Dicta na Flip 5 – Considerações finais: Por uma Flip menos ordinária
Data do post: 13 de julho de 2011

Por Fabio S. Cardoso
Na quinta-feira, o cineasta e escritor Claude Lanzmann já tinha “mostrado os dentes” na coletiva de imprensa. Antes de começar o encontro, ele, solenemente, perguntou aos jornalistas: “Quem aqui leu meu livro?” Apenas um levantou a mão, ao que o convidado mais polêmico desta nona edição da Flip replicou, em tom de provocação: “Pois só responderei perguntas dele!”. No dia seguinte, durante a mesa “A ética da representação”, o autor de “A lebre da Patagonia” não poupou o mediador, o professor Marcio Selligmann-Silva, não apenas rejeitando algumas perguntas sobre o filme “Shoah” (“vim aqui para falar do meu livro”); como também disparando abertamente contra o fato de Selligmann não perguntar com objetividade. Para piorar, o mediador, sempre que atacado, tentava reagir olimpicamente, batendo palmas para o “gênio indomável” que é Lanzmann.
Toda essa história ganharia nota de pé de página, ou mesmo seria esquecida, não fosse a declaração do curador Manuel da Costa Pinto sobre Lanzmann. Embora esgarçado pela pós-modernidade, o termo “nazista” ainda causa forte repercussão – sobretudo em tempos de correção política. É por esse motivo que, no pós-Flip, o comentário saudoso deu lugar para as especulações sobre o futuro de Manuel da Costa Pinto como curador do evento. E o que seria uma Flip bastante ordinária, tornou-se extraordinária pelos motivos errados. Em tempo: é curioso notar que, no ano em que o homenageado foi um frasista e polemista de grande verve, o evento tenha terminado com uma declaração tão bombástica quanto os petardos verbais de Oswald de Andrade.
De qualquer modo, muito embora o nome do próximo homenageado já tenha sido escolhido (Carlos Drummond de Andrade), alguns desafios se impõem à próxima Flip. A começar pela origem de todos os males desta edição: o papel de mediador. Em um país de bacharéis e doutores tão preparados nas humanidades, era de se esperar que não haveria problema em encontrar gente para ladear nomes como Claude Lanzmann e Antônio Cândido, para citar dois casos exemplares. De fato, não há por que duvidar do talento e da seriedade do trabalho de José Miguel Wisnik e do já citado Marcio Selligmann-Silva. Todavia, ambos falaram mais do que se esperava, e a discussão se tornou por demais enfadonha aos que estavam presentes (aqui, é preciso dizer que o jornalista do Financial Times, Angel Gurria-Quintana, soube conduzir com talento e seriedade suas mesas, assim como Rodrigo Lacerda quando esteve ao lado de João Ubaldo Ribeiro).
Outro dilema correlato se relaciona às mesas: de um lado, existe uma tentativa de dar um viés mais acadêmico e letrado às homenagens – como é o caso de Marcia Camargos e Gonzalo Aguiar, sem mencionar o já citado Antônio Cândido. Acontece que o público parece ficar descolado de boa parte dessas leituras seja porque a análise é por demais específica, seja porque o perfil da audiência está mais próxima do leitor comum, não necessariamente o leitor que compareceria a uma conferência ou a uma reunião de um grupo de estudos. Por outro lado, também é correto afirmar que mesas como a de David Byrne, por mais interessante que seja, parece pertencer à outra dinâmica de discussão – não cabe, essencialmente, num encontro sobre literatura, cujo homenageado é um modernista brasileiro.
Além disso, depois de nove edições, quais serão os próximos convidados? Em outras palavras, quem ainda não veio até aqui, como é o caso dos sempre desejados Philip Roth ou Cormac McCarthy, é recusa quase certa para os próximos anos (não dão entrevistas porque odiam fazer parte do belle monde literário). A saída: talvez seja preciso reciclar alguns nomes, de maneira a conceber sob outra perspectiva os encontros e os debates. Mas quem? Por parte dos escritores brasileiros, trata-se de algo que já aconteceu: Chico Buarque foi convidado em duas ocasiões, o que nem de longe desagradou ao público – e a geração que surge nas estantes mais descoladas não parece ter o peso da qualidade ou do risco que, por exemplo, um João Ubaldo ousou criar. A pergunta é: Será que isto faz bem à Flip?
A questão é importante exatamente porque, depois das considerações acima, alguém pode imaginar que esta foi uma Flip ruim. Nada disso. Foi, para o bem e para o mal, ordinária. Houve aplauso, riso, lágrimas e, no final, até um pouco de raiva. Como se viu nas mesas de João Ubaldo Ribeiro e James Ellroy (as duas grandes apostas que deram certo na FLIP 2011), escritores com uma obra portentosa, o que o público espera é uma Festa menos previsível e ordinária. Nós, os críticos, que, como bem disse Sergio Rodrigues, temos o dever de usarmos um léxico mais amplo para defender nossos colegas e expressar nossas indignações, esperamos outra: que ela continue sem recorrer às banalidades do vocabulário midiático ou do rancor.
Fabio S. Cardoso é jornalista e professor universitário.
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Dicta na Flip 4 – Quem tem medo de James Ellroy?
Data do post: 10 de julho de 2011
Por Fabio S. Cardoso
Sob o ponto de vista mais “tradicionalista”, soa como heresia o convite a um autor de História em Quadrinhos para uma Festa Literária. Todavia, como a certa altura respondeu Joe Sacco, depois de Art Spiegelman, existe mesmo alguma deferência com relação a esse tipo de produção, a ponto de Joe Sacco ser recebido com honras de escritor e discutir, entre outras coisas, sobre a questão da objetividade jornalística, além de tecer crítica à cobertura da mídia norte-americana. Segundo Joe Sacco, os relatos dos jornais não privilegiam os personagens comuns. “Interesso-me pelos civis, que são sub-representados pelas narrativas em geral”, explicou, para depois acrescentar: “me interesso pelas histórias das pessoas”. Nesse sentido, o autor justificou seu método de ambientação, tomando como referência tanto os relatos de Hunter S. Thompson quanto os textos de George Orwell.
