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Demência Futebolística

Filed under: Sociedade incluído por Joel Pinheiro
Data do post: 5 de julho de 2012

O que significa torcer para um time de futebol? Significa ficar feliz quando ele vence, triste quando ele perde.

O futebol é jogado por dois times tentando chutar uma bola dentro de duas traves. A arbitrariedade das regras e do objetivo interno ao jogo não é argumento contra nosso interesse; todo jogo tem objetivos que, vistos de fora, são irrelevantes; o que interessa neles é justamente a habilidade necessária para cumprir esses objetivos dentro das regras.

O que é um time? Não é um grupo de pessoas, pois os jogadores e técnicos, que são o que importa para os torcedores, mudam de time para time sem escrúpulo algum. Também não há nenhuma relação entre os jogadores de um time e alguma origem regional, cultural ou étnica (vamos fingir que esse tipo de critério estabelecesse de fato algum vínculo comum entre torcedor e time); o Palmeiras já teve uma ligação, por exemplo, com a colônia italiana, mas hoje ela não existe mais por parte do time, embora alguns descendentes italianos ainda enxerguem tal vínculo. O time é, estritamente falando, uma marca. Uma marca sem nenhum produto por trás.

Se adoro Coca e detesto Pepsi, ao menos imagino que é porque prefiro o produto de uma ao da outra. No caso dos times, os produtos, isto é, os times em si, não existem; são pessoas que poderiam integrar, e provavelmente integrarão ao longo de suas carreiras, diversos times. A única coisa que distingue um do outro são a cor do uniforme, a logomarca, as músicas; ou seja, a embalagem. Imagine que as marcas Coca e Pepsi continuassem a existir, mas periodicamente o produto a que um dia chamamos “Coca”, no outro dia passa a ser embalado como “Pepsi”, e vice-versa, e no geral cada latinha tivesse uma mistura indistinta de ambos. Isso é o futebol.

Deixemos um pouco de lado esse caráter fluido dos times (cujos jogadores mudam de um para outro). Suponhamos que o futebol de clubes mudasse suas regras, e que cada time tivesse um estoque fixo de jogadores que não trocasse de equipe. Ainda assim, a relação do torcedor com o time seria muito diferente da relação do consumidor para com um produto. O gosto de um indivíduo pela Coca-Cola decorre de ele ter bebido Coca. Bebeu o líquido; gostou do produto; em consequência, tornou-se fiel consumidor da marca. A utilidade que derivamos do produto precede, e é causa de, nosso apreço pela marca. No futebol, a vitória ou o gol de um time só dá alegria para quem já torce por ele. Portanto, a ordem é inversa; primeiro torce-se pelo time; em consequência disso, aquele time passa a dar prazer ou dor ao torcedor.

E o que leva o torcedor a escolher seu time? O fato de alguma outra pessoa torcer para ele (pais ou outros familiares, em geral), ou o fato do time estar vencendo muito ultimamente; por isso a geração que cresceu em 70 tem muitos santistas, e a minha geração tem muitos são-paulinos. O time que ganha muito numa determinada época aumenta sua torcida.

O primeiro motivo para se torcer é indireto. A torce para o Corinthians porque B torcia; B porque C torcia, etc. Até alguma causa primeira cinquenta anos atrás que nem torcia para valer e cujo motivo pode ter sido algo como “o primo do meu vizinho é reserva do time” ou “todo mundo diz que eu pareço com o goleiro”. Por causa desse sujeito, de cinquenta anos atrás, que tomou uma decisão meio arbitrária de gostar mais de um time, hoje, um torcedor com 8 elos de distância do primeiro, ama, idolatra seu time de tal forma que chora e considera o suicídio se ele não levar o Paulistão.

O segundo motivo é igualmente arbitrário. Em algum momento da sua infância, você viu um time ganhando e gostou dele. Encantou-se pelo Raí, quis participar do sucesso dele, e virou são-paulino.

