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O drama das idéias

Arquivado em: Literatura incluído por Martim Vasques da Cunha
Data do post: 10 de março de 2010

Um romance não é apenas uma boa história – é também sobre uma idéia que nos perturba há muito tempo. Logo o catalogam de “romances de idéias”, mas é uma das coisas mais difíceis de serem feitas. Até mesmo Otto Maria Carpeaux, esse gigante que usava o papel de jornal para lançar seus pensamentos, não gostava muito do gênero – e, uma vez, atacou Thomas Mann justamente por isso, alegando que ele escrevia mais um ensaio do que propriamente um drama.

Rebecca Goldenstein, autora de um romance razoável sobre Kurt Gödel (Incompletude), discordaria disso. Em uma seleção de cinco melhores livros de idéias para o Wall Street Journal, apresentou uma lista impecável, que chega ao topo com um dos meus romances favoritos: Herzog, de Saul Bellow. Mas sobra espaço para o próprio Thomas Mann (que comparece com uma pérola que poucos conhecem, O Eleito), George Eliot e até mesmo a minha querida Iris Murdoch; talvez para a lista ficar verdadeiramente perfeita, eu acrescentaria O homem sem qualidades, de Robert Musil, Os sonâmbulos, de Hermann Broch, e qualquer romance de Dostoievski, seja os de menor ou de maior fôlego (respectivamente, Memórias do Subsolo e Os Demônios).

Tudo isso para fazer a seguinte pergunta: será que a literatura brasileira já fez algo parecido no gênero ou ela também sofre de esterilidade até mesmo nesse formato? Eis um drama para as gerações futuras pensarem.


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O bardo da entropia nacional

Arquivado em: Literatura incluído por Martim Vasques da Cunha
Data do post: 25 de fevereiro de 2010

Existem momentos na história brasileira que sequer passam pela cabeça de um historiador que deveriam ser analisados. São lacunas em nossa visão-de-mundo que ainda não percebemos e, quando isso acontecer, tenho a impressão de que será tarde demais. Para muitos, nossa história pára em 1964, quiçá em 1968. Desta data em diante não sabemos de mais nada; e conta-se nos dedos quantos estudiosos resolveram fazer uma  (boa) análise do período dos nossos últimos vinte anos – no caso, de 1989 até o presente momento.

A literatura pode suprir esta lacuna – não por ser um reflexo de anseios sociais, como supõem os acadêmicos calcados em seu padrão marxista, mas sim por ser a radiografia de crises muito mais profundas, crises que realmente importam ao indivíduo, crises que atingem as nossas perturbações mais sérias.

A tristeza é que, aparentemente, nem sequer tivemos essa literatura. Durante os últimos vinte anos, ficamos atrasados em relação a tudo o que importa no mundo das letras; enquanto a Itália tinha um Claudio Magris, nós nos encantávamos com Miltom Hatoum; enquanto os EUA têm um Thomas Pynchon, um Don DeLillo, um David Foster Wallace, um Russell Banks, preferimos paparicar Chico Buarque; quando a França apresentava um Jonathan Littell, com seu As Benevolentes, o consumado exemplo do escritor de talento globetrotter, resolvemos criar a Geração 90 e acreditar que escrever sobre favelados, prostitutas, jovens que escrevem em blogues, era tudo o que a literatura deveria ser; até de Portugal quisemos o exemplo errado a seguir – se Antonio Lobo Antunes ou um José Cardoso Pires lançava um novo romance, logo os jogávamos à sombra e alçávamos José Saramago nas alturas. Da América Latina é melhor nem comentar; colocamos as inquietações de um Vargas Llosa à serviço de um Garcia Márquez e sequer nos preocupamos em saber o que acontece na Argentina, no Chile e outros países que consideramos como vizinhos.

A literatura nacional ficou reduzida a uma falta de ambição intelectual e, sobretudo, a uma falta de humor que chega às raias do insuportável. Por humor entenda-se não aquele que provoca gargalhadas tolas, mas sim àquele que nos faz pensar a partir de um certo absurdo da condição humana. Não precisa nem rir; basta ver as coisas pelo seu avesso, algo que, atualmente, é impossível para qualquer brasileiro, pois, como diria Paulo Francis, “a ironia é uma espécie de segredo na pátria amada”. Leia mais…


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Salinger morreu

Arquivado em: Literatura incluído por Martim Vasques da Cunha
Data do post: 28 de janeiro de 2010

Pois é, meus amigos. O homem morreu, aos 91 anos, de causas naturais, segundo a sua família.

