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Compre o Livro

O doce sabor da hipocrisia

Filed under: Do lado de lá,Sociedade incluído por Joel Pinheiro
Data do post: 23 de outubro de 2009

Alemães ricos fazem campanha por mais impostos.

Ora, meus caros: se o seu dinheiro está sobrando, então tratem de doá-lo. Obrigar os outros a pagar pela sua generosidade não é nada generoso…


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Em Portugal, 20 anos atrás…

Filed under: Do lado de lá incluído por Rodrigo Duarte Garcia
Data do post: 25 de junho de 2009

Somente há pouco tempo conheci a extinta Revista K, editada em Portugal entre 1990 e 1993, com ensaios e artigos de Miguel Esteves Cardoso, Vasco Pulido Valente, Augustina Bessa-Luís, Carlos Quevedo e Francisco José Viegas, entre outros grandes.

Aqui você encontra muitos dos textos originais – alguns engraçadíssimos e politicamente-incorretos ao extremo -, outros comoventes, como este - do MEC – sobre a ingrata profissão dos agentes funerários:

“Percebe-se assim que, para ele, como para os agentes funerários dignos desse nome, a morte é um instante, por onde espreita a verdade que pode haver numa vida. O que comove não é a morte nem a ausência de quem morre – é a incapacidade de aceitá-la (ou acreditar nela) de quem fica. [...]

Mas não se pode fazer sem sofrimento, sem respeito, sem revolta, sem solidão. É por estas razões que os enterros mais bonitos e comoventes são, para os agentes funerários, os das freiras e das crianças. É porque neles a morte é mais evidente. Mais evidente para os homens. E mais evidente para Deus. É quase como uma prova de vida”.

Ou esta entrevista demolidora com Pedro Santana Lopes, Secretário de Estado da Cultura à época, em que o homem é praticamente acusado de analfabeto por não ter lido Proust e Joyce.

Por fim, deixo-lhes o editorial da edição nº 01, publicada há quase vinte anos, que dá bem a ver o espírito da coisa toda:

“Desinformação

Vivemos na idade da informação. Nunca foi tão fácil a tantas pessoas estarem tão bem informadas acerca de tantos assuntos. Óptimo. O pior é aceitarmos acriticamente que a informação é sempre boa, útil e formativa. A verdade é que nunca houve tantas bestas bem informadas. É muito mais fácil uma pessoa informar-se sobre um assunto do que pensar acerca dele. A partir de certa altura, um excesso de informação pode prejudicar a compreensão de dado acontecimento. Hoje, muitas pessoas informam-se em vez de tentar compreender. É a mulher que sabe tudo acerca dos filmes em cartaz, mas não viu nenhum. É o homem que segue cada passo dos acontecimentos na Roménia sem parar para tentar compreender o que se passa. É o jurista que conhece toda a legislação mas é incapaz de ter uma discussão sobre conceitos de justiça.

A informação pode ser brutal ao ponto de prejudicar a comunicação. As notícias, em vez de serem pontos de partida, tornam-se em fins. As pessoas, em vez de discutirem eventos e significados, partilham conhecimentos. Em vez de produzirem argumentos, reproduzem factos. Através da mera partilha de informação cria-se assim uma comunidade artificial.

Não há expressão mais mentirosa do que ‘comunicação social’. Que comunicação existe? Apenas se comunica a – não se comunica com. Isto é, não se comunica. Informa-se. O mal está no facto de não haver reciprocidade.

Claro que os chamados meios de comunicação social não ouvem o público a que se dirigem. O velho lugar-comum do ‘diálogo com o leitor’ é uma treta em que ninguém acredita. O mal é que a indiferença com que se distingue quantidade e qualidade de informação torna cada vez mais difícil ao cidadão médio ter opiniões pessoais acerca do que o rodeia.

Há qualquer coisa de arrogante e insuportável no acto de ‘informar’, tal qual ele se concebe modernamente, cheio de gráficos, sondagens, esquemas e painéis equilibrados. Há uma pretensão de definição e cobertura que, além de ridícula, parece violenta, por não admitir discussão. A discussão já surge ‘feita’. O leitor limita-se a escolher uma das posições.

Esta revista vai ser mais comunicativa do que informativa. O nosso objectivo não é sermos respeitados, compreendidos, seguidos, ou representados ou definitivos – é sermos lidos” (in K, nº 01, outubro de 1990).


