Artista Presente

Vivemos em tempos em que não é mais permitido estabelecer um limite entre o que é arte ou não. Ou aceitamos a proposta do artista, seja qual ela for, ou não entendemos nada sobre arte. Pode ser uma cama desarrumada (“My Bed” da artista britânica Tracey Emin, que está com exposição em São Paulo até fevereiro de 2013 no White Cube) ou cocô enlatado (“Merda d’artista” do italiano Piero Manzoni); é preciso acolher toda forma de expressão, compreender e enxergar valor artístico em cada obra, por mais que possa nos parecer insignificante ou até mesmo desprezível. Nessas circunstâncias, só restam duas opções ao público: admirar, junto dos demais, a roupa nova do imperador ou então manter distância de museus de arte contemporânea. Mas se ainda é possível encontrar algo capaz de comover, o trabalho recente de Marina Abramovic oferece alguma esperança.
“Eu tenho 63 anos, eu não quero mais ser alternativa,” diz a artista sérvia no documentário Marina Abramovic – Artista Presente, exibido no Festival do Rio deste ano. No filme dirigido por Matthew Akers e Jeff Dupre, Abramovic utiliza o próprio prestígio na tentativa de tirar o ranço de “arte alternativa” da performance, tornando-a mais acessível àqueles que não são experts no campo. Foi só depois de quarenta anos de carreira, com muito do seu tempo dedicado à administração e ao marketing, que Abramovic conquistou, com o auxílio de ampla cobertura da mídia, o status de estrela do universo artístico – apenas as fotografias que ilustram momentos de suas performances são comercializadas por preços que vão de 25 até 50 mil dólares.
Em 2010, o Museu de Arte Moderna de Nova Iorque (MoMA) fez uma retrospectiva da carreira da artista, a maior da história do museu já dedicada à performance. Durante os três meses da exibição, alguns dos seus trabalhos mais importantes foram recriados por novos artistas enquanto a própria Abramovic apresentava “The Artist is Present”, obra em que permaneceu sentada, no meio de uma sala iluminada, durante todo o horário de funcionamento da exposição. O público formava uma fila e cada pessoa podia se sentar à sua frente pelo tempo que quisesse, sem conversar ou tocar em Marina, apenas olhando para ela. Depois de algum tempo (que podia variar entre cinco minutos até duas horas), alguns sorriam, outros começavam a chorar – na verdade, quase todos começavam a chorar.
No documentário, que acompanha a artista desde a preparação até o dia final da mostra, Marina diz, durante uma entrevista com um jornalista, que ninguém mais lhe pergunta por que isso é arte, que ou as pessoas passaram a entender ou todo mundo finge que entende. A performance, para Abramovic, seria uma abordagem direta e emocional, inferior apenas à música, em que o artista não se utiliza de qualquer suporte ou narrativa para se comunicar com o público – não importa tanto o que ele faça, mas com que estado de espírito ele o faz e que tipo de reação provoca nas pessoas.
“É muito difícil fazer algo que é quase nada,” diz Marina sobre “The Artist is Present”, obra cujo intuito principal é, levando o tempo que for necessário, estabelecer uma conexão direta e individual com o público, fazer com que cada um compartilhe de um mesmo estado mental que é muito menos apressado e mais voltado ao presente do que estamos acostumados. Por mais que muitas das performances anteriores de Abramovic possam parecer bobas hoje em dia (em “Art Must Be Beautiful, Artist Must Be Beautiful”, de 1975, ela penteia o cabelo obsessivamente enquanto repete o título da obra por 45 minutos como se fosse um mantra), “The Artist is Present” representa um marco na história da performance porque concretiza aquilo que todo artista pretende – seja um cineasta, um músico ou um escritor – que é criar algo que de fato comova as pessoas.