O que dizer?

Segundo um colega meu, era simplesmente o escritor mais perfeito em termos técnicos que já existiu.

Ouso dizer que ele também atingiu o sublime em termos emocionais. Ou alguém nega que não ficou emocionado com o final de “Franny & Zooey”?

Era também o autor de, pelo menos, cinco contos que deveriam constar em qualquer manual de como saber escrever. E, meus amigos, escrever um conto é uma das coisas mais díficeis do mundo.

Diziam que era paranóico, recluso, que gostava de garotinhas.

Nada disso mais importa.

O que importa agora é imaginá-lo ao lado da Senhora Gorda.

(Repararam que eu não citei The Catcher in the Rye de propósito?)

P.S. ATUALIZADO DEPOIS DE HORAS REVOLTADO COM OS OBITUÁRIOS E PENSATIVO SOBRE A FINITUDE DAS COISAS:

Tudo bem que, neste momento, para provarmos que somos mais salingerianos do que o próprio Salinger, achemos que O Apanhador é um livro menor.

Não é coisíssima nenhuma. Pode ser o seu mais famoso, mas não é um livro menor.

Na minha modesta opinião, O Apanhador tem o mesmo impacto na literatura americana que teve, por exemplo, O Estrangeiro, de Camus, na francesa.

Aliás, exceto pelo fato de que Holden não mata ninguém por causa do sol, os dois falam sobre o mesmo tema: o sujeito totalmente possuído pelas mentiras românticas que foram transmitidos, advinhem?, pelo mundo hipócrita dos adultos.

Se em Camus, Mersault termina no inferno, Salinger faz Holden atravessar a viagem própria de quem descobre que o mundo não é como nós queríamos. Ele passa pela metanóia da verdade romanesca.

(E se você não gosta que eu cite René Girard, go fuck a duck your phoney)

Por isso, O Apanhador não pode ser desprezado, nem pelos próprios fãs de Salinger. Se não fosse por este livro, como entenderíamos Seymour, Franny – e, claro, a revelação de que existe a Senhora Gorda?

O que nem os fãs entendem é que a obra de um grande escritor não pode ser vista a partir de dois ou três livros, e sim como um todo. E, no caso de Salinger, isso é mais do que necessário pois tenho a impressão que ele disse o que tinha de dizer nesses quatro livrinhos de quase duzentas páginas cada um.

E o resto é silêncio, etc. e tal.


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Quando eu posso usar o ponto-e-vírgula?*

Arquivado em: Literatura incluído por Martim Vasques da Cunha
Data do post: 27 de janeiro de 2010
500x_semicolon

* Sim, aqui não aceitamos o novo acordo ortográfico (pois, entre outros motivos, mal sei escrever no antigo). E, ah, claro, igual ao Heidegger, também adoramos usar os hífens.


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T. S. Eliot lê “Journey of the Magi”

Arquivado em: Literatura incluído por Joel Pinheiro
Data do post: 6 de janeiro de 2010
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Preciso explicar algo mais? Ouça no Youtube.

Journey of the Magi

.

A cold coming we had of it,
Just the worst time of the year
For a journey, and such a long journey:
The ways deep and the weather sharp,
The very dead of winter.
And the camels galled, sore-footed, refractory,
Lying down in the melting snow.
There were times when we regretted
The summer palaces on slopes, the terraces,
And the silken girls bringing sherbet.
Then the camel men cursing and grumbling
And running away, and wanting their liquor and women,
And the night-fires going out, and the lack of shelters,
And the cities hostile and the towns unfriendly
And the villages dirty and charging high prices:
A hard time we had of it.
At the end we preferred to travel all night,
Sleeping in snatches,
With the voices singing in our ears, saying
That this was all folly.

Then at dawn we came down to a temperate valley,
Wet, below the snow line, smelling of vegetation;
With a running stream and a water mill beating the darkness,
And three trees on the low sky,
And an old white horse galloped away in the meadow.
Then we came to a tavern with vine-leaves over the lintel,
Six hands at an open door dicing for pieces of silver,
And feet kicking the empty wineskins.
But there was no information, and so we continued
And arrived at evening, not a moment too soon
Finding the place; it was (you may say) satisfactory.

