Dados & Atalhos
Data do post: 20 de maio de 2013
É um dado exato que 90% de toda a informação que temos hoje foi criada nos últimos dois anos.
Então, (i) aos que lidam com matéria abstrata, o melhor é selecionar; (ii) aos que lidam com fatos, o melhor será engolir tudo, digerir e fazer inferências: a já cansativa ideia de Big Data vai mesmo, ao que parece, mudar tudo. E com ela os avessos a tecnologia serão finalmente jogados para escanteio. Já é possível prever em parte o resultado de processos judiciais, local e hora de crimes, potencialidade de investimentos; o grau de fidelidade das previsões irá aumentar. A divisão entre ciências humanas e exatas já está a perder sentido e, como dizia alguém que trabalha há 30 anos com o assunto, os polímatas já são material necessário.
Quanto ao primeiro grupo, recomenda-se o novo trabalho do capitão Daniel Dennett, do qual o Guardian publicou fragmentos aqui. Como não dar ouvidos a um velhinho que sabe pilotar um barco?
Alguns atalhos são valiosos:
- Admitir erros em público sempre foi prática da ciência, que bem poderia inspirar filósofos e intelectuais, gênero pré-histórico e raramente afeito a aprender com os próprios erros.
- Respeitar o oponente. Inclusive facilitar a sua vida, sintetizando-lhes os argumentos de modo a arrancar-lhe um “poxa, você disse melhor que eu o que eu queria dizer”. Creio que seja o mais difícil: no Brasil, acostumamo-nos a classificar oponentes como inimigos, “malditos esquerdistas”, “filhos da UDN”, sem perceber que agimos exatamente como o pior de nossos pesadelos argumentativos.
- Não multiplicar entidades sem necessidade (a famosa navalha de Occam; inclusive seria bom navalhar todas as variantes de Occam: Okham, Ockam, Ockham). O uso de argumentos sobrenaturais ou religiosos fora do seu âmbito é um exemplo de como não comportar-se em um debate filosófico; desde quando, pergunta Dennett, invocar um ser metafísico e além de toda compreensão é buscar a explicação mais simples?
- Não perder tempo com 90% da porcaria que se produz. Quer debater o argumento ontológico para a existência de Deus? Jogue Dawkins e outros escritores de auto-ajuda pela janela. Comece com Tomás de Aquino, que o rejeitou, e Alvin Plantinga, que o sufragou integralmente. Em outras palavras, esqueça as caricaturas e concentre-se no que de melhor se produziu — em todos os sentidos — sobre o assunto, especialmente ao criticar uma posição ou visão de mundo. Sobretudo não refute espantalhos. Ops.

Dennett e seu espantalho.
- Tudo que parece profundo demais deve ser ignorado (uma característica necessária dos abismos é não terem fundo). Esqueça longos discursos sobre o o Mal, substantivos com letra maiúscula, a educação do homem magnânimo, o apocalipse, a desconstrução da privacidade em tempos pós-narratológicos. E quem ainda aguenta esse tipo de coisa? Ah, era isso — procure responder a perguntas retóricas.
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Ayn Rand sobre C. S. Lewis
A First Things publicou uma divertidíssima coletânea de comentários maldosos – e, arrisco dizer, alguns muito certeiros — a passagens de C. S. Lewis em The Abolition of Man. Um exerto final:
The bastard actually means that the more man knows, the more he is bound by reality, the more he has to comply with an “A is A” existence of absolute identity and causality – and that is what he regards as “surrender” to nature, or as nature’s “power over man.” (!) What he objects to is the power of reality. Science shrinks the realm of his whim. (!!) When he speaks of value judgements, he means values set by whim – and he knows that there is no place for that in nature, i.e. in reality. (The abysmal scum!)
Não é sem razão que os leitores de C. S. Lewis sentem-se, muitas vezes, diante de um simplório. Convido os que não o conhecem bem a ler, todavia, os seus longos e caprichados escritos sobre literatura. O seu talento de filólogo e escritor – muitas vezes escondido atrás do ingênuo desprezo à ciência (que hoje fazem ainda menos sentido que à época em que escreveu) e do louvor a uma “sabedoria” vaga e descascada – há de servir para alguma coisa.
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The Sexyness of Principia
Uma das obras mais importantes do século XX, Principia Mathematica de Russell e Whitehead foi recentemente objeto de um novo estudo: a história da sua composição, mais especificamente das mudanças entre a primeira e a segunda edição. Imaginem o que era mandar à impressão um texto que exigia tipos novos, talhados especialmente para o procedimento. (Provavelmente apenas um tipógrafo será capaz de entender o que isso realmente implica.) O estudo inclui uma sessão sobre a recepção da segunda edição do Principia na Alemanha.
Trata-se de obra de Bernard Linsky, intitulada The Evolution of Principia Mathematica: Bertrand Russell’s Manuscript and Notes for the Second Edition, Cambridge UP, 2011. Acaba de sair uma resenha aqui.
PM é uma obra pouco lida, mas imensamente influente (uma consequência da poderosa vaga provocada por Frege);(*) como isso aconteceu, eu não sei dizer. Uma grande mudança, da primeira para a segunda ed., é a remoção de um axioma (o da redutibilidade), por recomendação do jovem Wittgenstein. Um dos resultados disso é a impossibilidade, pelo tratamento da segunda edição, de se definir número em domínio infinito.
A passagem favorita de muita gente é aquela em que fica estabelecido que 1 + 1 = 2:
Garanto aos não-iniciados que PM é muito menos complicado do que parece; não é necessário talento para compreender. A lógica daquele tempo, comedida e segura, tornou-se hoje um campo tão vasto, que respirar passou a ser um privilégio de classe. Acreditava-se que seria possível assentar toda a matemática sobre a lógica clássica:
All mathematics is deducible… from the primitive propositions of formal logic. (**)
O que seria um triunfo para os filósofos. A pergunta permanece aberta, com muitas boas intuições de lá para cá. De qualquer modo, é sempre prudente — e um tanto sexy – voltar aos princípios.
Mas eu lhes garanto. Se é difícil ir até o final dos três volumes do PM — talvez seja até impossível, embora alegue-se que Wittgenstein tenha cumprido a tarefa com êxito –, mais difícil ainda é o PT largar o poder.
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(*) O Principia também marca o início do período a partir do qual filósofos dignos do nome já não estão mais dispensados de ignorar lógica formal e matemática. Se esse é o caso do leitor brasileiro e do francófilo deslumbrado com o pós-modernismo, ainda há tempo de correr do prejuízo. Advogo a tese de que é possível aprender um método formal mesmo depois dos 80. Eu comecei aos 85 e veja só.
