A redescoberta da filosofia no Brasil III – Vicente Ferreira da Silva
Data do post: 1 de setembro de 2010

Por Felipe Cherubin
Vicente Ferreira da Silva nasceu em São Paulo e formou-se em Direito na Faculdade do Largo de São Francisco, mas nunca exerceu a profissão, tendo-se dedicado inteiramente a vida acadêmica.
Em 1933, aproximou-se do grande matemático italiano Fantappié, então professor em São Paulo. Torna-se logo um dos primeiros leitores dos Principia mathematica de Russel e Whitehead e com a publicação de seu primeiro livro, Elementos de Lógica Matemática torna-se o primeiro a publicar um livro sobre este assunto no país. Com a vinda, em 1942, do lógico Willard Van Orman Quine, da universidade de Harvard, Vicente é convidado para ser seu assistente.
O contato com a filosofia alemã promove uma guinada em seu pensamento, que o aproxima cada vez mais das reflexões existenciais e conscienciológicas que tomam corpo em seu segundo livro, Ensaios Filosóficos (1948). Paralelamente, desenvolveu uma atividade importante que o aproxima da pedagogia filosófica de Ortega y Gasset: o jornalismo.
Em 1949 representa o Brasil no Congresso de Filosofia de Mendonza, ao lado de Eugen Fink, Nicolau Abbagnano, Delfin Santos, além de exercer o cargo de diretor da divisão de Difusão Cultural da Reitoria da USP e de organizar os Seminários de Filosofia do Museu de Arte Moderna. Ainda neste ano funda, com Miguel Reale e outros intelectuais, o Instituto Brasileiro de Filosofia e, em seguida, a Revista Brasileira de Filosofia.
Seu terceiro livro, Exegese da Ação, sai em 1950, ano em que finaliza um de seus mais importantes trabalhos Dialética das Consciências, onde expressa de modo definitivo sua fenomenologia da existência. Esta obra é apresentada na Faculdade de Filosofia da USP para o concurso de professor, mas sob o vão protesto de intelectuais, Vicente é impedido de concorrer ao cargo com o aviltante pretexto de não possuir diploma de Filosofia. Em 1951 publica Idéias para um novo conceito de homem, em 1953 Teologia e anti-humanismo e em 1954 colabora na organização do primeiro Congresso Internacional de Filosofia realizado no Brasil, nos quais se reúnem Enzo Paci, Julián Marías, Leopoldo Zea; Vicente é escolhido para fazer parte do Conselho Cientifico da coleção Rowohlts Deutsche Enzyklopaedie, ao lado de Mircea Eliade, Romano Guardini, Karl Kerényi, Robert Oppenheimer.
Em 1955, funda em São Paulo, juntamente com sua esposa, a poetiza Dora Ferreira da Silva, e Milton Vargas a revista Diálogo, na qual publica seus ensaios mais importantes sobre Filosofia da arte e religião. Em 1963, morre prematuramente de acidente de automóvel aos 47 anos de idade.
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Rodrigo Petronio, organizador das obras completas do filósofo Vicente Ferreira da Silva, fala a seguir em entrevista exclusiva concedida à Dicta.com, sobre o homem e a obra.
Quem foi Vicente Ferreira da Silva?
Vicente foi muitas pessoas. Ele foi um pensador brasileiro marcado por uma atitude filosófica original. Não estava só preocupado em submeter o texto filosófico a um trabalho técnico ou a uma exegese filosófica, mas também incorporar os conceitos e as obras da filosofia a isso que eu chamo de uma atitude filosófica e a obra dele é um testemunho desta atitude, seja do ponto de vista da lógica matemática, em que ele está mais preocupado com o instrumental do pensamento, seja no período posterior, nos seus estudos ligados a fenomenologia e ao mito.
Como organizador da reedição das obras completas, você a organizou não só no conteúdo por meio de ensaios introdutórios e notas, mas também fisicamente (em 3 Volumes) ressaltando as 3 fases da filosofia de Vicente. Você poderia comentar esse processo de reorganização da obra?
A divisão da obra de Vicente em três fases é quase um consenso entre os especialistas que eu li e conheço no sentido de a identificarem, mas sempre didaticamente. O Antônio Brás Teixeira, que editou uma seleção da obra de Vicente em Portugal, fala dessas três fases; Constança Marcondes César, talvez a maior estudiosa de Vicente, também a sinaliza.