Ao longo da exposição de 20 minutos, bem como durante o período reservado às perguntas do mediador, o jornalista Alexandre Agabiti Fernandez, Joe Sacco não foi incomodado por nenhuma questão difícil e polêmica, logo ele, um autor que, a um só tempo, subverteu os padrões da narrativa jornalística e escreveu a propósito de um conflito geopolítico tomando como referência o lado palestino. Em “Notas em Gaza” e “Palestina”, o leitor tem em mãos um diferente tipo de relato jornalístico. Mas coube ao público a pergunta de um milhão de dólares: “Que tal fazer uma narrativa sobre o conflito tomando o lado de Israel como referência?”. O quadrinista reconheceu: “É uma proposta honesta, mas, quando decidi escrever esses livros, não havia a perspectiva do lado da Palestina nos relatos”. Em seguida, salientou o quanto sua preocupação com a elaboração do conteúdo que vai publicar difere do relato feito no calor da hora, mais imediato. Para além disso, o derradeiro ponto interessante da participação de Joe Sacco foi sua resposta no que concerne a ideia de objetividade. Ele foi taxativo: “Eu não questiono a verdade objetiva, mas questiono a obsessão com a verdade objetiva”.
Curiosamente, na mesa seguinte, que contou com as presenças de Edney Silvestre, Teixeira Coelho e Marcelo Ferroni, a questão da verdade objetiva apareceu novamente. Começou com a leitura de Teixeira Coelho da epígrafe de seu livro, “O Homem que vive”, que contrapõe os princípios de real e ilusão: “Você é minha realidade. Eu sou sua miragem”, escreveu Paul Celan citado na epígrafe. Segundo Coelho, aqui está uma pista, uma chave para o livro. Em sua apresentação, o jornalista e escritor Edney Silvestre leu um trecho de seu novo romance – “A felicidade é fácil” –, que tem como pano de fundo o período histórico do governo Collor, mas toma como mote, como no anterior “Se eu fechasse os olhos agora”, um crime não resolvido – a verdade que não é revelada. Por seu turno, Marcelo Ferroni, após ler trecho de seu “Manual Prático de Guerrilha” (espécie de biografia ficcional do mito Che Guevara), tentou explicar seu método de decomposição da imagem do Che: da idealização para o cotidiano, apontando as fissuras e a falibilidade desse herói. A questão da verdade objetiva apareceu exatamente no uso da ficção como maneira de narrar a história melhor que a História. Teixeira Coelho, retomando a epígrafe de seu livro, afirmou que o mais indicado é colocar a verdade em discussão enquanto Edney Silvestre assumiu a defesa da verdade incontestável, sem prejuízo da verdade criada do ponto de vista ficcional. No auge dessa discussão, Marcelo Ferroni parecia alheio ao debate, muito embora seu livro, já na capa, trabalhe com essa “decomposição da imagem”.
Foi preciso, enfim, algumas réplicas e outras tréplicas para que os autores encontrassem um consenso. Não que estivessem brigando, mas ficou clara a oposição entre Edney Silvestre e Teixeira Coelho, o primeiro não arredando pé de suas convicções (chegou a citar a questão do sigilo eterno dos documentos oficiais), enquanto o segundo tentava se mostrar mais propositivo e conciliador. E quando o mediador, o jornalista Claudiney Ferreira, perguntou sobre o tabu de escrever romances sobre a felicidade, coube a Teixeira Coelho a palavra de armistício, algo como “existe felicidade em escrever romances”. Edney Silvestre completou: “Existe felicidade em estar na FLIP”. Aparentemente, a paz estava selada, apesar da discussão anterior.
Da mesa de João Ubaldo Ribeiro, para ser bastante direto, a principal notícia não foi sua boa interação com o mediador, o também escritor Rodrigo Lacerda; tampouco foi o fato de Ubaldo ter apresentado a trajetória de seus romances, como “Sargento Getúlio”, “Viva o Povo Brasileiro”, “Diário de um Farol” e “A Casa dos Budas Ditosos”. A noticia foi a revelação de que “Guimarães Rosa não está entre os autores de meu afeto”. Em vez das palmas, houve um “oh” seguido de um silêncio. Ao justificar suas motivações, João Ubaldo buscou exemplos no texto. Contou que ao ler um trecho de “Primeiras Estórias” não se convenceu da abertura de um conto: “‘a viagem fora planejada no feliz’. Eu não leio isto nunca mais”, disse, agora sim arrancando risos da platéia e do mediador. É evidente que a declaração gerou alarido, mas não foi por essa razão que a mesa de Ubaldo foi a mais cativante do dia, conforme a percepção do público. João Ubaldo Ribeiro corre o risco de ser o autor mais bem avaliado nas pesquisas de satisfação do público (sim,leitores, existe tal coisa na FLIP) porque cortou as bolas que foram levantadas pelo mediador. Simples assim. Nesse sentido, a relação prévia entre os escritores deixou João Ubaldo mais à vontade para responder as perguntas à sua maneira, enquanto Rodrigo Lacerda tratava de situar a audiência das datas, eventos e contexto histórico. Em síntese, mais do que comentar estilo ou influências para as gerações a seguir, a palestra serviu para que Ubaldo contasse causos de forma descompromissada (o riso foi escancarado quando declarou que uma ótima forma de inspiração é um cheque da editora contratante), como se estivesse numa de suas crônicas dominicais. De pé, ao final, a platéia mostrou o quanto tinha gostado – e muito antes disso, jornalistas já haviam manifestado o quão fofo era o convidado…
***
Se restava alguma dúvida quanto à importância de James Ellroy para a FLIP, basta ver a cerimônia especial no momento da sua entrada ao palco. Explica-se: enquanto todos os demais convidados entram juntos com os mediadores, o autor norte-americano apareceu sozinho, depois de ter sido apresentado pelo Arthur Dapieve, num formato que se assemelhava e muito ao plot dos livros de Ellroy. O escritor entrou em cena e, decididamente, interpretou de forma performática o trecho de seu último livro. Mais: ecoando um de seus personagens, declarou: “Estou aqui para que é tudo verdade. Vou contar tudo”. À medida que o público aplaudia, ele pedia, com as mãos, mais palmas. Mais tarde, viria a justificar seu comportamento: “Eu sou louco pelo poder (…) Se eu fosse um líder religioso, seria Deus”, exagerou. Esse é James Ellroy, e o público se acostumava à sua personalidade propositalmente errática.
Mais uma vez, enquanto os demais autores citaram escritores do século XIX e outros clássicos, Ellroy aproveitou para apresentar sua afeição à obra de Beethoven. Citou, também, Mahler e Lizst, mas foi de Beethoven que restaram as marcas mais significativas, a ponto de declarar: “É o ente criativo, gênio”, disse. Nesse sentido, discordou de Dapieve quando este citou Edward Said e seu livro “Estilo Tardio”, e aqui a conversa caminhou ao largo do fazer literário, a ponto de Arthur Dapieve sugerir: “Vamos para casa, então, ouvir Beethoven” – como não houve reação à provocação, o mediador recuou.
