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Paris em NY

Filed under: Arquitetura,História incluído por Thiago Blumenthal
Data do post: 20 de fevereiro de 2014

Paris é um seminário, um curso de pós-graduação em tudo, afirmou o cartunista americano James Thurber em 1918, quando trabalhou para a Embaixada dos EUA na França. E é a cidade-luz, e em especial o momento que a transformou em patrimônio mundial histórico (1840 a 1930), que ganha uma exposição no Metropolitan Museum of Art.

Em três postagens, já são duas falando sobre o maior museu de Nova York, mas é difícil não falar dele, devido à quantidade de boas exposições que está abrigando neste momento – e, claro, ao fato de eu visitá-lo quase diariamente, como distração espiritual e também para aproveitar esses destaques.

Acompanhamos pela lente do fotógrafo Charles Marville (1813-79) as profundas mudanças de Paris na segunda metade do século 19. Quase como em um canteiro de obras, em um espaço desolado que parte era implodido e parte reconstruído à revelia de uma população que não sabia bem o que acontecia, Marville era o fotógrafo oficial de Napoleão III e do Barão Haussmann e, rua a rua, em mais de 425 imagens (sendo que 100 estão expostas no Met), registrou a megalomania que arruinaria as pequenas e intrincadas travessas parisienses em grandes bulevares.

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Marville, que iniciou a carreira como ilustrador, logo adaptou-se à lógica urbanista e progressista de Haussmann e seus próprios autorretratos revelam um certo estado de espírito que se quebrou: do jovem sonhador no começo da carreira a, mais ao fim, uma postura burocrática, em espelho a uma aristocracia sonhada, depois de ter realizado centenas de trabalhos ao governo da cidade. Muitas das fotos mais revelam um estudo arquitetônico e urbanístico do que uma composição estética: são fotos despachadas em escritórios que serviam de base para a reconstrução da cidade.

As “passages” e a presença de um ou outro personagem na foto (às vezes o próprio Marville) criam o imaginário visual perfeito para o flâneur desencontrado, imortalizado na imagem do albatroz no poema de Baudelaire e nos textos teóricos de Walter Benjamin. Curioso imaginar que esses personagens perdidos nas imagens não são obra do acaso ou do repente fotográfico: o registro de uma imagem na câmera levava minutos. O flâneur ali estava ensaiado, em pose. Não há melhor contraponto nem melhor ironia do que a pose para o errante da Paris de então.

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Mais do que estético, as fotos de Marville têm um valor histórico. A possibilidade de acompanhar as transformações de uma cidade com uma arquitetura e um projeto urbano labirínticos e mal planejados, feito para perder-se, em um espaço organizado em vastas e longas avenidas e bulevares que, chamem de homicídio arquitetônico ou não, fez a fama de Paris e alterou a percepção ocidental do que e de como é morar em uma metrópole.

A exposição “Charles Marville: Photographer of Paris” e a instalação paralela “Paris as Muse: Photography, 1840s-1930s” ficam no Met até 4 de maio.

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Grant Snider, confissões de um viciado em livros

Filed under: Do lado de lá,Literatura incluído por Thiago Blumenthal
Data do post: 18 de fevereiro de 2014

Tem 28 anos o responsável pelas tirinhas do Incidental Comics. Terminando sua residência em ortodentia na cidade de Aurora, Colorado, neste mês de fevereiro, Grant Snider volta com sua família a seu estado natal, Kansas, onde cuidará dos dentes e dos aparelhos dos cidadãos de Wichita. Aparelhos, quadrinhos e literatura parecem definir, apesar do estranhamento na conjunção desses três assuntos, a vida de Snider.

Em entrevista à Dicta & Contradicta, o artista conta que desenha desde os quatro anos de idade. “Eu e meu irmão gêmeo brincávamos de desenhar cenas épicas com vulcões, dinossauros e asteroides. Tempos depois, fãs de futebol americano, já desenhávamos nossos próprios jogos de cartas com os melhores times e jogadores.” Snider reitera que não é preciso ter pais artistas para desenvolver esse lado criativo, mas que o fato de seus pais terem estimulado que ele e seu irmão brincassem de construir e fazer coisas por conta própria ajudou. Faz piada com isso: “Quando criança, eu fazia coisas bem mais úteis do que desenhar quadrinhos: era jardinagem, cozinha, carpintaria etc”.

O Incidental Comics começou antes da plataforma online que hoje recebe visitas diárias do mundo todo e que se espalha por compartilhamento pelas redes sociais. Snider mandou emails para todos os editores do jornal Kansas City Star, onde então ganhou uma tira semanal. Foi em 2010, com a tirinha “Confessions of a Book Friend” recebendo destaque no blog Drawn (a partir de seu envio pelo link “Submissions”) que a internet passou a conhecer o trabalho de Snider. Da noite para o dia, a média de 50 visitas diárias do Incidental Comics cresceu astronomicamente, com visitantes de todo o mundo. E assim é até hoje, com planos de transformar esse material (e conteúdo inédito) em livro.

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“Confessions of a Book Friend” [clique aqui para ver maior] representa bastante a temática dos desenhos de Snider. Livros e a nossa relação com eles e com as narrativas que eles nos apresentam. As histórias possíveis e impossíveis que transformam a nossa realidade. Embora afirme que não tem um assunto preferido, o autor revela que se inspira muito “na maneira como a literatura é uma janela para um mundo mais amplo de ideias. Às vezes leio algo num livro e penso em desenhar sobre isso; outras vezes penso em algum tópico e vou atrás de referências.”