Na primeira fase, dedicada aos estudos da lógica matemática Vicente deixou algumas importantes contribuições, rendendo um elogioso ensaio do lógico brasileiro Newton da Costa e reconhecendo o valor desses estudos. Você poderia comentar essa fase?
O interesse de Vicente pela matemática começou desde a adolescência, mesmo tendo cursado Direito depois; desde o colégio já começou a tomar aulas particulares de matemática e se interessar por Filosofia. Essa primeira incursão dele pela lógica matemática foi um pouco natural e muito precoce; aos 20 anos ele já estava lendo os Principia Mathematica de Russel e Whitehead, ou seja, já estava incorporando um tipo de lógica, a chamada lógica formal, lógica simbólica, logística, isto é, são diversos nomes dados a uma lógica que tenta reestruturar e dar respostas àquilo que a lógica aristotélica não contemplava. Esse pioneirismo do Vicente é muito importante e Newton da Costa fala disso. Há um ensaio, por exemplo, do Euríalo Canabrava sobre o Vicente lógico, e diz que ele também já está esboçando muitas questões da lingüística que só viriam a tona nas décadas de 50 , 60 e 70. É como se ele já estivesse lidando ali com paradigmas ou com limites da linguagem que depois vão se tornar questões mesmo de debate internacional. Para mim, o importante do Vicente lógico, além do pioneirismo, é a maneira prudente que ele lida com lógica, ou seja, não quer dar um golpe de estado na filosofia, substituindo toda a filosofia e toda a metafísica pela lógica, o que às vezes, em minha opinião, é o caso de Wittgenstein. Leia mais…
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A redescoberta da filosofia no Brasil II – Mário Ferreira dos Santos
Data do post: 31 de agosto de 2010

Por Felipe Cherubin
Mário Ferreira dos Santos nasceu em Tietê, São Paulo. Formado em Direito e Ciências Sociais pela Universidade de Porto Alegre, muda-se para São Paulo e funda as Editoras Logos e a Matese com o objetivo de publicar e divulgar sua obra. Foi um pensador incrivelmente fecundo que legou uma obra monumental com mais de 90 títulos publicados, alguns inéditos e outros inacabados.
Em menos de 15 anos publica a “Enciclopédia de Ciências Filosóficas e Sociais”, que abrange cerca de 50 volumes, parte de caráter teorético e parte histórico-crítico. Sua obra vai além das exposições de temas filosóficos e se encontram romances, dicionários, cursos de oratória e traduções comentadas. Seguindo tradição pitagórico-platônica, a obra de Mário explora com originalidade os caminhos da Metafísica.
Em 1957, publicou “Filosofia Concreta”, que estabelece o seu modo de filosofar. Mário Ferreira dos Santos considera a Filosofia como ciência rigorosa, aceitando o que é demonstrado e não o problemático e provável. Para ele, a Filosofia possui o genuíno valor de ciência, seja na investigação e na sistematização, seja na análise e na síntese de temas expositivos e polêmicos. Em 1959, a edição de “Métodos Lógicos e Dialéticos” expõe uma nova metodologia para guiar com segurança o estudioso no campo do saber.
A década de 1960 foi o período em que suas obras tiveram maior difusão em todo o território nacional.
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Luís Mauro Sá Martino, professor da Fundação Cásper Líbero e estudioso da obra de Mário Ferreira dos Santos, fala a seguir em entrevista exclusiva concedida à Dicta.com, sobre o filósofo.
Quem foi Mário Ferreira dos Santos?
Mário Ferreira dos Santos foi um filósofo brasileiro que desenvolveu um pensamento bastante original na segunda metade do século 20, dialogando com filosofias aparentemente dispares como, por exemplo, a escolástica medieval, Nietzsche e Sartre, trabalhando também com descobertas e pesquisas recentes para sua época .Foi um dos primeiros leitores de Piaget no Brasil, por exemplo. Dedicou a vida à filosofia, daquele preceito de Schopenhauer que se deve viver para a filosofia e não da filosofia. Mário conseguiu uma síntese original: vivia para filosofia e ao mesmo tempo vivia da filosofia sem nenhuma incongruência entre as duas.
Como foi seu primeiro contato com a obra do Mário Ferreira dos Santos e a partir de que ponto você começou a se dedicar a um estudo sistemático de sua obra?
