O seqüestro da crítica
Data do post: 4 de maio de 2011
Por Rodrigo de Lemos
Quando Roger Kimball lançou The Rape of the Masters, pus-me a imaginar o que ele não diria sobre a crítica no Brasil. Bem antes dos anos 80 (década em que os resentniks pós-estruturalistas invadiram as universidades americanas), uma parte da crítica brasileira já entendia sua atividade como a violência aos mestres locais justificada pelas “boas causas”. E eis que aparece agora o Eduardo Wolf com esse artigo sobre “O seqüestro de Machado de Assis” na última Dicta&Contradicta. Claro, a reflexão do Eduardo não me parece dever alguma coisa à do Kimball; mesmo assim, não deixo de esperar que ela seja para nós um pouco do que The Rape of the Masters foi para os americanos: um alerta para os estragos decorrentes da politização da crítica e um sinal para os discordantes de que eles não estão sozinhos.
Nesse breve comentário, quero me deter em dois pontos: primeiro, por que interpretações como as de Roberto Schwarz sobre Memórias póstumas tornaram-se por aqui não apenas mais uma leitura, legítima entre outras tantas, sujeita a contestações e a ataques, mas a interpretação dominante, combatida de quando em quando por tímidos balbucios; em seguida, vou levantar os problemas e as contradições que a centralidade reclamada por críticos como Schwarz para suas leituras sociológicas trazem para suas próprias teorias. Quem acompanha os meios literários nacionais (nos quais sempre houve quem torcesse o nariz para um Murilo Mendes, por exemplo, por ele não ter feito poesia engagée nem ter sido um obcecado pela identidade nacional) sabe que o pensamento de Schwarz está longe de ser um caso isolado. Não faz muito, soube de um crítico que, comentando dois “O navio negreiro”, um de Heinrich Heine, outro o de Castro Alves, tentava mostrar como o poema do alemão era em muito superior ao do brasileiro: em lugar da preocupação meramente moral deste (e deixo o “meramente” por conta do crítico), o tratamento de Heine teria sido mais feliz ao tomar em conta as ligações do tráfico negreiro com o capitalismo internacional. Nenhuma palavra sobre a diferença de arte poética entre os dois: uso das imagens, das figuras de linguagem, dos procedimentos rítmicos; para ele, o poema de Heine era superior porque Heine era melhor sociólogo. Observações sociológicas desse tipo tornaram-se a tal ponto preferência nacional que passaram a ser tomadas por critério de julgamento estético.
Cabe perguntar o motivo desse furor sociologizante. Primeiro, a sociologia é o único horizonte para uma boa parte do público e dos próprios escritores. Diferentemente da França, por exemplo, que dispõe de uma verdadeira educação para a forma desde, no mínimo, o século XVI, para certas correntes críticas prestigiosas no Brasil, a análise imanente é vista com maus olhos. A retórica saiu de moda há tempos; poucos se interessam em voltar a Cícero e a Quintiliano para neles aprender a identificar e a empregar técnicas lingüísticas. O estudo da versificação é por aqui uma raridade, e a maioria do público de poesia, quando não dos próprios poetas, ignora os princípios básicos da métrica e da prosódia, isso sem falar em outros procedimentos fônicos mais sofisticados (modulações ou harmonias, por exemplo). Ao mesmo tempo, tudo em que o legado estruturalista foi positivo, tudo o que nele foi além de pretensão cientificista e que realmente podia contribuir para o estudo da literatura, é hoje preterido em favor de investigações temáticas que confirmem os derniers cris do politicamente correto e do multiculturalismo. Diante dessa planície analítica, não surpreende que as leituras sociológicas avancem terra adentro sem encontrar obstáculos de relevo.
Mas, para explicar essa tendência, há algo além dos recursos críticos limitados característicos do pensamento literário atual. A transformação de conceitos sociológicos em categorias de julgamento é o corolário de uma idéia aparentemente inocente e que, à força de repetição, entrou de tal forma no pensamento sobre literatura que se transformou no seu maior, e senão único, consenso: a de que a chave para a compreensão de uma obra literária está em sua relação com o contexto histórico; dito de outro modo, de que a significação mais profunda de uma obra explica-se pelo tipo de representação que ela traz de uma sociedade em um dado momento da história ou do tipo de relação que estabelece com essa sociedade. Daí decorreria, para os defensores dessa tese, que a qualidade da obra mede-se pela maneira mais ou menos penetrante com que ela revela as contradições do meio em que foi escrita, culminando frequentemente na instrução de um processo contra as classes dirigentes, contra o racismo, contra o falocentrismo, contra o perseguidor do momento.
