A literatura como salvação
Data do post: 30 de agosto de 2010

E, de novo, lá vamos nós.
Para onde? Para o mundo maravilhoso das esperanças antecipadas do universo literário.
A bola da vez agora é Jonathan Franzen, o autor de As Correções, que, junto com As Benevolentes, do também xará Jonathan Littell, salvaram a literatura do esquecimento completo nesta primeira década dos anos 2000.
Franzen lança esta semana nos EUA seu novo romance, Freedom. É um outro catatau que nem li, mas me parece que já gostei. As Correções era um livro invulgar porque era capaz de misturar William Gaddis, C.S. Lewis, crítica social, inquietação existencial, sem se perder nos maneirismos de estilo e, sobretudo, sem deixar que o leitor parasse de se preocupar com seus personagens idiossincráticos.
Parece-me que Freedom vai pelo mesmo caminho, mas desta vez coloca, no seu quadro de referências, Tolstói com uma pitada de Richard Yates. Uma espécie de Guerra e Paz em versão suburbana WASP.
O problema é que a crítica já entoou em unanimidade que Jonathan Franzen é o Grande Romancista Americano (como apontou a Time em uma reportagem de capa).
Não é. Querem um exemplo? Seu longo ensaio sobre William Gaddis pode ser divertido, mas é extremamente equivocado ao tratar da obra deste que foi o pai de todos os Pynchons, todos os DeLillos, todos os David Foster Wallaces e, claro, de todos os Franzens.
Mas por que a crítica entra na vertigem do hype? Por que querem logo eleger alguém como a salvação da literatura?
Suponho que o motivo é que as pessoas – mesmos os críticos, estes sujeitos sem coração – querem a própria salvação a qualquer custo – e a literatura pode fazer isso em um piscar de olhos. Basta o leitor querer.
Contudo, como todos nós sabemos, nem isso a literatura pode fazer. Afinal de contas, a vida se encarrega de nos avisar direitinho do nosso lugar no mundo. De preferência, no último lugar da fila ou na pior carteira da sala de aula.
Jonathan Franzen pode ser um escritor talentoso. Disso não tenho dúvidas. Mas não poderá nunca nos dizer como sair da enrascada em que nos metemos e que damos o apelido de “nossa vida”.
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De viagens e promessas não cumpridas
Data do post: 21 de agosto de 2010

Há alguns meses prometi aqui e aqui que faria uma série de crônicas sobre uma viagem que fiz à Itália no fim do ano passado. Foram dois posts, o que tecnicamente é suficiente para definir uma série, mas a verdade é que não cumpri essa foi uma promessa não cumprida.
Como sempre, obviamente tenho duas dúzias de desculpas e mais de uma delas envolve a dedicação – silenciosa, por enquanto – ao IFE e à Dicta. Mas desculpas continuam sendo desculpas: não resolvem o problema e abusam da paciência de quem não tem por que se preocupar com elas.
Mas se não posso mais voltar atrás, tenho ao menos mais um texto a oferecer: depois de escrever aqueles dois posts fui convidado a fazer algo parecido para uma revista chamada Itália em São Paulo. O que vai abaixo foi publicado por lá em junho deste ano. E espero poder compensar essa falha injustificável com bons resultados nas várias Dictas e otras cositas mas que estão por vir. E, para a sorte de vocês, nestes casos os outros responsáveis são muito melhores que eu.
*****
Num dos mais famosos versos da poesia latina, dizia Horácio que caelum non animum mutant qui trans mare currunt. “Mudam de ares, mas não de ânimo, os que cruzam os mares”. Amante dos prazeres da vida como era, só pode existir uma razão para ter dito uma coisa como essa: ele vivia na Itália. Para nós que estamos longe, só nos resta arrumar as malas e cruzar estes mares com a certeza de que muito, muito em nós pode mudar nessa viagem.
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Sir Frank Kermode RIP
Data do post: 19 de agosto de 2010

Enquanto as pessoas defendem a mesquita no Ground Zero e me chamam de imbecil, vamos sacudir um pouco a poeira e prestar homenagem a este grande crítico literário falecido ontem e que sabia de cor e salteado Shakespeare, John Milton, William Blake e T.S.Eliot.
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As almas que se quebram no chão
Data do post: 17 de agosto de 2010