O documentário em si é também bastante emotivo. Em uma palestra na Itália, Marina lê seu manifesto. Muitos dos tópicos são discutíveis. Por exemplo, “um artista não deve fazer concessões”; Marina era famosa na década de 70 por uma série de performances violentas em que se cortou, perdeu a consciência, teve convulsões e quase foi assassinada. O abrandamento de sua obra compõe um processo natural de amadurecimento ou uma tentativa de ceder aos gostos de um público maior? Continua, “um artista não deve se tornar um ídolo”; com filas gigantescas de pessoas que chegaram a dormir na calçada para conseguir participar de “The Artist is Present”, é possível dizer que Abramovic não seja um ídolo? E, então, “um artista não deve se apaixonar por outro artista”; começa aí uma das partes mais comoventes do filme, que aborda o seu relacionamento com o artista alemão Ulay, com quem viveu e trabalhou por mais de dez anos.
Em 1988, depois de anos de tensão, a dupla resolveu se separar com uma última performance, em que os dois partiram das extremidades opostas da Muralha da China e se encontraram no meio para dizer adeus. Por anos, os dois ficaram sem se falar e só se reencontram novamente durante o documentário, quando, às vésperas da exposição de Marina no MoMA, são forçados a relembrar o passado, os trabalhos que fizeram juntos e os motivos da separação.
Ulay, como o resto do público, se senta à frente de Marina durante “The Artist is Present”. O silêncio entre os dois é um dos momentos mais eloqüentes e tocantes do filme: Ulay parece envergonhado, sorri e balança a cabeça constantemente, os olhos marejados; Marina chora, com um sorriso discreto nos lábios, mas não sem algum esforço e alguma dor. É um momento que é como uma performance dentro da performance – os que estão presente espelham suas experiências de relacionamentos românticos que já se acabaram ou então expectativas de algum que sequer começou, e é muito difícil não se emocionar. Ulay finalmente se retira, e sobra o público anônimo, composto por crianças, jovens e idosos, que parece reagir com a mesma intensidade de um ex.
Há uma parte curiosa do documentário em que Marina conhece o mágico David Blaine que lhe propõe uma participação em sua performance, mas adicionar o ilusionismo à sua arte seria como misturar água e óleo. O comprometimento de Abramovic com cada um que lhe visita durante a exposição é real. Não se trata de mágica ou atuação.
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Gosto se discute
Data do post: 17 de setembro de 2012
Por Jonas Lopes
Ainda sobre a decadência da alta cultura, assunto que abordei em texto anterior aqui no site da Dicta, outra razão para a derrocada dos padrões não abordada naquele artigo é a do empobrecimento das discussões acerca do gosto e do juízo estético. E poucos livros são tão úteis para o debate do tema quanto Estética Doméstica, do brilhante crítico americano Clement Greenberg (1909-1994). Sério concorrente ao posto de mais influente comentador de artes visuais do século XX, Greenberg fez fama na virada da década de 40 para a de 50, justamente o período de florescimento do expressionismo abstrato dos Estados Unidos, quando Nova York enfim desbancou Paris como capital mundial da arte. Naquele momento em que tantos nomes se consagraram – Pollock, De Kooning, Rothko, Newman (para saber mais, vale a pena correr atrás do ótimo New Art City, de Jed Perl) –, ele reinou como a principal bússola teórica, influenciado sobretudo pelo formalismo de Roger Fry, atento mais às implicações formais e puramente estéticas de uma obra de arte do que das relações histórias e sociais que ela envolve, embora fosse trotskista, ao menos no primeiro momento da carreira.