(**) Principles of Mathematics, § 434. É possível assentar toda a matemática sobre a lógica, ou melhor, reduzir a matemática à lógica? Ou, ainda, afirmar que toda a matemática é um desenvolvimento da lógica? Bem, tente justificar um domínio infinito ou, pior ainda, lidar com um quantificador sobre relações n-árias (“para toda relação R em R^n, R é transitiva”). O universo é finito ou infinito? Não seria esse um problema empírico? Certamente. A lógica não diz nada sobre finitude ou infinitude; não diz absolutamente nada sobre o que há lá fora. Não diz quantos objetos um domínio pode ou não ter; eu preciso assumir, ou negar, o axioma correspondente. No entanto, se me proponho a somar dois conjuntos infinitos, não seria a lógica suficiente para “produzir” a função? O próprio Linsky discute esse assunto em Russell’s Metaphysical Logic, Stanford, 1999.
(***) Não há terceira nota. Mas convido o leitor a ler as tags, para saber exatamente do que trata a Conspiração de Weread-Ferris.
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AS goes online
Data do post: 7 de abril de 2013
A Aristotelian Society, que publica filosofia de primeira linha desde 1880 — sim, 1880 — resolveu entrar no mundo das facilidades virtuais. Se estiver interessado em uma série de clássicas discussões sobre a verdade conduzida por especialistas do primeiro time, do sisudo Peter Sullivan à simpática Gila Sher (ano passado ela me ajudou com algumas dúvidas e não hesitou em mandar-me material difícil de encontrar — é de lei agradecer), o leitor terá a oportunidade de assistir online às conferências, que vão de 12 a 18 de abril, logo depois do término do ciclo. Nas palavras do site,
in celebration of the 125th year of the Proceedings we are proud to announce our first ever Online Conference of the Aristotelian Society: a week-long event featuring a classic paper a day from our back catalogue, each accompanied by a commentary by a contemporary philosopher and an online forum open to all. The commentary will stimulate discussion by highlighting the paper’s major themes and their continuing importance to current debates; signaling challenges to specific claims and arguments; and indicating thematic connections between the various papers.
Continuing in the Society’s long tradition of publishing the proceedings of its live events, both the classic papers and commentaries will be published in our first ever Proceedings of the Aristotelian Society, The Virtual Issue, which will be free and available online following the conference.
Estão lá estudos de Ramsey, Dummett, Strawson, Austin, Geach, Heal e Hornsby, que exemplificam mais de uma geração em busca do que é a verdade em sentido filosófico, de modo cortante e preciso. Só ler os papers com o mesmo título (Truth) de Strawson, Austin e Dummett já seria uma iniciativa de peso. Vindo de uma organização enclausurada nos limites do brilhantismo acadêmico, a divulgação gratuita do evento é deveras surpreendente. E, para quem estuda ou quer estudar filosofia a sério, nada como ter contato (quase) direto com esse pessoal.
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“E é bom que você tenha feito todo o sexo que podia, porque ele acabou semana passada”.
Aliás, se formos dar ouvidos às últimas vozes livrescas, tudo acabou – reclama um editor do Washington Post.
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Filosofia a serviço da fé
Data do post: 1 de abril de 2013
Tenho aprendido muito sobre a filosofia no Brasil lendo o livro Conversas com Filósofos Brasileiros, organizado por Marcos Nobre e José Marcio Rego, que reúne entrevistas (todas feitas para o livro, tendo inclusive algumas perguntas que se repetem para todos os entrevistados) com 16 grandes nomes da filosofia nacional. Tendo sido publicado em 2001, veio em boa hora: Miguel Reale, o padre Henrique de Lima Vaz, Gerd Bornheim, Benedito Nunes, Bento Prado Jr., Carlos Nelson Coutinho e Balthazar Barbosa Filho faleceram desde então.
Uma crítica comum ao livro à época da publicação é a de que não se trata de conversas com filósofos, mas com estudiosos, acadêmicos e historiadores de filosofia, o que é coisa muito diferente. A crítica é justa, mas não é dela que quero falar. Há um ponto mais particular que despertou minha atenção: um fato da história do ensino de filosofia no Brasil que é pouco lembrado e que reflete um capítulo importante da filosofia aqui e no mundo.
“Na época da universidade, reinava [nas universidades do RS] um tipo de filosofia que está quase esquecida aqui no Brasil – o tomismo.” A citação é da entrevista com Bornheim. Ele, Raul Landim, Oswaldo Porchat e, evidentemente, o Pe. Vaz – que era um pouco mais velho, tendo nascido em 1921 – tiveram algo em comum em sua formação: passaram pelo tomismo de manual ensinado como doutrina pronta e acabada, uma filosofia perene, um verdadeiro fim da filosofia. Em certo sentido era mesmo, se pensarmos no fim como o túmulo.
Landim relata uma história que, imagino, deva ter sido comum: a decepção com a mediocridade filosófica desse tomismo manualístico, que tinha em Maritain seu maior e melhor expoente. Lembro-me de quando li a Introdução à Filosofia do Maritain (republicada em 2005). Embora naquela época – creio que em 2006 – eu fosse bem mais propenso a confundir boa filosofia com tomismo militante, ainda assim o livro me marcou como antifilosófico; uma sequência de argumentos visando defender, contra erros opostos, o “realismo moderado” de Aristóteles e S. Tomás, um pico entre dois vales. Parecia-me algo muito inferior ao “tomismo” com que eu estava mais familiarizado, de autores como Brian Davies, Herbert McCabe e Ralph McInerny. Eles, ao contrário de Maritain, não pareciam considerar a filosofia como um jogo em que fosse preciso defender um time. Mas eu era um universitário lendo aquilo por conta própria; imagine ter obras ao estilo desse catecismo filosófico como o norte do estudo de filosofia!
Bem, Landim conta que a exceção a essa regra foi o contato com Lima Vaz, que trazia outros ares para a Faculdade de Filosofia de Nova Friburgo. Conta Landim:
“O curso era estruturado da seguinte forma: durante três anos eram estudadas cem teses tomistas que versavam sobre questões de ontologia, de teoria do conhecimento, de antropologia, de ética e de cosmologia. Essas teses eram ensinadas segundo o método medieval de exposição e de demonstração de teses filosóficas. Os termos das teses eram definidos, em seguida eram citados os seus adversários (diga-se, de uma maneira vaga e simplista), provava-se, então, a tese como conclusão de um ou vários silogismos e, finalmente, eram refutados os adversários da tese. Vaz nos seus cursos incorporava esse método a um método pessoal que continha duas partes: a indução histórica e a redução crítica. Pela indução histórica era estudada a gênese histórica de cada uma das teses analisadas; pela redução crítica eram examinadas e criticadas as diversas posições dos diferentes filósofos que tinham abordado a questão. O método do padre Vaz de fato adaptava o método medieval às exigências do ensino contemporâneo.
Nessa época, ele foi vítima de muitas incompreensões. Essas incompreensões acabaram por obrigá-lo a sair de Friburgo e a se transferir para a UFMG.”
Em meio a um curso em que tudo se resumia a S. Tomás, Lima Vaz introduzia seus alunos a autores como Kant, Descartes e Hegel, assim como autores diferentes dentro do próprio neotomismo. Nem é preciso dizer quem rendeu mais frutos filosóficos, não só em Landim mas no cenário brasileiro de maneira geral. O esquecimento de nossa fase tomista é completo (a bem da verdade, o esquecimento é a regra no Brasil; o positivismo, outra de nossas correntes fundadoras, também não deixou rastro).
