A Arquitetura da Felicidade
Data do post: 24 de fevereiro de 2013

Por Adriano Correia
Silver Linings Playbook (no Brasil, “O Lado Bom da Vida”), 2012, dirigido por David O. Russell, e estrelado por Bradley Cooper (The Hangover) e Jennifer Lawrence (Hunger Games), é uma comédia romântica fora do comum, a começar pelo fato de que subverte, pelo excesso e pela antecipação, o velho clichê do gênero, em que geralmente o mocinho corre atrás da mocinha no final do filme; aqui o mocinho, Pat, é um bipolar cuja mãe (Dolores, interpretada por Jacki Weaver), nas cenas iniciais, busca-o no sanatório; um maluco descontrolado que, com alguma razão, espanca um velho, colega seu, professor de história na mesma escola, que encontra, em sua casa, transando com sua esposa no chuveiro, sob uma das faixas sonoras de seu casamento. Um filme fora do trilho de seu gênero, pois Pat está a correr o tempo todo (e não só no final), vestindo um saco de lixo que o faz suar mais e que, pois, faz com que perca mais peso, obsessão que adquire em consequência de ter sido gordo durante todo o casamento.
Também é um filme em que a personagem protagonista, Tiffany, interpretada por Jennifer Lawrence, indicada ao Oscar, só nos é apresentada depois dos trinta minutos iniciais, num jantar disfuncional oferecido por sua irmã, Veronica (Julia Stiles). Jantar de que participam apenas pessoas disfuncionais, quebradas, tanto por parte de Veronica e seu marido, como por parte do par principal, cuja primeira conversa consiste em indiscrições de parte a parte, e da discussão dos medicamentos psicotrópicos a que já foram submetidos.
Não há um só personagem que possamos chamar de “normal” no filme; todos falam muito, o tempo todo, e todos são algo caricaturais, incluindo o psiquiatra indiano que cuida do caso de Pat. Todos são extremamente passionais e intensos, o que faria pensar que se trata de um filme de italianos (e a presença de Robert De Niro, no papel do emotivo e supersticioso pai de Pat, reforça essa aparência).
Mas o que dizer sobre Tiffany, a personagem promíscua de Jennifer Lawrence? Sabe-se que seu marido policial era pouco romântico, e que morre pouco depois de comprar indumentária erótica para sua mulher, com quem decidira “reavivar o romance”. Tiffany também deixa escapar, contando-o a Pat, que insistia que seu falecido esposo participasse de um concurso de dança com ela, ao que ele sempre se negava. Estando, porém, o personagem de Bradley Cooper obcecado pela esposa, Tiffany maneja um esquema para obrigar o neurótico Pat a ensaiar para o tal concurso de dança e dele participar: em troca da entrega de uma carta à esposa de Pat, que lhe impusera uma restraining order, Tiffany faz dele refém de uma manipulação que (spoiler alert) o salvará de si mesmo, possibilitando a superação da ridícula obsessão pela ex, e também fornecendo-lhe meandros emotivos para que possa, de algum modo, alcançar a felicidade — e aí então, segundo spoiler, temos a faceta ingênua e clichê do filme, pois a felicidade lhe é trazida pelas mãos de Tiffany, e tudo acaba bem.
Ou seja, embora seja um filme pouco convencional em seu gênero, ainda assim tem aquele calor típico, por exemplo, dos filmes de Capra, em que o personagem bonzinho central passa por uma série de apuros, que quase põem fim a sua vida (como em Mr. Smith Goes to Washington e It’s a Wonderful Life, ambos estrelados pelo gigante James Stewart), só para no final se dar sentido à máxima de que o que não mata, torna mais forte. E é de fato o que ocorre nos três filmes.
A diferença principal entre o filme de David O. Russell e os de Frank Capra, porém, reside no motor que traz a mudança à tona. Em Mr. Smith esse motor em parte parece ser a secretária desiludida e cínica, Clarissa Saunders (interpretada por Jean Arthur), que, no entanto, aos poucos cede ao charme ingênuo, idealista e romântico de Jefferson Smith, um caipirão que ama a história política de seu país e que ao, por um acaso, tornar-se senador se deslumbra com os monumentos históricos de Washington, D.C., como a estátua esculpida de Lincoln. Aliás, é curioso notar o título que deram ao filme no Brasil, que não poderia ser mais bobo e simultaneamente revelador, A Mulher Faz o Homem.
Já It’s a Wonderful Life (no Brasil, A Felicidade Não Se Compra) não tem como móbile da mudança de George Bailey sua esposa, Mary Hatch (papel representado por Donna Reed), embora ela, como a morte do pai de Bailey, sejam em parte o motivo que atravanca, de certo modo, a vida do protagonista e fazem com que ele nunca saia da cidade pequena e interiorana em que vive para conquistar seu sonho de cursar uma universidade e ser alguém na vida, e de preferência alguém rico, com um milhão de dólares antes dos trinta anos.
Neste segundo filme de Capra é preciso o motor da possibilidade da prisão e completa ruína (em decorrência de um erro de seu tio bêbado) para que o personagem principal pense em tirar sua própria vida, ao que se recorre, até onde sei, pela primeira vez na história do cinema, ao recurso contrafactual de “como seria o mundo se você nunca tivesse nascido” (um tipo de thought experiment).
Silver Linings Playbook se aproxima muito mais do mecanismo de enredo de Mr. Smith. Clarissa Saunders, a assistente debochada e um tanto alcoólatra, mostra a realidade suja e malandra da política ao ingênuo Jefferson Smith, que por meio de um filibuster é obrigado a falar sem parar, de modo a que não se passe uma votação que atendaria aos interesses egoístas de um malévolo empresário local de seu Estado — seria interessante, em alguma outra ocasião, explicitar os clichês anti-liberais de Capra, como em sua caricatura da figura do banqueiro em It’s a Wonderful Life e a do empresário malévolo que controla o financiamento local de campanhas para o Congresso e assim faz valer seus interesses mesquinhos, em Mr. Smith.
Mas qual a diferença, afinal, entre Clarissa Saunders, em filme de 1939, e a de Tiffany, em filme de 2012, para além do fato inicial de que a segunda nem sobrenome tem? Ora, o modelo de mulher que aparece neste filme da década de 30, pelo menos o da ligada à política, é muito mais forte e, digamos, feminista (e masculino) em comparação com o que se pode ver da personagem desordenada, caótica e carente do filme de 2012, embora esses três adjetivos pudessem ser aplicadas também a Clarissa. Quer dizer, vê-se uma profissão e uma ambição claras em Clarissa, para além do romantismo que se desenvolve no decorrer do filme. Claro, isso se explica também pelo gênero cinematográfico com que Capra está tentando lidar, o drama político. Já a Tiffany cabe apenas salvar Pat.
No fim, há algum mérito nos três filmes mencionados.
Particularmente, naquele que nos interessa no momento, Silver Linings Playbook (lembremo-nos do bobo e revelador título brasileiro, O Lado Bom da Vida), tem-se, do começo ao fim, um lema latino (“Excelsior”) a guiar o personagem principal: “sempre para frente”, “sempre mais”, “sempre melhor”, algo como “excele!”, abusando do imperativo de um verbo pouco usado, exceler; lema apenas tornado factível a partir do momento em que o neurótico obsessivo é obrigado a se comprometer com uma atividade (o preparo para o concurso de dança) e com alguém (a maluquinha carente Tiffany).
Por isso, o mérito do dramalhão estrelado por Jennifer Lawrence é mostrar como duas pessoas, com caso psiquiátrico grave, podem dar sentido mútuo e partilhado a suas vidas. Que a ação parta da protagonista, que ao mesmo tempo antagoniza e eleva o personagem masculino, talvez não deva ser visto como fim dos tempos, em que a masculinidade perdeu sua virilidade e sua força. Desde época imemorial há imbricação recíproca que torna completos e unos dois seres diversos e cheios de incompletude. Ação condutora e paixão conduzida são apenas dois aspectos de uma mesma relação. E isso o filme prova com candor, por meio da personagem da belíssima e charmosa Jennifer Lawrence, que move a peça.
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Lincoln em Dois Takes