All this was a long time ago, I remember,
And I would do it again, but set down
This set down
This: were we led all that way for
Birth or Death? There was a Birth, certainly,
We had evidence and no doubt. I had seen birth and death,
But had thought they were different; this Birth was
Hard and bitter agony for us, like Death, our death.
We returned to our places, these Kingdoms,
But no longer at ease here, in the old dispensation,
With an alien people clutching their gods.
I should be glad of another death.

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Catulo no Banco dos Réus

Arquivado em: Educação, Literatura incluído por Rodrigo Duarte Garcia
Data do post: 27 de novembro de 2009
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A essa altura, todos provavelmente já ficaram sabendo da história do milionário inglês processado por mandar a certa funcionária um verso de Catulo lá não muito casto.  Perguntado por ela qual seria uma boa tradução para diligite inimicos vestros, ele respondeu de bate-pronto com o primeiro e também último verso do Poema 16: pedicabo ego vos et irrumabo.

Deixo a tradução de lado - não sei se há crianças na sala – para pensar em um aspecto secundário, mas que sei deixará ao menos o Júlio Lemos vingado, diante das tantas vezes em que teve de explicar sua opção por um doutorado em Direito Romano.

Aparentemente, a defesa do sujeito limitou-se a alegar que o verso de mais de 2.000 anos era apenas witty, sem maiores extensões. Este texto do Times mostra a verdadeira interpretação do Poema 16: a de que não se pode julgar a vida de um poeta por suas obras (para inverter um pouquinho as últimas polêmicas aqui no site). Catulo era acusado por seus inimigos de ser efeminado - por conta de alguns versos lá não muito másculos -, de maneira que fez o Poema 16 começar e terminar com uma obscenidade, justamente para demonstrar a irracionalidade de se tomar todo e qualquer verso como autobiográfico. Ou seja, levou às últimas consequências um argumento para demonstrar a sua impropriedade.

Se os advogados de Mike Lowe soubessem disso, talvez ele tivesse maiores chances no tribunal. De modo que até os pragmáticos de sempre terão de dar o braço a torcer: o motivo é incontestável para que os alunos do curso de Direito tenham uma formação clássica e, sim, leiam Catulo.

BTW, ótima oportunidade para ler de novo este texto do Érico Nogueira sobre o poeta.


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O nosso cowboy favorito

Arquivado em: Literatura incluído por Martim Vasques da Cunha
Data do post: 17 de novembro de 2009

[                    cormac1112                ]

Lo and behold a spoudaios! (Ou: Eu quero ser esse homem quando crescer.)

Cormac McCarthy não gosta muito de entrevistas, mas quando as dá nota-se que deve ser uma conversa estimulante. Vejam, por exemplo, essa longa entrevista ao Wall Street Journal, realizada devido ao lançamento do filme The Road, baseado em seu romance vencedor do Pulitzer de 2008. Alguém imagina um escritor (vamos supor, um brasileiro?) respondendo dessa maneira brilhante não só uma vez, mas três vezes seguidas?
WSJ: How does the notion of aging and death affect the work you do? Has it become more urgent?

CM: Your future gets shorter and you recognize that. In recent years, I have had no desire to do anything but work and be with [son] John. I hear people talking about going on a vacation or something and I think, what is that about? I have no desire to go on a trip. My perfect day is sitting in a room with some blank paper. That’s heaven. That’s gold and anything else is just a waste of time.

WSJ: How does that ticking clock affect your work? Does it make you want to write more shorter pieces, or to cap things with a large, all-encompassing work?

CM: I’m not interested in writing short stories. Anything that doesn’t take years of your life and drive you to suicide hardly seems worth doing.

WSJ: The last five years have seemed very productive for you. Have there been fallow periods in your writing?

CM: I don’t think there’s any rich period or fallow period. That’s just a perception you get from what’s published. Your busiest day might be watching some ants carrying bread crumbs. Someone asked Flannery O’Connor why she wrote, and she said, “Because I was good at it.” And I think that’s the right answer. If you’re good at something it’s very hard not to do it. In talking to older people who’ve had good lives, inevitably half of them will say, “The most significant thing in my life is that I’ve been extraordinarily lucky.” And when you hear that you know you’re hearing the truth. It doesn’t diminish their talent or industry. You can have all that and fail.