Ao longo de sua fala, era evidente a distância de Ellroy em relação aos demais autores convidados para a FLIP. Enquanto os campeões de vendas desta edição se emocionaram (até sexta-feira, os campeões de venda nas livrarias locais eram Nicolelis e valter hugo mãe), Ellroy parecia pronto para a briga, num discurso que mostrava traços de virulência, ainda que ele não tenha sido necessariamente agressivo. Antes, foi assertivo e verdadeiro no tocante à sua falta de leitura dos clássicos gregos ou russos. E nesse momento aquela leitora tradicional dos cadernos culturais de domingo ficou claramente incomodada na cadeira ao lado: “É um bruto, como pode?”, perguntou. Ela parecia inconformada com o fato de ele se importar tão pouco com o ethos do escritor.
Mas o fato é que, na literatura, o que conta não é o bom comportamento do escritor e sua obra e Ellroy ganha de todos os autores da FLIP se comparados ao escopo de abordagem e à ousadia da técnica, além de ter escrito, pelo menos, três grandes obras-primas: “A Dália Negra”, “O Grande Deserto” e ” Tablóide Americano”. No livro “American Vertigo”, publicado no Brasil em 2006, o pensador francês Bernard Henri-Levy afirma que o único paralelo possível para James Ellroy é o artista plástico Jackson Pollock, porque o escritor representa seu texto da mesma maneira como o pintor representava sua obra. A título de comparação, quando o mediador citou a aproximação com Dostoievski, apontada pela crítica Joyce Carol Oates, o autor aceitou o paralelo, para depois disparar: nunca li esses escritores russos. Podemos ir além: Ellroy coloca o romance policial – então território consagrado de mestres como Dashiell Hammett e Raymond Chandler – no mesmo patamar realizado por Herman Melville e Joseph Conrad em relação ao romance de aventuras. Como resultado de sua performance, o saldo final da palestra não poderia ser outro a não ser a longa fila que se formou para os autógrafos. Afinal de contas, os brutos também amam, não é mesmo?
Fabio S. Cardoso é jornalista e professor universitário.
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Dicta na Flip 3 – Entre o choro e o riso
Data do post: 9 de julho de 2011

Por Fabio S. Cardoso
A escritora argentina Pola Oloixarac estava cotada na nona edição da FLIP como a musa do evento. Jovem, extrovertida e com perfil afeito aos autores de sua geração, Pola chegou à Paraty não somente como autora publicada pelo selo Benvirá (do grupo Saraiva), mas, principalmente, como uma das escritoras selecionadas pela prestigiosa revista Granta (“Os melhores jovens escritores em espanhol”). Tamanha expectativa, no entanto, caiu por terra quando a primeira mesa do dia começou. Ao lado do poeta e romancista português valter hugo mãe, a autora sucumbiu. Em vez de ser a estrela principal, tornou-se coadjuvante e, é preciso registrar, sua apresentação pareceu pouco clara ao público presente. E aqui uma dúvida se impõe: não se sabe ao certo se o pensamento de Pola Oloixarac é confuso e escorreito ou se a tradução complicou de vez as coisas. Talvez um misto das duas coisas. De todo modo, desde o início a sua fala foi hesitante, mesmo quando foi chamada a ler um trecho de seu livro: começou em português, porque não havia trazido sua cópia para o palco, e depois terminou em espanhol, e ainda assim o público permaneceu sem saber do que se tratava seu projeto literário – ou mesmo se havia tal proposta na perspectiva da autora. O resultado não poderia ser mais desastroso para a quase musa da Festa.
E a apresentação só não foi um desastre completo porque, é necessário reconhecer, valter hugo mãe, autor de “a máquina de fazer espanhóis”, roubou a cena. Tanto na leitura como no discurso, a apresentação foi de um autor consciente de seu papel como escritor. É verdade que, em vários momentos, era notável que tanta fluidez na sua apresentação era decorrente de um processo decorrente de preparação. Seja nas gags, seja nas respostas que mostravam ao público sua afeição para com o Brasil, notou-se um autor preocupado em desempenhar uma performance agradável para a platéia ali presente. À medida que a palestra se desenvolvia, os presentes foram conquistados pelo autor que, entre outras curiosidades, grafa seu nome em letras minúsculas. O arrebatamento final, no entanto, ainda estava por acontecer. E parece que mesmo foi articulado para que fosse assim. Explica-se. Perguntado sobre sua relação com o Brasil, o escritor leu uma carta que externou sua relação sentimental para com os brasileiros e com o país. Desde sua infância, passando pela adolescência, pelas amizades que permanecem e, agora, como escritor que foi reconhecido no país. Para um autor que não gosta de ser referência para suas histórias (“não creio que a minha vida seja interessante para dar um livro”), esse momento foi demasiadamente confessional. Aqui, não é preciso dizer que o público, que já aplaude no automático, gritou “Bravo!” e, de pé, celebrou o escritor. E valter hugo mãe chorou.
A essa altura, ninguém se lembrava direito de Pola Oloixarac, que, para além de perdida na tradução, parecia desconfortável no papel de entertainer que lhe foi concedido. Mesmo a apresentação da temática do seu livro, “As Teorias Selvagens”, soou confuso. Talvez o fato de equilibrar diversos interesses ao mesmo tempo seja determinante para que seu estilo tampouco tenha um norte. Das orquídeas, interesse mais recente, às novas tecnologias, passando, é claro, pela banda de rock. A postura desta convidada da FLIP estava mais para celebridade que se apresenta como escritor do que alguém que de fato é escritor. Quanto a valter hugo mãe, sua apresentação mostrou o quanto ele já está afeito aos códigos das palestras e desses eventos literários. Seu desempenho, a rigor, não foi acidental – mesmo que os jornalistas, de um modo geral, tenham se convencido de que ele foi absolutamente legítimo. No que concerne à literatura e ao estilo, é flagrante a diferença entre os dois: valter hugo mãe consegue articular as referências, de Fernando Pessoa mormente, a ponto de conseguir dimensionar a angústia da influência. Pola Oloixarac tergiversa entre Borges e Cortázar, mas cita um clássico contemporâneo, Roberto Bolaño, para tratar dos autores que lhe fazem a cabeça. Por tudo isso, uma mesa desigual, com a sutil ironia: aqueles que foram para admirar a quase-famosa escritora argentina ficaram a-pai-xo-na-dos pelo autor português. E há quem duvide dos poderes da retórica…
E por falar em retórica, à tarde, foi a vez de Ignácio de Loyola Brandão e Contardo Calligaris, sob mediação do jornalista e músico Cadão Volpato, tratarem das “Ficções da Crônica”, tema da mesa. Ok, é sabido que a crônica tem um jeitão malemolente de ser, mas a fala de ambos precisava ser tão descompromissada? É verdade que de início o tom pareceu que seria grave, com o apoio de ambos os escritores à decisão do autor italiano Antonio Tabucchi de não vir ao evento (no twitter, o jornalista Mauricio Stycer provocou: “Então, por que vieram? Seria mais digno cancelar a mesa”).
