Heidegger, o filósofo do nazismo
Data do post: 22 de outubro de 2009
Finalmente, alguém resolveu tomar coragem e brigar com metade do mundo filosófico para denunciar um fato sabido por todos: o de que Martin Heidegger, o autor de Ser e Tempo, nunca foi um grande filósofo e não passa de um provinciano pensador do nazismo.
A afirmação não é minha. É de Emmanuel Faye, que resolveu criar a polêmica e tomou bordoada de todos os lados, até mesmo de Rémi Brague que, pasmem, defendeu a filosofia heideggeriana em um debate na TV e atacou Faye usando um argumentum ad hominem.
Mas se os heideggerianos (e que los hay, hay, é praticamente uma seita) acham que Faye foi duro e que eu usei também de palavras impróprias, é porque não leram o artigo de Carlin Romano, intitulado singelamente Heil Heidegger e que começa assim:
How many scholarly stakes in the heart will we need before Martin Heidegger (1889-1976), still regarded by some as Germany’s greatest 20th-century philosopher, reaches his final resting place as a prolific, provincial Nazi hack? Overrated in his prime, bizarrely venerated by acolytes even now, the pretentious old Black Forest babbler makes one wonder whether there’s a university-press equivalent of wolfsbane, guaranteed to keep philosophical frauds at a distance.
O interessante é ler os comentários logo abaixo do artigo de Romano. A maioria defende Heidegger como se fosse um grande patrimônio da Humanidade. Não é. Há uma palavra em inglês para tudo aquilo: gibberish.
E, realmente, não entendo a razão da defesa encarniçada deste sujeito. O mundo seria um lugar muito melhor se não existisse Ser e Tempo e seus epígonos. Mas também quem disse que não haveria um substituto à altura para tamanha besteira? Afinal, Martin Heidegger não me parece mais um filósofo e sim uma hidra…
Comentários (22)
22 Comentários »
-
“Mas se os heideggerianos (e que los hay, hay, é praticamente uma seita)”
Na UFPR o time do Führer mental dos nazis tem uma zaga…
Comentário por Edson — 22 de outubro de 2009 @ 9:10 am
-
Na hora que o texto começou a pegar ritmo, acabou. Fiquei triste. Mas, tudo bem, você deve acreditar que o artigo de Carlin Romano é auto-explicativo e não haveria necessidade de maiores divagações sobre o fato de, efetivamente, Heidegger ser uma hidra. Para agradar as leitoras mulherzinhas da Dicta, por que não falar do romance dele com a H. Arendt, hein?!
Comentário por E. Coutinho — 22 de outubro de 2009 @ 9:55 am
-
Ainda não li os textos em questão, mas o filósofo alemão, quando estudava Aristóteles (se estudou de fato, hoje tenho minhas dúvidas), foi incapaz de ver que para o Estagirita as palavras “ousia” e “eidos” muitas vezes (quase sempre) são sinônimas. Bem, e dessa confusão veio uma série de má interpretações da metafísica do Ari, discuti esse ponto com um ótimo prof. aqui da UFF, o Paulo Faitanin, que me confirmou a questão. E até apontou esse “detalhe” que você aponta neste post. É, nem todos ’somos’ heideggerianos… ainda bem!
Comentário por Leonardo Valverde — 22 de outubro de 2009 @ 10:14 am
-
Prezado da Cunha,
fico bastante triste com a brutal associação do pensamento de Heidegger com o nazismo. Não tanto pela ofensa ao Heidegger que pelo fato de ter sido nazista por vontade merece toda e qualquer ofensa, mas pela ofensa ao pensamento que é matéria nobre. Não digo apenas pelo pensamento do Heidegger, mas pelo pensamento de uma forma geral. Lembro muito de Lévinas que possui uma filosofia teologicamente orientada e que vê em Ser e Tempo uma grande obra. Apesar de toda a tristeza que se sente com o nazismo de Heidegger, creio que Lévinas está mais certo do que você, não porque é Lévinas, mas porque trata do pensamento de modo mais generoso, porque o pensamento de Heidegger é capaz de fazer pensar e o pensamento que ele provoca não é menor do que o nazismo ao qual aderiu. Penso sempre o mesmo com relação aos pensadores cristãos: os pensamentos que provocam são sempre maiores do que o cristianismo.
Um abraço,
Cesar Kiraly
Comentário por Cesar Kiraly — 22 de outubro de 2009 @ 10:48 am
-
Conheço muito pouco da filosofia de Heidegger, mas li algumas críticas de Zubiri às ideias dele e fiquei com a sensação de que não valeria a pena me debruçar a entender seu pensamento.
