Especial 50 anos de Teoria Mimética Parte 2 – Da descida aos infernos à ressurreição
Data do post: 26 de outubro de 2011

Por Karleno Bocarro
Apaixonei-me logo pela mulher de meu amigo, confessa Dostoiévski. O ano é 1854, ele tinha acabado de deixar a prisão; obrigado ainda, como cumprimento de pena, a servir como soldado em Semipalátinsk, província siberiana, onde torna-se amigo do casal Issáiev. Logo em seguida, falece o marido. Dostoiévski pede a viúva, Mária Dmítrievna, em casamento. Mária é uma espécie de Emma Bovary russa que adora falar com orgulho de seus antepassados franceses emigrados durante a Revolução, e anseia por uma existência moscovita. Ela porém ama um outro, o jovem e belo Vergunov. Dostoiévki tem trinta e cinco anos, é feio. Vergunov é professor; ganha pouco. Dostoiévski retrata então para a viúva um quadro magnífico de si mesmo – um brilhante escritor com um futuro solar – ao mesmo tempo em que desencanta o rival: ligar-se a ele significa uma existência, na desolada Sibéria, com uma fileira de filhos. Contudo, é preciso não dar a impressão de estar trabalhando para si mesmo; Dostoiévski intercede pelo rival junto à Mária. A paixão de Dostoiévski, exasperada pelo entusiasmo da jovem por Vergunov, além de exageradamente romântica, é mórbida, doentia. Ele escreve: Sou um louco! Um amor dessa espécie é uma doença. E justifica sua conduta ambígua, sem deixar de atribuir-se uma grandeza de alma superiora, a questões táticas; felicita-se, fala às vezes da santidade de seu amor. Vergunov todavia perde interesse por Mária. Confrontado com a responsabilidade em manter um compromisso assumido, Dostoiévski casa com Mária, mas a sua paixão logo arrefece. No dia do casamento ele tem um ataque de epilepsia e a vida conjugal inicia-se com brigas e dificuldades financeiras.
Em um de seus primeiros livros, Dostoiévski: Do Duplo à Unidade (Tradução de Roberto Mallet. É Realizações, 2011), René Girard pretende tornar a biografia do escritor russo, graças à obra, verdadeiramente inteligível, e não o contrário, com a sua biografia explicar a obra. Girard mostra como Dostoiévski, nas suas primeiras obras, expõe em graus variados a própria experiência de um amor obsessivo, o qual se mantém aceso por meio de uma relação triangular – a atração de um homem por uma mulher aumenta vertiginosamente quando existe um outro por qual ela se interesse. No entanto, este outro não é somente um odiado rival, ele estimula uma paixão que tende a tornar-se excessiva e perigosa. Recua o interesse do rival, como o caso do jovem Vergunov por Mária, diminui a fascinação do apaixonado. O resultado é relacionamentos artificiais com pouco pé na realidade. Segundo Girard isso acontece porque o desejo humano, ao contrário dos apetites e necessidades naturais – aqui o instinto determina os objetos –, depende sempre da mediação do outro, de um modelo adotado como guia para a definição do próprio desejo, o qual é sempre mimético, nunca autônomo. Mas essa necessidade de imitação leva a tensões entre a rivalidade e a admiração, a qual pode degenerar tanto numa raiva incontrolável como numa fusão apaixonada e perigosa – um tema dostoiévskiano recorrente, quer se trate de personagens comuns ou de personalidades históricas. Por exemplo, a admiração de Raskhonilkov por Napoleão em Crime e Castigo, ou de Arcádi, o herói em O Adolescente, pelo banqueiro Rothschild.
As grandes personagens de Dostoiévski trazem à tona a sua própria experiência de vida: deterioração espiritual, obsessões maníaco-depressivas, compulsão por jogos, crises de epilepsia e conflitos com seus pares. Um episódio que ilustra bem esta cega rivalidade é aquele que envolve a sua estréia como romancista. Acolhido, ao estreiar na vida literária com Gente Pobre, como um novo Gógol, invejado por Turguiêniev e Nekrasov, Dostoiévski cai em desgraça ao desagradar Belinsky, o crítico literário mais importante da época, com O Duplo – aos olhos de Belinsky, um romance em demasia psicológico e pouco político; alheio aos problemas sociais da Rússia. Ele escreve ao irmão: Fiquei abatido; tenho um terrível defeito; um orgulho, uma vaidade sem limites. O simples pensamento de ter decepcionado a expectativa do público e de ter estragado uma obra (O Duplo) que poderia ter sido grandiosa mata-me literalmente. Muitas passagens estão mal-acabadas. Tudo isto torna-me a vida insuportável.
