Em que eu me torno um ludita
Data do post: 5 de agosto de 2009
Not here the darkness, in this twittering world
T. S. Eliot – Four Quartets
Ah, que tal este admirável mundo novo da tecnologia, não é? Agora temos tudo: o Facebook, os blogs, o Orkut, o LinkedIn, a Internet, o iPhone, o iPod, o iMac, o Blackberry, o Windows Vista, a Apple – e, claro, o Twitter, este receptáculo de aforismos muito mal elaborados e que incentivam uma única coisa: a preguiça intelectual.
Mas, como se não bastasse, temos mais uma curiosidade tecnológica: o Kindle. Em um ensaio publicado na New Yorker, o escritor e editor Nicholson Baker descreve a sua experiência com o Kindle. Para quem não sabe, este é o último artefato da moda, que tenta unir as duas pontas da teconologia state of the art e a da paixão (ou consumo) pelos livros. Concebido por Jeff Bezos, CEO da Amazon.com, você pode ter todos os livros que deseja no Kindle, descarregados (ou será que o termo certo é downloaded?) em questão de segundos e ter a praticidade de lê-los em qualquer lugar do planeta (afinal, estamos em um mundo globalizado…).
O público-alvo é o mais desejado de todas as empresas: pessoas da alta casta econômica-burocrática , entre 30 e 70 anos, fãs de tecnologia e, sobretudo, praticidade. Todos que estão dentro deste escopo gostam de ter, em menos de três minutos, o seu Michael Porter, o seu Philip Kotler, o seu Sun-Tzu para dummies e o seu Lair Ribeiro em suas mãos.
(A propósito, alguém aí deste beautiful people ainda acredita em Lair Ribeiro?)
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A volta do Homem Internacional do Mistério
Data do post: 17 de dezembro de 2008
2009 pode ser o ano da crise, do advento de Obama, do pouco dinheiro no meu bolso, mas você sabe que há esperança quando Thomas Pynchon volta com um romance noir de “meras” quatrocentas páginas.
Porque, afinal, em um mundo de ateus, só um paranóico acredita em Deus.
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A expressão da modernidade em Thomas Pynchon
Data do post: 30 de julho de 2008
Thomas Pynchon é tido como um dos maiores escritores vivos, um expoente do pós-modernismo literário e, segundo o crítico James Wood, um dos inventores do realismo histérico, junto com Don DeLillo. O fato, entretanto, é que Pynchon é sobretudo um mistério: recluso como J. D. Salinger, existem poucas fotos suas, circulam vários rumores sobre sua vida, praticamente não há entrevistas do autor e são raríssimos os relatos dele sobre a própria obra.
Compreender Pynchon é um trabalho árduo. Especialmente se entram em cena as opiniões não raro opostas que os críticos têm de sua obra. Um ponto em comum (ou o mais próximo disso que se pode chegar) é o papel de Pynchon como um narrador da modernidade. Inobstante os poucos lançamentos, sua ficção é abrangente e tem a modernidade como mote, o que se explicita em duas dimensões: tempos e temas. Obviamente, há expressões da modernidade na construção dos personagens, nas suas ações e relações, e nos enredos. Contudo, creio que os últimos fatores são determinantes na visão que o autor tem da modernidade, ao passo que os primeiros são determinantes na própria modernidade como temática da obra.
Pynchon tem seis romances publicados: V. (1963), O Leilão do Lote 49 (1966), O Arco-Íris da Gravidade (1973), Vineland (1990), Mason & Dixon (1997), e o ainda não traduzido Against the Day (2006). Destes, as três maiores obras, tanto em peso literário quanto em tamanho, são O Arco-Íris da Gravidade, Mason & Dixon e Against the Day, e é nesses romances que a dimensão do tempo ganha relevância.
Enquanto V., O Leilão do Lote 49 e Vineland são romances passados na época em que foram escritos (precisamente, nos poucos anos que os antecederam), os outros três livros têm dimensões históricas. E é a escolha das épocas que deixa clara a modernidade como tema de Pynchon. Isso acontece pois as três obras ocorrem, se não no âmago de grandes crises da história recente, nos seus momentos anteriores. O Arco-Íris da Gravidade passa-se no final da Segunda Guerra Mundial, predominantemente no meio da Alemanha. Já Mason & Dixon, nos Estados Unidos, às vésperas de Revolução Americana, e, Against the Day, nos anos anteriores à Primeira Guerra Mundial. Para completar, os dois últimos carregam, de certa forma, um ambiente ou percepção paranóica (sendo a paranóia um tema recorrente em Pynchon) de que algo está a ocorrer.
Quanto aos temas, destaca-se que desfilam nas obras de Pynchon elementos não apenas comuns, mas característicos, ou até caricaturais, da modernidade. São freqüentes as intrusões das ciências e dos cientistas, o deslumbre e o medo da tecnologia, a predominância das ideologias, o choque entre a alta cultura e a cultura pop, a contracultura e o underground.
Mas Pynchon permanece um mistério. Sempre poderemos nos perguntar qual é a mensagem que o autor quer passar. E o pior, o único consolo que ele nos dá é um provérbio para paranóicos:
“If they can get you asking the wrong questions, they don’t need to worry about the aswers.” (Gravity’s Rainbow)
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