Curso – Afinal, quem faz os filmes?
Data do post: 14 de abril de 2011
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Tropa de Elite – Lançamento Dicta No. 6
Data do post: 15 de fevereiro de 2011
Outro dia estava olhando as estatísticas deste site e um dos dados que mais me animaram (e a todos no IFE) foi constatar que mais de 75% das visitas que ele recebe são de fora da cidade de São Paulo. Bairrismo nunca foi nosso refúgio e é por isso que desta vez fizemos questão de gravar nosso lançamento. A primeira parte está aí em cima, a playlist completa aqui.
Espero que gostem!
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A literatura do trauma
Data do post: 4 de fevereiro de 2011
W.H. Auden dizia que qualquer ser humano precisava de um trauma. Segundo ele, o trauma era uma espécie de cicatriz, de vácuo, que a vida deixava preencher e só então a pessoa podia levá-la a sério, justamente porque o sujeito tinha de encontrar algum sentido.
O trauma é o leitmotiv obsessivo que estrutura dois belos romances da literatura brasileira atual: Perácio – Relato Psicótico (Leya), de Bráulio Mantovani, e Minha mãe se matou sem dizer adeus (Record), de Evandro Affonso Ferreira.
Ambos os livros giram em torno desta cicatriz e criam seus respectivos sistemas literários que, por sua vez, se destroem de maneira instigante, especialmente para quem ainda acha que a literatura deste país vai mal das pernas. Neste caso, Mantovani e Evandro vão na contramão de tudo o que está aí.
Em primeiro lugar porque não falam de favelados e outros problemas sociais; e em segundo, mesmo que os próprios autores se afirmem céticos no aspecto metáfísico-existencial, estão abertos a esta realidade invisível e conseguem traduzi-la em metáforas e símbolos que provam que talvez exista algo que está lá – e do qual não sabemos.
No romance de Evandro, o trauma está explícito, logo no título: a mãe do narrador se matou sem dizer adeus. O personagem principal é nada mais nada menos do que a sua própria consciência, uma torrente de palavras controladas com precisão cirúrgica (exceto por um ou outro hífen entre as palavras, que trava a fluência da leitura, mas que também pode ser interpretado como uma paródia a lá Heidegger) e que inverte toda a tradição literária do flaneur flaubertiano. Se o peregrino precisa caminhar para mostrar as suas impressões sobre a desgraça da vida, aqui o flaneur não anda: é um velho de oitenta anos, sentado em uma “mesa-mirante” de uma confeitaria de shopping center, observando os vizinhos do bairro de Higienópolis e que, subitamente, afirma que sabe que irá morrer e que não concluirá a sua obra literária.
Já na estrutura intrincada elaborada por Manovani para o seu Perácio, o trauma deve ser decifrado pelo próprio leitor conforme o romance se desdobra em sonhos, alucinações e diversos focos narrativos. A linguagem labiríntica, de um coloquialismo insano, também ajuda na investigação policial interior que o romance quer provocar em quem o lê. O personagem-título é alguém que literalmente contagia quem se aproxima dele; da mesma forma que Cervantes fez com o Quixote, o Perácio de Mantovani é um louco sobre o qual, sabe-se lá porque, todos ficam fascinados e, conforme a progressão da loucura se acumula junto com a progressão dramática do próprio livro, cada personagem passa a ter uma característica peraciana, entre elas a de querer medir o caos e a de não saber mais o que é a realidade e o que é o sonho.
Minha mãe se matou sem dizer adeus também parte do mesmo princípio de tensão dramática – entre o que é real e o que não é – mas opta pela solução já defendida por Vargas Llosa sobre a fascinação que a verdade das mentiras provoca em nossas vidas: a de que a ficção é uma forma de suplantar a desgraça que é a condição humana. Para o narrador de Evandro, ele sabe que vai morrer porque fez um pacto com a própria morte. O motivo? Terminar sua obra nunca concluída. Se conseguirá, isso é algo que se mantém em suspense por todo o livro. O drama do personagem surge do modo como a tensão é acumulada em pequenos detalhes que se transformam em historiazinhas que ficam umas dentro das outras: a dos judeus que brincam com a proximidade do fim, a da garçonete ruiva, a da mulher que se apaixona por esta última e vai se matar por amor, a da amiga-filósofa que também teve uma mãe suicida (mas esta disse adeus) – uma sequência que, se o autor quisesse, poderia se estender para um infitito etc. Contudo, não é esta a sua intenção. Chega um momento que a morte não admite negociação. E então o leitor percebe que o narrador não está a usar de um joguinho literário ao afirmar que pressente que irá morrer. Não, ele sabe que morrerá porque isto já é um fato – e é só uma questão de instantes.