O formato das tiras, condensado em um número limitado de painéis, possibilita bastante esse desdobramento até de assuntos mais técnicos da literatura, como “ferramentas literárias” ou “movimentos literários”, pois consegue trabalhar com cada quadro de forma organizada, quase esquemática. E mesmo quando trabalha temas mais complexos ou pesados, Snider diz que jamais deixa de usar a lente do humor para tratar deles.

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[clique aqui para ver a imagem maior]

Seus autores favoritos são Haruki Murakami, Stephen King, J.D. Salinger e Kelly Link, que Snider afirma terem inspirado direta ou indiretamente muitas de suas tiras. Quanto a cartunistas, Bill Watterson (Calvin & Hobbes), Saul Steinberg e Matt Groening (Simpsons) são os primeiros nomes que lhe vêm à mente. J.J Sempé e Maira Kalman revelam um lado de Snider comum a um grupo de artistas: a adoração por tudo o que é aprovado pela revista New Yorker. Salinger, afirmam seus biógrafos, fez disto uma razão para escrever: ou conseguia publicar algo na New Yorker ou sua carreira nada valia.

Snider pondera sobre a dificuldade, mesmo para um cartunista com a repercussão do Incidental Comics, que é publicar em veículos impressos. Apesar de já ter desenhado para o New York Times, a New York Review of Books e outros grandes veículos, lamenta, de certo modo, o peso das novas mídias e quando se foca nela: fica-se conhecido, mas consegue-se muito pouco trabalho. Que venham muitas crianças cheias de aparelhos na boca então, assim pensou Snider, que tem tudo para ser o ortodentista mais famoso e mais procurado de Wichita.

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[clique aqui para ver a imagem maior]

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Special pleading

Filed under: Geral,Religião,Sociedade incluído por Julio Lemos
Data do post: 17 de fevereiro de 2014

No dia 30 de setembro de 2005, um cartoon de múltipla autoria com caricatura de Maomé foi publicado no jornal dinamarquês Jyllands-Posten. Seguiu-se uma monstruosa controvérsia: embora o jornal tenha alegado que os quadrinhos apenas colocavam em pauta uma crítica à intolerância, grupos muçulmanos reagiram imediatamente. Seguiram-se protestos e boicote.

O Primeiro Ministro dinamarquês ficou traumatizado com o incidente e não deve dormir bem até hoje.

Críticas à intolerância dos muçulmanos vieram também de cristãos. Todavia, no mesmo ano, em novembro de 2005, surgiu Jesus and Mo, criada por Mohammed Jones (pseudônimo), que satiriza ambas as grandes religiões monoteístas — mostrando que a faca corta dos dois lados. Vale a marca registrada da apologética: dois pesos e duas medidas. No fim das contas, a pretensão de defender a própria verdade e ameaçar os recalcitrantes com o inferno não é monopólio oriental. (Veja essa vigorosa sátira da Templeton Foundation, organização que dá prêmios a investigadores de “Grandes Questões”.)

Recentemente, um pessoal usando camisetas do Jesus and Mo foi censurado na London School of Economics, no Reino Unido, e a polêmica seguiu seu curso natural. Aparentemente, ainda há muito o que debater.

* * *

A propósito do teísmo, duas respostas breves, mas dignas às estranhíssimas declarações dadas por Alvin Plantinga nessa entrevista: aqui e aqui. Até meu amigo Bijan Parsia fez alguns comentários.

O renomado filósofo analítico parece já ter aposentado o cérebro.

 

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Dog Songs, Rat Songs

Filed under: Do lado de lá,Literatura incluído por Thiago Blumenthal
Data do post: 13 de fevereiro de 2014

(1)
Mais tempestade de neve neste que é um dos invernos mais frios dos últimos anos em Nova York. Até sexta-feira de noite, especialmente em Manhattan e mais ao norte da cidade, as ruas devem ficar tomadas com aquela mistura de neve com água da chuva que torna tudo tão mais feio e escorregadio. De acordo com a meteorologia, e de acordo com minhas expectativas, a sensação térmica começa a melhorar a partir do fim de semana, com as máximas chegando ou se aproximando dos positivos.

(2)
Enquanto esperava dar o horário de encontrar um casal de amigos para jantar no Chelsea anteontem, passei o tempo na Barnes & Noble da Union Square. Peguei o livro Dog Songs, de Mary Oliver, e sentei-me no chão, junto de algumas crianças que estavam perto da seção infantil da livraria, para folhear a obra. Os poemas, bastante simples em sua estrutura, alguns deles ilustrados, me emocionaram e me fizeram lembrar do meu cachorro em São Paulo.

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Lembrei-me também de uma frase muito boa sobre cachorros de um texto de 2004 intitulado “Man Blames Dog”: Pity the poor dog. In this time of heightened fear – of drugs, of bombs, of the things we humans might do to one another – man increasingly asks so much of him.

Por fim, me recordei também de uma das melhores descrições que já li sobre um cachorro e do processo de percepção do mundo a seu redor. É do Bruno Schulz e está no livro Lojas de Canela. Transcrevo abaixo.

O cachorrinho era de veludo quente e palpitante com um pequeno e apressado coração. Tinha duas macias pétalas de orelha, olhos azulados e turvos, um focinho rosado, em que se podia colocar o dedo sem nenhum perigo, patinhas delicadas e inocentes com uma comovente verruga cor-de-rosa em cima e detrás das patas dianteiras. Com elas entrava na tigela de leite, guloso e impaciente, sorvendo o líquido com a língua rosada; saciada a fome, levantava tristemente o focinho com um pingo de leite no queixo e retirava-se, todo desajeitado, desse banho lácteo.

[...]

