Síria em Transe – Evento HOJE!
Data do post: 13 de maio de 2012

Hoje teremos a segunda edição do evento Contradicta, que busca promover o diálogo inteligente e a conversa de alto nível no meio cultural paulistano (em breve também em outros estados!).
Tendo em vista os eventos que desde 2011 se desenrolam no Oriente Médio, a que se convencionou chamar de Primavera Árabe, nesta segunda edição do bate-bapo o tema é político. O historiador Plínio Freire Gomes, autor de Um herege vai ao paraíso (Cia. das Letras, 1997), fala sobre a história e o estado atual da Síria, expandindo questões e temáticas de seu artigo “Síria em Transe”, publicado na Dicta 08. Conversará com ele o jornalista e mestre em Ciências Políticas Fábio Santos, que foi editor do site e da revista Primeira Leitura e também editor-chefe da revista República, além de ter trabalhado nas redações de O Globo e Folha de S. Paulo.
O bate-papo terá início às 20:00 na Livraria da Vila da Al. Lorena, 1731, São Paulo. Mediando a conversa estará o professor de Direito e pensador Marcus Boeira. A entrada é franca e todos são bem-vindos, não só a assistir como a participar!
Segue, abaixo, na íntegra, o artigo “Síria em Transe” de Plínio Gomes.
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Síria em Transe
Plínio Gomes
Aos treze anos de idade Hamza al-Khatib, cidadão sírio natural de Daraa, transformou-se no portador de uma mensagem macabra. Após tomar parte em manifestação contra o ditador Bashar al-Assad, foi preso, torturado e morto pelo serviço secreto. Semanas mais tarde seu corpo foi devolvido à família num saco plástico. Procedeu-se a uma autópsia clandestina, cuja filmagem foi publicada na internet. A cena tem início com uma voz invocando o nome de Alá e enumera os sinais de violência espalhados pelo corpo conforme a câmera os mostra. Na altura do peito nota-se uma área carbonizada e a perfuração presumivelmente causada por um projétil. Sobre as genitais havia um pano, que agora é retirado. O menino fora castrado. Leia mais…
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As dores do amor
Data do post: 11 de maio de 2012

Vou me afastar um pouco dos lançamentos para falar de clássicos: Buster Keaton e casamento. Ao lado de Charlie Chaplin e Harold Lloyd, Keaton foi um dos maiores comediantes do cinema mudo (aqui, um artigo muito bom da Picture-Play Magazine de 1923, comparando os estilos de Chaplin, Lloyd e Keaton, mas principalmente sobre Keaton). Trabalhou em mais de uma centena de filmes, dos quais alguns dos melhores são escritos, dirigidos e produzidos por ele. Tinha como marcas registradas o chapéu achatado, sua expressão de jogador de pôquer (que lhe rendeu o apelido de “O Grande Rosto de Pedra”) e o humor físico muitas vezes acrobático. Nascido em uma família de artistas de vaudeville, foi acostumado desde a infância a dar piruetas e levar tombos em suas performances. Mas o que o destacava dos demais era o risco a que ele se sujeitava. Em 1924, por exemplo, durante as filmagens de Sherlock Jr., Keaton sofreu uma fratura no pescoço que um médico só descobriria anos mais tarde em uma radiografia. A cena, contudo, foi aproveitada no filme:
Um ano antes, em As Três Idades, Keaton já havia incorporado uma acrobacia mal sucedida na versão final do filme:

Já falei de fraturas e fracassos, passo agora ao casamento. Muitos de seus filmes terminam em casamento, provando que os desafios e as dores da conquista não são em vão. Tudo bem que em O Noivo Cara-Dura (Spite Marriage, de 1929) a mocinha que Keaton tanto ama casa com ele já no meio do filme, tudo para fazer ciúmes em outro rapaz, mas até o final ele provará que é digno de consumar o casamento e ser o marido de fato. E que em Seven Chances, de 1925 (filme refilmado com Chris O’Donnel no papel de Buster Keaton, sabe-se lá de quem foi essa ideia infeliz) o casamento é a condição estabelecida por um testamento para que ele receba uma fortuna (mesmo assim, ele foge de centenas de candidatas, atravessa arame farpado, um enxame de abelhas e escapa de um deslizamento de pedras gigantescas para chegar àquela que ele ama). Em Steamboat Bill, Jr., de 1928, após enfrentar sozinho um ciclone cuja destruição é verdadeiramente surreal (para quem não viu a cena histórica, um trecho aqui), seu personagem consegue resgatar sua amada e ainda dá um jeito de encontrar, em meio a destruição, um padre para finalmente uni-los em matrimônio. Em College, de 1927, interpreta um universitário muito pouco atlético que precisa se envolver com o mundo dos esportes para impressionar uma garota. Já em A General, de 1926, sem dúvida um de seus melhores, ele terá de participar da guerra civil se quiser mostrar o seu valor e ser aprovado pela amada. Os problemas, portanto, que seus personagens se envolvem têm muitas vezes a ver com a mulher amada, seja lidando com oponentes mais fortes e espertos (As Três Idades, 1923), com uma família de inimigos mortais (Our Hospitality, 1923) ou simplesmente tentando se sair bem em algum meio profissional para se tornar digno do apreço da moça (The Cameraman, 1928). Tais sacrifícios são necessários para se atingir o objetivo principal: desposar a amada.
