IFE - Instituto de Formação e Educação
RSS

Compre o Livro

A Gênese de ‘Do Enigma ao Mistério’ - XI

Arquivado em: Especial incluído por Guilherme Malzoni Rabello
Data do post: 19 de agosto de 2008

E hoje encerramos com a última parte da terceira aula do Bruno Tolentino. Eu sei muito bem como é cansativo ouvir as gravações completas, mas quem nos acompanhou por esses quase três meses sabe muito bem a riqueza do material.

Espero que meu trabalho não tenha desapontado muito e espero também poder trazer mais boas notícias sobre a obra do Bruno Tolentino. E já que é para se despedir deste primeiro especial, aproveito para agradecer a todos pela excelente acolhida que a Dicta vem recebendo. Nosso trabalho continua por aqui…


Nenhum comentário ainda.  Seja o primeiro a comentar!

Sobre Saki, Leões e Coisas de Homem

Arquivado em: Do lado de lá, Literatura incluído por Rodrigo Duarte Garcia
Data do post: 15 de agosto de 2008

 

Besta - Leonardo da Vinci

Há uma boa passagem, n’O Gattopardo, em que Lampedusa constata, de maneira profética e resignada, que em três gerações o novo regime republicano transformaria os homens em pequenos gatos mansos e domesticados.

Mais de três gerações se passaram e parece que Lampedusa tinha mesmo razão. Submetido a doses cavalares de “paz, amor & ecologia”, o homem pós-moderno é criado completamente indefeso e despreparado para as situações da vida que exigem dele atitudes, bem, atitudes de homem. O politicamente correto de repente transformou a manlitate em algo moralmente errado e o resultado é que a coragem e outras virtudes clássicas passaram a ser vistas com o sinal invertido.

Acho que foi o Olavo de Carvalho quem recentemente chamou a atenção para esse fato, quando aquele sul-coreano maluco saiu atirando pela Virginia Tech sem que um único aluno ousasse fazer alguma coisa que não correr para salvar a própria pele. Talvez o exemplo ali fosse um pouco extremo, mas a verdade é que essa prostração remete a um fator cultural alarmante.

A propósito do razoável artigo de Cristopher Hitchens sobre Saki, na última Atlantic, Joseph Bottum relembra um de seus grandes contos, The Toys of Peace, que retrata de maneira bastante interessante esse processo. Na história, vemos o que acontece quando um tio resolve comprar aos sobrinhos brinquedos politicamente corretos, ao invés dos bons e velhos soldadinhos e tanques de guerra.

Vejam este trecho (a tradução livre é minha, de maneira que peço desculpas pela qualidade. Mas você pode ler o original aqui):

Uma enorme quantidade de tiras de papel ondulado foi a primeira coisa que chamou a sua atenção quando a tampa foi retirada; os brinquedos mais excitantes sempre vinham assim. Harvey jogou de lado a camada superior e logo apareceu um edifício quadrado, sem nenhum traço característico.

“É um forte!”, exclamou Bertie.

“Não, é o palácio do Mpret da Albânia”, disse Eric, imensamente orgulhoso do seu conhecimento do título exótico; “ele não tem janelas, para que as pessoas não consigam disparar contra a Família Real”.

“É um depósito de lixo municipal”, disse Harvey apressadamente; “todos os resíduos e o lixo de uma cidade são reunidos lá, ao invés de ficarem jogados, prejudicando a saúde dos cidadãos”.

Em um silêncio terrível ele desencravou o pequeno boneco de um homem com roupa preta.

“Este”, disse, “é um homem eminente, John Stuart Mill. Ele foi uma autoridade na economia política”.

“Por quê?”, perguntou Bertie.

“Bem, porque ele quis; ele pensou que seria uma coisa útil de se ser”.

Bertie deu um grunhido expressivo, que transmitiu a sua opinião de que essa seria uma vontade estranha.

Um outro edifício quadrado saiu da caixa, desta vez com janelas e chaminés.

“Um modelo da Associação Cristã da Mulher Jovem de Manchester”, disse Harvey.