Comentário por Wagner — 22 de outubro de 2009 @ 11:02 am
-
No “caso Heidegger” não se trata de provar, ou não, se Heidegger era nazista. A filosofia de Heidegger, queiramos ou não, não se resume a isso; obviamente não se pode negar seu envolvimento com o nazismo. No entanto permanece, sua filosofia, como um desafio, e o autor de Sein un Zeit como um dos pensadores mais influentes do século XX (o que não significa que seja o “melhor”). Vale o conselho de Franco Volpi (falecido prematuramente este ano) que falava da possibilidade de ler Sein und Zeit de várias maneiras, como uma antropologia filosófica, uma filosofia da existência e até mesmo como espécie de evangelho gnóstico do nosso tempo.
Comentário por ADE — 22 de outubro de 2009 @ 11:08 am
-
Eu não sei nada sobre Heidegger. Mas, se o artigo foi capaz de provocar tantos comentários injuriados por parte dos “especialistas” da internet, é porque deve ter tocado numa daquelas verdades que todos se esforçam por esconder.
Comentário por Marcelo — 22 de outubro de 2009 @ 2:06 pm
-
Freqüentei pouquíssimo o Heidegger, intelectual não sou, mas basta convidar para uma conversa alguém que seja e normalmente aparece o caráter incontornável do pensamento do seu xará, Martim. Dialoga-se, homem. Além do Brague e do Lévinas, em muito boa hora lembrado acima, seria possível bater um papo a respeito com Gadamer e Josef Pieper, entre vários. Sobre Gadamer, não será difícil topar até na web com material interessante sobre porque a sua praia não é a mesma do MH quando o assunto é intersubjetividade. Pieper, conforme recorda o autor do livro googlado a seguir, também chama às falas o homem do Dasein para apontar além do tempo, com esperança.
http://books.google.com/books?id=cyDSJcxNXiIC&pg=PA40&lpg=PA40&dq=Pieper+Heidegger&source=bl&ots=il5LyvEIfH&sig=nyKiVj_Mbg3zKmOHzDP5Xatk6kE&hl=pt-BR&ei=R6DgSoKSEtWxsgbHm6WIAw&sa=X&oi=book_result&ct=result&resnum=1&ved=0CAgQ6AEwAA#v=onepage&q=Pieper%20Heidegger&f=falseComentário por Ricardo Leal — 22 de outubro de 2009 @ 3:39 pm
-
D’acordo. O cara era um charlatão:
http://vunex.blogspot.com/2007/09/koto-ba.html
Comentário por Richard — 22 de outubro de 2009 @ 7:59 pm
-
Oh! concordo plenamente. Uma vez fui a umas palestras de Filosofia e calhou de um dia ser só sobre esse autor. Meu Deus! três horas de palestra e não entendi bulufas! Sai de lá como o Calvin atordoado com os olhos virados e o corpo tombando prum e outro lado pensando: de onde eu saí? :-/
A maior perda de tempo.
(Carla)Comentário por Carla Teixeira — 22 de outubro de 2009 @ 9:57 pm
-
Heidegger, the ceaselessly gravid German philosophical cow?
http://evans-experientialism.freewebspace.com/heidegger_kitschified.htm
Comentário por Bruno — 23 de outubro de 2009 @ 12:55 am
-
E descartar Nietzsche? Quantos têm coragem de fazê-lo?
Comentário por Azot — 23 de outubro de 2009 @ 2:47 pm
-
Lá vou dando a cara a tapa, mas talvez alguém por aí do outro lado da tela possa discorrer melhor sobre algo que me parece esclarecedor neste contexto: o caráter irredutivelmente trans-político de todo exercício autenticamente filosófico. E que independe de qualquer juízo de valor sobre Heidegger, Nietzsche, Foucault (tosse seca) ou quem seja. Mesmo em contextos muito refratários à metafísica ou de indizível “psicopatia social”, digamos assim grosseiramente. Mal comparando: muita gente boa pode defensavelmente dizer que existe um canon musical e que Bach neste sentido é pivô e que o dodecafonismo é aberrante – e ainda assim dialogar com essa aberração para sair dela, à maneira de Arvo Pärt.
Comentário por Ricardo Leal — 24 de outubro de 2009 @ 8:56 am
-
Como lembrou um dos comentadores do textinho mixuruca de Romano, essa discussão já ocorreu há 22 anos, quando saiu o livro de Victor Farías (que disse a um amigo meu em Berlim, há uns dez anos, que gostaria de poder morar no Brasil e trabalhar na Unicamp, mas o salário não ajudava). Nem por isso Rüdiger Safranski deixou de lançar uma biografia intitulada Heidegger, um mestre da Alemanha.
