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Kafka ante a psicanálise, ante Max Brod

Filed under: Literatura incluído por Thiago Blumenthal
Data do post: 1 de agosto de 2014

Franz Kafka — The Poet of Shame and Guilt
Saul Friedlander
Yale University Press
2013

 

“Talvez os judeus não tenham estragado o passado da Alemanha, mas é bastante possível concebê-los estragando o presente da Alemanha”, assinala Franz Kafka em uma carta ao amigo Max Brod, em maio de 1920. Poderiam ser palavras de um radical antissemita, em especial depois do papel dos líderes judeus na revolta comunista de um ano antes, o que aprofundou ainda mais um ódio de fundamento racial. Ou fruto de sarcasmo político diante da condição judaica, deteriorada desde o fim da primeira grande guerra, seis anos antes. No entanto, tal reflexão vinha de um judeu aclimatado e aculturado na tradição alemã e que viria a perder seus parentes mais próximos no Holocausto, duas décadas depois. Kafka se encontrava no meio desses polos históricos, demarcados pelas duas maiores guerras do século XX.

Conforme destaca em seu diário no fim da Primeira Guerra, o autor nada tinha a ver com os judeus. Mal tinha a ver consigo mesmo e já se dava por contente de ficar quieto num canto, contente só por poder respirar. Ou, em outro registro biográfico que nos permaneceu intacto até os dias atuais, desta vez em carta à amante Milena Jesenska, um mês depois da citada a Brod: “Eu poderia te censurar por ter em alta conta os judeus que você conhece (eu, inclusive) — há outros! —; na verdade às vezes eu gostaria de metê-los todos (eu, inclusive) dentro, digamos, de uma máquina de lavar. Em seguida eu esperaria um tempo e depois abriria a máquina bem pouquinho para ver se todos eles tinham se sufocado e, caso não, fecharia novamente e continuaria fazendo isso até o fim”.

Um poeta de sua própria desordem, como é constantemente referido na biografia escrita por Saul Friedlander — Kafka – The Poet of Shame and Guilt — e publicada pela Yale University Press em abril de 2013, ainda sem tradução no Brasil. A tese do professor Friedlander é a de que Kafka passou boa parte de sua curta vida em constante conflito com não apenas com a questão judaica, mas com sua própria sexualidade, com a família, com o pai e com a identidade alemã. Mais do que isso, o autor nos expõe uma questão que, embora não a reitere nem a aprofunde como devido, é de extrema importância para os estudos kafkianos ou para quem deseja melhor conhecer a sua biografia: o quanto de Kafka sabemos é fruto da edição de Max Brod, que foi, até a década de 1980, o responsável e o principal censor de toda a produção, biográfica e ficcional, de uma das grandes figuras literárias dos últimos séculos.

Nascido em Praga, tal qual Kafka, Friedlander é historiador especializado em Holocausto e professor emérito da UCLA, nos EUA. Quase a totalidade de sua produção acadêmica se dedica ao tema da barbárie nazista, embora tenha escrito, além deste Kafka (o único diretamente sobre literatura), outros livros com motivações afins a seu principal objeto de estudo. De 1978/9, temos o seu History and Psychoanalysis, que parte de modelos topológicos para explicar a história, no que considero tanto um movimento de empobrecimento da história como da psicanálise. E aqui Friedlander cai na mesma armadilha com Kafka.

Onde ele poderia esmiuçar melhor a relação entre Kafka e Brod, neste percurso histórico que comprometeu — e ainda compromete — boa parte da fortuna crítica do autor de A Metamorfose, Friedlander adota uma abordagem que se aproxima da psicanálise para interpretar diferentes eventos, reações e, o que considero pior, passagens das obras de ficção. O mesmo parece ocorrer com outra biografia recentemente lançada, esta com mais repercussão, em paralelo com um documentário cinematográfico; trata-se de Salinger, de David Shields e Shane Salerno — também de 2013. A profusão de leituras psicanalíticas no livro sobre Kafka não excede nem se compara às feitas por Shields/Salerno, porém não deixa de ser exagerada e, mais do que isso, é desta abordagem que Friedlander parte para chegar a algumas conclusões que não são nada mais além do que meras conjeturas de um terapeuta em início de carreira.