Late, mas a significação desse latido mudou, ele se tornou despercebidamente sua própria paródia — desejava exprimir, no fundo, o sucesso inominável dessa extraordinária empresa da vida, cheia de coisas picantes, frêmitos e desfechos inesperados.

Tudo muito bonito, Bruno Schulz, mas ao passo que eu me lembrava de tudo isso, e com um livro que não era deste autor em mãos, me viro para o lado e o que encontro? Um camundongo, minúsculo e simpático, tal qual Fievel em sua jornada por sobrevivência, me encarando, quase de pezinho, no chão acarpetado de uma das maiores livrarias da cidade. No meu primeiro e menor movimento para sacar o celular e registrar aquela imagem, ele parte correndo, na mesma “extraordinária empresa da vida, cheia de coisas picantes, frêmitos e desfechos inesperados”.

(3)
Li no New York Times de ontem uma história curiosa sobre Shirley Temple, que morreu esses dias. Em 1938, aos 10 anos de idade, a queridinha da América foi convidada a um piquenique na mansão do presidente Franklin Roosevelt, em Hyde Park, NY. Além de ter se recusado a nadar com Eleanor (“meu cabelo não pode molhar”, disse a menina), causou comoção entre os agentes responsáveis pela segurança do casal mais importante dos EUA. Tudo porque ela deu uma estilingada no traseiro da primeira-dama enquanto esta se curvava para fritar hambúrgueres na churrasqueira. O jornal faz uma importante observação: “Justin Bieber did not invent the role of the misbehaving young superstar”.


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Ásia no Metropolitan

Filed under: Artes plásticas,Do lado de lá,Geral incluído por Thiago Blumenthal
Data do post: 11 de fevereiro de 2014

O Metropolitan Museum of Art, além do acervo permanente, está com algumas boas exposições que merecem a visita. Ontem passei brevemente por lá e visitei duas delas: “The Flowering of Edo Period Painting”, que reúne uma das maiores coleções do período japonês entre 1615 e 1868 fora do Japão, e “Buddhist Traditions and Transformations”, com peças dos séculos 11 e 12, um dos momentos mais conturbados para a cultura tibetana, religiosa e politicamente. As obras refletem bem a influência das regiões vizinhas, que terminaram por modelar e ampliar a cultura budista a um novo vocabulário tanto em termos de forma como de texto.

Destaco aqui, da exposição japonesa, “Tigre”, de Tawaraya Sotatsu. Aparentemente simples à primeira vista, com traços soltos, o animal se torna complexo quando percebemos que cada pelo ali foi pintado de maneira minuciosa individualmente. São milhares de pelos. Diferentemente do tom colorido das outras mais de noventa peças expostas, a imagem do tigre aqui (provavelmente de 1630-40) se basta com as leves pinceladas para as listras da fera, tudo monocromático. O tigre não é um animal nativo do Japão e talvez essa técnica revele o distanciamento do artista, que preferiu retratá-lo com comedimento. (para ver a imagem maior, clique aqui)

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Visitar o Metropolitan e flanar por ele sem compromisso é uma das melhores coisas em dias frios como os que fazem em Nova York. Encontrar algumas exposições como estas só recompensam ainda mais a visita. Aliás, um episódio engraçado: nas pequenas salas dedicadas à exibição das obras budistas, encontrei uma senhora em posição de lótus meditando em frente a uma das figuras de Buda. Um silêncio tomava o local, ela sozinha ali e eu até senti que estava invadindo um ambiente particular. Aos fins de semana, o museu fica muito cheio, mas a maior parte das pessoas se espalha nas seções maiores e de maior destaque. Espaços como os que cito, em galerias pouco visitadas, são um verdadeiro refúgio de contemplação.


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Referências

Filed under: Ciência,Educação,Filosofia,Matemática,Psicologia incluído por Julio Lemos
Data do post: 15 de janeiro de 2014

Vivir con lucidez una vida sencilla, callada, discreta, entre libros inteligentes.
–Nicolás Gomes Dávila

 

Duas notinhas aparentemente inocentes no popular(esco) Psychology Today:

- The Trouble with Smart Girls;

- Want to get Smarter? Read something from this list.

A primeira lida com a seguinte perplexidade: concedemos, as moças são mais espertas; mas por que os rapazes é que se destacam, especialmente em empreitadas intelectuais? A resposta de H. V. Halvorson é bastante convincente.

A outra trata do problema da educação: nosso depósito de conhecimentos, especialmente em matemática e ciências naturais, expande-se rapidamente, mas uma maioria devastadora vive de costas para ele. Uma educação capaz de suprir essa lacuna foi chamada de ‘odisséica’. “An Odyssean curriculum — escreveu Dominic Cummings — would give students and politicians some mathematical foundations and a map to navigate such subjects without requiring a deep specialist understanding of each element.”

Numa época em que uma parte considerável da classe universitária contenta-se com divulgação científica da pior espécie (ou, pior, limita-se a vagas ‘preocupações sociais’) e uma outra parcela pretende suprir a lacuna com estudos estritamente humanísticos (ou, pior, com curiosidades do passado, como o Trivium ou o esoterismo); nessa situação, a questão da educação volta à ordem do dia.

A lista é longa, e não faz concessões à facilidade. Um episódio contado no StackOverflow ilustra, todavia, até onde podemos chegar com essa atitude:

When I started my post-graduate studies, and expressed some concern that I had not taken all the basic courses for the subject, my professor said: “It doesn’t matter what you did before, as long as it was hard.”

* * *

Aos interessados em filosofia: a College Publications lançou uma série em português editada por Newton da Costa; a series of books in Portuguese dealing with philosophy of logic, philosophical logic and history of logic. Three types of books are published: translations of classical works with introduction by specialists, textbooks for undergraduate students and graduate students, research monographs.