por Adriano Correia
Filmes são imagem e ação da fantasia humana; quer dizer, dependem da faculdade da imaginação para se os rodar e pôr à luz. Dependem também de um roteiro, de uma ideia mestra a guiar uma trama, que pode ser verossímil ou, em algum grau, surreal. Lembrar-nos dessas obviedades pode ser interessante quando consideramos filmes que retratam personagens e acontecimentos históricos, dada a distância que há entre fatos históricos ou biográficos e o modo como os reconstruímos em uma narrativa, seja literária, seja teatral (e a sala de cinema nada mais é que um teatro virtual com uma tela sobre a qual se projeta uma construção audiovisual artificial).
Pode-se fazer um paralelo com a situação em que se encontra alguém que enfrenta uma partitura musical, que é um artefato histórico cujas regras de reprodução musical são apenas parcialmente intrínsecas e conhecidas, considerando-se o caso de compositores mortos, cuja intenção para o modo de execução é (quase?) inacessível. Isto é, em uma reprodução da música da partitura se está obrigado a interpretar e, em decorrência de tal, obtém-se alguma expressão íntima e particular, que depende de um artista e de sua performance. Com o que se tem uma reprodução sempre virtual do original, dirigida por um intérprete, o músico — incluindo ou não a interferência de um exegeta regente.
Lembrá-lo, mais uma vez, pode ser interessante considerando o caso que temos em mão: uma breve comparação entre dois filmes que retratam um personagem histórico, que nunca conhecemos pessoalmente, com quem não convivemos, e sobre quem não pudemos formar preconceitos derivados do convívio pessoal e imediato; e não, pois personagens e eventos históricos exigem a mediação de outros que registraram fatos e anedotas, a partir dos quais então formamos algum juízo, mas sempre distante e mediado, diferente da experiência em primeira mão, que é íntima e imediata (no sentido apenas de que não depende de um relato alheio), embora também comporte algum bom grau de subjetividade e deformação.
Assim, toda experiência cinematográfica é uma experiência virtual, do mesmo modo como não deixa de ser algo virtual toda e qualquer narrativa histórica; só que no caso do cinema há um grau maior de virtualidade, e por isso é interessante comparar narrativas e construções — até para que se possa ter algum elemento para explicitar e tentar entender diferenças de apreciação e valoração estética.
Young Mr. Lincoln de John Ford, estrelando Henry Fonda, é um filme de 1939 parcialmente histórico que romantiza o período de formação do futuro presidente, que cedo perde um amor, Ann Rutledge; mesmo não tendo frequentado muito a escola, Lincoln se mostra o modelo de self-made man, pois acaba adquirindo alguma cultura política e jurídica com os poucos livros que calhem em suas mãos. A maior parte do filme se passa com sua chegada em Springfield, em que toma para si a defesa de dois irmãos num caso de homicídio, posto que esses teriam matado um homem em legítima defesa, visto que ele dera um tiro (apenas ouvido) e então um dos dois teria usado um instrumento cortante para matar o homem.
A habilidade de manejo das emoções mais baixas e pungentes do populacho é mostrada em uma cena a seguir, quando uma turba enraivecida parte para matar os dois irmãos presos na delegacia da cidade. Lincoln os acaba convencendo a nada fazer recorrendo ao velho discurso de que não se deve tomar a justiça pelas próprias mãos, cabendo a um acusado o devido processo de direito. Menciona também as paixões que movem a massa que clama pela diversão do enforcamento, e lembra que mesmo ali há homens honestos, que se não estivessem numa multidão raivosa vexariam por seu comportamento.
O resto do filme, sua maior parte, retrata a defesa dos dois rapazes. Contar algo mais seria revelar um spoiler, que deixaremos para o fim do texto, seja para os que já viram o filme, seja para aqueles que irão querer saber por que o filme de Spielberg seria melhor que o de Ford.
Lincoln, de Steven Spielberg, estrelado por Daniel Day-Lewis, retrata o fim da Guerra de Secessão e a batalha pela aprovação da décima terceira emenda, aquela que abole a escravidão. Dizê-lo resume o filme, que não seria muito mais que isso, se a emenda não fosse uma desculpa para mostrar quem e como era de fato essa figura enigmática, soturna e algo sábia em que foi esculpido o maior presidente dos Estados Unidos depois de George Washington.
Do ponto de vista da pintura do personagem, Day-Lewis parece ser o mais próximo que se terá de Lincoln. Embora Fonda faça um bom trabalho, o figurino, a maquiagem e a produção fazem de Day-Lewis a estátua viva de Lincoln.
Ao ponto do texto, porém: se há uma anedota aparentemente muito mais interessante em Young Mr. Lincoln, por que o último filme, lançado 73 anos depois, seria melhor? Ora, pois dado o que dissemos no começo, uma cinebiografia é a representação virtual de um ente histórico, e, nesse quesito, Day-Lewis apresenta um Lincoln com muito mais gravitas e senso de propósito que o jovem, que, mesmo que recorra a subterfúgios de toda sorte para convencer ao júri da inocência de seus clientes, ainda assim não tem a expressão, o conhecimento de mundo e a sagacidade pragmática para realizar algo muito mais complexo que um julgamento que se ganha com o recurso de um almanaque.
O grande problema do primeiro filme é a inocência excessiva com que se age (como nas excessivas e impróprias risadas do juiz e de toda a corte quando o jovem Lincoln faz palhaçadas e humilha o acusador público); a música é algo ingênua e nos faz pensar em desenhos do Pica-Pau e do Pernalonga, em que se toca o mesmo gênero musical, mas com algum contra-evento que mostra a alegre ingenuidade a mover o personagem que acaba por se ferrar.
Já o Lincoln de Spielberg não cai jamais no pastelão, a começar pelo início do filme em que soldados negros e brancos recitam discurso do presidente amado.
Mas é interessante também ver a coincidência entre as atuações de Day-Lewis e Fonda. Ambos fazem um personagem socialmente sagaz, que sabe se portar muito bem nas situações em que se encontra — embora nos dois filmes o maior problema psicológico de Lincoln se alumia em suas relações com as mulheres, sempre conflituosas e algo estranhas. Vemos isso na versão de Ford, em que nada diz quando se encontra na varanda com uma moça que o tirara para dançar; no segundo Mary Todd, sua mulher, questiona-o o tempo todo, não lhe dando tempo para respirar, e exigindo dele uma paciência emotiva enorme.
Nos dois casos tem-se um Lincoln contador de causos, que, aliás, é bem-sucedido socialmente por sua habilidade de encantar e divertir os outros. Isso é boa parte de seu charme, como também seu caráter soturno, pela perda de tantas pessoas em sua vida (como Ann Rutledge e sua mãe). Mas partindo dessa tristeza que ele carrega em si, e da qual nunca se livra, Lincoln acaba praticamente por se fazer num sábio estoico, em cujas mãos reside o futuro de toda uma população negra que é vista como de segunda ou terceira classe.
No final ele acaba aprovando a emenda num esquema corrupto de oferta de empregos na máquina estatal. É curioso como um caso de profunda corrupção tenha dado liberdade a uma classe de humanos que não era considerada humana.
Pode-se dizer que temos em mãos dois casos de glorificação de um homem comum que se fez grande e poderoso. E o cinema tem neste caso o papel ideológico de insistir na heroicidade deste homem, pondo em movimento a vida de um morto que carregou em si as maiores potencialidades e que ajudou a refundar uma nação. Este homem, porém, não é o jovem Lincoln que fazia gracinhas em um tribunal, para que todos rissem espalhafatosamente; era o quieto e velho sagaz.
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Oscar 2013 – Parte 2
Data do post: 1 de fevereiro de 2013
Segunda parte do texto sobre os filmes concorrendo nas principais categorias do Oscar 2013. A primeira parte pode ser lida aqui.

– Les Misérables/Os Miseráveis (em cartaz)
8 indicações
Ator, Atriz Coadjuvante, Filme, Figurino, Cabelo e Maquiagem, Trilha Sonora, Direção de Arte, Mixagem
Anne Hathaway precisa ganhar o Oscar de Melhor Atriz Coadjuvante. Não merece, precisa – e deve ganhar. De fato, há micro-momentos tocantes, em especial quando Fantine canta “I Dreamed a Dream”, mas o que parece um sofrimento genuíno logo se perde em pura ambição, como quando Hathaway aperta os olhos para as lágrimas escorrerem em determinada parte da música. Seu esforço é tão visível – aqui, uma paródia perfeita – que é óbvio que ela precisa do Oscar ou então sua carreira se tornará uma sucessão de tentativas desesperadas de cair nas graças da Academia (mais papéis com mudanças drásticas na aparência? Nicole Kidman, afinal, ganhou por um nariz). Os Miseráveis é justamente isso: uma tentativa desesperada de obter prêmios. Tudo, da fotografia até os figurantes, parece carregar a expectativa de conquistar todos os críticos, todas as lágrimas e todos os aplausos do universo. O musical de Tom Hooper (O Discurso do Rei) é, afinal, o oposto de Amor de Michael Haneke, sem sutileza alguma, se chafurda na dor como um porco no lama. Ao final do filme, senti como se a duração de Os Miseráveis fosse de dois dias corridos e não duas horas e quarenta. Tão exaustivo que não tenho forças sequer para falar mal.
– Life of Pi/As Aventuras de Pi (em cartaz)
11 indicações
Filme, Fotografia, Direção, Edição, Trilha Sonora, Música, Direção de Arte, Edição de Som, Mixagem, Efeitos Visuais, Roteiro Adaptado
Há um único motivo para ver As Aventuras de Pi: o tigre. Acredite, é mais que suficiente. Há toda uma parábola religiosa por trás do relato do menino náufrago à deriva em um bote salva-vidas com um tigre, mas não se engane: o filme apenas menciona fé e religião, sem nunca lidar de fato com essas questões. É como uma sessão da tarde, agradável e um tanto sentimental, mas sem muita profundidade – culpa provavelmente do diretor Ang Lee, que transforma até Woodstock em mais uma tarde no playground. O que importa mesmo é o tigre fenomenal. Vejam pelo tigre, pelos efeitos especiais e o som incrível (o tigre!!).

– Lincoln (em cartaz)
12 indicações
Ator, Ator Coadjuvante, Atriz Coadjuvante, Filme, Fotografia, Figurino, Direção, Edição, Trilha Sonora, Direção de Arte, Mixagem, Roteiro Adaptado
Daniel Day-Lewis é o melhor ator vivo. Mesmo com todas as piadas sobre o seu método um tanto quanto ridículo de imersão nos personagens, não há discussão. Ao contrário de Anne Hathaway como Fantine, poucas atuações nos fazem esquecer do ator em si como Day-Lewis consegue. Mesmo assim, seu papel em Sangue Negro, de Paul Thomas Anderson, continua muito mais marcante e Lincoln também não é o melhor filme, entre os mais recentes, de Steven Spielberg – Cavalo de Guerra continua muito mais belo e emocionante. Composto quase que inteiramente de cenas internas, possui diálogos longos que, por vezes, são tão desnecessários quanto as anedotas do presidente. A vida em família, bem como o conflito com o filho mais velho de Lincoln (interpretado por Joseph Gordon-Levitt) parecem sem importância alguma para a trama que é mais sobre a abolição da escravatura do que sobre o presidente. O resultado é um filme bom, mas que não sabe muito bem a que veio. Deve ganhar os maiores prêmios da noite pelas questões que aborda (com seriedade total, não como Django Livre), mas é tão esquecível quanto O Discurso do Rei ou Uma Mente Brilhante. Para ter uma noção melhor da figura do presidente americano, só assistindo A Mocidade de Lincoln (Young Mr. Lincoln), dirigido por John Ford em 1939, com Henry Fonda no papel principal.