O público, no entanto, não teve com que se preocupar com essa “aporrinhação de debate político”, como disse alguém. Logo a conversa descambou pros causos anedóticos em detrimento da discussão sobre o “fazer literário”. Experiente em palestras desse tipo, Ignácio de Loyola pareceu conduzir a conversa para o riso fácil, em especial porque, em tom jocoso, descartou tratar de seu principal romance, “Zero”. Enquanto isso, Contardo Calligaris se esforçava em mostrar que não é apenas mais um cronista, mas também romancista (afinal, é publicado até pela Cia das Letras e esta é sua segunda Flip!). Para tanto, usou suas referências mais sofisticadas, como Stendhal e Joseph Conrad, salientando que gosta de “viver coisas ordinárias de forma extraordinária”. Foi o gancho para falar de seus livros, pela ordem cronológica “O Conto do Amor” e o mais recente “A Mulher de Vermelho e Branco”. A conversa só se tornou pertinente do ponto de vista literário quando ambos foram instados a propósito da relevância da ficção num mundo contemporâneo que parece escolher o real em vez do imaginário. “A memória é uma espécie de construção narrativa”, explicou Calligaris, de maneira que a importância desse tipo de texto permanece, esclareceu o autor. Era o final do debate, que, no geral, foi menos denso do que isso; menos sofisticado do que se imagina numa festa literária como a FLIP, a despeito dos aplausos e risos da audiência ali presente.
“El perro malo e feo“
Assim que James Ellroy entrou na sala reservada para as entrevistas coletivas os jornalistas logo se sacudiram. Não que todos conhecessem a fama de verborrágico ou soubessem o que estava por acontecer. Mas é como se houvesse uma impressão no ar de que a notícia estava ali. Grosso modo, entrevistas coletivas seguem um clima modorrento e sem sobressaltos. De um lado, os repórteres cumprem sua pauta de forma litúrgica e burocrática. De outro, os autores e assessores de imprensa torcem para que aquilo ali acabe rápido. Ellroy chegou pouco depois das 13h30, horário combinado, e o diálogo possível que se estabeleceu ali foi surpreendente – mais pelo entrevistado do que pelas perguntas em si. Sim, a notícia estava ali.
Personagem que se impõe pelas características físicas (careca, alto, olhar arguto e gestual teatral), James Ellroy se antecipou às perguntas dos presentes e definiu a si mesmo: “Yo soy el perro malo e feo”. Disse que foi a única frase que aprendeu em Espanhol, mas é possível inferir que aquele ali foi um recado aos jornalistas que ainda desconheciam sua personalidade. Entretanto, quando efetivamente a entrevista começou, o escritor norte-americano se mostrou paciente e prestativo para responder às questões relacionadas à tradução de suas obras em português (“considero as edições do Brasil as mais bem elaboradas, com design especial que tornam o livro mais atraente”); ou acerca de seu estilo (“Escrevo de forma coloquial e, por muito tempo, trabalhei com a proposta de escrever de maneira concisa, não necessariamente minimalista); ou ainda do gênero de seus livros (“não são romances sobre crimes, mas romances históricos sobre os Estados Unidos”). Até aqui, a entrevista seguia conforme o script esperado para um escritor-padrão da Festa Literária de Paraty. Ocorre, como se verá a seguir, que James Ellroy não é um desses.
Ao ser questionado sobre a adaptação de seus livros para o cinema, por exemplo, ele foi taxativo: “foi interessante pelo dinheiro. Embora não me preocupe com isso, é algo interessante se acontecer novamente – mesmo que seja pouco provável”. Adiante, ao ser questionado sobre o volume de seus livros (o mais recente quase alcança as mil páginas), ele desancou o edifício da era da informação, acompanhem: “Não leio jornais. Não vejo TV. Nem cinema (…) Parem de ficar no twitter e no facebook. Vão dar uma caminhada, vocês moram num país incrível”. E aqui houve um corte para tratar da visão que o senso comum nos EUA tem acerca do Brasil: “Esquadrão da morte, mulheres nuas, calor insuportável e sem ar condicionado, sexo aleatório… Isso só é verdade no Paraguai, correto?”. Em seguida, a Dicta quis saber se ele tem consciência o quanto destoa da média dos autores que vêm à FLIP (em geral, escritores cujo comportamento é menos bombástico e mais conciliador, para dizer o mínimo). Ellroy afirmou não conhecer os convidados que vêm à FLIP, a não ser por David Byrne e Claude Lanzmann (que, curiosamente, tem estilo provocador semelhante). Sobre seu perfil, respondeu: “eu vivo no vácuo, vivo na América”.
A propósito das influências literárias e culturais, mais uma vez mostrou o quanto difere da média dos convidados, sempre ávidos em dialogar com outros romancistas e clássicos de outras épocas. “Nunca li Tolstoi e, na verdade, aprendi mais sobre narrativa ouvindo clássicos como Beethoven e Bruckner do que lendo romances. A fluidez narrativa da música, que é universal, é mais clara do que um livro”. A partir daí, sempre à vontade, o escritor discorreu com fluência notável sobre as peças de Beethoven. E destacou: “jazzistas negros do pós-guerra, como Duke Ellington e Miles Davis, estudaram Beethoven. Mesmo ele sendo alemão”, ironizou. Ainda sobre autores, destacou: Raymond Chandler e Dashiell Hammett.
No tocante à relação com a sua (dele) mãe, sobre quem já escreveu em uma de suas obras, o autor provocou: “você precisa ter uma relação traumática com a mãe para conseguir uma boa transa”. Adiante, quase no fim da entrevista, salientou a necessidade de estar à parte do mundo presente. “Eu vivo no passado. Para viver no passado, eu preciso viver numa cidade tranqüila, como Paraty, por exemplo. Vou tentar convencer minha namorada para morarmos aqui”, disse, entre o cômico e o sério. E de repente, num recado aos aspirantes a escritores, rechaçou um clichê: “Todos se consideram escritores agora e, com seus computadores, afirmam: ‘estou com bloqueio’. Bloqueie aqui”, disse, apontando para a região abaixo da cintura, arrancando risos e alguns olhares constrangidos dos que estavam ali.
