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Até tu, Sibelius?

Arquivado em: Música incluído por Martim Vasques da Cunha
Data do post: 3 de dezembro de 2009

Para não dizerem que eu sou injusto com a posteridade dos mortos, lá vou procurar mais encrenca com esta história de “quem-foi-e-quem-não-foi-nazista-e-como-isso-interefere-na-sua-magnífica-obra-de-arte-ou-filosófica”.

Se antes era o tio Heidegger e a tia Arendt, agora vamos para o vovô Sibelius.

Para ser mais respeitoso, Jean Sibelius, provavelmente ao lado de Gustav Mahler o maior compositor sinfônico do século XX – na humilde opinião deste melômano amador.

O motivo disso tudo é a publicação de um artigo que revela dados assustadores de que vovô Sibelius poderia ser mais do que um mero observador do Nazismo.

Bem, eis mais um exemplo de moral luck que ronda por aí.

Leiam o artigo e reclamem na caixa de comentários, por favor.


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Hannah Arendt, filósofa banal

Arquivado em: Filosofia incluído por Martim Vasques da Cunha
Data do post: 2 de novembro de 2009

Há cerca de uma semana, alguns leitores ficaram chocados com o post Heidegger, Filósofo do Nazismo, publicado neste site. Alguns defenderam o filósofo picareta, outros atacaram pelo simples prazer de atacar, poucos entenderam o que estava em jogo.

Agora vamos falar de Hannah Arendt, amante de Heidegger quando era sua estudante; na época, ela tinha cerca de 18 anos e, ao que parece, ficou bastante marcada pelo relacionamento.

Vejam bem, queridos leitores: a tese não é minha. É de Ron Rosenbaum, autor de um dos melhores livros sobre o acontecimento que foi o nazismo, Para entender Hitler (Record); Rosenbaum, como o próprio nome indica, é judeu, democrata e escreveu para a Slate (revista eletrônica que adora um elogio ao Obamis) um artigo tão corajoso quanto o de Carin Romano sobre Heidegger, já indicado neste espaço.

O raciocínio é igualmente perturbador. Para Rosenbaum, Arendt ficou influenciada pelo spell heideggeriano e, de uma forma bastante surpreendente, deslocou toda a sua visão do judaísmo – exposta em livros como Origens do Totalitarismo e Eichmann em Jerusalém – para uma perspectiva liberal e cosmopolita que, no fundo, no fundo, tinha toques anti-semitas. Em outras palavras: na hora de escolher se devia defender ou não o povo judeu, Hannah Arendt preferiu defender a paróquia intelectual-esquerdista, onde teve excelente acolhimento cultural.

A prova disso é justamente a reabilitação que Arendt fez do próprio Heidegger a respeito do envolvimento deste com o nazismo. Segundo Rosenbaum, toda a tese da “banalidade do mal” serve também como defesa do autor de Ser e Tempo; se Eichmann era um estúpido, que aceitava as ordens porque simplesmente eram ordens, Heidegger fez a mesma coisa porque não havia outra escapatória.

Isso não é nada perto da conclusão que Rosenbaum chega – ainda mais polêmica para os seguidores de Arendt, que formam um clubinho tão fechado quanto o de Heidegger. De acordo com o escritor nova-iorquino, toda essa justificativa e a falta de virtude em defender o povo judeu, quando ele mais precisava, provam que Hannah Arendt era apenas uma pensadora de segundo escalão.

Se ele está certo? Não sei. O que sei é que a influência de Arendt nos círculos globalistas de poder (em especial na social-democracia brasileira), com seus ideais de “pluralismo” e “direitos humanos” (compartilhados por outro cosmopolita, Isaiah Berlin), cria uma paralisia da ação política que, sob a égide de tolerância, serve apenas para aumentar a possibilidade de guerra sob o disfarce de uma sonhada paz. Talvez ela seja mais uma vítima da hidra chamada Heidegger, mas isso não significa que devemos aceitar todas as suas palavras como se fossem o novo evangelho da ciência política. Contudo, fazem isso – e quando a banalidade filosófica chega a uma suposta casta intelectual, a única coisa que podemos contar mesmo é com a banalidade do Mal e não com a soberania do Bem.

Update (dia 3/11): Para não dizerem que sou um sujeito imparcial, publico aqui um outro artigo sobre tema, desta vez atacando Ron Rosenbaum, de autoria de Steven Menashi. E, por favor, leiam o texto, ao invés de ficarem resmungando pelos cantos deste blog…


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Heidegger, o filósofo do nazismo

Arquivado em: Filosofia incluído por Martim Vasques da Cunha
Data do post: 22 de outubro de 2009

Finalmente, alguém resolveu tomar coragem e brigar com metade do mundo filosófico para denunciar um fato sabido por todos: o de que Martin Heidegger, o autor de Ser e Tempo, nunca foi um grande filósofo e não passa de um provinciano pensador do nazismo.

