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Dicta na Flip 3 – Entre o choro e o riso

Filed under: Literatura incluído por Martim Vasques da Cunha
Data do post: 9 de julho de 2011

Por Fabio S. Cardoso

A escritora argentina Pola Oloixarac estava cotada na nona edição da FLIP como a musa do evento. Jovem, extrovertida e com perfil afeito aos autores de sua geração, Pola chegou à Paraty não somente como autora publicada pelo selo Benvirá (do grupo Saraiva), mas, principalmente, como uma das escritoras selecionadas pela prestigiosa revista Granta (“Os melhores jovens escritores em espanhol”). Tamanha expectativa, no entanto, caiu por terra quando a primeira mesa do dia começou. Ao lado do poeta e romancista português valter hugo mãe, a autora sucumbiu. Em vez de ser a estrela principal, tornou-se coadjuvante e, é preciso registrar, sua apresentação pareceu pouco clara ao público presente.  E aqui uma dúvida se impõe: não se sabe ao certo se o pensamento de Pola Oloixarac é confuso e escorreito ou se a tradução complicou de vez as coisas. Talvez um misto das duas coisas. De todo modo, desde o início a sua fala foi hesitante, mesmo quando foi chamada a ler um trecho de seu livro: começou em português, porque não havia trazido sua cópia para o palco, e depois terminou em espanhol, e ainda assim o público permaneceu sem saber do que se tratava seu projeto literário – ou mesmo se havia tal proposta na perspectiva da autora. O resultado não poderia ser mais desastroso para a quase musa da Festa.

E a apresentação só não foi um desastre completo porque, é necessário reconhecer, valter hugo mãe, autor de “a máquina de fazer espanhóis”, roubou a cena. Tanto na leitura como no discurso, a apresentação foi de um autor consciente de seu papel como escritor. É verdade que, em vários momentos, era notável que tanta fluidez na sua apresentação era decorrente de um processo decorrente de preparação. Seja nas gags, seja nas respostas que mostravam ao público sua afeição para com o Brasil, notou-se um autor preocupado em desempenhar uma performance agradável para a platéia ali presente. À medida que a palestra se desenvolvia, os presentes foram conquistados pelo autor que, entre outras curiosidades, grafa seu nome em letras minúsculas. O arrebatamento final, no entanto, ainda estava por acontecer. E parece que mesmo foi articulado para que fosse assim. Explica-se. Perguntado sobre sua relação com o Brasil, o escritor leu uma carta que externou sua relação sentimental para com os brasileiros e com o país. Desde sua infância, passando pela adolescência, pelas amizades que permanecem e, agora, como escritor que foi reconhecido no país. Para um autor que não gosta de ser referência para suas histórias (“não creio que a minha vida seja interessante para dar um livro”), esse momento foi demasiadamente confessional. Aqui, não é preciso dizer que o público, que já aplaude no automático, gritou “Bravo!” e, de pé, celebrou o escritor. E valter hugo mãe chorou.

A essa altura, ninguém se lembrava direito de Pola Oloixarac, que, para além de perdida na tradução, parecia desconfortável no papel de entertainer que lhe foi concedido. Mesmo a apresentação da temática do seu livro, “As Teorias Selvagens”, soou confuso. Talvez o fato de equilibrar diversos interesses ao mesmo tempo seja determinante para que seu estilo tampouco tenha um norte. Das orquídeas, interesse mais recente, às novas tecnologias, passando, é claro, pela banda de rock. A postura desta convidada da FLIP estava mais para celebridade que se apresenta como escritor do que alguém que de fato é escritor. Quanto a valter hugo mãe, sua apresentação mostrou o quanto ele já está afeito aos códigos das palestras e desses eventos literários. Seu desempenho, a rigor, não foi acidental – mesmo que os jornalistas, de um modo geral, tenham se convencido de que ele foi absolutamente legítimo. No que concerne à literatura e ao estilo, é flagrante a diferença entre os dois: valter hugo mãe consegue articular as referências, de Fernando Pessoa mormente, a ponto de conseguir dimensionar a angústia da influência. Pola Oloixarac tergiversa entre Borges e Cortázar, mas cita um clássico contemporâneo, Roberto Bolaño, para tratar dos autores que lhe fazem a cabeça. Por tudo isso, uma mesa desigual, com a sutil ironia: aqueles que foram para admirar a quase-famosa escritora argentina ficaram a-pai-xo-na-dos pelo autor português. E há quem duvide dos poderes da retórica…

E por falar em retórica, à tarde, foi a vez de Ignácio de Loyola Brandão e Contardo Calligaris, sob mediação do jornalista e músico Cadão Volpato, tratarem das “Ficções da Crônica”, tema da mesa. Ok, é sabido que a crônica tem um jeitão malemolente de ser, mas a fala de ambos precisava ser tão descompromissada? É verdade que de início o tom pareceu que seria grave, com o apoio de ambos os escritores à decisão do autor italiano Antonio Tabucchi de não vir ao evento (no twitter, o jornalista Mauricio Stycer provocou: “Então, por que vieram? Seria mais digno cancelar a mesa”).