O que acontece, contudo, após o casamento?
Sherlock Jr. sugere uma dificuldade extra, algo além do mero final feliz do matrimônio. Trabalhando como projecionista em um cinema, Keaton recebe a visita da mocinha. Sem saber como agir, ele segue algumas dicas do filme sendo exibido; na tela grande, o galã segura as mãos da amada, beija-as, coloca-lhe um anel, beija a atriz nos lábios e a abraça… Na tela menor da janelinha da sala de projeção, um frame dentro do frame, ele repete tudo isso timidamente e sem muito jeito. Na cena seguinte, o casal do filme já está com filhos, a atriz costurando ao lado do marido que regozija de felicidade. Keaton, então, coça a cabeça; como imitar isso? Da mesma forma, se Keaton pode nos ensinar sobre os sacrifícios do amor em seus filmes, com acrobacias, lutas corporais e esforços morais, como podemos fazer o mesmo na prática? Como conquistar aquela felicidade?
Na vida real, Keaton se casou três vezes. Com a segunda esposa, atriz de Our Hospitality, teve dois filhos que foram proibidos de ver ou falar com o pai por anos após o divórcio. Sua terceira mulher, contudo, continuou ao seu lado até a morte. Keaton morreu dormindo, aos 70 anos, pouco depois de um jogo de cartas com ela. As fraturas e os hematomas de uma vida toda devem, então, ter valido a pena.
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Cronocentrismo e crítica literária
Por Rodrigo de Lemos.
Curioso como os detratores do eurocentrismo e do logocentrismo e do falocentrismo deixam passar em silêncio uma categoria que, a um observador desinteressado, não deveria ser motivo de menor escândalo do que as primeiras: o cronocentrismo, a mais ou menos consciente transformação do tempo (ou de um certo momento do tempo) em coisa, em algo cuja essência pode ser definida a exemplo de uma cadeira, em algo que pode ser estudado como um bicho de laboratório, alçando-se daí a causa de fenômenos, a critério de julgamento, a móbil de ações. Nunca encontrei quem hoje defendesse a sério essa posição tal qual; creio, entretanto, que nem por isso ela está menos viva, e viva exatamente porque anônima e difusa, quer como pressuposição tácita entre palestrantes e suas audiências, quer como o sentimento secreto unindo autor e leitor.
O cronocentrismo pode, claro, manifestar-se em meios intelectuais restritos como fetichização de um período pretérito (e uma Idade Média de cartolina em alguns círculos católicos é o primeiro exemplo que me vem à mente), mas, para a massa dos educados lato sensu, ele aparece como aquilo que Jacques Maritain chamou de cronolatria, o uso dos in e dos outs das revistas de moda no campo das idéias, seguindo-se daí a fatal legitimação do presente e a transformação do conceito em voga ontem em algo tão risível e tão absurdo quanto uma anágua ou um gorrinho de melindrosa. É a adoração narcísica da própria época – essa época não se definindo por mais do que pelo espaço entre dois derniers cris. Talvez por isso os defensores do multi- a qualquer preço sejam de uma inconsciência tão complacente quanto ao cronocentrismo: é ele que os legitima; por trás da poeira levantada pela caravana de palavras vagas, difícil é escutar, no seu contexto e nos seus próprios termos, o discurso dos homens sobre as mulheres na longa era de trevas anterior ao advento de Simone de Beauvoir ou o que os padres da Igreja entendiam realmente por pecado da carne. Para “dar voz” aos excluídos (usando a metáfora de que eles mesmos se servem), é preciso abafar a dos seus supostos algozes. Leia mais…
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A ferida do exílio
Data do post: 5 de maio de 2012

Saiba mais aqui.
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O Direito à Dúvida
Data do post: 4 de maio de 2012
Produzido em 2010, Conspiração Americana (The Conspirator) estreia no Brasil nesta sexta-feira. O atraso de dois anos, contudo, não prejudica a recepção do filme, o primeiro de uma produtora dedicada exclusivamente à história americana. Dirigido por Robert Redford, ator, diretor e também fundador do Festival de Sundance, o filme trata do julgamento de Mary Surratt, a única mulher presa entre os conspiradores pela morte do Presidente Abraham Lincoln. Leia mais…
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De livros e submundos
Data do post: 2 de maio de 2012
Em virtude da enorme utilidade da disponibilização irrestrita de livros online, o assunto sempre volta à tona. A verdade da premissa, creio, ninguém disputa: há poucas coisas mais úteis para a cultura do que o livre e fácil acesso aos livros. Conversamente, não há nada mais limitante do que ter de gastar dinheiro e tempo para poder consultar um livro. Mais especificamente, é impossível pesquisar, em qualquer área do conhecimento humano, sem ter à mão praticamente toda — e aqui há exigências necessárias e as há opcionais, o útil e o luxuoso — a literatura produzida a respeito.
