There is no such thing as an online saint
Data do post: 3 de março de 2013
Extrato de um processo de beatificação extinto sem julgamento de mérito em 2023 A.D —
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Beatificatio ser. D. Caius “El Catolico” Domingus [...]
ANIMADVERSIONES R. P. PROMOTOR FIDEI
super dubio an constet de virtutibus de quo agitur?
349. …frequentabat retes sociales…
473. …melus perductorium… conversationes catholicae… confusio maxima [...] virtutes… propagand@ fidei virtualis…
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Causa de beatificação de Caio “O Católico” Domingo [...]
COMENTÁRIOS DO PROMOTOR DA FÉ
sobre se é lícito falar em virtudes [na sua ação]
349. …frequentava as redes sociais…
473. …o motivo que coordenava a sua vida… eram as conversas católicas… e a confusão entre virtudes… e propagand@ da fé virtual…
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Adaptei a passagem acima de um processo real, das coisas mais empoladas que já li em latim, mas na qual se pode substituir apenas “redes sociais” por “congregações”. O promotor não conseguia entender como o processo veio parar em sua mesa, mas compreendia por que a minuta de positio super virtutum tinha apenas 2 páginas e muitas piadas internas.
Sugiro trocar esse tipo de passatempo degradante por algo intelectualmente produtivo.
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AND NOW FOR SOMETHING COMPL
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Nossos Fariseus

Atire a primeira pedra.
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E a nova modalidade esportiva do verão é xingar e agredir pecadores, tal qual os fariseus de 2000 mil anos atrás faziam com mulheres adúlteras. Um tanto antiquado? Até seria, não fossem as novas regras, ou seja, o pecado da vez. Desde há dois mil anos até não muito tempo atrás, a praxe era perseguir os pecadores sexuais: ai de quem não seguisse a estrita cartilha moral preconizada pelos rigores da ortodoxia. Hoje, ao menos nas classes educadas, os tabus do sexo foram abandonados e substituídos por outros. As pedras de agora estão reservadas para o pecado social: superficialmente, qualquer mostra de elitismo, ostentação ou “preconceito”.
Vejam o caso da “praia dos riquinhos”, noticiada pela Veja-Rio. Camila Diniz, que estampou a reportagem de domingo e deu seu depoimento por frequentar uma pequena seção privada (denominada “Aqueloo”) de uma praia carioca, na terça-feira recebia promessas de agressão física caso ousasse pisar na praia pública.
O que ela fez de tão terrível? Em primeiro lugar, frequentar um espaço exclusivo e caro. Em segundo, mostrar isso ao mundo. Em terceiro e para coroar, este comentário: “Deixei de frequentar Ipanema e passei a vir aqui todos os dias porque o público é muito mais selecionado”. Revelou ainda que gosta de beber champagne na taça e fazer chapinha depois que volta do mar, que são algumas das regalias da Aqueloo. Mal sabia ela que uma verdadeira legião de usuários de internet não só desaprova de suas preferências como se sente mortalmente ofendida por causa delas. A reação pode se manifestar de várias formas: como raiva, outras vezes como escárnio, outras ainda como pena; sempre exageradas.
Falou-se até mesmo que colegas de profissão indignados teriam se juntado para pedir a cassação de seu diploma de… socióloga. Não é por acaso que a Veja escolheu, dentre as centenas de mulheres jovens no Aqueloo, justo a socióloga; ela bem sabe como atiçar os leitores. Pois se tem uma casta social que não pode cometer esse tipo de impureza são os sociólogos; e, em verdade, todos os parentes dos cursos de Humanidades e Artes. Foram eles, afinal, que criaram o padrão moral vigente, e são eles que o impõe a ferro, fogo e humilhação pública. Não diretamente, é verdade. Duvido que os xingamentos das caixas de comentários venham de membros de nossa elite cultural. Seus meios são outros: comentários decepcionados (que é também uma forma de ostentação, só que de qualidades espirituais) e piadinhas em rodas de conversa, em blogs e no Facebook. Uma patricinha que não fez faculdade, coitada, até se entende que se mostre por aí bebendo champanhe em uma praia exclusiva; peca por ignorância. Mas uma socióloga, essa conhece a Lei; seu pecado só pode ser fruto da malícia.
Em outro caso recente, Valéria Rios, uma mãe que tem um blog sobre crianças, ousou falar, aberta e honestamente, sobre como lidar com babás em viagens. Entre outros crimes contra a humanidade, sugeriu que, para conter as despesas, o casal poderia comprar um lanche no McDonald’s para a babá quando fossem a um restaurante caro. A reação foi tamanha que ela tirou o post do ar. Algo similar ao que aconteceu com a psicóloga (conhece a Lei) que não queria estação de metrô em Higienópolis por causa dos mendigos, drogados e “gente diferenciada”. Ao menos no caso dela a parte mais visível da reação teve um toque de bom humor: jovens indignados, provavelmente oriundos das zonas oeste e região central de São Paulo, organizaram um “churrascão da gente diferenciada” na frente do Shopping Higienópolis.
Os veículos midiáticos bem sabem explorar essa atual moda dos públicos esclarecidos de hostilizar, não quem é rico, mas quem é visto como de alguma maneira ostentando ou derivando um prazer sem culpa da riqueza (para o público mais simplório, a pedida ainda é a Revista Caras, ou seja, a admiração pelos ricos e famosos). A “praia dos riquinhos” ocupa o primeiro lugar das mais lidas da Veja-Rio. E lembram do vídeo das socialites discutindo a USP? O único motivo para ter virado notícia foi a esperteza dos jornalistas da Folha, que bem sabiam a reação que viria. E quem esquecerá a indignação pública de Leonardo Sakamoto, um de nossos doutores da Lei, em meados de 2012, contra as madames entrevistadas por Monica Bergamo (outra da patrulha) sobre os arrastões em restaurantes? É nesse filão que entram programas como o “Mulheres Ricas”, que todos adoram odiar. No caso delas, a ostentação é tão escrachada e cafona que poucos levam a sério; elas são antes objeto de riso do que de raiva. O nível da patrulha pela moral e bons costumes chegou a tal ponto que até mesmo Lola Aronovich, a principal representante do movimento feminista no Brasil, teve que pedir a seus leitores que se abstivessem de comentários a la “classe média sofre” a um texto de uma convidada sua que, maldita, era de classe de média e mesmo assim não era perfeitamente feliz.
São dois os tipos de manifestação repreendida por nossos fariseus com suas pedras morais. Uma é a da pessoa que parece tratar alguém de extrato social mais baixo de maneira inferior a ela própria ou sua família (pergunto-me quantos dos revoltados tomam banho no mesmo chuveiro que suas empregadas), e a outra é a pessoa que, sendo rica, ousa ser feliz e demonstrar que não está tão preocupada assim com o resto do mundo. Talvez ambas sejam duas facetas de uma mesma atitude perante a vida. Falei em “pessoas”, usando um termo neutro e politicamente correto; mas percebo que ele é desnecessário: todas as pessoas dos exemplos que consegui achar são mulheres. Olha só, mais um elemento comum entre a velha e repressora moral sexual e a nova e esclarecida moral social: a opção preferencial pela mulher.
Acho que o que desperta essa reação é ver não apenas mulheres ricas; mas mulheres ricas que não sentem vergonha de usufruir de sua riqueza e que, além disso, demonstram ter pouco ou nenhum interesse pelas vidas das pessoas mais pobres e seus sofrimentos de maneira geral. Em outras palavras, mulheres que vivem para si mesmas, e não para os outros. E dos dois sexos, é principalmente a mulher que não pode ser um fim em si; se for, é fútil, frívola, burra, má. Imagino que muitas dessas devem conhecer e se importar por pessoas pobres específicas, concretas; aposto também que muitas participam de ações de caridade e voluntariado para ajudar aos desafortunados. Falta-lhes, contudo, a culpa fundamental que transformaria “os pobres” em abstrato em sua razão de viver ou, o que é mais realista, numa pontinha de culpa que as impedirá de aproveitar a vida plenamente. As mulheres criticadas demonstram não estar nem aí: em meio aos arrastões de restaurantes, preocupam-se com suas joias. Outra vai a uma praia para poder conviver com pessoas mais agradáveis, procurando se separar de gente presumivelmente mais pobre e feia. Outras até discutem questões sociais, mas com uma leveza que deixa claro que o happening importa mais do que a discussão (podemos até dizer que o nível das opiniões mostrados no vídeo da Folha era baixo; mas seria ele mais baixo do que as opiniões que correm em reuniões de um centro acadêmico universitário?). Em todos os casos, mulheres que ousam se comportar como se a felicidade delas próprias fosse um fim em si.
Mas nossos fariseus conhecem suas armas, e acabam prevalecendo. Em geral, isso significa fazer sua vítima baixar a cabeça e professar adesão ao código de valores deles. A psicóloga da “gente diferenciada” disse que não usou a tal expressão. A socióloga e a mãe blogueira dizem que foram mal interpretadas; ninguém parece disposta assumir publicamente que, sim, eu prefiro frequentar uma praia com gente mais fina, bonita e agradável. Um comentador da matéria em que Camila Diniz se defende diz tudo: “Vamos ser sinceros, quem é gosta de ir a praia e dar de cara com os farofeiros da linha 2?” Não sou carioca; nem imagino como sejam, como se vistam e como se comportem os tais “farofeiros da linha 2”. Imagino, contudo, que o sentimento de não querer conviver com eles seja um tanto disseminado, na mesma medida em que é violentamente silenciado.
Em tal cenário, é impossível não pensar em Nietzsche. O ódio aos pecadores da ostentação decorre, não de um desejo moralmente superior por parte dos acusadores de escolher outro tipo de vida; mas de sua incapacidade de viver do jeito que condenam, embora de alguma maneira também o desejem. Não é simples inveja. Seria inveja se os acusadores desejassem ter e usufruir daquilo que suas vítimas usufruem. E em algum nível acho que esse desejo deve existir; somos todos humanos. Mas suspeito que, por uma série de motivos, eles seriam incapazes de aproveitar sua riqueza com a mesma despreocupação, e por isso sentem-se mais felizes em estragar a felicidade alheia do que seriam capazes de se apropriar dela. Acho que isso é pior do que inveja. Fico imaginando se os mesmos sociólogos que professam gostar de conviver com os farofeiros da linha 2, na verdade derivam seu prazer exatamente do sentimento de superioridade moral que essa convivência traz. “Eu fico bem em meio ao povo. Sou superior à elite branca que foge deles”.
Sua arma de ataque é justamente a superioridade intelectual e cultural, que dá a eles um poder de determinar e impor o código de valores oficial, desde que consigam arrancar, ao custo de muita chantagem, o consentimento das vítimas. Têm sido bem-sucedidos.
Não que ir a uma praia exclusiva, usar bolsa de marca ou dar dicas de babá sejam ações particularmente virtuosas. Noto, contudo, que todas elas são perfeitamente inofensivas. Mesmo o artigo sobre a babá, que tinha potencial para classismos e racismos mil, foi rigorosamente justo em suas propostas e atitudes, sempre incluindo, por exemplo, a preocupação em conversar e explicar à babá as decisões tomadas; nenhuma delas, afinal, imprópria ou degradante. Nenhum dos casos de escândalo público aqui citados teve como objeto um ato ou atitude verdadeiramente reprováveis. Quem age realmente mal nesses casos, penso, são os acusadores, que sentem ao que parece uma verdadeira compulsão de tornar públicas suas condenações; afinal, é condenando em público que eles próprios adquirem um status moral mais elevado. Isso sim é coisa a se lamentar, sempre cientes de que nós mesmos muitas vezes o fazemos.
A autoridade de nossos fariseus não é de hoje. Resgato aqui trechos do artigo que Ayn Rand escreveu sobre o suicídio de Marilyn Monroe, e que tenta colocar em palavras o que devia se passar nas almas de seus detratores, tão similares aos nossos doutores da Lei em seus piores momentos.
“Se alguma vez houve uma vítima da sociedade, Marilyn Monroe foi essa vítima – de uma sociedade que professa dedicação ao alívio do sofrimento alheio, mas que mata os alegres.
(…)
Sobreviver e preservar o tipo de espírito que ela projetava na tela – um senso de vida de uma benevolência radiante, que não pode ser fingido – era uma conquista psicológica quase inconcebível, que requeria um heroísmo do mais alto grau.
(…)
‘Inveja’ era o único nome que ela conseguia dar à coisa monstruosa que a confrontava, mas era muito pior do que a inveja; era o profundo ódio à vida, ao sucesso e a todos os valores humanos, sentido por um certo tipo de mediocridade – aquela que sente prazer ao ouvir falar das desventuras de um estranho. Era ódio ao bem por ser o bem – ódio à habilidade, à beleza, à honestidade, à sinceridade, à realização e, acima de tudo, à alegria humana.” (Through your most grievous fault, 19/08/1962, LA Times)
Não estou, já disse, elevando as vítimas da nossa patrulha farisaica à condição de exemplos de virtude moral. Estou apontando que aquilo dentro de nós que nos leva a querer colocar para baixo essas pessoas não é bom. Se a alegria alheia nos ofende, se nos causa indignação ver que aqueles acima de nós riem sem olhar para baixo, o problema está mais em nós do que neles. Assim, recomendo a todos que guardem as pedras e as mostras de indignação e vão aproveitar a dia; perto ou longe dos farofeiros da linha 2.
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A Arquitetura da Felicidade
Data do post: 24 de fevereiro de 2013