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Apontamentos sobre a literatura brasileira e o romance policial

Arquivado em: Literatura incluído por Martim Vasques da Cunha
Data do post: 6 de novembro de 2009

Calma, leitores, calma. Desta vez não farei o esperado: falar mal da literatura nacional. Sei que posso me tornar um clichê ambulante, mas prefiro ser uma contradição ambulante – e olha que só com esse trocadilho infame posso citar o Raul Seixas, o que seria uma surpresa para muitos e um anátema para outros.

(Obviamente, não farei isso. Há um limite para tudo.)

O motivo de escrever sobre nossa literatura contemporânea vem deste post do Sérgio Rodrigues, do Todo Prosa, um dos dois sujeitos sérios quando se trata da recente crítica literária (o outro é Michel Laub, com seu blog divertidíssimo). Sérgio pergunta-se da incapacidade do escritor brasileiro em criar uma tradição de literatura policial, algo tão comum em outros países, até mesmo na fria e perfeita Suécia. Há uma inclinação para a possível resposta de que o escritor brasileiro – esta espécie em abstrato que quase entrará em extinção – não compreende adequadamente as suas desigualdades sociais e políticas. Diria que é mais: o que falta ao escritor é a noção de uma perspectiva metafísica – para ser mais exato, a ausência do que seria o Mal.

Explico-me: o tema do romance policial é o Mal, com M maíusculo mesmo. Raymond Chandler (aliás, tema de um ensaio brilhante de Rodrigo Duarte Garcia a ser publicado na Dicta&Contradicta 4, em dezembro) já afirmava que o que está em jogo em uma investigação é sempre um elemento de redenção, a possibilidade de que o detetive particular coloque um pouco de ordem neste mundo através de sua visão cínica, porém sutilmente virtuosa, do ser humano. Sem isso, o romance policial carece de tensão – aliás, elemento muito ausente nas tentativas nacionais, que se preocupam mais com as regras do jogo e com a estrutura policialesca do que com a substância humana em si.

Um exemplo que não vem do Brasil, mas que serve como prova de competência de um escritor estrangeiro no assunto: o novo romance de Thomas Pynchon, Inherent Vice (também assunto de outro texto que será publicado na Dicta 4, de autoria de Luiz Felipe Amaral). É uma homenagem à linha hard-boiled, inclusive com referências diretas ao estilo de Chandler e Hammett. Mas o detetive particular, Doc Sportello, é um sujeito que está mais para o Dude do Big Lebowski, pois fuma mais marijuana do que propriamente investiga o seu caso. Além disso, Pynchon tira sarro explícito de outras convenções, como a trama intricada (bem, em relação a Pynchon, isso é uma vitória, já que ele nunca se preocupou com tramas em seus livros gigantescos), a femme fatale, o magnata corrupto, etc. Contudo, ainda assim, trata-se de um romance policial: a precisão do estilo (e que estilo! Há sempre uma frase engraçada esculpida com aquela graça pynchoniana em cada um de seus parágrafos), o ritmo da trama e, sobretudo, a noção de ameaça que surgirá a qualquer momento provam isso a cada linha.

É justamente essa noção de um Mal que permeia as coisas que falta não só no nosso romance policial, mas em toda a nossa literatura contemporânea. O que tínhamos com Machado, Guimarães Rosa, Osman Lins, Lúcio Cardoso, Cornélio Penna, perdeu-se em algum lugar que desconhecemos. Ainda assim, temos algumas esperanças; vejam, por exemplo, esta entrevista de Raimundo Carrero, dada ao jornal curitibano Rascunho – é uma forma digna de recuperar justamente a perspectiva metafísica de que falo a respeito. E, ao mesmo tempo, leiam a entrevista de Bernardo Ajzenberg, que, apesar de não citar a tal “metafísica”, apresenta-a sob o disfarce de uma humildade a respeito da literatura que chega a ser tocante.

Temos que recuperar a sensação de uma ameaça constante em nossas vidas. Só assim teremos uma verdadeira literatura – seja policial, seja de qualquer outro gênero. E, para isso, sempre podemos contar com um Rubem Fonseca que, se não tem mais o talento de antigamente, consegue ainda fazer um vídeo divertido, ao anunciar o lançamento de seu O Seminarista.


