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A festa da reflexão irresponsável

Filed under: Geral,Literatura,Sociedade incluído por Eduardo Wolf
Data do post: 17 de janeiro de 2012

Quais são os ingredientes para um debate público de qualidade no Brasil? A reedição das obras de José Guilherme Merquior pela É Realizações é uma boa notícia para quem quer dar uma resposta honesta à questão. Reconhecido por seu trabalho como crítico literário, leitor incomparável de poesia, Merquior desempenhou na vida da inteligência nacional ainda o papel do crítico cultural em sentido mais amplo, essa figura comum nas tradições europeia e americana, como um Walter Benjamin ou um George Steiner. A amplitude dos temas abordados pelo autor é prova mais que suficiente disso, e o leitor poderá conferir por conta própria e com grande prazer à medida que vá lendo seus trabalhos, felizmente de volta ao mercado, agora em edições preparadas pelo professor João Cézar de Castro Rocha, da UERJ.

Merquior acreditava na relevância do artigo de jornal ou revista, no texto de intervenção pontual, dito “atualidade” em outros tempos; sobre o tema, citava, aprovando, Ortega y Gasset, que via nesse tipo de texto “uma forma indispensável do espírito”. Uma lição simples, mas cujos resultados são, ao menos potencialmente, tremendos. Pensada nesses termos, a intervenção pública nos assuntos da hora deixa de ser banal, personalista e inócua, e assume os contornos civilizatórios que por tanto tempo teve em outras terras – na Inglaterra e na França, sobretudo. Se não me equivoco, apenas o intelectual que entra na arena pública tendo aprendido essa lição faz seu trabalho com o senso de responsabilidade moral que a coisa exige.

Com livros como As Ideias e as Formas (1981) voltando a circular mais amplamente, talvez seja possível reconhecer algumas de nossas fraquezas em matéria de vida intelectual, quem sabe mesmo dar-lhes o devido combate. Não me refiro ao eterno “circuito do elogio mútuo”, que impede o atrito autêntico, a crítica em seu sentido mais forte; tampouco à superficialidade e ao baixo-nível que parecem ter triunfado com a mesma força nas bancas de jornais e nas de doutoramento país afora. Refiro-me a traços menos óbvios, mas não por isso menos atuantes em nossos esquemas mentais, e que Merquior, no artigo que dá nome ao livro de 1981 citado acima, mapeou muito bem.

Um desses elementos o autor chamou de “purismo misológico”, uma atitude “intransigentemente hostil à racionalidade da ideia”. Foi em seu Formalismo e Tradição Moderna (1974) que Merquior tentou rastrear essa degenerescência da poética romântica – para usar seus próprios termos – que resultou em nada menos que uma “fúria misológica”, uma variedade muito peculiar de irracionalismo. Mais que anti-intelectualismo, trata-se de um ódio ao conceito: Imagem contra conceito, sintetiza o autor. Um prêmio aos que pensaram em Nietzsche, para quem as ideias são obras de arte… Ao constatar a usurpação da forma pela ideia e escrever-lhe a genealogia, ao atacar a estetização do pensamento, enfim, Merquior parece que falava para nosso tempo:

O irracionalismo ambiente não reclama outra coisa: “insights” em lugar de análises, intuições indemonstráveis, conceitos altamente “artísticos”, em suma: a festa da reflexão irresponsável.

Essa ojeriza ao argumento, à análise (por definição algo lógico e racional), enfim, essa “fúria misológica” de que fala Merquior contaminou as mais elementares condições de possibilidade para um debate esclarecido sobre o que quer que seja, com um agravante em nosso tempo: no lugar de um homem de gênio como Nietzsche, enfrentamos hoje pessoas que sequer são capazes de compreender o que seja um argumento ou uma análise. No atual estado do problema, a investigação de Merquior parece ir longe demais, mas tal impressão se dá somente porque o irracionalismo já triunfou, virando moeda corrente tanto nas redes sociais como nas aulas de pós-graduação das melhores universidades, tanto nas palavras inflamadas dos porta-vozes do multiculturalismo como na prática moralizante dos desiludidos à esquerda e à direita no espectro político.

E esta lição, sim, é antiga: sem razão, não há responsabilidade; e “debate público” sem ambas, razão e responsabilidade, é a festa do pensamento irresponsável – com cada vez menos pensamento, aliás.