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Elogio do insulto

Filed under: Do lado de lá incluído por Martim Vasques da Cunha
Data do post: 24 de junho de 2009

Bem, não tivemos em nossa última edição o elogio do jeitinho? Agora teremos a defesa da polêmica, do humor escrachado, do palavrão desequilibrado, do sarcasmo – enfim, de tudo aquilo que o jornalismo cultural (em especial, o tupiniquim) evita como o diabo que foge da cruz. Lá na terra de Obamis, tivemos o caso de David Denby, que resolveu publicar um pequeno livro contra uma determinada espécie de polemista: o snark. O termo parece ter saído do Finnegans Wake, de James Joyce, e significa mais ou menos o seguinte: para Denby, existe um tipo de polêmica cultural que infecta os meios intelectuais e que é nociva porque incentiva o xingamento pelo xingamento, o sarcasmo pelo sarcasmo – ou seja, a diversão de ofender o seu adversário sem se importar se ele tem alguma dignidade.

Ao que parece, o livro de Denby – crítico de cinema da The New Yorker que não hesitou em fazer as suas polêmicas sobre alguns filmes – foi um fracasso de público e de crítica (é só ler as resenhas dos leitores da Amazon). Não é por acaso: apesar da maioria dos americanos achar que Obamis é o salvador do mundo, alguns ainda acreditam que uma boa polêmica é sempre igual a uma boa porrada. Os EUA sempre foram uma nação dominada pela luta intestina entre suas várias facções políticas, que muitas vezes terminam em tragédias (é só lembrar das lutas raciais e dos atentados contra vários presidentes), outras vezes terminam em reformas fundamentais para a estrutura democrática (é o exemplo do debate em torno da Constituição que aconteceu na década de 1780).

Mas há algo mais para a defesa da polêmica, do sarcasmo e do insulto no ambiente cultural. Sem estas três características, não poderíamos recuperar a nossa própria humanidade. A tese não é minha, mas sim de Nicholas Desai, autor de um excelente ensaio sobre Aleksander Solzhenitsyn, o responsável por esse grande livro de mártires que é Arquipélago Gulag. De acordo com Desai, em resposta ao argumento de Denby, Solzhenitsyn é um excelente exemplo de snark russo, que usou do sarcasmo e até da ofensa (afinal, o russo foi para um gulag justamente porque fez uma piada a respeito de Stálin) para relembrar ao leitor da crueldade que o totalitarismo estava a provocar com a Rússia. Desai exemplifica:

One of the funniest (and snarkiest) passages in the whole book describes how the Tsarist justice system dealt with Lenin before the revolution. After relating, among other things, how under communism entire peasant families were executed for “hoarding” the crops they hoped to subsist on, Solzhenitsyn describes the ordeals of the young Vladimir this way:

…he was merely expelled. Such cruelty! Yes, but he was also banished….To Sakhalin? No, to the family estate of Kokushkino, where he intended to spend the summer anyway. He wanted to work, so they gave him an opportunity….To fell trees in the frozen north? No, to practice law in Samara, where he was simultaneously active in illegal political circles. After this he was allowed to take his examinations at St. Petersburg University as an external student. (With his curriculum vitae? What was the Special section thinking of?)

That dismissive “Such cruelty!” is related to what is one of his strangest rhetorical effects, namely how when describing the remorseless cruelty of the Soviet system, he seems almost, but not quite, to convey admiration for their total lack of scruples. This black humor is just one element of tone that achieves a chord-like complexity, giving the lie to the notion that snark is always simple.

Ou seja: um mundo cultural destituído de polêmica e de insultos é um mundo que começa a perder a sua humanidade. No Brasil, o caso é de uma patologia clássica: todo mundo agrada todo mundo e, quando há sempre um outcast que resolve furar o bloqueio, sacam misteriosamente um abaixo-assinado ou chamam as forças da mídia para a realização de um manifesto ou de uma passeata. Nem sequer é uma espécie de “patrulha ideológica”; é um exemplo cristalino de “egocentrismo cognitivo“, para usar o termo de Richard Landes. O intelectual ou jornalista brasileiro só vê o que quer porque é a única coisa que o seu mundinho fashion permite. Ao contrário dos EUA, o meio cultural brasileiro sempre preferiu a conciliação e, exceto por um ou outro evento, nunca houve um embate intelectual de grande porte por essas plagas.