A trajetória de Landim lembra a de um filósofo inglês certamente conhecido por quem se interessa por Tomás de Aquino: Anthony Kenny. Mais conhecido no Brasil, talvez, por sua história da filosofia, ele tem diversas contribuições em psicologia filosófica, filosofia da linguagem e desenvolve, à sua maneira, uma maneira de filosofar que deve muito a Tomás e Wittgenstein.
No início de seus estudos acadêmicos, Kenny se preparava para o sacerdócio católico, e por isso foi mandado da arquidiocese de Liverpool para o English College em Roma. Lá, cursou os três anos de filosofia na Universidade Pontifícia Gregoriana. Retiro um breve relato de sua experiência de seu livro de 2006 What I Believe (uma descrição mais detalhada de sua história intelectual pode ser encontrada em The Path from Rome).
“The ‘Greg’ was run by Jesuits; lectures were given in Latin to audiences of hundreds, and conformed to a pattern of studies laid down in an encyclical by Pope Pius XII, Deus Scientiarum Dominus. Many of our Jesuit teachers were learned men, but it took quite unusual gifts, which few of them possessed, to be able to inspire students within the constraints of medium and curriculum. From 1949 to 1952 I was instructed in Thomistic philosophy – ‘philosophia ad mentem Sancti Thomae’ as the Papal instructions had it – but the course involved almost no study of Aquinas’s own writings, only of textbooks written by our professors. I found much of the philosophy unconvincing and repulsive, and on vacation in England after taking my third-year licentiate I seriously considered abandoning the course and leaving the seminary.”
Depois dessa experiência negativa com o tomismo, as coisas melhoraram com o curso de teologia, muito mais interessante, e Kenny se graduou. Mas a repulsa ao tomismo perdurava. Foi só na pós-graduação que ele vislumbrou uma mudança:
“I had the good fortune to be assigned as my supervisor at the Gregorian Fr. Bernard Lonergan S.J., who was to become well known as a philosopher for his book Insight. He tried to make me see that St. Thomas should not be judged by the dehydrated versions of his thoughts in textbooks. It was necessary to come to grips with his original massive works – and Lonergan would describe to me his own decades of striving, as he put it, ‘to reach up to the mind of Aquinas’.”
Finalmente, de volta à Inglaterra, o contato com filósofos como Herbert McCabe, Peter Geach e Elizabeth Anscombe ajudá-lo-ia a desenvolver seu próprio pensamento e cimentando a importância de Tomás nele.
O divisor de águas dessa fase do pensamento católico foi, sem dúvida, o Concílio Vaticano II e as profundas mudanças que ele trouxe. Ao olhar a sério para o que o mundo produzia, deve ter ficado impossível sustentar a ingenuidade, e também a arrogância, do tomismo de manual. Esse meio de mediocridade disfarçada de zelo doutrinal (e, por que não, que também cultivava coisas boas como a objetividade, o apreço pela argumentação lógica e a definição dos termos) era letal justamente para as mentes mais criativas e independentes, e que poderiam fazer as melhores contribuições para a filosofia.
Sem dúvida que os autores e professores do tomismo ou neotomismo oficiais eram inteligentes, bem intencionados e honestos. Vejam esse trecho do prefácio às Lições de Filosofia Tomista de Manuel Correa de Barros, publicado nos anos 40:
“Agora, [com as lições] publicadas em volume, não me é possível saber a que mãos irão parar. Se for às mãos dum católico, inclinado a olhar com simpatia a filosofia tomista, por causa da aprovação que a Igreja lhe tem manifestado publicamente, não quero deixar de lhe apontar o exemplo de S. Tomás, que nunca hesitou em abordar, com a maior objetividade, os grandes problemas intelectuais do seu tempo, convicto de que todos, se forem encarados com largueza de vistas, se podem resolver dentro da mais rigorosa ortodoxia. Se for às de um não católico, disposto, pelo mesmo motivo, a ver o tomismo com desconfiança, devo lembrar-lhe insistentemente que não se trata, para S. Tomás, de proselitismo, mas duma tentativa honesta, dum esforço sincero de compreensão da realidade. Quando S. Tomás pretende convencer, e fá-lo sempre com firmeza e simplicidade, não é para chamar os outros ao seu campo, mas para lhes levar o que, segundo pensa convictamente, é a expressão da verdade. A exemplo de S. Tomás, também eu não defendo o sistema tomista por espírito de partido, mas por julgar que esse sistema, pelo menos nas suas grandes linhas, e compreendido no seu espírito mais do que nas palavras que às vezes podem traí-lo, se deve considerar verdadeiro.”
Apesar das boas intenções e da inteligência, o projeto fracassou. Pior: o ensino filosófico por eles praticado matava a filosofia nas almas dos melhores, ou seja, daqueles que não se satisfaziam simplesmente aceitando doutrinas, mas que queriam filosofar. Contraste isso a Correa de Barros, que em dado momento gaba-se do fato de que, dentre todos os tomistas, havia 24 teses de comum acordo (uma referência a um documento de S. Pio X, no início do século 20); mostrando um inegável progresso se comparado a outras filosofias que naufragaram: ramos sem frutos como Descartes ou Kant.
Tanto em Landim como em Kenny, o tomismo patrocinado pela Igreja apareceu como algo sem sentido, descolado de qualquer preocupação real e cujas respostas fáceis não convenciam. Em ambos os casos, foi um professor fora da curva, um filósofo não bem visto pelas alas mais conservadoras de suas instituições (não pretendo com isso igualar os méritos de Lonergan e Vaz, e nem expressar adesão às ideias deles), que “salvou” sua formação.
Dado isso, pergunto-me se a postura filosófica, ou talvez antifilosófica, da Igreja Católica, não tenha contribuído para a perda da fé de tantos intelectuais que começaram seus estudos imbuídos de convicções religiosas ou ao menos inquietações espirituais.
Voltando ao Conversas com Filósofos Brasileiros, é interessante notar quantos dos atuais filósofos brasileiros (ou – como queiram – professores de filosofia) partiram de inquietações ou convicções religiosas. Além dos citados Raul Landim e Lima Vaz, também Porchat, Balthazar Barbosa Filho e mesmo Paulo Arantes (que participara da Juventude Universitária Católica) – para não falar de Miguel Reale – tiveram na religião aspectos importantes de seu ímpeto filosófico inicial. Ao mesmo tempo, os meios religiosos não fomentaram, nem de longe, o tipo de pensamento necessário ao amadurecimento filosófico; e agora correm atrás do prejuízo. Praticamente toda a elite intelectual do mundo vive alheia, quando não avessa, à ideia de religião. A culpa não foi da malvada modernidade antropocêntrica…
Um dito medieval dizia que a filosofia é criada da teologia. Philosophia ancilla theologiae. Se interpretado no sentido de que a teologia trabalha – também – com premissas fornecidas pela razão, de forma que tenha que se alterar quando a razão filosófica descobre ou propõe coisas diferentes, é um lema muito saudável; mantém o sentido de realidade no pensamento teológico. Se significa, entretanto, que considerações teológicas devem guiar o pensamento filosófico, servindo como motivo para rejeitar possibilidades intelectuais, então ele decreta a morte da verdadeira filosofia. A história do neotomismo católico, que muitas vezes não foi fiel nem mesmo ao pensamento de Tomás de Aquino, preferindo as facilidades das fórmulas, o ilustra perfeitamente. Está aí uma empregada que, na falta de seus direitos legítimos, não trabalhará.