Às 14h30, a coletiva de imprensa acabou. A impressão era certeira. Só faltou a correção: a notícia chegou à Flip.
Fabio S. Cardoso é jornalista e professor universitário.
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Dicta na Flip 2 – Em busca do debate perdido
Data do post: 8 de julho de 2011

Por Fabio S. Cardoso
A primeira mesa do dia foi fraca. Atenção, nada de errado com os convidados – a inglesa Carol Ann Duffy, poeta laureada, e o brasileiro Paulo Henriques Britto, poeta premiado. Sob a mediação de Liz Calder, a presidente da Flip, os poetas leram seus respectivos textos, fizeram troça de si mesmos, arrancando algum riso do público e a simpatia da audiência, mas, a rigor, não houve nada além disso. Em outras palavras, em que pese a importância dos convidados, como estes jogaram by the book a sensação é de que não tinham mais nada a dizer do que ler os seus textos e responderem de forma previsível às questões que se seguiram. Uma delas, feita por Liz Calder, mostra o nível do debate: “Como professores e poetas, vocês acham possível ensinar poesia a alguém?” E o curioso é que, até mesmo nessa resposta, o comportamento dos palestrantes foi (excessivamente?) exemplar: enquanto Carol Ann Duffy discorreu sobre a importância de ensinar a ler os textos certos, Paulo Henriques Britto destacou a possibilidade de mostrar quais são os mecanismos da poesia aos interessados, o que não é garantia, enfatizou, que alguém irá se tornar um bom poeta em seguida. Nesse ritmo, uma hora depois (parecia bem mais), o debate estava encerrado.
Logo depois do almoço, o jornalista Marcos Augusto Gonçalves foi o mediador da mesa que contou com a presença da jornalista e escritora Márcia Camargos e do crítico e professor titular da Universidade de Buenos Aires, Gonzalo Aguilar. Se no dia anterior a discussão sobre Oswald de Andrade tinha ficado entre o brejeiro e o proto-conceitual, tanto a escritora brasileira quanto o acadêmico argentino conseguiram demarcar a importância do ponto de vista literário do modernista brasileiro. Dito de outra maneira, enquanto Márcia Camargos resgatou biograficamente a importância de Oswald de Andrade (de forma bem clara e didática, diga-se), Gonzalo Aguilar “problematizou” a visão do autor do manifesto antropófago. Tudo muito bem pontuado, e a palestra funcionando, mas resta um problema: a impressão, cada vez mais crescente, de que, a não ser pelos estudiosos, não há leitor comum de Oswald de Andrade. A visita à história do modernismo, movimento cultural que se assume como hegemônico na História da Cultura brasileira no século XX, evidencia que pouco se conhece efetivamente dos textos de Oswald. E a Flip se mostra numa tentativa inglória de apresentar ao público essa obra-prima que poucos leram, e esse gênio que se divide entre o polemista verborrágico e o teórico que poucos compreenderam.
Lá pela terceira mesa, sem qualquer grande expectativa, Caryl Phillips e Kamila Shemsia fizeram o debate dos autores au-delà do cânone ocidental. O que isso quer dizer? No caso de Caryl Phillips, trata-se da perspectiva do autor em trânsito (que, em tese, toma como referência o ponto de vista do colonizado). Já em Kamila Shemsia, isso significa articular referências que estão nos estertores de uma hecatome nuclear – na verdade, o mote para o romance que acaba de publicar no Brasil, “Sombras queimadas”. Atenciosos e educados, ambos os autores enfatizaram a importância do evento no cenário internacional, destacando o quanto ansiavam por serem convidados (e aqui alguém poderá dizer que essa necessidade é coisa de subdesenvolvido, mas não cuidemos dessas máscaras). O que se destacou nesse encontro foi o fato de que ambos os autores tomarem como norte de seu discurso a questão do não-pertencimento. De forma bem humorada, Phillips salientou o quanto se sentiu pertencente à classe trabalhadora quando foi estudar em Oxford. Por sua vez, Kamila Shemsia confessou que, em sua visão, o artista precisa se sentir afastado do lugar onde está. É uma ideia bastante conveniente para um autor estrangeiro, da mesma forma como a crítica aos Estados Unidos, ao final da palestra, pareceu um lugar-comum desnecessário.
“O Humano além do Humano” era a última mesa do dia. Coincidência ou não, havia a sensação de que era a mesa mais esperada. De um lado, o neurocientista Miguel Nicolelis, autor do elogiado “Muito Além do nosso eu” e pesquisador responsável pela busca da interface cérebro-máquina. De outro lado, Luiz Felipe Pondé, filósofo e autor, entre outros, dos livros “Crítica e Profecia : a Filosofia da Religião em Dostoiévski” e “Do pensamento no deserto”. Sob a mediação da jornalista Laura Greenhalgh, os dois promoveram um debate aparentemente elegante e sofisticado. O “aparentemente”, no entanto, sugere que houve uma fricção nas duas falas que foi absolutamente perceptível, ainda que não em estado patente. Trocando em miúdos, a discordância entre o cientista e o filósofo era de ordem elementar e, ainda assim, o “confronto bélico” não aconteceu. Em vez disso, houve uma guerra fria entre a perspectiva otimista e pragmática de Nicolelis (um rematado palmeirense) e o ceticismo provocador e crítico de Pondé (outro rematado palmeirense). E não pára por aí: ao longo de sua meticulosamente estudada apresentação, Nicolelis, com recursos audiovisuais e explicação didática, deu uma aula com respostas sobre o que pode ser o humano, um futuro em que a interface cérebro-máquina pode resultar na recuperação de um garoto tetraplégico – que, conforme ambição do cientista, pode dar o pontapé inicial na Copa do Mundo de 2014 no Brasil. Ao expor essa utopia, Nicolelis (de voz embargada, quase às lágrimas) literalmente ganhou o público, que evidentemente já estava predisposto a ser conquistado por sua proposta. Pondé, por seu turno, fez uma exposição que remontou à filosofia para mostrar que não é a solução final que tornará nossa existência mais plena ou completa. E sublinhou: o que torna humano o ser humano é o sofrimento. Eis o cerne da questão: como cético que é, Pondé sutilmente questionou a perspectiva de Nicolelis. Este, a não ser por uma ironia lançada no fim, não quis polemizar. Com mais potencial para um debate devastador, um dos argüidores simplesmente não aceitou o convite. Quem perdeu com essa conciliação, ainda que forçada, foi o público.
Fabio S. Cardoso é jornalista e professor universitário.