Por Adriano Correia
Silver Linings Playbook (no Brasil, “O Lado Bom da Vida”), 2012, dirigido por David O. Russell, e estrelado por Bradley Cooper (The Hangover) e Jennifer Lawrence (Hunger Games), é uma comédia romântica fora do comum, a começar pelo fato de que subverte, pelo excesso e pela antecipação, o velho clichê do gênero, em que geralmente o mocinho corre atrás da mocinha no final do filme; aqui o mocinho, Pat, é um bipolar cuja mãe (Dolores, interpretada por Jacki Weaver), nas cenas iniciais, busca-o no sanatório; um maluco descontrolado que, com alguma razão, espanca um velho, colega seu, professor de história na mesma escola, que encontra, em sua casa, transando com sua esposa no chuveiro, sob uma das faixas sonoras de seu casamento. Um filme fora do trilho de seu gênero, pois Pat está a correr o tempo todo (e não só no final), vestindo um saco de lixo que o faz suar mais e que, pois, faz com que perca mais peso, obsessão que adquire em consequência de ter sido gordo durante todo o casamento.
Também é um filme em que a personagem protagonista, Tiffany, interpretada por Jennifer Lawrence, indicada ao Oscar, só nos é apresentada depois dos trinta minutos iniciais, num jantar disfuncional oferecido por sua irmã, Veronica (Julia Stiles). Jantar de que participam apenas pessoas disfuncionais, quebradas, tanto por parte de Veronica e seu marido, como por parte do par principal, cuja primeira conversa consiste em indiscrições de parte a parte, e da discussão dos medicamentos psicotrópicos a que já foram submetidos.
Não há um só personagem que possamos chamar de “normal” no filme; todos falam muito, o tempo todo, e todos são algo caricaturais, incluindo o psiquiatra indiano que cuida do caso de Pat. Todos são extremamente passionais e intensos, o que faria pensar que se trata de um filme de italianos (e a presença de Robert De Niro, no papel do emotivo e supersticioso pai de Pat, reforça essa aparência).
Mas o que dizer sobre Tiffany, a personagem promíscua de Jennifer Lawrence? Sabe-se que seu marido policial era pouco romântico, e que morre pouco depois de comprar indumentária erótica para sua mulher, com quem decidira “reavivar o romance”. Tiffany também deixa escapar, contando-o a Pat, que insistia que seu falecido esposo participasse de um concurso de dança com ela, ao que ele sempre se negava. Estando, porém, o personagem de Bradley Cooper obcecado pela esposa, Tiffany maneja um esquema para obrigar o neurótico Pat a ensaiar para o tal concurso de dança e dele participar: em troca da entrega de uma carta à esposa de Pat, que lhe impusera uma restraining order, Tiffany faz dele refém de uma manipulação que (spoiler alert) o salvará de si mesmo, possibilitando a superação da ridícula obsessão pela ex, e também fornecendo-lhe meandros emotivos para que possa, de algum modo, alcançar a felicidade — e aí então, segundo spoiler, temos a faceta ingênua e clichê do filme, pois a felicidade lhe é trazida pelas mãos de Tiffany, e tudo acaba bem.
Ou seja, embora seja um filme pouco convencional em seu gênero, ainda assim tem aquele calor típico, por exemplo, dos filmes de Capra, em que o personagem bonzinho central passa por uma série de apuros, que quase põem fim a sua vida (como em Mr. Smith Goes to Washington e It’s a Wonderful Life, ambos estrelados pelo gigante James Stewart), só para no final se dar sentido à máxima de que o que não mata, torna mais forte. E é de fato o que ocorre nos três filmes.
A diferença principal entre o filme de David O. Russell e os de Frank Capra, porém, reside no motor que traz a mudança à tona. Em Mr. Smith esse motor em parte parece ser a secretária desiludida e cínica, Clarissa Saunders (interpretada por Jean Arthur), que, no entanto, aos poucos cede ao charme ingênuo, idealista e romântico de Jefferson Smith, um caipirão que ama a história política de seu país e que ao, por um acaso, tornar-se senador se deslumbra com os monumentos históricos de Washington, D.C., como a estátua esculpida de Lincoln. Aliás, é curioso notar o título que deram ao filme no Brasil, que não poderia ser mais bobo e simultaneamente revelador, A Mulher Faz o Homem.
Já It’s a Wonderful Life (no Brasil, A Felicidade Não Se Compra) não tem como móbile da mudança de George Bailey sua esposa, Mary Hatch (papel representado por Donna Reed), embora ela, como a morte do pai de Bailey, sejam em parte o motivo que atravanca, de certo modo, a vida do protagonista e fazem com que ele nunca saia da cidade pequena e interiorana em que vive para conquistar seu sonho de cursar uma universidade e ser alguém na vida, e de preferência alguém rico, com um milhão de dólares antes dos trinta anos.
Neste segundo filme de Capra é preciso o motor da possibilidade da prisão e completa ruína (em decorrência de um erro de seu tio bêbado) para que o personagem principal pense em tirar sua própria vida, ao que se recorre, até onde sei, pela primeira vez na história do cinema, ao recurso contrafactual de “como seria o mundo se você nunca tivesse nascido” (um tipo de thought experiment).
Silver Linings Playbook se aproxima muito mais do mecanismo de enredo de Mr. Smith. Clarissa Saunders, a assistente debochada e um tanto alcoólatra, mostra a realidade suja e malandra da política ao ingênuo Jefferson Smith, que por meio de um filibuster é obrigado a falar sem parar, de modo a que não se passe uma votação que atendaria aos interesses egoístas de um malévolo empresário local de seu Estado — seria interessante, em alguma outra ocasião, explicitar os clichês anti-liberais de Capra, como em sua caricatura da figura do banqueiro em It’s a Wonderful Life e a do empresário malévolo que controla o financiamento local de campanhas para o Congresso e assim faz valer seus interesses mesquinhos, em Mr. Smith.
Mas qual a diferença, afinal, entre Clarissa Saunders, em filme de 1939, e a de Tiffany, em filme de 2012, para além do fato inicial de que a segunda nem sobrenome tem? Ora, o modelo de mulher que aparece neste filme da década de 30, pelo menos o da ligada à política, é muito mais forte e, digamos, feminista (e masculino) em comparação com o que se pode ver da personagem desordenada, caótica e carente do filme de 2012, embora esses três adjetivos pudessem ser aplicadas também a Clarissa. Quer dizer, vê-se uma profissão e uma ambição claras em Clarissa, para além do romantismo que se desenvolve no decorrer do filme. Claro, isso se explica também pelo gênero cinematográfico com que Capra está tentando lidar, o drama político. Já a Tiffany cabe apenas salvar Pat.
No fim, há algum mérito nos três filmes mencionados.
Particularmente, naquele que nos interessa no momento, Silver Linings Playbook (lembremo-nos do bobo e revelador título brasileiro, O Lado Bom da Vida), tem-se, do começo ao fim, um lema latino (“Excelsior”) a guiar o personagem principal: “sempre para frente”, “sempre mais”, “sempre melhor”, algo como “excele!”, abusando do imperativo de um verbo pouco usado, exceler; lema apenas tornado factível a partir do momento em que o neurótico obsessivo é obrigado a se comprometer com uma atividade (o preparo para o concurso de dança) e com alguém (a maluquinha carente Tiffany).
Por isso, o mérito do dramalhão estrelado por Jennifer Lawrence é mostrar como duas pessoas, com caso psiquiátrico grave, podem dar sentido mútuo e partilhado a suas vidas. Que a ação parta da protagonista, que ao mesmo tempo antagoniza e eleva o personagem masculino, talvez não deva ser visto como fim dos tempos, em que a masculinidade perdeu sua virilidade e sua força. Desde época imemorial há imbricação recíproca que torna completos e unos dois seres diversos e cheios de incompletude. Ação condutora e paixão conduzida são apenas dois aspectos de uma mesma relação. E isso o filme prova com candor, por meio da personagem da belíssima e charmosa Jennifer Lawrence, que move a peça.
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Lincoln em Dois Takes