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Mente redutível ao Cérebro?
Data do post: 21 de dezembro de 2012
Se você coloca um pedaço de chocolate em sua boca, você sente um gosto. Ao mesmo tempo, uma reação ocorre no seu cérebro; uma reação que se iniciou nas papilas gustativas da sua língua e mandou sinais elétricos crânio adentro.
Se um neurocientista, com conhecimento perfeito do cérebro, observar seu cérebro enquanto você prova este chocolate, ele saberá dizer, apenas observando suas sinapses, que você está agora experimentando o gosto do chocolate. E mais: se ele, em seu laboratório, abrir sua cabeça e reproduzir essa mesma exata reação que seu cérebro teve quando você provou o chocolate, ele produzirá, em você, a mesma exata sensação.
No entanto, nessa história toda, há algo a que esse neurocientista, ainda que dotado de pleno conhecimento sobre o cérebro, não tem acesso: a sua experiência enquanto tal. Ele sabe que você está sentindo o gosto de chocolate; ele sabe como produzir em você a sensação do gosto de chocolate; mas ele não experimenta esse gosto. Há algo nesse processo que é restrito apenas a você e à sua subjetividade.
É esse dado básico e irrefutável – explorado por exemplo por Thomas Nagel no clássico ensaio “What is it like to be a bat” -, essa distinção incontornável entre processo físico cerebral (observável) e experiência subjetiva (não-observável), que embasa a tese de que, embora intimamente ligados, não dá para falar em uma identidade forte, plena, entre mente e cérebro. O gosto que você sente ao comer o chocolate não é as sinapses neurológicas que acompanham, ou até mesmo produzem, esse gosto em sua consciência (no sentido de tudo aquilo de que estamos conscientes, e não no de “consciência moral”); gosto que não está no cérebro (assim como a cor vermelha que está em sua consciência quando você olha uma maçã não está, de maneira alguma, no seu cérebro). Se fossem, então conhecendo um, conheceríamos o outro. Não é o caso.
É possível traçar uma forte correlação, talvez perfeita, entre o processo físico e a sensação subjetiva, mas não é possível identificá-los; afinal, há coisas que se predicam de um que não se predicam do outro. E se aceitarmos que um causa o outro, ainda ficamos com o problema: como poderia tal causalidade se dar?
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Crenças contraditórias
Data do post: 10 de dezembro de 2012
“Mas você está sendo incoerente!”, dizemos, muitas vezes, ao perceber que alguém acaba de defender algo que não está de acordo com o que professa, ou professou há pouco, acreditar.
Cada pessoa possui um conjunto de crenças capaz de representar explicitamente aquilo em que acredita. Por exemplo, que o Corinthians é o melhor time do mundo, que a água ferve a 100 graus Celsius, que a sua mãe é esposa de seu pai, que o Brasil foi descoberto por Pedro Álvares Cabral, etc. São proposições, ou seja, conteúdo dessas sentenças, e não meras sentenças. “O Brasil foi descoberto por Pedro Álvares Cabral” é uma sentença, e a alegação segundo a qual uma pessoa de nome Pedro Álvares Cabral ‘descobriu’, num sentido mais ou menos preciso, um país territorialmente definido de nome Brasil, seja qual for a sua formulação em uma linguagem determinada, é uma proposição. (“Pedro Álvares Cabral hat Brasilien entdeckt” e “Pedro Álvares Cabral descobriu o Brasil” são sentenças materialmente diferentes, mas que possuem, a rigor, o mesmo conteúdo proposicional. Obviamente há sério debate a respeito do que constitui uma proposição e um conteúdo proposicional, e até sobre a sua ‘existência’; debate aqui ignorado.)
Enxergar todas as crenças de um indivíduo como um conjunto consistente sujeito a expansões, contrações e revisões foi um passo insofismavelmente importante dado nas últimas décadas do século XX (especialmente, mas não isoladamente, com a publicação do artigo On the logic of theory change: contraction functions and their associated revision functions publicado por Alchourrón-Gärdenfors-Makinson, um jurista, um cientista da computação e um lógico, respectivamente, em 1982), ainda que poucos se tenham dado conta disso.
É possível que uma pessoa acredite em proposições contraditórias? Novamente, há muito debate a respeito. Mas vamos supor — e eu já o vi acontecer — que um professor de sociologia diga defender o marxismo ortodoxo em suas aulas e, em almoços em família, diga que um engenheiro é diferente de um operário, e que o tratamento dado ao primeiro deveria ser privilegiado; e que, em aulas particulares de filosofia, esse professor afirme que a matéria não existe. Essas contradições ocorrem quando em um contexto, até por atavismo ou automatismo, uma pessoa é como que impelida a afirmar crenças que não confirmaria em outro contexto. Relativistas costumam pregar a indiferença total diante dos valores, mas quando suas vidas estão em jogo — um salário, por exemplo — costumam preterir um valor em favor de outro, de modo permanente e absoluto, geralmente de acordo com uma visão nada heterodoxa, na verdade bastante hierárquica e realista, sobre o que deve vir em primeiro lugar. Na prática, vemos que ao menos as pessoas parecem, sem perceber, acreditar em proposições contraditórias. Em teoria é difícil explicar porque, e como, isso acontece.
Mesmo que esse comportamento epistêmico seja corrente, ou seja, que o encontremos em qualquer lugar, em salas de aula e na televisão, na vida pública e na vida privada (experimente o presidente da república tal repetir oficialmente, em público, o que disse ontem no café da manhã ao seu primo sobre os palestinos), poucos em sã consciência o defendem. Faz parte do senso comum o entendimento de que não devemos sustentar crenças contraditórias, mesmo que sem perceber. Que não podemos, por exemplo, dizer (i) que nossa mãe é honesta e (ii) que nossa mesma mãe, tendo visto satanás cair como um raio, foi-lhe ao encontro e abraçou os seus mandamentos de iniquidade.
Com apoio nesse dado do senso comum ético, costuma-se dizer que dois critérios de racionalidade devem ser usados na construção dos nossos conjuntos de crenças:
(1) o conjunto de proposições aceitas deve ser consistente;
(2) as consequências lógicas daquilo que aceitamos devem ser aceitas.