Aqui, se alguém parte para a verdadeira porrada, logo é tratado como “louco”, “grosso”, “paranóico” – termos vazios de sentido que atingem a pessoa, nunca o que ela está a discutir. Com este tipo de argumentação, a única coisa que resta para os poucos snarks nacionais é mandar seus oponentes para o lugar que merecem. Afinal de contas, a humanidade só recupera o que é seu se levar um bom pontapé na bunda.

E nem preciso dizer que, da minha parte, se alguém me chamar da mesma coisa, quero mais é que tome um piparote na testa.


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Do desaparecimento do humor judaico

Filed under: Do lado de lá incluído por Martim Vasques da Cunha
Data do post: 18 de junho de 2009

Nos tempos atuais, não é apenas a questão do anti-semitismo (não, queridos, não vou usar a nova ortografia, não insistam, por favor) que preocupa o escriba que vos fala, i.e., a existência de um bando de meia dúzia de celerados que gostaria de ver uma raça (e, ergo, uma religião) explodir pelos ares (literalmente), mas também o provável desaparecimento de uma arte que está prestes a ter suas respostas sopradas pelo vento: a do humor judaico.

Aludo ao tema porque, graças ao blog  ângulo, descobri este texto sensacional sobre o encontro entre Woody Allen e Larry David no filme Whatever Works, dirigido pelo primeiro. Para quem ainda se mantém mais ou menos sintonizado com as coisas que realmente valem a pena no Planeta Terra, Woody Allen já deve ser um velho conhecido nosso, enquanto Larry David é ninguém menos que o gênio nos bastidores de Seinfeld, o melhor sitcom já feito na história da TV.

O ensaio faz um panorama de como o humor judaico foi se adaptando às necessidades dos novos tempos até chegar a irreconhecíveis “herdeiros” como Judd Apatow e Sarah Silverman – e, o que é mais estranho -, esquecendo-se da figura de Sasha Baron Cohen, o Borat, que, como disse o próprio Larry David, é o único que está em pé de igualdade com grandes como Groucho Marx e Lenny Bruce.

Mas além do texto há uma indicação que me deixou com um sabor agridoce: é o Old Jews Telling Jokes, um projeto de Sam Hoffman (produtor executivo de Bullets over Broadway, de Allen) que busca, através de depoimentos divertidissímos de rabinos, comediantes e atrizes, recuperar a magia do humor judaico. No entanto – e isso é o mais assustador e, ao mesmo tempo, tocante – a maioria das pessoas está acima de 60 anos de idade e, até agora, não vi nenhum jovem. Ou seja, a nova geração não quer saber mais do bom e velho humor yiddish.  E esta é, afinal, a intenção do projeto de Hoffman: preservar a alegria judaica antes que ela sofra o seu Shoah do riso.

Eis aí a moral da história: o nosso mundo está cada vez mais sem nenhum senso de humor, sem nenhum sentido de ironia e, sobretudo, não quer mais saber do próprio mundo e preocupa-se somente com os sonhos impossíveis. Enfim, sem nenhum punch-line.


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Quer conhecer o mundo de hoje? Ou: como evitar o egocentrismo cognitivo

Filed under: Do lado de lá incluído por Martim Vasques da Cunha
Data do post: 10 de junho de 2009

Então leia os grandes livros de ontem. E quando falo em grandes, digo literalmente: aqueles livros enormes, impossíveis de carregar e de levar no metrô, no ônibus, na rua, que você só pode ler em casa, apoiado na mesa, sentado numa poltrona confortável. Pelo menos é o que Peter J. Dougherty, diretor da Princeton University Press, acredita em seu A Manifesto for Scholary Publishing.

Como todos sabem, o scholar é quase uma instituição que abunda nos EUA e na Europa, mas inexiste nestas plagas. Até sua tradução é equivocada: chamam-no de “erudito” ou “estudioso”. O scholar não é nada disso. A sua definição mais aproximada é a do spoudaios aristotélico, i.e: um homem (ok, também pode ser uma mulher…) que, ao estudar vários ramos do conhecimento, consegue dar-lhes uma unidade e transmiti-la de maneira compreensível para seus alunos, para que estes também possam ensiná-la sem qualquer prejuízo de comunicação. Para isso, o scholar precisa ter uma experiência concreta não só da sua própria vida, mas uma imaginação aguçada para entender outras experiências e assim compartilhá-las com o resto da sociedade.