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Nada para além das montanhas

Filed under: Cinema incluído por Julio Lemos
Data do post: 12 de janeiro de 2014

deus absconditus, deus nullus deus, deus nisi deus
Mr. Bungle

A safra de filmes de 2013 pode não ter sido excelente. Mas se investigamos os “fins de mundo” do cinema, não raro encontramos surpresas.

Um deles é o filme romeno Além das montanhas (Dupa ealuri, 2012 / 2013 no Brasil), dirigido por Christian Mungiu. O diretor romeno assinou um filme premiado em 2007, 4 luni, 3 saptamâni si 2 zile, que conta a história de uma moça que resolve praticar um aborto — crime punido com a morte na Romênia comunista. Mungiu dirige com extrema competência e austeridade, e merece ser observado de perto.

Além das montanhas é um filme sutil e misterioso. Representa o presente da história de Alina, uma jovem de 25 anos que, tendo saído de um orfanato em que vivia com sua melhor amiga Voichita e imigrado para a Alemanha, reencontra esta última na Romênia anos depois. Apesar dos votos de fidelidade entre as duas no tempo em que estavam no orfanato, Voichita abandona o saeculum e entra para um convento cristão ortodoxo. O reencontro é emocionado — logo se percebe que não eram apenas ‘amigas’ no orfanato –, e Voichita acolhe Alina consigo no convento, até que possam fazer uma viagem juntas. O padre (tecnicamente um monge) que dirige o convento acaba permitindo que Alina fique por lá um tempo, mas não aconselha a viagem das duas. A situação é um pouco constrangedora: sabemos que Alina está ali apenas para ficar com sua antiga amiga e amante, mas esta agora a trocou por… Deus. Alina começa revelar uma extrema angústia. Não se sabe de que mal padece. Voichita acredita que uma boa confissão a pode salvar; e então lhe passam o clássico guia ortodoxo com os quatrocentos e tantos pecados mais comuns (que são ‘ticados’ em uma lista: check, check, check…), e Alina vai ao padre. A angústia, no entanto, não cessa; ela volta ao comportamento agressivo. Está fora de si. Levam-na a um hospital e ela então volta, após receber alta, e é novamente recebida no convento após as súplicas de Voichita ao padre: “não podemos abandoná-la! a quem ela irá?” Depois da calmaria, volta novamente a tempestade. Todas começam a pensar em possessão demoníaca. Para que Alina não se machuque, rezam, rezam muito; sem sucesso, prendem-na a uma tábua e o padre obtém permissão do irmão de Alina para um ritual menor de exorcismo (a “leitura” e o ofício divino).

 

Voichita (Cosmina Stratan) e Alina (Cristina Flutur)

A direção de Christian Mungiu permanece austera. As tomadas firmes, discretas, sem movimentos ou aproximações, dão naturalidade à trama e às decisões dos personagens. O padre — visto como homem santo e prudente — age de modo desapaixonado e ordena às irmãs que rezem e jejuem pela moça aflita. Afinal, é para o bem de sua alma. O coração de Voichita se despedaça; quando se aproxima de Alina, esta é tomada por espasmos e grita, amordaçada. E acorrentada.

Paro com a história por aqui. Adianto que há um paralelo interessante entre esse filme e O Exorcismo de Emily Rose. Mas aqui o horror e o simples medo do sobrenatural dão lugar a uma reflexão madura, implacável, sobre a responsabilidade moral.

A meu ver, o filme consegue, como poucos, mostrar como as ações sinceras das pessoas mudam radicalmente quando muda o contexto. O contraste entre o fanatismo sincero de Voichita — a censura de Alina a ela: “Você consegue dizer uma só frase sem que Deus lhe assome aos lábios? Não consegue se comportar como uma pessoa normal?” — e o realismo da médica que atende Alina ao final revelam mundos completamente diferentes. “Não rezem por mim — diz a médica –; prefiro queimar no inferno a ser vítima das maldições dessas freiras.”

Cai o véu da fé e do atavismo ortodoxo. O mundo volta ser o que era: o mundo dos homens, no qual não há justificativa capaz de afastar a responsabilidade por um crime. Nem sequer a sinceridade.

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O discreto charme dos Castevets

Filed under: Cinema,Geral,Religião incluído por Thiago Blumenthal
Data do post: 5 de novembro de 2013

Lucifer, son of the morning, I’m gonna chase you out of Earth.

Na segunda metade do século 19, o renomado historiador francês Jules Michelet detalhou toda a história da prática da magia negra na Europa, a partir do que ele considera um momento de descontrole e desespero na Idade Média. De seu livro, La Sorcière, lemos que

“le délicat bijou du Diable, la petite sorcière conçue de la Messe Noire où la grande a disparu, elle est venue, ella a fleuri, en malice, en grâce de chat. Fine et oblique d’allure, surnoise, filant doucettement [sic], faisant volontiers le gros dos. Rien de titanique. Celle qui naît avec ce secret dans le sang, cette science instinctive du mal, elle ne respectera rien, ni chose ni personne en ce monde”.

Satã, deste modo, se apresenta na sutileza e na fineza. No entanto, apesar de não haver nada de “titânico” em sua aparição, a feiticeira que conclama o mal não respeita nada nem ninguém.

Parece-me a descrição mais adequada para Minnie Castevet. Figura berrante no filme Bebê de Rosemary, de Roman Polanski, Minnie transita entre os corredores secretos do Bramford feito uma gazela agitada e cheia de planos diabólicos, porém com o que eu chamo de reconstrução estética do discreto charme da burguesia, em uma Manhattan, em 1968, consumida pelo poder e em que o pessimismo e a paranoia já foram cristalizados e sugados pela psicanálise das grandes metrópoles.