– The Master/O Mestre (em cartaz)
3 indicações
Ator, Ator Coadjuvante, Atriz Coadjuvante
Pela primeira metade de O Mestre, fiquei esperando o filme começar. Pela segunda metade, fiquei esperando terminar. Como toda obra de Paul Thomas Anderson (Sangue Negro, Magnólia, Boogie Nights), a fotografia é incrível, a música é diferente, espetacular – mas não havia mais nada lá. Mais nada além de Joaquin Phoenix. Sim, Daniel Day-Lewis é o melhor ator vivo, mas Phoenix merece ganhar. Em O Mestre, ele anda como um cabide humano: o pescoço encolhido, os ombros inclinados para frente, a cabeça para trás. Imagine um cabide tão alcoólatra que bebe até óleo de míssil. Da mesma forma que As Aventuras de Pi vale pelo tigre, O Mestre vale pela atuação de Joaquin Phoenix – ele parece, de fato, um bicho, uma criatura. Há uma cena lindíssima em que uma única lágrima faz um caminho demorado por entre as rugas estranhas das bochechas que Phoenix adquiriu nos últimos anos. De resto, não há nada de fato sendo desenvolvido. Sim, o culto retratado é baseado mesmo na cientologia, o questionário de “admissão” é basicamente o mesmo, mas e daí? O filme não flui como uma progressão, é composto por segmentos – belos segmentos, com excelentes atores e tudo mais – mas sem a força de Sangue Negro, obra-prima de Anderson. A frase mais linda, dita por Phillip Seymour Hoffman, daria sentido ao filme se tivesse alguma relação com o que vem antes ou depois, mas falta conexão ao filme como todo. Pena.

– Moonrise Kingdom
1 indicação
Roteiro Original
Moonrise Kingdom talvez não seja o melhor filme que Wes Anderson já fez, mas é certamente um dos melhores. Em outubro do ano passado, na resenha que escrevi quando o filme estreou, disse que não é a técnica obsessiva do diretor que provoca tanto fascínio, mas sua habilidade de retratar emoções muito específicas com sinceridade. Relembrando o filme agora, não são os enquadramentos, os detalhes das roupas ou dos objetos que me chamam mais atenção, mas as emoções, por exemplo, da menina que se sente um estorvo para a própria família ou do menino órfão detestado pelos amigos. O que se retém dos filmes de Wes Anderson, muito além da aparência considerada por muitos como forçada, é sempre a substância de algo bastante identificável.

– Silver Linings Playbook/O Lado Bom da Vida (em cartaz)
8 indicações
Ator, Ator Coadjuvante, Atriz, Atriz Coadjuvante, Filme, Direção, Edição, Roteiro Adaptado
Não é Bradley Cooper a estrela de O Lado Bom da Vida, mas Jennifer Lawrence, a atriz de apenas 22 anos que é a solução para todas as Anne Hathaways desesperadas por atenção e reconhecimento. Indicada ao Oscar pela primeira vez em 2011 pelo seu papel em O Inverno da Alma – um drama sério, mas honesto, nada como Os Miseráveis – é difícil imaginá-la como moça indefesa ou totalmente desprovida de humor. Em O Lado Bom da Vida, Lawrence interpreta Tiffany, uma personagem que é tão agressiva quanto vulnerável, muito mais complexa do que uma prostituta moribunda. Para lidar com o trauma de ter perdido o marido ainda jovem, Tiffany arranja uma série de parceiros sexuais que utiliza e descarta como objetos. Pat (Cooper) acabou de sair da reabilitação após agredir o amante da esposa pela qual continua perdidamente apaixonado. Unidos pela dor e o conhecimento de remédios de tarja preta, começam uma amizade estranha que sugere, é claro, a possibilidade de um novo amor. A grande qualidade do filme é que as doenças dos personagens não são tratadas levianamente como entretenimento esquisitinho como faz Pequena Miss Sunshine, por exemplo – são sim levadas a sério, levando em conta todo o transtorno que causam inclusive aos familiares. Apesar de sua consistência, O Lado Bom da Vida é apenas bom, com boas atuações (a indicação de Melhor Atriz Coadjuvante para Jackie Weaver, que mal aparece, é exagero) e, como As Aventuras de Pi, é digno de uma sessão da tarde.

– Zero Dark Thirty/A Hora Mais Escura (estreia prevista para 15/02)
5 indicações
Atriz, Filme, Edição, Edição de Som, Roteiro Original
Eu quis tanto gostar de A Hora Mais Escura, me esforcei tanto. O que pode ser mais emocionante do que a caçada por Osama Bin Laden depois do 11/9? Aparentemente, qualquer coisa. É possível pular quase que toda a primeira hora do filme, de tão entediante e desnecessária. A performance de Jessica Chastain como protótipo de mulher forte que desafia o comando é ora risível, ora irritante. Até parece que o diretor é homem, de tão estereotipada que a personagem ficou – melhor dizendo, tenho certeza de que vários diretores homens mais capazes fariam um trabalho muito melhor. Só o final presta, e só um pouco. Até lá, tudo é clichê. Quarenta minutos antes, a diretora dá todos os sinais possíveis de que determinado personagem vai morrer – e morre mesmo. É como um episódio de Homeland, só que muito (muito!) mais longo, chato e previsível. Sem falar na fotografia pseudo-realista de câmera na mão de um senhor com Parkinson. Que desperdício. Os críticos americanos só estão elogiando pelo o que o filme representa – um final justo para o episódio de 11/9 – mas não pelo o que ele de fato é: uma bobagem chata. Só é permitido falar mal se for pelas cenas de tortura (que nem são tão graves assim), mas a verdade é que A Hora Mais Escura é o Crash – No Limite do ano.
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Oscar 2013 – Parte 1
Data do post: 25 de janeiro de 2013
Não é todo ano que a maioria dos filmes indicados ao Oscar podem ser assistidos nos cinemas antes da cerimônia no último domingo de fevereiro. Abaixo, a primeira parte de um guia crítico (em ordem alfabética) com os títulos concorrendo aos principais prêmios. Há tempo suficiente para assisti-los e escolher os favoritos, pois mesmo que um Oscar não seja um símbolo incontestável de qualidade – vide Crash, Melhor Filme em 2005 – sem dúvida alguma que o prêmio abre portas para os vencedores, possibilitando que façam mais e mais filmes.

– Amour/Amor (em cartaz)
5 indicações
Atriz, Filme, Direção, Filme Estrangeiro, Roteiro Original
Vencedor da Palma de Ouro no Festival de Cannes, Amor talvez seja o melhor filme do diretor austríaco Michael Haneke (A Fita Branca, Caché, Violência Gratuita). Comprovando a máxima rodrigueana de que o amor nada tem a ver com felicidade, conta a história de um casal já na faixa dos 80 anos, com filhos e netos criados vivendo suas próprias vidas. Durante o café da manhã, Anne (interpretação da veterana Emmanuelle Riva, de Hiroshima Meu Amor) sofre um derrame. Sua saúde vai se deteriorando ao longo do filme, enquanto seu marido Georges (Jean-Louis Trintignant) permanece ao seu lado, responsável pelas suas necessidades mais básicas até o fim. Sabemos que ela vai morrer – logo na primeira cena, os bombeiros arrombam o apartamento do casal e a encontram morta na cama, cercada de flores – mas faz parte da natureza humana desejar que o inevitável não aconteça e torcer pela sua reabilitação. Pela sinopse, parece que Amor é um dramalhão repleto de demonstrações fajutas de amor e coragem, mas não é assim. Trata-se de uma obra extremamente madura e sincera, que aborda até os piores momentos com elegância e sutileza. Amor concorre na categoria de Roteiro Original, mas parece algo baseado em uma história real. Trata-se de uma história tão familiar que é impossível não traçar paralelos com nossos pais, nossos avós ou, em última instância, nós mesmos. Afinal, quando a beleza e a juventude se vão, o amor assume outras características que muitos de nós sequer desconfiam.

– Argo (em cartaz)
7 indicações
Ator Coadjuvante, Filme, Edição, Trilha Sonora, Edição de Som, Mixagem, Roteiro Adaptado
Depois de Amor, Argo é o que mais merece o Oscar. Trata-se de um filme simples, mas inteligente, inusitado, que consegue a proeza de manter o espectador tenso por todo o tempo sem dispensar o senso de humor. É também sobre Hollywood (sem ser meta-moderninho), sobre como o governo americano deixou o Canadá bancar o herói para proteger o segredo de uma missão de resgate que realmente ocorreu. Tudo sobre Argo é incrível e recompensador. A indicação de Ben Affleck como Melhor Diretor era praticamente certa, mas não aconteceu. Pouco depois dos indicados ao Oscar serem anunciados, Affleck ganhou o Critics Choice Awards de Melhor Diretor e discursou, “Eu gostaria de agradecer à Academia…Brincadeira! Esse é o que conta de verdade!” Melhor resposta possível.
Minha resenha do filme aqui.

– Beasts of the Southern Wild/Indomável Sonhadora (estreia prevista para 22/2)
4 indicações
Atriz, Filme, Direção, Roteiro Adaptado
Um acontecimento raríssimo: a cretinice do título brasileiro – só tias-avós podem gostar de algo chamado “Indomável Sonhadora” – combina com a cretinice do filme em si. Trata-se de uma porcaria mal filmada, com câmera perpetuamente tremida (de propósito, claro, mas um acidente seria muito melhor) situada em um aparente cenário pós-apocalíptico concebido pelo Al Gore. É como a junção de uma Amélie Poulain retardada com Uma Verdade Inconveniente sob efeito de drogas. Só consigo entender o sucesso de crítica de Indomável Sonhadora por causa dos elementos de ambientalismo que o diretor arrasta para a trama pseudo-tocante que é, na verdade, irritante e sem razão de ser. Um filme para aqueles que quando crianças prenderam sacos plásticos nas cabeças, cortaram o oxigênio do cérebro e agora só usam ecobags. Outra coisa: certeza que a menina só foi indicada ao Oscar porque queriam ter na mesma categoria uma atriz de 85 anos (Emmanuelle Riva) e outra de 9 para a mídia toda ir ao delírio.