Logo em sua introdução, o autor nos diz que “Kafka’s fiction was but a more or less heavily disguised autobiography”. Podemos trocar o nome do autor no início da sentença e aplicá-la a torto e a direito. Não está certo. O uso do “more or less”, com o intuito de relativizar esse vazio disfarçado de máxima, só põe ainda mais em xeque a reflexão. Uma autobiografia mais ou menos disfarçada é o tipo de afirmação que deveria evitar-se em biografias, quanto mais em análise literária, o que, lamento, o autor se propõe também aqui. Porque é de um reducionismo que mistura obra e vida e compromete ambos.

Em outro trecho, mais adiante no livro, flagramos o autor em nova interpretação, quando faz o jogo entre a irmã real de Kafka e a irmã em A Metamorfose. Para o autor, o fato de haver no quarto de Gregor Samsa um recorte com uma mulher toda coberta de penugem, um símbolo de sexualidade feminina, desvela uma fantasia de incesto e castração que “supõe-se” que Kafka também teria com sua irmã real. Afinal, e muitas aspas em afinal, é a irmã de Samsa que, ao fim, em vez de defendê-lo contra o pai, é a primeira a querer livrar-se do corpo. O desejo de incesto e a consequente castração, marcada pela transformação horripilante do animal, são o mesmo na obra e na vida de Kafka. Por quê? Friedlander assim o quer, mas não fundamenta qualquer associação nem na vida do autor tampouco em sua obra.

Outra interessante relação que o autor se estende por boa parte do livro é a de Kafka com Max Brod. A partir de passagens de seus diários, Friedlander suspeita um homossexualismo e pedofilia em Kafka. No caso de Brod, é a maneira como Kafka se relaciona com ele que gera certa desconfiança. Em 2 de fevereiro de 1922, em passagem clássica de seu diário (pois foi o período em o autor começaria a escrever O Castelo), ele chama Brod de “meu pequeno B.”, celebra toda a inocência do amigo ao vestir suas meias de tal e tal jeito, e a maneira como fala. Muitas vezes, aliás, a maneira como Brod parece falar faz Kafka pensar que “ele quer voltar comigo pra casa hoje”. Tudo isto retirado de seu diário, que, Friedlander encara como um desejo homossexual que é castrado e nunca concretizado.

O que me faz lembrar bastante a discussão, que sequer deveria ser digna de uma aula de ginásio, sobre a suposta atração de Bentinho por Escobar, em Dom Casmurro. Há universidades que abordam o tema, há teses dedicadas ao tema. Por quê? Porque Bentinho, por exemplo, inveja o braço mais forte de Escobar, em comparação. Qualquer prognóstico de fundo psicanalítico não pode partir de fatos e situações isolados mencionados em uma única sessão com o terapeuta, em uma das premissas de Freud que parece ter sido, pelo menos no âmbito da crítica literária, mais desrespeitada.

Voltando a Brod, figura-central em tudo o que conhecemos de Kafka, aqui temos o que se sobressai de positivo na leitura desta obra. Porque Friedlander, apesar de psicanalista frustrado, é um pesquisador sério que foi atrás de suas fontes e não se baseou apenas no que temos de mais superficial sobre Kafka e sim recorreu às edições críticas alemãs lançadas no fim dos anos 1980 e no começo dos anos 1990 para comparar com a edição feita por Brod (em ficção, cartas e diários).