Futebol é esporte de rivalidade. Ganhar é sempre ganhar de alguém. O ser humano adora se sentir superior aos demais, e mostrar essa superioridade imaginada de alguma maneira. Nos casos menos ridículos, a superioridade deve-se a algo que a pessoa fez ou conquistou: “eu sou melhor do que você, veja meu salário / meu carro / minha namorada / minha nota na prova!”. Nos casos mais patéticos, a aura de superioridade com a qual o indivíduo gosta de se revestir vem de algo que não tem absolutamente nada a ver com suas ações: “Sou melhor que você; meu time ganhou do seu!”. Para diminuir a distância entre um e outro, o time, que não tem objetivamente nada a ver com o torcedor, passa a integrar a própria identidade do torcedor. “Eu sou corinthiano!” ou ainda “Eu sou Corinthians!” ou ainda “Nós somos Corinthians!”, e todas as expressões de devoção eterna, de entrega da vida, de lealdade incondicional. Qualquer coisa para tapar um pouco o fato de que essa parte de sua identidade nada mais é do que uma logomarca escolhida sem motivo algum e que, não obstante, o torna capaz de chorar se os homens que jogam com ela estampada na camisa perderem. O desejo de pertencer a um grupo quase sempre vem junto do desejo de se impor e de se exaltar perante grupos rivais (se eu não posso ser melhor que ninguém, posso ao menos diluir minha identidade em um coletivo que seja melhor do que outro coletivo), e o futebol cumpre esses desejos.

Um time não representa valor nenhum. É só uma logomarca gerida como uma empresa. A gente se esquece, mas é sempre bom lembrar o quanto seu time é não-você. Às vezes me parece que, se o torcedor conseguisse, por um segundo que fosse, ver claramente, objetivamente, o quanto seu time do coração não é ele próprio e nem se interessa por ele e nem se refere a ele de maneira alguma, o amor pela camisa acabaria naquele mesmo instante.

Nada do que jamais ocorreu ou ocorrerá de importante na sua vida terá alguma importância para o seu time. Alguns dos eventos felizes da sua vida, sem dúvida, você relaciona a seu time (como quando ele venceu o campeonato no dia do seu aniversário); mas essa relação existe única e exclusivamente dentro da sua imaginação. Os jogadores do time – e lembre-se, nem eles são o time – não estão nem aí para seu aniversário. A British Petroleum, a Coca-Cola, o governo da Bolívia e o planeta Marte têm mais importância direta, objetiva, na sua vida do que o Corinthians e o Palmeiras; mas você não estaria disposto a morrer por nenhum deles, estaria? E nem entoar hinos de louvor e trocar sua foto pela logomarca deles.

Pense numa pedrinha perdida na superfície lunar. Ela está ali há bilhões de anos, sendo lentamente corroída pelo atrito da poeira da Lua; fora isso, praticamente estática por todo o sempre. Nenhum homem jamais a viu. Pense o quão indiferente ela é à morte do seu cachorro, ao casamento da sua irmã, ao seu diploma universitário e à salvação da sua alma. Depois que você morrer, depois que o continente americano inteiro for aniquilado em uma guerra nuclear, a pedra continuará ali, impassível. Agora coloque o brasão do seu time nessa pedra. Esse é seu time. E você, torcedor, vai chorar de raiva e bater num anônimo a seu lado se essa pedra rolar para a esquerda, e exultar de alegria incontrolável, buzinando até as duas da manhã e torrando R$100 em rojão, se ela rolar para a direita. Saudável não é, né? “Pedra lunar, minha vida, minha história, meu amor!” E a pedra ali, imóvel, bruta.

A importância do time dura apenas tanto quanto o torcedor acreditar nela. E o verdadeiro trabalho do time/empresa é justamente fazer com que muitas mentes torcedoras criem essa relação imaginária de pertencer a um time, e atribuam importância a ele, pois é disso que eles vivem. Não há nada de intrínseco no futebol que determine que seus jogadores e agregados (técnicos, cartolas, narradores, comentaristas, etc.) tenham remunerações maiores que as do time de bocha de um clube da terceira idade. A única diferença está nas mentes dos torcedores, que abrem mão de si mesmas para se identificar a um time que, como já dito, nada tem a ver com elas. Ao conseguir criar esse vínculo, as logomarcas apreendem e fazem rodar por quantidades incalculáveis de riquezas, recursos incompreensíveis, que financiam riquezas nababescas de gente que em nada contribuiu para sua vida. Pode ter certeza que essa riqueza vem de você. E o que é pior: você não foi rouabdo; você a entregou voluntariamente.