Se quero escrever algo de relevante sobre a imortalidade da alma em Aristóteles, por exemplo, precisarei, além de conhecer o grego clássico, de um número considerável de artigos e livros sobre o tema em várias línguas (inglês, francês, italiano e alemão). (E digo algo de relevante porque, se não consultar a literatura, ou tentarei reinventar a roda ou, invariavelmente, direi asneira.) Pensando concretamente, onde estão esses livros? Antigamente era necessário viajar, ao menos quando se tratava de ciências humanas. (A maioria dos institutos de matemática, química, física, etc. está integrado a uma rede de periódicos especializados; são áreas que, via de regra, dispensam pesquisa histórica; quase toda bibliografia, além de reduzida se comparada a uma de humanas, é composta de artigos.) Numa biblioteca como a Bayerische Staatsbibliothek, hoje com quase 10 milhões de volumes em seu acervo, eu certamente encontraria o material completo para minha pesquisa sobre Aristóteles; bastava, então, viajar para Munique, ou para outra cidade provida de uma biblioteca gigantesca, como Washington, Paris, Londres ou Roma. Tempo e, principalmente, dinheiro.
E isso vale, como eu dizia, para todas as áreas: da metafísica à oceanografia. Quem nunca ouviu falar nos preços dos livros de medicina? E quem — entre os realmente curiosos — nunca quis aprender uma linguagem de programação e perdeu o sono porque os melhores tratados sobre a tal linguagem eram muito caros?
E aqui entra a utilidade da premissa de que falávamos: hoje, ou ao menos há alguns meses, não era necessário viajar. Combinando (i) uma biblioteca como a Florestan Fernandes da USP, que é muito boa, e uma assinatura do JSTOR (‘portal’ poderoso de periódicos com acesso online, normalmente por meio de uma instituição de ensino) com (ii) o Internet Archive e os extintos Gigapedia e library.nu, meus recursos de pesquisa eram praticamente ilimitados e, vá lá, 80% digitais.
O que é que mudou? A maioria dos livros escaneados indexados nesses dois últimos sites não estão mais acessíveis em virtude de problemas legais. Objetivamente, a maioria dos países proíbe a disponibilização de livros fora do domínio público. Seria possível afirmar, de acordo com algum critério superior ao direito positivo — a legislação efetivamente vigente –, que essa proibição é justa? A questão, como todos sabem, não é simples. E o argumento se põe assim: se é certo que nossa premissa é verdadeira — o acesso irrestrito é útil e desejável –, é correto afirmar que daí se segue que qualquer obstáculo ao livre acesso constitua uma injustiça?
Não creio que seja necessário ir tão longe.
Um dos problemas é a mudança nas regras do jogo. Os livros fora do domínio público foram produzidos dentro de certos pressupostos: entre eles, que seriam vendidos. Se preciso de um livro, que é um bem para mim, devo estar disposto a, dentro de parâmetros razoáveis, pagar o preço correspondente. E aqui entra outro fator de complicação: o chamado uso acadêmico. A expressão, aqui, está em lugar de “consulta para fins acadêmicos”. Trata-se de um fator de complicação porque a distinção entre os vários tipos de uso que se pode fazer de um livro, para efeitos legais, não se faz com o pé nas costas. Em termos teóricos, a distinção, de fácil transformação em statement, é entre uma leitura para elaboração de pesquisa e uma leitura para qualquer fim y diferente do anterior. Na prática, sei muito bem quando estou usando um livro numa pesquisa e quando, por exemplo, o estou usando para ganhar dinheiro (quando o vendo: o caso do uso que leva, em última instância, à perda subsequente do direito de usar) ou para recreio, ou então num sentido, por assim dizer, amadorístico, simplesmente para satisfazer uma curiosidade. Talvez fosse possível estabelecer uma categoria de livros que, mesmo usados para outros fins, por definição (ou ficção jurídica) são empregados em pesquisas: “livros acadêmicos”.
Mas qualquer consideração, penso, sobre o quase tautológico uso acadêmico de livros acadêmicos (o mesmo vale para artigos, embora só possam ser vendidos na forma impressa com outros artigos; separadamente, só por transferência eletrônica), ou seja, sobre o seu uso próprio, precisa enfrentar um ponto inescapável: o do custo. E evitando levantar as óbvias objeções (ora, um livro impresso custa caro) e as responder, prefiro dizer simplesmente que, em algum momento, será necessário que as instituições acadêmicas — privadas ou públicas — banquem diretamente todo o processo de produção e distribuição de monografias, tratados, enciclopédias e artigos. Se são acadêmicos, seu custo para o pesquisador tem de ser zero — assim como, normalmente, é zero para o autor. (Isso significa que o preço é pago pelas Universidades e instituições análogas.)