Ilustrei o que é desobedecer o critério (1), ou seja, manter duas ou mais proposições contraditórias ao mesmo tempo (admite-se que revisões sucessivas de crenças possam nos levar a pensar que, ao ter acreditado antes que o Papai Noel existia e agora que não existe, acreditamos em uma contradição; mas isso não é assim, pois considerado em sua totalidade o nosso conjunto de crenças é dinâmico, e só crenças simultaneamente contraditórias num dado estado do conjunto de crenças não devem ser aceitas). Colocado contra a parede, o nosso professor de sociologia seria obrigado a confessar, ou que a matéria existe, ou que a matéria não existe. Quanto ao critério (2), se o nosso professor aceitou o marxismo (que tem como axioma básico a tese de que a matéria é o fundamento de tudo), ele também deve aceitar que a matéria é o fundamento de tudo. E se ele aceitou que a matéria é o fundamento de tudo, deve ter aceitado também que a matéria existe. Se não, você tem o direito de o colocar contra a parede e obter uma resposta satisfatória.
Isso tudo parece muito límpido e simples. Mas nos esquecemos disso. Esquecemo-nos de que, ao aceitar A, que implica B, devemos aceitar também B. Muitas vezes a conexão entre A e Z, uma viagem que perpassa 23 implicações, pode ter sido perdida. Mas continua sendo um fato — aqui pressuposto o condicional– que quem aceita A, aceita B, e que quem aceita B, aceita C, …, e que quem aceita Y, aceita Z. Ao menos deve aceitar, a levar-se em conta que aceitou (2) como critério aplicável.
Contradições extremamente sutis são também frequentes. A atitude de um profissional responsável situado num alto cargo deve ser tal que não venha a punir um seu funcionário sem ter certeza de que este agiu injustamente. Num caso imaginado, João ouviu dizer que seu funcionário Carlos vem vendendo produtos por um preço maior que o praticado e guardando para si a diferença, lançando o valor habitual na contabilidade. Olhando os documentos contábeis, de fato, João confirma que formalmente não existe desvio. Entrevistando outros funcionários, ninguém confirma o boato de que Carlos vem embolsando dinheiro ilicitamente. A câmera de segurança também não pegou nada. Responsavelmente, João arquiva o caso. Não pode punir Carlos com a demissão se não confirmou um boato. Mas veja que interessante! João, o responsável profissional, não obstante acredita em astrologia e, mais grave, acredita que o mundo irá acabar em 22 de dezembro de 2012, e anda tomando sérias medidas para se preparar para o apocalipse. Há uma óbvia contradição entre a sua crença de que (a) “se não tiver evidências suficientemente fortes para crer que João embolsou dinheiro ilicitamente, não devo tomar uma atitude”, e (b) “se não tiver evidências suficientemente fortes para crer que o fim do mundo se aproxima, mesmo assim devo tomar uma atitude” (!). São metacrenças — crenças que se dirigem à quantificação de probabilidades de verdade de crenças –, critérios que João usa para avaliar aquilo em que acredita, mas ainda são crenças. E são crenças rigorosamente contraditórias. A sutileza dos casos reais de inconsistência, como essa hipótese de João mostra, é quase ilimitada. Tenho certeza de que o leitor enfrenta esses problemas diariamente, mesmo que não os tenha formalizado. A formalização — que é aqui mínima, mas que se pode complicar consideravelmente — ajuda a explicitar esses problemas de um modo antes não imaginado. Se quisermos construir um robô que precise se decidir com base em um mapa do mundo ao seu redor, ele terá de agir com base em crenças semelhantes, computacionalmente formalizadas (é preciso programar detalhadamente, sem omitir nenhum detalhe, o comportamento do robô, i. e., é preciso ser exato). Na verdade, isso já é realidade em inteligência artificial.
Voltando ao chão do chão, quem não aceita os critérios acima dificilmente poderá ser admitido em uma discussão. Na verdade, deve ser excluído imediatamente dela. Por mais que privadamente, informalmente, pense e aja de modo incoerente, ao entrar em uma discussão racional a pessoa necessariamente tem de aceitar (1) e (2), sob pena de se considerar que entrou e que não entrou em uma discussão, simultaneamente, e que portanto estaria autorizado, contra toda racionalidade, a não responder sempre com coerência, fazendo-o apenas quando tivesse vontade. Às vezes é difícil vê-lo, mas rejeitar (2), por exemplo, implica rejeitar (1) e a acreditar virtualmente em qualquer coisa. Porque se rejeito (2), aceito que posso aceitar A, que implica B, e não aceitar B. Um exemplo de rejeição de (2): João ganha de seu pai autorização para ir até o centro da cidade, mas não se atreve a sair de casa, pois seu pai não o autorizou a ir até a porta de sua casa. Um contrassenso, não? Quem pode o mais, pode o menos. Mas isso acontece em discussões. Não raro alguém mostra ao seu interlocutor que, ao defender a tese de que o estado não deve interferir nas escolhas do indivíduo, ele também defende consequentemente que o estado não deve interferir nas escolhas (anti)religiosas, cinematográficas, sexuais, tabagistas e alimentícias do indivíduo, e que portanto o interlocutor também é contrário a que um canal privado de televisão seja compelido a exibir filmes nacionais (como diz um amigo, “filmes de terror”), ou que não se possa fumar em uma repartição pública. Não raro, também, vemos debatedores políticos que usam dois pesos e duas medidas: a esquerda não pode ofender ninguém, mas a direita está a tal autorizada, porque os coitadinhos são perseguidos etc.
Os dois critérios de racionalidade que apresentei são universais. Não há diálogo possível sem respeito a eles em uma discussão. Parecem óbvios, triviais, mas na prática a sua aplicação pode resultar obscura, como quando se logra fazer propaganda da incoerência apenas com o objetivo de defender o indefensável (basicamente, a conclusão é correta: se meu conjunto de crenças é inconsistente, posso defender literalmente qualquer coisa). Esse tipo de propaganda deve ser combatido usando-se contra os argumentos do indivíduo as próprias consequências infinitas e arbitrárias do seu conjunto inconsistente de crenças.
[Veja que, embora não sejam sinônimos, tratei aqui "inconsistente" e "incoerente" como sinônimos. Fica como exercício para o leitor o avaliar se fui consistente. Uma outra pergunta: quando acredito em uma coisa, num contexto, e precisamente na sua negação, em outro, sem mudança de significado, em que acredito? No que afinal consiste acreditar em algo, já que, ao que parece, é possível acreditar também no seu contrário, simultaneamente?]
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Ler e Filosofar
Data do post: 18 de novembro de 2012

Poucos discordariam de que é útil, e talvez necessário – filosoficamente –, estudar os filósofos do passado. É irrelevante para um físico ler Newton; e imprescindível para um filósofo ler Platão. A filosofia no presente se beneficia do conhecimento de seu passado, e por isso se justifica que tantos estudantes se dediquem a alguma questão histórica (no meu caso, por exemplo, a questão que pesquiso no mestrado é: “Qual a fundamentação epistemológica do conhecimento humano acerca do bem e do mal?”). Nesse tipo de estudo, a preocupação é desvendar o que um filósofo realmente diz sobre um tema; isto é, lê-lo e entendê-lo corretamente.