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Dicta na Flip 1 – Memórias sentimentais de Antônio Cândido
Data do post: 7 de julho de 2011

Por Fábio S. Cardoso
Aos 92 anos, Antônio Cândido de Mello e Souza é o principal crítico literário do país. Ponto. E não é de hoje. Sobre isso, muito já se escreveu e é mesmo espantoso que apenas na nona edição da Festa Literária Internacional de Paraty ele tenha aparecido para dar o pontapé inicial no evento, com sua mistura de elegância carioca, cosmopolitismo paulistano e rabugice mineira. Por exemplo, ao dar uma pequena entrevista coletiva à imprensa – algo raro para quem já disse que estava aposentado da “vida intelectual” -, Cândido usou de todo o seu charme de gentleman para enfeitiçar os jornalistas, ainda que não parasse de reclamar dos achaques da idade ao viajar de automóvel pela sinuosa serra de Paraty; mesmo assim, um deles, uma mulher, ficou encantada com as palavras do Elder Statesman de La Rive Gauche e exclamou em seu twitter ao testemunhar os apupos efusivos do público quando o Mandarim da Crítica Literária nacional entrou no palco: “Ai que fofo!”.
Toda essa introdução se justifica não para apresentar quem dispensa “folha de rosto” ou contextualizações para não-iniciados, mas, essencialmente, para enfatizar que Antônio Cândido “frustrou” as expectativas de quem esperava por uma leitura acadêmica ou teórica sobre o homenageado da vez, o escritor modernista Oswald de Andrade.
Na platéia, o público, que já entronizava a figura de Antônio Cândido mesmo antes de ele subir no palco, alterava o seu estado de ânimo entre a comoção e admiração à medida que o professor discursava, seja porque o autor apresentou suas palavras com fluência acerca do tema proposto, seja porque é uma autoridade fundamental na crítica literária brasileira. E sua palestra foi, de um lado, a fala serena e sensível de quem conviveu com o homenageado e de quem, por outro lado, possui recursos ímpares para a interpretação da obra de Oswald de Andrade. Infelizmente, o professor emérito da Universidade de São Paulo esboçou pouca análise. Sobraram, isto sim, “causos”, como da briga com Mário de Andrade; ou de sua educação que contrastava com a verve provocativa e polêmica. À medida que as histórias eram reveladas, o público aprovava e se concentrava para ouvir mais. Cândido, aliás, enfatizou que Oswald soube utilizar a arma do riso, espécie de característica elementar do estilo do autor. Aqui é o máximo de interpretação que se ouviu do grande crítico literário brasileiro.
Os efusivos aplausos coroaram a palestra de Antônio Cândido, que, com um gesto, agradeceu.
A verdade é que o encontro poderia ter terminado ali mesmo. Mas, agora o público recordava, era a hora e vez de José Miguel Wisnik (o professor-cantor das aulas-show em São Paulo). Para além das teorizações sobre a música popular brasileira, Wisnik, figura carimbada da Flip, é autor de “Veneno Remédio”, obra que dá um verniz intelectual-uspiano ao futebol brasileiro. Na obra, o autor é capaz de esgarçar a ideia de pós-modernidade ao comentar as jogadas do Ronaldinho Gaúcho (“seus dribles são citações”, reflete Wisnik). Ao contrário de Cândido, Wisnik merece essa introdução para que sua fala sobre Oswald de Andrade seja justificada. O palestrante esbanjou erudição, apresentou à platéia as teorizações nem sempre acessíveis ao público comum (sobretudo a partir da linguagem utilizada) e, por fim, desferiu um name-dropping excessivo aos ouvidos do público, que, aos poucos, começava a se movimentar na cadeira.
Assim, embora tenha falado por menos tempo do que Antônio Cândido, a participação de Wisnik parece ter durado muito mais, como comprova a senhora que dormia tranquilamente enquanto o teórico comentava a questão da alteridade e do pensamento oswaldiano que existia para além da panacéia da antropofagia. Mas era evidente que Wisnik não contava com a mesma naturalidade, mesmo que tenha se preparado de forma consistente para a tarefa. O clima era bastante modorrento até que, numa dessas formidáveis ginásticas do discurso, Wisnik articulou a posição a favor da revisão dos direitos autorais com o texto de Oswald, que, em um de seus livros, manifestou desejo que seus textos fossem livremente disseminados em detrimento do copyright. Wisnik ponderou a atualidade desse debate. E foi candidamente interrompido pelo aplauso da platéia. É bom lembrar que, momentos antes, as câmeras registraram a presença de Ana de Hollanda – a ministra da Cultura, até aqui, é umas das principais adversárias das plataformas progressistas da distribuição de conteúdo nos meios eletrônicos.
Noves fora o comentário com viés político (antes dele, Antônio Cândido fez questão de enfatizar que Oswald de Andrade se mostrava incomodado com as diferenças sociais), o debate seguiu com mais presença literária e acadêmica. Ao fim, Wisnik encerrou com citações extraídas dos textos do autor homenageado. Entre as memórias sentimentais de um acadêmico e as teorias fora de lugar do mestre de cerimônias, talvez não seja o caso de analisar como um desastre. Mas também é correto afirmar que não se trata da melhor abertura de Festival Literário que se tem notícia. Em especial, porque o homenageado em questão talvez merecesse outra leitura, algo que ficasse entre o singelo e a deferência. Mas, a julgar pela reação do público, talvez o verdadeiro homenageado da noite tenha sido Antonio Cândido.
Fábio S. Cardoso é jornalista e professor universitário.
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Dicta na Flip
Data do post: 6 de julho de 2011

Sim, nós somos pobres, não temos metade do orçamento da grande imprensa, mas estaremos lá, na Maravilhosa-Incrível-Festa-de-Literatura-Internacional-de-Paraty, a.k.a. FLIP, cobrindo diariamente, neste blog lido por todos e negado por muitos, o tal evento que todos amam odiar e ao qual todos querem ir.
Quem fará a cobertura será o jornalista Fábio Silvestre Cardoso que, segundo me informaram, tentará se afastar ao máximo da cobertura amebiótica que existe nos cadernos culturais dos jornais que todos lemos no café da manhã. Pelo menos é o que combinamos na reunião de pauta…
Toda manhã teremos um texto sobre um dia do evento. Portanto, se você quiser começar o seu dia sabendo o que realmente aconteceu no mundinho fashion da literatura brasileira, eis aqui o sítio para ler o que deve ser lido.
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Gilberto Freyre na Flip Parte 1
Data do post: 5 de agosto de 2010

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Les lettres libres ?
Data do post: 3 de agosto de 2010

E o mundo das letras está em polvorosa.