*

A década de 1960 ficou marcada pela igreja de Anton LaVey, talvez o satanista moderno mais popular do mundo até hoje. Autor da Bíblia Satânica, referência obrigatória para qualquer interessado no assunto, LaVey fundou, em 1966, a Church of Satan em uma casinha modesta em San Francisco. Era o auge do que podemos chamar de satanismo ateísta, no sentido que não apresenta nenhum dogma ligado à adoração de Satã como divindade. Antes, prega um materialismo absoluto e o individualismo, usando a imagem satânica apenas como símbolo. Desde 2001, seu QG foi transferido para Hell’s Kitchen, em Nova York.

 

 

Nos últimos 50 anos, Manhattan, bem longe da ensolarada Califórnia, fervilhou de centros satânicos de diversas vertentes, entre teístas e não teístas. Além da sede da Church of Satan, encontramos lá grupos luciferianistas, como o Temple of Set e a Church of Azazel, das maiores no país. Diferentemente da ideologia proposta por LaVey, esses grupos acreditam em Satã e o veneram em forma de rituais que vão de hinos de louvor (em inglês e latim), missas negras, técnicas de meditação e magia.

Não faltam detalhes sinistros à cidade. Por exemplo, a capela religiosa da sede da ONU em Nova York, da Lucis Trust, que foi fundada por Foster e Alice Bailey como “Lucifer Trust”, na década de 1920. Embora a igreja negue hoje qualquer status ligado ao satanismo, reiteram que “a queda do anjo não representa uma desgraça ou pecado, mas antes um ato de sacrifício extremo, tal qual sugerido pela palavra Lúcifer” (sic), conforme lemos em seu site oficial.

Já o Dakota, um dos edifícios mais elegantes de Nova York e cuja fachada foi usada para representar o Bramford do romance original de Ira Levin, reserva boa parte de sua fama a suas histórias trágicas. Localizado no Upper West Side de Manhattan (aliás, exatamente oposto ao local da sede da ONU, que fica no East Side), o prédio, apesar de seu estilo vitoriano tardio, guarda semelhanças também com a típica arquitetura paladiana, por seus balaústres, pilares e tímpanos que passam o ar de um palazzo no meio da metrópole, um símbolo de poder.

*

É no Dakota (Bramford, ficcionalmente, como quis Ira Levin) que os Castevets moram. A abertura do filme primeiro mostra um panorama de Nova York, do então mais industrial Brooklyn a Manhattan, chegando ao Central Park e enfim o Dakota, enquanto Mia Farrow (que interpreta Rosemary) canta uma música tenebrosa apenas com la-la-la. Leva um tempo até sermos apresentados propriamente a eles e os minutos iniciais servem para ambientarmo-nos ao casal recém-chegado ao prédio, com muitos planos e ambições.

O que temos é uma sequência de detalhes que anunciam a presença do mal. Desde o olhar de Diego, o ascensorista ao fechar a porta do elevador, até a cartinha que Rosemary encontra no apartamento, ainda com os móveis da antiga moradora. São inúmeros os detalhes, alguns mais explícitos, outros mais simbólicos. As sutilezas que evocam o mal, não a força titânica.

 

diego

 

Minnie e Roman são primeiro ouvidos antes de serem vistos. De seu quarto, Guy e Rosemary acompanham o estranho ritual que ocorre no apartamento vizinho – um grupo de pessoas canta um estranho hino do outro lado. Pouco antes disso, é Terry Gionoffrio que conta a Rosemary sobre os Castevets – ela foi “resgatada” por eles de uma vida marcada por drogas e na rua.

É pela morte mais explícita que conhecemos de fato os Castevets – até este momento, nos 15 minutos iniciais do filme, só temos o breve anúncio da tragédia e do horror. Terry se jogou da janela do sétimo andar e Minnie e Roman chegam pouco depois do ocorrido. A câmera acompanha a sua chegada por trás de um policial, o que denota certo de efeito de aproximação do espectador.

 

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Enquanto Roman se veste mais discretamente, Minnie é extravagante desde o princípio, das vestimentas à maneira como age e fala. Quando o guarda lhes informa do suicídio de Terry, ela reage impetuosamente com um “Não é possível, houve um engano” enquanto Roman mantém o controle e pondera que esse tipo de situação já era de certo modo esperado por ele – Terry não tinha solução. Somente quando Minnie atravessa todo o grupo de pessoas e de policiais na frente do Bramford é que ela se dá conta que é de fato a moça, com o rosto todo estourado e ainda com o pingente, que lhe havia sido ofertado para boa sorte pelos Castevets, preso ao pescoço. Neste momento, os dois casais travam contato pela primeira vez, quando Rosemary, que também havia chegado há pouco ao prédio, comenta do irmão de Terry. Já não havia mais volta para o mal.

Roman é o oposto de Minnie. Ele é delicado, inteligente – viajou para todos os lugares, “you name the place and I’ve been there” – e no momento mais aterrador do filme, ele convence Guy do pacto com Satã silenciosamente: a sua imagem fica fora do plano, coberta por uma parede, envolto em fumaça de cigarro, enquanto Guy ouve resoluto com que tipo de gente está lidando – e aceita o trato. Aliás, fica evidente como Minnie representa essa espécie de discreto charme da burguesia, adentrando o apartamento de Rosemary e perguntando pelo preço dos móveis, enquanto Roman se interessa por questões mais profundas: não quer saber o preço de suas posses, mas antes o preço de suas almas.