Girard demonstra como esta experiência particular e pendular de vaidade ao orgulho ferido é exemplarmente refletida em Memórias do Subsolo. O maior sofrimento do herói do subsolo provém do fato dele não conseguir distinguir-se dos homens que o rodeiam. Ele pretende derrotar os outros, mostrar-lhes a dignidade de ser “único”. Mas aos poucos toma conscência do fracasso, pois percebe-se rodeado de pequenos funcionários com sonhos e (também) derrotas idênticos. E na tentativa desesperada de obter-lhes o reconhecimento, para ganhar a própria auto-estima, liga-se mais e mais a eles, tornando-lhes semelhante. Consciente da derrota, da inutilidade da luta contra seus adversários, o sentimento que o domina ao final é de inferioridade. O anti-herói do subsolo possui enfim uma atitude ambígua em relação ao oponente: ele o admira e o rejeita, mas quando fracassa se divide em um ser desprezado e um observador que despreza. Torna–se Outro para si mesmo.
René Girard observa que esta fase romântica, impregnada de elementos de sadismo e masoquismo, não salva o escritor; encerra-o muito mais num círculo de orgulho, ressentimento e mentiras. Pior, perpetua o mecanismo de uma existência voltada ao fracasso e à fascinação doentia por si mesmo.
No entanto, observamos em Crime e Castigo, o primeiro grande romance de Dostoiévski, os traços iniciais de uma conversão. Raskholnikov, em seu nihilismo, vai mais longe, ao cometer assasinato, do que o homem do subsolo. Confrontado com o orgulho e loucura de seu crime, Sonja, porém, o salva. Ele orienta-se, ao contrário do homem do subsolo que recusa o amor de Lisa, a prostituta, em direção à redenção – aceita a culpa e carrega a própria cruz.
Em Os Possessos o mundo é um abismo repleto de homens de subsolo: o moralmente suspeito Stepan Trofímovitch, o rancoroso e vingantivo Vierkhovênski, o demoníaco Stavróguin, o sinistro Kirilov; todos em busca de uma redenção às avessas, a própria danação. Kirilov é a personagem de Dostoiévski que mais nos lembra Nietzsche e sua tentativa de sobrepujar o nihilismo, num mundo onde todos estão plenamente perdidos e derrotados, por meio de exagerada afirmação do eu. Uma perigosa tentação que Dostoiévski superou ao colocar Cristo no centro de sua relação com o outro, um outro que devemos amar como a nós mesmos, se não queremos idolatrá-lo e odiá-lo no fundo do subterrâneo. Mas que em Nietzsche naufragou em demência, pois “querendo divinizar-se sem o Cristo, o homem coloca-se a si mesmo na cruz” (p. 128). Ou então ao revoltar-se contra Deus para adorar-se a si mesmo acaba sempre adorando o outro, como a devoção das personagens do livro pelo demoníaco Stavróguin. Pois bem, nessa verdadeira proclamação do triunfo de Satã que é Os Possessos onde encontra-se a eficiência da graça? Girard especula que a escolha cristã pode ser deduzida da loucura e fracasso dos personagens.
Se o período “romântico” é uma verdadeira descida aos subterrâneos do inferno, onde a presença do orgulho está por trás de todas as coisas, nos separando dos outros e de nós mesmos, nos romances intermediários – Crime e Castigo, O Idiota, Os Possessos e O Adolescente – o subterrâneo não é mais uma condição irreversível, e sim uma passagem para a última etapa de uma cura espiritual. Pois como diz Aliocha a respeito do irmão Ivan: Ou ele ressuscitará na luz da verdade, ou sucumbirá no ódio. Isso significa, segundo Girard, que à luz de seu último romance, Os Irmãos Karamazov, a existência de Dostoiévski, e o conjunto de sua obra, assumem a forma de uma morte e de uma ressureição: “Aceitando ver-se primeiro como pecador, o escritor não se desfez do concreto, não se abismou na deleitação amorosa: abriu-se a uma experiência espiritual de que sua obra é tanto a recompensa quanto o testemunho” (p.142). Criar significa outrossim matar o homem velho, prisioneiro de formas estéticas, psicológicas e espirituais que estreitam o horizonte de homem e de escritor.