O que ajudou muito a popularizar Greenberg nos artigos para publicações como Partisan Review, Commentary e The Nation foi o estilo incisivo, quase autoritário, no qual exprimia as opiniões. Considerava, por exemplo, a abstração o único caminho possível para a pintura contemporânea depois do modernismo, um exagero típico. No entanto, com a chegada da pop art, que desprezava profundamente, e a propagação das ideias de Marcel Duchamp (idem), o crítico viu suas doutrinas serem substituídas por opiniões bem mais flexíveis sobre o que é arte: qualquer coisa que se disser arte, basicamente. Até hoje Clement Greenberg não conseguiu retomar a antiga reputação e é visto como um elitista que não tinha a joie de vivre necessária para compreender Warhol ou Duchamp. É nesse contexto que se encaixa Estética Doméstica. Publicado depois de sua morte, o volume reúne ensaios sobre gosto e juízo estético e também seminários dados por Greenberg no início dos anos 70, no Bennington College. São textos excepcionais, e somente em uma época de padrões tão medíocres como a nossa essas reflexões podem não receber a cuidadosa atenção que merecem.
Para Greenberg, um apaixonado leitor da Crítica da Faculdade do Juízo, de Kant, o gosto ganhou uma abordagem mundana e fútil, sendo mais relacionado às boas maneiras de uma pessoa do que às avaliações estéticas em si. E o que seria o gosto, então? Ele nasceria de uma experiência de intuição estética: gostar, não gostar, comover-se, irritar-se etc. Entramos em contato com uma pintura, uma melodia, um poema e isso tudo nos toca de uma determinada forma, influenciada, naturalmente, por nossas experiências anteriores, por nossa biografia, por aquilo que conhecemos, apreciamos e ignoramos. “O juízo estético de cada um, por ser uma intuição e nada mais, é acolhido, e não oferecido”, escreve Greenberg. “Não se escolhe gostar ou deixar de gostar de determinada obra de arte mais do que se escolhe ver o sol como luminoso ou a noite como escura”. A partir do juízo, alcançamos o prazer ou o desprazer: o gosto. E “o prazer da experiência estética é o prazer da consciência: o prazer que ela traz consigo. Na medida em que a experiência estética gera satisfação, a consciência revela seu próprio sentido”. O juízo, portanto, só pode ser alterado ou confirmado a partir do contato direto com a obra. “Certa pintura, certa passagem de um verso, certa peça musical podem fazer com que alguém não se sinta à altura dessa exaltação de conhecimento que o invade; aquelas são as obras supremas”. Irreparável.
Chegamos, nesse ponto, ao dilema central de qualquer discussão sobre o gosto. Como fazer uma diferenciação eficiente do que seria bom gosto e mau gosto? Num dos mais deliciosos tratados sobre o tema, intitulado simplesmente O Gosto e escrito para a Encyclopédie de Diderot e d’Alembert, o Barão de Montesquieu separa o gosto natural, que nos atinge e surpreende sem que raciocinemos sobre ele, apenas absorvamos, e o gosto adquirido, que, ao ser cultivado e desenvolvido em certa direção pode alterar o gosto natural, visto que nos tornamos pessoas mais judiciosas, com padrões distintos de valor, sejam eles maiores ou menores. Assim, anota Montesquieu noutra passagem, “pessoas delicadas são aquelas que a cada ideia ou gosto acrescentam várias outras ideias ou gostos acessórios”, enquanto a alma de uma pessoa grosseira “não acrescenta nem tira nada daquilo que a natureza oferece”. Por fim, “aqueles que apreciam com gosto as obras do espírito têm uma infinidade de sensações que os demais não conhecem”.
Clement Greenberg não cita Montesquieu em nenhuma passagem de Estética Doméstica – prefere concentrar-se em Kant e Croce –, mas afirma que “o gosto cultivado não é algo ao alcance das pessoas comuns”. E vai além ao explorar o que chama de objetivação do gosto. Ora, é claro que um juízo estético nunca pode ser objetivo no sentido literal do termo. Se uma obra pudesse ser dissecada e classificada, explica Greenberg, se pudéssemos dizer que ela possui tantas propriedades da classe “A”, mais tantas da “B” e um punhado da “Z”, arte seria uma fórmula matemática, poderíamos dizer que Bach é melhor que Beatles (ou vice-versa) por ter chegado a um resultado “X” e toda discussão estaria encerrada. Seríamos capazes inclusive de assimilar as grandes criações da humanidade sem de fato travarmos contato com elas. Não seria arte, com efeito, e sim matemática.