por Adriano Correia
Filmes são imagem e ação da fantasia humana; quer dizer, dependem da faculdade da imaginação para se os rodar e pôr à luz. Dependem também de um roteiro, de uma ideia mestra a guiar uma trama, que pode ser verossímil ou, em algum grau, surreal. Lembrar-nos dessas obviedades pode ser interessante quando consideramos filmes que retratam personagens e acontecimentos históricos, dada a distância que há entre fatos históricos ou biográficos e o modo como os reconstruímos em uma narrativa, seja literária, seja teatral (e a sala de cinema nada mais é que um teatro virtual com uma tela sobre a qual se projeta uma construção audiovisual artificial).
Pode-se fazer um paralelo com a situação em que se encontra alguém que enfrenta uma partitura musical, que é um artefato histórico cujas regras de reprodução musical são apenas parcialmente intrínsecas e conhecidas, considerando-se o caso de compositores mortos, cuja intenção para o modo de execução é (quase?) inacessível. Isto é, em uma reprodução da música da partitura se está obrigado a interpretar e, em decorrência de tal, obtém-se alguma expressão íntima e particular, que depende de um artista e de sua performance. Com o que se tem uma reprodução sempre virtual do original, dirigida por um intérprete, o músico — incluindo ou não a interferência de um exegeta regente.
Lembrá-lo, mais uma vez, pode ser interessante considerando o caso que temos em mão: uma breve comparação entre dois filmes que retratam um personagem histórico, que nunca conhecemos pessoalmente, com quem não convivemos, e sobre quem não pudemos formar preconceitos derivados do convívio pessoal e imediato; e não, pois personagens e eventos históricos exigem a mediação de outros que registraram fatos e anedotas, a partir dos quais então formamos algum juízo, mas sempre distante e mediado, diferente da experiência em primeira mão, que é íntima e imediata (no sentido apenas de que não depende de um relato alheio), embora também comporte algum bom grau de subjetividade e deformação.
Assim, toda experiência cinematográfica é uma experiência virtual, do mesmo modo como não deixa de ser algo virtual toda e qualquer narrativa histórica; só que no caso do cinema há um grau maior de virtualidade, e por isso é interessante comparar narrativas e construções — até para que se possa ter algum elemento para explicitar e tentar entender diferenças de apreciação e valoração estética.
Young Mr. Lincoln de John Ford, estrelando Henry Fonda, é um filme de 1939 parcialmente histórico que romantiza o período de formação do futuro presidente, que cedo perde um amor, Ann Rutledge; mesmo não tendo frequentado muito a escola, Lincoln se mostra o modelo de self-made man, pois acaba adquirindo alguma cultura política e jurídica com os poucos livros que calhem em suas mãos. A maior parte do filme se passa com sua chegada em Springfield, em que toma para si a defesa de dois irmãos num caso de homicídio, posto que esses teriam matado um homem em legítima defesa, visto que ele dera um tiro (apenas ouvido) e então um dos dois teria usado um instrumento cortante para matar o homem.
A habilidade de manejo das emoções mais baixas e pungentes do populacho é mostrada em uma cena a seguir, quando uma turba enraivecida parte para matar os dois irmãos presos na delegacia da cidade. Lincoln os acaba convencendo a nada fazer recorrendo ao velho discurso de que não se deve tomar a justiça pelas próprias mãos, cabendo a um acusado o devido processo de direito. Menciona também as paixões que movem a massa que clama pela diversão do enforcamento, e lembra que mesmo ali há homens honestos, que se não estivessem numa multidão raivosa vexariam por seu comportamento.
O resto do filme, sua maior parte, retrata a defesa dos dois rapazes. Contar algo mais seria revelar um spoiler, que deixaremos para o fim do texto, seja para os que já viram o filme, seja para aqueles que irão querer saber por que o filme de Spielberg seria melhor que o de Ford.
Lincoln, de Steven Spielberg, estrelado por Daniel Day-Lewis, retrata o fim da Guerra de Secessão e a batalha pela aprovação da décima terceira emenda, aquela que abole a escravidão. Dizê-lo resume o filme, que não seria muito mais que isso, se a emenda não fosse uma desculpa para mostrar quem e como era de fato essa figura enigmática, soturna e algo sábia em que foi esculpido o maior presidente dos Estados Unidos depois de George Washington.
Do ponto de vista da pintura do personagem, Day-Lewis parece ser o mais próximo que se terá de Lincoln. Embora Fonda faça um bom trabalho, o figurino, a maquiagem e a produção fazem de Day-Lewis a estátua viva de Lincoln.
Ao ponto do texto, porém: se há uma anedota aparentemente muito mais interessante em Young Mr. Lincoln, por que o último filme, lançado 73 anos depois, seria melhor? Ora, pois dado o que dissemos no começo, uma cinebiografia é a representação virtual de um ente histórico, e, nesse quesito, Day-Lewis apresenta um Lincoln com muito mais gravitas e senso de propósito que o jovem, que, mesmo que recorra a subterfúgios de toda sorte para convencer ao júri da inocência de seus clientes, ainda assim não tem a expressão, o conhecimento de mundo e a sagacidade pragmática para realizar algo muito mais complexo que um julgamento que se ganha com o recurso de um almanaque.
O grande problema do primeiro filme é a inocência excessiva com que se age (como nas excessivas e impróprias risadas do juiz e de toda a corte quando o jovem Lincoln faz palhaçadas e humilha o acusador público); a música é algo ingênua e nos faz pensar em desenhos do Pica-Pau e do Pernalonga, em que se toca o mesmo gênero musical, mas com algum contra-evento que mostra a alegre ingenuidade a mover o personagem que acaba por se ferrar.
Já o Lincoln de Spielberg não cai jamais no pastelão, a começar pelo início do filme em que soldados negros e brancos recitam discurso do presidente amado.
Mas é interessante também ver a coincidência entre as atuações de Day-Lewis e Fonda. Ambos fazem um personagem socialmente sagaz, que sabe se portar muito bem nas situações em que se encontra — embora nos dois filmes o maior problema psicológico de Lincoln se alumia em suas relações com as mulheres, sempre conflituosas e algo estranhas. Vemos isso na versão de Ford, em que nada diz quando se encontra na varanda com uma moça que o tirara para dançar; no segundo Mary Todd, sua mulher, questiona-o o tempo todo, não lhe dando tempo para respirar, e exigindo dele uma paciência emotiva enorme.
Nos dois casos tem-se um Lincoln contador de causos, que, aliás, é bem-sucedido socialmente por sua habilidade de encantar e divertir os outros. Isso é boa parte de seu charme, como também seu caráter soturno, pela perda de tantas pessoas em sua vida (como Ann Rutledge e sua mãe). Mas partindo dessa tristeza que ele carrega em si, e da qual nunca se livra, Lincoln acaba praticamente por se fazer num sábio estoico, em cujas mãos reside o futuro de toda uma população negra que é vista como de segunda ou terceira classe.
No final ele acaba aprovando a emenda num esquema corrupto de oferta de empregos na máquina estatal. É curioso como um caso de profunda corrupção tenha dado liberdade a uma classe de humanos que não era considerada humana.
Pode-se dizer que temos em mãos dois casos de glorificação de um homem comum que se fez grande e poderoso. E o cinema tem neste caso o papel ideológico de insistir na heroicidade deste homem, pondo em movimento a vida de um morto que carregou em si as maiores potencialidades e que ajudou a refundar uma nação. Este homem, porém, não é o jovem Lincoln que fazia gracinhas em um tribunal, para que todos rissem espalhafatosamente; era o quieto e velho sagaz.
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O legado de Bento XVI