Friedlander acerta em comparar o original escrito por Kafka com as omissões e alterações propostas por Brod e que, infelizmente, até hoje são validadas como base da fortuna crítica. Quaisquer que tenham sido as motivações de Brod em alterar longas passagens dos diários e das cartas — e Friedlander, claro, se apressa em adivinhar os porquês da psique brodiana — o mérito da análise está em trazer luz ao texto original de Kafka. Os melhores e os mais recentes trabalhos acadêmicos sobre Kafka, em especial nos Estados Unidos e na Alemanha, consideram Brod um criminoso ao alterar tanto do que foi deixado de seu espólio. Não por tê-lo publicado (contra a vontade de Kafka), mas por tê-lo feito tal qual um censor, primeiro privado, preocupado com eventuais questões que poderiam tirar o autor tcheco de uma espécie de santidade literária, depois censor editorial, com alterações na ordem de períodos, paragráfos e até capítulos, como é o caso de Amerika, entre muitos outros.

Faltou a Friedlander distanciar-se mais desta lamentável tendência do gênero biográfico (de analisar o biografado com associações que não dão liga no imenso e complexo universo de Kafka) e valer-se deste verdadeiro tesouro que são as edições críticas, que dispensam a péssima interferência de Brod, para então aprofundar e enriquecer a crítica kafkiana. Friedlander, apesar da ótima apuração no material original de Kafka, adota a postura clássica do terapeuta mais ortodoxo, que, sentado atrás de seu objeto de trabalho no divã, só consegue ver a ponta de seu biografado.
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Auguri II

Filed under: Geral incluído por Julio Lemos
Data do post: 31 de março de 2014

Os editores agradecem os leitores deste site: neste ano de 2014 atingimos a maior média diária de acessos desde a fundação do site em junho de 2008. São alguns milhares de leitores diários. Obrigado.

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Contra Russell Kirk

Filed under: Filosofia,Sociedade incluído por Julio Lemos
Data do post:

Meu colega Joel Pinheiro acaba de publicar o artigo Crítica aos Dez Princípios Conservadores (de Russell Kirk).

Vale conferir!

 


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O que é a ciência?

Filed under: Ciência,Do lado de lá,Filosofia,Sociedade incluído por Julio Lemos
Data do post: 27 de março de 2014

Alan Sokal, professor de Física na New York University e de Matemática na University College London, conhecido de certa parcela do público brasileiro pela denúncia de certa picaretagem pós-moderna, acaba de publicar em três partes o ensaio intitulado “O que é a ciência e por que devemos nos importar com ela?” (em inglês). Aqui estão os textos:

What is science and why should we care? (parte I)

What is science and why should we care? (parte II)

What is science and why should we care? (parte III)

O ensaio foi publicado em um novo site do filósofo Massimo Pigliucci, professor da CUNY: o Scientia Salon. O site, aliás, aceita contribuições.

Na segunda parte, Sokal discute temas de máxima importância. Entre os pontos que ele estabelece, com os argumentos clássicos e variações, estão: (a) não devemos confiar na pseudociência (astrologia, homeopatia, etc); (b) o evolucionismo é um fato estabelecido;* (c) o modo religioso de entender o universo é incompatível com o modo racional (em sentido estrito).

(*) A more subtle issue concerns the mechanisms of biological evolution; and here our modern scientific understanding took a longer time to develop. Though the basic idea — descent with modification, combined with natural selection — was set forth with eminent clarity by Darwin already in his 1859 book, the precise mechanisms underlying Darwinian evolution did not become fully elucidated until the development of genetics and molecular biology in the first half of the twentieth century. Nowadays we have a good understanding of the overall process: errors in copying DNA during reproduction cause mutations; some of these mutations either increase or decrease the organism’s success at survival and reproduction; natural selection acts to increase the frequency in the gene pool of those mutations that increase the organism’s reproductive success; as a result, over time, species develop adaptations to ecological niches; old species die out and new species arise. This general picture is nowadays established beyond any reasonable doubt, not only by paleontology but also by laboratory experiments.

A leitura de ensaios como esse é essencial em países com baixíssima escolaridade e compreensão da ciência, como o Brasil e — como revelou uma pesquisa recente — os EUA. Quando desmascarou certos exponentes do pós-modernismo, Sokal realizou um serviço de utilidade pública — lembrado até hoje.