O que não quer dizer que todo gosto possua o mesmo valor. O modo como devemos falar dessa suposta objetividade do gosto, segundo Clement Greenberg, está “incontestavelmente provada pela presença de um consenso e por intermédio dele no decorrer do tempo”, algo desenvolvido também por juízos comparativos. A isso, chamamos de cânone: anos, décadas, séculos de reconhecimento de grandes criações, de características que perduram e se renovam, acumulando mais e mais admiração no percurso. A durabilidade cria o consenso e, afirma Greenberg, “o consenso do gosto afirma e reafirma a si mesmo pelas sólidas reputações de Homero e Dante, Balzac e Tolstói, Shakespeare e Goethe, Leonardo e Ticiano, Rembrandt e Cézanne, Donatello e Maillol, Palestrina e Bach, Mozart e Beethoven e Schubert. Cada nova geração considera que as anteriores estavam corretas ao exaltar certos criadores – e o fazem com base em sua própria experiência, em seu próprio exercício do gosto”. Não é por acaso que os grandes escritores, compositores e artistas visuais, no decurso do tempo, tenham avançado em termos estéticos sem nunca deixar de dialogar com a tradição. A Vênus de Urbino, de Ticiano, de uma beleza clássica, renascentista, gerou a Maja Desnuda, de Goya, que desaguou na Olympia de Manet, num contexto muito mais picante, já próximo do modernismo, mas, ainda assim, ligada pelo cordão umbilical ao classicismo de Ticiano. O próprio pintor da escola veneziana, no fim da vida, fez o caminho contrário ao apostar em camadas grossas de tinta (vide a estupenda versão de Tarquínio e Lucrécia que se encontra na Academia de Belas Artes de Viena), antecipa os últimos autorretratos de Rembrandt, Van Gogh e todo o movimento expressionista. Como não admirar o estilo tardio da Grande Fuga op. 133 ou da Sonata nº 32 op. 111, de Beethoven, que antecipam um século inteiro da história da música, embora façam uso das técnicas de fuga e contraponto de Bach? Greenberg acrescenta outros exemplos de gênios que só puderam romper com a tradição após dominá-la por completo: Joyce, Schönberg, Picasso.
Recapitulando, a história do gosto (e do legado do gosto) explica sua objetividade. Ainda assim, há uma diferença entre a história do gosto e a história da arte. Em 1900, Eugéne Carrière era mais famoso que Cézanne, porém “o tempo nivela esses desacordos”, sobrando apenas discussões dentro do próprio cânone (Ticiano ou Michelangelo? Mozart ou Beethoven?). Difícil discordar, a não ser que achemos que daqui a cinquenta ou cem anos Damien Hirst será mais lembrado do que Anselm Kiefer, Lady Gaga mais lembrada do que Arvo Pärt ou Paulo Coelho mais lembrado do que Thomas Bernhard; para tanto, a crítica teria que decair demais, ainda mais do que já decaiu no último século (importante lembrar que, na definição de Eliot, a função da crítica é, para retornar ao assunto principal, a “correção do gosto”…). Se o gosto fosse de todo subjetivo, uma experiência estética “privada e solipsista” (Greenberg), a permanência de Homero ou Bach teria dependido de coincidências absurdas ao longo de muitos séculos. Como chegaram até nós, algumas qualidades em comum precisaram ter.
