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Vaclav Havel (1936-2011)

Filed under: História,Literatura incluído por Martim Vasques da Cunha
Data do post: 18 de dezembro de 2011

Nem Christopher Hitchens e muito menos Joãozinho Trinta me fazem sair das minhas férias.

Mas Vaclav Havel sim.

Ele morreu na madrugada de hoje, dormindo.

Se o mundo sente falta de uma bussola moral, ainda tínhamos Havel como norte, com suas peças e discursos que mudaram a história de um país (a Tchecoslováquia) sem usar uma manobra de violência física ou verbal.

(Esta opinião não é apenas minha. Tenho ninguém menos que Tom Stoppard ao meu lado)

Hitchens desponta para o esquecimento, apesar de seu talento inegável.

Já Vaclav Havel será alçado a partir de agora à redescoberta de uma vida que se manteve íntegra mesmo quando enfrentou o Poder que quer nos corromper a qualquer custo.

Sugiro aos leitores que, como homenagem a um verdadeiro grande homem, leiam nada mais nada menos “The power of powerless”, um ensaio que, por si só, poderia refundar toda uma nação.

R.I.P.


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Uma revolução que não deve ser esquecida

Filed under: Sociedade incluído por Martim Vasques da Cunha
Data do post: 17 de fevereiro de 2010

Existem revoluções e revoluções. Segundo Hannah Arendt – é, eu sei que vocês acham que não gosto dela, mas tenho de admitir que, às vezes, a moça lançava bons argumentos – há as revoluções não-desejadas, como a Russa, que pretendem alterar a estrutura do mundo, e as desejadas, como a da Independência Americana, que são uma reação a uma determinada injustiça. Da minha parte, os termos reforma (como uso em meu ensaio sobre Joaquim Nabuco, publicado na Dicta 3) ou restauração são mais adequados para esta última, pois implicam no respeito à estrutura objetiva do real.

Creio que este é o caso da Revolução de Veludo da Tchecoslováquia, evento que aconteceu há 20 anos e que é devidamente relembrado por André Glucksmann em um belo artigo para o City Journal. Quando comemoravam-se a queda do Muro de Berlim, esqueceram-se, por incrível que pareça, do trabalho de resistência feito por Vaclav Havel, Jan Patocka (que morreu devido ao rigor dos interrogatórios a que foi submetido) e outros do grupo Carta 77.

Havel, que era um dramaturgo tcheco desconhecido do grande público, tornou-se o líder de um movimento que tinha uma denominação ambígua – os dissidentes. Foi justamente sua visão de artista que o permitiu, junto com Alexander Solhzenitsyn, fazer a melhor análise da sociedade totalitária (tanto em seu aspecto político como cultural) em um ensaio definitivo chamado O poder dos sem-poder. Além disso, quando ficou seis anos preso, acusado de “perturbar a ordem social”, conseguiu escrever uma das obras mais comoventes do final do século XX, as Cartas a Olga, uma reunião de epístolas à sua então esposa, que guarda em cada linha profundas meditações sobre a responsabilidade humana frente a um horizonte metafísico.

Com apenas a força do espírito, articulada com uma persuasão racional em convencer o povo a acreditar que estava na hora de um governo justo voltar ao país, Havel fez uma restauração silenciosa, sem usar nenhuma violência. Quando foi eleito presidente, teve um mandato de quase dez anos que poderíamos chamar de “digno”, apesar de ter perdido sua maior luta – a separação da República Tcheca com a Eslováquia -, de sido traído por seu primeiro ministro, o soi disant liberal-conservador Vaclav Klaus (que acha que as preocupações espirituais de Havel não passam de “devaneios socialistas”), e de ter se rendido às exigências da União Européia e da ONU para reestruturar o seu país economicamente (bem, se eu estivesse na pele dele, talvez faria a mesma coisa – afinal, a política é também uma arte das circunstâncias).

Atualmente, fora de suas exigências presidenciais, Havel ainda luta o bom combate. É o principal articulador da Declaração de Praga pela Consciência Européia, abaixo-assinado mundial que exige que o comunismo seja colocado no mesmo patamar de atrocidade que o nazismo. Eis aqui um toque de gênio e de coerência: Havel sabe que, no mundo intelectual europeu, o comunismo é visto como uma ideologia que não foi tão destruidora como a de Hitler. Logo, a Declaração é uma reação contra uma idéia que, por falta de uma educação histórica correta, ainda seduz as pessoas – e ele conheceu na carne o que esta sedução faz quando é ensinada como a solução de todos os problemas do mundo (aliás, se você não assinou este abaixo-assinado, um dos poucos que prestam, faça isso agora).

Mas o que isso tem a ver com o Brasil?, perguntará o afoito leitor. Tem a ver o fato de que Havel pode ser um exemplo para nós. Guardadas as devidas proporções, a situação na Tchecoslováquia nos anos 60-80 é muito parecida com a do Brasil dos dias de hoje: um país apático, que se oferece voluntariamente para o holocausto do totalitarismo cultural e entregue por uma elite que não faz nada, exceto discutir o sexo dos anjos. Para quem ainda sonha de forma infundada, utópica e perigosa que haverá uma espécie de reação tupiniquim a lá tea-party, o exemplo de Havel é a prova de que não se precisa de discursos ideológicos da direita, da esquerda, do centro ou de qualquer partido político, para restaurar a dignidade humana. Afinal, como dizia Krzysztof Kieslowski, uma dor de dente continua sendo uma dor de dente, seja na Polônia, na Ucrânia, na França ou até no Brasil, não é mesmo?


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