Na verdade, a tensão atual entre críticos sociológicos (sobretudo marxistas) e críticos pós-something reside menos em uma oposição radical de visões sobre a sua própria atividade intelectual do que em uma diferença entre as causas a que eles a submetem, a luta de classe no caso dos primeiros, a defesa de minorias entre os segundos. Em ambos os grupos, desconsidera-se da análise literária não somente a dimensão formal, mas também qualquer outro aspecto relativo à vida interior (psicológica, moral ou religiosa) e que transcenda o jogo de forças sociais.
Claro, para muitos dos críticos de filiação sociológica, este último é um falso problema, pois o que são todas essas dimensões da natureza humana senão, a exemplo da própria obra literária, fenômenos de superfície que, por sua vez, encontram sua razão de ser na vida social e econômica? Mas, ao sustentá-lo, o crítico sociológico cria uma armadilha para sua própria leitura, pois ou bem lhe atribui uma objetividade que ele mesmo nega a qualquer outra forma de conhecimento, e então seria de esperar que justificasse essa superioridade apolínea auto-atribuída, ou bem dissolve a verdade do seu discurso na pura historicidade em que ele já dissolvera a verdade da obra literária. Rompe, no último caso, qualquer compromisso com a objetividade, com a busca de uma verdade transcendente à sua própria situação histórica, a seus interesses ideológicos e partidários – quando é o conhecimento da verdade que deveria determinar a estes últimos. A partir desse ponto, qualquer violência – estupro ou seqüestro – fica permitida, e só nos resta repetir a ritournelle do Eduardo ao fim do artigo “O que pensar, leitor, o que pensar?”.
Rodrigo de Lemos é mestre e doutorando em Literatura Francesa na Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), onde atualmente é também professor na mesma área.
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Um Bom Resgate?
Há uma semana publicamos aqui no site o artigo do Eduardo Wolf sobre a análise crítica que Roberto Schwarz faz de Machado de Assis. Publicamos agora, para fomentar o debate, uma crítica à crítica de Wolf, escrita por Pedro Gonzaga.
Um bom resgate?
Por Pedro Gonzaga
Qual a melhor maneira de retribuir ao Wolf a dedicatória que me fez em seu ensaio “O Seqüestro de Machado de Assis”, publicado na última Dicta&Contradicta? Levar a sério seu esforço intelectual e criticá-lo, se for o caso, com a mesma seriedade. Um bom debate deve, creio eu (e deve crer o Wolf também), permitir que esclarecimentos adicionais a uma determinada tese sejam apresentados quando necessário. Penso que esse seja o caso de alguns passos do argumento de seu artigo sobre Um mestre na periferia do capitalismo: ou não funcionam corretamente, ou necessitam de maiores explicações para que funcionem.
Com isso em mente, espero contribuir para os debates que este site vem promovendo levantando três elementos que considero ao menos potencialmente problemáticos no referido artigo: um mais geral, outros dois que descem a detalhes mais específicos. Os leitores da revista, por certo, podem trazer os seus questionamentos.
A primeira questão que gostaria de propor, de caráter mais geral, diz respeito ao que considero senão o foco da crítica de Wolf a Roberto Schwarz, no mínimo o argumento que é mais ressaltado em seu texto, qual seja, a acusação de que tanto na motivação quanto no procedimento, a análise de Schwarz é ideologicamente viciada. “O seqüestro de Machado de Assis” se organiza em torno dessa denúncia principal, e, até onde posso
julgar, realiza uma análise textual forte e sólida do trabalho de Schwarz, de tal modo que parece demonstrar que assim o seja. Contudo, não é de todo um despropósito questionar o autor do ensaio: qual exercício crítico não o é? Dizendo de outro modo, estaria o autor do ensaio sugerindo que apenas ele – ou ele e alguns mais – não se movem no terreno da ideologia? Não estou aqui sugerindo uma posição pós-moderna, que tende a ver em toda e qualquer manifestação humana a marca da ideologia e, moto-contínuo, desmerecendo-as todas; mesmo assim, é razoável afirmar que a argumentação de Wolf não dá conta da difícil e truncada relação que sempre existe entre qualquer esforço intelectual (seja da obra literária, seja da análise dos críticos) e as construções ideológicas que por vezes operam até mesmo de maneira inconsciente em todos nós.
