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Dicta na Flip 5 – Considerações finais: Por uma Flip menos ordinária

Filed under: Literatura incluído por Martim Vasques da Cunha
Data do post: 13 de julho de 2011

Por Fabio S. Cardoso

Na quinta-feira, o cineasta e escritor Claude Lanzmann já tinha “mostrado os dentes” na coletiva de imprensa. Antes de começar o encontro, ele, solenemente, perguntou aos jornalistas: “Quem aqui leu meu livro?” Apenas um levantou a mão, ao que o convidado mais polêmico desta nona edição da Flip replicou, em tom de provocação: “Pois só responderei perguntas dele!”. No dia seguinte, durante a mesa “A ética da representação”, o autor de “A lebre da Patagonia” não poupou o mediador, o professor Marcio Selligmann-Silva, não apenas rejeitando algumas perguntas sobre o filme “Shoah” (“vim aqui para falar do meu livro”); como também disparando abertamente contra o fato de Selligmann não perguntar com objetividade. Para piorar, o mediador, sempre que atacado, tentava reagir olimpicamente, batendo palmas para o “gênio indomável” que é Lanzmann.

Toda essa história ganharia nota de pé de página, ou mesmo seria esquecida, não fosse a declaração do curador Manuel da Costa Pinto sobre Lanzmann. Embora esgarçado pela pós-modernidade, o termo “nazista” ainda causa forte repercussão – sobretudo em tempos de correção política. É por esse motivo que, no pós-Flip, o comentário saudoso deu lugar para as especulações sobre o futuro de Manuel da Costa Pinto como curador do evento. E o que seria uma Flip bastante ordinária, tornou-se extraordinária pelos motivos errados. Em tempo: é curioso notar que, no ano em que o homenageado foi um frasista e polemista de grande verve, o evento tenha terminado com uma declaração tão bombástica quanto os petardos verbais de Oswald de Andrade.

De qualquer modo, muito embora o nome do próximo homenageado já tenha sido escolhido (Carlos Drummond de Andrade), alguns desafios se impõem à próxima Flip. A começar pela origem de todos os males desta edição: o papel de mediador. Em um país de bacharéis e doutores tão preparados nas humanidades, era de se esperar que não haveria problema em encontrar gente para ladear nomes como Claude Lanzmann e Antônio Cândido, para citar dois casos exemplares. De fato, não há por que duvidar do talento e da seriedade do trabalho de José Miguel Wisnik e do já citado Marcio Selligmann-Silva. Todavia, ambos falaram mais do que se esperava, e a discussão se tornou por demais enfadonha aos que estavam presentes (aqui, é preciso dizer que o jornalista do Financial Times, Angel Gurria-Quintana, soube conduzir com talento e seriedade suas mesas, assim como Rodrigo Lacerda quando esteve ao lado de João Ubaldo Ribeiro).

Outro dilema correlato se relaciona às mesas: de um lado, existe uma tentativa de dar um viés mais acadêmico e letrado às homenagens – como é o caso de Marcia Camargos e Gonzalo Aguiar, sem mencionar o já citado Antônio Cândido. Acontece que o público parece ficar descolado de boa parte dessas leituras seja porque a análise é por demais específica, seja porque o perfil da audiência está mais próxima do leitor comum, não necessariamente o leitor que compareceria a uma conferência ou a uma reunião de um grupo de estudos. Por outro lado, também é correto afirmar que mesas como a de David Byrne, por mais interessante que seja, parece pertencer à outra dinâmica de discussão – não cabe, essencialmente, num encontro sobre literatura, cujo homenageado é um modernista brasileiro.