Alguns escritos de Alan Sokal estão cuidadosamente coligidos aqui.

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A propósito, há alguns anos o falecido (e merecedor de homenagens) Sérgio de Biasi escreveu um texto com recomendações em filosofia da ciência que já ajudaram muita gente.

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Em que devo crer?

Filed under: Ciência,Religião incluído por Julio Lemos
Data do post: 18 de março de 2014

O debate sequer começou no Brasil. Há milhares, centenas de milhares de crenças no mercado; qual deve ser a minha? Devo seguir alguma tradição? Normalmente, vige o bom e velho determinismo doxo-geográfico: se nasci na Arábia Saudita, serei muçulmano com 99% de chance; se for filho de pais cristãos nos EUA, serei muito provavelmente cristão. Já o sincretismo brasileiro pulveriza imensamente essas distribuições de probabilidades. Infelizmente, a razoabilidade não possui apelo popular. Apesar do sincretismo, certamente já tivemos a experiência de, tendo aderido a certo meio cultural, incorporar paulatinamente as suas crenças. É o que muitos chamam de “vocação”. Mas raramente percebem que essa alegada vocação é uma faca de dois gumes: tivesse pisado em outra área, teria recebido chamado contraditório ou herético.

Para adquirir discernimento, há um teste já consagrado pela experiência: procure aplicar à sua crença atual os mesmos critérios que você aplicou para rejeitar as outras crenças no mercado. Em outras palavras:

The outsider test is simply a challenge to test one’s own religious faith with the presumption of skepticism, as an outsider. Test your beliefs as if you were an outsider to your faith. An outsider would begin her journey as a disinterested investigator who didn’t think the religious faith in question is true since there are so many different religious faiths in the world. An outsider would be someone who was only interested in which, if any, religious faith is correct and would have no intellectual affiliation with any of them at all. She would have to assume that her culturally inherited religious faith is probably false. (J. Loftus)

Spoiler alert: não vai sobrar muita coisa. 

O Corão diz ser Cristo apenas um mensageiro, e não Deus, com base na sua tradição. Sustenta inclusive que este não teria sido crucificado (4:157); para o judaísmo, fundamento do cristianismo, se trata de um impostor. Já a Igreja diz que se trata do filho de Allah ele-mesmo. Não existe apoio na historiografia desinteressada sobre a divindade de Cristo — muito pelo contrário: não há registro histórico confiável de nenhum fato extraordinário de qualquer tradição religiosa — ou praticamente sobre qualquer fato central da tradição cristã, que como todas as outras é dolorosamente auto-referente; mesmo o simples Moisés, que já foi uma unanimidade, hoje já é, na melhor das hipóteses, uma personagem controversa entre historiadores. O mesmo quanto a todo o Velho Testamento, uma mistura caótica de narrativas com alguma credibilidade histórica e lendas sem pé nem cabeça. A mesma razão pela qual o cristão rejeita os milagres do profeta Maomé obriga o muçulmano a rejeitar curas milagrosas dos seus colegas cristãos. Ambos usam o mesmo critério, e acertam com base no mesmo critério; mas ao olhar para as alegações da sua crença — porque afinal de contas querem acreditar e encontram conforto nisso –, utilizam outras medidas mais benevolentes. Alguns chamam a esse fenômeno confirmation bias, a ânsia de selecionar apenas o que é interessante, afastando tudo o que não convém (procurar evidências em contrário costuma ser grave pecado, e guardar a vista um hábito virtuoso).