“Há lá algum leão”?, perguntou Eric com esperança. Ele vinha lendo história romana e pensou que onde houvesse Cristãos você poderia esperar razoavelmente encontrar alguns leões”.

Se eu fosse o dono de uma editora, “há algum leão?” seria a pergunta eliminatória que eu faria para os escritores que submetessem seus manuscritos. Em caso negativo… Mas divago, porque tudo isso era apenas desculpa para indicar o site The Art of Manliness (via Stefan McDaniel), que trata de mordidas de cobra, caçadas, guias para dar gorjeta como um gentleman, para arrombar uma porta, há perfis periódicos (veja o com Viktor Frank), enfim, tudo que você precisa saber para não acabar ganhando o Sissy Awards de 2008.


Comentários (4)

“The horrors of the Gulag ought to be as well known as Auschwitz, but they aren’t.”

Arquivado em: Do lado de lá incluído por Luiz Felipe Amaral
Data do post:

Temos na The Economist uma resenha de The Forsaken: An American Tragedy in Stalin’s Russia, escrito por Tim Tzouliadis. O livro conta a história de norte-americanos nos gulags soviéticos: alguns buscando emprego e alívio para a Grande Depressão; outros, prisioneiros de guerra da Alemanha Nazista que foram “libertados” pelos soviéticos.

Coincidência ou não, a resenha é publicada na semana da morte de Solzhenitsyn.


Nenhum comentário ainda.  Seja o primeiro a comentar!

Scorn not the Internet

Arquivado em: Literatura incluído por Joel Pinheiro
Data do post: 13 de agosto de 2008

Só o futuro poderá julgar o efeito da Internet sobre a cultura. As mudanças que ela trouxe para nossos hábitos de ler e escrever são muitas, e atuam, não raro, em sentidos contrários.

Um grande e inegável benefício, contudo, é a disponibilização gratuita da obra de grandes autores do passado. Não é mais preciso comprar caros volumes para se ler a poesia completa de Wordsworth (o que não significa que a compra dos volumes não traga inúmeras vantagens!). Há muito material online, em bons sites, à espera de quem o acesse.

Neste soneto, cuja finalidade é defender o valor do soneto, Wordsworth nos lembra de alguns grandes nomes da literatura ocidental, cuja obra, com a Internet, está à nossa disposição.

Scorn not the Sonnet

          Scorn not the Sonnet; Critic, you have frowned,
          Mindless of its just honours; with this key
          Shakespeare unlocked his heart; the melody
          Of this small lute gave ease to Petrarch’s wound;
          A thousand times this pipe did Tasso sound;
          With it Camoens soothed an exile’s grief;
          The Sonnet glittered a gay myrtle leaf
          Amid the cypress with which Dante crowned
          His visionary brow: a glow-worm lamp,
          It cheered mild Spenser, called from Faeryland              
          To struggle through dark ways; and, when a damp
          Fell round the path of Milton, in his hand
          The Thing became a trumpet; whence he blew
          Soul-animating strains–alas, too few!


Comentários (3)

A Gênese de ‘Do Enigma ao Mistério’ - X

Arquivado em: Especial incluído por Guilherme Malzoni Rabello
Data do post: 12 de agosto de 2008

Até agora, muitos de vocês devem ter estranhado: “Ué, mas o Bruno Tolentino não era aquele ‘Polemista’”? Esse é um rótulo com o qual discordarei sempre que apareça. Polêmica é algo que por si só não quer dizer absolutamente nada e o Bruno não era, nunca foi, um “polemista”, como muitos gostam de dizer. Na verdade, desconfio que essa classificação seja apenas uma desculpa para não encarar de frente uma obra que é muito maior que os seus críticos.

Dito isso, preparem-se: no áudio de hoje o Bruno realmente resolveu soltar os cachorros. Pessoalmente, acho a parte menos importante de toda a gravação, mas é inegável que o que segue é extremamente engraçado. Aliás, se a polêmica tem um lado positivo é o fato de fazer-nos rir. Mas aí já seria uma idéia minha - e o que interessa é a gravação que segue.