Meu contato foi acidental, por meio dos sebos. De tanto ver os livros dele um dia acabei me interessando e à medida que eu ia lendo percebi que tinha alguma coisa muito boa embora na época eu não soubesse exatamente o que; me faltava ainda como sempre vai faltar, mas faltava mais ainda naquela época bagagem para entender o que ele estava querendo dizer, com quem estava dialogando e a partir daí que eu comecei a estudar sistematicamente a obra dele, fora do circuito acadêmico – como um desafio pessoal. Leia mais…
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A redescoberta da filosofia no Brasil I – Panorama Geral
Data do post:
A Dicta.com começa a publicar uma série de artigos e entrevistas a respeito do tema “A redescoberta da filosofia no Brasil”, feita por um de nossos colaboradores, Felipe Cherubin. Hoje teremos um pequeno panorama histórico de um problema que até agora parece ser insolúvel: temos ou não temos condições de entender o que realmente significa a Filosofia? Somos capazes de pensá-la e, sobretudo, fazê-la como os mestres da tradição? Para Cherubin, este impasse é resolvido com a redescoberta das obras de Mario Ferreira dos Santos e Vicente Ferreira da Silva. (M.V.C.)
Por Felipe Cherubin
A reedição das obras dos filósofos Mário Ferreira dos Santos e Vicente Ferreira da Silva dão novos ares ao estudo da filosofia no país e demonstram que é possível um pensamento original e de alcance universal em terras brasileiras.
Mário Ferreira dos Santos (1907-1968) e Vicente Ferreira da Silva (1916-1963) estão entre os filósofos brasileiros mais importantes do século 20. Foram pensadores independentes que trataram dos mais importantes temas da filosofia com impressionante interdisciplinaridade, dialogando tanto com a tradição quanto com o que havia de mais importante e atual no debate intelectual de seu tempo. A redescoberta de suas obras lança novas bases para a construção de uma cultura mais refinada e autoconsciente, recolocando o Brasil, definitivamente, no cenário global da história da filosofia.
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Em 1986, o Embaixador Mário Vieira de Mello publicava O Conceito de uma Educação da Cultura, retomando a reflexão de seu livro anterior sobre o tema do esteticismo na formação da cultura brasileira e como a partir daí lançar bases para a criação de um espírito ético no Brasil.
Seguindo o espírito da letra de Vieira de Mello, podemos compreender de que a proposta de transformar a consciência que temos da realidade brasileira, de uma percepção estética para uma percepção ética, nada tem de um empreendimento moralista e tampouco se trata de menosprezar as realizações e experiências brasileiras no campo das artes e do sentimento nacional.
O problema que se coloca é se devemos manter nossa auto complacência ao repetir erros que nos saltam aos olhos ou se não seria a hora de tentarmos uma arrancada, elevando o nível de nossas realizações e da nossa inteligência combinando assim fatores culturais mais sólidos e abrangentes.
A educação é um processo limitado que se encerra onde começa a cultura que nada mais é que o reflexo social do esforço intelectual de cada ser humano de educar os outros e a si mesmo. Educação e cultura são as duas faces de uma mesma moeda chamada pedagogia e não se deve confundida com o que hoje entendemos por ensino, esse rito social intimamente ligado com o mercado de trabalho e com as pressões da empregabilidade e nos discursos recheados por palavras de ordem como “educação para a democracia”.
A questão não é polarizar a discussão entre democracia versus aristocracia ou em educação de elite e educação para as massas, mas sim entre poder versus cultura e reconhecer que a pedagogia deve ter independência em relação a democracia, assim como de qualquer regime político, como bem perceberam Sócrates e Platão quando criticaram os sofistas por exercerem um magistério à revelia da sociedade, abrindo um perigoso espaço para corrompê-lo por distorções da vida democrática e as exigências do poder, na perda a longo prazo da noção exata do que realmente é a educação.
No século 21, países colonizados como o Brasil vêem-se diante do dilema em optar entre o artificialismo de uma cultura cerrada no passado e o funcionalismo de uma cultura desvinculada da tradição. Como equacionar esse desafio? Para um país da dimensão do Brasil recorrer ao mito da brasilidade e das formas mais esdrúxulas de provincianismos apenas produz documentos para etnólogos do futuro e nunca expressões de alta cultura e patrimônios para a humanidade. Leia mais…
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Encontro de culturas
O embaixador japonês na Santa Sé explica porque o Cristianismo permanece algo “estrangeiro” aos japoneses. Partindo de sua espiritualidade que mistura elementos de Budismo e Xintoísmo, Kagefumi Ueno enumera três pontos principais.
- Diferentes concepções do “eu” (ou “self”): para o japonês, é algo a ser superado e eliminado, para o ocidental, algo a ser afirmado e aperfeiçoado.
