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A travessia final

Filed under: Literatura incluído por Martim Vasques da Cunha
Data do post: 28 de junho de 2011

“Se enxergá-lo é díficil,
não ver ainda é pior”.

“A Explicação”

Foram quarenta e três anos de espera. Durante este tempo, Bruno Tolentino preparou “O Mundo Como Idéia” como se fosse a pedra angular da sua obra – ou, como ele explica em um dos ensaios introdutórios, “repositório oblíquo, o espelho convexo em que se movia inquisitivamente a sombra conceitual de cada metáfora que eu confiava no papel”. Uma obra e tanto, diga-se de passagem, feita no silêncio, na astúcia e no exílio. Sua estréia em 1963 com “Anulação e Outros Reparos”, foi marcada por uma polêmica besta de que teria sido plágio de um poeta que a História fez questão de deixar no limbo do esquecimento. Mas era ler os primeiros versos do poema-título para saber que Bruno Tolentino não seria um poeta qualquer – muito menos um que se limitava a um mero copy-desk. Havia uma densidade fora do comum na escolha de cada palavra, no trato do ritmo, na precisão de um adjetivo – algo surpreendente para um garoto de apenas 22 anos. A pergunta que se fazia era a seguinte: Até onde este rapaz chegaria?

O fato é que, naquela mesma época, o espírito de Tolentino estava obcecado com o problema que o acompanharia pelo resto de sua vida e que não o deixaria nunca, seja em suas andanças por Oxford ou pela França. Não era algo simples de ser resolvido. Desde cedo, Tolentino percebera que havia um abismo entre o que a poesia representava como a realidade e o que era a própria realidade. Muitos artistas e muitos filósofos caíram na escuridão deste penhasco: como se o medo de algo desconhecido os impulsionasse para este salto suicida, criaram outros mundos, querendo explicar a iniqüidade deste aqui. Era a vertigem do Mal provocando a revolta contra a própria natureza humana.

Em 1964, antevendo a loucura político-ideológica que tomaria conta do país, Tolentino partiu para a Europa, com a ajuda de Giuseppe Ungaretti e de Yves Bonnefoy, para fugir daquela imbecilidade chamada ditadura militar. Contudo, entre 1959 e 1963, o jovem poeta passou pela fase da iluminação assustadora, que seria a revelação de seu futuro projeto poético. Absorto nas leituras de Kierkegaard, Platão, Murilo Mendes, Jorge de Lima, Drummond, Manuel Bandeira e Cecília Meirelles (Tolentino conheceu estes três últimos pessoalmente no Rio de Janeiro no final dos anos 50, com Bandeira atuando como uma espécie de tutor), ficou profundamente fascinado com a poesia de um novo autor que surgia na França – Yves Bonnefoy. Ao ler os versos “Du mouvement et de l´immobilité de Douve”, Tolentino se viu refletido numa alma que tinha as mesmas preocupações estéticas e – se podemos nos antecipar um pouco com esta palavra – morais, mas com seu objeto de análise teórica localizado em um outro campo da arte: a pintura. Se Tolentino ainda se incomodava com os saltos desesperados de Kierkegaard ou a maiêutica socrática do “Fédon”, Bonnefoy tinha a noção do abismo no momento em que analisava um quadro de Uccello ou de Michelangelo. Com a ajuda dos livreiros Andrei Duchaide e Madonna Vanna, donos da Leonardo da Vinci, a mais tradicional livraria do Rio de Janeiro, que abriram uma conta especial para que o jovem Tolentino lesse todos os livros que quisesse, sem se preocupar em pagar na hora, ele entrou em contato com Bonnefoy, escrevendo uma carta para parabenizá-lo sobre os versos de “Douve”. O francês não hesitou em responder a carta de Tolentino, na qual comentava que a sua percepção do abismo entre o mundo e a arte se deu quando notou que a “única coisa que percebemos no Real é a passagem do Tempo”.