Não sei o que dizer sobre a abdicação de Bento XVI, por isso decidi escrever um texto a respeito. Quanto aos motivos da renúncia, sem dúvida o que o papa disse é verdade: ele está fraco para os fardos que o ofício exige. Entre esses fardos, deve figurar a intensa oposição que enfrenta dentro da própria Igreja.
A grande mídia, como de costume, foi muito injusta com o papa, selecionando apenas aqueles pontos de seu pontificado que reforçam, para quem olha de longe, a imagem de um retrógrado altamente reacionário a vociferar contra um mundo liberal que deseja apenas ser feliz. Olha só os “pontos principais” do pontificado selecionados pelo G1: “O papado do conservador alemão foi marcado por algumas crises, com várias denúncias de abuso sexual de crianças e adolescentes e acobertamento por parte do clero católico em vários países, que abalou a igreja, por um discurso que desagradou aos muçulmanos e também por um escândalo envolvendo o vazamento de documentos privados por intermédio de seu mordomo pessoal, o chamado ‘VatiLeaks’, que revelou os bastidores da luta interna pelo poder na Santa Sé.”
Faltou dizer: o abuso sexual sistemático – que acometeu igualmente a diversas instituições, não só religiosas (o ensino público americano, por exemplo, foi palco da mesma exata dinâmica perversa) – é um problema de décadas, bem como seu acobertamento. E Bento XVI foi, tudo considerado, alguém que se portou de forma exemplar, com tolerância zero para com abusos e sem conivências vergonhosas para salvar “a imagem” da Igreja. É uma crise, mas não começou no pontificado dele e nem consta que a postura dele tenha deixado a desejar.
O discurso que “desagradou aos muçulmanos” é um enorme não evento, a não ser por seu valor filosófico e histórico, que era muito bom. A revolta muçulmana foi comparável a de charges de jornal com Maomé. E de todo o modo, se irritar alguns muçulmanos fanáticos for uma falha, é, se tanto, de relações públicas, e não de substância.
O Vatileaks de fato marcou o fim do papado, mas novamente ele não evidenciou nada que desabone ao papa, e como até hoje o vazamento das cartas em si tem recebido muito mais destaque do que o conteúdo de qualquer uma delas, é bem provável que o “escândalo” caia no esquecimento em breve.
Para mim, o pontificado de Bento XVI teve outros pontos memoráveis. A ênfase no aprimoramento da liturgia, que incluiu a liberação do rito antigo e o maior cuidado com a celebração do rito novo. A jornada mundial da juventude na Espanha, em 2011, que reuniu 2 milhões de pessoas. O ordinariato para a inclusão dos anglicanos à plena comunhão com a Igreja católica. As medidas para tornar públicas e transparentes as finanças do Vaticano. A criação do “átrio dos gentios”, uma inciativa que visa a estreitar os diálogos entre intelectuais e cientistas católicos e agnósticos/ateus. Por fim, as encíclicas e demais textos e falas de Bento XVI, que revelam inteligência e erudição e apontam para a possibilidade de se ser ortodoxo e, ainda assim, intelectualmente vivo.
Assim, acho curioso que vejam Bento XVI como um conservador terrível. Alguns falam até em um papa nazista, isso sim uma mentira pura e simples. Ratzinger, de família antinazista, tendo perdido um primo com síndrome de Down para as políticas genocidas de Hitler, foi forçado a se juntar à juventude nazista, e nem mesmo comparecia às reuniões mandatórias, sendo nisso ajudado por um professor benevolente que falsificava a lista de presença em seu favor. Claro, ele poderia ter se negado abertamente a participar e ser mandado para a morte em algum campo de concentração, como alguns de fato fizeram. Mas levantar tal falta de um heroísmo belo, embora quixotesco, contra um adolescente de 15 anos (!) me parece fora de propósito, se não hipócrita. Por fim, próximo ao fim da guerra, sem ter lutado diretamente, desertou o exército.
O mito do nazismo é um golpe de mídia. Mas e o conservadorismo empedernido? Uma coisa podemos afirmar: Bento XVI acredita na doutrina oficial da Igreja tal qual ensinada no Catecismo. Quem olha de fora talvez não perceba o tamanho da revolução que seria mudar algo aparentemente inócuo: passar a aceitar, por exemplo, a licitude moral da pílula anticoncepcional. Pelo ensino oficial atual, isso é algo que nem o papa pode mudar, dado que a lei moral não é determinada pela vontade humana e que papas anteriores já se pronunciaram definitivamente a respeito. O que não quer dizer que o ponto não devesse ser discutido com muito mais honestidade e abertura…
Enfim, no campo das doutrinas, especialmente morais, Bento XVI foi (e será ainda por duas semanas) um papa ortodoxo e que segue e reflete o ensinamento que chegou até ele. Um ensinamento que, se por vezes é inflexível para com certos atos, é também – ou tenta ser, dentro de suas restrições – receptivo a todos. A condenação aos “atos homossexuais” e aos casais de segunda união vem sempre aliada à compaixão para com eles e à afirmação de que todos, héteros e homos, divorciados ou não, são igualmente pecadores. Por mais que se questione ou discorde da postura da Igreja quanto à homossexualidade, ela não é homofóbica; pelo contrário, condena as tentativas de se humilhar ou hostilizar os homossexuais.
Em outros campos, Bento XVI é extremamente aberto: em sua relação com outras religiões e, especialmente, com outros grupos e igrejas cristãs, como protestantes e ortodoxos. Vejam o que o Patriarca de Constantinopla disse sobre a abdicação: “Rezamos para que o Senhor manifeste um sucessor digno para a Igreja irmã de Roma, e que possamos com ele continuar nossa jornada em comum pela unidade de todos rumo a glória de Deus”. Uma tal afirmação vinda da autoridade honorífica da Igreja ortodoxa representa um progresso ecumênico formidável. O mesmo se dá para com o diálogo de pessoas da Igreja com intelectuais seculares, ateus e agnósticos. Bento XVI não foi, de forma alguma, um papa ranzinza e fechado para o mundo. A acusação de conservadorismo obscurantista tem muito mais de sensacionalismo do que de justiça.
A injustiça midiática, contudo, foi ajudada pelas falhas de relações públicas e de procedimento do próprio Vaticano. Ninguém lá percebe que, em meio ao aparecimento generalizado de casos de abuso sexual infantil, posar de mestra moral do mundo e condenar a camisinha e a homossexualidade pega um pouco mal? E pega mal com razão. A Igreja é muito ciosa de sua existência como pessoa jurídica, como a instituição impessoal, com hierarquias e regras claras e que, por isso mesmo, pode emitir doutrinas “vindas do céu”, e não pensadas por indivíduos concretos ao longo da história. Sendo assim, o papa, como líder e representante máximo da instituição, tem o dever de responder pelos atos de seus membros e que foram permitidos e agravados pela dinâmica interna de autopreservação institucional. Bento XVI se esforçou para cumprir esse dever (com algumas lacunas, como a omissão de encontro a vítimas no México, terra dos Legionários de Cristo), mas ao mesmo tempo não viu incoerência em adotar discursos moralistas em outros contextos, quando talvez o mundo precisasse de um exemplo de humildade.
O papa, os cardeais próximos a ele e seus funcionários vivem em um mundo à parte, sem a menor ideia de que a reverência e o servilismo que vigora em seu meio não reflete o que a população normal, mesmo católica, está disposta a aceitar. Estão acostumados a tomar decisões sem nenhum diálogo, ou, o que é até pior, apenas com a aparência de diálogo. Nos últimos anos, muitas vozes de dissenso receberam um “cala a boca” do Vaticano, algumas simplesmente perdendo toda a base de sua existência. A um longo e omisso silêncio segue-se um ato canônico definitivo e implacável como raio em céu azul (algo similar, penso, ao infeliz episódio de escolha da reitoria da PUC-SP). O conflito que se anuncia com um enorme grupo de freiras americanas, se o Vaticano endurecer o jogo, é sério; e o mesmo vale para um grande grupo de padres austríacos. Se a faísca for lançada, sabe-se lá que outros grupos contribuirão para o incêndio. Será preciso muita energia e capacidade de dialogar para impedir esse desastre.
Conheço mais de uma pessoa cuja conversão ao Catolicismo se deu, em parte, pela influência do pensamento de Bento XVI. Lembro também que compareci a uma audiência pública dele em Roma no início de 2006, acompanhado de agnósticos que, embora sem nenhuma inclinação a se converter, ficaram bem impressionados com sua erudição e profundidade (a esse respeito, recomendo as considerações de Marcelo Coelho a seu respeito).
Talvez seja a produção intelectual o maior legado de Bento XVI. Se sua administração não foi marcada pela capacidade do diálogo interno, preferindo o silenciamento e as sanções institucionais, ele próprio é extremamente afeito à troca de perspectivas e a consideração aprofundada das questões com que se depara. Mesmo que para discordar (como discordo da proposta da ONU como uma espécie de governo mundial feita na encíclica Caritas in Veritate – na questão política, é interessante notar como João Paulo II era mais afeito ao empreendedorismo e à livre iniciativa em geral), elas nos mostram uma mente profunda, erudita e equilibrada (quem, no mundo não católico, esperaria um papa que cita Marx?). Mas, mais importante do que isso, iluminada pelas chamadas virtudes teologais: pela fé convicta na revelação de Deus ao mundo, pela esperança de que todos possam encontrar a redenção, e pela caridade que busca levar todos à luz de Cristo. Virtudes que, sem dúvida, ele continuará a exercer mesmo destituído do cargo de uma instituição jurídica que, embora de certa maneira indispensável, é também um obstáculo a seu exercício.
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Oscar 2013 – Parte 2
Data do post: 1 de fevereiro de 2013
Segunda parte do texto sobre os filmes concorrendo nas principais categorias do Oscar 2013. A primeira parte pode ser lida aqui.

