítimas mais perigosas do mundo (Djibouti a Mombasa), à espera de eventuais ataques dos famigerados piratas africanos. Uma vez abordados pelos bandidos,  os barcos respondem com lançadores de granadas, metralhadoras e até pequenos mísseis.

A partir daí, surgem problemas bastante interessantes. Sem pensar muito especificamente nas questões técnicas de Direito Internacional, o que dizem disso os liberais e libertários em vocês? O Estado deveria interferir e proibir esse tipo de coisa? É moralmente admissível, em se tratando “apenas de uma reação”? Cartas para a redação.


Comentários (11)

Posts Antigos »