A segunda e a terceira objeções referem-se a passagens mais específicas de sua análise e são semelhantes. Na seção 2 de seu ensaio, intitulada “As quatro faltas do crítico”, mais especificamente na sub-seção 2.1 (“A falta lógico-expositiva: ideologia e circularidade”), Wolf contesta a análise de Roberto Schwarz segundo a qual a prosa das Memórias Póstumas reproduzem de maneira estilizada os dilemas da vida social brasileira da época, e o faz contra-argumentando que caberia a Schwarz explicar porque encontramos os mesmos resultados estilísticos nos contos de Machado, em suas crônicas, ou mesmo nos romances narrados em 3ª pessoa, como Quincas Borba e Memorial de Aires. Ora, não caberia aqui objetar que é central para o argumento de Roberto Schwarz, em primeiro lugar, a tese de que é nos romances – e não nas demais formas narrativas – que sua tese faz alvo? E mais: a tese do autor de Ao vencedor as batatas não está focada nos narradores em 1ª pessoa, sendo portanto indevido o passo de Wolf de recorrer aos contos, crônicas e narradores em 3ª pessoa? Isso para não dizer que caberia a Wolf mostrar que os resultados estilísticos são, de fato, os mesmos, nas demais obras referidas.
Por fim, um último questionamento. Na mesma seção mencionada acima, ao criticar a tese de Schwarz de que a erudição e até mesmo a prosa de Brás Cubas é uma maneira velada de criticar a impostura intelectual das elites, Wolf recorre às próprias leituras de Machado, às admirações intelectuais e artísticas do homem Machado de Assis. De que modo estaria o autor do artigo autorizado a passar de uma consideração das obras de Machado para uma análise do homem Machado? Afinal, a tese de Schwarz parece se ater ao primeiro caso, e não ao segundo – certa ou errada.
Tais objeções, se pertinentes, deixam o ataque de Wolf à análise de Roberto Schwarz sensivelmente debilitado, comprometendo o que seria o seu “resgate”. Seja como for, a simples oportunidade de que esse debate seja feito já é, por si, um mérito.
Pedro Gonzaga é tradutor e escritor, autor de Cidade Fechada (Editora Leitura XXI) e Dois Andares: Acima! (Editora Novo Século).
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O seqüestro de Machado de Assis
Data do post: 19 de abril de 2011
Um Mestre na Periferia do Capitalismo vinte anos depois [1]
[publicado em D&C n. 6]
Por Eduardo Wolf
Eu, pela minha parte, não tinha parecer. Não era por indiferença; é que me custava achar uma opinião. Alguém me disse que isto vinha de que certas pessoas tinham duas e três, e que naturalmente esta injusta acumulação trazia a miséria de muitos; pelo que, era preciso fazer uma grande revolução econômica, etc. Compreendi que era um socialista que me falava, e mandei-o à fava (Machado de Assis, Bons Dias!, 11 de Maio de 1888).
Moon reducía la historia universal a un sórdido conflicto económico. Afirmaba que la revolución está predestinada a triunfar. Yo le dije que a un gentleman sólopueden interesarle causas perdidas… (Jorge Luis Borges, La forma de la espada).
Há vinte anos, o sociólogo e crítico literário Roberto Schwarz publicava seu estudo sobre Machado de Assis, Um mestre na periferia do capitalismo, consumando um processo a que chamarei de “seqüestro” de nosso maior escritor. Àquela época, o crítico já despontava como figura de referência na vida literária do país e a recepção do livro contou com estardalhaço muito além do comum para uma obra de crítica literária, em particular em país de escasso público leitor como o nosso. Duas décadas depois, o fato de que até o momento em que escrevo nenhum suplemento literário tenha se dedicado ao tema e de que nenhum evento tenha ocorrido para marcar a efeméride pode dar a impressão de que o livro está superado, de que seu autor e suas análises não estão mais na pauta do dia. Nada mais longe da realidade. O que temos é, pelo contrário, a naturalização da leitura que Roberto Schwarz faz de Machado de Assis: o estado natural das coisas é tomar a leitura sociológica desse crítico como a leitura de Machado.