E isso se relaciona diretamente com a ideia, já mencionada, das regras do jogo. Os consumidores de conhecimento puro é que ditam as regras do consumo. Se eles não compram mais livros, ou ao menos não por esse preço (vejam só: artigos acadêmicos custam hoje em média cerca de USD 30,00), e se criam um subsistema subterrâneo de troca de livros digitalizados, é sinal de que o mercado precisa mudar. Ou abaixa os preços — o que está ligado à disponibilização eletrônica por iustum pretium –, ou continua a ter prejuízos. A produção e as condições de possibilidade de disponibilização sempre existirão. Se não há editora que publique, há uma revista eletrônica — esperamos, respeitável — que o faz; ou o próprio autor digitaliza o texto (ou melhor, o deixa como está, porque certamente foi compilado em LaTeX ou algo parecido) e o disponibiliza em seu site pessoal, como, e. g., fizeram com os artigos de Peter van Inwagen.
“As pessoas dão um jeito” é a melhor descrição de como funcionam as coisas em sociedade, mesmo quando estamos diante das relações de produção e consumo. Não é preciso conceber um sistema regulatório, de modo apriorístico, porque o sistema é na verdade quase todo empírico e sobrevém ao que já está arranjado informalmente. Primeiro vem o homem; depois o alfaiate e o terno.
P. S. Seguindo meu próprio conselho, autorizei a disponibilização, pela USP, da minha própria tese de doutorado, que pode ser acessada nesta página.
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Muito Além do Mito
Data do post: 27 de abril de 2012
Filme: Sete Dias com Marilyn
Marilyn Monroe morreu em 5 de agosto de 1962 com apenas 36 anos. Neste curto período de vida, fez dezenas de filmes com alguns dos maiores diretores do cinema americano como John Huston, George Cukor, Billy Wilder, Otto Preminger e Howard Hawks. Contracenou com Bette Davis, Cary Grant, Lauren Bacall, Robert Mitchum, Ethel Merman, Jack Lemmon, Clark Gable, entre outros. Tal currículo respeitável, porém, é ofuscado por sua beleza extraordinária e vulnerabilidade tocante, aparente inclusive em inúmeros retratos por fotógrafos de renome como Richard Avedon, Cecil Beaton, Henri Cartier Bresson, Milton Greene e Eve Arnold. Entre astros que caíram no esquecimento ou que são celebrados apenas em grupos diminutos de cinéfilos, Monroe continua viva no imaginário de homens e mulheres, mesmo cinquenta anos após sua morte.
Sua história, como muitas em Hollywood, é trágica. Nascida Norma Jeane Baker em 1926, nunca conheceu o pai e, com a mãe internada em um hospício, passou a viver em casas de parentes e orfanatos – até se casar, ainda adolescente, para fugir do controle do Estado. Trabalhava em uma fábrica durante a guerra quando foi descoberta por um fotógrafo. Tingiu o cabelo castanho, fez uma cirurgia plástica muito bem-sucedida no nariz e mudou o nome para Marilyn Monroe. Teve três casamentos fracassados e uma série de abortos naturais. Vivia sob a influência de álcool e calmantes. Suicídio ou não, até hoje as circunstâncias de sua morte são suspeitas (o patologista não encontrou traços das cápsulas do barbitúrico responsável pelo óbito em seu estômago, ela possuía hematomas no corpo e os depoimentos de sua empregada são contraditórios).
Abordar toda a sua vida ou até mesmo a mera construção de sua persona – até que ponto ela se fazia de burra porque era o esperado, aquilo que garantia seu sucesso comercial (e, consequentemente, maior poder de decisão em produções futuras)? – fugindo de qualquer caracterização caricata, infinitamente repetida em diversos meios, ou da conclusão simplória de que Marilyn era “apenas uma garotinha perdida” seria algo muito difícil de se conseguir em uma hora e meia de filme. Assim, a grande vantagem de Sete Dias com Marilyn (My Week with Marilyn) é tratar somente de um período específico de sua trajetória, com pistas de seu passado e de seu futuro, mas ainda apresentando possibilidades mais complexas para sua personalidade e suas escolhas.
O filme dirigido por Simon Curtis, com a sensível e brilhante Michelle Williams no papel principal, acompanha Marilyn Monroe em sua primeira viagem à Inglaterra para contracenar com Sir Laurence Olivier, interpretado pelo também Shakespeariano Kenneth Branagh, em O Príncipe Encantado (filmado com o título de The Sleeping Prince e rebatizado depois como The Prince and the Showgirl), o primeiro filme que ela produziria sob a Marilyn Monroe Productions. A aliança que formou com o ator clássico foi uma de suas muitas tentativas de ser levada a sério como atriz. Aos 31 anos, Marilyn havia acabado de se casar com o dramaturgo Arthur Miller (um intelectual que validava, de certa forma, sua ânsia por um reconhecimento mais cerebral) e já estava bastante imersa no Método usado pelo Actors Studio, outra tentativa de aprofundar suas habilidades dramáticas. Olivier, contudo, abominava o Método e não sabia lidar com as constantes dúvidas de Marilyn sobre sua personagem, muito menos seu comportamento errático no set de filmagem.
