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A expressão da modernidade em Thomas Pynchon

Arquivado em: Literatura incluído por Luiz Felipe Amaral
Data do post: 30 de julho de 2008

Thomas Pynchon é tido como um dos maiores escritores vivos, um expoente do pós-modernismo literário e, segundo o crítico James Wood, um dos inventores do realismo histérico, junto com Don DeLillo. O fato, entretanto, é que Pynchon é sobretudo um mistério: recluso como J. D. Salinger, existem poucas fotos suas, circulam vários rumores sobre sua vida, praticamente não há entrevistas do autor e são raríssimos os relatos dele sobre a própria obra.

 

Compreender Pynchon é um trabalho árduo. Especialmente se entram em cena as opiniões não raro opostas que os críticos têm de sua obra. Um ponto em comum (ou o mais próximo disso que se pode chegar) é o papel de Pynchon como um narrador da modernidade. Inobstante os poucos lançamentos, sua ficção é abrangente e tem a modernidade como mote, o que se explicita em duas dimensões: tempos e temas. Obviamente, há expressões da modernidade na construção dos personagens, nas suas ações e relações, e nos enredos. Contudo, creio que os últimos fatores são determinantes na visão que o autor tem da modernidade, ao passo que os primeiros são determinantes na própria modernidade como temática da obra.

 

Pynchon tem seis romances publicados: V. (1963), O Leilão do Lote 49 (1966), O Arco-Íris da Gravidade (1973), Vineland (1990), Mason & Dixon (1997), e o ainda não traduzido Against the Day (2006). Destes, as três maiores obras, tanto em peso literário quanto em tamanho, são O Arco-Íris da Gravidade, Mason & Dixon e Against the Day, e é nesses romances que a dimensão do tempo ganha relevância.

 

Enquanto V., O Leilão do Lote 49 e Vineland são romances passados na época em que foram escritos (precisamente, nos poucos anos que os antecederam), os outros três livros têm dimensões históricas. E é a escolha das épocas que deixa clara a modernidade como tema de Pynchon. Isso acontece pois as três obras ocorrem, se não no âmago de grandes crises da história recente, nos seus momentos anteriores. O Arco-Íris da Gravidade passa-se no final da Segunda Guerra Mundial, predominantemente no meio da Alemanha. Já Mason & Dixon, nos Estados Unidos, às vésperas de Revolução Americana, e, Against the Day, nos anos anteriores à Primeira Guerra Mundial. Para completar, os dois últimos carregam, de certa forma, um ambiente ou  percepção paranóica (sendo a paranóia um tema recorrente em Pynchon) de que algo está a ocorrer.

 

Quanto aos temas, destaca-se que desfilam nas obras de Pynchon elementos não apenas comuns, mas característicos, ou até caricaturais, da modernidade. São freqüentes as intrusões das ciências e dos cientistas, o deslumbre e o medo da tecnologia, a predominância das ideologias, o choque entre a alta cultura e a cultura pop, a contracultura e o underground.

 

Mas Pynchon permanece um mistério. Sempre poderemos nos perguntar qual é a mensagem que o autor quer passar. E o pior, o único consolo que ele nos dá é um provérbio para paranóicos:

“If they can get you asking the wrong questions, they don’t need to worry about the aswers.” (Gravity’s Rainbow)


Comentários (3)

Pós-moderna é a sua avó

Arquivado em: Filosofia, Literatura incluído por Julio Lemos
Data do post: 5 de julho de 2008

Desde o final dos anos 90 venho lendo sobre ‘pós-modernidade’ e ‘pós-modernismo’, em filosofia e literatura. De lá para cá, muita coisa mudou. Há muito tempo, li White Noise de Don DeLillo, uma obra paradigmática, que foi escrita nos anos 80; nessa época não havia nem Internet. A fixação de DeLillo com a televisão parece hoje algo infantil diante das novas tecnologias, como aliás sugere Alan Kirby.

Talvez a causa disso seja o encantamento dos escritores chamados pós-modernos com algo que, com tempo, ficou banal. Inclusive a auto-ironia.

Em filosofia, já virou chavão a declação da sua morte. E é um argumento recorrente que “os autores contemporâneos não se preocupam com o tema da verdade, do bem e da beleza”. Outra ironia: os autores contemporâneos declaram que os autores contemporâneos decretaram a morte da filosofia. Esse procedimento recursivo não diz nada sobre o objeto da filosofia, que não é nada democrático. Se digo que há uma flor no alto de uma montanha – ou que há um clipe da banda The Killers passando neste momento na MTV – e outra pessoa diz que não, um de nós está errado. Nossas afirmações não influenciam sequer o acidente “tempo” ou “lugar” ou “relação” de uma substância.

Parece-me que a morte do pensiero debole virá, sim, em breve. É que já perderam contato com a idéia do que é pensar (não é fluxo de consciência ou associação livre de idéias). Mas enquanto houver uma pessoa séria questionando as coisas, a filosofia será importante – e, melhor, será uma prova de que o princípio da democracia não vale para ela.

Será que chegou a hora de ironizar o pós-modernismo?


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