Em que medida isso importa? Em que medida nossa forma de ver o mundo depende de saber se, digamos, Aristóteles pensava X ou Y sobre o mundo? Além do benefício para o estudante, que é levado a pensar em diversas questões ao estudar um autor como Aristóteles, é difícil pensar que, hoje em dia, uma mudança em nossa leitura de Aristóteles tenha impacto na discussão filosófica. Imaginem que um novo comentador prove, sem margem de dúvidas, que a forma como lemos Aristóteles até hoje está errada. Imagine que ele prove, ademais, que a verdadeira leitura de Aristóteles, aquela que capta o sentido real de suas obras (enquanto todas as outras apresentam problemas sérios de leitura), seja, filosoficamente falando, muito mais tola e rasa. Imaginemos, por exemplo, que esse acadêmico prove que Aristóteles, sempre que fala de “formas”, refere-se exclusivamente ao formato geométrico e corpóreo do ser. Mesmo quando o assunto é a alma, Aristóteles estava a atribuir formato geométrico a ela(sim, sim, é absurdo e falso imaginá-lo; mas por um momento topem essa suspensão da descrença). Isso quer dizer que toda a tradição aristotélica, ao atribuir a seu pai fundador uma certa concepção muito mais rica e profunda de “forma”, estava equivocada.
[Um pequeno adendo: hoje em dia, com nossa técnicas de leitura, filologia e análise contemporâneas, é improvável – embora não impossível – que um erro grotesco de leitura se perpetue por tanto tempo. No passado, contudo, essa possibilidade estava muito mais presente. Em meu próprio mestrado, um conceito importante de Tomás, a “synderesis”, teve origem, vejam só, em uma cópia mal-feita que algum monge fez de um texto de S. Jerônimo. Em uma passagem em que S. Jerônimo se referia à “syneidesis” – termo grego traduzido como consciência – o copista escreveu “synteresis”, criando um novo termo (inexistente na língua grega). Adicione-se a isso algumas gerações de estudiosos e comentadores, e temos um novo conceito filosófico e teológico.]
A pergunta que quero fazer com base nesse exemplo é: e daí? E daí se Aristóteles tiver sido um tolo com uma tese ridícula acerca da realidade? Isso faria toda a diferença para a indústria acadêmica, causaria imenso rebuliço nos departamentos de filosofia, consagraria carreiras e talvez destruísse outras; mas para a filosofia nada mudaria. As questões, as posições e os argumentos atuais – nenhum dos quais depende da autoridade pessoal de Aristóteles – continuariam os mesmos. Da mesma forma, se encontrássemos, hoje em dia, algum texto perdido de Aristóteles, a importância do achado para os departamentos de filosofia seria imensurável. Para a filosofia em si, é improvável que ele tivesse grande impacto direto (a não ser que em sua obra inédita constassem argumentos e refutações inéditos de problemas atuais).
Não é possível falar de um progresso filosófico claro e mensurável, como nas ciências naturais; mas é igualmente claro que há um progresso em andamento: argumentos são consolidados, novas respostas e refutações surgem, problemas são reformulados, o conhecimento do mundo natural leva-nos a descartar certas possibilidades, etc. Um rápido exemplo: um argumento para a imortalidade da alma como o dos contrários, encontrado no Phaedon, não é mais sustentável hoje em dia. E é por esse motivo que um novo texto de Aristóteles, assim como um novo texto de Newton, embora criassem uma revolução no nosso entendimento da história do pensamento, não criariam uma revolução na filosofia ou na física.
Mesmo assim, essa correção da leitura faria muitos filósofos que gostavam de Aristóteles se sentirem mal. Aposto que haveria até um impulso inicial de defender Aristóteles da nova e desabonadora interpretação; e a motivação não seria a de fazer a defesa da própria leitura, mas a de provar que Aristóteles não era um tolo. Falando por mim, imagino que é exatamente isso que eu faria se uma nova interpretação de S. Tomás visasse mostrar que ele não passou de um pensador raso e limitado (a propósito, é isso que faz Anthony Kenny ao responder a passagens nada elogiosas que Bertrand Russell dedica a S. Tomás).
Não tenho resposta ou explicação para isso. Se tivesse que arriscar, diria que gostamos de ver nos autores clássicos uma personificação de suas ideias. Caindo Aristóteles, não cai o realismo metafísico, mas cai a ideia de Aristóteles como uma personificação do ideal ético e filosófico que associamos às suas ideias (e que pode variar muito de leitor para leitor: o Aristóteles de Garrigou-Lagrange não era o mesmo do de Ayn Rand). Também podemos fazer de um filósofo a encarnação de algo mau. No caso de um aristotélico contemporâneo, os (supostos) defeitos pessoais de Kant ou Bentham servem como um tipo de refutação poética de suas filosofias (nesse sentido, ainda bem que Aristóteles viveu há 2400 anos…). Nossa relação com a filosofia não é inteiramente impessoal; estão em jogo convicções, modos de ver o mundo, apostas existenciais; e daí importa saber se temos ou não exemplares reais dela no mundo, testemunhando a possibilidade de viver por diferentes ideias. A biografia, a dignidade ou a inteligência de nossos antepassados não importa para a filosofia; mas importa para os filósofos.
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Tribalismo e razão
You talking ’bout my mum, yo. Wanna taste some steel, motherfucker?
(The Wire)
Assim são as discussões entre membros de gangues: toda fala é uma referência indireta à mãe do interlocutor. Um mundo certamente brutal, herança de valores familiares mal resolvidos. Infelizmente, todavia, onde esperávamos encontrar civilização, não raro encontramos navalhas, socos ingleses e braceletes, esses instrumentos da economia bélica informal dos anos 80.
Observar o comportamento quase tribal dessas gangues e seus líderes e procurar não imitá-los é um bom exercício. Muitos amigos me dizem que aprenderam mais com os maus exemplos dessa turma que com a aristocracia das boas maneiras. Talvez seja esse o motivo do encontrarmos sensatez não apenas nos lares exemplares, mas também naqueles hostis e cruéis. Num antigo documentário sobre violência juvenil — não me ocorre o título agora –, surpreendeu-me o fato de que filhos de pais violentos, que os tratavam na base da surra e dos palavrões, muitas vezes lhes saíam muito diferentes: responsáveis, estudiosos, trabalhadores e viris no sentido correto do termo. (Digo isso porque tenho visto confundirem virilidade com afetação estética de masculinidade. Coisas muito diferentes.)