A vantagem do scholar é que, apesar de não saber sobre tudo (ou melhor, seu conhecimento abarca uma aproximação de totalidade), ele pode sentir à distância certos erros que são dados como verdade pura e simples por uma mídia totalmente abobalhada por estímulos contraditórios – e que, com isso, causa a mesma reação a uma casta aparentemente lúcida da sociedade.

Talvez a maior prova disso seja a anatomia em praça pública que Richard Landes, scholar de renome sobre movimentos milienaristas, faz de Fareed Zakaria, jornalista que não passa de um pastel ambulante de idéias já expostas e mastigadas pelos seus companheiros de propaganda (sorry, de mídia). Recentemente Zakaria publicou O mundo pós-americano, uma bobagem sem tamanho que copia algumas idéias de Samuel Huntington (um scholar que tem os seus problemas, mas que, sem dúvida, fazia parte dessa seleta turma), mistura pitadas de wishful thinking e voilá – estamos nesta situação de “apaziguamento” que, na verdade, me faz lembrar o que Neville Chamberlain fez com Hitler: acalmar a fera até deixá-la atacá-lo de vez.

Landes mostra, usando somente as armas do scholarship, que Zakaria não passa de um garoto propaganda do “egocentrismo cognitivo liberal”* e que os fundamentos de seu raciocínio a respeito deste pacífico país chamado Irã estão todos errados.

Querem uma prova? Como diria um amigo meu: Quem viver, verá.

* O termo é, como o leitor perceberá, do próprio Richard Landes, mas deveria ser usado e abusado porque identifica perfeitamente a atitude e o pensamento de alguns jornalistas brasileiros (e internacionais, é claro).


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Feliz Aniversário, Israel!

Filed under: Do lado de lá incluído por Martim Vasques da Cunha
Data do post: 29 de abril de 2009

Em homenagem aos 61 anos de independência do Estado de Israel, comemorados hoje, vamos ler o que realmente importa e o que é realmente sério por dois especialistas no assunto:

- O primeiro, óbvio, é David P. Goldman, a.k.a. Spengler, que novamente escreve um post em seu novo blog na First Things, com direito a um trecho digno do melhor do ”humor judaico”:

If any of you are depressed, morose, despondent, pessimistic, and glum, I have a cost-effective solution. For the price of a dozen sessions with a medicore therapist, you can get on a plane and go to Israel. That will cheer you up. Trust me. Insecurity doesn’t make you unhappy. This life isn’t secure. Shut yourself up in a cave ten miles under the earth with all the distilled water and freeze-dried food you can hoard, equip it with an intensive care unit and a dozen physicians… you still are going to die. Being alive is a very insecure condition as the probability of becoming dead at some future point is — let me check the chart — 100%. Care will slip in through the keyhole,  no matter how secure you try to be. But the Israelis have something better than security. They have faith. That’s true even of secular Israelis, for to be an Israeli is a statement of faith.

(E, sim, prefiro continuar a indicar Spengler e não falar da cantora “desculpem-me-as-feias-mas-a-beleza-é-fundamental” Susan Boyle)

- O outro craque é o scholar Richard Landes que, em seu blog The Augean Stables, dá uma aula sobre o conflito Israel-Palestina, sem recorrer às ideologias políticas e atacando quem deve ser atacado, sem o medo de perder a lucidez e o bom senso:

Here, I think the only viable explanation is to understand the blow to Arab/Muslim honor at the creation of a free and independent state run by non-Muslims in Dar-al-Islam. (For a larger discussion of this, see here.) As the Athenians explained to the Melians: “It’s not so terrible to be conquered by those who should rule (like the Spartans, or in this case the Christians), but it is unbearable to be defeated by those who should be subject (like the Melians or, in this case, the Jews).”

If you don’t know about the Muslim principles of Dar-al-Islam (the realm of submission where Muslims rule) and Dar-al-Harb (the land of the sword, with which Muslims are at war), you can’t possibly understand either the permanent hostility of the Arabs to Israel (including their refusal to recognize her), or the willingness of the Arabs to keep the Palestinians suffering in refugee camps so that they can be used as a weapon against Israel.