Reforçando:

The basic idea is that you can only have a rational faith if you test it by the same standards you apply to all other competing faiths; yet when you do that, your religion tests as false as the others, and the same reasons you use to reject those become equally valid reasons to reject yours. (R. Carrier)

Problema semelhante atinge as ‘conspirações de desejo’, verdadeiros vírus de linguagem, como a ufologia e o espiritismo popular: a cadeia que vai do interessado ao fato mesmo é intermediada, ad infinitum, por outros intermediários. Todo o meio esotérico funciona assim: o Outro supostamente experimentou o desconhecido, e este narrou sua experiência ao acólito; nunca o acólito chega à experiência do Outro. O Outro, por sua vez, refere a sua experiência à experiência de OUTRO privilegiado, normalmente já falecido (e. g. Paracelso ou Amônio Sacas). Em nenhum momento, portanto, a cadeia se estabelece entre o fato extraordinário — a abdução, o contato com o espírito, o milagre — e o indivíduo. Por meio das referências, entretanto, e da confiança — fides – mútua, a tradição se fortalece. (A crença não passa de hearsay.) Se mostramos ao acólito os registros de outra tradição, o acólito abandonará o critério benevolente que aplicou à sua crença e os julgará com severidade, se não com ceticismo completo.

Obviamente, o teste não vale apenas para as crenças religiosas. Apoiar nossas crenças em evidências  é obrigatório para qualquer esfera da atividade humana. O ser obrigatório implica ser desonesto o desvio correspondente. A exigência das evidências deve se conformar sempre com o objeto em questão. Não há, por exemplo, “prova de amor” sujeita a método. Por outro lado, ninguém deve amar um fantasma, ou alguém que não dá mostras concretas de sequer existir.

O critério, assim, é o elemento que sobra da intersecção de todos os ‘ceticismos selecionados’. Para julgar, sempre chame o outsider: aquele que nenhum interesse tem em que determinada alegação seja verdadeira. Nunca pergunte àquele cuja vida, sustento material, conforto, e compromisso (“entrega da vida”) depende de que a alegação nunca seja desmascarada. Esse fenômeno, obviamente, não atinge apenas picaretas consumados; ele atinge cientistas, scholars, santos, campeões da prudência. O que precisa existir é um ambiente no qual o abandono das crenças infundadas seja obrigatório, severo, impiedoso; esse ambiente acompanhou as melhores descobertas científicas, mas muitas vezes está ausente em meios considerados sérios. Mesmo nos laboratórios e institutos de ciências naturais o pecado do confirmation bias pode se instaurar.

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Paletra Prof. João Cezar na ABL

Filed under: Debates,Geral,Literatura incluído por Renato Moraes
Data do post: 17 de março de 2014

Hoje, dia 18 de março, às 17:30, haverá uma palestra do Prof. João Cezar de Castro Rocha na ABL, na Rua Pres. Wilson, 203, Rio de Janeiro-RJ. O tema: “A crítica literária e seus descontentes”. Quem conhece o Prof. João Cezar sabe que vale muito a pena acompanhar tudo o que ele produz, pela sua seriedade e originalidade.


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Brazilians are religious freaks

Filed under: Religião,Sociedade incluído por Julio Lemos
Data do post: 13 de março de 2014

Há algum tempo John Gray fez uma observação importante: não se deve confundir conservadorismo político com fundamentalismo religioso. O brasileiro não é naturalmente conservador, mas um religious freak. Vamos alcançar Uganda.

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A derrocada de Frédéric Moreau

Filed under: Do lado de lá,Literatura incluído por Thiago Blumenthal
Data do post: 5 de março de 2014

Dizem que Gustave Flaubert passava dias sobre uma única sentença.

Em “Educação Sentimental”, que estou relendo em um momento de profunda identificação com Frédéric Moreau, o autor francês concentra uma rede de sentimentos de negatividade e dispersão na figura de um personagem em processo de destituição moral. Moreau é um ninguém, cujo mergulho neste mar de vaidades e obscuros e enganosos desejos termina por dissolver qualquer caráter que poderia restar ao herói. Esperanças são abandonadas enquanto acompanhamos a sutil derrocada do bonapartismo em Paris.