- Relação diferente com a natureza: para o ocidental, matéria inferior, para o oriental, algo divino a ser reverenciado.
- modo de encarar os valores: para os ocidentais, valores são absolutos e devem ser afirmados a qualquer custo (sejam os valores da fé cristã, da liberdade de imprensa ou dos direitos dos animais); já os japoneses consideram mais prudente relativizar os valores quando isso evitar a violência.
No fim das contas, a fala envereda para a economia, na qual, apesar das diferenças de fundo, o embaixador reconhece preocupações comuns entre a Igreja Católica e o Budismo.
Não vejo como discordar das idéias apresentadas (ao menos na parte inicial e mais importante), mas ao mesmo tempo fico querendo fazer a pergunta: “Sim, as diferenças culturais são reais; mas então qual das duas responde melhor aos anseios da natureza humana?”
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A morte nas esferas pública e privada
Não sabemos lidar com a morte. Com menos gente morrendo “fora de hora” (o que é bom), pensamos menos nela. Ao mesmo tempo, a mídia e a Internet confundem as esferas pública e privada. Antes, saber que alguém distante morreu era só mais um fato abstrato; agora temos que ver a mãe chorando na TV e os vídeos-tributo que os amigos publicaram no Youtube. Sentimentos privados vêm a público, e todos se sentem obrigados a partilhar do sofrimento de quem era próximo. Pior: confundimos isso com respeito.
“Que homem bom: ele sente profundamente a morte de todos os seres humanos” – isso pode bem ser verdade, mas as poucas pessoas que de fato sentem assim só se encaixam em dois tipos de vida: se acreditam numa transcendência, vida dedicada à oração ou ritos propiciatórios para os que se foram. Se atéias, vida melancólica contemplando a tragédia da humanidade destinada aos vermes. Claro, a imensa maioria não está nem aí para a morte de desconhecidos, caso contrário viveríamos em luto constante, pois tem sempre alguém morrendo.
Ficamos tristes quando morre alguém próximo. Quanto mais conhecemos sua vida, mas tocados ficaremos em saber de seu fim. Mas se desconheço o morto e não tenho relação com seus entes próximos, por que manter a pose e condenar como “desrespeitoso” quem não entre no jogo? Quem nunca riu com o Darwin Awards que atire a primeira pedra.
Continue a leitura no Terra à Vista.
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A ação moral depende da razão?
Data do post: 18 de julho de 2010
É a pergunta mais recente da série “Conversations” da Templeton Foundation, entidade que promove o diálogo entre ciência, filosofia e espiritualidade, financiando projetos, dando prêmios e organizando eventos culturais. A “conversation” é sempre uma boa oportunidade de ver opiniões diferentes em artigos enxutos escritos por gente gabaritada.
Pergunta-se se a moral depende ou não da razão humana. O que nos mostra como agir? Algum raciocínio prático? Os sentimentos? A adesão da vontade a uma lei? Participam da série o rabino-chefe do Reino Unido, Jonathan Sacks, o filósofo muçulmano Aref Ali Nayed, o jurista Stanley Fish, psicólogos, neurocientistas e, na defesa da boa e velha lei natural (que é, basicamente, responder à pergunta com um grande SIM), Robert P. George, de Harvard.
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Lançamento Hoje dia 18/06: Viktor Frankl
Data do post: 17 de junho de 2010
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A deformação da linguagem
Data do post: 19 de maio de 2010
Em entrevista publicada no caderno Sabático, do jornal O Estado de S. Paulo (que, pouco a pouco, transforma-se em uma publicação oficial da esquerda hegemônica, muito mais que a Folha de S. Paulo – ah, a vingança é um prato que se come frio…), Alfredo Bosi, o outro monarca do pensamento literário (sempre em competição com Antonio Candido), discorre sobre as ideologias e as contraideologias.
O monarca número 2 até fala algumas coisas corretas, mas o problema de toda a entrevista é que tanto o repórter que fez as perguntas como o próprio Bosi se comunicam em uma linguagem impenetrável. Aí vem a pergunta: Será que eles sabem pedir uma pizza como uma pessoa normal?
É claro que não. Ontem peguei o livro para dar uma folheada e, já pelo índice, deu para perceber o que vinha pela frente. Para Bosi, a ideologia maléfica é, óbvio, o liberalismo de direita; e a tal da contraideologia seria a esquerda cristã, seja lá o que isso for, pois, como vocês sabem, marxismo e Jesus Cristo nunca combinaram, exceto neste adorável FEBEAPÁ.