Nenhum comentário ainda.  Seja o primeiro a comentar!

Arte, tradições e costumes

Arquivado em: Geral incluído por Joel Pinheiro
Data do post: 10 de agosto de 2008
Tags:

O que diferencia a obra de arte dos demais objetos? A cultura erudita da popular?

O engenho humano produz diversos objetos, alguns deles belos. O que não quer dizer que sejam arte. Contudo, o que parece frívolo atualmente pode, no futuro, transformar-se em tradição digna de ser preservada. Nossas próprias tradições têm origens muito mais prosaicas e recentes do que imaginamos.

Esta curta e agradável reportagem da BBC parte das galerias de arte contemporânea e nos leva a um passeio pelo mundo da cultura popular, levantando indagações pertinentes, bem como ilustrando-nos com fatos pouco conhecidos sobre alguns de nossos costumes e gostos.


Nenhum comentário ainda.  Seja o primeiro a comentar!

A Gênese de ‘Do Enigma ao Mistério’ - IX

Arquivado em: Especial incluído por Guilherme Malzoni Rabello
Data do post: 5 de agosto de 2008

Hoje começamos a ouvir a terceira e última aula do Bruno Tolentino. Como não podia deixar de ser, mais uma vez ele mudou completamente de planos. A primeira aula foi uma introdução a um curso que trataria da questão de “O mundo como Idéia” a partir de grandes obras da literatura ocidental; a segunda aula foi uma meditação sobre a vida e a morte. Nesta terceira ele decidiu falar sobre o que ele, Bruno Tolentino, havia escrito - mas obviamente não conseguiu se ater a isto. Aproveitem…


Nenhum comentário ainda.  Seja o primeiro a comentar!

Sobre Solzhenitsyn

Arquivado em: Do lado de lá incluído por Rodrigo Duarte Garcia
Data do post:

Wolf Vostell
Stalin - Wolf Vostell

A essa altura, todo mundo já falou alguma coisa sobre Alexander Solzhenitsyn, morto no último domingo, aos 89 anos. Autor de Arquipélago Gulag e vencedor do Nobel de Literatura em 1970, Solzhenitsyn foi um dos grandes defensores da liberdade individual contra as ideologias totalitárias do nosso tempo.

Nesse texto, Nathaniel Peters indica um discurso proferido por ele em Harvard, propondo a recuperação das obrigações morais e da virtude pessoal como remédio contra um legalismo detestável: a idéia de que “possuímos liberdades para o Bem. Assim como os indivíduos têm direitos que os seus concidadãos precisam proteger, eles também têm obrigações para com aqueles mesmos cidadãos. Passamos tanto tempo enfatizando direitos, diz Solzhenitsyn, que negligenciamos o ensino de obrigações. A quem muito foi dado, muito será pedido”.


Comentários (2)

O romance que salva toda uma literatura

Arquivado em: Geral, Literatura incluído por Martim Vasques da Cunha
Data do post: 4 de agosto de 2008

Depois de meses de enrolação, setenta e duas páginas lidas, mas interrompidas porque as circunstâncias me impediam de dedicar o tempo necessário, somente agora consegui terminar de ler o romance “As Benevolentes”, de Jonathan Littell.

Vocês já devem ter ouvido falar dele: o catatau de 900 páginas sobre um carrasco nazista gay da SS, ganhador dos prêmios Goncourt e da Academia Francesa, mais de 700 mil exemplares vendidos, escrito em francês por um americano residente em Barcelona. Enfim, o mito está feito e impresso.

O que vocês não ouviram é se o livro vale realmente a pena. Muitas críticas a ele são obtusas, para não dizer limítrofes. Alguns não entenderam nada; outros simplesmente perceberam que não tinham condições para o compreender adequadamente - e deram uma opinião frouxa.

 (A exceção é a resenha de Jessé de Almeida Primo para o primeiro número de Dicta&Contradicta. Mas, apesar de corajosa, não concordo com alguns aspectos de sua análise).