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O Nobel que Tolkien não ganhou

Filed under: Literatura incluído por Joel Pinheiro
Data do post: 6 de janeiro de 2012

As deliberações do comitê do Prêmio Nobel são mantidas em segredo por 50 anos, e só então os arquivos são abertos ao público. Ficamos sabendo quem foram os candidatos nomeados, quem os indicou e alguns comentários que os membros do comitê fizeram sobre ele.

Veio a público agora que, em 1961, Tolkien fora indicado ao prêmio por seu amigo C. S. Lewis. Anders Österling, crítico literário membro do comitê, contudo, julgou que a prosa de Senhor dos Anéis não era da melhor qualidade. Naquele mesmo ano concorriam Graham Greene e Robert Frost, mas o prêmio foi para o iugoslavo Ivo Andrić.


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Vaclav Havel (1936-2011)

Filed under: História,Literatura incluído por Martim Vasques da Cunha
Data do post: 18 de dezembro de 2011

Nem Christopher Hitchens e muito menos Joãozinho Trinta me fazem sair das minhas férias.

Mas Vaclav Havel sim.

Ele morreu na madrugada de hoje, dormindo.

Se o mundo sente falta de uma bussola moral, ainda tínhamos Havel como norte, com suas peças e discursos que mudaram a história de um país (a Tchecoslováquia) sem usar uma manobra de violência física ou verbal.

(Esta opinião não é apenas minha. Tenho ninguém menos que Tom Stoppard ao meu lado)

Hitchens desponta para o esquecimento, apesar de seu talento inegável.

Já Vaclav Havel será alçado a partir de agora à redescoberta de uma vida que se manteve íntegra mesmo quando enfrentou o Poder que quer nos corromper a qualquer custo.

Sugiro aos leitores que, como homenagem a um verdadeiro grande homem, leiam nada mais nada menos “The power of powerless”, um ensaio que, por si só, poderia refundar toda uma nação.

R.I.P.


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Lançamentos de final de ano – Platão e Russell Kirk

Filed under: Filosofia,Literatura incluído por Martim Vasques da Cunha
Data do post: 5 de dezembro de 2011

Não é sempre que ocorrem dois lançamentos de peso na mesma semana no Brasil.

O primeiro é a reedição das obras completas de Platão, publicadas pela Editora da Universidade Federal do Pará e traduzidas por Carlos Alberto Nunes. Para quem ainda não sabe, esta é a tradução sobre a qual todos deveriam começar a estudar Platão, se quiserem aprender Filosofia a sério. Agora as novas edições vêm com o texto original em grego para a alegria do leitor.

O outro é o início do lançamento das obras de Russell Kirk pela Editora É. A coleção começa com uma jóia rara: “A Era de Eliot”, um fascinante estudo crítico sobre a obra do maior poeta americano do século XX e que andava sumido há muito tempo até mesmo das estantes internacionais.

 


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Consciências Negras

Filed under: Literatura incluído por Joel Pinheiro
Data do post: 28 de novembro de 2011
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Zelda Odumbe nasceu em Kisumu, Quênia e nunca conheceu seu pai biológico. Por imposição do padastro, que desejava uma enteada pura, teve o clitóris removido aos sete anos de idade. No ano seguinte à circuncisão contraiu poliomielite, o que a deixou paralítica. Sua primeira relação sexual foi com um tio materno que, tendo contraído o HIV, achou que relações com uma virgem o curariam. O mesmo tio, e um vizinho amigo da família, abusaram dela repetidas vezes conforme chegava à puberdade. Escapou da casa materna aos 15, com ajuda do irmão caminhoneiro que a levou escondida, e a deixou aos cuidados da Congregação das Irmãs Missionárias do Precioso Sangue, com as quais passou a morar e estudar, no colégio das freiras em Riruta, arredores de Nairóbi. Aos 17 anos descobriu-se homossexual com uma noviça com quem dividia o quarto. Com ajuda das freiras, emigrou para os EUA aos 21, tendo conseguido uma bolsa para estudar em Harvard.