(Ah, e prometo que vou ler o livro com cuidado e darei mais informações a vocês, meus caros leitores. Stay Tuned!)
Como se não bastasse, o divertido é ler as notas de rodapé, esta vítima do pedantismo acadêmico (notas de rodapé são sempre divertidas de ler quando têm realmente algo a dizer; no Brasil, elas sempre ficam jogadas no canto, prestes a serem abandonadas – como foram – para o desprezo dos estudantes. Não percebem que o rodapé é a arma do verdadeiro scholar). Bosi só cita como referência de estudo a sua própria tchurma da USP – Janine, Chauí, et caterva – ou então umas teorias que fazem sentido apenas em reunião de departamento. É algo edificante de se ler…
Mas não se você preza a linguagem de alguma forma. Seja na universidade, seja no jornalismo, quem sai estuprada é a linguagem, que deveria expressar corretamente o real tal como é – e este não admite qualquer espécie de ideologia. Porém, se este pessoal não consegue pedir uma pizza, será que se espera coisa diferente quando se trata das coisas fundamentais?
Bem vindos ao mundo maravilhoso da novilíngua!
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A ausência de fé de Alexis de Tocqueville
Data do post: 12 de maio de 2010
Em seu novo ensaio publicado na New Yorker, James Wood resolveu escrever sobre ninguém menos que Alexis de Tocqueville, o patrono dos conservadores moderados, por assim dizer. Wood tem lá os seus problemas – ele implica em demasiado com as referências espirituais dos escritores que analisa, talvez um reflexo do seu problema pessoal com a fé, já desenvolvido em livros anteriores – mas ninguém pode dizer que o homem lança umas hipóteses instigantes. Em seu texto sobre Tocqueville, desenvolve a premissa de que o célebre A Democracia na América é um livro sobre o advento de uma nova fé que veio para substituir a velha – no caso, o igualitarismo democrático em lugar do bom e velho Cristianismo – como se isso fosse, na verdade, um reflexo das lutas constantes do nosso querido Alexis com sua própria ausência de fé:
Society, Tocqueville felt, needs religion’s emphasis on the afterlife. God guarantees the authority of morals (goodness comes from God), and, more generally, religion leads democratic man away from the narcissism and materialism endemic to non-aristocratic societies. Yet how does one continue to renew religious belief in an age of radical doubt? Tocqueville’s solution has a whiff of characteristic French cynicism, even of hypocrisy. It is basically what Voltaire called croyance utile, “useful belief.” Religion doesn’t have to be true, Tocqueville thought, but it is very important that people profess it. So, he writes, whenever religion has put down deep roots in a society, one must “guard against shaking it; but rather preserve it carefully as the most precious inheritance from aristocratic centuries; do not seek to tear men away from their old religious opinions to substitute new ones.” Materialism seems to have been a fearful abyss for Tocqueville, teeming with the devils of unbelief, nihilism, and disorder. In a pungent sentence, he avers that, if a democratic people had to choose between metempsychosis and materialism, he would rather have citizens believe that their souls will be reborn in the bodies of pigs than that they themselves are just matter.
É uma reflexão ousada o suficiente para quem acha que conservadorismo é apenas um bando de jovens carolas que escutam música erudita – e, claro, se você acha isso, aguarde a próxima Dicta, que, olhem só, terá um ensaio muito especial sobre Tocqueville.
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Nietzsche pai da “pós-modernidade”?
Data do post:
Nova biografia de Nietzsche, resenhada por Francis Fukuyama. Um bom ponto é feito logo no início: o grande risco de qualquer biografia de filósofo é explicar suas idéias por dados biográficos e psicológicos. O que nem sempre é um erro (pelo contrário, é de se esperar que muitas, ou todas, as idéias tenham alguma relação com a vida de quem as pensou), mas pode reduzir muito um pensamento. O autor, Julian Young, é aparentemente comedido.
Como costuma acontecer com o pensador alemão, contudo, muito espaço é utilizado (na resenha e aparentemente no livro) para discutir se o pensamento de Nietzsche era ou não totalitário e opressivo. Sem dúvida, trata-se do libertarismo (pois sempre que Nietzsche menciona o Estado, é para condená-lo) menos influente em toda a história da filosofia.
Vivemos, como diz Fukuyama, sob a sombra de Nietzsche? Seriam o relativismo, o desconstrucionismo e o pós-modernismo (termo cujo significado ainda ignoro) crias suas? Se forem, duvido que o pai assumiria a criança.
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