By Muslim standards, the very existence of Israel is a theological blasphemy and an unbearable affront to their honor. That’s what the Naqba is about. If it were about the terrible suffering of the Palestinians who had to flee as a result of the war (which is what the “pro-”Palestinian would have us believe), then the Arabs and Palestinian leaders would have done something to make their lives better (including using a tiny fraction of the trillions of petrodollars Arab countries have taken in in the last half-century). Instead they confined them to permanent refugee camps (no cement floors allowed, they had to live in tents and the mud for years)

E, last but not least, dêem uma olhada na revista Azure, em que, entre outras coisas mui interessantes, há um artigo que mostra que Slavoj Zizek (o queridinho da alta intelectualidade paulistana, junto com o delator do Zigmunt Bauman) não passa de um epígono que deseja nada mais nada menos que um governo totalitário.


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Um dia a casa cai…

Filed under: Do lado de lá incluído por Martim Vasques da Cunha
Data do post: 23 de abril de 2009

Esta foi uma semana de eventos interessantes: além da morte de J.G. Ballard (nunca dei bola para a obra dele, mas David Cronenberg fez um belo filme com seu mediano Crash (1998) e Theodore Dalrymple escreveu um excelente obituário que serve como introdução aos seus livros) e do aparecimento de Susan Boyle (na verdade, uma voz um pouco melhor do que o habitual e a prova definitiva que estamos a viver naquilo que Ortega y Gasset chamava de a ascensão do homem-massa), tivemos a resolução do maior mistério da Internet dos últimos dez anos. Finalmente, soubemos quem é Spengler.

Vocês devem se lembrar que já recomendei Spengler aos leitores da Dicta. Foi uma dica do poeta e tradutor Nelson Ascher, meu oráculo para política internacional. Ao ler os artigos anteriores de Spengler queria saber quem era o homem. Rumores na blogsfera diziam que ele era um ex-assessor de Lyndon LaRouche, que tinha trabalhado no governo Reagan, que era um aficionado pela obra filosófica de Franz Rosenzweig, que tinha sido um empresário de sucesso em Wall Street e que o motivo de seu “pseudônimo” (uma paródia ao autor de O Declínio do Ocidente) era porque ele tinha se convertido definitivamente ao judaísmo e que sabia que a única solução para a crise do mundo contemporâneo era a união entre a Sinagoga e a Igreja.

Bem, os rumores estavam certos. Foi divulgado que Spengler é, de fato, David P. Goldman, que admitiu ser tudo aquilo sobre o qual falaram, menos o de ter sido assessor de Lyndon LaRouche (e convenhamos que muito do que Spengler escreve vai contra os princípios ocultos de LaRouche, um anti-semita enrustido). O interessante é a razão de seu “desmascaramento”. A convite de Joseph Bottum, editor-chefe da First Things depois da morte de seu fundador, Richard John Neuhaus, Goldman tornou-se o editor associado da revista, ocupando o posto que foi o de Bottum. Qualquer pessoa bem informada sabe o que isso significa: que Spengler – ou David P. Goldman, como agora podemos chamá-lo – saiu de seu modesto púlpito do jornal Asia Times para ser alçado como uma das maiores mentes do pensamento sadio na América. Com sua “promoção”, Goldman fica lado a lado de gigantes como o próprio Bottum (que já está velhinho, com quase 70 anos), Roger Scruton e Roger Kimball.

E que nenhum engraçadinho venha me dizer que só citei pensadores ditos “conservadores”. A prova disso é justamente o artigo de estréia que Goldman escreveu para a First ThingsDemographics and Depression. Ele faz uma crítica arrasadora do conservadorismo americano, ao afirmar que a guerra cultural foi perdida porque os políticos conservadores se empolgaram no aumento de riqueza que o governo Reagan teria dado à população norte-americana. E a perda nessa guerra influenciou no fator principal da atual crise supostamente econômica: o de que os americanos não sabem mais o que é uma família e se recusam a formar uma, preferindo viver como casais solteiros ou, pior, disfuncionais. As conseqüências dessa nova visão-de-mundo são simples e atuam no médio e no longo prazo: um país começa a envelhecer rapidamente e não tem mais pessoas jovens para assumirem riscos e desafios, pois escolhem uma vida de aposentadoria precoce e de dependência estatal (e, se você viu semelhanças com a nossa pátria amada, be scared, be really scared). O resultado disso é nada mais nada menos que a pobreza econômica e moral de uma nação.