A edição da É Realizações ainda traz um DVD, A Gênese de uma Ideia, com entrevistas de René Girard. Nelas vemos um homem afável e inteligente. Pensador de qualidade, Girard se expressa como escreve; a sua prosa é límpida e agradável. O livro e o DVD oferecem, portanto, uma excelente introdução ao pensamento deste que é ao lado de Joseph Frank, George Steiner, Lev Shestov, Nikolai Berdiaev, Romano Guardini, Henri de Lubac, um dos grandes estudiosos de Dostoiévski.
Karleno Bocarro é escritor, autor de “As almas que se quebram no chão” e de “O advento” (no prelo).
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Especial 11 de setembro parte 3 – O ressentimento e a memória
Data do post: 9 de setembro de 2011

Por Karleno Bocarro
Goethe não compartilhou do entusiasmo com que Herder, Wieland, Klopstock e Schiller acolheram a Revolução Francesa. Acusado de conservador e inimigo da liberdade, defendeu, trinta e cinco anos mais tarde, para o amigo Eckermann, a sua posição: comoviam-lhe as vítimas do terror revolucionário, indignava-lhe o recurso à violência como solução aos problemas humanos. Além disso, os possíveis benefícios da Revolução não eram, na época, conclusivos. Para Goethe, os eventos humanos mudam de forma a cada 50 anos; o que é perfeito em 1800 pode encontrar-se, em 1850, em decomposição.
A cidade de Nova York recompõe-se rapidamente. Logo a Freedom Tower estará no local do principal alvo dos atentados de 11 de setembro, as Torres Gêmeas. A normalidade retorna, o mundo segue adiante, e os atentados terroristas não nos chocam mais. O evento histórico que inicia o nosso século parece precisar de datas comemorativas para ser relembrado. A literatura busca respostas: deixou-nos ele alguma lição, ou a sua interpretação encontra-se presa a concepções ressentidas de pensamento?
Para a escritora paquistanesa Kamila Shamsie, e o seu colega caribenho Caryl Phillips, falta na literatura, em especial a norte-americana, um grande romance que vá além dos eventos do 11 de setembro e discuta a prisão de Guantánamo, a guerra contra o terror, “sobre como aquilo tudo pode acontecer e se tornar algo dominante no governo dos Estados Unidos sem uma reação do povo” [sic]. Palavras que confirmam a filosofia de Richard Rorty. Para Rorty, as medidas do governo Bush contra o terror trariam a morte de instituições democráticas e o conformismo à população. Mas talvez precisemos, nós, os escritores, conceder um tempo maior (os 50 anos imaginados por Goethe?) aos nossos colegas norte-americanos para o romance que Shamsie e Philips tanto lhes cobram. Entre aqueles, porém, que ficam no 11 de setembro há sim excelentes romances, tanto europeus, como norte-americanos (infelizmente nenhum paquistanês ou caribenho): Sábado, de Ian McEwan, Die Habenichtse, de Katharina Hacker, Extremamente Alto & Incrivelmente Perto, de Jonathan Safran Foer, Terrorista, de John Updike, e O Homem em Queda, de Don DeLillo.
No ensaio, In the Ruins of the Future, publicado três meses após o 11 de setembro, DeLillo fala do mundo como uma narrativa que finda no pó e na destruição. Ao escritor cabe inventar uma contra-narrativa, a qual virá à tona como uma espécie de cura às dores abertas pelos erros da época. O escritor quer entender o 11 de setembro e suas consequências. Ainda é cedo? Além de nos faltar o tempo, a compreensão, como a cura, requer paciência. DeLillo, porém, adverte: nossas ideias, assim como o idioma, não podem separar-se do mundo que as provoca. É grande o risco de distorcermos a realidade. O escritor, segundo DeLillo, deve iniciar suas reflexões em meio a ruínas (das torres); ele imagina a ordem inicial aos ataques – o momento em que o Mal dá o primeiro sopro –, desespera-se com a exigência do tema, pois antes mesmo da Política, da História e da Filosofia há o espanto original: justifica-se a perversão terrorista?, e assume um compromisso com as vítimas. Pessoas caem das torres, algumas de mãos dadas… Esse compromisso com o sofrimento não é brincadeira de idiotas! A literatura faz então a contra-narrativa, une corpo e alma; indica que mesmo no caos convulsivo do aço e do concreto há espaços para a beleza humana, expressa nos gestos de sacrifício e esperança.