Encontramos esse comportamento tribal em plena arena intelectual. De acordo com essa visão de mundo, é impossível julgar caso a caso e buscar os fundamentos de cada posição. É preciso primeiro descobrir quais as pessoas secretamente nomeadas por trás da polêmica. Se a tese A favorece meu bro, quem defendeu a tese A está certo, e milagrosamente qualquer tese B contrária a ela está errada. Grupos se aliam a teses, pessoas são vistas com simpatia ou antipatia de acordo com a sua adesão a elas, e finalmente não existe outro critério de julgamento que não o grupal. Tudo é uma questão de família. Perdem-se de vista as razões, porque, no fundo, interessa quem tem essa ou aquela posição, quem está contra quem, quem foi ofendido e quem ofendeu. O trabalho intelectual resume-se à aplicação trivial da teoria dos conjuntos.
Esse é o resultado da politização de tudo, fenômeno já anacrônico, especialmente por envolver um inimigo que não mais existe. (É contra a politização marxista de tudo que essa politização não-marxista de tudo se pretende justificar!) Até debates sobre ciência e filosofia política não transcendem essa esfera imediata das ideologias, partidos e, particularmente, partidários. Quanto mais pessoais e diretas as legendas nesses debates, mais tribal e político, no pior sentido, o ambiente. Por isso não estranhamos mais a presença de navalhas, socos ingleses e braceletes. Nossa resposta a isso deve ser a educação e o silêncio.
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O esvaziamento da política nesse sentido nefasto começa por uma volta à razão e à prudência. A razão permite mapear contextualmente, organicamente, os encadeamentos argumentativos, contra (i) o vício filosófico de em tudo ver apenas o verbal e o discursivo, e (ii) o vício popular de rotular, “dar nomes aos bois”, enxergar conexões mágicas e agir exatamente como o seu adversário ideológico. A vida racional não existe sem contextos, valores, e até desordem. A prudência diz respeito à reta razão na ação, que acontece na lida diária, algo “impuro e desordenado” para os racionalistas, embora não exista outra vida.
O que se costuma perder de vista no terreno da razão é a sua necessária universalidade, que permite transcender as contingências, a autoridade vazia, costumes imemoriais (quando injustificáveis — veja o exemplo da vingança e do pensamento mágico), tendências ou modas passageiras e poder temporal. O perigo da universalidade é o esquecimento da experiência; o que pode ser prejudicial tanto para a ciência quanto para a moral. Por isso, como dito acima, a razão deve ser orgânica, unificadora mas não uniformizadora. É muito fácil perder de vista a razão, e. g., usando ilicitamente a lógica — que não é capaz de estabelecer premissas –, ou aceitando contradições no discurso, ou formalizando o que não pode ser formalizado, ou ainda abusando da retórica. É muito mais fácil errar que acertar quando se trata do papel genuíno da razão e da lógica.
A filosofia é o que melhor se conseguiu, depois de 2.500 anos de tradição, em torno da razão — a análise lógico-semântica sem delírio de grandeza. Grande parte da sua matéria original passou às ciências naturais; muitos veem assim, com acerto, a meu ver, o projeto aristotélico: afinar cada vez mais a investigação, experimentar, e eventualmente mudar de método. Questões sobre a origem do Universo não podem ser respondidas pela metafísica; do ser não se segue tal e tal modo de ser, e muito menos a sua origem: a ciência, desde Roger Bacon e Alberto Magno, nos ensinou a buscar os specifics e a desconfiar progressivamente da abstração metafísica, que facilmente se descola da realidade e se põe a pontificar sem qualquer elemento nas mãos, como um brâmane cocainômano. Há muito a física ganhou esse espaço. A lógica, desenvolvida por matemáticos e filósofos com preparação matemática, volta reforçada para se aplicar a problemas filosóficos mais complicados (trabalho que apenas se inicia). A vida da mente saiu também do domínio filosófico para receber tratamento adequado na neurociência e na ciência cognitiva. E por aí vai. Resta a filosofia com o seu papel permanente, insistente: abrir caminho, calar cientistas apressados, apurar conceitualmente teorias físicas com alcance filosófico, esquadrinhar logicamente argumentos, formular e reformular a ética e a estética, refletir sobre a morte e a finitude. E eventualmente calar filósofos apressados ainda presos a um papel dogmático da filosofia. Deve-se tanto à filosofia, que sempre estaremos diante de duas posições antagônicas: a da “morte da filosofia” e a da “hegemonia filosófica” (uma espécie de totalitarismo espiritualista, como dizia um amigo). Cabe aos filósofos responder à altura aos pessimistas e aos otimistas — e depois aguentar as severas críticas dos dois lados, que preferem trabalhar com o mais fácil a resolver problemas efetivos. Como dizia Nicolás Gomez Dávila, “nossos contemporâneos não admiram nada a não ser textos histéricos” (Sucesivos Escolios a un Texto Implícito, Bogotá, 1992).
O modo prudencial está associado — embora não seja esse o objeto precípuo da prudência — ao uso eficaz da razão: a solução de problemas. A razão presta-se mais a um rigoroso emprego local que à “otimização global”, nas palavras de Sark. É exatamente esse o ponto onde se encontram a realidade mais brutal e elementos invariáveis sob toda e qualquer permutação, como nas páginas ensaísticas de Chesterton. Ponto que torna árduo, e às vezes quebradiço, o trabalho do pensamento.
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Independência
O nosso editor sugeriu-me escrever um artigo sobre a dificuldade que se encontra para pinicar as vacas sagradas do conservadorismo, em suas bem-humoradas palavras. É uma sugestão, e não é minha área. A provocação, todavia, é muito boa, pois se trata de um problema que muita gente tem enfrentado — uma espécie de policiamento ideológico de sinal trocado. Quem passa longe de discussões ideológicas não raro consegue entender que tanto a direita quanto a esquerda (sem esquecer do centro e de qualquer posição política ou intelectual na reta dos números reais) são lugares de morte do pensamento e refúgios da desonestidade intelectual.
Suponha que você seja partidário irrestrito de um movimento de esquerda ou mesmo de um partido. Suponha que o cabeça (ou um dos cabeças) desse movimento tenha sido comprovadamente desmascarado. (O que acaba de acontecer, a propósito.) O que você faz? Qualquer pessoa honesta deixaria de apoiá-lo, hipoteticamente, e inclusive reexaminaria o que a teria levado a prestar assentimento ao seu programa. Mas por que na prática isso é tão difícil? O problema não ocorre apenas quando o caso atinge uma pessoa — i. e., quando a decepção ocorre em virtude de uma falha moral suficientemente grave. Ocorre também quando um programa não funciona, ou quando se defende teses que se mostram claramente insustentáveis. Um exemplo? Muitos intelectuais defenderam o comunismo. Mesmo quando tudo conspirava para mostrar com fatos que todo programa comunista estava acometido de erros estruturais, presentes já em germe na fonte, e não apenas por enganos de percurso, acidentais, um sem número de intelectuais fez vista grossa, mesmo com reparos no estilo hipster como “eu sou a favor do comunismo de raiz, que até hoje não foi implantado” [graças a Deus ou a Marx].