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O Manhattan Connection de quem fala a verdade
Data do post: 18 de abril de 2011
Enquanto o Caio Blinder – o eterno bom menino que fazia contraponto às ousadias de Paulo Francis – tem de se explicar o tempo todo sobre o fato de ter chamado a rainha da Jordânia de “piranha”, existem três sujeitos que resolveram fazer o Manhattan Connection de quem fala a verdade e não tem medo de xingar quem deve ser xingado.
“Num faz cabimento” é um podcast anárquico elaborado por Dionisius Valença – colaborador da Dicta&Contradicta -, João Paulo Bueno e Diego Blanco. Já existe há quase um ano e, se algum produtor resolver fazer algo melhor que o CQC, eu não hesitaria em indicar estes três senhores (sim, são senhores apesar da idade, cada um mais rabugento do que Walter Matthau ou Jack Nicholson em As good as it gets) para superar a turma de Tas no futuro.
Você, ouvinte delicado, pode se ofender com algumas inconsistências – como, por exemplo, o momento em que um dos apresentadores cita Jô Soares como padrão de crítica literária -, mas o fato que deve ser louvado é o desafio proposto pelo programa: sair da pauta do rame-rame, pensar fora da caixinha e, sobretudo, cumprir o famoso ditto dos Founding Fathers que dispara a indignação justa de todos nós: don´t tread on me.
No programa desta semana, eles entrevistaram Karleno Bocarro, o autor de As almas que se quebram no chão, aquele romance que não irá para a lista de finalistas do Portugal Telecom porque nenhum jurado sabe mais encontrar um grande livro quando o vê embaixo dos seus narizes.
Só mesmo os nossos anarquistas da Zona Leste paulista para fazer Karleno, um tímido resoluto, falar pelos cotovelos e dar uma aula sobre como foi viver em Berlim Oriental em uma época histórica que ainda ecoa entre nós.
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Homens cultos na Universidade?
Data do post: 17 de março de 2011
Por Julio Lemos
Vou dizer algumas sobre o texto do Wolf (parte 1 / parte 2) e do Malzoni, e espero que minha intervenção não seja de todo inútil.
Malzoni dissolveu um problema. Porque, suspendendo aqui, falsamente, o PNC, o princípio da não contradição, ao mesmo tempo (i) haveria; e (ii) não haveria um problema com a Universidade. A suspensão é falsa porque duas coisas podem ser e não ser alguma coisa (ou talvez ter ou não ter um predicado) ao mesmo tempo, todavia sob perspectivas diferentes.
A Universidade, se já teve o papel de formar homens cultos, nunca deve tê-lo exercido bem. Não houve, e nem haverá, um século de ouro universitário. Os pais mandam seus filhos para lá e pronto. Ali aprenderam, no passado, retórica, lógica, aritmética, direito, astronomia…, e hoje aprendem cálculo diferencial, estatística, direito tributário, oceanografia… e continuam incultos. É uma catástrofe? Não. Porque a cultura pela cultura, e esse ar de hello, I´m a bloody man of letters que muita gente gosta de afetar é um luxo oriental divertido (embora produza efeitos muito bons e úteis), mas que nunca atrairá toda a gente.
O ideal de Newman, por exemplo, era proporcionar aos homens, na Universidade (e isso significa: a uma certa elite razoável), matéria farta para conversas do dia-a-dia. Transformar a sociedade em um locus civilizado, em que as pessoas não falam apenas dos resultados da última partida de rugby e seus aborrecidos trabalhos, mas também de Platão e Rabelais. Pensem mesmo numa Roma do século de ouro (lá pelo ano zero): gente como Cícero precisava de assunto; talvez para poder refletir com um ar de generalidade sobre a vida; para confundir os adversários; para encher o mundo de sutileza. Quem sabe Cícero de cor, hoje, faz a mesma coisa: torna o mundo um lugar mais agradável, mais sutil. E mais tarde, magicamente, a sociedade melhora. Porque as sutilezas de Cícero são fruto das de Aristóteles; e Aristóteles sabia das coisas. E quem sabe das coisas age melhor.