DeLillo precisou de mais seis anos para escrever um dos melhores romance sobre o 11 de Setembro, Homem em Queda. Seis anos de muito trabalho: esperar, escrever, corrigir, pensar… A tarefa nunca é fácil. No mesmo ensaio, DeLillo nos fala do terrorista: a vantagem que ele possui é uma força monstruosa. O terrorista conhece apenas uma ação; reduz o mundo a um só plano, o da destruição.
Ambiento o meu romance, As Almas que se Quebram no Chão, antes dos ataques de 11 de Setembro. A história, contudo, cobre o primeiro ataque ao World Trade Center, o de 26 de Fevereiro de 1993. Marco, o protagonista, uma personagem de caráter duvidoso, encontra-se no aeroporto de Berlim quando lê a manchete do atentado no El País, e comenta: “Castigo merecido! O que querem os americanos com torres gigantes rasgando o céu?’. Na mesma linha de raciocínio, Noam Chomsky, o grande linguista, numa série de entrevistas – publicada no Brasil com o título “11 de Setembro” – atribuiu aos Estados Unidos, com sua política externa intervencionista, a responsabilidade pelos atentados às Torres Gêmeas.
Para Marco, assim como para Chomsky, a preocupação não é com a dor e o pânico das vítima. Em relação à opinião dos escritores Shamsie e Philps, próximas a um anti-americanismo comum no meio intelectual, podemos responder com um conceito de Samuel P. Huntington, o “choque de civilizações”. As ideias encontram-se hoje contaminadas por um forte sentimento anti-ocidental e são seletivas com qual sofrimento devem identificar-se.
Talvez o mundo pouco tenha mudado desde os atentados de 11 de setembro. A violência e a estupidez permanecem. Mas nos consola a presença, na literatura, de escritores como Don DeLillo que nos ajuda a lembrar de suas vítimas.
Karleno Bocarro é escritor, autor de “As almas que se quebram no chão” (É Realizações, 2010) e de “O Advento” (no prelo).
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O Manhattan Connection de quem fala a verdade
Data do post: 18 de abril de 2011
Enquanto o Caio Blinder – o eterno bom menino que fazia contraponto às ousadias de Paulo Francis – tem de se explicar o tempo todo sobre o fato de ter chamado a rainha da Jordânia de “piranha”, existem três sujeitos que resolveram fazer o Manhattan Connection de quem fala a verdade e não tem medo de xingar quem deve ser xingado.
“Num faz cabimento” é um podcast anárquico elaborado por Dionisius Valença – colaborador da Dicta&Contradicta -, João Paulo Bueno e Diego Blanco. Já existe há quase um ano e, se algum produtor resolver fazer algo melhor que o CQC, eu não hesitaria em indicar estes três senhores (sim, são senhores apesar da idade, cada um mais rabugento do que Walter Matthau ou Jack Nicholson em As good as it gets) para superar a turma de Tas no futuro.
Você, ouvinte delicado, pode se ofender com algumas inconsistências – como, por exemplo, o momento em que um dos apresentadores cita Jô Soares como padrão de crítica literária -, mas o fato que deve ser louvado é o desafio proposto pelo programa: sair da pauta do rame-rame, pensar fora da caixinha e, sobretudo, cumprir o famoso ditto dos Founding Fathers que dispara a indignação justa de todos nós: don´t tread on me.
No programa desta semana, eles entrevistaram Karleno Bocarro, o autor de As almas que se quebram no chão, aquele romance que não irá para a lista de finalistas do Portugal Telecom porque nenhum jurado sabe mais encontrar um grande livro quando o vê embaixo dos seus narizes.