O exemplo do comunismo é apenas uma instância suprema da cegueira ideológica. O que poucos estão dispostos a aceitar é que ela atinge qualquer causa defendida com paixão e sem senso crítico, mesmo que sob a bandeira do conservadorismo de raiz, “anti-ideológico”. Basta que seja uma causa. Da oposição ao casamento gay à defesa do aborto irrestrito, o que transparece é a cegueira dos “causídicos”. É possível mostrar com clareza onde reside o erro?
Um indivíduo realista não tem causas. Ele sabe que o mundo é vário, intratável, e sempre continuará sendo o mundo; e que, quando dois ou mais se unirem em torno de um ideal, a trapaça vencerá as boas intenções. E esse é apenas o aspecto mais superficial das tentações. O homem não tem a capacidade de resistir de modo durável aos convites da cegueira. A julgar pelos olhos daquele que defende uma causa, a cegueira causa prazer; não raro se abandona toda sutileza, mesmo que o causídico seja acadêmico ou filósofo, para regozijar-se no mal alheio. Denunciará o mal no mundo, as conspirações contra os bons, misturará política com metafísica, perdoará os insultos e os julgamentos apressados desde que venham dos amigos, e será inflexível com tudo o que vier daqueles que não partilham da mesma causa. Não importa o mérito dela. E esse é o aspecto objetivo. Vou citar apenas um exemplo; não interessam-me movimentos desse tipo. Mas pensem na espécie de ‘nova direita espiritual’ que ganhou força no Brasil suburbano. Indignados com os erros grotescos da esquerda, uma pletora de intelectuais e sub-intelectuais alternativos acreditaram ter encontrado no cristianismo (teórico) uma chave para a compreensão dos erros do mundo moderno; atraíram-se por uma espécie de teoria de tudo, capaz de se aplicar a todos os fenômenos, desenhada com suficiente sutileza e santarronice (dizem que é o que traduz melhor o termo self-righteousness). Há diferenças brutais entre esses autores — entre René Girard, Voegelin e Guénon, por exemplo, cujos méritos não pretendo discutir aqui –, mas não é difícil captar-lhes o elemento comum, já esboçado, de denúncia dos males do mundo moderno, o que costuma vir acompanhado, mesmo inconsistentemente, da defesa do livre mercado, bandeira que era da esquerda há algumas dezenas de anos. Pessoalmente, a suspeita sobre essas teorias, muitas vezes versões exageradas, mas nem tanto, dos autores originais (como Marx transfigurado pela Teologia da Libertação), foi-me recomendada justamente por pessoas que praticavam o cristianismo, e que achavam muita graça na pretensão orgulhosa, até “satânica”, desses “sujeitos mais católicos que o Papa”, que “pregam Cristo e vivem, simultaneamente, em concubinato e em estado de difamação permanente contra tudo e contra todos” (sim, isso está literalmente num e-mail que guardei). Quem quer que tenha divulgado esses autores no Brasil fez um dano maior do que o que pensava combater. Eu mesmo incluo-me nessa turma nefasta, pois falei com certo entusiasmo adolescente, no início do milênio, dos três citados e de mais um monte deles. Mas, como eu dizia, esse é apenas um exemplo, uma partição em um conjunto de elementos bizarros quase incontáveis.
Creio que as “vacas sagradas” aparecem nesse contexto, na esquerda e na direita, e no “muito pelo contrário”. Autores erram; teorias, mais ainda. O fenômeno social, por mais que possamos distinguir nele padrões impressionantemente recorrentes, rebela-se contra a categorização em causas e preferências e movimentos. (E é difícil rivalizar em potencial destrutivo com o cristianismo feito teoria.) Só temos controle sobre nossa ação imediata. Podemos ser bons e virtuosos com nossos familiares, amigos, vizinhos, ou com quem quer que cruze o nosso caminho. Mas não podemos ser bons coletivamente, participando de discussões na Internet, denunciando o mal do mundo, o mau-caratismo dos esquerdistas, o esoterismo, e mesmo a polarização ideológica.
Devemos julgar todas as teses com cuidado e independência, e desconfiar da ênfase e da segurança excessiva. E é evidente que isso é possível, ao menos como tentativa (sempre com resultados). Ou pensamos com nossas cabeças, ou admitimos que apenas macaqueamos o que ouvimos na Internet ou na meia dúzia de livros que lemos. A única causa para uma pessoa ou para um país é a independência. (Que é o tema, aliás, da proveitosa coletânea de artigos do meu amigo João Pereira Coutinho: Vida Independente). Isso não significa revolta contra a autoridade; o que é autoridade, tautologicamente, é autoridade. Nada mais que isso. Os pais não deixam de ser pais quando seus filhos saem de casa e começam a andar com as próprias pernas. Para quem acredita em Deus — bem, Deus não tem especial predileção pelos autômatos e pelos picaretas. Para quem não acredita em Deus, façam o dever de casa e estudem ciência de verdade, i. e., aquelas coisas que parecem tão entediantes, cheias de fórmulas e números, a quem diz, com amor fingido, “I fucking love science”.
Como dizia alguém: “Se alguém quiser me seguir… já que eu não sou Jesus, por favor avise, para que eu possa seguir outro caminho”.
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Esse é, evidentemente, um artigo de opinião, com os benefícios e malefícios de costume. Não provo nenhuma tese, e não o pretendo fazer; até porque isso tudo me parece um tanto óbvio. Se algo parece fazer sentido, convido o leitor a examinar e, caso se convença, a permanecer convencido até prova em contrário. A vida das ideias é algo instável; mas quem não examina as coisas (e esse é o sentido mais caro da palavra grega skepsis, de onde saiu o polissêmico “ceticismo”; cf. Liddell-Scott, v. sképsis, II: “examination, speculation, consideration”) acaba por levar uma vida indigna. No mais, há lugar de sobra para pregadores.
A esfera pública e a mídia nos deixam a impressão de que não existe vida além delas: vida além da discussão, do ruído, das notícias, das desgraças e da denúncia do mal.
Curiosamente, vidas inteiras se desenvolvem muito longe dessas esferas. No silêncio e na discrição, no trabalho diário e no estudo.
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P. S. em 21/10/2012: Esse texto exige um esclarecimento, após a publicação das notas certeiras de Adriano Correia e Pedro Sette-Câmara, que estão mutuamente de acordo no essencial. Quando li a citação de um texto do mesmo Pedro Sette-Câmara, pensei que ele dizia melhor o que o eu mesmo pretendia dizer sobre o problema (mais especificamente, a mútua rotulação, inimiga do pensamento). Não tenho a mesma arte que meus amigos. Ler esses textos ajudará o leitor a ‘matizar’, como se diz, os meus exageros. Em uma frase, minha pretensão era mostrar que certos argumentos apressados, aliados à divulgação sem critério desses autores, causa mais dano que o que se busca combater. O núcleo do meu texto não é, todavia, objeto da argumentação do Pedro (basta notar que todo o trecho justamente criticado começa e termina anunciando que se trata de um exemplo, uma ilustração; creio que ele é correto, mas que se deve notar que quem divulga ideias e autores com critério, e sem intuito meramente ideológico, não é alvo do exemplo). O leitor faça o seu julgamento.
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