Era ansiosamente aguardada por todo o corpo docente e grande parte das entidades estudantis. Zelda era uma celebridade antes mesmo de por os pés em solo americano. Discutia-se a ordem das palestras que ela realizaria, os rumos de sua graduação e até um possível PhD.  Na chegada ao aeroporto foi recebida por uma comitiva de líderes estudantis e professores, dentre os quais a mítica Vazulla Nyolg, PhD, chefe do departamento de estudos da Mulher, Gênero e Sexualidade. Ao entrarem na van, a Professora Nyolg mal se continha de emoção; falava ininterruptamente contando à recém-chegada todos os podres da horrorosa sociedade americana, procurando avidamente por qualquer sinal de que estivesse causando boa impressão. Sua nova protegida, afinal de contas, não só era mulher, negra e africana, o que já seria bom mas nada de extraordinário, como também homossexual, sobrevivente de estupro, genitália mutilada, soropositiva e, para coroar, deficiente física. Tudo numa pessoa só. A Professora Nyolg, depois de muito buscar, finalmente encontrara o Santo Graal das minorias.

Zelda não era de muita conversa. A Professora Nyolg, embora ansiasse por relatos íntimos, pessoais, aos quais só ela teria acesso, não se importou muito, pois o silêncio da pupila complementava seu gosto pela fala. E a menina era boa ouvinte; com o tempo e com a confiança adquirida haveria de se libertar da repressão patriarcal que lhe impusera o silêncio como dever feminino; opressão talvez até mais grave do que a sofrida pelas mulheres de Massachusetts. Alojada no melhor apartamento disponível, Zelda e a professora se despediram. Um tanto reservada no contato com os colegas, passou seus primeiros dias de Harvard sem nenhum evento digno de nota.

O primeiro sinal de que nem tudo ia às mil maravilhas veio na hora de escolher as matérias a cursar. Zelda optou pela Literatura Renascentista Inglesa. A Professora Nyolg sugeriu que talvez, querida, os Estudos Literários Africanos a interessassem mais. “Só porque sou africana devo mirar tão baixo?” foi a resposta. Ela poderia ser lida como uma crítica aos professores do departamento, americanos e europeus privilegiados, portanto incapazes de penetrar no coração do lirismo africano. A professora, no entanto, acostumada a encontrar camadas secretas inesperadas em qualquer discurso, pressentia que o sentido era outro. Seja como fosse, era certo que a recém-chegada teria um longo processo de conscientização pela frente: criada e violentada na cultura patriarcal africana, que em última análise fora imposta pelo colonialismo europeu do século XIX, tinha na mente muitas ervas daninhas ideológicas a se extirpar; mas o terreno era inegavelmente fértil.

No primeiro fim-de-semana, na primeira (e única) festa de república a qual foi, Zelda sentava numa roda com seus colegas quando surgiu o tema dos direitos dos animais. Uma menina particularmente engajada opinou que a dieta vegana não só é mais ética, como também mais saudável e até saborosa.

Zelda ficou indignada.

“Impossível!”

“O que foi, Zelda?” Leia mais…


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Duas perguntas sobre a nova tradução de “Guerra e Paz”, de Leon Tolstói

Filed under: Literatura incluído por Martim Vasques da Cunha
Data do post: 22 de novembro de 2011

Se Guerra e paz é tido muitas vezes como um livro imenso e intransponível (a edição da Cosac Naify tem 2536 páginas), a recompensa de lê-lo é diretamente proporcional a essa fama. A infinidade de personagens e as digressões filosóficas são decisivas para o livro ser o que é – o estilo absolutamente livre de Tolstói ao escrevê-lo, sua resistência aos padrões literários de sua época, a preocupação em dizer aquilo que tem a dizer sem seguir nenhum um estilo que não o dele próprio.

Tolstói pesquisou obsessivamente e usa esse material para retratar a campanha de Napoleão na Rússia. Mas o livro não pretende ser uma crônica histórica. O centro da narrativa está na reflexão sobre a verdadeira força que parece mover os povos, sobre o que fez, afinal, milhões de pessoas praticarem, umas contra as outras, “uma quantidade tão inumerável de crimes, embustes, traições, roubos, fraudes, falsificações de dinheiro, pilhagens, incêndios e assassinatos, como não se encontra nos autos de todos os tribunais do mundo em séculos inteiros”.

Tolstói não hesita em direcionar uma crítica vigorosa aos historiadores de então, que no seu entender resumiam os acontecimentos nas ações de algumas figuras poderosas, e cita com ironia uma série de ordens e dispositivos militares para provar que os documentos oficiais e as ações daqueles que estão no topo da escala do poder são incapazes de explicar ou mesmo de definir os rumos da história.