Paulo Francis dizia descaradamente que o jornalismo só valia a pena para prestigiar os amigos e fazer novos inimigos a cada dia que passa. Já faço a segunda opção há dez anos – e os meus leitores devotos de Christopher Hitchens estão aí para provar isso – e neste post farei a primeira sem hesitar.
O romance As almas que se quebram no chão, de Karleno Bocarro, é, para mim, um marco, tanto na história pessoal do próprio autor como no momento em que se encontra a literatura de nosso país. Karleno é, de fato, um amigo meu, mas antes foi um leitor atento dos meus primeiros ensaios em O Indivíduo. Quando veio a São Paulo, mostrou-me os originais de seu romance e confesso que, naquele dia, o meu humor não estava lá muito bom porque disse brutalmente – e este é um dos meus defeitos que a idade não curará – que o livro tinha problemas sérios. Geralmente, quando digo isso do texto de alguém, é certo que o autor ficará nervoso e ambos (eu e o autor) começaremos a brigar para preservarmos o ego de cada um, sem nos preocuparmos com as imagens das respectivas mães.
Mas Karleno não fez nada disso. De forma surpreendente, ele me ouviu – e reescreveu o livro.
Se ele fez o certo? Poderia dar uma de falso humilde e dizer que não. Afinal, quem sou eu para ser ouvido? Mas, por algum mistério que certamente só pode vir do talento e da obstinação deste escritor, o romance ficou mil vezes melhor – e posso dizer, sem nenhum medo, que é o livro que a geração da década de 90 gostaria de ter feito e que nunca conseguiu. Depois de anos de marasmo, este é a primeira amostra que, após o desaparecimento de Osman Lins, podemos ainda fazer o grande romance brasileiro contemporâneo.
Sim, eu vi o processo de parto do livro – e talvez seja por isso que posso dizer de suas qualidades. As almas que se quebram no chão é um romance que não tem nada de favelado e nada de pobretão injustiçado. Trata, isto sim, de pobretões em Berlim que querem viver às custas do Estado. E, por incrível que pareça, As almas mostra a descida épica de uma juventude que escolheu a decadência como forma de expressão existencial e que, obviamente, só poderia dar com os burros n´àgua.
Não é um livro fácil. É pesado, é sombrio. Lembro-me que, enquanto lia seus originais reescritos, tive de parar por uns três meses porque a atmosfera me oprimia. Mas é um livro muito bem narrado, com diálogos que soam naturais, com um ritmo bem calculado, que exaspera a sensibilidade do leitor. Ora, não é isso que todos nós esperávamos de um romance nacional – aquela aura da arte com A maísculo e que cospe na nossa cara o quão idiotas somos? Pois bem: Karleno Bocarro conseguiu fazer isso – e se vocês acham que estou exagerando e que eu deveria elogiar o Bernardo Carvalho ou o Joca Reiners Terron, que vão plantar batata, seus leitores de meia-tigela.
Karleno – que foi batizado assim porque o pai idolatrava Karl Marx, vejam só! – pode até não ter a Cia. das Letras ao seu lado, nem ir à Flip. Mas garanto que uma obra promissora foi descoberta e sugiro aos poucos leitores que ainda sabem ler um livro, aqueles que simplesmente fecham a página de um livro e vão tocar as suas vidas, que conheçam este romance e redescubram o que é a literatura brasileira.
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Les lettres libres ?
Data do post: 3 de agosto de 2010