– Django Unchained/Django Livre (em cartaz)
5 indicações
Ator Coadjuvante, Filme, Fotografia, Edição de Som, Roteiro Original
Em geral, gente que não costuma gostar dos filmes do Tarantino – gente adulta demais para mim – costuma gostar de Bastardos Inglórios, uma obra mais contida nas referências pop e com um contexto histórico (repleto de liberdades poéticas, claro) que serve de desculpa para os mais adultos sentirem prazer com toda a violência. Afinal, uma violência absurda contra nazistas é muito mais fácil de engolir do que uma longa luta de espada com 88 membros mascarados da yakuza. Assim, Bastardos Inglórios passa essa impressão de ser mais maduro, mais sóbrio e não tão fantástico quanto seus outros filmes (com exceção de Jackie Brown). A primeira metade de Django Livre é assim. Tirando a trilha sonora e alguns movimentos de câmera que prestam homenagem aos anos 70, é como um filme dos irmãos Coen; engraçado, com situações e diálogos inusitados, mas também sério, denso. Não há como abordar a escravidão no sul dos Estados Unidos sem alguma seriedade, mas também não há como Tarantino fazer algo sem algum senso de humor – do começo ao meio, tal mistura é digna de mestre, mas também um tanto melancólica: o diretor finalmente cresceu? Com uma explosão insana de violência inacreditável, Tarantino manda a seriedade às favas e volta às características todas que os detratores tanto odeiam, mostrando de forma gloriosa que continua exatamente o mesmo – boa notícia para alguns, má notícia para os outros. Estilo a parte, Django Livre trata de questões raciais como há muito tempo não se fazia; sem medo algum de parecer incorreto, mas também sem forçar discursos sobre igualdade goela abaixo. Melhor do que qualquer coisa que Spike Lee possa fazer.

– Flight/O Voo (estreia prevista para 08/2)
2 indicações
Ator, Roteiro Original
Um filme banal e esquecível de Robert Zemeckis (De Volta Para o Futuro, Contato, Náufrago, etc.) sobre um piloto interpretado por Denzel Washington que consegue aterrizar com sucesso um avião em pane. O acidente que poderia ter sido catastrófico mata apenas seis pessoas. Durante a investigação, porém, descobrem que ele estava sob efeito de álcool e drogas – ele precisa então lidar com o julgamento federal, a opinião pública e o próprio vício. A trama em si tem elementos interessantes, mas tudo mais, da direção à escolha de músicas, é puro clichê de filme dos anos 90. Até a atuação indicada de Denzel (deve ser cota) é risível. Em determinada cena, lutando contra a vontade de beber, ele abre o frigobar do quarto do hotel (ridiculamente cheio de bebidas alcóolicas), lambe os beiços e dá um gole seco – atuação digna do Sr. Madruga de Chaves.

– The Impossible/O Impossível (em cartaz)
1 indicação
Atriz
O Impossível é dirigido por Juan Antonio Bayona, diretor do filme espanhol O Orfanato, terror excelente que não tem absolutamente nada de clichê. Com a capacidade do diretor, estrelas como Naomi Watts e Ewan McGregor, um elenco infantil de talento sem igual, sem falar no orçamento bem mais generoso, era de se esperar que O Impossível fosse magnífico, mas não é. Contém sim imagens poderosas que nos fazem sentir o desespero de um tsunami e a condição gravíssima da personagem de Naomi Watts, mas a trilha sonora constante, composta de violinos chorosos – como se o drama da situação não fosse suficiente – e algumas escolhas estéticas deveriam causar vergonha em qualquer pessoa que tenha visto uma quantia modesta de filmes nos últimos vinte anos. Afinal, estamos em 2013. Chega de câmera rodopiando personagem que procura alguém no meio de uma multidão.
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O Melhor dos Melhores de 2012
Data do post: 28 de dezembro de 2012
O Rotten Tomatoes, site que calcula a média da recepção dos filmes, divulgou a lista dos mais elogiados pela crítica em 2012. Há divergências entre crítica e público. O documentário americano sobre a igreja católica Mea Maxima Culpa: Silence In The House of God, por exemplo, recebeu 96 da crítica e apenas 67 do público. O contrário disto acontece com The Hobbit, que está fora da lista por ter recebido 65 da crítica, mas que tem 81 do público. Entre os 100 eleitos, só 60 têm nota de público igual ou superior a 80 – e só 18 tem nota igual ou superior a 90.
Dos 60 filmes que fizeram sucesso tanto com a imprensa como com o público, 26 são documentários (7 relacionados a música: Beware of Mr. Baker, sobre o bateirista da banda Cream; Paul Williams Still Alive, sobre o ator, cantor e compositor famoso na década de 70; Searching for Sugar Man, outro músico dos anos 70; Marley, sobre Bob Marley; Crossfire Hurricane, sobre o aniversário de 50 anos dos Rolling Stones; Shut Up and Play the Hits, sobre o fim do grupo LCD Soundsystem) e 5 animações (Finding Nemo 3D e Monsters Inc. 3D, ambos da Pixar, exibidos este ano em 3D, Yellow Submarine, relançamento do clássico dos Beatles, The Secret World of Arriety, do adorável estúdio japonês Ghibli, e Wreck-it Ralph, da Disney).
Se formos buscar um consenso entre as notas dadas pelos críticos e também pelos espectadores – pois um bom filme deve necessariamente agradar os dois – os melhores dos melhores de 2012 são:
Documentário:
1 – Jiro Dreams of Sushi
Sobre o mestre do sushi, Jiro Ono.
2 – Ai Weiwei: Never Sorry
Sobre o artista e ativista chinês Ai Weiwei e seus conflitos com o governo da China.
3 – Searching for Sugar Man
Dois sul-africanos que resolvem descobrir o que aconteceu com o seu ídolo da década de 70.
4 – Marley
Bob Marley, do nascimento até a morte de câncer.
5 – Indie Game: The Movie
Como programadores e desenvolvedores independentes de jogos trabalham.
6 – The Other Dream Team
Sobre o time de basquete da Lituânia que, sob o regime soviético, se tornou símbolo da independência.
7 – Portrait of Wally
Sobre a obra de Egon Schiele roubada pelos nazistas e descoberta nas paredes do museu de Arte Moderna em 1997.
8 – Carol Channing: Larger Than Life
Sobre a lenda da Broadway e vencedora de três Tony Awards, Carol Channing.
9 – 5 Broken Cameras
A resistência pacífica de um fazendeiro palestino contra o exército israelense.
10 – The Central Park Five
Sobre o caso de 1989 em que um grupo de negros e latinos foi acusado de estuprar uma mulher branca no Central Park em Nova Iorque. Depois de cada um passar anos na prisão, um estuprador em série confessou o crime.
Em seguida: Marina Abramovic: The Artist is Present (minha resenha aqui), The House I Live In, Head Games, West of Memphis, Side by Side, Shut Up and Play the Hits.
Ficção:
1 – Wild Bill
Dirigido pelo ator Dexter Fletcher, sobre um homem que sai da prisão e encontra os filhos de 11 e 15 anos abandonados pela mãe, se virando sozinhos.
2 – Argo
Minha resenha aqui.
3 – The Avengers
É questionável, eu sei. Orgasmo nerd do ano, o filme que reuniu Homem de Ferro, Capitão América, Thor, Hulk, etc., era sem dúvida o mais aguardado de 2012. Acabou conquistando críticos nerds também.
4 – Silver Linings Playbook
Dirigido por David O. Russell (The Fighter, Three Kings), com Bradley Cooper e Jennifer Lawrence no elenco.
5 – The Hunt (Jagten)
Drama dinamarquês com Mads Mikkelsen (o vilão que chora sangue em Casino Royale).
6 – Life of Pi
Aventura do diretor Ang Lee (O Tigre E o Dragão, Brokeback Mountain), já está recebendo vários prêmios.
7 – Django Unchained
Filme de Quentin Tarantino sobre a escravidão no sul dos Estados Unidos, com Leonardo DiCaprio e os ganhadores do Oscar, Jamie Foxx e Christoph Waltz.
8 – Wreck-it Ralph
Animação da Disney sobre um vilão de video-game que decide mudar de jogo e se tornar o herói. Vozes de John C. Reilly e Sarah Silverman.
9 – Sightseers
Comédia britânica sobre um casal que decide viajar em um trailer.
10 – The Dark Knight Rises
Minha resenha aqui.
Em seguida: Monsieur Lazhar, Moonrise Kingdom (resenha aqui), Skyfall, Amour, Lincoln, Looper (resenha aqui).
É possível que estes não sejam de fato os melhores filmes de 2012 e que várias injustiças tenham sido cometidas; que alguns excelentes tenham ficado de fora e que outros de menor valor tenham ganhado um destaque desmerecido, mas esta lista representa um raro consenso entre aqueles que se dizem especialistas e os verdadeiros consumidores das obras. Vale assistir (alguns serão lançados agora em janeiro) e decidir por conta própria.
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Artista Presente

