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O triunfo da paranóia

Filed under: Literatura incluído por Martim Vasques da Cunha
Data do post: 6 de dezembro de 2010

(E Thomas Pynchon chega novamente ao Brasil com seu mais recente romance, “Vício Inerente” – Inherent Vice, um irmão gêmeo de seus livros mais divertidos, “O leilão do lote 49″ – que necessita de reedição urgente no mercado [hello, André Conti!] – e “Vineland” [mesma observação anterior]. Não é uma obra-prima como “V.” e “Gravity´s Rainbow” – e também não exibe a maturidade de “Mason & Dixon” e “Against the day”, finalmente previsto para ser lançado no ano que vem, com tradução de Paulo Henriques Britto.

Mas em dias de Wikileaks e Julian Assange – aliás, não percam o perfil da New Yorker sobre este Herbert Stencil dos nossos tempos – é sempre bom rever a obra do nosso maior escritor vivo e paranóico favorito.)

“Proverbs for Paranoids:

1. You may never get to touch the Master, but you can tickle his creatures.

2. The innocence of the creatures is in inverse proportion to the immorality of the Master.

3. If they can get you asking the wrong questions, they don’t have to worry about answers.

4. You hide, they seek.

5. Paranoids are not paranoid because they’re paranoid, but because they keep putting themselves, fucking idiots, deliberately into paranoid situations”.

Thomas Pynchon, “Gravity´s Rainbow”

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“Nós todos conhecemos o som de duas mãos que aplaudem.

Mas qual será o som de uma única mão que aplaude?”.

Pensamento Zen, citado como epígrafe por J.D.Salinger em “Nove Estórias”

Seu nome é Pynchon, Thomas Pynchon, e é como um agente secreto da literatura que ele entra em nossos medos mais íntimos, em nossos temores mais secretos. Legítimo sucessor de Herman Melville – de fato, Pynchon é o único que pode escrever o Grande Romance Americano que Norman Mailer, Tom Wolfe e Don DeLillo desejam realizar, se é que ele já não escreveu -, Thomas Ruggles Pynchon Jr. é o criador de um mundo muito particular: o de uma América que se reflete nas sombras da Terra, mais precisamente na ordem e desordem da História. Mas esta ordem (que vive nas bordas da desordem) precisa de pessoas para se manifestar e é justamente esta a ferida em que Pynchon toca em seus livros, com uma agudeza rara: onde estão as pessoas quando tudo está dominado pela entropia? Elas parecem mover-se em vácuo, em um vazio existencial em que ninguém possui uma vontade própria, exceto a vontade deles. E quem são eles? Ninguém sabe porque ninguém diz e também porque ninguém quer dizer – senão morrem. Estranho, não? Poderíamos ir além: Pa-ra-nói-co.

Não existem aqueles que falam: “Bem-Vindos à Travessa da Desolação”, com a expressão de que todos estão indo para uma perpétua festa? Pois bem, o que Thomas Pynchon diz ao leitor de coração íntegro é: “Bem-Vindo ao Reino da Paranóia”. Na verdade, podemos ler os romances de Pynchon – todos grandes, monumentais, difíceis, exigentes, mas extremamente recompensadores após o final da leitura – como variações alucinatórias de um medley entre “Vou-me Embora Para Pasárgada”, de Manuel Bandeira e “Desolation Row”, a canção de Bob Dylan. Comparação inusitada, não é, meu amigo? – já posso ouvir alguém dizer pelas minhas costas. Que raios Pynchon, Manuel Bandeira e Bob Dylan têm em comum? Se me permitem, ladies and gentlemen: ao mesmo tempo que Pynchon entra na estratégia de embaralhar seus personagens como se fossem alucinações – e talvez eles sejam alucinações, uma vez que a condição humana é descrita em seus romances como um constante enigma -, Pynchon busca um retorno a um mundo mais puro, em que ele possa deitar com a mulher que deseja e ser amigo do rei. Mas eis que a paranóia volta a atacar, porque seu triunfo é tudo o que importa num mundo em que você só deve receber cartas se elas forem enviadas da Travessa da Desolação.