O artigo é ainda mais perturbador porque, como é de hábito nos escritos de Goldman quando era Spengler, se houver alguma mudança, ela não surgirá de nenhum plano de governo, mas sim de uma atitude existencial do ser humano ao se confrontar com o seu problema básico: o da morte e o da sua sobrevivência para a permanência da raça humana.

E como isso não se dá apenas através dos meios naturais e humanos e sim através de algo que está fora do nosso controle, sinto e lamento em informá-los que, do jeito que as coisas estão, concordo com Goldman-Spengler: um dia a casa cai…

P.S. A First Things anunciou hoje que Spengler terá um blog em sua distinta casa. Começou bem: seu primeiro post é sobre as relações tumultuadas entre a Igreja Cristã e Israel. Ah, sim, isso sim é um assunto importante para ser discutido – não a tal da Susan Boyle. O que me faz pensar o seguinte: Será que toda essa comoção aconteceria se Boyle fosse bonita?


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Thank God America Isn’t Like Europe!

Filed under: Do lado de lá incluído por Joel Pinheiro
Data do post: 27 de março de 2009
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O título diz tudo. Artigo que vale a pena ser lido, pois faz um excelente ponto. E se utiliza da genética e da psicologia evolutiva de uma maneira surpreendente.


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V de Vingança

Filed under: Do lado de lá incluído por Martim Vasques da Cunha
Data do post: 26 de março de 2009

Nunca pensei que isso fosse acontecer, mas o fato é que a Inglaterra está cada vez mais parecida com aquele cenário sombrio retratado por Alan Moore e David Lloyd em sua graphic novel V de Vingança (esqueçam a adaptação cinematográfica, uma verdadeira bobagem). Em primeiro lugar, o governo de Gordon Brown, o político que teve de pechinchar com Tony Blair para conseguir seu cargo de primeiro-ministro, impediu o parlamentar europeu Geert Wilders de entrar no país para exibir e debater seu curta-metragem Fitna. Em aspectos estéticos, o curta é canhestro, mas tem uma linha de raciocínio bem clara e perturbadora: os motivos do terrorismo islâmico estão no próprio Corão. Segundo Wilders, não existe um Islã moderado – existem muçulmanos moderados. A secretária de Estado Jacqui Smith, ao alegar que Wilders promovia o “hate speech”, ordenou que o paralamentar holandês fosse barrado literalmente na porta do aeroporto. Ainda assim, Wilders não deixou barato: apareceu em todos os meios de comunicação europeus e publicou o discurso que daria na Câmara dos Lordes, uma peça de urgência retórica que não fica nada a dever a um Winston Churchill. (Como de hábito, não apareceu nada relevante na imprensa brasileira; somente João Pereira Coutinho escreveu uma coluna na Folha resumindo a situação) 

Coloco-o na íntegra para a vossa edificação:

Geert Wilders’ speech in the House of Lords — if he had not been barred from entering the UK

What Wilders would have said if the British officials had allowed him in:

Ladies and gentlemen, thank you very much.

Thank you for inviting me. Thank you Lord Pearson and Lady Cox for showing Fitna, and for your gracious invitation. While others look away, you, seem to understand the true tradition of your country, and a flag that still stands for freedom.

This is no ordinary place. This is not just one of England’s tourist attractions. This is a sacred place. This is the mother of all Parliaments, and I am deeply humbled to speak before you.

The Houses of Parliament is where Winston Churchill stood firm, and warned – all throughout the 1930’s – for the dangers looming. Most of the time he stood alone.

In 1982 President Reagan came to the House of Commons, where he did a speech very few people liked. Reagan called upon the West to reject communism and defend freedom. He introduced a phrase: ‘evil empire’. Reagan’s speech stands out as a clarion call to preserve our liberties. I quote: If history teaches anything, it teaches self-delusion in the face of unpleasant facts is folly.

What Reagan meant is that you cannot run away from history, you cannot escape the dangers of ideologies that are out to destroy you. Denial is no option.