O público, no entanto, não teve com que se preocupar com essa “aporrinhação de debate político”, como disse alguém. Logo a conversa descambou pros causos anedóticos em detrimento da discussão sobre o “fazer literário”. Experiente em palestras desse tipo, Ignácio de Loyola pareceu conduzir a conversa para o riso fácil, em especial porque, em tom jocoso, descartou tratar de seu principal romance, “Zero”. Enquanto isso, Contardo Calligaris se esforçava em mostrar que não é apenas mais um cronista, mas também romancista (afinal, é publicado até pela Cia das Letras e esta é sua segunda Flip!). Para tanto, usou suas referências mais sofisticadas, como Stendhal e Joseph Conrad, salientando que gosta de “viver coisas ordinárias de forma extraordinária”. Foi o gancho para falar de seus livros, pela ordem cronológica “O Conto do Amor” e o mais recente “A Mulher de Vermelho e Branco”. A conversa só se tornou pertinente do ponto de vista literário quando ambos foram instados a propósito da relevância da ficção num mundo contemporâneo que parece escolher o real em vez do imaginário. “A memória é uma espécie de construção narrativa”, explicou Calligaris, de maneira que a importância desse tipo de texto permanece, esclareceu o autor. Era o final do debate, que, no geral, foi menos denso do que isso; menos sofisticado do que se imagina numa festa literária como a FLIP, a despeito dos aplausos e risos da audiência ali presente.

“El perro malo e feo

Assim que James Ellroy entrou na sala reservada para as entrevistas coletivas os jornalistas logo se sacudiram. Não que todos conhecessem a fama de verborrágico ou soubessem o que estava por acontecer. Mas é como se houvesse uma impressão no ar de que a notícia estava ali. Grosso modo, entrevistas coletivas seguem um clima modorrento e sem sobressaltos. De um lado, os repórteres cumprem sua pauta de forma litúrgica e burocrática. De outro, os autores e assessores de imprensa torcem para que aquilo ali acabe rápido. Ellroy chegou pouco depois das 13h30, horário combinado, e o diálogo possível que se estabeleceu ali foi surpreendente – mais pelo entrevistado do que pelas perguntas em si. Sim, a notícia estava ali.

Personagem que se impõe pelas características físicas (careca, alto, olhar arguto e gestual teatral), James Ellroy se antecipou às perguntas dos presentes e definiu a si mesmo: “Yo soy el perro malo e feo”. Disse que foi a única frase que aprendeu em Espanhol, mas é possível inferir que aquele ali foi um recado aos jornalistas que ainda desconheciam sua personalidade. Entretanto, quando efetivamente a entrevista começou, o escritor norte-americano se mostrou paciente e prestativo para responder às questões relacionadas à tradução de suas obras em português (“considero as edições do Brasil as mais bem elaboradas, com design especial que tornam o livro mais atraente”);  ou acerca de seu estilo (“Escrevo de forma coloquial e, por muito tempo, trabalhei com a proposta de escrever de maneira concisa, não necessariamente minimalista); ou ainda do gênero de seus livros (“não são romances sobre crimes, mas romances históricos sobre os Estados Unidos”). Até aqui, a entrevista seguia conforme o script esperado para um escritor-padrão da Festa Literária de Paraty. Ocorre, como se verá a seguir, que James Ellroy não é um desses.

Ao ser questionado sobre a adaptação de seus livros para o cinema, por exemplo, ele foi taxativo: “foi interessante pelo dinheiro. Embora não me preocupe com isso, é algo interessante se acontecer novamente – mesmo que seja pouco provável”.  Adiante, ao ser questionado sobre o volume de seus livros (o mais recente quase alcança as mil páginas), ele desancou o edifício da era da informação, acompanhem: “Não leio jornais. Não vejo TV. Nem cinema (…) Parem de ficar no twitter e no facebook. Vão dar uma caminhada, vocês moram num país incrível”. E aqui houve um corte para tratar da visão que o senso comum nos EUA tem acerca do Brasil: “Esquadrão da morte, mulheres nuas, calor insuportável e sem ar condicionado, sexo aleatório… Isso só é verdade no Paraguai, correto?”.  Em seguida, a Dicta quis saber se ele tem consciência o quanto destoa da média dos autores que vêm à FLIP (em geral, escritores cujo comportamento é menos bombástico e mais conciliador, para dizer o mínimo). Ellroy afirmou não conhecer os convidados que vêm à FLIP, a não ser por David Byrne e Claude Lanzmann (que, curiosamente, tem estilo provocador semelhante). Sobre seu perfil, respondeu: “eu vivo no vácuo, vivo na América”.

A propósito das influências literárias e culturais, mais uma vez mostrou o quanto difere da média dos convidados, sempre ávidos em dialogar com outros romancistas e clássicos de outras épocas. “Nunca li Tolstoi e, na verdade, aprendi mais sobre narrativa ouvindo clássicos como Beethoven e Bruckner do que lendo romances. A fluidez narrativa da música, que é universal, é mais clara do que um livro”. A partir daí, sempre à vontade, o escritor discorreu com fluência notável sobre as peças de Beethoven. E destacou: “jazzistas negros do pós-guerra, como Duke Ellington e Miles Davis, estudaram Beethoven. Mesmo ele sendo alemão”, ironizou. Ainda sobre autores, destacou: Raymond Chandler e Dashiell Hammett.

No tocante à relação com a sua (dele) mãe, sobre quem já escreveu em uma de suas obras, o autor provocou: “você precisa ter uma relação traumática com a mãe para conseguir uma boa transa”. Adiante, quase no fim da entrevista, salientou a necessidade de estar à parte do mundo presente. “Eu vivo no passado. Para viver no passado, eu preciso viver numa cidade tranqüila, como Paraty, por exemplo. Vou tentar convencer minha namorada para morarmos aqui”, disse, entre o cômico e o sério. E de repente, num recado aos aspirantes a escritores, rechaçou um clichê: “Todos se consideram escritores agora e, com seus computadores, afirmam: ‘estou com bloqueio’. Bloqueie aqui”, disse, apontando para a região abaixo da cintura, arrancando risos e alguns olhares constrangidos dos que estavam ali.

Às 14h30, a coletiva de imprensa acabou. A impressão era certeira. Só faltou a correção: a notícia chegou à Flip.

Fabio S. Cardoso é jornalista e professor universitário.


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