Neste momento da minha vida em que também empreendo uma jornada rumo ao desconhecido de minha alma em um lugar novo, a trajetória de Moreau recupera, mais do que um exame comparativo de como eu li o romance há alguns anos de como estou lendo agora, mas um sentido de construção de cada período que é montado para fazer o herói tropeçar, não para guiá-lo. A frustração das experiências humanas mais cotidianas, a insegurança, o orgulho que começa na juventude e jamais desaparece.

O movimento, o passo adiante em novas direções, a “educação”, em contraponto à concepção de Rousseau (que garantiria crescimento), em Flaubert leva à derrocada. E cada sentença, tão pacientemente concebida (não sem dor, decerto), se desenha quase como areia movediça a Moreau.

Destaco o trecho abaixo, que traduzo livremente, como uma relevante ilustração do mais genuíno ennui de nossos tempos modernos.

As tão prometidas alegrias não chegavam; esgotadas as suas leituras, percorridas todas as coleções do Louvre, e assistidos, repetidamente, todos os espetáculos, ele caiu em uma inação sem fim. Milhares de coisas se ajuntavam em sua tristeza. Ele precisava agora cuidar de seus próprios lençóis e lidar todo dia com o porteiro do seu prédio, um idiota que mais parecia um enfermeiro de hospital que vinha toda manhã arrumar sua cama, grunhindo e cheirando a álcool. Seu apartamento, ornamentado com um relógio de alabastro, lhe desagradava. As paredes eram muito finas e podia-se ouvir os estudantes ao lado preparando ponche, rindo, cantando.

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Philip Roth e o Pequeno Príncipe

Filed under: Deu na Mídia,Do lado de lá,Literatura incluído por Thiago Blumenthal
Data do post: 3 de março de 2014

Passou batido no Brasil, vi pouca gente compartilhando em redes sociais, mas saiu uma entrevista do Philip Roth no New York Times neste domingo (2), que ele deu a um jornal sueco – o gancho era suas traduções para a Suécia (que pode ser lida aqui), que é muito boa. É uma longa conversa que merece ser lida do começo ao fim, onde Roth compara o exame que fez de suas obras, relendo os 31 livros que escreveu, ao que o boxeador Joe Louis, um ídolo pessoal, disse ao se aposentar em dez palavras: I did the best I could with what I had.

Sobre os detratores que acusam sua obra de certa misoginia, o autor americano esclarece que basta uma leitura atenta de qualquer um de seus livros para que seja feita a distinção entre um crítico estúpido e outro razoável. E que, como escritor, é preciso ser mais e mais tolerante com esse tipo de reação histérica. Talvez o momento mais intenso da entrevista, no entanto, tenha sido o que ele comenta da sua dificuldade para escrever.

Cito: “A cada manhã, por cinquenta anos, eu encarava a próxima página em branco indefeso e despreparado”. Considera que, mais do que talento, foi obstinação que salvou a sua vida. Agora que parou de escrever, sente-se como um pássaro que saiu da gaiola, cujo horror de ficar preso dentro dela por tanto tempo perdeu seu encanto. Sente-se aliviado, algo que se aproxima do sublime, por não ter mais muito com o que se preocupar a não ser a morte. Palavras de Philip Roth.

ps: sobre nunca ter recebido o Nobel, brinca que se tivesse chamado “Portnoy’s Complaint” de “The Orgasm Under Rapacious Capitalism” talvez tivesse alguma chance.

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Visitei a Morgan Library nesta semana para duas exposições em especial. A primeira é a do Pequeno Príncipe, que foca principalmente nos rascunhos e nos manuscritos originais da obra que, muitos não sabem, mas foi escrita aqui em Nova York durante os dois anos que Saint-Exupéry passou longe dos horrores da Segunda Guerra na Europa (junto com “Pilote de Guerre” e “Lettre à un Otage”). Partiu daqui com o livro que o tornaria um dos autores mais conhecidos de todos os tempos e para um destino trágico: desaparecia no Mediterrâneo em julho de 1944, após ter se juntado às forças aéreas francesas no norte da África.

