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Causas e conseqüências

Filed under: Sociedade incluído por Martim Vasques da Cunha
Data do post: 18 de fevereiro de 2010
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A Folha de S. Paulo de hoje resolveu entrar na discussão iniciada por Marco Aurélio Garcia, o assessor especial de Lula-lá para assuntos internacionais, a respeito da “dominação imperialista” das TVs à cabo (o link é só para assinantes). Em uma primeira leitura, nada de errado: o jornal corretamente se posiciona contra as loucuras ditas pelo eminente professor – e até nos brinda com um artigo escrito por Marcos Augusto Gonçalves (ironicamente, seu nome forma o mesmo acrônimo do eminente professor – MAG) que, conhecido na imprensa por suas opiniões de cunho a rive gauche, decidiu desta vez ir para o lado bom da força.

Além disso, como qualquer reportagem que se preza, há as declarações dos mandarins do mundo cultural, de Bruno Barreto a Domingos Oliveira. Até Daniel Filho, o cineasta de maior sucesso no Brasil, foi corajoso o suficiente para dizer que o eminente professor não era para ser levado a sério pois “apoiava Hugo Chávez e Fidel Castro”. De brinde, temos análises sobre como as TVs a cabo trouxeram um novo nicho de mercado para o Brasil, mais empregos, possibilidades de criar produtos inovadores, etc.

Até aí, tudo bem. Contudo, o que mais assusta nas declarações é a completa falta de consciência do nexo entre as causas e as conseqüências. O que esta casta audio-visual não percebe é que ela é a responsável por esta situação. Deu um tiro no próprio no pé.  Mas optou pela estratégia da avestruz: é como se vivesse em um outro país e acreditasse que, por viver em um lugar onde as instituições democráticas estão aparentemente estáveis, usufrui de uma liberdade única. Trata-se de um equívoco; afinal, a cultura de uma sociedade não se mede pelo grau de liberdade exterior, que, através da manipulação do fisiologismo político, pode se revelar como uma mera ilusão com o passar do tempo, e sim pela abertura a uma liberdade interior, conquistada a custo de uma luta interior consigo mesmo, que permite o cidadão se expressar de maneira equilibrada, sem se deixar levar pelas paixões baixas, respeitando as virtudes humanas e os princípios da democracia.

(E se você imagina que a casta artística está sozinha nesta celeuma, saiba que esta não é uma situação exclusiva: os publishers da grande imprensa também sofrem pela descoberta de que criaram os mesmos jornalistas que hoje os atacam pelas costas – ex: Franklin Martins e Paulo Henrique Amorim.)

O fato é que foram essas mesmas pessoas do meio áudio-visual, em concluio com a casta intelectual da academia, que possibilitaram o clima de cultura totalitária que impera no país. Vivemos hoje no reino de Sto. Antonio Gramsci, ora pro nobis, graças aos produtos destes cidadãos. Se Marco Aurélio Garcia acha que pode falar tais bobagens e sair impune porque elas são justamente a conseqüência de uma evidência clara e simples: a de que a TV e o cinema possibilitaram uma mudança no comportamento das pessoas que elas sequer se deram conta. Não, não vou fazer referências ao termo “lavagem cerebral”, muito menos a uma “conspiração” para manipular as almas de nossos pequenos tupinambás. Estou a falar de uma estética pobre, de uma dramaturgia pobre, de uma visão-de-mundo de pobre – enfim, de toda uma cosmologia de Terceiro Mundo da qual o eminente professor é somente o resultado final. Os exemplos disso estão aí para qualquer olho que queira ver abaixo do seu nariz: a ausência de qualquer problematização moral das relações humanas; a glamourização da bandidagem (um dos fatores que mais influencia na onda de crimes que afligem a população); a insistência quase obsessiva em analisar qualquer evento social através dos prismas ideológicos (de preferência, os da esquerda); e, claro, a desinformação proposital a respeito de certos fatos históricos, tanto os que ocorreram no Brasil como os que aconteceram no mundo.

A pobreza estética é o primeiro reflexo da pobreza do espírito – e o preço que se paga por uma suposta riqueza econômica. Enquanto a casta artística não se der conta da sua parcela de responsabilidade pela situação perigosa em que estamos, tudo continuará como antes no quartel de Abrantes. Mas, para ter esta consciência, é necessário ter um confronto consigo mesmo que nenhum dos nossos artistas teria a coragem de realizar – o preço justo a se pagar por um pouco de verdadeira liberdade interior. Até lá, quem paga o pato somos nós.


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