 Além disso, depois de nove edições, quais serão os próximos convidados? Em outras palavras, quem ainda não veio até aqui, como é o caso dos sempre desejados Philip Roth ou Cormac McCarthy, é recusa quase certa para os próximos anos (não dão entrevistas porque odiam fazer parte do belle monde literário). A saída: talvez seja preciso reciclar alguns nomes, de maneira a conceber sob outra perspectiva os encontros e os debates. Mas quem? Por parte dos escritores brasileiros, trata-se de algo que já aconteceu: Chico Buarque foi convidado em duas ocasiões, o que nem de longe desagradou ao público – e a geração que surge nas estantes mais descoladas não parece ter o peso da qualidade ou do risco que, por exemplo, um João Ubaldo ousou criar. A pergunta é: Será que isto faz bem à Flip?

A questão é importante exatamente porque, depois das considerações acima, alguém pode imaginar que esta foi uma Flip ruim. Nada disso. Foi, para o bem e para o mal, ordinária. Houve aplauso, riso, lágrimas e, no final, até um pouco de raiva. Como se viu nas mesas de João Ubaldo Ribeiro e James Ellroy (as duas grandes apostas que deram certo na FLIP 2011), escritores com uma obra portentosa, o que o público espera é uma Festa menos previsível e ordinária. Nós, os críticos, que, como bem disse Sergio Rodrigues, temos o dever de usarmos um léxico mais amplo para defender nossos colegas e expressar nossas indignações, esperamos outra: que ela continue sem recorrer às banalidades do vocabulário midiático ou do rancor.

Fabio S. Cardoso é jornalista e professor universitário.


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Dicta na Flip 4 – Quem tem medo de James Ellroy?

Filed under: Literatura incluído por Martim Vasques da Cunha
Data do post: 10 de julho de 2011

Por Fabio S. Cardoso

Sob o ponto de vista mais “tradicionalista”, soa como heresia o convite a um autor de História em Quadrinhos para uma Festa Literária. Todavia, como a certa altura respondeu Joe Sacco, depois de Art Spiegelman, existe mesmo alguma deferência com relação a esse tipo de produção, a ponto de Joe Sacco ser recebido com honras de escritor e discutir, entre outras coisas, sobre a questão da objetividade jornalística, além de tecer crítica à cobertura da mídia norte-americana. Segundo Joe Sacco, os relatos dos jornais não privilegiam os personagens comuns. “Interesso-me pelos civis, que são sub-representados pelas narrativas em geral”, explicou, para depois acrescentar: “me interesso pelas histórias das pessoas”. Nesse sentido, o autor justificou seu método de ambientação, tomando como referência tanto os relatos de Hunter S. Thompson quanto os textos de George Orwell.

Ao longo da exposição de 20 minutos, bem como durante o período reservado às perguntas do mediador, o jornalista Alexandre Agabiti Fernandez, Joe Sacco não foi incomodado por nenhuma questão difícil e polêmica, logo ele, um autor que, a um só tempo, subverteu os padrões da narrativa jornalística e escreveu a propósito de um conflito geopolítico tomando como referência o lado palestino. Em “Notas em Gaza” e “Palestina”, o leitor tem em mãos um diferente tipo de relato jornalístico. Mas coube ao público a pergunta de um milhão de dólares: “Que tal fazer uma narrativa sobre o conflito tomando o lado de Israel como referência?”. O quadrinista reconheceu: “É uma proposta honesta, mas, quando decidi escrever esses livros, não havia a perspectiva do lado da Palestina nos relatos”. Em seguida, salientou o quanto sua preocupação com a elaboração do conteúdo que vai publicar difere do relato feito no calor da hora, mais imediato. Para além disso, o derradeiro ponto interessante da participação de Joe Sacco foi sua resposta no que concerne a ideia de objetividade. Ele foi taxativo: “Eu não questiono a verdade objetiva, mas questiono a obsessão com a verdade objetiva”.

