Esquerda e direita e a crítica à Universidade
Data do post: 23 de junho de 2008
Uma coisa que me tem chamado a atenção é como as críticas feitas ao estado atual do ensino superior são fundamentalmente as mesmas ao longo de todo o espectro político-ideológico.
Compartimentalização do saber; especialização extremada que não permite mais uma visão do todo; ensino voltado exclusivamente para o mercado de trabalho. Sai-se, não formado, mas formatado.
Esse diagnóstico, e o juízo negativo sobre ele, é algo que poderia vir tanto da esquerda como da direita. Ambos concordam que essa imagem da universidade atual, manifestação do pior lado do pragmatismo, do utilitarismo e do materialismo (no sentido de sobre-valorização dos bens materiais), é terrível. A diferença está nas causas apontadas para esse quadro negativo, e nos ideais almejados.
Um pensador de esquerda, em geral, enxerga fatores econômicos como causa dos fenômenos culturais. Assim, é o desenvolvimento do capitalismo financeiro que está por trás do consumismo que rege a sociedade e da conseqüente subversão da universidade, que serve aos interesses do mercado.
Já alguém da direita enxerga, antes de tudo, causas morais e espirituais. As pessoas são livres para escolher. E é exatamente porque valorizam de forma extremada o dinheiro, os bens materiais e a profissão, que as instituições por eles criadas e perpetuadas refletem esses valores.
Outra diferença, embora menos clara, está nos diferentes ideais de universidade. Com o fato de que a universidade atual vai mal todos concordam. Mas como ela deveria ser? Existe uma tendência na esquerda (embora não seja partilhada por todos) de querer submeter toda a educação a fins políticos. A universidade seria, portanto, nada mais do que um instrumento de transformação social, de politização, tendo por fim último a abolição do sistema capitalista e a instauração de um novo modo de produção.
Já de acordo com a “direita” (aqui certamente o emprego do termo é enganador, pois muitos dos que se identificam como sendo de esquerda também pensam assim), a finalidade da universidade deve ser a formação humana e intelectual dos estudantes. Certamente, quem sai de uma universidade estará melhor preparado tanto para ingressar no mercado de trabalho quanto para trazer contribuições políticas à sociedade; mas essas não são sua finalidade principal. O cultivo do conhecimento e a troca de idéias que se dá no ambiente acadêmico não precisam de motivos exteriores que os justifiquem. A busca desinteressada pela verdade constitui um fim em si mesmo.
Faltou falar dos meios propostos por ambas as correntes para passar do “como é” para o “como deve ser”. Aqui, mais uma vez, esquerda e direita concordam – estão ambos sem resposta.
10 Comentários »
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“a finalidade da universidade deve ser a formação humana e intelectual dos estudantes.”
Pensadores de esquerda não discordariam desta formulação. É um tanto quanto “maroto” colocar a diferença aí. Mais correto seria definir o que significa a “formação humana” para cada um dos lados da questão, até por ser um termo vago.
Comentário por Vinícius Melo Justo — 23 de junho de 2008 @ 12:58 pm
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Mas é exatamente o que eu disse no texto, Vinícius. Muitas pessoas de esquerda concordariam com essa finalidade para a universidade (nem todas!), a busca da verdade como um fim em si mesmo.
Já outros enxergam a função da universidade, e da “formação humana” que ela dá, como servir de mecanismo de algum tipo de mudança política ou econômica na sociedade.
Comentário por Joel Pinheiro — 23 de junho de 2008 @ 11:45 pm
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[...] o texto de Joel Pinheiro no blog da Dicta & Contradicta (aliás, em segundo lugar de vendas de não-ficção na Livraria Cultura!) sobre os problemas da [...]
Pingback por De novo, para que estudar? — O Indivíduo — 24 de junho de 2008 @ 12:45 pm
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Acho que não me expressei bem, ou me expressei de modo incompleto. O que desejava apontar é que a raiz da diferença está na concepção de formação humana que se tem de um lado e de outro. Isso gera diferenças no modo de ver cada uma das possíveis “formações”: o estudo da História, da Geografia, da Filosofia, das Letras… Em suma, ambas as correntes perseguem, majoritariamente, a “formação humana”. A questão é saber o que significa exatamente este “humano” de cada lado (o que está esboçado, mas não centralizado, no texto). À parte isso, concordo com teu texto na essência.
Comentário por Vinícius Melo Justo — 24 de junho de 2008 @ 1:43 pm
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Não existe uma contradição necessária entre a busca pela verdade e a transformação social, porque a própria busca pela verdade pode ser vista como uma ferramenta de transformação social.
Comentário por Erick Vasconcelos — 24 de junho de 2008 @ 2:05 pm
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É verdade, Vinícius. De fato, o mesmo termo, usado por ambos os lados, pode estar escondendo concepções diferentes.
Erick, concordo com você. Tentei expressar isso no texto, ao dizer que a pessoa que passa pela universidade tem inclusive condições de participar da política de sua sociedade.
Mas a busca pela verdade, embora possa constituir uma ferramenta de transformação social, pode também não constituir. Ou seja, não é da essência dela que seja assim, embora possa sê-lo.
Comentário por Joel Pinheiro — 24 de junho de 2008 @ 11:55 pm
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[...] Tags: blogosfera, Capital Humano, Dicta&Contradicta, ensino superior, IEF trackback Joel Pinheiro nota uma certa homogeneidade na crítica ao ensino superior desde a “direitaR…. Na minha opinião, a existência do IFE e da Dicta & Contradicta não é uma evidência de que [...]
Pingback por A resposta do mercado « De Gustibus Non Est Disputandum — 25 de junho de 2008 @ 7:25 am
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De fato, a universidade está mal. Pouco tempo lecionando e encontro-me diariamente frente a frente com alunos mal preparados anteriormente, que não são capazes de pensamento lógico, estruturado e claro. Pra vocês terem noção: corrigindo uma prova da história um aluno me escreve “feldalismo”…isso mesmo: “feldalismo”. E olha que era um curso inteiro sobre a transição feudal-capitalista. Duro, né?
Comentário por rodrigo — 25 de junho de 2008 @ 5:41 pm
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Quando a busca pela verdade é desde o princípio vista como ferramenta, finda por orientar-se por um outro objetivo que a simples verdade em si.
A mente não se contenta até achar “a verdade”
que satisfaça o objetivo almejado.
Ainda mais no caso de transformações sociais
, usualmente carregadas de motivações emocionais que ofuscam a visão.Comentário por Ari — 26 de junho de 2008 @ 1:08 pm
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O ensino superior em nossa terra é a banalização da mediocridade. Ser medíocre é a última moda da estação. Pior ainda: o cúmulo do absurdo é procurar uma universidade para ser mais medíocre ainda. Como se isso fosse possível. Seria o mesmo que um doente moribundo procurasse um médico morto.
Comentário por Enival Melhado — 16 de julho de 2008 @ 7:26 am