Por isso o risco de um debate sobre a cultura é sempre a de causar a impressão de generalidade e luxo oriental. Quase sempre se dá, de bandeja, aos leitores maliciosos o seguinte argumento: “sois fúteis o suficiente para falar de cultura em geral; obrigado e voltai sempre”. Não existe cultura; existe o tratado de geografia erudita de Varrão e quem o leu; existe a obra de Bach, que vale mais do que as ações do Citibank; existe o inferno, que é provavelmente gelado, segundo Dante. Uma defesa da cultura precisa ser uma defesa prática e concreta da excelência. Séculos de Platão na cabeceira de um punhado de homens cultos, como dizia um inglês qualquer, produziram, junto com outras coisas, essa pujança que é a Inglaterra. E a Inglaterra não é só útil: ela também é bela e sólida. A cultura é como um alguém diante do espelho. Se a imagem vale (a civilização nos livros), vale porque é o reflexo de uma civilização efetiva, formada pelas conversas e pelas ações, um tecido macio, refinado, mas resistente.
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Duas objeções às lições de Wolf
Data do post: 11 de março de 2011
Por Guilherme Malzoni Rabello
Vamos assumir logo de uma vez? Todo mundo aqui concorda com o Mario Vargas Llosa!
Se você, leitor, esperava o contrário, só posso pedir desculpas e avisar que você não está sozinho. A coincidência chega a ser engraçada: depois do Eduardo Wolf dizer o óbvio nesse site (parte 1 / parte 2), intelectuais do mundo inteiro se juntaram para criticar o direitista-reacionário Vargas Llosa por um motivo qualquer. Se tiverem paciência, podem conferir as notícias em diferentes idiomas aqui, ou aqui, nesse outro e lá também (e por fim aqui).
Mas essa é uma casa de respeito e este é um debate sério. Interessa-me, portanto, não o que disse Vargas Llosa, com o que todos concordamos; interessa-me a glosa que Eduardo Wolf fez de Vargas Llosa, e a essa, sim, tenho um ou dois comentários a fazer. Então, aux armes!
A crítica da crítica da crítica… e a moral da história?
Segundo o que foi publicado, a primeira lição que podemos tirar de Vargas Llosa seria o disparate das reações que suas idéias suscitam. Novamente eu concordo com o Wolf, mas será que isso tem alguma importância?
Em primeiro lugar, nem o mais desavisado dos distraídos fica surpreso com o fato. Chamar o Vargas Llosa de direitista é mais ou menos como pedir ao Chico Buarque que assine um manifesto, ou olhar o Macaco Tião fazendo palhaçada no zoológico. Todas elas têm sua graça, mas não são propriamente uma novidade.
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Duas (entre muitas) lições do Breve Discurso de Vargas Llosa – Parte 2
Data do post: 9 de março de 2011
Por Eduardo Wolf
“Entre a cultura e a especialização há tanta distância quanto entre o homem de Cro-Magnon e os sibaritas neurastênicos de Marcel Proust” (Mário Vargas Llosa)
Se no post anterior detive-me mais no tipo de acusação pueril que costuma ser feita a Llosa (e que caberia, pelos critérios dos teóricos da abjeção, a um George Steiner, a um Philip Roth, e isso fala por si), hoje gostaria de me ater a um dos aspectos que considero central em seu texto. Certamente outros tantos aparecerão em nossas discussões aqui no site.
2. Barbaramente especializados
Os parágrafos que Llosa dedica aos temas Cultura e saberes especializados e Especialização e progresso (Dicta 6, pp. 15/16) sintetizam uma reflexão de grande riqueza. Suas considerações bebem claramente em Ortega y Gasset , a quem definiu na entrevista para a Dicta como sendo “um personagem extraordinário que, infelizmente, estava muito à frente do seu tempo na Espanha e que não foi reconhecido como deveria ser em sua época (…). Era um liberal e na Espanha do seu tempo não existiam liberais” (Dicta 6, p. 31). É claro que essa não é sua única fonte, e podemos dizer sem medo de errar que suas considerações constituem um exercício notável daquilo mesmo que Vargas Llosa defende: considerações de um homem com trânsito pelo caldo de cultura que formou nossa civilização nos seus mais variados aspectos; de um homem atento às questões de seu tempo, dotado de inteligência e capacidade para expressar suas idéias com clareza – a gentileza do filósofo! –; em uma palavra, de um homem culto no velho sentido do termo que o mesmo Llosa reivindica para nossa época.