 

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A indiscrição de Minnie em oposição à elegância de Roman continua por todo o filme, da maneira como ela força Rosemary a beber suas “vitaminas” às reações exageradas quando sujam o carpete de sua sala. Funcionando quase como um alívio cômico à história (com a notável interferência da amiga infantiloide Laura-Louise), a figura de Minnie é traçada como se fosse uma enorme caricatura do mal que se traveste apenas de impertinente e quase inofensiva. Roman é a real e aterrorizante personificação de Satã; Minnie é a prova de que o mal também se esconde no cotidiano mais superficial e até mais mesquinho de nossos tiques.

*

Paranoia, sexo, sonhos e humor são fundidos na relação entre as duas mulheres do fime: Rosemary e Minnie. A sutileza de Roman jamais faria Rosemary entrar em profundo estado de paranoia como vemos na história – é Minnie, com suas insistências, suas cores, seus gritos, suas visitas diárias, que transtorna Rosemary. A cópula com Satã, que se revela em flashs de forma animalesca, se mistura com as imagens de seus sonhos, em um misto de horrorosa realidade em potencial com um longo pesadelo que Rosemary terá de enfrentar durante os próximos meses de gestação.

As imagens oníricas do acasalemento com Satã apresentam o horror em sua forma mais extrema: um barco sem direção no meio do mar e um grupo de satanistas prontos para celebrar o ritual. No entanto, paranoia e sonho são quebrados com o diálogo entre Guy e Minnie. Ela garante a ele que Rosemary não vai sentir nem ver nada, desde que ela tenha comido a mousse de chocolate preparada naquela noite (e sabemos que ela não comeu). Há uma ruptura na tensão, que gera um humor involuntário: Minnie Castevet está ali, nua, discutindo com Guy se ela comeu ou não comeu a mousse.

Este tipo de humor, centrado nas personagens de Minnie e Laura-Louise, determina a faceta mais maldosa do culto a Satã – celebrado com glória na cena final, quando Laura-Louise balança o berço do herdeiro da escuridão com violência. Recriminada, mostra a língua a Rosemary, que passa, daquele momento em diante a afeiçoar-se ao bebê, diante do choque do espectador que fica atônito diante da ternura do instante diabólico.

 


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Não culpem o Patriarcado!

Filed under: Psicologia,Sociedade incluído por Joel Pinheiro
Data do post: 24 de setembro de 2013

São muito bem boladas as campanhas de conscientização feminista que colocam homens, e não mulheres, em posições sensuais. Fazem ver a bizarrice nas cenas de exposição da beleza feminina com as quais estamos acostumados e nem notamos. Dão a revelação momentânea de que no futuro parecerão tão estranhas quanto são para nós as convenções estéticas de tempos passados ou de outras culturas.

Para além do exercício imaginativo, há sempre um mote ideológico nessas campanhas, e é sempre o mesmo: são nossos preconceitos de gênero, socialmente construídos, que mantêm a ilusão de que a superexposição da beleza feminina é normal. Gibis, propagandas, revistas masculinas; produtos de uma cultura que inventou, por algum motivo sórdido, que a mulher é um objeto sexual, e que a reduz a isso. Aí já me parece que vão longe demais e fingem ignorar o óbvio: os sexos se comportam, e valorizam no outro, coisas diferentes.

Para o homem, a aparência da mulher é um valor primordial e inescapável. Sem esse componente, o resto não existe (para a maioria dos casos, claro; não venham aqui me contestar dizendo “casei com a mulher mais feia do mundo e para mim não foi problema nenhum!” – em geral, beleza importa muito para os homens). “O amor é o desejo de alcançar a amizade de uma pessoa que nos atrai pela beleza”, já dizia Cícero, ecoando o sentimento masculino. Sendo assim, um jeito muito fácil de chamar a atenção masculina, e que não demanda a retórica de um Cícero, é capitalizar na beleza e na sensualidade da mulher. Mostre as curvas, e eles olharão.

Já a mulher não é um animal tão visual. Revista pornográfica? Não interessa; quem compra foto de homem pelado é o público gay masculino. Striptease para mulheres é uma grande brincadeira; para homens, coisa séria. O que não quer dizer que mulher não tenha interesse sexual. Estudos revelam o que a intuição já sabia: o interesse da mulher tem muito mais a ver com a aura poder que o homem transmite – e que pode ter muitas e fluidas causas, variando de um ambiente para outro – do que com a beleza “objetiva”, descontextualizada, dele. Um homem feio, num contexto em que ele seja dominante, passa a ser atraente.

Sendo assim, numa sociedade em que homens fossem objetificados pelo olhar feminino, agindo sob a pressão constante de atraí-lo, seria de se esperar que eles, ao invés de passar maquiagem, gastassem seus recursos e preciosa energia mental para serem (ou parecerem) mais dominantes, mais cool, mais ricos. E, vejam só, é exatamente o que já fazem.

No mercado sexual, homens e mulheres são objetos; só que objetificados de maneiras diferentes. Uma delas (a feminina, visual) é mais evidente, mas não menos real que a outra (a masculina, do status). Homens e mulheres estão igualmente submetidos à lógica da mútua atração, adotando as estratégias que melhor funcionam para ser bem-sucedidos. Sabendo disso, marqueteiros e produtores do entretenimento que querem atrair o público feminino agem de acordo: 50 Tons de Cinza não cativou a mulherada por causa da aparência física do protagonista. Foi o poder, a riqueza, a superioridade aristocrática, tudo envolto numa aura de mistério, que girou a chavinha interna das leitoras. As mesmas coisas que encantam no vampiro de Crepúsculo, em Don Draper, em Marlon Brando, Frank Sinatra, Rudolph Valentino ou – só pra chutar o balde – Aquiles; ok, pode ser o do Brad Pitt. O appeal masculino vem mais da atitude do que da beleza; o da mulher, mais da beleza do que da atitude. Para o potencial atrativo dela, o pior é ser feia; para ele, parecer inseguro.