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Cambalhotas no ar

Arquivado em: Literatura incluído por Guilherme Malzoni Rabello
Data do post: 3 de novembro de 2009
William Harvey - Circulação sangüínea - in Opera Omnia, 1628
William Harvey - Circulação sangüínea - in Opera Omnia, 1628

É pessoal, a coisa está corrida por aqui. O verão já chegou a São Paulo, mas pelo que soube a última vez que um editor da Dicta dormiu ainda era inverno. Boas notícias, boas notícias para nós que vamos apenas ler o próximo número da revista. Dei uma passadinha na cozinha agora há pouco e a Dicta 4 já estava bem cheirosa. Quando saí de lá o chef estava preparando a pimenta e o fermento… espero que ele não exagere.

Enquanto isso, a turma resolveu botar a boca no mundo e adiantar um aperitivo do que sairá na próxima edição. Pelo menos foi isso que eu entendi pela coluna do nosso amigo Érico Nogueira, no Terra:

Seu texto mais célebre, Uma carta, – a epístola de um suposto lorde Chandos ao filósofo Francis Bacon – foi escrito em 1902 e logo foi considerado como literalmente emblemático da crise da modernidade, que o poeta sabiamente traduziu, aliás, numa crise de linguagem. Há traduções portuguesas desse texto. Quem o quiser ler, contudo, não precisa encomendar o livro: basta comprar a próxima edição da Dicta & Contradita, prevista para dezembro, e conferi-lo em tradução de minha autoria.

O trecho, como vocês podem ler no link acima, fala sobre um conto de Hugo von Hofmannsthal. Ainda não dá para comprar, mas eu garanto que a espera valerá a pena: a tradução do Érico está absolutamente primorosa… e essa é apenas uma das que ele fez para o próximo número (ops… escapou!).

Mas até lá não deixaremos vocês de lado. Fiquem atentos porque estamos preparando poucas e boas para este site. A primeira, mas certamente não a última, será uma enxurrada de textos da Dicta 3. Já cansamos de prometer e não cumprir: o espírito tedesco baixou em mim e disse ao editor que queria ver todos os textos liberados até o fim dessa semana. E a festa continua…


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Como se curar de um derrame

Arquivado em: Literatura incluído por Martim Vasques da Cunha
Data do post: 20 de outubro de 2009
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Richard Fernandez, do blog Belmont Club, conta a singela história do Dr. Martin Stephen, que, um belo dia (desculpem-me pela ironia a priori deste parêntesis), teve um derrame que o paralisou quase por completo, obviamente teve de ir a um hospital, mas, depois de muito meditar, chegou à seguinte conclusão de que a melhor forma de recuperação era justamente sair do hospital e, com o tempo a urgir, seguir a infalível receita de sua sogra, que, por motivos que só o destino pode nos decifrar, tinha passado pela mesma situação anos atrás, quando seu esposo, no caso o sogro do Dr. Martin Stephen, sofreu o mesmo destino e curou-se de seu problema usando de apenas 05 atividades que estimularam de maneira satisfatória o seu cérebro; assim, foi feito o mesmo procedimento com o Dr. Stephen, que, milagre dos milagres, curou-se também e aí está bem vivo para contar a sua história, que, claro, pode ser resumido nos cinco alentados pontos, que, da forma como o leitor deve estar em desespero para saber (i.e. prestes a ter um derrame), exponho-os na seguinte ordem – e na língua inglesa para o que nosso leitor monoglota use um dos hemisférios do cérebro e pare de depender do Google Translator:

1 Bounced a tennis ball 2,000 times against a wall (missed catches didn’t count)
2 Wrote out the alphabet, one line per letter, for two hours
3 Recited the poems of Andrew Marvell for two hours with a cork between his teeth
4 Marched up and down the stripes on the lawn for two hours, without touching where the stripes met
5 Played the F15 flight simulator game for two hours

O Dr. Stephen afirma que foi o vídeogame que deu a reviravolta final em suas faculdades motoras, mas, da minha parte, acredito piamente que foi a leitura dos poemas de Andrew Marvell com uma rolha na boca; afinal, imagine você com um AVC gravissímo, tentando recitar em voz alta o seguinte trecho:

No white nor red was ever seen
So amorous as this lovely green;
Fond lovers, cruel as their flame,
Cut in these trees their mistress’ name.
Little, alas, they know or heed,
How far these beauties hers exceed!
Fair trees! wheresoe’er your barks I wound
No name shall but your own be found.

A pergunta que me faço depois de ler esta edificante história: será que ler Cruz e Sousa usando o mesmo método teria surtido o mesmo efeito?


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