Cabe aqui algumas palavras sobre duas escolas bem distintas de atuação. O Método de Stanislavski, usado no Actors Studio e adotado por atores daquela nova geração como Marlon Brando, James Dean, Montgomery Clift, etc., consiste em utilizar memórias afetivas pessoais para dar profundidade à atuação. Assim sendo, o ator não pode fingir estar triste. Se ele não sentir a emoção que o papel requer, não conseguirá atuar. Já os atores das antigas como Spencer Tracy, James Stewart, Cary Grant e assim por diante, acreditavam em atuar sem tantas firulas emocionais, mas de forma distanciada, controlada e racional. Ambas escolas renderam atores excelentes, mas são modos completamente divergentes de trabalhar.
Marilyn Monroe e Laurence Olivier são, portanto, de universos opostos. E como Olivier era também o diretor da produção, ele não podia aceitar os atrasos históricos de sua atriz principal ou a presença constante de sua treinadora Paula Strasberg que lhe era como uma sombra. Em meio aos conflitos, Monroe encontra um aliado em Colin, um mero assistente de 23 anos em seu primeiro trabalho no cinema. Curiosamente, é ele quem melhor define a situação: a filmagem toda é tensa porque Marilyn é uma estrela tentando se tornar uma atriz respeitada e Olivier é um ator de respeito tentando se tornar um astro. Se Marilyn procurava reconhecimento em sua associação com o ator britânico, ele por sua vez almejava um rejuvenescimento de sua carreira ao fazer par romântico com a mulher mais desejada do mundo. Mas além do Método lhe causar repulsa, ele também tinha consciência de que seu próprio estilo já era considerado obsoleto e que Marilyn, mesmo com todos os problemas emocionais, representava um futuro do qual ele não fazia parte. Tudo isso o próprio Olivier confessa em um momento de destempero ao assistente que tudo vê e tudo ouve – Colin Clark, que escreveu os livros sobre a produção de O Príncipe Encantado e sobre sua semana com Marilyn, que deram origem ao filme.
Mais improvável do que o relacionamento amoroso entre Marilyn e o terceiro assistente do diretor (ela ser capaz, intencionalmente ou não, de seduzir a todos em busca de compreensão e afeto é bastante verossímil) é Colin estar presente em tantos momentos-chave da vida da estrela e dos bastidores da produção como, por exemplo, quando Paula Strasberg se ajoelha frente a Marilyn e diz ter esperado a vida inteira por uma atriz como ela, ou quando Arthur Miller assume estar um tanto arrependido por ter se casado com Marilyn, ou quando ela encontra o que parecem ser rascunhos do roteiro de Os Desajustados (The Misfits) que o dramaturgo escreveu inspirado nela (além de vários outros pensamentos e ocasiões que deveriam ser privados). Mais duro ainda de engolir é a validação, ou seja, aval que a própria Marilyn lhe dá para contar a sua história: “você vê os dois lados”. Todos lhe fazem muitas confissões, Colin presencia eventos importantes demais para acreditarmos que não houve um certo esforço imaginativo aqui e ali, preenchidos talvez após os acontecimentos – sabemos hoje que seu casamento com Miller tinha problemas, que ela abusava de calmantes, etc., mas era mesmo já tão evidente na época ou o autor “forçou” a memória para dar sentido ao que veio depois?
De qualquer forma, o filme é interessante como uma ficção que toca em várias verdades sobre uma atriz muitas vezes vista como superficial e boba. Sofrendo com as exigências de sua carreira, Colin sugere que ela abandone tudo e viva como uma pessoa comum, o que ela recusa. “De que adianta se isso tudo lhe enlouquece?”, ele pergunta. “Você acha que eu estou louca?”, diz Monroe, afetadíssima. O que o filme não explicita (e é uma qualidade não explicitá-lo, pois são estas sutilezas que atestam sua qualidade) é que Marilyn vivia com o medo de ter o mesmo destino que a mãe. De fato, em determinado momento da vida ela sofre um colapso nervoso e acaba internada – e o acontecimento de sua internação tem um resultado muito pior do que o colapso em si, porque lhe pareceu então um déjà vu assustador do que acontecera com sua mãe e um sinal de que ela estava fadada ao desequilíbrio mental e à infelicidade.
De fato, havia em Marilyn a vontade de encontrar, finalmente, o homem certo e constituir família. Em seu último filme, Something’s Got to Give (não-completado), Marilyn chegou a gravar cenas com atores mirins que interpretavam os filhos de sua personagem e é notável o carinho (e também a melancolia) com que ela lida com as crianças. Por outro lado, ela não podia mais abandonar a carreira que havia, por fim, se tornado parte de sua própria identidade. Em entrevista, Simon Curtis declarou: “Esse filme é uma janela íntima para o lado vulnerável e secreto de Marilyn Monroe. Mas também queríamos nos certificar de que a mostramos em seu elemento como estrela, como performer vivendo o seu sonho. É o contraste entre esses dois lados, que são tão opostos, que a torna tão convincente.”