Vivemos em tempos em que não é mais permitido estabelecer um limite entre o que é arte ou não. Ou aceitamos a proposta do artista, seja qual ela for, ou não entendemos nada sobre arte. Pode ser uma cama desarrumada (“My Bed” da artista britânica Tracey Emin, que está com exposição em São Paulo até fevereiro de 2013 no White Cube) ou cocô enlatado (“Merda d’artista” do italiano Piero Manzoni); é preciso acolher toda forma de expressão, compreender e enxergar valor artístico em cada obra, por mais que possa nos parecer insignificante ou até mesmo desprezível. Nessas circunstâncias, só restam duas opções ao público: admirar, junto dos demais, a roupa nova do imperador ou então manter distância de museus de arte contemporânea. Mas se ainda é possível encontrar algo capaz de comover, o trabalho recente de Marina Abramovic oferece alguma esperança.
“Eu tenho 63 anos, eu não quero mais ser alternativa,” diz a artista sérvia no documentário Marina Abramovic – Artista Presente, exibido no Festival do Rio deste ano. No filme dirigido por Matthew Akers e Jeff Dupre, Abramovic utiliza o próprio prestígio na tentativa de tirar o ranço de “arte alternativa” da performance, tornando-a mais acessível àqueles que não são experts no campo. Foi só depois de quarenta anos de carreira, com muito do seu tempo dedicado à administração e ao marketing, que Abramovic conquistou, com o auxílio de ampla cobertura da mídia, o status de estrela do universo artístico – apenas as fotografias que ilustram momentos de suas performances são comercializadas por preços que vão de 25 até 50 mil dólares.
Em 2010, o Museu de Arte Moderna de Nova Iorque (MoMA) fez uma retrospectiva da carreira da artista, a maior da história do museu já dedicada à performance. Durante os três meses da exibição, alguns dos seus trabalhos mais importantes foram recriados por novos artistas enquanto a própria Abramovic apresentava “The Artist is Present”, obra em que permaneceu sentada, no meio de uma sala iluminada, durante todo o horário de funcionamento da exposição. O público formava uma fila e cada pessoa podia se sentar à sua frente pelo tempo que quisesse, sem conversar ou tocar em Marina, apenas olhando para ela. Depois de algum tempo (que podia variar entre cinco minutos até duas horas), alguns sorriam, outros começavam a chorar – na verdade, quase todos começavam a chorar.
No documentário, que acompanha a artista desde a preparação até o dia final da mostra, Marina diz, durante uma entrevista com um jornalista, que ninguém mais lhe pergunta por que isso é arte, que ou as pessoas passaram a entender ou todo mundo finge que entende. A performance, para Abramovic, seria uma abordagem direta e emocional, inferior apenas à música, em que o artista não se utiliza de qualquer suporte ou narrativa para se comunicar com o público – não importa tanto o que ele faça, mas com que estado de espírito ele o faz e que tipo de reação provoca nas pessoas.
“É muito difícil fazer algo que é quase nada,” diz Marina sobre “The Artist is Present”, obra cujo intuito principal é, levando o tempo que for necessário, estabelecer uma conexão direta e individual com o público, fazer com que cada um compartilhe de um mesmo estado mental que é muito menos apressado e mais voltado ao presente do que estamos acostumados. Por mais que muitas das performances anteriores de Abramovic possam parecer bobas hoje em dia (em “Art Must Be Beautiful, Artist Must Be Beautiful”, de 1975, ela penteia o cabelo obsessivamente enquanto repete o título da obra por 45 minutos como se fosse um mantra), “The Artist is Present” representa um marco na história da performance porque concretiza aquilo que todo artista pretende – seja um cineasta, um músico ou um escritor – que é criar algo que de fato comova as pessoas.
O documentário em si é também bastante emotivo. Em uma palestra na Itália, Marina lê seu manifesto. Muitos dos tópicos são discutíveis. Por exemplo, “um artista não deve fazer concessões”; Marina era famosa na década de 70 por uma série de performances violentas em que se cortou, perdeu a consciência, teve convulsões e quase foi assassinada. O abrandamento de sua obra compõe um processo natural de amadurecimento ou uma tentativa de ceder aos gostos de um público maior? Continua, “um artista não deve se tornar um ídolo”; com filas gigantescas de pessoas que chegaram a dormir na calçada para conseguir participar de “The Artist is Present”, é possível dizer que Abramovic não seja um ídolo? E, então, “um artista não deve se apaixonar por outro artista”; começa aí uma das partes mais comoventes do filme, que aborda o seu relacionamento com o artista alemão Ulay, com quem viveu e trabalhou por mais de dez anos.
Em 1988, depois de anos de tensão, a dupla resolveu se separar com uma última performance, em que os dois partiram das extremidades opostas da Muralha da China e se encontraram no meio para dizer adeus. Por anos, os dois ficaram sem se falar e só se reencontram novamente durante o documentário, quando, às vésperas da exposição de Marina no MoMA, são forçados a relembrar o passado, os trabalhos que fizeram juntos e os motivos da separação.
Ulay, como o resto do público, se senta à frente de Marina durante “The Artist is Present”. O silêncio entre os dois é um dos momentos mais eloqüentes e tocantes do filme: Ulay parece envergonhado, sorri e balança a cabeça constantemente, os olhos marejados; Marina chora, com um sorriso discreto nos lábios, mas não sem algum esforço e alguma dor. É um momento que é como uma performance dentro da performance – os que estão presente espelham suas experiências de relacionamentos românticos que já se acabaram ou então expectativas de algum que sequer começou, e é muito difícil não se emocionar. Ulay finalmente se retira, e sobra o público anônimo, composto por crianças, jovens e idosos, que parece reagir com a mesma intensidade de um ex.
Há uma parte curiosa do documentário em que Marina conhece o mágico David Blaine que lhe propõe uma participação em sua performance, mas adicionar o ilusionismo à sua arte seria como misturar água e óleo. O comprometimento de Abramovic com cada um que lhe visita durante a exposição é real. Não se trata de mágica ou atuação.
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Argo, O Incrível
Data do post: 9 de novembro de 2012

Antes de qualquer coisa, quero logo dizer que as resenhas de Argo, filme mais recente de Ben Affleck, têm sido um tanto exageradas. Não acho que seja o melhor do ano e nem tenho uma opinião formada sobre qual seria. No Rotten Tomatoes, site que calcula a média das notas dadas aos filmes tanto pelo público como pelos críticos especializados, Argo aparece em vigésimo primeiro na lista dos cem melhores de 2012. Também acho que considerar Ben Affleck como o novo Clint Eastwood é, sendo eufemista, um pouco prematuro. Affleck dirigiu três longas; Eastwood, mais de trinta. É melhor esperar mais alguns anos antes de começar a compará-los. Mas, tirando essas considerações necessárias do caminho, é preciso reconhecer que, de fato, Argo praticamente não tem defeitos.
Baseado em fatos reais, o filme se passa em 1979, na época da crise diplomática entre o Irã e os Estados Unidos em que 52 americanos foram mantidos reféns por radicais iranianos. Durante a ocupação de uma embaixada americana no Irã, apenas seis funcionários conseguiram escapar. Refugiados na casa do embaixador canadense, o governo americano passa a estudar uma forma de trazê-los de volta sem que sejam capturados nas fronteiras ou aeroportos fortemente vigiados pelos extremistas. Há, então, todo tipo de ideia maluca que só vem a comprovar a escassez de cérebro na maioria dos servidores públicos, a mais ridícula de todas sendo enviar seis bicicletas para que os refugiados escapem do país por caminhos terrestres alternativos (um trajeto de centenas e centenas de quilômetros).
A ideia mais absurda de todas, contudo, acaba sendo a que mais tem chances de sucesso: montar uma produção falsa de um filme falso, e tentar tirar os seis funcionários do país como se eles pertencessem à equipe técnica. Começa, então, a busca por um produtor sediado em Hollywood que dê publicidade, além de credibilidade internacional, ao projeto, sem falar em um roteiro que justifique a escolha de uma locação iraniana. Optam, então, pelo roteiro de ficção científica entitulado Argo, sobre um planeta alienígena com uma aparência árida e rochosa, semelhante à do Oriente Médio. E, logo, o agente Tony Mendez, interpretado por Ben Affleck, desembarca no Irã disfarçado de produtor executivo para resgatar seus compatriotas.

O verdadeiro Tony Mendez e Ben Affleck.
Só pelo enredo, Argo já merece atenção. Quando, nos créditos finais, vemos as fotografias das pessoas que realmente participaram de uma missão tão extraordinária, é que a mágica do filme se consolida em nossa memória e confirma o valor da experiência de tê-lo visto. Além disso, os diálogos são espertos e engraçados, os atores estão ótimos (além de Affleck, Alan Arkin, John Goodman, Bryan Cranston, entre outros), e a tensão constante que o filme provoca é simplesmente excelente. Seria tão mais fácil, em um thriller, recorrer à perseguições de carros bombásticas, armas disparando para todos os lados, lutas corpo-a-corpo extenuantes, etc., etc.. Não há nada disso em Argo. A tensão que sentimos é aquela de quando, por mais inocentes que sejamos, entregamos o passaporte para a polícia federal ao visitar um país estrangeiro – tensão esta, é claro, multiplicada por mil.
Resenhas elogiosas assim são, até certo ponto, chatas de se escrever (e de ler também, eu imagino). Mas me esforçando para encontrar algum defeito no filme, diria que há uns míseros segundos completamente gratuitos do peitoral desnudo do Ben Affleck – que, aliás, está mais bonito aos 40 do que quando era jovem. Mas se até Eastwood fez com que uma garota que poderia ser sua neta se atirasse para cima dele em Crime Verdadeiro (True Crime, 1999), por que Affleck não pode ser vaidoso também?
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O Bom Terror
Data do post: 26 de outubro de 2012