O que Clement Greenberg lamenta é que as gerações pós-Duchamp tenham trabalhado tanto para anular as discussões acerca do gosto e do juízo estético: “foi a arte interior que cultivou a esperança de tornar os juízos de gosto irrelevantes pela força da demonstração”. Quando até um tubarão dentro de um vidro de formol ou o registro de uma relação sexual com Cicciolina podem ser chamados de arte, tudo o mais pode, e ao se tentar relativizar valores, esse hábito tão comum hoje, um retrato de Tintoretto pode ser colocado no mesmo patamar de um saco de arroz num cubo branco, ou uma ópera de Verdi está no mesmo nível de “Eu quero tchu, eu quero tchá”. Ao romper com o antigo método da inovação em contato direto com a tradição, essa vanguarda “transgressora” passou a advogar pela infindável sequência de rompimentos estéticos, a inovação pela inovação, simplesmente. Assim, a arte contemporânea (ou a música atonal) assumiu uma postura acadêmica, um reacionarismo (mal) disfarçado. Greenberg antecipa os detratores de seu suposto esnobismo ou exclusivismo: “acrescente-se a isso a questão do ‘elitismo’, isto é, o argumento de que o gosto não deveria mais ser determinante, uma vez que a arte exaltada por ele pouco diz respeito à vida tal como ela é vivida pelo homem comum”. De fato, cada um tem o gosto que merece, seja Austerlitz ou Fifty Shades of Gray.
Curioso é que, embora seja um livro dedicado acima de tudo ao receptor da grande arte, ou seja, nós, os donos do gosto, Estética Doméstica brilha e comove ainda mais quando Greenberg fala do outro lado, quando explica que “o transmissor – o artista, o escritor, o compositor, o ator ou o cantor – deve também objetivar a si próprio [...] Precisa ser subjetivo para dar o primeiro passo; precisa de diversas coisas que lhe são singulares e peculiares: seu temperamento, sua autobiografia, sua privacidade”. Não basta o talento, entretanto, e o crítico arremata com precisão: “requer-se a disciplina e a pressão de um meio. Ao enfrentá-las o artista superior objetiva sua subjetividade, transcende-a sem esquecê-la – seja ele um entalhador de pedra gótico ou Keats, um pintor paleolítico ou Mahler. Dante escreveu poesia movido pelo rancor pessoal, entre outras coisas. No entanto, ao lado dessas, o rancor tornou-se para ele o meio da arte, e jamais existiu uma obra de arte mais ‘objetiva’ do que a Divina Comédia. Em última análise, o artista bem-sucedido aparta-se de seu Eu privado, supera-o, transcende-o tanto quanto o faz o amante ‘bem-sucedido’ da arte”.
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Salingaros sobre o Modernismo
Data do post: 31 de julho de 2012
Meu amigo virtual de pouco contato, o prolífico matemático grego Nikos Salingaros, colaborador da Dicta&Contradicta impressa, acaba de publicar em co-autoria com Mark A. Signorelli um artigo na New English Review, acessível online: The Tyranny of Artistic Modernism. Vale conferir imediatamente.
Tendo a desconfiar das críticas imoderadas, mas a observação de Salingaros/Signorelli de que ”all artistic creation is law-like” parece-me verossímil, até como ponto de partida. Os excessos do modernismo elegeram, como formas de arte, até o caos puro e a imprecação. Essa atitude merece a crítica que lhe fizeram tanto os tradicionalistas mal-humorados quanto os expoentes do alto modernismo (estes últimos, a meu ver, em geral mais dignos de apreço, como Geoffrey Hill, W. H. Auden e Gerhard Richter, para dar exemplos aleatórios).
A arte precisa de regras, e só empreendimentos de longo prazo — que permitam à criatividade impor-se com solidez e forma — parecem merecer o valor que lhes conferimos. O darmos valor a artefatos como os de Duchamp fora do seu contexto histórico (de meras curiosidades) parece-me, por esse motivo, mais wishfull thinking do que qualquer outra coisa. Permanecem obscuras, todavia, as razões dessa relação entre a arte e as regras.
Ademais, casas como o MMOMA (o museu de arte moderna de Moscou), que visitei esse mês, têm mostrado que a boa arte do século XX não é brincadeira de crianças.