Seu desejo de pertencer a algo e contar vantagem no facebook é tal que você está disposto a sustentar a riqueza de jogadores e cartolas, que só servem para que você possa se sentir melhor do que alguém. E se você está sustentando esse pessoal, algum custo você está pagando, ainda que não perceba, e embora o dinheiro não esteja sendo tirado diretamente de sua carteira.

A indústria do futebol é coisa séria. Pense em todos os uniformes, bandeiras, álbuns de figurinha, jornais e ingressos que são vendidos, contabilizando milhões de Reais facilmente. E a maior fatia dela não está aí. O dinheiro que seu time faz não vem só dos ingressos e nem da venda de bolas e camisetas. A real fonte da riqueza do seu time, que ele não pode perder de jeito nenhum, é o interesse e a atenção consciente do torcedor. Enquanto você estiver prestando atenção, eles estão ricos. Se você para, eles estão pobres.

Na camisa de cada time, além da logomarca do próprio time, está a logomarca de alguma(s) outra(s) empresa(s). Paga-se muito dinheiro para colocar o nome da marca ali. E paga-se esse dinheiro porque se sabe que milhões estarão olhando para ela. Da mesma forma, as emissoras de TV pagam muito dinheiro para poder transmitir os jogos dos times, o que por sua vez atrai o seu olhar para a tela da TV, e permite que a TV venda pequenos espaços e intervalos nessa tela para empresas que também querem que você olhe – apenas olhe – a marca delas.

A troca é a seguinte: você dá duas horas da sua quarta-feira e do seu domingo; duas horas de atenção consciente e interesse ativo – que poderiam ser empregadas no seu livro, na sua esposa, etc. Além disso, você oferece também horas de pensamento, preocupação, discussão e antecipação ao longo da semana. Imagine o quanto de tempo e espaço é gasto em discussões e especulações absolutamente sem base sobre qual time é melhor e sobre quem vai ganhar um jogo futuro ou ainda quem mereceu ganhar um jogo passado. Se como passatempo essas discussões já são absurdas, imagine profissionalizar-se nelas e ganhar dinheiro para participar dessa conversa fiada enquanto outros assistem.

Enfim, você dá sua mente para os times, as emissoras, os jornais, os comentaristas. Em troca, você ganha a inclusão em um coletivo que lhe dá a oportunidade de se gabar sem ter mérito para os membros de outros coletivos e sair às ruas berrando sem motivo. A troca é incerta, pois você também vira alvo potencial do ego-coletivo alheio; mas a mera possibilidade de se sentir superior, de ver seu time ganhar o campeonato (lembre-se: você poderia torcer, com igual afinco e interesse, por um time de bocha no clube da terceira idade), já vale a troca. (E a prova de que ela vale, para você, é que você está ali torcendo). Em troca, os times, seus jogadores e dirigentes, ficam indizivelmente ricos, muito mais ricos do que você jamais será. Eles ficam ricos porque vendem essas suas horinhas de atenção consciente para empresas que querem apenas ser vistas.

E aqui chegamos a um ponto que eu realmente não entendo. O que as empresas têm a ganhar? Será que a Iveco, empresa de motores e caminhões, realmente espera recuperar os R$650 mil que ela pagou só para estar na camiseta do Corinthians na partida contra o Santos? Alguém neste mundo compra um caminhão – um investimento de centenas de milhares de Reais e uma decisão cara e que terá impactos reais numa empresa de transportes – porque a marca do caminhão estava na camisa do Corinthians? O mesmo vale para o BMG, banco que patrocinou o Santos. Alguém guiará seus investimentos/empréstimos pela camisa do Santos? De duas, uma: ou toda a loucura criada ao redor da publicidade e do marketing é uma bolha, e mais cedo ou mais tarde as empresas perceberão que os gastos enormes em mega-campanhas de marketing não valiam a pena; ou a humanidade está irremediavelmente perdida. Não há terceira opção.

Qual a resposta certa? Considerem que, mesmo sabendo de tudo isso, ontem, na final da Libertadores, deixei a TV ligada durante o jogo. Meu coração apertou, e realmente me senti como se aquelas bolas chutadas dentro das traves fossem um evento com importância histórica. Na verdade, homens vestidos com logomarcas venceram uma partida de futebol. O produto comercializado nessa transação milionária foram nossos olhos e nossas mentes.


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