O Perácio de Mantovani é um morto-vivo – e quem se aproximar dele ganhará estas mesmas propriedades, por assim dizer. É um infeliz e tanto: tem sonhos, alucinações – aliás, cenas em que Mantovani mostra uma inventividade ímpar e que prova que ele é muito mais do que o roteirista de Cidade de Deus e Tropa de Elite, como querem impor alguns resenhistas de meia-tigela – e um sentimento de tristeza que permeia cada uma de suas escolhas. Aqui, a paranóia não é apenas uma forma de ver o mundo; é também uma forma de fugir da realidade – e isto não tem nada de fascinante ou de bonito. Mantovani deixa claro a sua posição moral a respeito deste joguinho literário: isso não vai – e não pode – terminar bem. Entretanto, ele jamais impõe ao leitor a sua visão; apenas a mostra e exibe, em detalhes repletos de anagramas e inside jokes, a investigação que o próprio leitor deve fazer para descobrir qual é o trauma de Perácio.
E talvez aí se encontre o único obstáculo para uma leitura verdadeiramente emocional do romance. Mantovani é tão engenhoso em seu estilo, tão ambicioso em suas intenções e, ao mesmo tempo, tão cheio de panache ao não querer se levar a sério, que quando descobrimos o trauma de Perácio, ele está encoberto em camadas e mais camadas de ambigüidade – e ficamos sem saber se devemos ou não nos sentir tocados por aquilo. Sem dúvida, o trauma de Perácio é de fazer qualquer um chorar – e obviamente não contaremos aqui para não estragarmos a sua surpresa. Mas onde está a emoção? Como posso ficar simpático a um personagem que não sei se existe de verdade? Afinal, ele pode ser a invenção de CFD, o primeiro narrador da história, ou de Bráulio Mantoan, il diavolo, alter-ego do autor e que, parece, resolveu seguir o caminho de morto-vivo de Perácio. São perguntas que o leitor fica na cabeça ao terminar o romance – e que nos impede de entrar de cabeça na suspension of disbelief que Mantovani estruturou com tanto carinho.
Isso não acontece com Evandro Affonso Ferreira. Depois de quatro romances publicados, repletos de trocadilhos lingüisticos que disfarçavam a emoção de suas tramas, Evandro atingiu uma espécie de sensibilidade comovente em Minha mãe se matou sem dizer adeus. É a sensibilidade do escritor que reconhece suas limitações estéticas e formais e, através de muito malabarismo literário, consegue transformá-las em uma forma literária específica e única. Nós acompanhamos cada detalhe da consciência do velho de oitenta anos e, surpresa das surpresas, o que parecia ser apenas uma esterilidade esteticista, transforma-se em uma meditação de memento mori. Dessa forma, as dez páginas finais do romance é a prova de que um cético pode escrever sobre uma epifania que, como tudo nesta vida, também será rompida como um trauma. Contudo, trata-se de uma outra espécie de trauma: a da realidade invisível que invade a nossa e não admite novos acordos. Nada pode salvá-lo: nem a literatura e talvez nem a Santa Teresa D´Ávila que o narrador imagina estar personificada na garçonete ruiva vulgar e que acende o coração de esposas insatisfeitas. É neste “talvez” que Evandro se equilibra; se ele vai cair ou não da corda bamba, só o próximo livro irá dizer.
O mesmo pode ser dito de Bráulio Mantovani. Mesmo com o distanciamento emocional provocado pela descoberta do trauma peraciano, seu primeiro romance mostra que se trata de um escritor que sabe e domina o que faz. Se Evandro Affonso Ferreira conseguiu encarar os seus demônios somente depois de quatro livros, talvez Mantovani precise do mesmo tempo para que o leitor – e ele mesmo – consiga enfrentar até o fim as sombras que só o trauma pode nos dar, seja como benção ou como maldição. O que importa é que são dois autores que levam a literatura e a vida a sério. E no nosso Brasil brasileiro, em que as coisas são vistas como uma farsa de mau gosto, isto é uma vitória que nenhum trauma pode nos arrancar.
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Lançamento Dicta 06 – PREVIEW
Data do post: 12 de dezembro de 2010
O nosso lançamento foi na última terça e até agora ninguém veio aqui contar como foi. Somos obviamente suspeitos para falar, mas desconfio de que quase todo mundo gostou do que viu. Tivemos uma boa conversa, com um público espetacular e convidados de primeira.
O vídeo do lançamento está em processo de edição, mas espero colocá-lo aqui antes do Natal. Enquanto a brincadeira completa não chega, vocês podem matar a curiosidade no site da VejaSP. Eles cobriram o evento e já colocaram uma amostra no ar. É só entrar aqui (são 11 trechos ao todo).
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É hoje o grande dia
Data do post: 6 de dezembro de 2010

E não vão achando que isso é tudo. Aqui sempre guardamos uma surpresa para o final. Quem for hoje ao Teatro Eva Herz saberá do que estou falando. A conversa será para gente grande!
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O filme que não houve
Data do post: 30 de novembro de 2010
Dia desses encontrei-me com o Bráulio Mantovani para conversar sobre a Dicta. Como na semana que vem estaremos juntos para o lançamento, estava ficando chato não o conhecer pessoalmente. Mas este blog não virou (ainda!?) um site de fofocas e só contei a história para dar o devido crédito por uma grande dica:
A revista Esquire publicou em seu site um especial com The 7 Greatest Stories in the History of Esquire Magazine… in Full. Pareceram-me sensacionais… diversão garantida para depois do lançamento. (Quer dizer, vocês terão outra coisa para ler a partir da próxima terça. Por isso, por favor, leiam as reportagens antes!)