(Aproveitem para ler o artigo de Scruton que menciona, e analisa, ideias de Salingaros; e um outro post meu que o apresenta.)
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O mundo mágico das Artes Plásticas
Data do post: 3 de abril de 2012
“Brazil Exhibition boom puts Rio on top” é a manchete para a edição de Abril de “The Art Newspapper” (link original aqui). Todo estardalhaço é por conta da exposição “O Mundo Mágico de Escher”, que contou, no Centro Cultural Banco do Brasil do Rio de Janeiro (CCBB-RJ), com uma média de 9.700 visitantes por dia – tornando-se, assim, a mais vista exposição do mundo em 2011.
Mas o estardalhaço não é só por isso. A edição traz ainda outros números impressionantes sobre as artes no Brasil, em geral, e no Rio em particular. Entre as vinte exposições mais vistas no mundo em 2011, a sede carioca do Centro Cultural Banco do Brasil auspiciou ainda as mostras “Oneness” de Mariko Mori e “Laurie Andersen” (no Brasil titulada “Eu em Tu”), que ocuparam as 7ª e 9ª posições, respectivamente. Outra informação importante é que a 15ª exposição em números de visitantes – no Museum of Modern Art de Nova Iorque – foi “Sum of Days” do artista paulistano Carlito Carvalhosa.
É uma enormidade em todos os parâmetros. Um sucesso nesta escala deveria nos fazer a todos tentar buscar explicações cuidadosas. Para tomarmos o caso do CCBB-RJ: considero que o nosso público de artes plásticas costuma ser muito receptivo a manifestações que lidem com a perplexidade ilusionista – assim foi com as obras de Anish Kapoor e Vik Muniz. Neste nicho, a princípio, entenderia o impacto de Escher. Acredito ainda que, em parte, tendo sido encerrada no dia 27 de março, foi o sucesso de Escher a impulsionar parte do público e incrementar por um bom tempo a freqüência às exposições de Laurie Andersen (29 de março – 26 de Junho) e da própria Mariko Mori (17 de Abril – 17 de Julho). O gerente de programação do CCBB, Francisco Raposo, arrisca outras conjecturas. Para ele, parte do sucesso se deve ao fato das três exposições conterem “peças interativas e entrada franca”.
Em parte explicações, em parte apostas. Gratuidade, muito embora um elemento importante, deveria ser entendido mais como ferramenta de indução do que premissa para o acesso. Sim, há técnica na realização de curadoria de arte, assim como há técnica para realização de uma temporada de música clássica, e em nenhum dos casos reconheço a “interatividade” como um critério positivo per se – ou as exposições de jogos de video-game seriam um sucesso.
O mercado de artes do Brasil passa por um momento vertiginoso, com artistas em enorme demanda, marchands em concorrência aberta, público ávido e crescente. De qualquer forma, o que ninguém conseguiria mensurar é a excepcionalidade de “O Mundo Mágico de Escher” e seu apelo ao público. Na linha fina, logo abaixo da manchete, “The Arts Newspaper” vai ao ponto: “Escher realiza sua mágica no Rio”. A exposição, definitivamente, foi fora da curva, com a reunião de mais de noventa obras originais e praticamente todos os trabalhos mais conhecidos de um gênio maior. O jornal não poderia deixar passar; com a ajuda de alguns mestres, é mais fácil fazer golaços.
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Ninguém está a salvo
Data do post: 17 de novembro de 2011

Nem mesmo Frank Miller, o sujeito que nos deu O Cavaleiro das Trevas e Os 300 de Esparta, principalmente depois das seguintes declarações sobre o movimento “Ocupem Wall Street”:
Everybody’s been too damn polite about this nonsense:
The “Occupy” movement, whether displaying itself on Wall Street or in the streets of Oakland (which has, with unspeakable cowardice, embraced it) is anything but an exercise of our blessed First Amendment. “Occupy” is nothing but a pack of louts, thieves, and rapists, an unruly mob, fed by Woodstock-era nostalgia and putrid false righteousness. These clowns can do nothing but harm America.
