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O que aconteceu com Mário Vieira de Mello?

Filed under: Filosofia incluído por Martim Vasques da Cunha
Data do post: 18 de março de 2009

Esta foi a pergunta que me fiz ao revirar a minha biblioteca e encontrar os seis livros que compõem a obra deste pensador brasileiro. São eles: Desenvolvimento e Cultura, O Conceito para uma Educação de Cultura no Brasil, Nietzsche – o Sócrates de nossos tempos, O Cidadão, O Humanista e O Homem Curioso. Todos escritos e publicados em um espaço de mais de quarenta anos de atividade intelectual. Todos escritos em uma linguagem acessível, elegante, redonda, sem medo de opinar sobre suas visões polêmicas porque, sem dúvida, tinha uma meditação sólida por trás de cada uma de suas linhas. E, de repente, Mário Vieira de Mello sumiu. Caiu no mais completo esquecimento. Há apenas uma menção no livro O Futuro do Pensamento Brasileiro, de Olavo de Carvalho (que, por sua vez, escreveu uma bela orelha introdutória para O Humanista, publicado pela Topbooks) e nada mais. Liguei para a editora que publicou a maioria de seus livros e fui informado que “o autor já falecera”. Alguém viu um obituário sobre ele (favor não confundam com o seu parente Sérgio, vítima do trágico atentado no Iraque…)?

Esta é mais uma amostra de que o Brasil é um país sem memória, yadda yadda yadda. Mas não se trata somente de um caso de um pensador que viveu fora dos circúlos intelectuais mainstream e que não é lembrado sequer por potenciais leitores que deveriam entender os seus escritos. Em várias páginas de O Cidadão, seu ensaio de “política filosófica”, Vieira de Mello faz uma reflexão assustadora e premonitória sobre a situação política atual, em especial a dos Estados Unidos. Segundo o pensador e diplomata brasileiro, existem três grandes fatos na História que surgiram através do “ideal da igualdade”: 1) A Revelação ao Povo de Israel do Deus único, em que forma-se uma aliança até o final dos tempos; 2) O surgimento da polis de Atenas como matriz da democracia grega, e 3) O evento histórico da Revolução Americana. Apesar de fazer referências à Revolução Francesa, considerada por muitos o início da modernidade, Vieira de Mello acredita que a Revolução Americana cumpre melhor esse marco porque, afinal, os americanos são os primeiros a construírem um país sob o ideal da igualdade.

Ao pensar nas relações entre esses eventos – e tecendo brilhantes insights sobre Platão e Aristóteles, inclusive com críticas contundentes a respeito da ética deste último -, ele faz a distinção entre Estados que se baseiam em “estruturas de poder” e “estruturas de cultura”. A sociedade que prefere se apoiar na primeira estrutura fará a sua escolha pela “liberdade exterior”; quando se escolhe a segunda estrutura tem-se consequentemente a “liberdade interior”. Esta última é defendida por Sócrates e Platão como exemplo de uma liberdade conquistada pelo indivíduo através de lutas e tensões constantes para dominar as suas paixões e deixar a razão do espírito dominar a sua vontade e a sua deliberação.

Os EUA – ao realizarem uma revolução que rompe com a tradição cultural européia – se apoiam na “estrutura de poder” e assim se identificam com a “liberdade exterior”. O argumento de Mário Vieira de Mello é que, ao fazerem tal opção, os EUA acreditam que realizam o caminho da liberdade, quando se esqueceram da interioridade moral defendida por Platão,  e se preocupam somente com instituições e procedimentos formais, instrumentalizando o indivíduo em função de um governo ou de uma lei. Para a tirania – pelo menos na visão platônica explicada em A República - falta apenas um passo.