Para quem percebeu, o mundo segundo Thomas Pynchon vive à beira de um abismo, mas uma solução é possível por outros meios – desde que eles estejam Ligados à literatura e desde que o papel do escritor como um sacerdote da Palavra seja preservado. Nascido no dia 8 de maio de 1937, Pynchon tem uma carreira insólita na literatura americana: estudou na Cornell Univerisity (dizem que foi aluno de Vladimir Nabokov), passou uns tempos na Marinha, estudou física atômica, viajou a Califórnia inteira de carro, estudou minuciosamente os beats e o cool jazz, e, last but not least, lançou, em 1962, o seu primeiro romance, “V.”, um quebra-cabeças estranho, que ultrapassava o tempo e o espaço e que ganhou o prêmio William Faulkner Foundation.

A novidade nesta revelação literária era o fato de que Pynchon não dava entrevistas, não aparecia em fotografias (a única foto disponível era a do autor aos 18 anos), sequer dava uma pista a mais sobre a estranheza que provocava o romance. Parecia uma jogada publicitária e, se era, foi muito bem feita: desde a sua estréia, Pynchon é um membro-chave daquela sociedade secreta chamada Partido do Silêncio, da qual fazem parte J.D. Salinger, Glenn Gould, Stanley Kubrick e os brasileiros Rubem Fonseca e Raduan Nassar, artistas que sempre acreditaram que sua obra deveria falar por si mesma, sem os procedimentos de uma publicidade excessiva. Entretanto, o que diferencia Pynchon dos demais é que ele já estava no Partido do Silêncio e o seu sucesso deve-se justamente ao seu mistério, à lacuna que existe entre o homem que criou um código para ser decifrado pelos leitores e o que está por trás das palavras deste código. Pynchon não precisa aparecer no programa de Ophrah Winfrey para que ela indique seus livros aos americanos; ele sequer se importa se o New York Times fez uma boa ou má crítica de seu último lançamento; ele não dá a mínima para as piadas de David Letterman e Larry King. O silêncio de Pynchon guarda uma certa pureza que se revela na forma como a literatura é tratada – como um ritual em que a Palavra (e Pynchon sempre escreve sobre ela com letra maíuscula, indicando o seu caráter simbólico) é a salvação de um mundo em que o sentido da vida, perdido, foi substituído pelo triunfo da paranóia. A obra de Pynchon é paranóica ao extremo, mas não é, em hipótese nenhuma, um elogio da paranóia; ele sabe que há algo de errado em quem vive nesta constante paródia do sentido da vida e sabe também que é um mal que ataca a consciência das pessoas, deformando sua visão da realidade e disseminando a desordem (chamada carinhosamente de “entropia”) na história do mundo. A História aqui, é claro, é aquela com H maíusculo, aquela no qual nos sentimos como reféns em seus braços quando não sabemos o que está acontecendo com vários fatos inusitados. Porque, como o leitor deve saber ao ler um romance de Thomas Pynchon, a História é inusitada, misteriosa, assim como nossa existência aqui na Terra; o problema é quando eles tentam transformá-la em um sentido pleno, acabado, fechado, como um sistema inviolável. Mas – e aqui começa o nó górdio – quem são eles? Leia mais…


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Em que eu me torno um ludita

Filed under: Sociedade incluído por Martim Vasques da Cunha
Data do post: 5 de agosto de 2009

Not here the darkness, in this twittering world

T. S. Eliot – Four Quartets

Ah, que tal este admirável mundo novo da tecnologia, não é? Agora temos tudo: o Facebook, os blogs, o Orkut, o LinkedIn, a Internet, o iPhone, o iPod, o iMac, o Blackberry, o Windows Vista, a Apple – e, claro, o Twitter, este receptáculo de aforismos muito mal elaborados e que incentivam uma única coisa: a preguiça intelectual.

Mas, como se não bastasse, temos mais uma curiosidade tecnológica: o Kindle. Em um ensaio publicado na New Yorker, o escritor e editor Nicholson Baker descreve a sua experiência com o Kindle. Para quem não sabe, este é o último artefato da moda, que tenta unir as duas pontas da teconologia state of the art e a da paixão (ou consumo) pelos livros. Concebido por Jeff Bezos, CEO da Amazon.com, você pode ter todos os livros que deseja no Kindle, descarregados (ou será que o termo certo é downloaded?) em questão de segundos e ter a praticidade de lê-los em qualquer lugar do planeta (afinal, estamos em um mundo globalizado…).