E o mundo das letras está em polvorosa.
Os motivos são vários: agora, temos a FLIP, que, por mais que me critiquem, continuo a achar que é uma amostra de esquizofrenia literária (e pelo menos tenho o Marcelo Mirisola ao meu lado neste tópico…), e, desde ontem, finalmente o Prêmio São Paulo de Literatura resolveu premiar um autor que trilhava um caminho solitário e pouco reconhecido – Raimundo Carrero.
Mas na semana passada, seja no Brasil ou no mundo, quem deu o que falar foi o agente Andrew Wylie, apelidado carinhosamente entre seus pares de “O Chacal”.
Wylie tem, em sua carteira de clientes, escritores como Philip Roth, Martin Amis e o espólio de Vladimir Nabokov - enfim, la créme de la créme da língua inglesa. E resolveu fazer o seguinte: criou um selo editorial chamado Odyssey que disponiblizará, sem o intermédio de qualquer editora, à Amazon (via Kindle) os textos de seus clientes, sejam os inéditos ou os já publicados.
Isso foi o que Wylie fez lá fora. Agora, vamos ao que ele fez aqui dentro.
Wylie é um dos intermediários do acordo Penguin-Companhia das Letras que, se der tudo certo, será o responsável por uma revolução (ou um impasse, dependendo de quem olha o evento) peculiar no mercado editorial brasileiro. Foi ele quem apresentou Luiz Schwarcz, da editora brasileira, a John Makinson, da editora inglesa, de acordo com as informações divulgadas pela Folha de São Paulo no dia 24 de julho deste ano (a matéria é só para assinantes).
É uma joint venture que deve abrir os olhos dos publishers. Mais uma vez, a Companhia das Letras muda o eixo do mercado. Podemos reclamar da escolha de seu catálogo – em especial, na área de Humanidades, excessivamente uspiana -, mas não se pode negar que a editora de Luiz Schwarcz estabeleceu um padrão muito alto para a qualidade estética e artística de um livro no Brasil.
A união com a Penguin repete a qualidade- e também segue os padrões internacionais das clássicas publicações inglesas.
E talvez esta seja a principal pedra no sapato.
Se formos iniciar uma série de perguntas a lá Don Draper, a primeira que faço ao leitor é a seguinte: Por que compramos livros da Penguin?
Porque são baratos. Porque são fáceis de transportar. Porque são bem-cuidados. Porque se um deles estragar não terei pena e comprarei um outro exemplar. Enfim, uma infinidade de causas.
Que se resumem a uma só: porque são leves.
Ora, os livros da Penguin-Companhia, por algum motivo que só a gráfica Suzano conhece, são pesados. Não posso levá-los na mochila todos de uma vez. E se eu dobrar um pouco mais a lombada – e devo lembrá-los que o mundo se dividide entre aqueles que quebram os livros na lombada e aqueles que não quebram a lombada, como diria Nelson Ascher -, chorarei sem misericórdia. Além disso, me dá a sensação de ser um fetiche, algo que a Penguin sempre evitou ser (é uma das editoras mais práticas do mundo), mas que é a marca registrada da Companhia das Letras (depois imitada pela Cosac Naify e outras).
Contudo, temos de analisar os livros pelo o que são – o seu conteúdo.
A primeira leva da coleção é seguinte: O princípe, de Maquiavel, com uma nova tradução (a cargo de Maurício Dias Santana, que fez um belo trabalho com o romance Às cegas, de Claudio Magris) e um prefácio de Fernando Henrique Cardoso; Joaquim Nabuco Essencial, uma coletânea de textos do grande estadista brasileiro organizada por Evaldo Cabral de Mello; Pelos olhos de Maisie, a obra-prima de Henry James que, anos depois, Ian McEwan resolveu reescrever sob o nome de Reparação, em uma tradução revista de Paulo Henriques Britto; e O Brasil Holandês, que é anunciada como uma coletânea de textos históricos deste período sobre o qual poucos sabem, mas que na verdade trata-se de um livro primoroso escrito por Evaldo Cabral de Mello.
A nova tradução de O princípe é um exemplo do grande erro da Companhia das Letras: o excessivo apreço pelas coisas da USP. O detalhe mais evidente é o fato de que cada capítulo é anunciado em latim, com sua respectiva tradução em uma nota de rodapé. Um beletrismo que não chega a lugar nenhum. Sobre o prefácio de Fernando Henrique, só se pode dizer uma coisa: é o mais do mesmo, com sua ladainha pseudo-weberiana, e aquela retórica social-democrática que, depois do seu sequestro pelo PT, só engana intelectual brasileiro.
Já a coletânea sobre Joaquim Nabuco só peca por algo que o próprio organizador admite logo na introdução: não dá importância à conversão religiosa que Nabuco teve na meia-idade e que foi responsável por um dos seus livros mais bonitos – Foi Volue (Minha Fé). Ou seja, tiraram a única coisa essencial em um livro que tem no título a intenção de ser o essencial de seu autor. De resto, estão lá as melhores passagens de O abolicionismo, Balmaceda, Um estadista no império e de seus discursos parlamentares.
Os melhores livros da coleção são Pelos olhos de Maisie e O Brasil Colonial. O primeiro volta com uma reedição bem cuidada e com uma introdução de Christopher Ricks, além de acrescentar o ensaio de Henry James sobre a confecção do romance, publicado como um dos prefácios da famosa edição de New York de suas obras. Já o segundo é um primor de reconstituição histórica e uma delícia de leitura, com Evaldo Cabral de Mello sendo o nosso Virgílio pela lendária época de Maurício de Nassau.
Bem, o leitor se perguntará, o que há de tão importante nisso tudo? Não seria mais um caso de much ado about nothing?
Um ledo engano, caro amigo: a “revolução” que a joint venture Penguin-Companhia provoca no mercado editorial atinge aquilo que é mais importante em qualquer relação custo-benefício – o preço.
Um dos termos do acordo entre as duas editoras é que o preço de qualquer livro que seja publicado dentro da coleção não pode ultrapassar o valor de R$ 35,00.
No início, com seis ou sete livros, isso pode parecer uma exceção. Quando chegarem a cem livros, a diferença começará a ser notada.
No Brasil, o livro custa caro porque custa caro produzi-lo. E o aumento deste custo se deve ao fato de que não temos um mercado editorial propriamente dito. O centro estratégico se localiza nas chamadas grandes editoras: Record, Companhia e Ediouro. As outras, como Cosac, Nova Fronteira, Rocco, Objetiva, são consideradas de médio porte. E existem as independentes, que lutam para sobreviver no bom e velho esquema de guerrilha (o nosso querido IFE é um exemplo disso).
Em nenhum destes setores existe a cultura do livro de fácil divulgação, conhecido na língua inglesa como paperback. Os chamados livros de bolso começaram há pouco tempo, mas seus preços não são convidativos. Portanto, o que o acordo Penguin-Companhia faz é ver qual é a possibilidade de libertar o mercado editorial de uma série de preceitos errados – como, por exemplo, o de que o brasileiro não lê e o de que intelectual paulistano sabe tudo - e, junto com o preço, aumentar o seu catálogo de obras e autores.
E aqui está o xis da questão – e o dilema apresentado por esta revolução: o catálogo da Penguin tem, entre outros, os poemas completos de John Milton, John Donne, John Dryden, George Herbert, Geoffrey Hill, John Keats e Robert Browning – isso só para ficar em autores que tiveram apenas fragmentos de suas obras publicadas no Brasil.
Existe alguém no Brasil capaz de traduzir e editar com rigor todos esses autores? Refazendo a pergunta: Será que as editoras buscam os profissionais certos para tal empreitada?
Receio que não. Anos e anos de doutrinação gramsciana, corrupção concretina e epigonismo filosófico impediram de criar uma elite literária que saiba escolher os próprios livros que querem ler. E quando isso está incrustrado de tal forma na cultura de um país, não há preço que resolva o problema. Porque, afinal de contas, para a literatura de uma nação ser considerada livre, devemos saber, antes de tudo, que a liberdade é uma coisa a ser conquistada e não simplesmente comprada.
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Curso – Dom Quixote: A Loucura da Ciência Política
Data do post: 2 de agosto de 2010
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Nas livrarias no dia 30/07
Data do post: 24 de julho de 2010