A estranheza da inversão de uma convenção social não indica necessariamente o caráter arbitrário de todas as convenções. Antes, pode indicar que a convenção real existe por um motivo, e esse motivo está tão arraigado em quem nós somos que ver o contrário dela é como olhar para uma civilização alienígena. Se a objetificação sexual não é algo que uma classe inflige sobre outra, mas uma prática que decorre da interação entre os sexos, fica mais natural pensar nela como algo… natural.

O que não quer dizer que as coisas devam ser assim. Ao ver uma dinâmica de origem possivelmente biológica nas convenções humanas, não estou fazendo o elogio dela (tampouco a estou criticando!). Afirmo, se tanto, que é talvez impossível que ela deixe de existir por completo; sempre seremos animais. Dito isso, há culturas mais e menos bem-sucedidas em conter ou canalizar as pulsões animais de seus integrantes.

Equacionar fatos e valores seria uma falácia. Mas quem quiser concretizar algum valor neste mundo, que conheça os fatos! Muitas das acusações a uma ordem social e cultural injusta, supostamente mantida pelo interesse masculino – e portanto fruto de escolhas deliberadas – talvez sejam, na verdade, revolta contra dados naturais da nossa espécie.


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Reflexões sobre uma jornada

Filed under: Religião,Sociedade incluído por Renato Moraes
Data do post: 4 de agosto de 2013

Estar no Rio de Janeiro durante a última semana foi uma experiência – desculpem o chavão – inesquecível. Nunca vi a cidade tão alegre. É algo diferente do carnaval – pelo qual, por sinal, não nutro nenhuma simpatia – ou do ano novo; é muito mais forte, profundo, inspirador. Não é uma festa pelo nada, simplesmente para extrapolar e buscar uma diversão. Pairava no ar um sentido espiritual, a busca por algo maior. Transcendente, vá lá. Que seria mais fácil de encontrar e tocar com a ajuda de outras pessoas, que haviam vindo ao Rio pelo mesmo motivo.

imagem papa

O ambiente nas ruas era festivo. Gente de tudo quanto é lugar, com as cores, formas e línguas as mais diversas. Ao mesmo tempo, elementos que as uniam: um conjunto de convicções, a fraternidade que deve haver entre os cristãos – que às vezes está tão sumida… –, valores, e o amor a Deus e à Igreja.

Pois é, não dá para tratar da JMJ sem reconhecer que esses milhões de jovens, que representam uma parte minúscula dos fiéis do mundo, amam essa entidade misteriosa e inexplicável – para os que não acreditam nela – chamada Igreja Católica. Por isso seguem com alegria e afeto ao Bispo de Roma, sucessor daquele Pedro que um dia foi feito o chefe de um grupo de doze Apóstolos.

É impressionante o carisma, a simpatia e a incisividade do Papa Francisco. Mas não tenho dúvidas de que tudo isso é potenciado, e muito, pelo cargo que ocupa. Não sei se existe outro no mundo – acho que não – que permanece há dois mil anos, passando por todas as vicissitudes da história. E esse cargo – não a pessoa que o ocupa, que pode ou não ser santa – tem sobre si uma promessa espantosa: “o que ligares na terra será ligado no céu, e o que desligares na terra será desligado no céu”. Não é brincadeira.

As homilias e discursos do Papa foram marcantes. Na Via Sacra, ao tratar da cruz e colocar aos jovens a opção entre ser Pilatos, covarde e que deixa matar Jesus, ou Simão Cireneu, que ajuda Jesus, era notório como todos ficaram tocados.

Durante a vigília do sábado, a lembrança de que a oração, os sacramentos e a caridade são os caminhos para mudar a si mesmo e o mundo foi animadora. Mais poderoso ainda foi o tempo de adoração ao Santíssimo Sacramento: milhões de pessoas em silêncio – em silêncio mesmo, dava para ouvir o mar – diante do que aparenta ser pão, mas que é o próprio Jesus Cristo, materialmente presente e próximo de nós. Não havia como não se emocionar, por poder participar de uma cerimônia presidida pelo Papa, em um local tão bonito, com tanta gente, diante da Eucaristia.

A Missa de domingo foi um belo fecho. Um dia de clima bonito, depois de chuvas e, para padrões cariocas, um frio glacial (uns 17 graus). A liturgia rezada com respeito. Passei pelos bares da orla – cheguei um pouco tarde – e as pessoas se acotovelavam diante das telas de televisão, totalmente absorvidas. Não havia conversas nem ninguém comendo ou bebendo, todo mundo voltado para a Missa. O mesmo acontecia na praia, como regra praticamente universal.

Há muita gente que vai escrever sobre esses dias, com mais competência e inteligência do que eu. Mesmo assim, quero dizer algumas coisas que me vêm martelando nesses dias. Primeiro, a força da Igreja. Chega dessa ladainha medíocre que ela cometeu não sei quais crimes, que os padres não prestam, que o Vaticano tem penico de ouro, que os cardeais fizeram um churrasco de Galileu e sei lá mais o quê. Houve falhas clamorosas de gente da Igreja na história. Santo Agostinho dizia que as melhores pessoas que ele conheceu pertenciam à Igreja Católica, e as piores também. Bom, não tenho muita certeza dessa citação, mas acho que ela é verdadeira. Conforme o adágio latino, corruptio optimi, pessima! OK. Mas estamos falando de uma coisa ótima.