A afirmação não é minha. É de Emmanuel Faye, que resolveu criar a polêmica e tomou bordoada de todos os lados, até mesmo de Rémi Brague que, pasmem, defendeu a filosofia heideggeriana em um debate na TV e atacou Faye usando um argumentum ad hominem.

Mas se os heideggerianos (e que los hay, hay, é praticamente uma seita) acham que Faye foi duro e que eu usei também de palavras impróprias, é porque não leram o artigo de Carlin Romano, intitulado singelamente Heil Heidegger e que começa assim:

How many scholarly stakes in the heart will we need before Martin Heidegger (1889-1976), still regarded by some as Germany’s greatest 20th-century philosopher, reaches his final resting place as a prolific, provincial Nazi hack? Overrated in his prime, bizarrely venerated by acolytes even now, the pretentious old Black Forest babbler makes one wonder whether there’s a university-press equivalent of wolfsbane, guaranteed to keep philosophical frauds at a distance.

O interessante é ler os comentários logo abaixo do artigo de Romano. A maioria defende Heidegger como se fosse um grande patrimônio da Humanidade. Não é. Há uma palavra em inglês para tudo aquilo: gibberish.

E, realmente, não entendo a razão da defesa encarniçada deste sujeito. O mundo seria um lugar muito melhor se não existisse Ser e Tempo e seus epígonos. Mas também quem disse que não haveria um substituto à altura para tamanha besteira? Afinal, Martin Heidegger não me parece mais um filósofo e sim uma hidra…


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O romance que salva toda uma literatura

Arquivado em: Geral, Literatura incluído por Martim Vasques da Cunha
Data do post: 4 de agosto de 2008

Depois de meses de enrolação, setenta e duas páginas lidas, mas interrompidas porque as circunstâncias me impediam de dedicar o tempo necessário, somente agora consegui terminar de ler o romance “As Benevolentes”, de Jonathan Littell.

Vocês já devem ter ouvido falar dele: o catatau de 900 páginas sobre um carrasco nazista gay da SS, ganhador dos prêmios Goncourt e da Academia Francesa, mais de 700 mil exemplares vendidos, escrito em francês por um americano residente em Barcelona. Enfim, o mito está feito e impresso.

O que vocês não ouviram é se o livro vale realmente a pena. Muitas críticas a ele são obtusas, para não dizer limítrofes. Alguns não entenderam nada; outros simplesmente perceberam que não tinham condições para o compreender adequadamente – e deram uma opinião frouxa.

 (A exceção é a resenha de Jessé de Almeida Primo para o primeiro número de Dicta&Contradicta. Mas, apesar de corajosa, não concordo com alguns aspectos de sua análise).

Enfim, perguntará o leitor, o livro é bom? Não, ele é excelente: é possivelmente um dos poucos romances que colocaria lado a lado com “Doutor Fausto”, de Thomas Mann, a grande obra que mostra o pacto demoníaco que a Alemanha fez com o Nazismo. Mas não se trata de uma tragédia; na verdade, Littell construiu o romance como uma farsa que, em alguns momentos, atinge a alucinação pura. Há um norte ético nessa decisão estética. Dizia Eric Voegelin, em seu “Hitler e os alemães”, que não se podia retratar o nazismo como uma tragédia, mas sim como uma farsa, pois o absurdo da situação era tamanho que ela não podia ser representada como algo “real”. Quando Littell chama o seu romance de “As Benevolentes”, sem dúvida quer nos despistar, jogar com nossas expectativas para depois quebrá-las em pedacinhos.

Assim, sugiro ao leitor que, se quiser aventurar-se a ler o catatau de Jonathan Littell, se prepare para trechos de alta voltagem sensorial e intelectual. Trata-se de um romance que retrata o nosso fascínio pelo Mal, não hesita em identificar o nazismo com as ideologias socialistas, sionistas e afins (não poupa sequer a ideologia GLS), narrado com uma força de imaginação que faz inveja a qualquer aspirante a escritor.

Além disso, o nosso escritor globe trotter também cria uma enigmática reflexão sobre o sutil poder do Bem, mesmo quando tudo parece ser dominado pelo Mal – daí o título, que tem, sem dúvida, uma ressonância irônica. Apesar de ser um olhar sem misericórdia no coração das nossas trevas, Jonathan Littell reconhece que a luz sempre vem para aqueles que também a recusam; e é a noção deste paradoxo que cria as obras de artes e os romances que podem, por alguns momentos, salvar toda uma literatura em decadência.


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