Enfim, perguntará o leitor, o livro é bom? Não, ele é excelente: é possivelmente um dos poucos romances que colocaria lado a lado com “Doutor Fausto”, de Thomas Mann, a grande obra que mostra o pacto demoníaco que a Alemanha fez com o Nazismo. Mas não se trata de uma tragédia; na verdade, Littell construiu o romance como uma farsa que, em alguns momentos, atinge a alucinação pura. Há um norte ético nessa decisão estética. Dizia Eric Voegelin, em seu “Hitler e os alemães”, que não se podia retratar o nazismo como uma tragédia, mas sim como uma farsa, pois o absurdo da situação era tamanho que ela não podia ser representada como algo “real”. Quando Littell chama o seu romance de “As Benevolentes”, sem dúvida quer nos despistar, jogar com nossas expectativas para depois quebrá-las em pedacinhos.

Assim, sugiro ao leitor que, se quiser aventurar-se a ler o catatau de Jonathan Littell, se prepare para trechos de alta voltagem sensorial e intelectual. Trata-se de um romance que retrata o nosso fascínio pelo Mal, não hesita em identificar o nazismo com as ideologias socialistas, sionistas e afins (não poupa sequer a ideologia GLS), narrado com uma força de imaginação que faz inveja a qualquer aspirante a escritor.

Além disso, o nosso escritor globe trotter também cria uma enigmática reflexão sobre o sutil poder do Bem, mesmo quando tudo parece ser dominado pelo Mal - daí o título, que tem, sem dúvida, uma ressonância irônica. Apesar de ser um olhar sem misericórdia no coração das nossas trevas, Jonathan Littell reconhece que a luz sempre vem para aqueles que também a recusam; e é a noção deste paradoxo que cria as obras de artes e os romances que podem, por alguns momentos, salvar toda uma literatura em decadência.


Comentários (2)

Felicidade objetiva e subjetiva

Arquivado em: Filosofia incluído por Joel Pinheiro
Data do post: 2 de agosto de 2008

Um artigo recente da revista Philosophy Now retoma a concepção clássica de “eudaimonia”, ponto central e finalidade de todas as éticas da Antigüidade. Em geral, o termo é traduzido por “felicidade”. O problema é que, hoje, “felicidade” significa principalmente bem-estar subjetivo. Para os antigos, o termo denotava, antes de tudo, a condição objetiva do indivíduo que vive de acordo com sua natureza humana, ou seja, que atualiza, em si, todas as potencialidades do seu ser. Para isso é que precisamos cultivar as virtudes, aquelas disposições e tendências internas que nos ajudam a se comportar consistentemente de acordo com o bem objetivo. Quem vive de acordo com o bem objetivo de sua natureza humana tem, naturalmente, grande bem-estar subjetivo, mas isso é uma conseqüência de se viver bem, e não a própria definição da felicidade.

O artigo é muito bom em fazer a distinção entre as duas concepções, e argumentar que, embora a felicidade meramente psicológica (subjetiva) receba toda a atenção hoje em dia, é necessário também considerar fatores objetivos, e propriamente éticos, que são muitas vezes deixados de lado. Longe de se restringir apenas aos filósofos antigos, traz para a discussão nomes improváveis de se associar à tradição da ética das virtudes, como David Hume e John Stuart Mill.

No final das contas, parece-me que a separação feita pelo artigo entre felicidade subjetiva e objetiva é radical demais; é claro que a distinção é válida e importante, mas ele não chega a estabelecer nenhuma relação entre elas, fazendo parecer que uma nada tem a ver com a outra. Além disso, a conclusão de que são preciso alguns parâmetros objetivos (por exemplo, não matar) dentro dos quais cada um procurará seu bem-estar subjetivo da forma que melhor lhe aprouver é, sem dúvida, muito distante da concepção clássica do que é a ética. Ainda assim, é um artigo muito elucidativo e com considerações e questionamentos relevantes; vale a pena ser lido.


Comentários (1)

Posts Antigos »