Aquilo foi como um estalo. Qual seria a função da arte se ela também seria vencida pela pantera do Tempo – aparentemente sutil, mas agressiva ao extremo quando se tratava de destruir qualquer pretensão de eternidade? Qual seria o sentido daquilo tudo? Foi em busca deste sentido que Tolentino escreveu os primeiros poemas de “Anulação”, marcados por um pessimismo claramente influenciado pelo Montale de “Ossos de Sépia”, mas também com os toques do choque que foi a revelação da “Douve” de Bonnefoy. A trajetória pessoal, repleta de caminhos tortuosos, se mesclaria com a trajetória do seu país, mais tortuosa ainda – o que fez Tolentino buscar o sentido de sua poesia no lugar mais perigoso para encontrá-lo: o exílio.

O sol negro do exílio – como o próprio comentaria nos ensaios de “O Mundo Como Idéia” – foi vivido enquanto o poeta trabalhava como tradutor na Comunidade Econômica Européia e, finalmente, como professor em Oxford, Inglaterra. Trabalhou também como diretor adjunto da Oxford Poetry Now, a editora da universidade que publicava tanto os clássicos como as últimas novidades da poesia inglesa. É neste meio tempo que Tolentino não hesita em publicar, pela mesma coleção, os seus novos poemas, todos escritos em língua inglesa, “About the Hunt” (1978). Ele estava levando o exílio a sério: desisitira completamente de escrever qualquer coisa em sua língua natal. Já havia feito isso sete anos antes de “About the Hunt”, com a publicação de “Le Vrai le Vain”, desta vez com poemas escritos em francês. Não era uma mera amostra de presdigitação lingüistica: o francês e o inglês foram as primeiras línguas que o pequeno Bruno aprendeu antes de saber o próprio português. Leia mais…


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Nas livrarias no dia 30/07

Filed under: Literatura incluído por Martim Vasques da Cunha
Data do post: 24 de julho de 2010

Após quase uma década esgotado nas prateleiras das livrarias e de um trabalho meticuloso de três anos, As horas de Katharina será finalmente relançado no dia 30 de julho, e desta vez com um brinde: a peça inédita A andorinha ou: a cilada de Deus, que Bruno Tolentino deixou pronta meses antes de sua morte, ao 66 anos. Você já pode encomendar o seu exemplar aqui e depois se deleitar com a introdução de Alcir Pécora, com o rigor de Juliana P. Perez nos comentários, com as notas de variação de Jessé de Almeida Primo e ficar hipnotizado com a capa de Cláudio Pastro. E, claro, aguardem em breve mais novidades sobre o lançamento.


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Três anos depois…

Filed under: Literatura incluído por dicta
Data do post: 27 de junho de 2010


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Dois anos sem Bruno Tolentino

Filed under: Literatura incluído por Martim Vasques da Cunha
Data do post: 27 de junho de 2009

“(…) e o mundo é cada vez mais estrangeiro”.

Soneto 99 de A Imitação da Música (in: O Mundo como Idéia)

Toda vez que alguém me pergunta sobre ou então me lembro da minha convivência com Bruno Tolentino, chego sempre à seguinte conclusão: ele foi o único sujeito de quem posso dizer com certeza que era um gênio.

Mas hoje, dois anos depois de sua morte, não sei se responderia da mesma forma. É claro que Bruno era, de facto e de jure, aquilo que, na falta de expressão melhor, chamaríamos de “gênio” – até porque era realmente capaz de momentos brilhantes e de momentos em que era nada mais nada menos que “genioso”. Entretanto, depois de ter muito meditado sobre o uso e o abuso desta palavra – até mesmo Arnaldo Jabor conseguiu torná-la insuportável quando elogia alguém em suas colunas ou em declarações na televisão – creio que Bruno Tolentino não era apenas um “gênio”. Era, sobretudo, e aqui plagio descaradamente o ensaio de Joseph Brodsky sobre W. H. Auden (por sua vez, um exemplo para Bruno), a pessoa mais inteligente que já conheci – e acho que não conhecerei outra.

