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Compre o Livro

Auguri II

Filed under: Geral incluído por Julio Lemos
Data do post: 31 de março de 2014

Os editores agradecem os leitores deste site: neste ano de 2014 atingimos a maior média diária de acessos desde a fundação do site em junho de 2008. São alguns milhares de leitores diários. Obrigado.

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Contra Russell Kirk

Filed under: Filosofia,Sociedade incluído por Julio Lemos
Data do post:

Meu colega Joel Pinheiro acaba de publicar o artigo Crítica aos Dez Princípios Conservadores (de Russell Kirk).

Vale conferir!

 


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O que é a ciência?

Filed under: Ciência,Do lado de lá,Filosofia,Sociedade incluído por Julio Lemos
Data do post: 27 de março de 2014

Alan Sokal, professor de Física na New York University e de Matemática na University College London, conhecido de certa parcela do público brasileiro pela denúncia de certa picaretagem pós-moderna, acaba de publicar em três partes o ensaio intitulado “O que é a ciência e por que devemos nos importar com ela?” (em inglês). Aqui estão os textos:

What is science and why should we care? (parte I)

What is science and why should we care? (parte II)

What is science and why should we care? (parte III)

O ensaio foi publicado em um novo site do filósofo Massimo Pigliucci, professor da CUNY: o Scientia Salon. O site, aliás, aceita contribuições.

Na segunda parte, Sokal discute temas de máxima importância. Entre os pontos que ele estabelece, com os argumentos clássicos e variações, estão: (a) não devemos confiar na pseudociência (astrologia, homeopatia, etc); (b) o evolucionismo é um fato estabelecido;* (c) o modo religioso de entender o universo é incompatível com o modo racional (em sentido estrito).

(*) A more subtle issue concerns the mechanisms of biological evolution; and here our modern scientific understanding took a longer time to develop. Though the basic idea — descent with modification, combined with natural selection — was set forth with eminent clarity by Darwin already in his 1859 book, the precise mechanisms underlying Darwinian evolution did not become fully elucidated until the development of genetics and molecular biology in the first half of the twentieth century. Nowadays we have a good understanding of the overall process: errors in copying DNA during reproduction cause mutations; some of these mutations either increase or decrease the organism’s success at survival and reproduction; natural selection acts to increase the frequency in the gene pool of those mutations that increase the organism’s reproductive success; as a result, over time, species develop adaptations to ecological niches; old species die out and new species arise. This general picture is nowadays established beyond any reasonable doubt, not only by paleontology but also by laboratory experiments.

A leitura de ensaios como esse é essencial em países com baixíssima escolaridade e compreensão da ciência, como o Brasil e — como revelou uma pesquisa recente — os EUA. Quando desmascarou certos exponentes do pós-modernismo, Sokal realizou um serviço de utilidade pública — lembrado até hoje.

Alguns escritos de Alan Sokal estão cuidadosamente coligidos aqui.

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A propósito, há alguns anos o falecido (e merecedor de homenagens) Sérgio de Biasi escreveu um texto com recomendações em filosofia da ciência que já ajudaram muita gente.

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Em que devo crer?

Filed under: Ciência,Religião incluído por Julio Lemos
Data do post: 18 de março de 2014

O debate sequer começou no Brasil. Há milhares, centenas de milhares de crenças no mercado; qual deve ser a minha? Devo seguir alguma tradição? Normalmente, vige o bom e velho determinismo doxo-geográfico: se nasci na Arábia Saudita, serei muçulmano com 99% de chance; se for filho de pais cristãos nos EUA, serei muito provavelmente cristão. Já o sincretismo brasileiro pulveriza imensamente essas distribuições de probabilidades. Infelizmente, a razoabilidade não possui apelo popular. Apesar do sincretismo, certamente já tivemos a experiência de, tendo aderido a certo meio cultural, incorporar paulatinamente as suas crenças. É o que muitos chamam de “vocação”. Mas raramente percebem que essa alegada vocação é uma faca de dois gumes: tivesse pisado em outra área, teria recebido chamado contraditório ou herético.