Curiosamente, na mesa seguinte, que contou com as presenças de Edney Silvestre, Teixeira Coelho e Marcelo Ferroni, a questão da verdade objetiva apareceu novamente. Começou com a leitura de Teixeira Coelho da epígrafe de seu livro, “O Homem que vive”, que contrapõe os princípios de real e ilusão: “Você é minha realidade. Eu sou sua miragem”, escreveu Paul Celan citado na epígrafe. Segundo Coelho, aqui está uma pista, uma chave para o livro. Em sua apresentação, o jornalista e escritor Edney Silvestre leu um trecho de seu novo romance – “A felicidade é fácil” –, que tem como pano de fundo o período histórico do governo Collor, mas toma como mote, como no anterior “Se eu fechasse os olhos agora”, um crime não resolvido – a verdade que não é revelada. Por seu turno, Marcelo Ferroni, após ler trecho de seu “Manual Prático de Guerrilha” (espécie de biografia ficcional do mito Che Guevara), tentou explicar seu método de decomposição da imagem do Che: da idealização para o cotidiano, apontando as fissuras e a falibilidade desse herói. A questão da verdade objetiva apareceu exatamente no uso da ficção como maneira de narrar a história melhor que a História. Teixeira Coelho, retomando a epígrafe de seu livro, afirmou que o mais indicado é colocar a verdade em discussão enquanto Edney Silvestre assumiu a defesa da verdade incontestável, sem prejuízo da verdade criada do ponto de vista ficcional. No auge dessa discussão, Marcelo Ferroni parecia alheio ao debate, muito embora seu livro, já na capa, trabalhe com essa “decomposição da imagem”.

Foi preciso, enfim, algumas réplicas e outras tréplicas para que os autores encontrassem um consenso. Não que estivessem brigando, mas ficou clara a oposição entre Edney Silvestre e Teixeira Coelho, o primeiro não arredando pé de suas convicções (chegou a citar a questão do sigilo eterno dos documentos oficiais), enquanto o segundo tentava se mostrar mais propositivo e conciliador. E quando o mediador, o jornalista Claudiney Ferreira, perguntou sobre o tabu de escrever romances sobre a felicidade, coube a Teixeira Coelho a palavra de armistício, algo como “existe felicidade em escrever romances”.  Edney Silvestre completou: “Existe felicidade em estar na FLIP”. Aparentemente, a paz estava selada, apesar da discussão anterior.

Da mesa de João Ubaldo Ribeiro, para ser bastante direto, a principal notícia não foi sua boa interação com o mediador, o também escritor Rodrigo Lacerda; tampouco foi o fato de Ubaldo ter apresentado a trajetória de seus romances, como “Sargento Getúlio”, “Viva o Povo Brasileiro”, “Diário de um Farol” e “A Casa dos Budas Ditosos”. A noticia foi a revelação de que “Guimarães Rosa não está entre os autores de meu afeto”. Em vez das palmas, houve um “oh” seguido de um silêncio. Ao justificar suas motivações, João Ubaldo buscou exemplos no texto. Contou que ao ler um trecho de “Primeiras Estórias” não se convenceu da abertura de um conto: “‘a viagem fora planejada no feliz’. Eu não leio isto nunca mais”, disse, agora sim arrancando risos da platéia e do mediador. É evidente que a declaração gerou alarido, mas não foi por essa razão que a mesa de Ubaldo foi a mais cativante do dia, conforme a percepção do público. João Ubaldo Ribeiro corre o risco de ser o autor mais bem avaliado nas pesquisas de satisfação do público (sim,leitores, existe tal coisa na FLIP) porque cortou as bolas que foram levantadas pelo mediador. Simples assim. Nesse sentido, a relação prévia entre os escritores deixou João Ubaldo mais à vontade para responder as perguntas à sua maneira, enquanto Rodrigo Lacerda tratava de situar a audiência das datas, eventos e contexto histórico. Em síntese, mais do que comentar estilo ou influências para as gerações a seguir, a palestra serviu para que Ubaldo contasse causos de forma descompromissada (o riso foi escancarado quando declarou que uma ótima forma de inspiração é um cheque da editora contratante), como se estivesse numa de suas crônicas dominicais. De pé, ao final, a platéia mostrou o quanto tinha gostado –  e muito antes disso, jornalistas já haviam manifestado o quão fofo era o convidado…