É por isso que considero notável a passagem da página 15 em que ele escreve:
“A cultura é, ou era, quando existia, um denominador comum. Algo que mantinha viva a comunicação entre pessoas muito diferentes, mesmo quando o avanço dos conhecimentos obrigava a especializar-se, isto é, a ir-se distanciando e incomunicando entre si. Era igualmente uma bússola, um guia que permitia aos seres humanos orientar-se no espesso emaranhado dos conhecimentos sem perder a direção, e tendo mais ou menos claro na sua incessante trajetória as prioridades, o que é importante e o que não é, o caminho e os desvios inúteis”.
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Duas (entre muitas) lições do Breve Discurso de Vargas Llosa
Data do post: 2 de março de 2011
Por Eduardo Wolf
Seria um lugar-comum iniciar esta nova série de textos no site da Dicta falando do tremendo orgulho que foi contar com o prêmio Nobel Mário Vargas Llosa em nosso último número. Para todos os que fizeram e fazem a revista, tanto a excelente reportagem-entrevista que Martim Vasques realizou com ele quanto a publicação do texto do escritor constituem um marco no projeto da Dicta de seguir sempre buscando o melhor para seus leitores e de contribuir para um debate público de alta qualidade. Seria um lugar-comum, dizia eu, mas não é.
Não se trata de lugar-comum precisamente pelo tipo de reação que a premiação de Mário Vargas Llosa suscitou em certos meios, assim como o conteúdo de sua fala em Porto Alegre. Tanto ao vivo, pelo que nos mostra a matéria exclusiva de Martim cobrindo a passagem de Llosa em solo pátrio (ver “Elogio da Disciplina”, Dicta 6, p. 36), como por certos comentários mais gerais que suas considerações provocaram, pode-se perceber até que ponto chegou o comprometimento do mínimo de bom senso em matéria intelectual – e não apenas no país
1. Uma reação, uma lição
Arriscaria dizer que podemos encontrar nessa reação a primeira lição que o Breve discurso sobre a cultura nos deixou – e ficamos, a meu ver, não apenas com a tarefa de pensar sobre tal lição, de discuti-la, mas também de agir com base em nossa reflexão sobre as questões que ela suscita. Em parte, essas rodadas de debate no site da revista buscam dar conta dessas tarefas – mas o trabalho é, por certo, muito maior.
Muitos leitores acompanharam os desabonadores comentários que surgiram aqui e ali, como no caso de certa imprensa sueca, que condenou veementemente a decisão da Academia de premiar Vargas Llosa, escritor de talento indiscutível – e nem mesmo os seus rivais ideológicos lhe negam esse mérito. As vozes que normalmente tecem loas a intelectuais que defenderam (ou que ainda defendem) regimes totalitários e assassinos foram as primeiras a se erguer contra o prêmio dado a um intelectual que defende o Estado de Direito Democrático e o Livre Mercado. Mediante um procedimento não menos que esquizofrênico, esses críticos de Llosa querem nos convencer que apoiar regimes que fuzilam sumariamente seus dissidentes (isto quando não o fazem após humilhantes e desumanas perseguições e torturas) é uma atitude moralmente elevada, ao mesmo tempo que buscam incriminar Vargas Llosa (e quem quer que, como ele, compartilhe de suas convicções político-econômicas) pelas “injustiças” de nossas sociedades contemporâneas. Esquizofrenia chega a ser uma denominação doce, suave quase, para um pensamento deformado que escusa moralmente assassinos de arma em punho e culpa a mim e a você, leitor, pela morte de criancinhas africanas ou onde quer que seja.
Já acusação genérica de “direitista” ou “liberal” – como se tais termos correspondessem a entidades metafísicas reais e claramente definidas no mundo – contra o autor de Conversa na Catedral é, essa sim, um lugar-comum, e pior que isso, funciona como areia nos olhos do público, uma vez que o autor recebia o prêmio por sua produção literária, e não por sua postura política. Não quero parecer ingênuo e dar a entender que a Academia não tem critérios políticos, coisa sabida (e cá estamos nós novamente no terreno dos lugares-comuns…) por todos; reconheço mesmo que até esta última decisão tenha sido, digamos, potencializada por essa dimensão política, a saber, fugir da fama de conceder o prêmio sempre para escritores engajados à esquerda. Nada disso muda o fato de que se trata de um prêmio de Literatura, que o valor da obra escrita é o que pesa (alguém ainda se recusa a ler Pound ou a ouvir Wagner?) ou deveria pesar, e que no caso de Vargas Llosa, justiça seja feita, o prêmio foi mais que justo.