Explico-me: como já disse uma vez aqui, creio que o “gênio” é uma espécie de ruptura, não de continuidade, dentro do continuum da tradição de um país ou de vários países – aquilo que denominaremos mais tarde, se tudo der certo, de “civilização”. O próprio Bruno, alías, baseou a sua argumentação de polêmica cultural neste princípio ao se confrontar com o concretismo em Os Sapos de Ontem; para ele, os irmãos Campos eram uma ruptura para pior, herdeiros da anti-tradição do Modernismo de 1922, enquanto o modernismo europeu (o de Eliot e de Yeats) era um diálogo com a tradição ocidental e também a sua superação. O exemplo mais próximo que tivemos nesta linha foi a chamada Geração de 45, com Cecília Meirelles, João Cabral de Melo Neto e Murilo Mendes, sem contar, claro, com os inclassificáveis Carlos Drummond de Andrade e Manuel Bandeira.

Se estes poetas não eram propriamente “gênios”, eram também pessoas inteligentes que construíram uma obra idem porque preservavam a estrutura da língua e da linguagem – algo que os concretistas sempre quiseram derrubar com a chamada “morte do verso”. Mas este não é o xis da questão: para mim, Bruno Tolentino não pode ser catalogado como um “gênio” porque sua obra – um verdadeiro enigma para as limitações provincianas da nossa intelligenstia – cumpre exatamente aquilo que esperamos de pessoas inteligentes. Mas o que seria isso – ser inteligente?

Uma pessoa inteligente caracteriza-se por estar disposta a estar aberta à verdade do real – e esta verdade pode ser expressada por um paradoxo terrível que Bruno sabia muito bem como comunicar com o uso do famoso adágio lux sine umbra non est. Não há luz sem sombra. Ele foi a pessoa mais inteligente que conheci porque era capaz, muitas vezes em uma questão de segundos, de agarrar a essência de uma pessoa ou de um problema intelectual, e defini-la de um modo supreendente para todos, sem ser abstrato, chegando ao ponto de usar a linguagem chula. Uma tarde, por exemplo, enquanto conversávamos sobre um jovem poeta que era aclamado pela crítica nacional, Bruno definiu a sua poesia da seguinte forma: “Esse sujeito é incapaz de pedir uma pizza pelo telefone” (E era verdade: os versos daquele sujeito pareciam ser de alguém que preferiu a dislexia como modo de vida). Mas é claro que essa atitude – que era honesta e impiedosa, chegando ao limite da insensibilidade com muitas pessoas que realmente o admiravam – não era somente uma grife de gypsy-scholar metido a besta. Era sobretudo um princípio moral: Bruno Tolentino sabia que a vida era um palco de luz e sombra, ambas misturadas, e que a função do poeta era trazer ao leitor aquela firmeza de alma que só um permanente state of wonder pode provocar nas pessoas, e isso quando elas decidem ver o mundo tal como é – e não como eles querem que seja.

Se Bruno fosse um “gênio”, sua obra teria fracassado – o que não acontece porque ela é um portal para novas descobertas, não o fim de uma era. Cada vez que releio um poema, um ensaio ou estudo um verso tolentiniano, percebo que Bruno não só dialogava com toda a tradição – de Machado de Assis a Yves Bonnefoy, passando por Santa Teresa D´Ávila e Charles Baudelaire – mas também sempre desbravava um novo caminho para os novos poetas. Há, contudo, sempre um pseudo-contraponto. Li recentemente um artigo escrito por um desses “falsos novos poetas” badalados por essas editoras de butique, que, a partir da análise de um único soneto de A Imitação do Amanhecer, já diagnosticava que Bruno Tolentino era um fóssil do passado. Uma verdadeira estultice: como analisar a obra de um sujeito através de um soneto de um livro que é, na verdade, um painel de mais de 537 sonetos? O que falta a este rapaz é a apreensão de que a obra de Bruno exige do leitor a aceitação do mesmo princípio moral que o guiou em sua complicada vida: o de que a vida (e a poesia) tem uma margem de ambigüidade inexplicável – e que as coisas não podem ser definidas tão facilmente.