– Les Misérables/Os Miseráveis (em cartaz)
8 indicações
Ator, Atriz Coadjuvante, Filme, Figurino, Cabelo e Maquiagem, Trilha Sonora, Direção de Arte, Mixagem
Anne Hathaway precisa ganhar o Oscar de Melhor Atriz Coadjuvante. Não merece, precisa – e deve ganhar. De fato, há micro-momentos tocantes, em especial quando Fantine canta “I Dreamed a Dream”, mas o que parece um sofrimento genuíno logo se perde em pura ambição, como quando Hathaway aperta os olhos para as lágrimas escorrerem em determinada parte da música. Seu esforço é tão visível – aqui, uma paródia perfeita – que é óbvio que ela precisa do Oscar ou então sua carreira se tornará uma sucessão de tentativas desesperadas de cair nas graças da Academia (mais papéis com mudanças drásticas na aparência? Nicole Kidman, afinal, ganhou por um nariz). Os Miseráveis é justamente isso: uma tentativa desesperada de obter prêmios. Tudo, da fotografia até os figurantes, parece carregar a expectativa de conquistar todos os críticos, todas as lágrimas e todos os aplausos do universo. O musical de Tom Hooper (O Discurso do Rei) é, afinal, o oposto de Amor de Michael Haneke, sem sutileza alguma, se chafurda na dor como um porco no lama. Ao final do filme, senti como se a duração de Os Miseráveis fosse de dois dias corridos e não duas horas e quarenta. Tão exaustivo que não tenho forças sequer para falar mal.
– Life of Pi/As Aventuras de Pi (em cartaz)
11 indicações
Filme, Fotografia, Direção, Edição, Trilha Sonora, Música, Direção de Arte, Edição de Som, Mixagem, Efeitos Visuais, Roteiro Adaptado
Há um único motivo para ver As Aventuras de Pi: o tigre. Acredite, é mais que suficiente. Há toda uma parábola religiosa por trás do relato do menino náufrago à deriva em um bote salva-vidas com um tigre, mas não se engane: o filme apenas menciona fé e religião, sem nunca lidar de fato com essas questões. É como uma sessão da tarde, agradável e um tanto sentimental, mas sem muita profundidade – culpa provavelmente do diretor Ang Lee, que transforma até Woodstock em mais uma tarde no playground. O que importa mesmo é o tigre fenomenal. Vejam pelo tigre, pelos efeitos especiais e o som incrível (o tigre!!).

– Lincoln (em cartaz)
12 indicações
Ator, Ator Coadjuvante, Atriz Coadjuvante, Filme, Fotografia, Figurino, Direção, Edição, Trilha Sonora, Direção de Arte, Mixagem, Roteiro Adaptado
Daniel Day-Lewis é o melhor ator vivo. Mesmo com todas as piadas sobre o seu método um tanto quanto ridículo de imersão nos personagens, não há discussão. Ao contrário de Anne Hathaway como Fantine, poucas atuações nos fazem esquecer do ator em si como Day-Lewis consegue. Mesmo assim, seu papel em Sangue Negro, de Paul Thomas Anderson, continua muito mais marcante e Lincoln também não é o melhor filme, entre os mais recentes, de Steven Spielberg – Cavalo de Guerra continua muito mais belo e emocionante. Composto quase que inteiramente de cenas internas, possui diálogos longos que, por vezes, são tão desnecessários quanto as anedotas do presidente. A vida em família, bem como o conflito com o filho mais velho de Lincoln (interpretado por Joseph Gordon-Levitt) parecem sem importância alguma para a trama que é mais sobre a abolição da escravatura do que sobre o presidente. O resultado é um filme bom, mas que não sabe muito bem a que veio. Deve ganhar os maiores prêmios da noite pelas questões que aborda (com seriedade total, não como Django Livre), mas é tão esquecível quanto O Discurso do Rei ou Uma Mente Brilhante. Para ter uma noção melhor da figura do presidente americano, só assistindo A Mocidade de Lincoln (Young Mr. Lincoln), dirigido por John Ford em 1939, com Henry Fonda no papel principal.

– The Master/O Mestre (em cartaz)
3 indicações
Ator, Ator Coadjuvante, Atriz Coadjuvante
Pela primeira metade de O Mestre, fiquei esperando o filme começar. Pela segunda metade, fiquei esperando terminar. Como toda obra de Paul Thomas Anderson (Sangue Negro, Magnólia, Boogie Nights), a fotografia é incrível, a música é diferente, espetacular – mas não havia mais nada lá. Mais nada além de Joaquin Phoenix. Sim, Daniel Day-Lewis é o melhor ator vivo, mas Phoenix merece ganhar. Em O Mestre, ele anda como um cabide humano: o pescoço encolhido, os ombros inclinados para frente, a cabeça para trás. Imagine um cabide tão alcoólatra que bebe até óleo de míssil. Da mesma forma que As Aventuras de Pi vale pelo tigre, O Mestre vale pela atuação de Joaquin Phoenix – ele parece, de fato, um bicho, uma criatura. Há uma cena lindíssima em que uma única lágrima faz um caminho demorado por entre as rugas estranhas das bochechas que Phoenix adquiriu nos últimos anos. De resto, não há nada de fato sendo desenvolvido. Sim, o culto retratado é baseado mesmo na cientologia, o questionário de “admissão” é basicamente o mesmo, mas e daí? O filme não flui como uma progressão, é composto por segmentos – belos segmentos, com excelentes atores e tudo mais – mas sem a força de Sangue Negro, obra-prima de Anderson. A frase mais linda, dita por Phillip Seymour Hoffman, daria sentido ao filme se tivesse alguma relação com o que vem antes ou depois, mas falta conexão ao filme como todo. Pena.

– Moonrise Kingdom
1 indicação
Roteiro Original
Moonrise Kingdom talvez não seja o melhor filme que Wes Anderson já fez, mas é certamente um dos melhores. Em outubro do ano passado, na resenha que escrevi quando o filme estreou, disse que não é a técnica obsessiva do diretor que provoca tanto fascínio, mas sua habilidade de retratar emoções muito específicas com sinceridade. Relembrando o filme agora, não são os enquadramentos, os detalhes das roupas ou dos objetos que me chamam mais atenção, mas as emoções, por exemplo, da menina que se sente um estorvo para a própria família ou do menino órfão detestado pelos amigos. O que se retém dos filmes de Wes Anderson, muito além da aparência considerada por muitos como forçada, é sempre a substância de algo bastante identificável.

– Silver Linings Playbook/O Lado Bom da Vida (em cartaz)
8 indicações
Ator, Ator Coadjuvante, Atriz, Atriz Coadjuvante, Filme, Direção, Edição, Roteiro Adaptado
Não é Bradley Cooper a estrela de O Lado Bom da Vida, mas Jennifer Lawrence, a atriz de apenas 22 anos que é a solução para todas as Anne Hathaways desesperadas por atenção e reconhecimento. Indicada ao Oscar pela primeira vez em 2011 pelo seu papel em O Inverno da Alma – um drama sério, mas honesto, nada como Os Miseráveis – é difícil imaginá-la como moça indefesa ou totalmente desprovida de humor. Em O Lado Bom da Vida, Lawrence interpreta Tiffany, uma personagem que é tão agressiva quanto vulnerável, muito mais complexa do que uma prostituta moribunda. Para lidar com o trauma de ter perdido o marido ainda jovem, Tiffany arranja uma série de parceiros sexuais que utiliza e descarta como objetos. Pat (Cooper) acabou de sair da reabilitação após agredir o amante da esposa pela qual continua perdidamente apaixonado. Unidos pela dor e o conhecimento de remédios de tarja preta, começam uma amizade estranha que sugere, é claro, a possibilidade de um novo amor. A grande qualidade do filme é que as doenças dos personagens não são tratadas levianamente como entretenimento esquisitinho como faz Pequena Miss Sunshine, por exemplo – são sim levadas a sério, levando em conta todo o transtorno que causam inclusive aos familiares. Apesar de sua consistência, O Lado Bom da Vida é apenas bom, com boas atuações (a indicação de Melhor Atriz Coadjuvante para Jackie Weaver, que mal aparece, é exagero) e, como As Aventuras de Pi, é digno de uma sessão da tarde.