Em Núpcias de Escândalo (The Philadelphia Story), Katharine Hepburn interpreta uma socialite estoica que não admite erros de conduta de ninguém. Cary Grant, seu ex-marido ainda apaixonado, mas decepcionado com sua postura, diz: “Você nunca será um ser humano de primeira classe ou uma mulher de primeira classe até aprender a ter alguma consideração pela fragilidade humana”. Marilyn era capaz de despertar a fúria dos colegas com quem contracenava (Tony Curtis, irritado por seus erros e constantes atrasos no set de Quanto Mais Quente Melhor chegou a dizer que beijá-la era como beijar Hitler), mas sua vulnerabilidade e falibilidade tão enternecedoras são justamente o que podem ajudar a reconhecer, entre nós, os seres humanos de primeira e segunda classe.
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Riscos, incertezas e o dia da morte
Por que o risco calculado é melhor do que a incerteza absoluta? E por que ainda assim preferimos não saber o dia em que vamos morrer?
Recorramos a um experimento mental concebido por Ellsberg (Risk, Ambiguity and the Savage Axioms, in Quarterly Journal of Economics 75, 4 (1961), pp. 643 e ss.), chamado aqui simplesmente de Experimento, que parece bastante ilustrativo, e lembremos daquela quase poética declaração de Donald Rumsfeld:
There are known knowns; there are things we know we know. We also know there are known unknowns; that is to say we know there are some things we do not know. But there are also unknown unknowns – there are things we do not know we don’t know.
O Experimento consiste numa espécie de loteria. Há duas urnas A e B, cada uma contendo 100 bolas sortidas azuis e vermelhas. A urna A tem 50 bolas azuis e 50 vermelhas. A urna B possui uma quantidade desconhecida de bolas azuis e de bolas vermelhas. Basta que o jogador escolha uma das duas urnas e apanhe uma bola ao acaso. Se ele retirar uma bola azul, ganha o prêmio. A pergunta é: qual urna escolher? Como é fácil perceber, escolhendo a urna A, estou diante da probabilidade de 1/2 de retirar uma bola azul e ganhar o prêmio. Já com a urna B, enfrentarei uma probabilidade (aparentemente) desconhecida.
Experimentalmente as pessoas tendem a escolher a urna A. Se o leitor pensar, provavelmente também fará a mesma escolha. Por que? A resposta a ser dada é quase sempre: “bem, a urna B deve ter menos de 50% de bolas azuis, o que a torna indesejável”. E isso faz todo sentido. Escolhendo a urna A racionalmente, a única razão para minha decisão é o fato de que a una B deve possuir menos bolas azuis. Não sendo assim, a escolha pela urna A é irracional. Mas suponha que o jogador ganhe o prêmio caso retire uma bola vermelha. O que fazer com a resposta: “a urna B deve ter menos de 50% de bolas azuis”? Porque agora essa crença é vantajosa, e eu deveria escolher, nesse caso, a urna B.
Essa crença contraditória, surgida quando se está diante do “desconhecido desconhecido” de Rumsfeld, parece mostrar que na verdade abominamos a incerteza (a urna B) e preferimos o risco calculado (a urna A). Perceba que há a chance de que a urna B contenha apenas uma bola vermelha e 99 azuis, o que a tornaria muito mais desejável do que a urna A. Mas mesmo assim mando-a às favas e fico com a urna A. Prefiro o “desconhecido conhecido” — neste caso, o desconhecido é “em qual dos lados do 50/50 ficarei ao final”, e o conhecido é o “50/50″. A urna B traz um desconhecido “em qual dos lados do m/n ficarei ao final” e outro desconhecido, “m/n”.
Evidentemente, a matemática da questão é um pouco mais complexa. (Não vou tratar desse problema aqui. Mas o início da solução é: se a probabilidade associada à urna B é totalmente aleatória para o evento ‘retirada da bola azul’, temos {1/99, 2/98, 3/97, … m/n}, para 0 < m,n < 100, etc). Afinal, a chance de o número de bolas azuis ser maior que o de vermelhas parece ser de 50%! Mas os resultados humanos são conhecidos. Preferimos, quase todos nós, a urna A — ao menos porque o cálculo do risco é trivial.
Agora vamos mudar o experimento em apenas dois pontos: o “prêmio” é a morte e o jogador é impedido de se retirar do recinto. Alguém se lembrou da Loteria da Babilônia, de Borges? Nesse caso, a resposta do jogador não viria tão rapidamente. Se pudesse, contrataria um matemático para o auxiliar na decisão (e amaldiçoaria o nosso Ellsberg), ou então pediria a proteção da lei diante de tão cruel experimento (aqui, d. G., apenas mental).