Desta maneira, creio que Bruno Tolentino não foi um “gênio”, mas sim uma pessoa extremamente inteligente que criou uma obra genial. Este paradoxo – tão comum em seus versos e em sua postura diante das outras pessoas – mostra a dificuldade de entender o que ele queria. Bruno foi um homem muito solitário – e talvez esta tenha sido a sua verdadeira tragédia. Mas, mesmo assim, não desistiu: a sua inteligência o fez ser mais que um professor – era também um “educador de sensibilidades”. Ele nos fazia retornar à experiência verdadeira da poesia e nos forçava a ver que a arte tinha uma dinâmica particular que não podia ser insultada. Isto foi, alías, o meu primeiro insight para sentir sua ausência quando, um dia, ao escutar uma excelente palestra de um amigo meu sobre Hamlet em um ambiente repleto de supostos magistrados, chegou o momento dos debatedores. Era uma mulher e um homem: ela era uma juíza federal, cheia de referências aos Derrida-e-desce e aos Foucaults da vida, e ele era um advogado beletrista, sócio de uma importante casa de cursos. A juíza fez uma palestra de quase uma hora sobre como a peça de Hamlet deveria ser chamada de Ofélia porque Shakespeare era, afinal de contas, um machista misógino, enquanto o tal advogado perguntou ao palestrante se era possível uma interpretação GLS de Hamlet. Fiquei chocado que alguém se aventurasse a fazer tal pergunta; certamente, se Bruno estivesse vivo e ali presente, levantaria-se de imediato e daria um safanão na cara do sujeito. Claro que o motivo não seria apenas a polêmica pela polêmica – acusação injusta que atingiu postumamente a obra de Bruno. A verdadeira razão seria essa “educação de sensibilidade” que Bruno cultivava em cada um que conhecia e que ele fazia questão de extrair em conjunto sobre os mais variados assuntos: desde como era trabalhar com Auden, passando sobre como era uma conversa com Bonnefoy e Geoffrey Hill, até o vislumbre de um detalhe em um quadro de Uccello e, sem dúvida, o respeito que devemos ter com a luz do dia que some em um pôr-do-sol.

Confesso que só fui sentir falta de Bruno muitos meses depois da sua partida porque, de certa forma, a sua obra inteira nos ensinou a ficarmos preparados para a sua morte. Mas não era algo mórbido: quando leio O Mundo como Idéia ou As Horas de Katharina tenho a impressão de que, apesar de seu sentimento trágico da vida, Bruno Tolentino sabia que ela valia muito a pena. Não é à  toa que resistiu a uma doença cruel até o fim, independentemente do sofrimento – do qual saiu irreconhecível, mesmo para os seus amigos mais próximos. Havia uma perseverança nele que, sem dúvida, deixava todos espantados – e que talvez não fosse deste mundo.

Assim, à guisa de despedida, deixo-lhes a seguinte citação:

“Ele foi um grande poeta (a única coisa que está errada com esta frase é o tempo de seu verbo, já que a natureza da linguagem faz com que o que alguém realiza em seu contexto permaneça invariavelmente no presente), e me considero intensamente afortunado por tê-lo conhecido. Mas mesmo que não o tivesse encontrado de todo, ainda me restaria a realidade de sua obra. Devemos agradecer ao destino por termos sido expostos a esta realidade, pela generosidade dessas dádivas, mais preciosas ainda porque não se destinavam a alguém em particular. Podemos dizer que se tratava de uma generosidade do espírito, só que o espírito sempre precisa de um homem para refratar-se através dele. Não é o homem que se torna sagrado devido a esta refração: é o espírito que, assim, se torna mais humano e compreensível. Isto – e o fato de que o homem é finito – já bastaria para nos fazer venerar este poeta”.