Os motivos são vários: agora, temos a FLIP, que, por mais que me critiquem, continuo a achar que é uma amostra de esquizofrenia literária (e pelo menos tenho o Marcelo Mirisola ao meu lado neste tópico…), e, desde ontem, finalmente o Prêmio São Paulo de Literatura resolveu premiar um autor que trilhava um caminho solitário e pouco reconhecido – Raimundo Carrero.
Mas na semana passada, seja no Brasil ou no mundo, quem deu o que falar foi o agente Andrew Wylie, apelidado carinhosamente entre seus pares de “O Chacal”.
Wylie tem, em sua carteira de clientes, escritores como Philip Roth, Martin Amis e o espólio de Vladimir Nabokov - enfim, la créme de la créme da língua inglesa. E resolveu fazer o seguinte: criou um selo editorial chamado Odyssey que disponiblizará, sem o intermédio de qualquer editora, à Amazon (via Kindle) os textos de seus clientes, sejam os inéditos ou os já publicados.
Isso foi o que Wylie fez lá fora. Agora, vamos ao que ele fez aqui dentro.
Wylie é um dos intermediários do acordo Penguin-Companhia das Letras que, se der tudo certo, será o responsável por uma revolução (ou um impasse, dependendo de quem olha o evento) peculiar no mercado editorial brasileiro. Foi ele quem apresentou Luiz Schwarcz, da editora brasileira, a John Makinson, da editora inglesa, de acordo com as informações divulgadas pela Folha de São Paulo no dia 24 de julho deste ano (a matéria é só para assinantes).
É uma joint venture que deve abrir os olhos dos publishers. Mais uma vez, a Companhia das Letras muda o eixo do mercado. Podemos reclamar da escolha de seu catálogo – em especial, na área de Humanidades, excessivamente uspiana -, mas não se pode negar que a editora de Luiz Schwarcz estabeleceu um padrão muito alto para a qualidade estética e artística de um livro no Brasil.
A união com a Penguin repete a qualidade- e também segue os padrões internacionais das clássicas publicações inglesas.
E talvez esta seja a principal pedra no sapato.
Se formos iniciar uma série de perguntas a lá Don Draper, a primeira que faço ao leitor é a seguinte: Por que compramos livros da Penguin?
Porque são baratos. Porque são fáceis de transportar. Porque são bem-cuidados. Porque se um deles estragar não terei pena e comprarei um outro exemplar. Enfim, uma infinidade de causas.
Que se resumem a uma só: porque são leves.
Ora, os livros da Penguin-Companhia, por algum motivo que só a gráfica Suzano conhece, são pesados. Não posso levá-los na mochila todos de uma vez. E se eu dobrar um pouco mais a lombada – e devo lembrá-los que o mundo se dividide entre aqueles que quebram os livros na lombada e aqueles que não quebram a lombada, como diria Nelson Ascher -, chorarei sem misericórdia. Além disso, me dá a sensação de ser um fetiche, algo que a Penguin sempre evitou ser (é uma das editoras mais práticas do mundo), mas que é a marca registrada da Companhia das Letras (depois imitada pela Cosac Naify e outras).
Contudo, temos de analisar os livros pelo o que são – o seu conteúdo.
A primeira leva da coleção é seguinte: O princípe, de Maquiavel, com uma nova tradução (a cargo de Maurício Dias Santana, que fez um belo trabalho com o romance Às cegas, de Claudio Magris) e um prefácio de Fernando Henrique Cardoso; Joaquim Nabuco Essencial, uma coletânea de textos do grande estadista brasileiro organizada por Evaldo Cabral de Mello; Pelos olhos de Maisie, a obra-prima de Henry James que, anos depois, Ian McEwan resolveu reescrever sob o nome de Reparação, em uma tradução revista de Paulo Henriques Britto; e O Brasil Holandês, que é anunciada como uma coletânea de textos históricos deste período sobre o qual poucos sabem, mas que na verdade trata-se de um livro primoroso escrito por Evaldo Cabral de Mello.
A nova tradução de O princípe é um exemplo do grande erro da Companhia das Letras: o excessivo apreço pelas coisas da USP. O detalhe mais evidente é o fato de que cada capítulo é anunciado em latim, com sua respectiva tradução em uma nota de rodapé. Um beletrismo que não chega a lugar nenhum. Sobre o prefácio de Fernando Henrique, só se pode dizer uma coisa: é o mais do mesmo, com sua ladainha pseudo-weberiana, e aquela retórica social-democrática que, depois do seu sequestro pelo PT, só engana intelectual brasileiro.
Já a coletânea sobre Joaquim Nabuco só peca por algo que o próprio organizador admite logo na introdução: não dá importância à conversão religiosa que Nabuco teve na meia-idade e que foi responsável por um dos seus livros mais bonitos – Foi Volue (Minha Fé). Ou seja, tiraram a única coisa essencial em um livro que tem no título a intenção de ser o essencial de seu autor. De resto, estão lá as melhores passagens de O abolicionismo, Balmaceda, Um estadista no império e de seus discursos parlamentares.
Os melhores livros da coleção são Pelos olhos de Maisie e O Brasil Colonial. O primeiro volta com uma reedição bem cuidada e com uma introdução de Christopher Ricks, além de acrescentar o ensaio de Henry James sobre a confecção do romance, publicado como um dos prefácios da famosa edição de New York de suas obras. Já o segundo é um primor de reconstituição histórica e uma delícia de leitura, com Evaldo Cabral de Mello sendo o nosso Virgílio pela lendária época de Maurício de Nassau.
Bem, o leitor se perguntará, o que há de tão importante nisso tudo? Não seria mais um caso de much ado about nothing?
Um ledo engano, caro amigo: a “revolução” que a joint venture Penguin-Companhia provoca no mercado editorial atinge aquilo que é mais importante em qualquer relação custo-benefício – o preço.
Um dos termos do acordo entre as duas editoras é que o preço de qualquer livro que seja publicado dentro da coleção não pode ultrapassar o valor de R$ 35,00.
No início, com seis ou sete livros, isso pode parecer uma exceção. Quando chegarem a cem livros, a diferença começará a ser notada.
No Brasil, o livro custa caro porque custa caro produzi-lo. E o aumento deste custo se deve ao fato de que não temos um mercado editorial propriamente dito. O centro estratégico se localiza nas chamadas grandes editoras: Record, Companhia e Ediouro. As outras, como Cosac, Nova Fronteira, Rocco, Objetiva, são consideradas de médio porte. E existem as independentes, que lutam para sobreviver no bom e velho esquema de guerrilha (o nosso querido IFE é um exemplo disso).