Kathy Bates em Misery.
O Halloween se aproxima e a internet borbulha com listas de filmes de terror. Ano após ano, é muito difícil fugir das indicações óbvias (O Exorcista, O Bebê de Rosemary, O Iluminado, etc.) porque os bons filmes do gênero são raros se levarmos em conta a quantidade de lançamentos inexpressivos. É preciso ignorar um lixo gigantesco (Atividade Paranormal 1, 3 e 4, todos os Jogos Mortais, Albergues e assim por diante) se quisermos manter alguma admiração pelo gênero que, quando executado da maneira correta, é tão envolvente quanto perturbador. Afinal, um bom filme de terror não acaba quando a sessão termina, mas nos acompanha até em casa e atrapalha o nosso sono por noites a fio. Em tempos em que uma obra de arte é medida não por quesitos de beleza estética ou dificuldade de execução, mas pela capacidade de provocar sensações e sentimentos no observador, o horror não deve ser menosprezado como mero entretenimento, mas respeitado e analisado.
Nos primórdios do cinema, o terror surge atrelado a pelo menos duas grandes correntes artísticas: o expressionismo (como em O Gabinete do Dr. Caligari de Robert Wiene e Nosferatu de F. W. Murnau) e o surrealismo (A Queda da Casa de Usher, conto de Edgar Allan Poe adaptado por Buñuel e dirigido por Jean Epstein, Vampyr de Carl Th. Dreyer, entre outros). Com os filmes de terror da Universal, começam as adaptações em série de clássicos da literatura: Lon Chaney em O Corcunda de Notre Dame, O Fantasma da Ópera; Conrad Veidt no maravilhoso O Homem Que Ri; Bela Lugosi em Drácula; Boris Karloff em Frankenstein. Nos anos 40, da mesma forma que Orson Welles inaugura o cinema verdadeiramente moderno com Cidadão Kane, portador de linguagem própria, independente da literatura e do teatro, Val Lewton cria o terror moderno. Com uma linguagem cinematográfica magistral e repetida à exaustão até os dias de hoje, Lewton produziu filmes inteligentíssimos, apesar dos títulos bobos, como Sangue de Pantera, A Morta-Viva e O Túmulo Vazio.
Nos anos 50, temos as intervenções de William Castle nas salas de cinema, como esqueletos infláveis que brilhavam no escuro e que surgiam em momentos-chave. O resultado final do recurso até podia ser risível, mas era uma tentativa genuína de criar uma experiência diferente que fosse capaz de abalar a sensação de segurança do espectador (o resultado disso, hoje, é justamente o 4D). Mais adiante, temos outras tantas adaptações (algumas excelentes, outras nem tanto) de Poe, autor favorito dos cineastas de terror, com Vincent Price dirigido por Roger Corman; o ultra-colorido do estúdio britânico Hammer; A Noite dos Mortos-Vivos de George Romero, responsável por adicionar zumbis à cultura popular mundial. Isso tudo sem falar em Psicose e Os Pássaros de Hitchcock.
A década de 70 é um período especialmente fecundo e o gênero ganha mais algumas obras-primas: Tubarão de Spielberg (a Mostra Internacional de Cinema de São Paulo deste ano está exibindo uma cópia restaurada do filme), O Inquilino de Polanski, Carrie de Brian de Palma, Alien de Ridley Scott e o já citado O Exorcista. É também na mesma década que se inicia o sub-gênero slasher em que psicopatas misteriosos matam todos que encontram pelo caminho em filmes como Halloween e O Massacre da Serra Elétrica (abrindo caminho para Sexta-feira 13 e derivados). Já nos anos 80, outros títulos dignos de nota são: O Enigma de Outro Mundo de John Carpenter (uma refilmagem que, para variar um pouco, é muito superior ao filme original), A Mosca de Cronenberg e A Hora do Pesadelo de Wes Craven que, apesar das seqüências mais bregas, possui uma ideia central verdadeiramente assustadora – o perigo do sono e da inconsciência.
Nos anos 90, Craven reflete a sua própria criação com O Novo Pesadelo – O Retorno de Freddy, em que os filmes de Freddy Krueger passam a afetar a vida pessoal da atriz principal da série, e também Pânico, um grande exercício metalinguístico que tenta renovar a tradição do cinema de terror, mas que acabou incentivando produções péssimas como a série de Eu Sei O Que Vocês Fizeram no Verão Passado, remakes sofríveis como A Casa Amaldiçoada, A Casa da Colina, o infame Psicose de Gus Van-Sant. A renovação que Craven pretendia com Pânico só ocorre de verdade em 1999 com A Bruxa de Blair, inaugurando o subgênero de found-footage (usado em Cannibal Holocaust em 1980, mas não com o mesmo impacto). Treze anos após o sucesso de Blair, o estilo de filmagem pseudo-documental ainda é imitado – às vezes mal, como em V/H/S, filme de 2012 sem data de estreia prevista para o Brasil, e às vezes bem, como em Atividade Paranormal em Tóquio e Atividade Paranormal 2. Porém, os espanhóis [Rec] e [Rec]2 seguem disparados como os melhores do estilo (o mais recente, [Rec]3, é uma decepção).
No final da década de 90 e começo dos anos 2000, foi O Chamado de Hideo Nakata, terror japonês tecnológico, mas com base em tradições bastante antigas do teatro kabuki – e que foi muito bem refilmado nos Estados Unidos por Gore Verbinski em 2002 – que provocou uma nova onda no gênero. Tentando pegar carona no sucesso de O Chamado, O Grito (refilmagem americana de Ju-On), por sua vez, não conseguiu adicionar nada de interessante ao original. Em 2005, Walter Salles transformou Água Negra, um terror íntimo e pessoal de Nakata, em um drama social dispensável. Depois do terror asiático, veio o chamado torture-porn (O Albergue, Jogos Mortais, etc.) e foi aí que o gênero degringolou. Afinal, com esse tipo de filme, o objetivo não é mais assustar ou perturbar, mas só enojar o espectador. É preciso haver alguma coisa além de sangue, tripas e órgãos falsos. É preciso uma história que se sustente sozinha, uma técnica muito apurada que esconda ou revele o necessário para provocar a imaginação (muito mais eficaz do que qualquer cena explícita).
Felizmente, o torture-porn já está demodé agora. No momento, quem lidera as bilheterias mundiais é Atividade Paranormal 4 – um mal menor. Vendo qualquer filme da série, já sabemos que objetos inanimados vão se mover sozinhos, mas que nunca veremos coisa alguma de fato. Os responsáveis pelas “trollagens” todas são sempre entidades invisíveis, nunca reveladas. E isto se aproxima mais do que o terror deve ser do que a série Jogos Mortais que, além de besta, tem uma fotografia saturada e uma edição metida à moderninha completamente patéticas. Com o lançamento de O Segredo da Cabana em novembro, as coisas devem mudar um pouco. Assim como Pânico, o filme busca discutir os clichês do gênero – e o faz de forma muito divertida e inusitada (antes de assistir, evitem ler resenhas ou procurar informações sobre a sinopse, é melhor). Até lá, organizei uma lista de filmes para este Halloween, títulos antigos e mais recentes que não mencionei no decorrer do texto, e tentando, na medida do possível, escapar dos mais conhecidos:
- À Meia Luz (Gaslight, 1944) – Dirigido por George Cukor (mais famoso por comédias como Minha Bela Dama e Núpcias de Escândalo) com Ingrid Bergman e Charles Boyer. É mais suspense do que terror, mas o sufoco que sentimos pela personagem de Bergman, enclausurada pelo marido e, aparentemente, ficando louca é tão grande que a sensação que nos provoca permanece por alguns bons dias.
- As Diabólicas (Les Diaboliques, 1955) – De Henri-Georges Clouzot com Vera Clouzot e Simone Signoret. Sobre duas mulheres que planejam o assassinato de um homem, marido de uma e amante da outra (franceses, né). Tudo se complica quando o corpo do homem desaparece e várias pessoas dizem tê-lo visto vivo pela cidade. O filme é um pouco longo, mas instiga e tem imagens perturbadoras.
- Os Inocentes (The Innocents, 1961) – Excelente adaptação de A Volta do Parafuso de Henry James. Deborah Kerr interpreta uma governanta que cuida de crianças perturbadas por fantasmas de antigos funcionários da casa. Bastante bonito plasticamente, com ótimos efeitos e movimentos de câmera e um final, graças à performance de Kerr, bem angustiante.
- O Colecionador (The Collector, 1965) – O melhor filme já feito sobre psicopatia. Dirigido por William Wyler, com Terence Stamp ainda bem novo. O personagem principal é excelente porque é complexo: em alguns momentos, parece completamente normal e até carismático, dando ares até de romance; em outros, se torna vingativo e ameaçador. Muito, muito bom.
- Intermediário do Diabo (The Changelling, 1980) – Esqueçam o título. Não tem nada ver. Depois da morte da esposa e da filha, um homem vai morar numa casa antiga e, claro, assombrada. Seu drama pessoal começa a se confundir com a história da casa e, querendo se desfazer dos traumas todos, começa a investigar o que aconteceu no lugar. Bastante eficaz, lida com uma série de elementos repetitivos no gênero, mas nunca de forma óbvia ou previsível.
- Louca Obsessão (Misery, 1990) – Baseado no romance de Stephen King, com Kathy Bates, ganhadora do Oscar de Melhor Atriz pelo filme. Sobre um escritor que sofre um acidente e é resgatado por uma fã obcecada que o aprisiona em casa. Ótimo para assistir nesta época repleta de stalkers anônimos que a internet nos proporciona diariamente.
- Pulse (Kairo, 2001) – Filme de Kiyoshi Kurosawa, expoente do cinema japonês (premiado por dramas como Tokyo Sonata e Bright Future), sobre inúmeras aparições de pessoas que cometeram suicídio. O filme tem um tom melancólico e um final tão pesado que beira ao existencialismo.
- O Orfanato (El Orfanato, 2007) – Filme espanhol produzido por Guillermo del Toro, sobre uma mulher que compra o orfanato em que viveu quando criança para criar uma casa para crianças com necessidades especiais (entre elas, o seu filho Simón, que desaparece durante uma festa). Bastante original e envolvente. Vejam antes que saia a refilmagem.
- Deixa Ela Entrar (Let The Right One In, 2008) – Filme sueco sobre um garoto solitário que conhece uma menina vampira e se apaixona por ela. A refilmagem americana, Deixe-me Entrar, não é terrível, mas o original ainda é muito, muito melhor.
- Sede de Sangue (Thirst, 2009) – Dirigido por Chan-wook Park (de Oldboy, Lady Vingança e Mr. Vingança), inspirado no livro de Émile Zola, Thérèse Ranquin. Sobre um padre que se torna vampiro e precisa lutar contra as tentações impostas pela sua mais nova condição. Assombroso como tudo que Chan-wook Park faz (em breve, o diretor sul-coreano vai estrear em Hollywood com o filme Stoker).
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Nostalgia da Masculinidade
Data do post: 12 de outubro de 2012
Tom Hardy em Os Infratores (Lawless), 2012.
Um dos muitos charmes dos filmes antigos ou de época está no fato de retratarem certas atitudes, de pequenos gestos, como o retirar de um chapéu na presença de uma mulher (ou, simplesmente – homens usando chapéu) até tipos de personalidade que já não existem mais. Seja na ficção ou na realidade, não há mais Rhett Butler ou Philip Marlowe. E qualquer um que tente sair de casa usando Fedora ou bigode não terá porte ou panache suficientes para não se passar por ridículo inconsciente ou hipster (aquele que se apropria do próprio ridículo como se assim fizesse algum comentário inteligente sobre moda, sociedade, o universo, etc). Apesar de ser adepta da nostalgia, reconheço que há nela algo de patético: é impossível reviver o passado, mas, como uma paixão não correspondida, continuamos a desejar e tentar ad infinitum. Dentre os atores de hoje, pouquíssimos conseguem emular a presença que Clark Gable ou Humphrey Bogart tinham; Jon Hamm consegue um pouco nas primeiras temporadas de Mad Men e Daniel Craig em Casino Royale (apesar de estar muito mais para Gable do que para Bogart). O que exatamente diferencia as atuações de Hamm e Craig das performances de atores mais conhecidos e aclamados como Mark Wahlberg, Matt Damon e até Leonardo DiCaprio? Entre ser salva por Hamm ou DiCaprio, que, já faz alguns anos, só interpreta heróis incapazes de confiar no próprio julgamento, quem eu escolheria? Hamm, sem dúvida. Digamos, então, que o problema seja falta de confiança ou credibilidade. O herói pós-pós-moderno precisa ser vulnerável, ter dúvidas, fraquezas e inseguranças muito bem enunciadas, porque é muito melhor ir ao cinema e assistir aos nossos próprios defeitos, certo? Perto de Hamm e Craig, Wahlberg, Damon e DiCaprio são como adolescentes – passam algumas horas por dia fazendo musculação e ficam contrariados quando alguém mexe com eles. Com Os Infratores (Lawless, 2012), Tom Hardy surge como candidato ao seleto clube dos homens crescidos. Por que os produtores decidiram dar mais atenção ao personagem de Shia LaBeouf está além da minha compreensão. É como confiar o planeta ao Homem-Aranha quando você tem o Super-Homem ali no canto – mas é a tendência agora, não é?
Dirigido por John Hillcoat (de A Estrada e A Proposta), Os Infratores tem roteiro assinado pelo músico Nick Cave e é baseado no romance de Matt Bondurant sobre seu avô, contrabandista de álcool durante a lei seca americana, Jack Bondurant. Em tese, o filme trata de como Jack (LaBeouf), em meio a determinadas pressões, ganhou pêlo no peito e perdeu a covardice, mas, talvez por causa da direção ou da incredibilidade do próprio ator, nunca temos a sensação de que isso acontece de verdade. Afinal, é LaBeouf. Até seus atos mais enfurecidos parecem falsos e cômicos, como ver a foto de um cachorro fumando cachimbo e usando cartola – é fofo porque é tão estranho. No final de Indiana Jones e a Caveira de Cristal, Harrison Ford não deixa que LaBeouf coloque o seu chapéu. Óbvio, ficaria ridículo nele. Por boa parte de Os Infratores, Jack é sensível demais para participar da violência empregada tão naturalmente por seus irmãos mais velhos, Forrest (Hardy) e Howard (Jason Clarke). Há uma lenda acerca dos irmãos Bondurant de que eles seriam imortais, mas Jack sempre se sentiu diferente – e, até aí, o filme e a escolha do elenco fazem todo o sentido. É o tal do crescimento de pelo no peito do LaBouef, para não utilizar outra expressão mais exata, que parece tão improvável. E nem o personagem ajuda. Tão mais atual (logo, mais bobo) do que seus irmãos que, assim que os negócios decolam, gasta uma fortuna em roupas novas e um carro tunado – sim, um carro tunado. Fica faltando a corrente de ouro, os fones de ouvido gigantes e o corte de cabelo do Neymar. Sua vaidade não chega a ser afeminada, mas é, sem dúvida, adolescente. E o que há de mais atual senão homens crescidos agarrados à adolescência como se o próprio passar do tempo não existisse?
Os Infratores é regular, bem filmado, com pelo menos duas performances muito boas de Tom Hardy e Guy Pierce que, sozinhas, já valem o ingresso. Mas há justamente essa sensação de talento mal-aproveitado ou déficit de atenção. Há, aqui e ali, momentos excelentes, mas que passam quase despercebidos, como se fossem involuntários. Por exemplo, há uma cena em que Jack, vestido em seu melhor terno, surpreende os irmãos durante um acerto de contas, cobertos de sangue. Howard elogia a roupa de Jack, que chega muito perto de desmaiar, e fecha a porta, deixando o caçula do lado de fora. Depois de Rastros do Ódio e O Poderoso Chefão, todo mundo sabe o que significa, no cinema, um fechar de portas, o peso da imagem. Eu que sou mulher consigo perceber como seria humilhante para um homem ser excluído por ser o que tem o estômago mais fraco e por ser também o mais fútil. Pensei que a passagem de Jack para a maturidade começaria justamente nesse ponto, mas logo segue uma sequência em que ele se torna ainda mais bobo e vaidoso. Ou seja, foi um desperdício de momento. O potencial do filme, no final das contas, não corresponde ao produto. Desperdiçam até Gary Oldman (tinha me esquecido dele), num papel meio solto, que desaparece do meio para o fim. Mas o que há de interessante no filme é esse estudo (também involuntário?) sobre masculinidade.
Hardy e Jessica Chastain.
Há quatro tipos básicos de masculinidade (ou ausência dela) em Os Infratores. Jack é o adolescente: babaca, covarde, tenta muito provar-se como homem e acaba fazendo uma besteira atrás da outra; Howard, o irmão mais velho, é a violência desenfreada (o mais sujinho e o menos articulado também); Forrest é o ponto intermediário entre os dois: corajoso, mas consciente, sabe quando agir, como agir e quando parar; e Rakes (Guy Pierce, excelente) é o agente do governo que dificulta a vida dos irmãos, repleto de nojinhos e de uma vaidade extrema, essa sim bem afeminada. Forrest fala muito pouco, grunhe bastante, sabe quando ser agressivo e quando se conter, respeita e protege mulheres, não esbanja o dinheiro ganho e tem tanta confiança em si mesmo que acredita sinceramente na lenda dos Bondurant. Entre os tipos de homens do filme, Forrest é o mais desejável – mas justamente o que se encontra extinto. Voltamos, portanto, à questão da nostalgia. Será assim tão impossível mesmo, nos dias de hoje, um homem que não tenha sido contaminado por essa baboseira coitadista de herói sensível e cheio de dúvidas, mas que também não seja um bruto completo? Será que a nostalgia pela própria adolescência que muitos homens crescidos sentem não é o sentimento certo voltado à coisa errada? E, se desejarmos o suficiente, será que não podemos mesmo reaver, um pouco que seja, do que já foi tão certo?
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4D, Busca Implacável 2 e Moonrise Kingdom.
Data do post: 10 de outubro de 2012
Geralmente, me limito a escrever sobre cinema uma vez por semana para o blog da Dicta. Há algum tempo que preparei e guardei a resenha de Os Infratores para ser publicado na sexta-feira (12), dia de estreia do filme. Por motivos variados, não pude escrever sobre Busca Implacável 2 antes e, agora que finalmente assisti, quero falar sobre ele e também sobre Moonrise Kingdom, filme do Wes Anderson que estreia também nesta sexta.
Vamos falar sobre cinema 4D antes.