Communism was indeed left on the ash heap of history, just as Reagan predicted in his speech in the House of Commons. He lived to see the Berlin Wall coming down, just as Churchill witnessed the implosion of national-socialism.

Today, I come before you to warn of another great threat. It is called Islam. It poses as a religion, but its goals are very worldly: world domination, holy war, sharia law, the end of the separation of church and state, the end of democracy. It is not a religion, it is a political ideology. It demands you respect, but has no respect for you.

There might be moderate Muslims, but there is no moderate Islam. Islam will never change, because it is build on two rocks that are forever, two fundamental beliefs that will never change, and will never go away. First, there is Quran, Allah’s personal word, uncreated, forever, with orders that need to be fulfilled regardless of place or time. And second, there is al-insal al-kamil, the perfect man, Muhammad the role model, whose deeds are to be imitated by all Muslims. And since Muhammad was a warlord and a conqueror we know what to expect.

Islam means submission, so there cannot be any mistake about it’s goal. That’s a given. The question is whether the British people, with its glorious past, is longing for that submission.

We see Islam taking off in the West at an incredible speed. The United Kingdom has seen a rapid growth of the number of Muslims. Over the last ten years, the Muslim population has grown ten times as fast as the rest of society. This has put an enormous pressure on society. Thanks to British politicians who have forgotten about Winston Churchill, the English now have taken the path of least resistance. They give up. They give in.

Thank you very much for letting me into the country. I received a letter from the Secretary of State for the Home Department, kindly disinviting me. I would threaten community relations, and therefore public security in the UK, the letter stated.
For a moment I feared that I would be refused entrance. But I was confident the British government would never sacrifice free speech because of fear of Islam. Britannia rules the waves, and Islam will never rule Britain, so I was confident the Border Agency would let me through. And after all, you have invited stranger creatures than me. Two years ago the House of Commons welcomed Mahmoud Suliman Ahmed Abu Rideh, linked to Al Qaeda. He was invited to Westminster by Lord Ahmed, who met him at Regent’s Park mosque three weeks before. Mr. Rideh, suspected of being a money man for terror groups, was given a SECURITY sticker for his Parliamentary visit.

Well, if you let in this man, than an elected politician from a fellow EU country surely is welcome here too. By letting me speak today you show that Mr Churchill’s spirit is still very much alive. And you prove that the European Union truly is working; the free movement of persons is still one of the pillars of the European project.

But there is still much work to be done. Britain seems to have become a country ruled by fear. A country where civil servants cancel Christmas celebrations to please Muslims. A country where Sharia Courts are part of the legal system. A country where Islamic organizations asked to stop the commemoration of the Holocaust. A country where a primary school cancels a Christmas nativity play because it interfered with an Islamic festival. A country where a school removes the words Christmas and Easter from their calendar so as not to offend Muslims. A country where a teacher punishes two students for refusing to pray to Allah as part of their religious education class. A country where elected members of a town council are told not to eat during daylight hours in town hall meetings during the Ramadan. A country that excels in its hatred of Israel, still the only democracy in the Middle-East. A country whose capitol is becoming ‘Londonistan’.

I would not qualify myself as a free man. Four and a half years ago I lost my freedom. I am under guard permanently, courtesy to those who prefer violence to debate. But for the leftist fan club of islam, that is not enough. They started a legal procedure against me. Three weeks ago the Amsterdam Court of Appeal ordered my criminal prosecution for making ‘Fitna’ and for my views on Islam. I committed what George Orwell called a ‘thought crime’.

You might have seen my name on Fitna’s credit role, but I am not really responsible for that movie. It was made for me. It was actually produced by Muslim extremists, the Quran and Islam itself. If Fitna is considered ‘hate speech’, then how would the Court qualify the Quran, with all it’s calls for violence, and hatred against women and Jews?
Mr. Churchill himself compared the Quran to Adolf Hitler’s Mein Kampf. Well, I did exactly the same, and that is what they are prosecuting me for.

I wonder if the UK ever put Mr. Churchill on trail.

The Court’s decision and the letter I received form the Secretary of State for the Home Department are two major victories for all those who detest freedom of speech. They are doing Islam’s dirty work. Sharia by proxy. The differences between Saudi-Arabia and Jordan on one hand and Holland and Britain are blurring. Europe is now on the fast track of becoming Eurabia. That is apparently the price we have to pay for the project of mass immigration, and the multicultural project.