“Occupy” is nothing short of a clumsy, poorly-expressed attempt at anarchy, to the extent that the “movement” – HAH! Some “movement”, except if the word “bowel” is attached – is anything more than an ugly fashion statement by a bunch of iPhone, iPad wielding spoiled brats who should stop getting in the way of working people and find jobs for themselves.
This is no popular uprising. This is garbage. And goodness knows they’re spewing their garbage – both politically and physically – every which way they can find.
Wake up, pond scum. America is at war against a ruthless enemy.
Maybe, between bouts of self-pity and all the other tasty tidbits of narcissism you’ve been served up in your sheltered, comfy little worlds, you’ve heard terms like al-Qaeda and Islamicism.
And this enemy of mine — not of yours, apparently – must be getting a dark chuckle, if not an outright horselaugh – out of your vain, childish, self-destructive spectacle.
In the name of decency, go home to your parents, you losers. Go back to your mommas’ basements and play with your Lords Of Warcraft.
Or better yet, enlist for the real thing. Maybe our military could whip some of you into shape.
They might not let you babies keep your iPhones, though. Try to soldier on.
Schmucks.
FM
E não é que ele está falando a verdade que todos sabem, mas têm medo de dizer?
Pois bem: só por causa dessa declaração, Frank Miller foi escorraçado pela maioria dos seus pares e boa parte da grande mídia americana tenta renegá-lo, jogando-o na vala do esquecimento.
Conseguirão?
Pouco provável: Miller é um dos poucos em seu meio que pode ser chamado de “titã” e, por isso mesmo, tem a capacidade de expressar suas opiniões de forma independente, sem se importar com o politicamente correto que impera nos meios artísticos ocidentais.
O problema é outro: como contra-argumento, os opositores de Miller usam a imagem acima como contestação de seus argumentos, indignados, como se o homem que escreveu a cena acima não pudesse compreender o que está realmente em jogo em um movimento que supostamente seria contra o poder estabelecido.
Isso sim é o jogo sujo: tentam forçar uma ideologia em algo que jamais teve essa intenção, manipulando suas verdadeiras aspirações.
A cena mostra que, de fato, há uma coerência entre o Miller de vinte anos atrás e o Miller de agora. Ambos sempre foram contra o poder – a missão primordial de qualquer artista que se preze, em qualquer meio que atue.
E o “Ocupem Wall Street”, assim como qualquer movimento político que tenha mais de quatro pessoas organizadas, é justamente um elogio do poder.
Foi isto que Miller compreendeu como poucos e que agora a grande mídia tenta abafar.
Ainda assim, ah de quem for contra o rebanho! Será posto no ostracismo e chegará ao ponto de sequer ser convidado nem para a quermesse da igreja do bairro.
Como diria W.H. Auden:
Fight back, then, with such courage as you have
And every unchilvarous dodge you know of,
Clear in your conscience on this:
Their cause, if they had one, is nothing to them now;
They hate for hate´s sake
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Google Art
Data do post: 18 de fevereiro de 2011
Mais um benefício da revolução que é a Internet. O Google tem agora um site que permite acessar o acervo de grandes museus ao redor do mundo com imagens de alta resolução. Não exatamente substitui uma visita aos originais, mas ao menos dá um gostinho. Foi-se a era dos caros catálogos de museu?
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O Natal na Arte
Data do post: 22 de dezembro de 2010
A prova de que o Natal não precisa ser cafona. Já que nossa revista não tem (ainda) o cacife para mandar seus leitores à Europa, podemos ao menos apontar o dedo.