Após quase uma década esgotado nas prateleiras das livrarias e de um trabalho meticuloso de três anos, As horas de Katharina será finalmente relançado no dia 30 de julho, e desta vez com um brinde: a peça inédita A andorinha ou: a cilada de Deus, que Bruno Tolentino deixou pronta meses antes de sua morte, ao 66 anos. Você já pode encomendar o seu exemplar aqui e depois se deleitar com a introdução de Alcir Pécora, com o rigor de Juliana P. Perez nos comentários, com as notas de variação de Jessé de Almeida Primo e ficar hipnotizado com a capa de Cláudio Pastro. E, claro, aguardem em breve mais novidades sobre o lançamento.
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Out of her secret Paradise?
Data do post: 23 de julho de 2010
Pegando carona na recente discussão sobre os famosos baús de Kafka e a briga pela divulgação do seu conteúdo, Michael Rosen escreve hoje no Guardian sobre o poema inédito de Shelley, Poetical Essay, descoberto em 2006 e que permanece sem publicação até agora, por escolha pessoal do dono do manuscrito.
Rosen reclama daquilo que entende ser um verdadeiro absurdo: o direito de propriedade deveria atingir apenas o papel em si, mas jamais o poema. Levado o raciocínio às últimas consequências, eu só poderia ter um quadro de, sei lá, Matisse, se divulgasse reproduções acessíveis ao público?
A questão é: o meu direito de propriedade vale mais do que a possibilidade de desfalcar os Complete Works de um grande poeta? Opiniões?
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Um dos livros do ano
Data do post: 15 de julho de 2010

Mais informações aqui.
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I Write Like
Muitos já devem ter visto, mas este negócio do I Write Like é bem divertido. Funciona assim: você insere uma amostra de qualquer texto e o site automaticamente analisa o seu estilo e o compara ao de algum escritor famoso – de Nabokov a Stephen King. Infelizmente, por enquanto é só em inglês mesmo.
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