Ladies and gentlemen, the dearest of our many freedoms is under attack. In Europe, freedom of speech is no longer a given. What we once considered a natural component of our existence is now something we again have to fight for. That is what is at stake. Whether or not I end up in jail is not the most pressing issue. The question is: Will free speech be put behind bars?

We have to defend freedom of speech.

For the generation of my parents the word ‘London’ is synonymous with hope and freedom. When my country was occupied by the national-socialists the BBC offered a daily glimpse of hope, in the darkness of Nazi tyranny. Millions of my country men listened to it, illegally. The words ‘This Is London’ were a symbol for a better world coming soon. If only the British and Canadian and American soldiers were here.

What will be transmitted forty years from now? Will it still be ‘This Is London’? Or will it be ‘this is Londonistan’? Will it bring us hope, or will it signal the values of Mecca and Medina? Will Britain offer submission or perseverance? Freedom or slavery?

The choice is ours.

Ladies and gentlemen,

We will never apologize for being free. We will never give in. We will never surrender.

Freedom must prevail, and freedom will prevail.

Thank you very much.

Geert Wilders

MPChairman, Party for Freedom (PVV)

The Netherlands

Em segundo lugar, é só notar o jeito fanfarrão e sarcástico do próprio Gordon Brown ao ouvir o discurso de apenas três minutos devastadores de Daniel Hannan, membro do Parlamento Europeu, representando o Sudoeste da Inglaterra. Hannan fez o que qualquer político decente (hello, Brazil!) deveria fazer: falou na frente do algoz, olhos nos olhos, firme, sem nenhuma hesitação. Gordon Brown sequer o encarou; deu uma risadinha e continuou a ler seus documentos burocráticos. A imprensa mainstream ignorou completamente o fato; mas, sabe-se lá como, de repente não mais que de repente, o discurso de Hannan se tornou o vídeo mais visto no You Tube, com mais de 630.000 acessos em um único dia.

Wilders e Hannan são a prova de que ainda existe uma verdadeira oposição e de que a política não é apenas uma negociata atrás da outra para a imposição da Nova Ordem Mundial. E ainda temos um brinde: vocês podem reclamar do que for – das idéias deles, de que os muçulmanos são todos bonzinhos, de que Gordon Brown é um cara bacana, etecétera -, mas jamais podem negar que os dois sabem usar a linguagem como poucos estadistas atuais usam. Entre o moleque que escreve os discursos de Barack H. e as frases de Wilders e Hannan que nos remetem à prosa de ouro de Churchill e Edmund Burke, não hesito em afirmar que o primeiro jamais conseguiria criar linhas como estas para refletir a nossa atual situação econômica:

Once again today you try to spread the blame around. You spoke about an international recession, international crisis. It is true that we are all sailing together into the squalls, but not every vessel in the convoy is in the same dilapidated condition. Other ships used the good years to caulk their hulls and clear their rigging – in other words, to pay off debt – but you used the good years to raise borrowing yet further. As a consequence, under your captaincy, our hull is pressed deep into the waterline under the accumulated weight of your debt

E, como mostra o V de Vingança de Alan Moore, são sempre nos momentos de crise de liberdade que descobrimos quem são os verdadeiros estadistas.


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Milan Kundera, mais um delator?

Filed under: Do lado de lá incluído por Martim Vasques da Cunha
Data do post: 11 de março de 2009

Desde Outubro do ano passado que me intriga a história de que Milan Kundera, o escritor de O Livro do Riso e do Esquecimento e de A Insustentável Leveza do Ser, teria delatado um espião anti-comunista. Autores como Philip Roth, Orhan Pamuk e Salman Rushdie defenderam Kundera com unhas e dentes, enquanto o tcheco negava-se a dar qualquer entrevista (há mais de quinze anos que Kundera não quer ser mais visto como uma “pessoa pública” e sim apenas como um “autor de romances”).

Foi publicada uma primorosa reportagem da Standpoint sobre o caso, inclusive com um trecho assustador de ninguém menos que Vaclav Havel, que faz a perguntinha impertinente: Você não faria o mesmo se estivesse em situação igual?


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