Toda a construção dessa teoria, baseada num raciocínio e num poder de argumentação invejável já é por si só impressionante. Mas Guerra e paz é ainda mais do que isso: ao lado de Napoleão (retratado como um gorducho presunçoso), de Kutúzov, o comandante em chefe do exército russo, e de outros personagens reais, se movem centenas de vidas fictícias. E são essas figuras, imaginadas por Tolstói, como Natacha, Andrei, Pierre e Mária, que fazem com que Guerra e paz seja tão transbordante de vida. Duvido que o leitor, depois de conhecê-los, queira sair dali, daquele mundo tomado por batalhas, conselhos militares, ambições heroicas, entusiasmos patrióticos, bailes, caçadas, banquetes, paixões de juventude, questionamentos filosóficos, amores e decepções. A própria maneira de narrar escolhida por Tolstói, que flutua entre os pontos de vista de seus personagens (e se estende por um período de quinze anos), permitiu que ele retratasse um imenso espectro de paixões e de situações de vida, e que as figuras que as protagonizam nos parecessem tão próximas. O livro parece abrigar o mundo, a vida inteira está ali, e talvez por isso Guerra e paz seja diferente de absolutamente tudo que você já tenha lido.

Ao ler o texto acima, duas perguntas surgem:

1) Por que ultimamente o editor (no caso, a editora) da obra publicada escreve um texto mil vezes mais interessante do que qualquer um que foi publicado por um resenhista ou um crítico literário da grande imprensa?

2) Por que a Cosac Naify resolveu cobrar quase duzentos reais por dois livros encadernados em uma capa de veludo azul que irritará as mãos de quem quer realmente ler a obra e não apenas colocar na estante como elemento de decoração?

Eis alguns mistérios de nosso mercado editorial brasileiro.


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A autoconsciência do terror

Filed under: Literatura incluído por Martim Vasques da Cunha
Data do post: 18 de novembro de 2011

Don DeLillo

Em primeiro lugar, vamos ler o que Martin Amis, o enfant terrible da literatura inglesa, disse do novo livro de Don DeLillo – um volume de contos chamado The Angel Esmeralda, algo supreendente para um escritor que só se dedicou às narrativas longas, muitas vezes longuíssimas (caso de Submundo):

When we say that we love a writer’s work, we are always stretching the truth: what we really mean is that we love about half of it. Sometimes rather more than half, sometimes rather less. The vast presence of Joyce relies pretty well entirely on “Ulysses,” with a little help from “Dubliners.” You could jettison Kafka’s three attempts at full-length fiction (unfinished by him, and unfinished by us) without muffling the impact of his seismic originality. George Eliot gave us one readable book, which turned out to be the central Anglophone novel. Every page of Dickens contains a paragraph to warm to and a paragraph to veer back from. Coleridge wrote a total of two major poems (and collaborated on a third). Milton consists of “Paradise Lost.” Even my favorite writer, William Shakespeare, who usually eludes all mortal limitations, succumbs to this law. Run your eye down the contents page and feel the slackness of your urge to reread the comedies (“As You Like It” is not as we like it); and who would voluntarily curl up with “King John” or “Henry VI, Part III”?

 
***
Depois, vamos ler o que Antonio Xerxenesky, que revela ser um crítico mais interessante do que a sua ficção, escreveu sobre as relações subterrâneas que existem entre David Foster Wallace e a finada banda LCD Soundsystem:

São dois artistas, enfim, que merecem ser lidos e ouvidos, não apenas porque captaram o zeitgeist, mas porque possuem coração, porque mantiveram seus sentimentos, apesar de tudo que conspira contra isso, apesar da ironia sobrepujante e da horrorosa autoconsciência. Parece uma opinião brega, e talvez seja. Foster Wallace disse, no ensaio E Unibus Pluram, que os próximos rebeldes literários serão antirrebeldes: os que arriscarão ser tachados de melodramáticos e sentimentaloides. James Murphy não apenas repete isso, mas também executa algo similar em “Dance yrself clean”, canção que abre o seu disco de despedida do mundo da música, na qual aumenta o volume e pede para o ouvinte se lavar dançando, como se a dança fosse uma espécie de exorcismo que pudesse nos salvar de tudo, inclusive de nós mesmos.

Tudo bem, o primeiro trecho não fala diretamente da obra de DeLillo e sim das impressões introdutórias de Amis, este mestre da digressão, sobre o que ele ama e o que não ama no corpus de qualquer escritor. Na verdade, só copiei o trecho acima para que o leitor tenha interesse de ler o texto inteiro e, de brinde, saiba o que é uma verdadeira resenha.