O público-alvo é o mais desejado de todas as empresas: pessoas da alta casta econômica-burocrática , entre 30 e 70 anos, fãs de tecnologia e, sobretudo, praticidade. Todos que estão dentro deste escopo gostam de ter, em menos de três minutos, o seu Michael Porter, o seu Philip Kotler, o seu Sun-Tzu para dummies e o seu Lair Ribeiro em suas mãos.

(A propósito, alguém aí deste beautiful people ainda acredita em Lair Ribeiro?)

Leia mais…


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A volta do Homem Internacional do Mistério

Filed under: Literatura incluído por Martim Vasques da Cunha
Data do post: 17 de dezembro de 2008

2009 pode ser o ano da crise, do advento de Obama, do pouco dinheiro no meu bolso, mas você sabe que há esperança quando Thomas Pynchon volta com um romance noir de “meras” quatrocentas páginas.

Porque, afinal, em um mundo de ateus, só um paranóico acredita em Deus.


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A expressão da modernidade em Thomas Pynchon

Filed under: Literatura incluído por Luiz Felipe Amaral
Data do post: 30 de julho de 2008

Thomas Pynchon é tido como um dos maiores escritores vivos, um expoente do pós-modernismo literário e, segundo o crítico James Wood, um dos inventores do realismo histérico, junto com Don DeLillo. O fato, entretanto, é que Pynchon é sobretudo um mistério: recluso como J. D. Salinger, existem poucas fotos suas, circulam vários rumores sobre sua vida, praticamente não há entrevistas do autor e são raríssimos os relatos dele sobre a própria obra.

 

Compreender Pynchon é um trabalho árduo. Especialmente se entram em cena as opiniões não raro opostas que os críticos têm de sua obra. Um ponto em comum (ou o mais próximo disso que se pode chegar) é o papel de Pynchon como um narrador da modernidade. Inobstante os poucos lançamentos, sua ficção é abrangente e tem a modernidade como mote, o que se explicita em duas dimensões: tempos e temas. Obviamente, há expressões da modernidade na construção dos personagens, nas suas ações e relações, e nos enredos. Contudo, creio que os últimos fatores são determinantes na visão que o autor tem da modernidade, ao passo que os primeiros são determinantes na própria modernidade como temática da obra.

 

Pynchon tem seis romances publicados: V. (1963), O Leilão do Lote 49 (1966), O Arco-Íris da Gravidade (1973), Vineland (1990), Mason & Dixon (1997), e o ainda não traduzido Against the Day (2006). Destes, as três maiores obras, tanto em peso literário quanto em tamanho, são O Arco-Íris da Gravidade, Mason & Dixon e Against the Day, e é nesses romances que a dimensão do tempo ganha relevância.

 

Enquanto V., O Leilão do Lote 49 e Vineland são romances passados na época em que foram escritos (precisamente, nos poucos anos que os antecederam), os outros três livros têm dimensões históricas. E é a escolha das épocas que deixa clara a modernidade como tema de Pynchon. Isso acontece pois as três obras ocorrem, se não no âmago de grandes crises da história recente, nos seus momentos anteriores. O Arco-Íris da Gravidade passa-se no final da Segunda Guerra Mundial, predominantemente no meio da Alemanha. Já Mason & Dixon, nos Estados Unidos, às vésperas de Revolução Americana, e, Against the Day, nos anos anteriores à Primeira Guerra Mundial. Para completar, os dois últimos carregam, de certa forma, um ambiente ou  percepção paranóica (sendo a paranóia um tema recorrente em Pynchon) de que algo está a ocorrer.

 

Quanto aos temas, destaca-se que desfilam nas obras de Pynchon elementos não apenas comuns, mas característicos, ou até caricaturais, da modernidade. São freqüentes as intrusões das ciências e dos cientistas, o deslumbre e o medo da tecnologia, a predominância das ideologias, o choque entre a alta cultura e a cultura pop, a contracultura e o underground.

 

Mas Pynchon permanece um mistério. Sempre poderemos nos perguntar qual é a mensagem que o autor quer passar. E o pior, o único consolo que ele nos dá é um provérbio para paranóicos:

“If they can get you asking the wrong questions, they don’t need to worry about the aswers.” (Gravity’s Rainbow)


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