– Zero Dark Thirty/A Hora Mais Escura (estreia prevista para 15/02)
5 indicações
Atriz, Filme, Edição, Edição de Som, Roteiro Original
Eu quis tanto gostar de A Hora Mais Escura, me esforcei tanto. O que pode ser mais emocionante do que a caçada por Osama Bin Laden depois do 11/9? Aparentemente, qualquer coisa. É possível pular quase que toda a primeira hora do filme, de tão entediante e desnecessária. A performance de Jessica Chastain como protótipo de mulher forte que desafia o comando é ora risível, ora irritante. Até parece que o diretor é homem, de tão estereotipada que a personagem ficou – melhor dizendo, tenho certeza de que vários diretores homens mais capazes fariam um trabalho muito melhor. Só o final presta, e só um pouco. Até lá, tudo é clichê. Quarenta minutos antes, a diretora dá todos os sinais possíveis de que determinado personagem vai morrer – e morre mesmo. É como um episódio de Homeland, só que muito (muito!) mais longo, chato e previsível. Sem falar na fotografia pseudo-realista de câmera na mão de um senhor com Parkinson. Que desperdício. Os críticos americanos só estão elogiando pelo o que o filme representa – um final justo para o episódio de 11/9 – mas não pelo o que ele de fato é: uma bobagem chata. Só é permitido falar mal se for pelas cenas de tortura (que nem são tão graves assim), mas a verdade é que A Hora Mais Escura é o Crash – No Limite do ano.
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Hipocrisia pornográfica
Os homens de espírito costumam dizer o contrário do que repetimos sem perceber.
W. H. Auden recebia muitos poetas iniciantes. Imediatamente lhes perguntava o que queriam com a sua poesia. Aqueles que diziam escrever porque teriam algo de muito importante a dizer eram desencorajados e mandados para casa, com péssimo humor. Aqueles que declaravam que apenas gostavam do som das palavras, dizia ele, tinham esperança. O mesmo dizia o metafísico Stephen Yablo em uma entrevista recente. A mera declaração de que a filosofia trata de questões importantes arruína o tom do ofício. “Brincar com ideias” constitui, em vez disso, a verdadeira atividade filosófica. (E, podemos imaginar, diz-se dessa forma despretensiosa as coisas importantes.)
Exageros à parte, essa intratabilidade dos gênios parece dizer algo sobre o perigo de declarar-se X ou Y.
* * *
Nesse sentido, um tema sociológico difícil, mas de muito interesse, é o da projeção exterior e discursiva de ideais de vida.
Vamos decodificar já o que isso significa. Minha intenção é investigar a possibilidade de uma pessoa escapar, com proveito para as próprias virtudes, de toda projeção própria e alheia sobre o seu plano vital. Para isso, trabalharemos com um exemplo.
Suponha que José se identifique com o budismo. Imagine, no entanto, que esse processo de identificação tenha sido lento e quase imperceptível: nenhum dos amigos ou familiares de José o notaram, e em nenhum momento a conversão foi anunciada. Todos estes ignoram, em consequência, a sua afiliação espiritual. Mas suponha também que Heitor julgue identificar-se com o budismo. Heitor, contudo, fez questão de deixá-lo claro a todos os que o rodeiam de que é budista: seu perfil nas redes sociais, livros que carrega para todos os destinos, longas conversas e até um proselitismo, tudo concorre para que o seu título se evidencie.
A minha pergunta é:
(1) excluídos outros aspectos e considerações, quem está mais perto do ideal budista — José ou Heitor?
Trato aqui o predicado ‘budista’ como um ideal de vida, nos termos da nossa expressão central. Para cada ação de José/Heitor considerada, tão mais budista é essa ação quanto mais ela se aproxima do ideal de vida correspondente. Instâncias de aproximação desse ideal seriam e. g. meditar diariamente, manter o silêncio, dizer a verdade, ter compaixão efetiva por todos os seres, disciplinar cada movimento anímico e físico com senso de proporção e exatidão. Cada vez que José/Heitor medita corretamente, José/Heitor se aproxima do ideal. E assim por diante.
Percebam que não é minha intenção falar do budismo, mas sim de qualquer ideal de vida. Ser mais concreto é apenas uma exigência conatural às circunstâncias da exposição.
A pergunta (1) não é fácil de ser respondida. Não sabemos quem pratica melhor o budismo. Não encontramos nenhuma premissa explícita nesse sentido em nosso caso concreto. Sabemos apenas que José é discreto (sua afiliação espiritual é desconhecida de todos) e Heitor verbalizou e publicou a sua adesão. Sabemos implicitamente que a discrição de José é uma virtude aos olhos do ideal budista, e que a verbosidade pode ser um vício, a publicidade uma ocasião de vaidade e, portanto, de aprisionamento e sofrimento (um eco civil de samsara); mas com a pergunta (1) procurei desvincular qualquer consideração desse tipo.
Se a pergunta fosse:
(2) do ponto de vista de uma das virtudes humanas, a discrição, quem vive melhor o budismo, José ou Heitor?
Creio que a resposta seria fácil. O favorecido seria José. Tanto a verbosidade ou loquacidade quanto a ampla publicidade são prejudiciais ao desenvolvimento espiritual, dirão muitos; e é difícil refutar essa posição em qualquer tradição espiritual. Mesmo o “ateu discreto” (que pode ser, inclusive necessariamente, uma intersecção com o budista) é simpliciter superior, idealmente, ao ateu loquaz. A discrição é religiosamente indiferente, como toda virtude humana.
Na verdade, surpreendentemente a resposta a (2) nos dá uma pista para nossa resposta a (1). As considerações anteriores nos levam a sugerir que a discrição é uma virtude humana fundamental, e que portanto vale para qualquer adesão. Eu creio que isso seja verdade. Mas não pretendo utilizar essa premissa.
Nosso objeto material aqui é, como é fácil perceber, a projeção exterior e discursiva de um ideal de vida. José evita-a a todo custo, enquanto Heitor a exercita em todas as circunstâncias.
Heitor diz: “sou budista”. Como a vinculação foi feita como uma declaração, do ponto de vista da projeção exterior e discursiva, Heitor é ipso facto um budista independentemente de como leva a sua vida. Exteriormente, o budismo se resume a uma declaração. Essa declaração é feita a si mesmo e, em seguida, à sociedade, em todos os compartimentos frequentados pelo declarante. A repetição leva à associação de terceiro a terceiro diante do declarante: “Este é o Heitor, que é budista”. O mesmo passa a acontecer na ausência de Heitor: “ontem conheci um budista chamado Heitor” (projeção transitiva). E Heitor diz a si mesmo, com prazer: “sou budista”, fechando o ciclo como o iniciou, com uma projeção reflexiva.
Essa projeção cria uma imagem independente da ação de Heitor. Como o budismo assume a intenção e a exterioridade apenas material (que essencialmente dispensa a declaração), e não a declaração, essa imagem está em disjunção com o plano da ação. Se estive ontem com Heitor o dia todo e reparei que Heitor não meditou, posso pensar por um momento que Heitor é um budista relapso. Mas de modo algum deixarei de dizer: “Ontem encontrei Heitor, que me falou sobre o dharma” ou “Heitor vendeu-me esse troço bizarro de fazer oração”. Tudo o que reenvia Heitor ao budismo não escapa à esfera da declaração.
O que dizer de José diante do critério da projeção exterior e discursiva? Um conjunto vazio. José nunca me disse que é budista. Isso pode dificultar o meu entendimento sobre as suas ações (vi-o ontem entrando num quarto e saindo apenas depois de quarenta minutos, e não faço ideia do que ele foi fazer), mas a pergunta sobre o budismo de José não se coloca. Eu posso espontaneamente avaliar se José é compassivo, sincero, firme, corajoso, viril, sem qualquer associação com o budismo; posso inclusive dizer que José me lembra a descrição de um bodhisattva que li numa obra do cânone na língua Pali, o sutra Ariyapariyesana, provavelmente o mais antigo dos relatos sobre a iluminação de Sidarta: o de um sábio que atingiu a iluminação. Mas em nenhum momento poderei dizer com certeza que José é budista. Julgo-o apenas pelas suas ações, e não pela sua adscrição a um ideal declarado. José corre todos os riscos — menos o de ser visto como um falso, ou mau budista. Risco que, como vimos, Heitor corre a todo momento.
Mas o maior risco que José evita é o escândalo. Vendo Heitor passar o dia longe da meditação ou, pior, chutando cachorros, gritando, trapaceando no jogo ou cortando a cabeça do Buda, pensarei — mesmo errando — que o budismo é um péssimo estímulo ao bom comportamento. Ou que todo budista é um hipócrita, se conheço apenas Heitor. Se José age dessa forma pouco exemplar, toda a censura se dirigirá a José; o budismo, ou qualquer outro ideal de vida, será salvo do escândalo.
Duas coisas ficam evidentes, pelo caso concreto examinado:
(3) a declaração, que cria a projeção exterior e discursiva, aumenta estrondosamente o risco de escândalo e corrupção social. Tudo que se associa ao budismo, diante do comportamento pouco exemplar de Heitor, ficará contaminado. E se o budismo faz parte das esferas de coesão social, isso é uma catástrofe;
(4) a estratégia de José e de Heitor são incomuns, constituindo dois extremos.
O risco de catástrofe que envolve a via de Heitor, apesar de extrema, indica um comportamento a evitar com todas as forças. O ideal dos ideais, em termos procedimentais, é a opção de José. Embora, caso descontextualizada, essa atitude beire o secretismo, a sua adoção cum grano salis é recomendável por todas as versões da ética de virtudes. É bastante provável que a atitude imprudente de Heitor corresponda a um desestímulo ‘evolutivo’, e que em escala macroscópica o beato esteja sempre destinado a — felizmente — desaparecer. Por isso todo manual de sabedoria, em todas as tradições, contém a recomendação forte, que atua como pressuposto da prudência: “Sê discreto”.
A história parece confirmar essa análise horizontal. Toda sociedade que se tornou pornograficamente hipócrita ou carola* afundou em poucas décadas.
——–
* Uso “carola” em sentido amplo (Caldas Aulete: “Lus.: Fanático, apaixonado por uma ideia, sistema ou religião”). Heitor é um exemplo teórico de carola total ou omnibeato: um indivíduo que vive do seu título de budista, liberal, ateu, defensor dos valores tradicionais, hippie, gay, direitista, ou qualquer ideal de vida que se imagine, corrompendo toda tentativa autêntica do seus pares autônomos de associar algum aspecto positivo, vital, à sua projeção. O carola total surgiu no seio do cristianismo, e é a versão efeminada e kitsch do censor romano. Mas a figura já não é mais monopólio cristão.
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Oscar 2013 – Parte 1
Data do post: 25 de janeiro de 2013
Não é todo ano que a maioria dos filmes indicados ao Oscar podem ser assistidos nos cinemas antes da cerimônia no último domingo de fevereiro. Abaixo, a primeira parte de um guia crítico (em ordem alfabética) com os títulos concorrendo aos principais prêmios. Há tempo suficiente para assisti-los e escolher os favoritos, pois mesmo que um Oscar não seja um símbolo incontestável de qualidade – vide Crash, Melhor Filme em 2005 – sem dúvida alguma que o prêmio abre portas para os vencedores, possibilitando que façam mais e mais filmes.

– Amour/Amor (em cartaz)
5 indicações
Atriz, Filme, Direção, Filme Estrangeiro, Roteiro Original
Vencedor da Palma de Ouro no Festival de Cannes, Amor talvez seja o melhor filme do diretor austríaco Michael Haneke (A Fita Branca, Caché, Violência Gratuita). Comprovando a máxima rodrigueana de que o amor nada tem a ver com felicidade, conta a história de um casal já na faixa dos 80 anos, com filhos e netos criados vivendo suas próprias vidas. Durante o café da manhã, Anne (interpretação da veterana Emmanuelle Riva, de Hiroshima Meu Amor) sofre um derrame. Sua saúde vai se deteriorando ao longo do filme, enquanto seu marido Georges (Jean-Louis Trintignant) permanece ao seu lado, responsável pelas suas necessidades mais básicas até o fim. Sabemos que ela vai morrer – logo na primeira cena, os bombeiros arrombam o apartamento do casal e a encontram morta na cama, cercada de flores – mas faz parte da natureza humana desejar que o inevitável não aconteça e torcer pela sua reabilitação. Pela sinopse, parece que Amor é um dramalhão repleto de demonstrações fajutas de amor e coragem, mas não é assim. Trata-se de uma obra extremamente madura e sincera, que aborda até os piores momentos com elegância e sutileza. Amor concorre na categoria de Roteiro Original, mas parece algo baseado em uma história real. Trata-se de uma história tão familiar que é impossível não traçar paralelos com nossos pais, nossos avós ou, em última instância, nós mesmos. Afinal, quando a beleza e a juventude se vão, o amor assume outras características que muitos de nós sequer desconfiam.