As palavras são de Joseph Brodsky e são sobre W.H. Auden. Mas eu não mudaria uma linha, pois dizem a mesma coisa sobre Bruno Tolentino. Independentemente de ser um gênio ou uma pessoa inteligente, o fato é que era um grande poeta – e um dos maiores, em qualquer língua. E quando os grandes poetas se encontram, seja lá onde estão, sabemos que são um dos poucos grupos – junto com os santos e os mártires – que podem dizer com certeza que, independentemente das sombras dentro das luzes existentes em nossas vidas, eles realmente venceram o mundo.


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A Gênese de ‘Do Enigma ao Mistério’ – XI

Filed under: Especial incluído por Guilherme Malzoni Rabello
Data do post: 19 de agosto de 2008

E hoje encerramos com a última parte da terceira aula do Bruno Tolentino. Eu sei muito bem como é cansativo ouvir as gravações completas, mas quem nos acompanhou por esses quase três meses sabe muito bem a riqueza do material.

Espero que meu trabalho não tenha desapontado muito e espero também poder trazer mais boas notícias sobre a obra do Bruno Tolentino. E já que é para se despedir deste primeiro especial, aproveito para agradecer a todos pela excelente acolhida que a Dicta vem recebendo. Nosso trabalho continua por aqui…

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A Gênese de ‘Do Enigma ao Mistério’ – X

Filed under: Especial incluído por Guilherme Malzoni Rabello
Data do post: 12 de agosto de 2008

Até agora, muitos de vocês devem ter estranhado: “Ué, mas o Bruno Tolentino não era aquele ‘Polemista’”? Esse é um rótulo com o qual discordarei sempre que apareça. Polêmica é algo que por si só não quer dizer absolutamente nada e o Bruno não era, nunca foi, um “polemista”, como muitos gostam de dizer. Na verdade, desconfio que essa classificação seja apenas uma desculpa para não encarar de frente uma obra que é muito maior que os seus críticos.

Dito isso, preparem-se: no áudio de hoje o Bruno realmente resolveu soltar os cachorros. Pessoalmente, acho a parte menos importante de toda a gravação, mas é inegável que o que segue é extremamente engraçado. Aliás, se a polêmica tem um lado positivo é o fato de fazer-nos rir. Mas aí já seria uma idéia minha – e o que interessa é a gravação que segue.

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A Gênese de ‘Do Enigma ao Mistério’ – VIII

Filed under: Especial incluído por Guilherme Malzoni Rabello
Data do post: 29 de julho de 2008

No final da segunda aula, estávamos todos sem palavras. A sensação era muito estranha, porque se por um lado as palavras estavam cheias de esperança e beleza, por outro, deixavam muito claro que o tempo estava acabando.

Por isso, hoje não farei nenhum comentário. Apenas aproveitem a gravação…

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A Gênese de ‘Do Enigma ao Mistério’ – VII

Filed under: Especial incluído por Guilherme Malzoni Rabello
Data do post: 22 de julho de 2008

Nessa altura do campeonato, vocês já devem ter percebido que uma das atividades preferidas do Bruno Tolentino era contar histórias. Essa segunda aula está repleta delas. As histórias eram sempre impressionantes; às vezes, completamente mirabolantes. Isso fazia com que qualquer ouvinte desavisado tivesse a certeza de que eram fruto da imaginação do poeta, jamais a narrativa de de fatos idos e vividos.

Quase sempre, desconfiado que sou, eu me incluía no time dos ouvintes desavisados: “Ah, imagina se isso pode ser verdade… Dono de padaria no Alaska… Não, isso não existe…”. Ou alguma outra coisa do gênero. Mas quanto mais o tempo passa, mais as histórias vão se mostrando, quando não absolutamente verdadeiras, pelo menos plausíveis.

Por exemplo: há poucos dias, recebi uma ligação do meu amigo Jessé de Almeida Primo, que disse algo assim: “Olhe, Guilherme, aquela história lá que você ficou desconfiado, de Tomaz Antônio Gonzaga ser conhecido na Rússia. Eu não sei, mas li um livro…”. E depois de uma longa explicação, eu disse a ele: “Jessé, você não pode perder a chance de mostrar que eu estava errado publicamente, escreve isso e a gente publica no blog”. Então ele me passou o texto que segue, que além de ser muito interessante por si só, mostra mais uma das facetas do nosso autor. Agora é com o Jessé, por hoje eu fico por aqui!