Só mesmo os nossos anarquistas da Zona Leste paulista para fazer Karleno, um tímido resoluto, falar pelos cotovelos e dar uma aula sobre como foi viver em Berlim Oriental em uma época histórica que ainda ecoa entre nós.
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Os grãos
Data do post: 23 de fevereiro de 2011
Em uma anotação feita em seu diário (publicado em parte pela revista piauí neste mês de fevereiro), o escritor americano John Cheever, uma alma que se deleitava no seu próprio tormento, define precisamente como começa aquele bichinho manhoso chamado auto-destruição:
1952_Quando a autodestruição brota no coração, parece ser menor do que um grão de areia. É uma dor de cabeça, uma leve indigestão, um dedo inflamado; mas você perde o trem das 8h20 e chega atrasado à reunião sobre a dívida do cartão de crédito. O velho amigo com quem você se encontra para almoçar esgota a sua paciência sem mais nem menos e num esforço para ser agradável você toma três drinques, mas a essa altura o dia já perdeu a forma, o propósito e o significado. Na esperança de lhe devolver algum sentido e beleza, você bebe demais nos coquetéis e fala demais, dá em cima da mulher de alguém e termina fazendo algo idiota e obsceno, e pela manhã você quer estar morto. Mas quando tenta reconstituir o caminho que o conduziu a esse abismo, tudo que você encontra é um grão de areia.
Em outras palavras: ela começa quando menos se espera. E quando falamos que isso ocorre quando menos esperamos, quando está em posição de tocaia, ficamos tentados a chamá-la por outro nome, talvez mais sofisticado, palatável até para os nossos padrões de esnobismo cultural – como desejo ontológico, desejo mimético, desejo triangular – ou então para nomes mais prosaicos, reconhecíveis em qualquer expressão cotidiana – inveja, ódio, ressentimento. Contudo, uma expressão qualquer não consegue substituir a verdadeira relação que o tal grão de areia começa a contaminar na sua alma, uma relação que não pode ser articulada porque, afinal, temos medo de aceitá-la em nossas vidas: o fato de que nunca queremos ser o que realmente somos porque o que queremos ser é sempre ser o outro.
Atualmente, esta é a via-crúcis brasileira – ainda mais dolorosa já que não queremos perceber que estamos nela há algum tempo. E como uma obra de arte que se preza por esse nome é obrigada a expressar não só o desconhecimento em que vivemos, mas também uma espécie de diagnóstico e, quiçá, uma espécie de catarse, é de bom grado anunciar que, recentemente, temos dois livros que atingem esta intenção: As almas que se quebram no chão, de Karleno Bocarro, e Os sinais impossíveis, de Vinicius Castro.
Os leitores da Dicta já conhecem o primeiro livro. Teci lôas e considerações sobre o romance de Karleno, que acompanhei em seu processo de gestação. Contudo, tudo isso foi em um momento que tinha de analisar o romance como um editor faria. Agora fiz a leitura mais arriscada de todas: a de um leitor comum, que tem o livro impresso, físico, em mãos e começa a apreciá-lo como um pobre mortal. Este é o teste definitivo de qualquer romance que preste.
Se passou no teste? Nas primeiras cinqüenta páginas, achei que algo de estranho tinha acontecido: não parecia ser o livro que eu tinha lido antes. Havia agora um terceiro narrador que não sabia a razão de sua existência na trama. Havia algumas gralhas de linguagem que me fazia acreditar que talvez o autor tentava imitar Charles Bukowski com demasiada auto-consciência. O livro capengava logo no início, algo perigoso para um romance de trezentas e cinquenta páginas e com uma ambição considerável.
Mas algo mudou quando entrou em cena Bocas, o personagem a lá “homem do subterrâneo” criado por Karleno. E aí sim me reencontrei com o livro que tinha lido antes: a história de um grupo de estudantes brasileiros em Berlim, justo no momento da queda do muro – e, em especial, a relação triangular que há entre o personagem principal, Marco Dilthey, um niilista com pretensões literárias, Barad, e sua namorada alemã, Andrea. Porém, com a entrada de Bocas, o que era antes um triângulo tornou-se um quarteto – e então As almas que se quebram no chão começa a voar como poucos romances brasileiros fizeram recentemente.