Para adquirir discernimento, há um teste já consagrado pela experiência: procure aplicar à sua crença atual os mesmos critérios que você aplicou para rejeitar as outras crenças no mercado. Em outras palavras:

The outsider test is simply a challenge to test one’s own religious faith with the presumption of skepticism, as an outsider. Test your beliefs as if you were an outsider to your faith. An outsider would begin her journey as a disinterested investigator who didn’t think the religious faith in question is true since there are so many different religious faiths in the world. An outsider would be someone who was only interested in which, if any, religious faith is correct and would have no intellectual affiliation with any of them at all. She would have to assume that her culturally inherited religious faith is probably false. (J. Loftus)

Spoiler alert: não vai sobrar muita coisa. 

O Corão diz ser Cristo apenas um mensageiro, e não Deus, com base na sua tradição. Sustenta inclusive que este não teria sido crucificado (4:157); para o judaísmo, fundamento do cristianismo, se trata de um impostor. Já a Igreja diz que se trata do filho de Allah ele-mesmo. Não existe apoio na historiografia desinteressada sobre a divindade de Cristo — muito pelo contrário: não há registro histórico confiável de nenhum fato extraordinário de qualquer tradição religiosa — ou praticamente sobre qualquer fato central da tradição cristã, que como todas as outras é dolorosamente auto-referente; mesmo o simples Moisés, que já foi uma unanimidade, hoje já é, na melhor das hipóteses, uma personagem controversa entre historiadores. O mesmo quanto a todo o Velho Testamento, uma mistura caótica de narrativas com alguma credibilidade histórica e lendas sem pé nem cabeça. A mesma razão pela qual o cristão rejeita os milagres do profeta Maomé obriga o muçulmano a rejeitar curas milagrosas dos seus colegas cristãos. Ambos usam o mesmo critério, e acertam com base no mesmo critério; mas ao olhar para as alegações da sua crença — porque afinal de contas querem acreditar e encontram conforto nisso –, utilizam outras medidas mais benevolentes. Alguns chamam a esse fenômeno confirmation bias, a ânsia de selecionar apenas o que é interessante, afastando tudo o que não convém (procurar evidências em contrário costuma ser grave pecado, e guardar a vista um hábito virtuoso).

Reforçando:

The basic idea is that you can only have a rational faith if you test it by the same standards you apply to all other competing faiths; yet when you do that, your religion tests as false as the others, and the same reasons you use to reject those become equally valid reasons to reject yours. (R. Carrier)

Problema semelhante atinge as ‘conspirações de desejo’, verdadeiros vírus de linguagem, como a ufologia e o espiritismo popular: a cadeia que vai do interessado ao fato mesmo é intermediada, ad infinitum, por outros intermediários. Todo o meio esotérico funciona assim: o Outro supostamente experimentou o desconhecido, e este narrou sua experiência ao acólito; nunca o acólito chega à experiência do Outro. O Outro, por sua vez, refere a sua experiência à experiência de OUTRO privilegiado, normalmente já falecido (e. g. Paracelso ou Amônio Sacas). Em nenhum momento, portanto, a cadeia se estabelece entre o fato extraordinário — a abdução, o contato com o espírito, o milagre — e o indivíduo. Por meio das referências, entretanto, e da confiança – fides – mútua, a tradição se fortalece. (A crença não passa de hearsay.) Se mostramos ao acólito os registros de outra tradição, o acólito abandonará o critério benevolente que aplicou à sua crença e os julgará com severidade, se não com ceticismo completo.

Obviamente, o teste não vale apenas para as crenças religiosas. Apoiar nossas crenças em evidências  é obrigatório para qualquer esfera da atividade humana. O ser obrigatório implica ser desonesto o desvio correspondente. A exigência das evidências deve se conformar sempre com o objeto em questão. Não há, por exemplo, “prova de amor” sujeita a método. Por outro lado, ninguém deve amar um fantasma, ou alguém que não dá mostras concretas de sequer existir.

O critério, assim, é o elemento que sobra da intersecção de todos os ‘ceticismos selecionados’. Para julgar, sempre chame o outsider: aquele que nenhum interesse tem em que determinada alegação seja verdadeira. Nunca pergunte àquele cuja vida, sustento material, conforto, e compromisso (“entrega da vida”) depende de que a alegação nunca seja desmascarada. Esse fenômeno, obviamente, não atinge apenas picaretas consumados; ele atinge cientistas, scholars, santos, campeões da prudência. O que precisa existir é um ambiente no qual o abandono das crenças infundadas seja obrigatório, severo, impiedoso; esse ambiente acompanhou as melhores descobertas científicas, mas muitas vezes está ausente em meios considerados sérios. Mesmo nos laboratórios e institutos de ciências naturais o pecado do confirmation bias pode se instaurar.