From Russia with love: era uma vez a vodka e a caipirinha…
Por Jessé de Almeida Primo

Introduzindo o leitor deste site às circunstâncias que antecederam à transcrição das aulas de Bruno Tolentino, em A Gênese de ‘Do Enigma ao Mistério’- III, Guilherme Malzoni Rabello citou um trecho em que o poeta diz que Tomaz Antônio Gonzaga figurava em terceiro lugar na preferência dos russos.

Considerando que essa informação tem aquele ar de que “é bom demais para ser verdade”, nosso comentarista teve o cuidado de dizer que se non è vero, è trovato.

Nosso comentarista é sensato, mas há uns dez anos li um opúsculo de um autor russo que, de certa forma, corrobora a informação de nosso saudoso poeta. O problema é que não me lembro do nome do livro (se não me engano, A literatura brasileira na Rússia), e muito menos do nome do autor. Seria um milagre guardá-lo na memória, dada a operação mental que memorizar nomes russos me exige, mas me esforçarei para descobrir o dito cujo e informá-lo a vocês, caros leitores. Por outro lado, como guardei as informações, não poderia deixar de divulgá-las antecipadamente.

Segundo esse autor, os aldeões russos já acompanhavam com interesse notícias do Brasil desde o século XVII, por meio da leitura dos textos dos viajantes que por aqui passaram, e que os aldeões liam em francês.

No século XVIII, já com o advento das Luzes (embora eu repute mais sérias as luzes geradas pela Eletropaulo, sem esquecer a COELBA, da minha Bahia-iá-iá), seu interesse aumentou ainda mais com a entrada de cena da nossa Arcádia Mineira, pois os aldeões vibravam com a liberdade que nossos poetas mineiros inspiravam e cujos poemas eram lidos também na versão francesa.

Esse interesse intensificou-se ainda mais com o advento do romantismo brasileiro, quando a escravatura virou um dos temas oficiais das nossas letras, tendo como carro-chefe os poemas de Castro Alves. Os aldeões se identificavam com o destino dos escravos, viam-se refletidos neles*, procuravam saber o máximo que podiam sobre o assunto e alguns escritores russos (de popularidade restringida ao local) faziam sucesso escrevendo romances ou peças nos quais figuravam nossas paisagens e nossa gente, e nos quais primavam pelo exotismo, que não é muito diferente do que concebem outros estrangeiros, que imaginam haver sucuris, macacos e micos leões dourados, e o Olodum passeando placidamente pelas calçadas de Copacabana de mãos dadas com o homo brazilianus em trajes típicos: bermudas brancas, camisas floridas e chinelas a la Jorge Amado.

Ou seja, essa seqüência de interesses dos vodkas pela cultura brasileira desde o nosso período colonial me faz crer que o “vero” está começando a marcar mais pontos.

That’s all, folks.

*Se os aldeões soubessem o que lhes aconteceria no século XX arrastar-se-iam de joelhos de uma ponta da Rússia a outra para pedir perdão ao Czar.

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A Gênese de ‘Do Enigma ao Mistério’ – VI

Filed under: Especial incluído por Guilherme Malzoni Rabello
Data do post: 15 de julho de 2008

Antes de conhecer o Bruno Tolentino, eu já conhecia sua obra. Porém, mais do que a obra, conhecia a sua fama de “polemista”, de destruidor de reputações. Conhecê-lo pessoalmente foi, de certa forma, um grande desapontamento. Como era possível que alguém que adorava apontar o ridículo da pretensão de cultura de tantos fosse tão simples no trato pessoal?

O ‘professor’ Bruno Tolentino era exatamente assim. Por várias razões, não pude acompanhar o longo curso que ele deu sobre poesia brasileira em 2006. Mas sabia o que estava acontecendo e – sobretudo - encontrei-me várias vezes com os alunos do curso, que iam frequentemente à casa do Tolentino conversar sobre as palestras. Como não podia sair muito de lá (não era uma locomoção fácil), ele simplesmente chamava as pessoas para conversar. Tenho certeza de que isso era do que ele mais gostava; de ser professor, no melhor sentido da palavra: ensinar não este ou aquele conteúdo, mas sim a pensar por si mesmo.

