A linha da sombra de Philip Roth
Data do post: 26 de junho de 2008
Terminei de ler o mais recente livro de Philip Roth, “Fantasma Sai de Cena” (Exit Ghost, Cia. das Letras). Não é tão poderoso quanto, por exemplo, “O Animal Agonizante” e “Everyman” (não consigo pronunciá-lo como “Homem Comum”) - e não chega aos pés de “O Teatro de Sabbath”, um dos grandes livros da década de 90. Mas há momentos tocantes - e insights que não deixam a dever nada ao melhor Roth, como, por exemplo, as citações a Joseph Conrad (há uma verdadeira obsessão por The Shadow Line que permeia cada linha do romance) e as inúmeras reflexões sobre a mortalidade humana. Ao que parece, “Fantasma Sai de Cena” é a despedida de Nathan Zuckerman, o alter-ego de Roth, agora impotente, incontinente e sofrendo com as perdas de memória - algo cruel para quem vive das lembranças como seiva da vida.
Mas também cheira a uma despedida do próprio Roth - uma despedida triste, diga-se de passagem. Há um odor amargo no final do livro, um odor que fica com o leitor quando este percebe que tanto o personagem como Roth não possuem meios para encarar a derrota da vida. Porque a vida é isso, meus amigos: um constante atravessar da linha da sombra, se não for da juventude para a maturidade (como é o caso da obra de Conrad), sem dúvida será um dia da maturidade para o nada. Roth bate na tecla da mortalidade com uma freqüência que nos deixa estonteados; mas aí vem a pergunta: será que a vida é só isso - derrota atrás de derrota?
Para Roth e Zuckerman, a resposta é positiva. Não há volta para qualquer ato, até mesmo para a grande literatura. De nada adianta criar uma obra - a vida pedirá um preço e este será alto demais. Para quem era conhecido como um “transgressor” (para usar um termo de Carlos Felipe Moisés) no início de carreira, Philip Roth atravessa a sua última linha de sombra como um conformado com a decadência e com o fim. Talvez este seja o caminho de todos os marginais - de maior ou menor talento.
Comentários (2)