Sem nem mencionar pirataria, com a comodidade da tevê a cabo, do aparelho de dvd, bluray, serviços de filmes por demanda como Netflix, NetMovies, Now, etc., muita gente prefere investir em um bom home theater do que se locomover até um cinema onde, muito provavelmente, a pessoa mais inconveniente do universo vai se sentar logo atrás de você. Isso sem falar em filas, estacionamentos lotados, trânsito e tal. Por conta disso, os cinemas têm se preocupado em criar experiências diferentes para tirar o espectador de casa. O 3D, o IMAX, as salas vips com poltronas que reclinam e pipocas gourmet – e agora, o 4D – são tentativas de fazer a ida ao cinema valer a pena. Com ingresso por volta de setenta reais a inteira, o 4D oferece, em tese, uma experiência verdadeiramente imersiva. Na realidade, é o seguinte: as cadeiras se movem (e, às vezes, rangem, precisam de óleo) em cenas de perseguições de carros, lutas, etc.. Quando, por exemplo, um tiro passa de raspão pelo personagem, um jato de vento é disparado ao lado da cabeça. E quando, em alguma cena, espirram água, a cadeira da frente espirra água em você. Essa é a ideia.
O primeiro filme que fui ver na primeira e única sala 4D de São Paulo (localizada no shopping JK Iguatemi, lugar ridiculamente grã-fino, repleto de personagens) foi O Legado Bourne, com Jeremy Renner e Rachel Weisz. Não foi minha escolha. Meus pais queriam experimentar o cinema e calhou de ser esse mesmo. Deu tudo errado. O ar-condicionado quebrou, uma luz ficou piscando descontrolada por boa parte da sessão, os movimentos das cadeiras estavam fora de sincronia, um desastre. O filme em si é uma porcaria – é sobre um cara (Jeremy Renner) tentando tomar uma vacina. Ele toma a vacina. Aí acaba. Pelas falhas da sessão, ganhamos cortesias para assistir outro filme e fomos, então, assistir Busca Implacável 2.
Desta vez, deu tudo certo. O ar-condicionado funcionou, as cadeiras mexeram nos momentos certos, etc., etc.. No final das contas, o 4D é legal? Sim e não. Alguns efeitos são bobos e exagerados. É realmente necessário que eu sinta o carro passando por uma lombada em uma cena completamente banal? Em cenas de luta, você acaba perdendo o ponto fixo necessário para entender o impacto de cada chute, de cada soco. De tanto sacudir, você fica tão confuso quanto o personagem que é surrado. Mas o 4D é perfeito para perseguições de carro. Cada curva, cada batida é sentida como se realmente fizéssemos parte da cena. Em suma, depende muito do filme e da execução dos efeitos para ter uma experiência realmente bacana. Ainda não peguei nada em 3D na sala (tanto O Legado quanto Busca são 2D) e imagino que seja completamente diferente.