Se lermos os dois textos com atenção, ambos discorrem sobre um tema que o próprio Foster Wallace – outro mestre da digressão – tinha plena noção: as conexões que existem entre a percepção exagerada do que seria (ou poderia ser) a realidade e o terror que surge disso. Segundo Amis, um escritor que sempre quis fazer o que DeLillo já fazia há tempo, o autor de Submundo e Homem em Queda, romances que, respectivamente, anteciparam e meditaram sobre os eventos da primeira década de 2000 (em especial, o terrorismo e o 11 de setembro), se tornou um profeta que soube expressar em uma linguagem cuidadosamente elaborada os dilemas da consciência estilhaçada dos nossos tempos.

Para Xerxenesky, DFW – que será tema de um ensaio fantástico de Júlio Lemos na próxima Dicta&Contradicta – eleva esta linguagem aos píncaros da insanidade – com a diferença de que há uma busca pela transcendência que, se compararmos os casos, DeLillo é muito mais bem sucedido do que o seu jovem contemporâneo (com quem, alías, trocou uma extensa correspondência).

A meu ver, esta autoconsciência do terror – marca registrada não só dos romances de DeLillo, DFW e Martin Amis, como também está presente em As benevolentes, de Jonanthan Littell, Às cegas, de Cláudio Magris e, em menor grau, Liberdade, de Jonathan Franzen – é uma encruzilhada que pode intoxicar a visão do escritor e envenená-lo com o mal que queria diagnosticar.

Por um lado, obriga-o a ver a realidade como é, em toda a sua terrível ambigüidade; por outro lado, pode fazer o escritor sucumbir à sua pressão e fazer a opção preferencial pelo desastre que é o niilismo.

David Foster Wallace ficou nessa encruzilhada e deu no que deu: depressão e suicídio. DeLillo já é um senhor de idade que decidiu se tornar o Beckett provecto da literatura americana, com seus livros esparsos, enigmáticos e quase impenetráveis.

Mas as questões que esses dois críticos e esses dois romancistas lançam são aquelas que todo escritor deve fazer antes de empunhar a caneta e começar a escrever qualquer linha.

E o que o LCD Soundsystem tem a ver com tudo isso?

Bem, não sei, mas antes de tudo ouçam essa canção e tenham um bom final de semana.


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A doença como cura?

Filed under: Literatura incluído por Martim Vasques da Cunha
Data do post: 9 de novembro de 2011

“Doença: antes de mais nada, tudo depende de quem está doente, de quem está louco, epiléptico, paralítico – uma pessoa medianamente tola, em cujo caso a doença prescinde do aspecto intelectual ou cultural, ou um Nietzsche, um Dostoiévski. Em ambos os casos, aquilo que resulta da doença é mais importante e estimulante para a vida e sua evolução do que qualquer normalidade aprovada do ponto de vista médico. A verdade é que a vida nunca prescindiu da doença, e dificilmente haverá uma afirmação mais idiota do que “a doença só pode gerar coisas doentias”. A vida não é suave com as pessoas, e podemos dizer que ela prefere mil vezes a doença criativa, doença que enfrentará os obstáculos a cavalo, saltando de rocha em rocha com audaz embriaguez, à saúde que anda a pé. A vida não é delicada e está longe de querer fazer qualquer distinção moral entre saúde e doença. A vida toma o resultado ousado da doença, ingere-o, digere-o e, da maneira que ela o acolhe, aquilo significa saúde. Toda uma horda e geração de rapazes receptivos e saudáveis se lança sobre a obra do gênio doente, transformado em gênio pela doença, admirando, elogiando, elevando, prosseguindo, transformando, legando-a para a cultura que não vive apenas do pão ordinário da saúde. Todos se declararão fiéis ao nome do grande enfermo, todos eles que, graças à sua insanidade, não precisam mais ficar insanos. De sua insanidade eles haverão de se alimentar, saudáveis, e neles ele haverá de ser saudável.

Thomas Mann, em “Dostoiévski, com moderação” (págs. 124-25), no livro “O escritor e sua missão”, publicado neste mês pela Jorge Zahar.