O que me espantou foi a clarividência da análise. Claro que Mário Vieira de Mello não fez nada de novo – Tocqueville intuiu a mesma coisa. Contudo, dentro da nossa época “obâmica”, em que nós desconhecemos se a Nova Ordem chegará pelo braço econômico ou pelo braço ecológico, não podemos deixar de lado a análise feita pelo falecido embaixador e ver que, de uma certa forma, a confusão entre “liberdade exterior” (um argumento que, por exemplo, é aplicado pelos defensores de Hugo Chávez, uma vez que ele foi eleito através de voto popular) e a “liberdade interior” é um dos nós górdios do nosso tempo. Se meditarmos com constância sobre esse dois pólos da cidadania política, percebemos que Vieira de Mello resolve uma dicotomia (odeio o termo, mas é o único que me vem à cabeça) que se encontra esboçada no clássico texto de Isaiah Berlin, Dois conceitos de liberdade. E, por sua vez, a opção pela “liberdade exterior” como pilar de sustentação das “estruturas de poder” nos faz ver que a questão da tolerância – ou, para sermos exatos, da liberdade de expressão – pode se tornar somente mais um termo oco na linguagem política, com o perigo de não ter nenhum significado na própria linguagem cotidiana, no melhor estilo “serei tolerante contigo desde que você não prejudique a minha tolerância”. O que, de outro ponto-de-vista, é a mesma forma que os nossos políticos e os nossos intelectuais acham que deve ser praticada a liberdade deles.

Ainda assim, o mais preocupante, para os efeitos deste post, não é só o problema da liberdade, mas o esquecimento que construíram ao redor da obra de Mário Vieira de Mello. Milan Kundera conta, em seu romance O Livro do Riso e do Esquecimento, a seguinte história:

Em fevereiro de 1948, o dirigente comunista Klement Gottwald postou-se na sacada de um palácio barroco de Praga para discursar longamente para centenas de milhares de cidadãos concentrados na praça da Cidade Velha. Foi um grande marco na história da Boêmia. Um momento fatídico que ocorre uma ou duas vezes por milênio.

Gottwald estava cercado por seus camaradas, e a seu lado, bem perto, encontrava-se Clementis. Nevava, fazia frio e Gottwald estava com a cabeça descoberta. Clementis, muito solícito, tirou seu gorro de pele e o colocou na cabeça de Gottwald.

O departamento de propaganda reproduziu centenas de milhares de exemplares da fotografia da sacada de onde Gottwald, com o gorro de pele e cercado por seus camaradas, falou ao povo. Foi nessa sacada que começou a história da Boêmia comunista. Todas as crianças conheciam essa fotografia por a terem visto em cartazes, em livros ou nos museus.

Quatro anos mais tarde, Clementis foi acusado de traição e enforcado. O departamento de propaganda imediatamente fez com que ele desaparecesse da História e, claro, de todas as fotografias. Desde então Gottwald está sozinho na sacada. No lugar em que estava Clementis, não há mais nada a não ser a parede vazia do palácio. De Clementis, só restou o gorro de pele na cabeça de Gottwald.

Confesso a vocês que, do jeito que as coisas estão, temo que a obra de Mário Vieira de Mello (e a de outros gigantes como Mário Ferreira dos Santos, José Guilherme Merquior, Otto Maria Carpeaux) vire o “gorro de pele na cabeça de Gottwald”.


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Milan Kundera, mais um delator?

Filed under: Do lado de lá incluído por Martim Vasques da Cunha
Data do post: 11 de março de 2009

Desde Outubro do ano passado que me intriga a história de que Milan Kundera, o escritor de O Livro do Riso e do Esquecimento e de A Insustentável Leveza do Ser, teria delatado um espião anti-comunista. Autores como Philip Roth, Orhan Pamuk e Salman Rushdie defenderam Kundera com unhas e dentes, enquanto o tcheco negava-se a dar qualquer entrevista (há mais de quinze anos que Kundera não quer ser mais visto como uma “pessoa pública” e sim apenas como um “autor de romances”).

Foi publicada uma primorosa reportagem da Standpoint sobre o caso, inclusive com um trecho assustador de ninguém menos que Vaclav Havel, que faz a perguntinha impertinente: Você não faria o mesmo se estivesse em situação igual?


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