Agora, o filme. Tento nunca parecer muito entusiasmada com nada porque, em geral, desconfio muito do julgamento de pessoas empolgadas. Aqueles que são mais animados (e também mais felizes) tendem a dar mais vazão a tudo que houver de positivo em qualquer coisa e ignorar, conscientemente ou não, o que houver de negativo. É uma forma ótima de viver, muito saudável, mas não é a melhor forma de observar e criticar. É preciso manter um pouco de rabugice, de desprezo e de gastrite se quiser analisar com objetividade. Portanto, acreditem em mim quando digo que Busca Implacável 2 é muito, mas muito legal mesmo. Se você sequer gosta do primeiro, pare de ler, vá fazer outra coisa, não tenho absolutamente nada de útil a lhe dizer. Mas se você gosta de ação, de Liam Neeson e de Luc Besson, fique à vontade. Tire o sapato se quiser.
Há um defeitinho bobo no roteiro de Busca 2 – não é tanto um erro, mas um ato pequeno que é mal justificado. Se você e sua mulher fossem seqüestrados, assim que você conseguisse se libertar, você sairia de lá sem ela? Ok, ok, você precisa matar os seqüestradores todos, mas não podia manter ela por perto? Para que ela não fosse raptada outra vez? Deixando isso passar, é tudo muitíssimo bem construído e justificado. Na época do primeiro filme, tive uma discussão com um amigo que disse que a cena em que Neeson tortura o bandido com a corrente elétrica era exacerbada. Respondi, muito casualmente, que ele estava fazendo o que tinha de fazer para salvar a filha e dane-se o bandido. Pois bem. A premissa da seqüência é justamente a seguinte: depois de Bryan Mills (Neeson) ter matado dúzias para chegar até a filha, o pai de uma de suas vítimas não poderia fazer o mesmo com ele? Todos os homens que ele matou não eram apenas figurantes, eles tinham famílias e amigos que poderiam muito bem buscar reparação. E é isso o que acontece.
Há tanta coisa legal em ambos os filmes; a ideia de um herói muito mais velho, um agente aposentado, com uma personalidade muito específica, e que, por questões muitíssimo pessoais, volta a utilizar todas as habilidades adquiridas ao longo dos anos na ânsia de encontrar a filha raptada antes que perca o seu rastro. E, agora neste, a ideia de que toda ação tem de fato uma conseqüência e que a violência nem sempre repara, mas pode causar mais dano ainda. Filmes de ação não costumam ser tão preocupados com motivações e reflexões acerca das atitudes do herói – em geral, eles apenas fazem o que têm de fazer, têm sucesso e aí o filme acaba, como em O Legado Bourne – e é por isso que são raros os bons filmes do gênero.
Outro elemento interessantíssimo é que a seqüência convida quem não teria a mínima aptidão para se defender sozinha, que é a filha raptada no primeiro filme, a finalmente fazer algo por si própria e pelos pais seqüestrados. É ela quem, desta vez, localiza o pai e o ajuda a fugir. É ela quem, apesar de não ter carteira de motorista, dirige o carro de fuga em alta velocidade pelas ruas estreitas de Istambul. E isso tudo acontece de forma verossímil, nos dando a esperança de que, talvez, pudéssemos fazer o mesmo numa situação de perigo, de que nós também somos capazes.
Quem gostou de Drive vai adorar as referências ao filme. No elevador do hotel, Kim (a filha de Mills interpretada por Maggie Grace) ouve A Real Hero no ipod. Mais tarde, precisa aguardar exatos cinco minutos no volante de um carro enquanto o pai tenta resgatar a mãe, assim como o driver esperava pelos bandidos durante um roubo – e, nesta cena, Tick of the Clock, outra música de Drive. Em Busca Implacável 2, Kim está amadurecendo, se tornando mais corajosa, mais ativa e arriscando a si própria para salvar sua família. Sua jornada pessoal é, afinal, um tanto parecida com a do herói de Drive.
Tudo que acontece em escala menor na parte mais banal do filme, Kim arranjando um namorado e, já no final, tirando a carteira de motorista, se relaciona com os acontecimentos fantásticos de conseguir ajudar a salvar os pais e fugir de criminosos pelas ruas de Istambul. Tais acontecimentos são como a chegada da vida adulta: ser independente, ser responsável, saber se defender, etc.. Nesse processo, Mills tem de se acostumar com o fato de que agora pode confiar no julgamento de sua filha, que ela já pode tomar conta de si própria e até dele mesmo. Há um momento nas relações entre pai e filha em que o pai precisa aceitar que a filha já sabe o que está fazendo – e é um momento tão alegre quanto triste para o pai.
Enfim. Vejam Busca Implacável 2.
Agora, Moonrise Kingdom.

É difícil falar de Wes Anderson porque há aqueles que o amam e aqueles que o odeiam – em geral, ninguém troca de lado, ninguém muda de opinião, de forma que qualquer argumentação é praticamente inútil. Não espero convencer alguém que não gosta de Wes Anderson a assistir Moonrise Kingdom. É bem provável que você continue não gostando. Afinal, ele não faz nada de diferente. É a mesma direção de arte ultra detalhista e coordenada, a mesma história sobre crianças desorientadas e pais desajeitados, a mesma cena de pessoas andando em câmera lenta, os atores de sempre. Mas por que os filmes de Wes Anderson, apesar de oferecerem o mesmo, continuam fascinando? Por que Martin Scorsese chegou a eleger Wes Anderson como seu sucessor? Apesar de uma técnica realmente admirável, de um cuidado obsessivo com a composição de cada quadro, não é tanto o lado técnico de Anderson que provoca tanto fascínio entre aqueles que amam sua obra, mas a sua habilidade de retratar, com honestidade, certas emoções tão específicas, como a sensação de crescer e não ter se tornado aquilo que era o esperado, ou a angústia de ser um problema para os pais. Com suas variações, ele conta sempre a mesma história não porque busca um tema para explorá-lo ou conhecê-lo melhor, mas porque é o seu próprio tema. É como se Truffaut refizesse Os Incompreendidos de uma dúzia de formas diferentes – seria repetitivo, mas pessoal e, acima de tudo, verdadeiro.
Muitos tentam repetir a estética esquisitinha-fofa de Anderson e a grande maioria falha. Pelo simples motivo de que em Rushmore, Os Excêntricos Tenenbaums, Darjeeling Limited, etc., não há imitação e até as roupas mais ridículas são demonstrações sinceras dos personagens – eles usam o que eles amam e o que os define como realmente são. Em A Vida Marinha com Steve Zissou, Cate Blanchett interpreta a jornalista que acompanha a exploração e, quando escreve que acha o gorro vermelho de Steve (Bill Murray) “forçado”, ele a confronta, tira o gorro, humilhado e magoado. Há uma grande diferença entre usar o suéter da sua avó porque você gosta e usá-lo porque fica parecendo tão estranho e diferente. Uma coisa é usar uma peça de roupa estranha por afeição sincera e outra usá-la ironicamente.
Em Moonrise Kingdom, há o mesmo figurino improvável, com a desculpa, agora, de que o filme se passa na década de 60 (mas que poderia muito bem ser em tempos atuais). Aparentemente, a trama toda acontece no passado porque somos informados que, dentro de alguns dias, uma tempestade de proporções históricas vai atingir a ilha que os personagens habitam. Além disso, o filme pode parecer como uma história antiga de infância sendo rememorada, com todos os seus exageros poéticos, mas nenhuma mentira. É sobre uma menina e um menino que, por problemas familiares e sociais, decidem fugir juntos, colocando a ilha toda à procura deles. Quando a tempestade chega, que é como uma metáfora da conturbação toda da adolescência, é que esses problemas ficam mais urgentes e precisam finalmente ser resolvidos.
Não quero dar muito detalhes para não estragar algumas surpresas que, apesar de delicadas, fazem o filme. Excêntricos Tenenbaums, um dos melhores de Anderson (lado a lado com O Fantástico Sr. Raposo), teve inspiração na família Glass de J.D. Salinger (Franny and Zooey, Raise High the Roof Beam, Carpenters, Seymour: An Introduction, Hapworth 16, 1924 e A Perfect Day for Bananafish). Colocando a estética de lado e tratando de seus roteiros e também das interpretações dos atores, o diretor trabalha com as mesmas sutilezas do escritor de O Apanhador no Campo de Centeio. É preciso ter olho e gosto para detalhes e certos estados de humor que raramente são explicitados, e muito menos explicados.
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