O Museo Nacional del Prado, de Madri, iniciou uma nova exposição de parte de seu acervo: quadros ligados à Natividade. Da Anunciação à Fuga ao Egito, do século XV ao XVIII. É só clicar na bolha com o tema, clicar no quadro particular e clicar mais uma vez no botão para expandir a imagem; a qualidade das fotos em geral está bem alta; dá-se zoom máximo sem borrar. Memling, El Greco – cuja Anunciação é um dos pontos mais altos de uma exposição cuja média já está nas alturas -, Fra Angelico; preparações para um Natal mais feliz do que exércitos de papais Noel tocando instrumentos de jazz.
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Exclusivo dos EUA – visita ao MOMA
Data do post: 29 de setembro de 2010
Uma viagem parte turística, parte médica, tem me mantido ocupado aqui nos EUA e um tanto distante deste site. Mas agora que as coisas acalmaram, e que a Dicta terá, por um mês, um correspondente exclusivo em Baltimore, MD (“the greatest city in America”; ou pelo menos é o que está escrito nos bancos públicos ao longo do cais), tenho tempo de sobra para compartilhar as vivências culturais e sociais do coração do império.
Quero começar pela minha incursão ao MoMA (não vá ser grosseiro a ponto de errar as maiúsculas e minúsculas!) em Nova Iorque. Sim, sim, lá estão grandes clássicos da arte moderna (o Noite Estrelada de Van Gogh é, merecidamente, o maior destaque da casa); peguei até uma mostra especial de Matisse.
Mas para quê perder tempo com história antiga? O melhor da festa é o andar de arte contemporânea. Já de entrada se é brindado com cenas de muito bom-gosto em franca discordância com a moralidade sexual catoburgopuritana e uma mini-mostra de quadros protesto das “Guerrilla Girls”, que vai chacoalhar todos os seus preconceitos de gênero e raça.
Já devidamente conscientizado, pude elevar minha experiência estética com a obra de um artista – quem diria -brasileiro: Cildo Meireles. Vejam só a obra-prima (“first time on view at the MoMA”) que me aguardava.
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Você é filisteu o bastante para ter achado que se trata apenas de um enorme bloco de feno? Think again…
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Por mim, passaria horas naquela sala. Contudo, o doce aroma do feno que aos poucos adentrava minhas narinas acabou tendo um efeito diurético, e logo mais era minha vez de ter preocupações políticas e filosóficas enquanto promovia uma mistura de substâncias. Cota periódica de arte contemporânea: preenchida.
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Arte Sacra Espanhola
Data do post: 30 de maio de 2010
Ficou exposto nesta primeira metade do ano, em Londres e depois em Washington, uma exposição de artistas sacros espanhóis dos século XVII. No site da National Gallery of Art, de Washington, o leitor da Dicta pode ver os destaques da exposição num tour virtual com explicações em inglês (é só clicar no Exibition Highlights, à direita).
O título da exposição, The Sacred Made Real, vai bem ao ponto: a arte sacra do fim do século de ouro espanhol é dotada de um realismo marcante, sem perder a simbologia e o poder de transportar para além da mera aparência sensível e nos remeter ao sobrenatural.
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Estaria a arte ficando bela?
Data do post: 14 de dezembro de 2009
É o que acha o colunista Alastair Sooke, comentando Richard Wright, o vencedor do último prêmio Turner (que costuma premiar as obras mais chocantes e transgressoras) e a safra artística recente. Teria a beleza voltado à arte depois de décadas de culto à transgressão e ao choque pelo choque?
James Bowman tem suas dúvidas. Não seria esse suposto novo amor pela beleza apenas mais um estratagema de chocar a audiência, agora que perversões sexuais, lixo e destruição não são mais capazes de fazê-lo? Continuamos, diz Bowman, no mesmo jogo superficial de modas artísticas; nada de valor duradouro sairá daí. Como é, de fato, o caso de Wright, cuja obra é uma pintura de parede com data para ser apagada…
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