Uma leitura fundamental que deve ser ouvida ao som da seguinte canção:


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“Diga isso ao ouvido de Deus”

Filed under: Literatura incluído por Martim Vasques da Cunha
Data do post: 8 de novembro de 2011

Peter Handke estava cansado, já tinha dado uma entrevista, ao que parece falou bastante, apetecia-lhe beber vinho, tinha pouca vontade de conversar, embora a sala estivesse cheia, e com Auster e Coetzee na fila da frente. Handke vestia de preto, como de costume, é magro, cabelo ainda comprido mas mais escasso e grisalho, olhos vivos, óculos pequenos, um humor um pouco arisco mas fino e um inglês muito mau. Não foi antipático, mas é reservado, ou tímido, ou simplesmente não lhe apetecia conversar. O João Lopes e eu bem tentámos, mas Handke não estava in the mood, e nem com as perguntas do público se mostrou mais solícito. E no entanto, ensaiou algumas respostas ao que eu mais lhe queria perguntar, algumas bastante boas, que cito de memória. Porque é que os austríacos dizem coisas terríveis sobre a Áustria, como fazem Bernhard e Haneke? Handke: «Eles não são representativos, os austríacos gostam da Áustria, eu gosto da Áustria». Depois de anos a evitar a política, envolveu-se em grandes polémicas políticas, como reagiu a isso? «Não o procurei, veio ter comigo, mas isso acabou por me dar uma espécie de destino». A «Europa Central» é apenas um conceito «meteorológico», como disse uma vez? «É uma ideia meteorológica, geográfica; como ideia política é detestável, foi a ideia de Europa Central que fez com que portássemos como nos portámos com a Jugoslávia». Como é que alguém que gosta de Hofmannsthal, de Wittgenstein e das questões da crise da linguagem escreveu oitenta livros? «Tenho um problema com a linguagem, mas quando escrevo finjo que não tenho». Robert Walser morreu quase esquecido, depois de trinta anos num hospício, mas hoje é reeditado em todas as línguas; acredita na justiça da posteridade? «Há um provérbio alemão que diz: Diga isso ao ouvido de Deus».

Depois disso, só o silêncio.

 


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Destruição criativa

Filed under: Literatura incluído por Martim Vasques da Cunha
Data do post: 3 de novembro de 2011

E de repente todos descobriram que Lionel Trilling existiu. Nada contra a redescoberta: quem me dera que as pessoas descobrissem gigantes como Trilling, Edmund Wilson, Wayne Booth, Irving Kristol e até Gertrude Himmelfarb que, talvez por uma dessas conspirações do destino, teve seu livro Os caminhos da modernidade finalmente publicado no Brasil.

O mesmo poderia ser feito com os nossos gigantes nacionais, como Carpeaux (constantemente redescoberto porque nenhuma editora toma a coragem de publicar suas Obras Completas em uma edição integral e anotada), Alvaro Lins e Lucia Miguel Pereira.

O ponto mais importante desta redescoberta de Lionel Trilling é que seus principais acólitos – entre eles, Himmelfarb e Adam Kirsch, que escreveu a mola propulsora de tudo, um livrinho chamado Why Trilling Matters – não caíram na velha arapuca de que um crítico é sempre um artista frustrado. Ao contrário: Trilling é um daqueles críticos culturais que usaram o palco dos ensaios como se fosse uma verdadeira experiência da imaginação de todo um povo. E o mesmo fizeram Edmund Wilson ou Carpeaux – por coincidência, tanto Trilling como Wilson também têm obras de ficção que atualmente são consideradas paradigmas da literatura de seu tempo (respectivamente The middle of the journey e Memoirs of Hecate County, duas pequenas obras-primas).

Em outras palavras: um crítico não é um artista falhado, mas sobretudo um colaborador de quem fez a obra e que deve partilhar de uma sensibilidade dramática ao analisá-la e elucidá-la ao grande público.

John Milton dizia que sua obra em prosa era escrita com a mão esquerda enquanto a sua obra em versos era escrita com a direita. Interpretaram isso como se fosse uma espécie de desprezo do bardo a respeito do que escreveu pela força das circunstâncias. Ledo engano: o que ele quis dizer é que as palavras vinham de mãos diferentes – dái a peculiaridade de cada uma – mas sem dúvida vinham da mesma pessoa, da mesma personalidade, da mesma imaginação.

É o que todo crítico e o que todo artista devem ter em mente ao produzirem seus textos: a de que a única criação que vale a pena é uma purgação, uma destruição criativa.


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