***

Se restava alguma dúvida quanto à importância de James Ellroy para a FLIP, basta ver a cerimônia especial no momento da sua entrada ao palco. Explica-se: enquanto todos os demais convidados entram juntos com os mediadores, o autor norte-americano apareceu sozinho, depois de ter sido apresentado pelo Arthur Dapieve, num formato que se assemelhava e muito ao plot dos livros de Ellroy. O escritor entrou em cena e, decididamente, interpretou de forma performática o trecho de seu último livro. Mais: ecoando um de seus personagens, declarou: “Estou aqui para que é tudo verdade. Vou contar tudo”. À medida que o público aplaudia, ele pedia, com as mãos, mais palmas. Mais tarde, viria a justificar seu comportamento:  “Eu sou louco pelo poder (…) Se eu fosse um líder religioso, seria Deus”, exagerou. Esse é James Ellroy, e o público se acostumava à sua personalidade propositalmente errática.

Mais uma vez, enquanto os demais autores citaram escritores do século XIX e outros clássicos, Ellroy aproveitou para apresentar sua afeição à obra de Beethoven. Citou, também, Mahler e Lizst, mas foi de Beethoven que restaram as marcas mais significativas, a ponto de declarar: “É o ente criativo, gênio”, disse. Nesse sentido, discordou de Dapieve quando este citou Edward Said e seu livro “Estilo Tardio”, e aqui a conversa caminhou ao largo do fazer literário, a ponto de Arthur Dapieve sugerir: “Vamos para casa, então, ouvir Beethoven” – como não houve reação à provocação, o mediador recuou.

Ao longo de sua fala, era evidente a distância de Ellroy em relação aos demais autores convidados para a FLIP. Enquanto os campeões de vendas desta edição se emocionaram (até sexta-feira, os campeões de venda nas livrarias locais eram Nicolelis e valter hugo mãe), Ellroy parecia pronto para a briga, num discurso que mostrava traços de virulência, ainda que ele não tenha sido necessariamente agressivo. Antes, foi assertivo e verdadeiro no tocante à sua falta de leitura dos clássicos gregos ou russos. E nesse momento aquela leitora tradicional dos cadernos culturais de domingo ficou claramente incomodada na cadeira ao lado: “É um bruto, como pode?”, perguntou. Ela parecia inconformada com o fato de ele se importar tão pouco com o ethos do escritor.

Mas o fato é que, na literatura, o que conta não é o bom comportamento do escritor e sua obra e Ellroy ganha de todos os autores da FLIP se comparados ao escopo de abordagem e à ousadia da técnica, além de ter escrito, pelo menos, três grandes obras-primas: “A Dália Negra”, “O Grande Deserto” e ” Tablóide Americano”. No livro “American Vertigo”, publicado no Brasil em 2006, o pensador francês Bernard Henri-Levy afirma que o único paralelo possível para James Ellroy é o artista plástico Jackson Pollock, porque o escritor representa seu texto da mesma maneira como o pintor representava sua obra. A título de comparação, quando o mediador citou a aproximação com Dostoievski, apontada pela crítica Joyce Carol Oates, o autor aceitou o paralelo, para depois disparar: nunca li esses escritores russos. Podemos ir além: Ellroy coloca o romance policial – então território consagrado de mestres como Dashiell Hammett e Raymond Chandler – no mesmo patamar realizado por Herman Melville e Joseph Conrad em relação ao romance de aventuras. Como resultado de sua performance, o saldo final da palestra não poderia ser outro a não ser a longa fila que se formou para os autógrafos. Afinal de contas, os brutos também amam, não é mesmo?

Fabio S. Cardoso é jornalista e professor universitário.


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