– Argo (em cartaz)
7 indicações
Ator Coadjuvante, Filme, Edição, Trilha Sonora, Edição de Som, Mixagem, Roteiro Adaptado
Depois de Amor, Argo é o que mais merece o Oscar. Trata-se de um filme simples, mas inteligente, inusitado, que consegue a proeza de manter o espectador tenso por todo o tempo sem dispensar o senso de humor. É também sobre Hollywood (sem ser meta-moderninho), sobre como o governo americano deixou o Canadá bancar o herói para proteger o segredo de uma missão de resgate que realmente ocorreu. Tudo sobre Argo é incrível e recompensador. A indicação de Ben Affleck como Melhor Diretor era praticamente certa, mas não aconteceu. Pouco depois dos indicados ao Oscar serem anunciados, Affleck ganhou o Critics Choice Awards de Melhor Diretor e discursou, “Eu gostaria de agradecer à Academia…Brincadeira! Esse é o que conta de verdade!” Melhor resposta possível.
Minha resenha do filme aqui.

– Beasts of the Southern Wild/Indomável Sonhadora (estreia prevista para 22/2)
4 indicações
Atriz, Filme, Direção, Roteiro Adaptado
Um acontecimento raríssimo: a cretinice do título brasileiro – só tias-avós podem gostar de algo chamado “Indomável Sonhadora” – combina com a cretinice do filme em si. Trata-se de uma porcaria mal filmada, com câmera perpetuamente tremida (de propósito, claro, mas um acidente seria muito melhor) situada em um aparente cenário pós-apocalíptico concebido pelo Al Gore. É como a junção de uma Amélie Poulain retardada com Uma Verdade Inconveniente sob efeito de drogas. Só consigo entender o sucesso de crítica de Indomável Sonhadora por causa dos elementos de ambientalismo que o diretor arrasta para a trama pseudo-tocante que é, na verdade, irritante e sem razão de ser. Um filme para aqueles que quando crianças prenderam sacos plásticos nas cabeças, cortaram o oxigênio do cérebro e agora só usam ecobags. Outra coisa: certeza que a menina só foi indicada ao Oscar porque queriam ter na mesma categoria uma atriz de 85 anos (Emmanuelle Riva) e outra de 9 para a mídia toda ir ao delírio.

– Django Unchained/Django Livre (em cartaz)
5 indicações
Ator Coadjuvante, Filme, Fotografia, Edição de Som, Roteiro Original
Em geral, gente que não costuma gostar dos filmes do Tarantino – gente adulta demais para mim – costuma gostar de Bastardos Inglórios, uma obra mais contida nas referências pop e com um contexto histórico (repleto de liberdades poéticas, claro) que serve de desculpa para os mais adultos sentirem prazer com toda a violência. Afinal, uma violência absurda contra nazistas é muito mais fácil de engolir do que uma longa luta de espada com 88 membros mascarados da yakuza. Assim, Bastardos Inglórios passa essa impressão de ser mais maduro, mais sóbrio e não tão fantástico quanto seus outros filmes (com exceção de Jackie Brown). A primeira metade de Django Livre é assim. Tirando a trilha sonora e alguns movimentos de câmera que prestam homenagem aos anos 70, é como um filme dos irmãos Coen; engraçado, com situações e diálogos inusitados, mas também sério, denso. Não há como abordar a escravidão no sul dos Estados Unidos sem alguma seriedade, mas também não há como Tarantino fazer algo sem algum senso de humor – do começo ao meio, tal mistura é digna de mestre, mas também um tanto melancólica: o diretor finalmente cresceu? Com uma explosão insana de violência inacreditável, Tarantino manda a seriedade às favas e volta às características todas que os detratores tanto odeiam, mostrando de forma gloriosa que continua exatamente o mesmo – boa notícia para alguns, má notícia para os outros. Estilo a parte, Django Livre trata de questões raciais como há muito tempo não se fazia; sem medo algum de parecer incorreto, mas também sem forçar discursos sobre igualdade goela abaixo. Melhor do que qualquer coisa que Spike Lee possa fazer.

– Flight/O Voo (estreia prevista para 08/2)
2 indicações
Ator, Roteiro Original
Um filme banal e esquecível de Robert Zemeckis (De Volta Para o Futuro, Contato, Náufrago, etc.) sobre um piloto interpretado por Denzel Washington que consegue aterrizar com sucesso um avião em pane. O acidente que poderia ter sido catastrófico mata apenas seis pessoas. Durante a investigação, porém, descobrem que ele estava sob efeito de álcool e drogas – ele precisa então lidar com o julgamento federal, a opinião pública e o próprio vício. A trama em si tem elementos interessantes, mas tudo mais, da direção à escolha de músicas, é puro clichê de filme dos anos 90. Até a atuação indicada de Denzel (deve ser cota) é risível. Em determinada cena, lutando contra a vontade de beber, ele abre o frigobar do quarto do hotel (ridiculamente cheio de bebidas alcóolicas), lambe os beiços e dá um gole seco – atuação digna do Sr. Madruga de Chaves.