Duas delas têm relação direta com a Dicta 06. A reportagem eleita como “a maior” já publicada pela revista, Frank Sinatra Has a Cold, é citada pelo nosso correspondente aéreo e pode servir como uma boa dica do que quase esperar de nosso encontro com Mario Vargas Llosa. A segunda – que foi a dica de Mantovani – é sobre o massacre na escola de Beslan. A reportagem The School seria a base de um dos vários roteiros que ele começou a escrever mas naufragou pelo caminho. É um texto muito impressionante e por ele só podemos imaginar o grande filme que perdemos…
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Lançamento Dicta&Contradicta No. 6
Data do post: 24 de novembro de 2010

Aí está! Esperamos todos vocês (paulistanos ou viajantes, por que não?!) na Livraria Cultura. Será uma chance única de ter uma conversa franca com os criadores do maior personagem do cinema brasileiro até hoje. Porque aqui “missão dada é missão cumprida, parceiro”!
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As entranhas do sistema, ou: o desabamento do Capitão Nascimento
Data do post: 10 de outubro de 2010

1. Sem dúvida, Tropa de Elite 2 é melhor que o primeiro. Evitou-se deliberadamente o aspecto catártico do anterior. É uma continuação anti-climática. O capitão (agora coronel) Nascimento não se torna um Rambo brasileiro e resolve fazer justiça com as próprias mãos. Sim, ele espanca o Secretário de Segurança, mas eu faria a mesma coisa no lugar dele; de resto, ele age dentro da legalidade, quando faz a sua denúncia na assembléia. Outra coisa interessante foi como resolveram o chamado “impasse ideológico” do primeiro filme - não havia impasse nenhum, mas a crítica tinha visto alhos e bugalhos, seja do lado da esquerda como a de uma direita que nunca existiu neste país. Nesta visão tacanha que os realizadores souberam subverter de maneira admirável, Nascimento representaria a visão de “direita” enquanto Fraga representaria a da “esquerda”. Contudo, a tensão entre os dois personagens não é social ou política, mas sim pessoal – ambos têm a mesma mulher como objeto de desejo e ambos gostam do filho de um deles. Isso provoca, em especial no ato final, a reviravolta “ideológica”, em que Nascimento e Fraga têm de se unir não porque são de pólos opostos de um mesmo problema político, mas sim porque há um problema pessoal – a vida do filho – que os fazem esquecer as diferenças ideológicas e buscarem um denominador comum para o bem geral da sociedade. Ou seja, o filme não é de direita, nem de esquerda: é sobre dois pais que vêem o filho se tornando vítima da guerra do “sistema”.
2. O que impressiona no filme é a direção de José Padilha. Tem ritmo, não se perde nas diferentes histórias que se cruzam, sabe filmar como macho; desta vez, dá espaço para a reflexão (o que faltava no filme anterior, que caía na ação pela ação), sem deixar que a exposição dos personagens através da ação se perca em um emaranhado de informações pouco claras. O grande exemplo é a sequencia inicial da rebelião em Bangu, filmado com precisão de mestre, ouso dizer (e olha que eu digo isso de poucos, em especial diretores brasileiros, como todos sabem).
3. Não podemos esquecer de Wagner Moura. O olhar dele no momento da assembléia diz tudo; é o homem que perdeu todas as batalhas, mas não a sua dignidade. (Aliás, esquecem de dizer que Nascimento pode ser um homem truculento, mas sobretudo é um sujeito honesto e com uma noção profunda de uma consciência moral.)
4. O roteiro de Bráulio Mantovani e do próprio Padilha é muito bom, com uma carpintaria rara de se encontrar na dramaturgia visual brasileira; há pelo menos umas três cenas de diálogos – a conversa de Nascimento com Mathias na prisão militar, a conversa de Rosane com Fraga enquanto discutem a prisão do filho e a conversa de Nascimento com seu filho enquanto lutam judô – que são aulas sobre diálogos que dizem mais no silêncio do que as palavras em si. A elegância de como o espectador descobre os dados dos personagens é formidável; os detalhes da camiseta do Human Rights Aid e como sabemos que Fraga se tornou o marido de Rosane são engenhosos. Outra coisa que marca é como a visão do “sistema” é inspirada em The Wire, a fantástica série de David Simon; o tema do indivíduo x instituição é abordado como uma tragédia grega, em que Nascimento se mostra impotente e, por isso mesmo, em um desabamento moral que desmistifica a figura icônica do primeiro Tropa.
5. Fica aqui meu repúdio à crítica de cinema ao analisar o filme; alegaram que ele seria niilista; acho que é duro, sombrio, mas não tem nada de niilista; afinal, em um filme que só mostra podridão, um pai ver o filho abrindo os olhos e saindo do coma é algo deveras esperançoso, não acha, meu caro leitor?
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