É o que fazem o direito e a economia: reduzem o desconhecido ao conhecido para que, mesmo que o cenário seja sombrio, saibamos onde estamos a pisar. Mas a natureza de um e outro diferem radicalmente. O direito prevê, por exemplo, que se as condições que fizeram com que Caio realizasse um contrato com Tício vierem a se alterar bruscamente, aquele que saiu prejudicado pode recorrer ao Judiciário para obter a revisão do contrato (cláusula rebus sic stantibus). A imprevisibilidade da aplicação do direito exsurge dos fatos, das interpretações e da limitação humana. Já a economia é, em geral, puramente descritiva: ela diz ao agente Caio que, segundo o modelo tal, hoje não é um bom dia para indexar as prestações ao dólar americano, porque estamos em 2007 e há uma bolha imobiliária nos EUA… A economia pode errar, e frequentemente erra; o direito protege as expectativas legítimas, faça chuva, faça sol, porque é um ente normativo e não descritivo. Mas ambos preferem, e buscam, lidar com o risco calculado e, como nós (porque são, afinal, ciências humanas e tratam do imponderável), abominam a incerteza absoluta.
Mas há um fato que parece contradizer o resultado do Experimento: quem gostaria de saber o dia da sua morte? Preferimos, nesse caso, o desconhecido conhecido ou o duplo desconhecido? Parece que preferimos o duplo desconhecido, a incerteza absoluta (“morrerei entre hoje e sei lá quando”) ao conhecimento de intervalos probabilísticos (“morrerei entre os 50 e os 60″). Eu não me arriscaria a declinar, com todas as letras, o porquê desse nosso amor ao incognoscível nesse caso excepcional.
Poderia, contudo, esboçar uma hipótese. A morte é o fim de todas as possibilidades (ao menos terrenas, porque aqui não toco na premissa da vida após a morte, que não altera necessariamente a hipótese), a cessação das escolhas e da percepção. Quando não pudermos mais escolher e sentir, as consequências de nossas ações, o perigo, o medo, nada mais importará. Se o sujeito não existe mais, desaparece, com ele, o seu medo diante do desconhecido. Esse evento que desaparece juntamente com o sujeito precisa se manter incógnito. (Por isso não se pode, a rigor, pretender que o suicídio vá tirar alguém do estado de mal-estar do qual ele quer, desesperadamente, fugir — sem percepção, não há nem sentir-se bem, nem sentir-se mal.) Mas por quê?
A razão disso é difícil de explicitar — se é que ela existe –, mas considerem o seguinte caso. Sei que vou morrer amanhã. Sabendo disso, o meu leque de ações possíveis diminui consideravelmente. Não posso marcar um compromisso para depois de amanhã. Não irei me inscrever no curso tal. Não começarei a estudar russo. Tomado de um surto de bom moço, o máximo que posso fazer é o clássico norte-americano “resolver as pendências”: fazer as pazes com certas pessoas, plantar uma sequoia, fazer um testamento favorecendo um asilo de velhinhos, etc. Posso ser um homem prático e cuidar das contas a pagar, dos eventuais problemas com a administração do espólio e outros assuntos deste jaez. Mas meu raio de ação envolve apenas atos de hoje para amanhã. Os planos são restritos, e muitas vezes impossíveis, e o atropelo é enorme. Agora considere que vou morrer daqui dois dias. Aumenta-se o número de possibilidades e reduz-se o atropelo. Regra geral, quanto mais dias tiver de vida, maior é o meu campo de ação. Todavia, misteriosamente, o saber o dia da morte sempre reduz consideravelmente o meu campo de ação. O cálculo envolve o imponderável, mas é razoável pensar que essa afirmação é verdadeira: se não sei o dia da minha morte, posso planejar e viver como se fosse imortal, equiparando, para efeitos práticos, a ignorância de x com o não-x. É bastante aceita a ideia de que o sentido da vida está numa projeção, e que viver de acordo com um plano é algo que nos preenche. Há mais sentido e plenitude quando não se sabe o dia da morte (excluído aqui o caso dos doentes terminais), porque para toda ação imaginada, dentro dos limites do que se considera “a vida de um homem”, há um amplo espectro de desdobramentos estando presente o sujeito (ponto que podemos colocar na conta da “plenitude”), mesmo que um grande número dessas ações seja, na verdade, impossível objetivamente: porque vou, afinal, morrer num dia determinado.
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A Perseguição e os machos alfa
Data do post: 20 de abril de 2012
Em 2008, Liam Neeson, ator indicado ao Oscar por A Lista de Schindler, surgiu como um improvável, porém eficaz, herói de ação em Busca Implacável, filme dirigido por Pierre Morel e escrito por Luc Besson (criador do maravilhoso O Profissional), em que um agente aposentado da CIA se utiliza de suas habilidades para resgatar a filha sequestrada por criminosos em Paris. A lógica por trás de Busca Implacável, e também de O Profissional, é que a ação precisa estar ligada a um drama ou motivação pessoal, do contrário não podemos realmente senti-la ou sequer torcer pelo herói. Taken, nome original de Busca Implacável – no Brasil os filmes de ação sofrem de uma febre de títulos genéricos e inexpressivos – foi um sucesso tremendo (a sequência já está em pós-produção) porque acompanhamos um homem de meia-idade usando tudo o que aprendeu em vida para reaver a filha o mais rápido possível. Quando Neeson, com sua voz grave e sedosa de leão mítico, tão perfeita como Aslan em Nárnia, fala com o sequestrador pelo telefone, sentimos a aflição de um pai desesperado, mas resoluto; “eu vou te procurar, eu vou te encontrar e eu vou te matar”.