Em nenhum destes setores existe a cultura do livro de fácil divulgação, conhecido na língua inglesa como paperback. Os chamados livros de bolso começaram há pouco tempo, mas seus preços não são convidativos. Portanto, o que o acordo Penguin-Companhia faz é ver qual é a possibilidade de libertar o mercado editorial de uma série de preceitos errados – como, por exemplo, o de que o brasileiro não lê e o de que intelectual paulistano sabe tudo - e, junto com o preço, aumentar o seu catálogo de obras e autores.
E aqui está o xis da questão – e o dilema apresentado por esta revolução: o catálogo da Penguin tem, entre outros, os poemas completos de John Milton, John Donne, John Dryden, George Herbert, Geoffrey Hill, John Keats e Robert Browning – isso só para ficar em autores que tiveram apenas fragmentos de suas obras publicadas no Brasil.
Existe alguém no Brasil capaz de traduzir e editar com rigor todos esses autores? Refazendo a pergunta: Será que as editoras buscam os profissionais certos para tal empreitada?
Receio que não. Anos e anos de doutrinação gramsciana, corrupção concretina e epigonismo filosófico impediram de criar uma elite literária que saiba escolher os próprios livros que querem ler. E quando isso está incrustrado de tal forma na cultura de um país, não há preço que resolva o problema. Porque, afinal de contas, para a literatura de uma nação ser considerada livre, devemos saber, antes de tudo, que a liberdade é uma coisa a ser conquistada e não simplesmente comprada.
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Esquizofrenia literária
Data do post: 4 de julho de 2009
No mês de julho, há a tradição da festa literária da FLIP em Paraty, uma cidade fluminense de casas antigas, ruas cruéis para qualquer um que ama os seus pés e uma vida cultural tão ativa que dura somente cinco dias – por coincidência, o período exato do evento.
Contudo, seria mais adequado que acontecesse em abril, o mais cruel dos meses, como dizia T. S. Eliot. E por que isso? Esta é uma pergunta que o leitor fará ao desconhecer o uso de tal vocábulo para designar um evento que deveria trazer sorrisos para seus realizadores. A crueldade está em dois fatores: primeiro, vendem gato por lebre, e segundo, criam no público sério e ávido por uma literatura decente o que alguns chamam de dissonância cognitiva.
Segundo a própria FLIP, o seu objetivo é proporcionar discussões de alto nível com convidados nacionais e internacionais. Já estiveram aqui ninguém menos que Paul Auster, Ian McEwan e Salman Rushdie; da parte que nos cabe neste latifúndio, tivemos Chico Buarque (o ídolo dos organizadores; já foi chamado duas vezes), Roberto Schwartz (com seu Machado de Assis marxista avant la lettre) e Davi Arrigucci, Jr. (que falará sobre Manuel Bandeira no evento deste ano); além de homenagens a Clarice Lispector, Vinicius de Moraes e Nelson Rodrigues.
Há, sem dúvida, um belo ideal: o de colocar o Brasil na rota dos eventos cosmopolitas, transformando-o em uma nação que, segundo ouvi um dia de um estrangeiro, não fosse apenas um território de canibais. Contudo, como dizia Herman Melville, é melhor dormir ao lado de um canibal lúcido do que de um cristão bêbado. E, neste caso, o que é uma tentativa de querer se mostrar “sofisticado” torna-se uma armadilha: sermos vistos como os “mestres à margem da civilização”.
Eis o nó górdio: a verdadeira literatura, que vai de Shakespeare a Pynchon, passando por Guimarães Rosa e Osman Lins, preocupa-se com aquilo que a filosofia chama de comunicação substancial. Ela lida com dois temas: a vida e a morte – e a única coisa que o escritor sério sabe sobre eles é que a última sempre ganha a partida. Portanto, a verdadeira literatura é uma obsessiva reflexão sobre a perda, o sofrimento, a dor – e sobre o fracasso. Quando um romance, um conto ou um poema mexe com as entranhas e a mente de um leitor, é porque o tema do fracasso foi abordado e superado com elegância estética, algo que só o grande artista consegue realizar.
Agora imaginem a cena: um “público-alvo” composto por aquilo que se supõe ser a elite do país. Eles estão em Paraty em busca de um sonho: ter em cinco dias o melhor da literatura contemporânea. O sucesso exala da epiderme de cada um deles – ou, pelo menos, da maioria que está à procura desta aura que transforma alguém em algo que não é. Eis a pergunta: estas pessoas estão preocupadas em fracassar?
É claro que não – e aí está a crueldade do evento. Neste ano, por exemplo, a FLIP chamou três nomes que namoram há tempos com o tema do fracasso: Gay Talese (um dos pais do new journalism, mas também o bardo dos perdedores urbanos, segundo seu último livro publicado no Brasil, Vida de Escritor), António Lobo Antunes (o maior nome atual da língua portuguesa, que afirmou que sua obra é a voz dos que são esquecidos por nós mesmos) e Richard Dawkins (o ateu militante que, ao debater com Melanie Philips, colunista do The Spectator, perdeu a razão ao argumentar que ela seria católica, quando é judia).
Temos aí uma nova forma de canibalismo para os nouveaux riches. Não há nada a fazer para que se saia dessa dissonância cognitiva, em que o público espera uma coisa, o escritor dá outra, e ambos saem com a sensação de terem comprado o gato por lebre. Entra-se numa espiral de ouvidos moucos, sem saber quem fala com quem e – o mais importante – o que realmente foi dito.
Apesar da boa vontade, a FLIP é um sintoma da esquizofrenia literária e cultural que atingiu o Brasil. Os escritores ruminam sobre o fracasso e o seu público deseja somente o sucesso; e, neste panorama, o que sobra para os que desejam a verdadeira literatura é o glaucoma do intelecto.
Há uma recusa em aceitar o fato de que a literatura não é uma arte para as massas – e para uma elite fascinada por elas. Em sua palestra, Arrigucci insistiu para que o público percebesse que, se um Manuel Bandeira viveu no Brasil, então este era um país que tem tudo para dar certo. É esta ânsia pelo sucesso que corrói a cultura nacional; pois um artista só evolui através dos seus erros e derrotas – e os triunfos devem ser vistos como marcas passageiras de um trabalho do qual ele não será o último a se ocupar.
Sucesso e literatura não combinam. A última palavra fica com W. H. Auden que, ao ver pessoas parecidas com as que vão à Paraty, tinha certeza de que todas eram boníssimas, o que não o impediu de perguntar o seguinte: Será que elas não têm vontade de torturar o gato e fazer um strip-tease?
Artigo publicado originalmente na Gazeta do Povo, de Curitiba.
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