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Paletra Prof. João Cezar na ABL

Filed under: Debates,Geral,Literatura incluído por Renato Moraes
Data do post: 17 de março de 2014

Hoje, dia 18 de março, às 17:30, haverá uma palestra do Prof. João Cezar de Castro Rocha na ABL, na Rua Pres. Wilson, 203, Rio de Janeiro-RJ. O tema: “A crítica literária e seus descontentes”. Quem conhece o Prof. João Cezar sabe que vale muito a pena acompanhar tudo o que ele produz, pela sua seriedade e originalidade.


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Brazilians are religious freaks

Filed under: Religião,Sociedade incluído por Julio Lemos
Data do post: 13 de março de 2014

Há algum tempo John Gray fez uma observação importante: não se deve confundir conservadorismo político com fundamentalismo religioso. O brasileiro não é naturalmente conservador, mas um religious freak. Vamos alcançar Uganda.

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A derrocada de Frédéric Moreau

Filed under: Do lado de lá,Literatura incluído por Thiago Blumenthal
Data do post: 5 de março de 2014

Dizem que Gustave Flaubert passava dias sobre uma única sentença.

Em “Educação Sentimental”, que estou relendo em um momento de profunda identificação com Frédéric Moreau, o autor francês concentra uma rede de sentimentos de negatividade e dispersão na figura de um personagem em processo de destituição moral. Moreau é um ninguém, cujo mergulho neste mar de vaidades e obscuros e enganosos desejos termina por dissolver qualquer caráter que poderia restar ao herói. Esperanças são abandonadas enquanto acompanhamos a sutil derrocada do bonapartismo em Paris.

Neste momento da minha vida em que também empreendo uma jornada rumo ao desconhecido de minha alma em um lugar novo, a trajetória de Moreau recupera, mais do que um exame comparativo de como eu li o romance há alguns anos de como estou lendo agora, mas um sentido de construção de cada período que é montado para fazer o herói tropeçar, não para guiá-lo. A frustração das experiências humanas mais cotidianas, a insegurança, o orgulho que começa na juventude e jamais desaparece.

O movimento, o passo adiante em novas direções, a “educação”, em contraponto à concepção de Rousseau (que garantiria crescimento), em Flaubert leva à derrocada. E cada sentença, tão pacientemente concebida (não sem dor, decerto), se desenha quase como areia movediça a Moreau.

Destaco o trecho abaixo, que traduzo livremente, como uma relevante ilustração do mais genuíno ennui de nossos tempos modernos.

As tão prometidas alegrias não chegavam; esgotadas as suas leituras, percorridas todas as coleções do Louvre, e assistidos, repetidamente, todos os espetáculos, ele caiu em uma inação sem fim. Milhares de coisas se ajuntavam em sua tristeza. Ele precisava agora cuidar de seus próprios lençóis e lidar todo dia com o porteiro do seu prédio, um idiota que mais parecia um enfermeiro de hospital que vinha toda manhã arrumar sua cama, grunhindo e cheirando a álcool. Seu apartamento, ornamentado com um relógio de alabastro, lhe desagradava. As paredes eram muito finas e podia-se ouvir os estudantes ao lado preparando ponche, rindo, cantando.

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Philip Roth e o Pequeno Príncipe

Filed under: Deu na Mídia,Do lado de lá,Literatura incluído por Thiago Blumenthal
Data do post: 3 de março de 2014

Passou batido no Brasil, vi pouca gente compartilhando em redes sociais, mas saiu uma entrevista do Philip Roth no New York Times neste domingo (2), que ele deu a um jornal sueco – o gancho era suas traduções para a Suécia (que pode ser lida aqui), que é muito boa. É uma longa conversa que merece ser lida do começo ao fim, onde Roth compara o exame que fez de suas obras, relendo os 31 livros que escreveu, ao que o boxeador Joe Louis, um ídolo pessoal, disse ao se aposentar em dez palavras: I did the best I could with what I had.