Depois de Busca Implacável, Neeson interpretou Zeus em Fúria de Titãs e Fúria de Titãs 2, fez Esquadrão Classe A e atuou ao lado de Diane Kruger em Desconhecido, outro filme de ação (semelhante, mas não tão bom quanto Busca Frenética, de Roman Polanski) proveniente do sucesso de 2008. A Perseguição, escrito e dirigido por Joe Carnahan, de Esquadrão Classe A, também tenta pegar carona na nova demanda por filmes de ação protagonizados por Neeson.
Com o título original The Grey, literalmente “O Cinza” ou “Os Cinzas” (uma alusão óbvia aos lobos, mas talvez também à maturidade do personagem e à zona intermediária entre vida e morte, bem e mal), A Perseguição é um filme de ação com pretensões poéticas sobre um grupo de trabalhadores de uma petrolífera que sobrevive a um acidente aéreo no Alasca e que precisa, então, lutar contra o frio, a fome e uma matilha de lobos selvagens. Em sua resenha, o crítico americano Roger Ebert disse ter sentido pena quando soube que Sarah Palin, ex-governadora do Alasca, atirava em lobos de um helicóptero, mas que depois de assistir ao filme achou até pouco. De fato, os bichos são apresentados como criaturas inteligentes e cruéis, que não matam apenas para se alimentar, mas também por questões territoriais. E, assim, começam os paralelos entre lobos e homens.
Com a velha dinâmica de Resta Um, os homens vão morrendo por motivos variados: um em decorrência dos ferimentos do acidente, outro que não resiste ao frio e assim por diante, mas o ataque de lobos ainda é o perigo principal. Lobos secundários, os ômegas, atacam aqueles de menor influência no grupo (e nem sempre saem vitoriosos). Tudo culmina, é claro, na batalha entre os machos alfa: o chefe da matilha e o líder dos sobreviventes.
Infelizmente, os personagens não são tão bem elaborados como em outros filmes de dinâmica parecida (como Alien, o Oitavo Passageiro, de Ridley Scott ou O Enigma de Outro Mundo, de John Carpenter, em que mesmo as mortes dos personagens secundários são profundamente sentidas). Em A Perseguição, houve uma tentativa sincera de torná-los únicos e até mesmo complexos. Há um engraçadinho (que nunca tem graça), um revoltado (que acaba pedindo desculpas por ser babaca), um cara legal que se preocupa com os outros etc., mas não é o suficiente; a maioria deles não ganha o devido trato ou tempo para que nos importemos realmente. Atribuir filhos, esposas ou familiares aos sobreviventes, apresentados em fotos ou pequenas histórias, não é suficiente para que eles ganhem vida ou personalidade. Até Neeson, com sua performance impecável, capaz de tornar interessante até a leitura em voz alta de uma lista telefônica, não está tão bem como estava em Busca Implacável – simplesmente porque seu papel não é tão bom.
Mesmo assim, o filme foi um sucesso de bilheteria nos Estados Unidos e deve agradar muita gente por aqui também, principalmente aos homens. Em Busca Implacável, o público feminino podia ao menos almejar uma identificação com a filha sendo resgatada pelo pai heroico ou então com o conflito da mulher que tem sua filha sequestrada e precisar recorrer às habilidades do ex-marido, adquiridas na profissão que fez justamente com que eles se separassem. Já em A Perseguição, entre metáforas para machos alfa, machos ômega, e os personagens que participam da “última boa luta”, fica claro que o filme foi feito quase que exclusivamente para homens.
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Curso de Paleografia Latina
Data do post: 19 de abril de 2012
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Esta é para poucos, mas quem sabe alguns leitores se interessem! Do dia 07 ao dia 25 de maio ocorrerá, no departamento de Filosofia da USP (campus do Butantã), um curso de paleografia latina com a professora Greti Dinkova-Bruun da Universidade de Toronto. Paleografia latina significa aprender a ler os escritos de documentos antigos em latim. O curso abrange desde as maiúsculas romanas e as formas de escrita cursiva da Roma Antiga até a escrita humanista da Renascença europeia, passando por marcos importantes como a minúscula carolíngia (que mais tarde daria a base para nossas minúsculas) e a escrita gótica medieval. O tema é um tanto técnico mas de grande interesse para aqueles que se interessam pela história antiga e medieval; ler edições recentes de textos latinos, com maiúsculas e minúsculas, espaços e pontuação é uma experiência muito diferente de ler o manuscrito do qual aquele texto foi extraído.
Devido ao curto período do curso, a agenda será intensa: 9 seminários de 4 horas cada (das 14:00 às 18:00), às segundas, quartas e sextas. Os interessados podem entrar nesta página para ter mais informações e fazer sua inscrição (gratuita).
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