Já Os sinais impossíveis não sofre do problema de um início capenga. É um romance perfeito em termos técnicos e de carpintaria literária. Vinicius Castro sabe contar uma história – e, o melhor, sabe construir cenas com a precisão de um ourives. O melhor exemplo é a cena inicial: a personagem principal, Luísa, está entediada em uma festa. Resolve ir embora. Caminha pelas ruas de Brasília, uma cidade que exala uma artificialidade abominável. Pensa sobre a vida. Sobre a família, os pais, o irmão. Quando chega em casa, a vida lhe dá um tapa na cara e há uma surpresa terrível no outro lado da porta. É uma das cenas mais dilacerantes já escritas na literatura brasileira atual.
A partir daí, o romance se volta para João, que namorará com Luisa em um relacionamento motivado mais pela expectativa do que ela pode ser em sua imaginação do que propriamente pelo o que ela é na realidade. E, entre um afago e outro, uma festa e outra, Castro mostra que conhece a tradição pela qual quer ser compreendido: a prosa minuciosa das percepções de David Foster Wallace e de Don DeLillo, a descrição interior dos personagens que mimetiza os termos preciosistas (em alguns momentos, preciosistas até demais) da poesia de Wallace Stevens e uma melancolia brasileira que nos dá a impressão de ler um romance que poderia muito bem ser uma mistura dos filmes de Michelangelo Antonioni com as canções do Legião Urbana.
O fato é que ambos os romances discorrem sobre este grão de areia chamado auto-destruição com uma força moral e, o mais importante, estética que nos impressiona assim que conseguimos entender o que está em jogo. E o que está em jogo é nada mais nada menos nós mesmos, seja em Brasília, seja em Berlim. Afinal, um brasileiro é também um ser humano, não é mesmo? Ou seja: todos nós temos aquela capacidade de escolher entre o caminho para cima e o caminho para baixo – e parece que decidimos por este último há algum tempo (e, o pior, estamos gostando muito dele).
Karleno Bocarro e Vinicius Castro decidiram enfrentar o caminho para baixo com aqueles instrumentos que Hamlet, outro sujeito que gostava de se agarrar no seu grão de areia, desprezava solenemente: palavras, palavras, palavras. Entretanto, a diferença entre um e outro é a capacidade de deixar o leitor irritado com sua própria situação de apatia. Seus próprios personagens se deixam viver em uma entropia de sentimentos, em uma casca de vida que, se depender deles, jamais permitirá que a lava da imprevisibilidade exploda de uma vez por todas. É claro que, por exemplo, não se pode negar o amor de João por Luisa no livro de Castro, algo muito diferente do desejo irracional que um Marco sente por todas as alemãs que quer levar para a cama e não consegue; mas quem disse que o tal do amor não pode ser também o mesmo grão de areia sobre o qual Cheever escreveu?
As almas e Os sinais impossíveis mostram uma juventude que resolveu uma “aparência de vida”: tudo funciona, tudo está consolidado, a economia é uma maravilha, ninguém passa mais fome, não há mais guerras, tudo é paz e amor, mas… – mas a vida se petrificou de tal forma que não conseguimos mais saber quando começou a nossa desgraça.
Porque, como apontam Karleno e Vinicius, a desgraça começou dentro de nós mesmos – e só esta importa. O resto é balela que ficará borbulhando no silêncio mal articulado das palavras não ditas. Os dois romances são, cada um a seu modo, tratados de como o desejo ontológico nos corrompe e depois corrompe toda uma sociedade. Às vezes, a salvação está lá – e, por coincidência, os livros a apresentam pelo mesmo nome: Luisa – mas seus personagens não a aceitam simplesmente porque não conseguem percebê-la que está debaixo de seus narizes. E é neste ponto que As almas se torna um livro superior a Os sinais: ele leva o drama da redenção às últimas conseqüências e, mesmo com seu final sombrio, com um personagem que acaba selando o pacto mefistofélico, o autor não perde em vista a perspectiva que a vida não é uma história narrada por um idiota, cheia de som e fúria, e, ao mesmo tempo, mostra que este último pode ser o próprio leitor – e só se este quiser com todas as suas forças. Como contraponto, é provável que, no futuro, Vinicius Castro tenha de provar para si mesmo e para o leitor em seus próximos romances que ele não ficou fascinado com o barulho que a “pressão da existência” (expressão que Wallace Stevens adorava usar) lhe deu como benção e como maldição.