Mas afinal, o que teria dito Vargas Llosa no texto publicado na Dicta que poderia ser considerado tão absurdo, tão chocante, ou mesmo suficientemente controverso para que provocasse as reações que provocou? Certamente muito, senão tudo o que ele disse costuma ser alvo da crítica soi-disant progressista. Para isso mesmo convidamos os leitores a tecerem seus comentários. Creio que posso, ainda assim, destacar algumas dessas posições para frisar o disparate das reações mencionadas.
Já no início de sua fala, Llosa menciona um dos responsáveis diretos – senão o responsável direto – pelo embaralhamento da noção de cultura. Falando dos antropólogos, que cunharam (e fizeram vingar) a definição de cultura como sendo tudo-e-qualquer-coisa que um povo diga, faça, tema ou adore, ele prossegue: Leia mais…
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Debates – Editorial
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Assim como o pensamento é individual e interiorizado, o diálogo é o pensamento exteriorizado e coletivo. Os dois estão tão intimamente relacionados, que onde houver um se encontrará o outro e, vice-versa, onde faltar um faltará o outro, como se pode lamentavelmente verificar muito bem em regimes totalitários e culturas fundamentalistas. A receptividade e o pluralismo congênitos da sociedade brasileira, por sua vez, parecem fazer dela um terreno particularmente promissor para o diálogo. Bastará, contudo, passar ligeiramente em revista algum simpósio acadêmico ou uma disputa política ou cultural qualquer na grande mídia para se ver – entre seus intermináveis monólogos e conversações soltas, entre panegíricos de um lado e insultos de outro – o quão raro é o genuíno debate de idéias no país. Toda discussão supõe certa disciplina e técnica, e pressupõe, acima de tudo, um acordo de base e um esforço comum de busca da verdade além das impressões pessoais. E nenhum “respeito às diferenças” por si só e nem mesmo a mera troca de opiniões jamais serão suficientes para se lograr esse objetivo. Muito além disso impõe-se o esforço positivo de expor com clareza a própria posição, de compreender a alheia a partir de seus próprios princípios e, finalmente, o passo decisivo: distinguir em uma e outra a verdade do erro e, em última instância, da mentira, à qual ninguém deve respeito algum – bem ao contrário, tem a obrigação de reprimir com um taxativo Não.
Foi com considerações como essas em mente que Dicta & Contradicta foi batizada. Desde então temos trabalhado para fazer jus a este nome. Conscientes de que há ainda muito a se fazer, damos agora mais um passo nesse sentido.
A partir de março nosso site abrirá mensalmente um fórum de discussão em torno de um dos artigos impressos na revista. Eduardo Wolf, que nos ofereceu na última edição uma crítica precisa a Um mestre na periferia do capitalismo de Roberto Schwarz, inicia o debate deste mês com uma apreciação do Breve discurso sobre a cultura de Mario Vargas Llosa publicado no mesmo número.
O próprio Vargas Llosa expôs com lucidez o curto-circuito desencadeado por uma intelectualidade que, à custa de promover o diálogo criticando todo tipo de dogmatismo, acaba por impor – conscientemente ou não, pouco importa – um dogma próprio, a saber, de que não há hierarquia possível dentro de uma determinada cultura e dentre as diversas culturas entre si. O que é irônico, se não fosse trágico, é que esse mesmo princípio elimina fatalmente toda possibilidade de crítica, posto que esta, em seu sentido etimológico mesmo de “distinção” (krísis), exige necessariamente um critério objetivo independente das opiniões subjetivas através do qual se possa justamente afirmar a validade de uma delas em oposição à invalidade da sua contrária. Na falta deste, todo juízo não só é uma simples opinião individual, como não pode pretender ser mais do que isso. E se é assim, se a possibilidade de se diferenciar um juízo falso de um verdadeiro é negada a priori, então não há nenhuma razão para se contrapor uma opinião qualquer a outra. Em outras palavras: não há diálogo possível.
A isso só podemos dizer Não. O diálogo é, sim, possível, e com a presente iniciativa pretendemos estabelecer mais um ponto de partida na sua direção.
E, para que se possa passar da possibilidade à realidade, espera-se, mais do que nunca, uma contra-partida do leitor, a quem, como sempre, as portas do nosso site estão abertas. Desejamos uma boa leitura e uma boa discussão.
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