– The Impossible/O Impossível (em cartaz)
1 indicação
Atriz
O Impossível é dirigido por Juan Antonio Bayona, diretor do filme espanhol O Orfanato, terror excelente que não tem absolutamente nada de clichê. Com a capacidade do diretor, estrelas como Naomi Watts e Ewan McGregor, um elenco infantil de talento sem igual, sem falar no orçamento bem mais generoso, era de se esperar que O Impossível fosse magnífico, mas não é. Contém sim imagens poderosas que nos fazem sentir o desespero de um tsunami e a condição gravíssima da personagem de Naomi Watts, mas a trilha sonora constante, composta de violinos chorosos – como se o drama da situação não fosse suficiente – e algumas escolhas estéticas deveriam causar vergonha em qualquer pessoa que tenha visto uma quantia modesta de filmes nos últimos vinte anos. Afinal, estamos em 2013. Chega de câmera rodopiando personagem que procura alguém no meio de uma multidão.
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Música: entre riscos e acertos institucionais
Data do post: 20 de janeiro de 2013
Pausa nos trabalhos doutorais para uma pequena digressão já que a cena clássica iniciou animada não apenas em São Paulo e Rio de Janeiro. Soma-se agora à nomeação (confirmada? Acho que não…) de John Neschling para o Theatro Municipal de São Paulo – auspicioso princípio da gestão cultural do PT na cidade – e Isaac Karabtchevsky para o Theatro Municipal do Rio de Janeiro (no Rio, o Municipal é estadual, e mudanças no meio da gestão me fazem temer tratar-se de marketing). A notícia internacional: em breve a Filarmônica de Berlim também terá troca de comando, anunciada oficialmente a não renovação do contrato de Sir Simon Rattle do posto de diretor artístico até 2018.
No lançamento de um número anterior da Dicta, o então Secretário de estado de Cultura Andrea Matarazzo – agora vereador de São Paulo – perguntou ao maestro Roberto Minczuk qual a fórmula para ter uma orquestra como a Filarmônica de Berlim. Não lembro a resposta do Minczuk mas, para todos os efeitos, um dos motivos aí está. A alteração de quadros de comando da orquestra obedece a critérios comuns à governança de qualquer empresa bem sucedida de grande porte. A inevitabilidade da saída do maestro – já aventada na ocasião da renovação de seu contrato, em 2012 – é feita com total previsibilidade, o que faz com que mesmo tal delicada transição garanta a público e patrocinadores, a um só tempo, a devida sensação de solidez institucional e o respeito a um planejamento de médio-longo prazo.
Não que tenha sido fácil até aqui. A despeito do impacto dos programas comunitários da Filarmônica e o projeto bem sucedido do Digital Music Hall (ideia que não foi dele, importante notar), todos nós fãs de música clássica sabemos que os anos Rattle são controversos. A orquestra segue com o prestígio elevado mas não o mesmo prestígio artístico de finais da década de 90. Anos de programação heterodoxa e eventos popularescos, a despeito do impacto na grande mídia, não fizeram da orquestra melhor – para alguns, a fizeram flagrantemente pior.
Em um país onde a crítica musical é levada a sério – um termômetro para os administradores entenderem o próprio rumo – 2006 já havia trazido uma série de referências públicas nada entusiasmadas com o rumo que a orquestra tomava e o papel de Rattle na ocasião. Já àquela ocasião, a reação do maestro, como bem aponta Lebrecht, foi absolutamente desproporcional à crítica, o que nos deu, a todos estudiosos do assunto, a real dimensão de que Rattle, a despeito de sua aparente frugalidade, era um jogador político hábil e com bons contatos nos setores de comunicação.
Desde antes, sua capacidade embora notável era já questionável. Do ponto de vista artístico, a melhor analogia para entender Rattle em Berlim é ouvi-lo falar alemão – o que deve ser entendido para muito além de questões simbólicas ou nacionalistas. Fala não mais do que razoável.
O leitor há de se perguntar – e daí?
Peguemos um exemplo, o famoso “som” da Filarmônica. Tendo sofrido um pequeno atentado nos anos Abbado, é hoje uma pálida sombra de outras épocas – quando entre outras coisas, reconhecíamos a Filarmônica pelo seu som idiossincrático. A questão é que aquilo que era uma aposta na variedade, por parte de Abbado, é , no mal sentido do termo, uma quimera nos novos tempos da Filarmônica – temo dizer que a disciplina de música contemporânea e experimentos com sonoridades “de época” fizeram da orquestra um Frankenstein tímbrico, não pela experimentação em si, mas pela mítica curiosa na aposta deste som orquestral. Leiamos o próprio Rattle:
So what about the famous Berlin sound? How can that survive? “Ah, but it’s the young foreign players who are fascinated by that sound and want to keep it,” he says. “And somehow the orchestra does keep this extraordinary rich sound, which comes up from the bass and moves in waves, rather than sharp horizontal blocks. They were never able to play a pizzicato together, and still can’t, and they refuse to calculate rhythms, they have to feel them. That’s where they’re so different to, say, the London Symphony Orchestra, which calculates rhythms and as a result has this amazing sharp, whiplash sound. Sometimes I want to tear my hair out and say, ‘Come on, guys, it’s only a triplet, for heaven’s sake!’”
Em nenhum ambiente a propalada e por vezes mal compreendida acusação de irregularidade artística de Rattle se torna mais patente do que na capacidade de comunicar com sua técnica a plasticidade necessária para um som coerente do qual sabemos que a Filarmônica é (ou foi) capaz. Todos sabemos, e foi uma pena Minczuk não ter falado nada a respeito, quando perguntado: não é por força de vontade que se obtém o som de uma orquestra. É fruto de um imbricado processo, apenas alcançado por expertise e cultivo de construção de timbre através da técnica de batuta somado a um complexo jogo de ataques, modos de sustentação do som e sobretudo equilíbrio entre os membros da orquestra – elementos para os quais não basta força de vontade, há que ter a mediação oral dos ensaios, homogeneidade no processo de formação (para isso Karajan criou sua Academia), cultivo de um certo tipo de repertório e, sobretudo, o estímulo a convivência e valorização da experiência dos músicos mais velhos. Todo o receituário que sumiu da Filarmônica nos último onze anos:
But if the players are “feeling” the rhythm from inside, that must make the conductor’s job that much harder? “It does, and I’ve seen very dear colleagues come to grief when they try to use the kind of crisp beat with the Berliners that American orchestras demand. When I go back to the Philadelphia Orchestra, they say, ‘Come on, Simon, just give us a click now and then [meaning a flick from the wrist]’, and I do. Then when I come home I have to unlearn that, because it would confuse the players here.”
In fact, much of what the orchestra plays is a discovery for many of the players. “We played Beethoven’s Fidelio recently, and also Wagner’s Valkyrie, and I discovered many of the players were encountering this absolutely central German repertoire for the first time. You have to remember that this is a young orchestra, with many players still in their twenties, and there are 26 nationalities,” says Rattle. “Germans are still in the majority, but I wonder for how much longer.”
Pois para complicar a situação, desde a entrada de Rattle o cartel de novos músicos apenas aumenta. Dos três spallas da orquestra, apenas Stabrawa teve alguma experiência prévia na posição e é um músico vocacionado para tanto: Braunstein já havia sido uma escolha idiossincrática em 2000 (o israelense, a despeito de seu talento, mostrou recentemente que era “apenas” um solista – acaba de abandonar sua posição para seguir carreira solo e Kashimoto, o outro spalla, tem um percurso ainda mais inacreditável: como jovem solista de renome, foi vencedor de diversos prêmios internacionais e teve sua primeira experiência como músico profissional de orquestra como spalla da Filarmônica de Berlim!
Minha experiência com a Berliner e Rattle já foi de fascínio entusiasmado (um programa Haydn/Lindberg/Schubert em Viena, na tournê de inauguração de sua gestão) e tédio completo (o Concerto de ano novo de 2011, onde ouvi uma seleção de danças sem élan e elegância sofrível – realmente, Rattle não tem qualquer condição de fazer a orquestra suingar). Entregues a um elenco de jovens mais ou menos experientes a próxima administração terá diversos problemas na eleiçao do novo capo, pois Rattle deixa um legado perigoso e ao mesmo tempo estimulante. Sei que se lá estivesse, para a seleção de seu sucessor, me colocaria sem sombra de dúvidas entre os conservadores: considero ser um momento fundamental para a orquestra estreitar laços com Bilder Dirigent. Entre esses há Mariss Jansons, Valery Gergiev e Christian Thielemann – este último com chances reais, um sujeito que tem tudo menos carisma. Seu relacionamento no circuito financeiro alemão é ótimo e por hora – estando a Alemanha dando as cartas na economia europeia, me parece uma aposta mais do que razoável.
Embora uma escolha óbvia, o bolão de apostas tem 80 por cento das fichas, no entanto, na figura de Gustavo Dudamel, que tem carisma de sobra, mas muito pouca coisa além; a despeito de sua técnica gestual acachapante, Dudamel não só não tem o devido conhecimento de repertório (seu posto em Los Angeles não o permite sequer ter a palavra final sobre as decisões artísticas) quanto conhecimento técnico para promover o amadurecimento artístico dos tantos jovens da orquestra. O cargo requer mais do que tudo preparo e responsabilidade artística, o que não é algo que deixemos para os senhores do marketing.
Com todos suas vitórias e fracassos, Sir Simon Rattle terá estado a frente da instituição por 18 anos. Mais do que tudo sua impetuosidade deixará saudades. A meu ver a coisa mais extraordinária que fez foi a montagem da Paixão Segundo São Mateus de Bach dirigida por Peter Sellars. Austera, bela e pungente, a montagem entra para a história como um marco e nas nossas vidas emocionais como algo inesquecível. Rattle mostra com ela que por vezes o risco vale mais do que qualquer acerto institucional – pois quando o risco se faz arte, deixa não só ao publico mas à própria ideia de cultura eventos memoráveis.
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Ironia e fundamentalismo
Pode ser proveitosa a leitura do artigo de Christy Wampole, “How to Live Without Irony“, que associa os hipsters à cultura da ironia, e clama por um mundo mais sério. Mesmo que seja para jogar pedra.
Falar de hipsterismo é como tratar de temas escatológicos ou de Teologia Moral em público, mesmo que seja para demonstrar repugnância (confesso que nada me repugna mais do que os maneirismos que cercam a cultura hipster). Há coisas sobre as quais não se fala. Recentemente, o escritor Fabrice Hadjadj declarou que não pretende, jamais, falar da sua conversão, ciente de que se trata de um assunto infamante. Será excessivo senso do ridículo, concessão ao laicismo ou simples discrição? Estou seguro de que se trata de mera discrição. O fato é que a menção a uma moda fadada ao desaparecimento macula a respeitabilidade de qualquer artigo, e por isso manteremos os hipsters no seu lugar conveniente: a insignificância. Mesmo assim, vale a pena discutir a raiz disso tudo.
A ironia não é um defeito, e nem uma virtude pessoal, mas uma camada de civilização, um modus operandi mais ou menos superficial. Uma sociedade fundamentalista, em oposição à irônica, é monolítica, direta e pessoal. Não é possível avaliar o grau de perigo que a ironia oferece. É um fato cultural, um pretexto, e não uma opção. É possível ser sincero numa cultura irônica, e é possível ser cínico numa cultura de sinceridade aparente, como a antiga. (Observe, por exemplo, os modos de Cálicles e Protágoras nos diálogos fictícios de Platão.) Dado que valores humanos reais — como o respeito ao sono e ao silêncio e a repulsa ao homicídio — são mesmo reais, não desaparecem sob os modos cambiantes da cultura. Um burguês confortável que sofre um acidente, sofre-o como um aborígene: com dor física, choque e sangue momentâneos, lembrança e tristeza posteriores. A realidade, como observou Wampole, iguala convictos e descrentes.
Nossa cultura não é apenas irônica em seu discurso. Fatos irônicos ocorrem o tempo todo: ateus exemplares se desesperam, budistas dão exemplo de simplicidade; agnósticos triunfam na alegria e protestantes sofrem de depressão profunda. Crentes célebres, como Chesterton, diziam que ateus são infelizes porque não têm a quem agradecer quando recebem algo de bom. Mas nunca vimos um só descrente reclamar que não tivesse um ente metafísico a quem agradecer. Nessa ânsia por autojustificação — Chesterton tinha consciência de ser um rhētor inteligente e sofisticado –, o inimigo cultural ou filosófico é sempre desqualificado como um infeliz (o que chamei alhures de ‘projeção dogmática sobre a realidade’), apesar dos fortes indícios empíricos em contrário. O outro lado também é pródigo em desqualificar cristãos sob a mesma alegação de infelicidade dogmática.
Mas mesmo camadas profundas de cultura são incapazes de alterar a realidade do nascimento, do crescimento e da morte, que atinge os bons, os maus e os claudicantes da mesma forma. Todos lembrar-se-ão da chuva eclesiástica a cair igualmente sobre eles. A vantagem de uma formação religiosa de tipo forte, nos termos de Charles Taylor, é que ela nos permite comprovar na carne que Deus é incapaz de necessariamente alterar um só centímetro do caráter e da vida de um homem. Quem o nega, nunca acompanhou as manifestações de um católico oficial (um troll) em um grupo de discussão. Nossos anti-irônicos mais sérios, os mais convictos soldados do bem, costumam exceder-se em perversidade.
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A ironia atingiu proporções monstruosas porque nós, mais do que nunca, acreditamos nas camadas culturais que nos envolvem e lhes conferimos o status de realidade inalterável. Acreditamos na ironia e no estar à deriva. Sempre acreditamos em algo.
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Parte do fascínio exercido pela ética é a imprevisibilidade do bem. Ele é encontrado apenas no que não se identifica explicitamente com ele (o que na tradição clássica é chamado, de modo patético, de ’força do exemplo’). O estudo do fenômeno moral demonstra, a todo momento, a incapacidade da pregação ex cathedra ou do púlpito de reformar o espírito humano. No momento em que se mostra e se exibe, mesmo sob a capa da discrição, como flecha dirigida ao Sumo Bem, toda boa intenção eficaz desaparece. Eis o mistério da moral: exaltamos o bem na mesma proporção em que fracassamos no esforço por perpetuá-lo.
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