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Além dos manuscritos, há também o bracelete que vestia quando visto pela última vez em terra, com o endereço de seus editores em Nova York, Reynal & Hitchcock, que publicaram “O Pequeno Príncipe” em francês e inglês pela primeira vez um ano antes do desaparecimento de Saint-Exupéry. Este bracelete foi encontrado próxima à costa de Marseille, não faz muito tempo, por pescadores locais.

A exposição traz detalhes interessantes de como foi o processo de concepção da história, do descarte de personagens e acontecimentos, até exclusões de longos parágrafos e frases que foram reescritas à exaustão até ficarem do jeito que o autor queria. Por exemplo, a célebre frase “l’essentiel est invisible pour les yeux” passou por várias versões, como “l’essentiel est impossible”, “c’est impossible voir l’essentiel avec leux yeux” e mais de dez outros caminhos. Até chegar a forma final como a conhecemos, repetimos e trivializamos hoje.

A outra exposição é sobre xilogravura e o seu papel na produção moderna de livros. O que começou como uma reação às máquinas tecnológicas de impressão acabou servindo de modelo a ser seguido para a formatação de livros como objetos, uma ideia modernista que se estende aos dias de hoje. São livros e páginas que correspondem ao período de 1890 a 1935, um dos mais revolucionários em termos de impressão.

 

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Comentários rápidos sobre Harold Ramis

Filed under: Cinema,Do lado de lá,Religião incluído por Thiago Blumenthal
Data do post: 26 de fevereiro de 2014

O Harold Ramis, que infelizmente morreu ontem, costumava dizer aos atores que dirigia: “finjam atuar aí enquanto eu finjo que filmo aqui”. A frase, quase uma brincadeira de quem esteve em tantos dos meus filmes preferidos da infância e adolescência (Caça-Fantasmas e Feitiço do Tempo, especialmente), ganha um significado especial agora que ele se foi, quase uma lição de como a gente deve levar a vida: não vamos nos levar muito a sério.

Hoje passei na frente do posto de bombeiros em Tribeca, onde funcionou o QG dos Caça-Fantasmas. Tirei umas fotos. E vi muita gente homenageando, mais do que Ramis, o personagem Egon Spengler. Deixaram ali bolinhos Twinkies, barras de chocolate Crunch, entre outras referências ao cientista. Tudo dentro do espírito de não levar esta vida muito a sério. Fica a lição.

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Estava aqui procurando no Google um ensaio muito bom que li uma vez sobre os possíveis significados do filme Feitiço do Tempo (dirigido pelo Harold Ramis) e que mencionava tanto uma leitura budista como judaica. Não achei, mas descobri uma matéria do NYT antiga que fala um pouco disso.

Da parte budista, o filme ilustra perfeitamente a noção de samsara, o contínuo ciclo de morte e renascimento, um sofrimento que todos nós tentamos escapar. O personagem de Bill Murray funcionaria como um bodisatva, que, ao atingir o nirvana, interrompe esse ciclo e ajuda a nos salvar. Ele não abandona o mundo quando morre, mas sim retorna para salvá-lo. O Dalai Lama é um bodisatva, por exemplo.

Da parte judaica, o personagem de Bill Murray é recompensado, a cada retorno (ou a cada dia que se repete no filme), por praticar mais e mais mitzvot – “boas ações”, em sua tradução mais comum. O Talmud se refere a qualquer ato de caridade como mitsvá. Para os judeus, o trabalho nunca termina enquanto o mundo não estiver perfeito.

Talvez sejam leituras exageradas, pouco acadêmicas, mas o próprio Ramis admitiu que o filme tem conexões fortes tanto com o judaísmo quanto com o budismo. Além disso, sua mãe, apesar de ter nascido judia, era budista e ele se lembra de ter aprendido muito da filosofia oriental com ela.

Bom, para quem nunca viu o filme, não tem mais desculpa pra não ver. É uma história e tanto, tem o Bill Murray, é dirigido pelo Ramis e ainda tem a famosa marmota, que o personagem insiste em chamá-la de “rato”.

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