Sobre os detratores que acusam sua obra de certa misoginia, o autor americano esclarece que basta uma leitura atenta de qualquer um de seus livros para que seja feita a distinção entre um crítico estúpido e outro razoável. E que, como escritor, é preciso ser mais e mais tolerante com esse tipo de reação histérica. Talvez o momento mais intenso da entrevista, no entanto, tenha sido o que ele comenta da sua dificuldade para escrever.

Cito: “A cada manhã, por cinquenta anos, eu encarava a próxima página em branco indefeso e despreparado”. Considera que, mais do que talento, foi obstinação que salvou a sua vida. Agora que parou de escrever, sente-se como um pássaro que saiu da gaiola, cujo horror de ficar preso dentro dela por tanto tempo perdeu seu encanto. Sente-se aliviado, algo que se aproxima do sublime, por não ter mais muito com o que se preocupar a não ser a morte. Palavras de Philip Roth.

ps: sobre nunca ter recebido o Nobel, brinca que se tivesse chamado “Portnoy’s Complaint” de “The Orgasm Under Rapacious Capitalism” talvez tivesse alguma chance.

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Visitei a Morgan Library nesta semana para duas exposições em especial. A primeira é a do Pequeno Príncipe, que foca principalmente nos rascunhos e nos manuscritos originais da obra que, muitos não sabem, mas foi escrita aqui em Nova York durante os dois anos que Saint-Exupéry passou longe dos horrores da Segunda Guerra na Europa (junto com “Pilote de Guerre” e “Lettre à un Otage”). Partiu daqui com o livro que o tornaria um dos autores mais conhecidos de todos os tempos e para um destino trágico: desaparecia no Mediterrâneo em julho de 1944, após ter se juntado às forças aéreas francesas no norte da África.

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Além dos manuscritos, há também o bracelete que vestia quando visto pela última vez em terra, com o endereço de seus editores em Nova York, Reynal & Hitchcock, que publicaram “O Pequeno Príncipe” em francês e inglês pela primeira vez um ano antes do desaparecimento de Saint-Exupéry. Este bracelete foi encontrado próxima à costa de Marseille, não faz muito tempo, por pescadores locais.

A exposição traz detalhes interessantes de como foi o processo de concepção da história, do descarte de personagens e acontecimentos, até exclusões de longos parágrafos e frases que foram reescritas à exaustão até ficarem do jeito que o autor queria. Por exemplo, a célebre frase “l’essentiel est invisible pour les yeux” passou por várias versões, como “l’essentiel est impossible”, “c’est impossible voir l’essentiel avec leux yeux” e mais de dez outros caminhos. Até chegar a forma final como a conhecemos, repetimos e trivializamos hoje.

A outra exposição é sobre xilogravura e o seu papel na produção moderna de livros. O que começou como uma reação às máquinas tecnológicas de impressão acabou servindo de modelo a ser seguido para a formatação de livros como objetos, uma ideia modernista que se estende aos dias de hoje. São livros e páginas que correspondem ao período de 1890 a 1935, um dos mais revolucionários em termos de impressão.

 

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Comentários rápidos sobre Harold Ramis

Filed under: Cinema,Do lado de lá,Religião incluído por Thiago Blumenthal
Data do post: 26 de fevereiro de 2014

O Harold Ramis, que infelizmente morreu ontem, costumava dizer aos atores que dirigia: “finjam atuar aí enquanto eu finjo que filmo aqui”. A frase, quase uma brincadeira de quem esteve em tantos dos meus filmes preferidos da infância e adolescência (Caça-Fantasmas e Feitiço do Tempo, especialmente), ganha um significado especial agora que ele se foi, quase uma lição de como a gente deve levar a vida: não vamos nos levar muito a sério.

Hoje passei na frente do posto de bombeiros em Tribeca, onde funcionou o QG dos Caça-Fantasmas. Tirei umas fotos. E vi muita gente homenageando, mais do que Ramis, o personagem Egon Spengler. Deixaram ali bolinhos Twinkies, barras de chocolate Crunch, entre outras referências ao cientista. Tudo dentro do espírito de não levar esta vida muito a sério. Fica a lição.

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Estava aqui procurando no Google um ensaio muito bom que li uma vez sobre os possíveis significados do filme Feitiço do Tempo (dirigido pelo Harold Ramis) e que mencionava tanto uma leitura budista como judaica. Não achei, mas descobri uma matéria do NYT antiga que fala um pouco disso.