Claudio Magris começa seu livro Alfabeti falando do primeiro livro que leu, I misteri della jungla, de Emilio Salgari, que “permaneceu de certa forma para sempre o Livro, o encontro com a palavra que contém e junto inventa a realidade”, do qual ele aprendeu o amor pela realidade, o sentido da unidade da vida e a familiaridade com a variedade de povos, civilizações, hábitos e costumes, e não o ardor guerreiro que tornou o autor caro ao fascismo. Kipling o fez amar mais os elefantes e templos hindus que a coroa da rainha Vitória. Cabe-nos, como disse o Sr. Leal, ler o suábio com olhos críticos, criadores e astutos.
Ao Sr. Kiraly, uma dica: se procurar entender por que alguns dos pensadores vão além e são santos, talvez comece a entender o cristianismo.
Comentário por Small Winner — 25 de outubro de 2009 @ 6:19 am
-
Discordo.
Sein und Zeit é um livro belíssimo e, de fato, pode ser lido de muitas maneiras, inclusive como uma antropologia filosófica, como destacado pelo F. Volpi (o que, entretanto, não parece ser a melhor chave de leitura).
A influência de Heidegger sobre autores tão díspares como Gadamer, Bultmann e Lévinas mostra quão fecunda foi sua reflexão filosófica.
Até pouco tempo, a acusação de ‘nazismo filosófico’ partia principalmente da turma da esquerda: Lukács, Adorno, etc. Não é boa companhia.
Comentário por G. Acuto — 25 de outubro de 2009 @ 8:28 pm
-
Faye é realmente incisivo, mas será que não há certo exagero e hermenêuticas burlescas?
Acompanhem:
http://heideggerianices.blogspot.com/2008/11/forando-barra.html
Comentário por Raphael Tenório — 26 de outubro de 2009 @ 4:39 pm
-
Um pequeno apanhado de informações do blog filosófico do Le Monde que traduzi e eventualmente intervi.:
O caso Heidegger:
http://heideggerianices.blogspot.com/2008/10/o-caso-heidegger-nazi.html
Enquanto as coisas acontecem…
http://heideggerianices.blogspot.com/2008/10/ontem-26-de-outubro-de-2008-o.html
Comentário por Raphael Tenório — 26 de outubro de 2009 @ 4:45 pm
-
Discordo totalmente. Muitos não compreendem Heidegger. Seu pensamento nos legou uma nova maneira de ver a Filosofia. Foi ele que viu que o pensamento filosófico depois dos pré-socráticos foi pensado o ente como ser, um erro filosófico. Alguns comentam Heidegger sem realmente se debruçar sobre seus textos. Não basta ler Heidegger é necessário fazer um grande exercício, de uma verdadeira hermenêutica, buscando com profundidade o resgate daquilo que foi uma errância filosófica durante muito tempo
Comentário por Robson Prati — 1 de novembro de 2009 @ 10:52 pm
-
Achei bem rasteiro esse post. Passa ao largo de qualquer questão realmente filosófica para ficar na agressão pura e simples. Há quem se divirta com isso, mas para um projeto com propósitos tão interessantes como o da Dicta, o post deixou bem a desejar.
Comentário por Flavio — 10 de novembro de 2009 @ 9:14 am
-
Música para os meus ouvidos.
Comentário por J. E. Porcher — 13 de novembro de 2009 @ 5:27 pm
-
Aqui na UFPR esse sujeito é considerado um deus, é bajulado e adorado. A cada semestre deve ter uma média de 3 a 4 disciplinas que estudam esse embrulhão.
Acho que o grande problema da filosofia atual é seu isolamento das demais disciplinas(sociologia, história e economia), isso leva a esse estruturalismo imbecil que tomou conta da filosofia.
A filosofia se esqueceu do mundo concreto e esse é o maior dos erros.
Agora quanto aos bons filosofos das escolas materialistas não há o menos espaço, Marx é palavrão pra esses academicos de hoje(principalmente no curso de filosofia da UFPR).Comentário por Bardamy — 2 de dezembro de 2009 @ 1:20 pm
-
Sou Psicólogo Fenomenológico-Existencial e acredito que antes de tecermos críticas à qualquer autor, devemos conhecer a fundo seu pensamento. A crítica, pela crítica é algo vazio e impegnada de “umbigocentrismo”.
Comentário por Rodrigo — 12 de março de 2010 @ 4:35 pm