Apesar da nossa prosperidade econômica, resolvemos fazer, há muito tempo, a opção preferencial pelo desastre. Estes dois livros mostram que existem dois jovens autores capazes de analisar o país onde vivem com honestidade e sem nenhuma misericórdia. A entropia nos come por dentro, rapazes, e somos os responsáveis por ela. E se for para viver agarrado em grãos, recuso o de areia e prefiro o de mostarda, muito mais visível e muito mais saboroso.
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As almas que se quebram no chão – lançamento no Goethe-Institut
Data do post: 16 de novembro de 2010

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As almas que se quebram no chão
Data do post: 17 de agosto de 2010

Paulo Francis dizia descaradamente que o jornalismo só valia a pena para prestigiar os amigos e fazer novos inimigos a cada dia que passa. Já faço a segunda opção há dez anos – e os meus leitores devotos de Christopher Hitchens estão aí para provar isso – e neste post farei a primeira sem hesitar.
O romance As almas que se quebram no chão, de Karleno Bocarro, é, para mim, um marco, tanto na história pessoal do próprio autor como no momento em que se encontra a literatura de nosso país. Karleno é, de fato, um amigo meu, mas antes foi um leitor atento dos meus primeiros ensaios em O Indivíduo. Quando veio a São Paulo, mostrou-me os originais de seu romance e confesso que, naquele dia, o meu humor não estava lá muito bom porque disse brutalmente – e este é um dos meus defeitos que a idade não curará – que o livro tinha problemas sérios. Geralmente, quando digo isso do texto de alguém, é certo que o autor ficará nervoso e ambos (eu e o autor) começaremos a brigar para preservarmos o ego de cada um, sem nos preocuparmos com as imagens das respectivas mães.
Mas Karleno não fez nada disso. De forma surpreendente, ele me ouviu – e reescreveu o livro.
Se ele fez o certo? Poderia dar uma de falso humilde e dizer que não. Afinal, quem sou eu para ser ouvido? Mas, por algum mistério que certamente só pode vir do talento e da obstinação deste escritor, o romance ficou mil vezes melhor – e posso dizer, sem nenhum medo, que é o livro que a geração da década de 90 gostaria de ter feito e que nunca conseguiu. Depois de anos de marasmo, este é a primeira amostra que, após o desaparecimento de Osman Lins, podemos ainda fazer o grande romance brasileiro contemporâneo.
Sim, eu vi o processo de parto do livro – e talvez seja por isso que posso dizer de suas qualidades. As almas que se quebram no chão é um romance que não tem nada de favelado e nada de pobretão injustiçado. Trata, isto sim, de pobretões em Berlim que querem viver às custas do Estado. E, por incrível que pareça, As almas mostra a descida épica de uma juventude que escolheu a decadência como forma de expressão existencial e que, obviamente, só poderia dar com os burros n´àgua.
Não é um livro fácil. É pesado, é sombrio. Lembro-me que, enquanto lia seus originais reescritos, tive de parar por uns três meses porque a atmosfera me oprimia. Mas é um livro muito bem narrado, com diálogos que soam naturais, com um ritmo bem calculado, que exaspera a sensibilidade do leitor. Ora, não é isso que todos nós esperávamos de um romance nacional – aquela aura da arte com A maísculo e que cospe na nossa cara o quão idiotas somos? Pois bem: Karleno Bocarro conseguiu fazer isso – e se vocês acham que estou exagerando e que eu deveria elogiar o Bernardo Carvalho ou o Joca Reiners Terron, que vão plantar batata, seus leitores de meia-tigela.
Karleno – que foi batizado assim porque o pai idolatrava Karl Marx, vejam só! – pode até não ter a Cia. das Letras ao seu lado, nem ir à Flip. Mas garanto que uma obra promissora foi descoberta e sugiro aos poucos leitores que ainda sabem ler um livro, aqueles que simplesmente fecham a página de um livro e vão tocar as suas vidas, que conheçam este romance e redescubram o que é a literatura brasileira.
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