A direita de Marcelo Coelho
Data do post: 21 de maio de 2012
É um sinal de que vivemos em tempos interessantes o fato de Marcelo Coelho ler e comentar The Conservative Mind de Russell Kirk (que será publicado em breve no Brasil pela É Realizações como A Mentalidade Conservadora, em tradução de Eduardo Wolf, como parte de um trabalho inestimável para a cultura nacional organizado por Alex Catharino), como ocorre neste post em seu blog. Como ele próprio reconhecera anteriormente, a escrita de Kirk não é marcada pelo tom agressivo, polemista e puramente negativo de muito do que passa por literatura conservadora (ou neoconservadora) hoje em dia; há uma visão de mundo mais profunda em suas páginas. Contudo, parece-me que o próprio Marcelo Coelho não imita a boa prática que ele elogia em Kirk. Seu texto revela a mesma hostilidade para quem discorda dele (para os infames representantes da “direita”) que um neoconservador contemporâneo destila contra seus inimigos progressistas, esquerdistas, ou seja lá o que forem. A nota principal dessa postura é nunca deixar seu adversário falar e nunca fazer a descrição dele em termos neutros ou minimamente compreensivos.
O artigo dá uma descrição informal do que caracterizaria a “direita”, termo que “ainda tem uma conotação injuriosa”. O direitista é “[a] favor dos grandes negócios, da mínima intervenção do Estado na economia, da indústria armamentista, da ‘dureza’ contra os adversários, da ideia de que a competição, mais do que a solidariedade, estão inscritas na natureza humana”.
A primeira pista de que há algo errado é que essas características se excluem umas às outras ou, na melhor das hipóteses, demandam algum tipo de sofisticação ou matização para se conciliarem: pois como defender ao mesmo tempo o Estado mínimo e o armamentismo; como, afinal, o Estado paga pela indústria bélica; e que tipo de sacrifícios ele impõe à população para financiá-la e utilizá-la? E como ser a favor do Estado mínimo e dos grandes negócios? Ora, quem mais favoreceu os grandes negócios do que os Estados de bem-estar e militaristas dos séculos XX e XXI?
As duas últimas características listadas são enigmáticas. Com base no quê se afirma que um direitista é a favor “da dureza contra os adversários”? Porque certos regimes de direita (como Pinochet no Chile) massacraram membros da oposição? Ora, mas a exata mesma coisa não foi feita, em escala até maior, por regimes de esquerda na União Soviética, China, etc.? E por acaso um socialista aguerrido não é tão intransigente e turrão quanto um polemista conservador? Seja no campo da política ou do temperamento, a escolha do autor parece baseada mais numa opinião pré-concebida do que numa tentativa séria de descrever o outro lado. Ademais, que a direita veja o homem como mais mau, mais antissocial, que a esquerda, também é questionável. Se por um lado é verdade que certo tipo de conservador pessimista e de liberal defensor do “egoísmo como virtude” de fato vejam no ser humano nada mais do que vícios (a serem combatidos ou incentivados, respectivamente), também é verdade que muitos socialistas, especialmente os desiludidos e os revolucionários, veem a humanidade (a humanidade que existe no mundo real, e não a promessa de humanidade a nascer sob o sol da utopia) como corrompida e má.
Enfim, o termo “direita”, como o próprio Marcelo Coelho afirma, abrange uma série de posições; o que ele não diz é que essas posições podem ser mutuamente excludentes e até mais distantes entre si do que certos tipos de direitismo são de certas variantes de esquerdismo. Um fascista está muito mais próximo (em todos os campos: político, econômico, cultural, filosófico) de um socialista pró-soviético de velha guarda do que de um liberal clássico, que todavia também entra no pacote da “direita”. O conservadorismo de Kirk é outro polo nessa vaga “direita”, distante tanto do fascismo quanto do liberalismo (embora talvez pragmaticamente conciliável com uma sociedade de Estado mínimo como defendem os liberais e na qual, afinal, o poder é descentralizado e as tradições locais podem florescer).
Marcelo Coelho, neste texto ao menos, deixa de lado qualquer desejo de compreender o lado oposto. Sua visão da direita em nada deve à forma como o direitista mais caricato vê os esquerdistas: conspiradores que querem instituir o mal enquanto tal e destruir tudo o que há de bom. O direitista, seja de que estirpe for – e é isso que todas as variantes têm em comum; Coelho não o diz mais deixa implícito – é alguém que ama a pobreza, a morte, que quer destruir as “conquistas sociais” e a democracia; em suma, um inimigo público.
Vilões que querem o mal pelo mal são coisa de desenho animado (lembro-me do Capitão Planeta e seus vilões que adoravam “poluir, POLUIR! MUAHAHAHA!”). O conservadorismo de Kirk ao menos merece uma exposição imparcial antes de feita a crítica e o comentário. Ao invés disso, e já deixando antever que a abordagem atual será levada adiante, Coelho promete expor em artigos futuros suas “contradições e maluquices”.
Por que ele não faz também algo mais interessante: num exercício de autorreflexão, procurar entender por que a obra de Kirk teve tanta importância? Afinal de contas, tratava-se de um posicionamento francamente antimoderno e contrário ao “espírito do tempo”, que – tanto no lado socialista quanto no capitalista – tinha o progresso tecnológico e o material como critérios indubitáveis de sucesso. Tem algo aí além de “contradições e maluquices”. Aguardemos os futuros artigos deste que é, sem dúvida, um debate relevante para o Brasil.
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