Da parte budista, o filme ilustra perfeitamente a noção de samsara, o contínuo ciclo de morte e renascimento, um sofrimento que todos nós tentamos escapar. O personagem de Bill Murray funcionaria como um bodisatva, que, ao atingir o nirvana, interrompe esse ciclo e ajuda a nos salvar. Ele não abandona o mundo quando morre, mas sim retorna para salvá-lo. O Dalai Lama é um bodisatva, por exemplo.

Da parte judaica, o personagem de Bill Murray é recompensado, a cada retorno (ou a cada dia que se repete no filme), por praticar mais e mais mitzvot – “boas ações”, em sua tradução mais comum. O Talmud se refere a qualquer ato de caridade como mitsvá. Para os judeus, o trabalho nunca termina enquanto o mundo não estiver perfeito.

Talvez sejam leituras exageradas, pouco acadêmicas, mas o próprio Ramis admitiu que o filme tem conexões fortes tanto com o judaísmo quanto com o budismo. Além disso, sua mãe, apesar de ter nascido judia, era budista e ele se lembra de ter aprendido muito da filosofia oriental com ela.

Bom, para quem nunca viu o filme, não tem mais desculpa pra não ver. É uma história e tanto, tem o Bill Murray, é dirigido pelo Ramis e ainda tem a famosa marmota, que o personagem insiste em chamá-la de “rato”.

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Paris em NY

Filed under: Arquitetura,História incluído por Thiago Blumenthal
Data do post: 20 de fevereiro de 2014

Paris é um seminário, um curso de pós-graduação em tudo, afirmou o cartunista americano James Thurber em 1918, quando trabalhou para a Embaixada dos EUA na França. E é a cidade-luz, e em especial o momento que a transformou em patrimônio mundial histórico (1840 a 1930), que ganha uma exposição no Metropolitan Museum of Art.

Em três postagens, já são duas falando sobre o maior museu de Nova York, mas é difícil não falar dele, devido à quantidade de boas exposições que está abrigando neste momento – e, claro, ao fato de eu visitá-lo quase diariamente, como distração espiritual e também para aproveitar esses destaques.

Acompanhamos pela lente do fotógrafo Charles Marville (1813-79) as profundas mudanças de Paris na segunda metade do século 19. Quase como em um canteiro de obras, em um espaço desolado que parte era implodido e parte reconstruído à revelia de uma população que não sabia bem o que acontecia, Marville era o fotógrafo oficial de Napoleão III e do Barão Haussmann e, rua a rua, em mais de 425 imagens (sendo que 100 estão expostas no Met), registrou a megalomania que arruinaria as pequenas e intrincadas travessas parisienses em grandes bulevares.

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Marville, que iniciou a carreira como ilustrador, logo adaptou-se à lógica urbanista e progressista de Haussmann e seus próprios autorretratos revelam um certo estado de espírito que se quebrou: do jovem sonhador no começo da carreira a, mais ao fim, uma postura burocrática, em espelho a uma aristocracia sonhada, depois de ter realizado centenas de trabalhos ao governo da cidade. Muitas das fotos mais revelam um estudo arquitetônico e urbanístico do que uma composição estética: são fotos despachadas em escritórios que serviam de base para a reconstrução da cidade.

As “passages” e a presença de um ou outro personagem na foto (às vezes o próprio Marville) criam o imaginário visual perfeito para o flâneur desencontrado, imortalizado na imagem do albatroz no poema de Baudelaire e nos textos teóricos de Walter Benjamin. Curioso imaginar que esses personagens perdidos nas imagens não são obra do acaso ou do repente fotográfico: o registro de uma imagem na câmera levava minutos. O flâneur ali estava ensaiado, em pose. Não há melhor contraponto nem melhor ironia do que a pose para o errante da Paris de então.

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Mais do que estético, as fotos de Marville têm um valor histórico. A possibilidade de acompanhar as transformações de uma cidade com uma arquitetura e um projeto urbano labirínticos e mal planejados, feito para perder-se, em um espaço organizado em vastas e longas avenidas e bulevares que, chamem de homicídio arquitetônico ou não, fez a fama de Paris e alterou a percepção ocidental do que e de como é morar em uma metrópole.

A exposição “Charles Marville: Photographer of Paris” e a instalação paralela “Paris as Muse: Photography, 1840s-1930s” ficam no Met até 4 de maio.

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