Se juntarmos todos os crimes cometidos por cristãos – os verdadeiros crimes, não os que professores sectários ou ignorantes inventam – e colocarmos ao lado do bem que essa instituição trouxe, falando em uma dimensão meramente humana, o desequilíbrio é gritante. O saldo é incomensuravelmente positivo. Quanto gente heroica, generosa, preocupada com o próximo, gentil, decente. Que é assim porque acredita, por um catequista lhe ter ensinado, por ter podido contar com a ajuda de um sacerdote, por rezar, reconhecer seus defeitos e pecados e recomeçar.

A força da Igreja está diretamente relacionada à sua unidade. A qual está fundada no Bispo de Roma. Nenhuma outra religião encontrará tantos fiéis espalhados por todo o mundo, todos unidos e governados por uma mesma estrutura, participando dos mesmos sacramentos e compartilhando uma fé comum. Uma prima minha era católica e se tornou evangélica; agora, o marido dela brigou com o pastor, e isso deu origem a uma dissensão, que quer fundar uma nova igreja. Com todo respeito, aonde isso vai chegar? Pode ser essa a Igreja de Cristo?

Outro ponto ligado à unidade são os sacramentos. Eles estruturam o povo fiel. Pois bem, apenas a Igreja Católica e as ortodoxas os mantêm na sua maior parte. Em especial a Eucaristia, que é o principal. E a confissão, sinal de humildade do pecador, de bondade de Deus e esperança para todos. A Jornada carioca teve um esteio importante nos sacramentos, que são uma linguagem universal. Mais ainda, trazem Deus para tão perto de nós, que outras confissões não podem aceitar que isso seja possível. No entanto, está tudo na Sagrada Escritura, na Tradição, na vida dos cristãos desde o século I.

Há a preocupação com a diminuição da porcentagem dos católicos no Brasil. Bastante razoável. Contudo, não podemos ser superficiais sobre esse problema. Muitos dos que saíram, já não estavam. Eram católicos meramente nominais. É uma pena que não foram ajudados, recuperados e alimentados, e caíram muitas vezes nas mãos de gente aproveitadora. Representa uma falha clara da Igreja, à qual o Papa se referiu em seu discurso, forte, aos bispos da América Latina.

Mas a fé não é uma questão de números. Os países do norte da Europa são em uma porcentagem extraordinariamente alta formada por batizados e, oficialmente, pertencentes a uma religião. Só que a imensa maioria não acredita em nada. Mais do que se preocupar pelo número de católicos, se está caindo ou não, é importante zelar pela qualidade da vida e da fé dos que estão nas igrejas, e podem espalhar a doutrina aos que não a receberam ou perderam.

Conheci há uns anos um sacerdote simples, sem qualquer atrativo humano especial, que trabalhou alguns anos na favela da Maré, aqui no Rio. Ele me disse que, quando chegou à paróquia, ela estava às traças, com um punhado de católicos no meio de um mar de evangélicos. Com um trabalho normal, mas sacrificado, fez o que se espera de qualquer padre: celebrou bem a Missa, sentou-se para atender confissões, visitou doentes, rezou o terço com os fiéis… Resultado: em dois anos, a paróquia dele transbordava. Sem exagero.

A força da doutrina, da liturgia e da tradição católica é espantosa. Fico hoje boquiaberto com frequência, mesmo a conhecendo desde que nasci, vendo o quanto há para aprofundar e aprender. No doutorado de filosofia, tenho lido Nietzsche, Kant, Hegel, Descartes, Heidegger e tutti quanti. Pois bem, a leitura desses autores me reforçou que a cosmovisão católica, dentro da qual cabem várias linhas filosóficas, apesar de São Tomás de Aquino ser o Doctor Communis, é a melhor resposta que existe. Como reconheceu Edith Stein, discípula de Husserl e posteriormente canonizada, ao ler a autobiografia de Santa Teresa: “aqui está a verdade!”

Os católicos não podemos ser triunfalistas nem soberbos. Ao mesmo tempo, devemos valorizar o que recebemos, muitas vezes sem mérito nosso. Nasci em uma família que sempre deu o exemplo de uma vida cristã e reta. Sei que hoje isso é cada vez menos comum. Por isso mesmo, não posso depreciar o que recebi, ter vergonha ou me impressionar com as críticas que se fazem à Igreja. Ao contrário, devo amá-la mais, conhecê-la, aproximá-la dos outros.

O Papa Francisco representa a salvação da Igreja? Ele seria o primeiro a não admitir uma colocação dessas. Primeiro, porque a Igreja nunca esteve quebrada. Melhor, dizem que ela está faz dois mil anos, mas não parece um diagnóstico muito certeiro… Segundo, Francisco não é um contraponto a Bento XVI. Tanto que aproveitou o que este último deixou para escrever sua primeira encíclica – sobre a qual vale a pena tratar outro dia –, e trata seu antecessor com enorme respeito. Sabe que temos muito que agradecer ao papa que era Ratzinger. Terceiro, Deus sempre nos surpreenderá através da Igreja. Como fez ao escolher um argentino em quem quase ninguém apostava, e nem figurava entre os 40 nomes mais prováveis, segundo a redação do Osservatore Romano. Quando parecer que existem grandes problemas, o dono da Igreja escolherá e aplicará o melhor remédio, que são muitas vezes totalmente distintos dos esperados e profetizados. Antes, precisávamos de Bento; agora, é Francisco; amanhã haverá um diferente, como ontem existiram outros, e Deus guiará e preservará essa sua Filha, que segue por aí, levando tapas de quem não a entende, mas amada por milhões, como esses jovens que trouxeram ao Rio sua alegria neste final de julho.


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