***

Uma nota sobre o meu método ao fazer esta edição. Conforme já disse anteriormente, num primeiro momento simplemente transcrevi as gravações, com todas as imprecisões da fala. À medida que progredia, fazia de vez em quando uma checagem. Depois de terminada essa primeira fase, no entanto, praticamente não voltei a ouvir a gravação. Isso foi necessário para que o trabalho andasse; por outro lado, erros cometidos na transcrição não puderam ser corrigidos. Até agora não peguei nada grave, mas já me torturei mais de uma vez: “como eu troquei essa palavra por aquela outra?!?”.

Uma das difíceis decisões - e que pode servir de exemplo para várias outras - é a referência explícita que o Bruno faz a Santo Tomás. Como vocês podem ver na revista, toda ela virou apenas uma nota de rodapé. E, pelo bem da verdade, quem sugeriu a nota (mesmo sem ouvir a gravação) foi o Henrique Elfes, nosso editor chefe. Minha vontade era não fazer nenhuma referência explícita ao Santo. Por quê? Ora, eu considero a história de Tomás de Aquino interessantíssima; aliás, curiosamente, no dia seguinte a esta aula dei uma palestra sobre ele, mas quando me pus a editar o texto cheguei à conclusão de que não poderia me desviar da linha de raciocínio. E a história de S. Tomás não era essencial ao tema ali tratado (além do que, convenhamos, o Bruno não foi o primeiro a falar dela e certamente não será o último). Por isso, foi cortada.

Por fim, só uma nota: reparem, mais uma vez, no tom de voz no final deste trecho, quando ele pede para fazer uma pausa.

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A Gênese de ‘Do Enigma ao Mistério’ – V

Filed under: Especial incluído por Guilherme Malzoni Rabello
Data do post: 8 de julho de 2008

Entre a primeira e a segunda aula do curso, o papa Bento XVI chegou ao Brasil. Ao longo dessa semana, não me recordo ter-me encontrado com o Bruno nenhuma vez; não conversei com ele sobre a situação, sobre o papa ou qualquer outra coisa.

Nesse momento, tudo parecia estar correndo conforme o planejado. A primeira aula havia sido um sucesso e o Bruno parecia recuperar-se bem. Por isso, foi uma grande surpresa – inclusive para mim – o caminho que a aula tomou.

O que segue não foi absolutamente uma continuação da primeira. Na verdade, esta aula foi praticamente um desabafo. Exatamente por isso, não me julgo capaz de acrescentar o que quer que seja. Só peço que reparem na grandeza deste homem, que naquele momento com certeza sabia claramente que “a Irrecorível” o arrastaria em breve, mas que mesmo assim manteve-se o mesmo Bruno de sempre: contando histórias como ninguém e nos fazendo rir das coisas sérias da vida.

***

Em relação à edição, se a primeira aula foi a mais difícil, esta foi a mais trabalhosa. Certamente foi a que mais cortes exigiu. Não foi nada fácil simplesmente passar por cima de passagens inteiras, de histórias inteiras. Mas achei que era o melhor caminho a seguir e explicarei os motivos ao longo das próximas semanas.

Por outro lado, decidi começar o texto impresso com esta aula justamente pelo tom de intimidade. De certa forma, foi o que imperou ao longo das três aulas e – é inegável – ganhou uma outra dimensão depois da morte do poeta. Isso precisava ficar claro mesmo para o eventual leitor que não soubesse quem era Bruno Tolentino. Por isso, faz sentido começar com a que talvez seja a frase fundamental para entender as três aulas: “eu desisti de morrer”. Demorei um bom tempo para entender o que ele quis dizer com isso. Espero que a gravação ajude vocês a chegar também a uma conclusão.

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