Sobre Saki, Leões e Coisas de Homem
Data do post: 15 de agosto de 2008
Há uma boa passagem, n’O Gattopardo, em que Lampedusa constata, de maneira profética e resignada, que em três gerações o novo regime republicano transformaria os homens em pequenos gatos mansos e domesticados.
Mais de três gerações se passaram e parece que Lampedusa tinha mesmo razão. Submetido a doses cavalares de “paz, amor & ecologia”, o homem pós-moderno é criado completamente indefeso e despreparado para as situações da vida que exigem dele atitudes, bem, atitudes de homem. O politicamente correto de repente transformou a manlitate em algo moralmente errado e o resultado é que a coragem e outras virtudes clássicas passaram a ser vistas com o sinal invertido.
Acho que foi o Olavo de Carvalho quem recentemente chamou a atenção para esse fato, quando aquele sul-coreano maluco saiu atirando pela Virginia Tech sem que um único aluno ousasse fazer alguma coisa que não correr para salvar a própria pele. Talvez o exemplo ali fosse um pouco extremo, mas a verdade é que essa prostração remete a um fator cultural alarmante.
A propósito do razoável artigo de Cristopher Hitchens sobre Saki, na última Atlantic, Joseph Bottum relembra um de seus grandes contos, The Toys of Peace, que retrata de maneira bastante interessante esse processo. Na história, vemos o que acontece quando um tio resolve comprar aos sobrinhos brinquedos politicamente corretos, ao invés dos bons e velhos soldadinhos e tanques de guerra.
Vejam este trecho (a tradução livre é minha, de maneira que peço desculpas pela qualidade. Mas você pode ler o original aqui):
Uma enorme quantidade de tiras de papel ondulado foi a primeira coisa que chamou a sua atenção quando a tampa foi retirada; os brinquedos mais excitantes sempre vinham assim. Harvey jogou de lado a camada superior e logo apareceu um edifício quadrado, sem nenhum traço característico.
“É um forte!”, exclamou Bertie.
“Não, é o palácio do Mpret da Albânia”, disse Eric, imensamente orgulhoso do seu conhecimento do título exótico; “ele não tem janelas, para que as pessoas não consigam disparar contra a Família Real”.
“É um depósito de lixo municipal”, disse Harvey apressadamente; “todos os resíduos e o lixo de uma cidade são reunidos lá, ao invés de ficarem jogados, prejudicando a saúde dos cidadãos”.
Em um silêncio terrível ele desencravou o pequeno boneco de um homem com roupa preta.
“Este”, disse, “é um homem eminente, John Stuart Mill. Ele foi uma autoridade na economia política”.
“Por quê?”, perguntou Bertie.
“Bem, porque ele quis; ele pensou que seria uma coisa útil de se ser”.
Bertie deu um grunhido expressivo, que transmitiu a sua opinião de que essa seria uma vontade estranha.
Um outro edifício quadrado saiu da caixa, desta vez com janelas e chaminés.
“Um modelo da Associação Cristã da Mulher Jovem de Manchester”, disse Harvey.
“Há lá algum leão”?, perguntou Eric com esperança. Ele vinha lendo história romana e pensou que onde houvesse Cristãos você poderia esperar razoavelmente encontrar alguns leões”.
Se eu fosse o dono de uma editora, “há algum leão?” seria a pergunta eliminatória que eu faria para os escritores que submetessem seus manuscritos. Em caso negativo… Mas divago, porque tudo isso era apenas desculpa para indicar o site The Art of Manliness (via Stefan McDaniel), que trata de mordidas de cobra, caçadas, guias para dar gorjeta como um gentleman, para arrombar uma porta, há perfis periódicos (veja o com Viktor Frankl), enfim, tudo que você precisa saber para não acabar ganhando o Sissy Awards de 2008.
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A Intolerância dos Tolerantes
Data do post: 23 de julho de 2008
“Há um tipo de… terror intelectual nesta cidade. As pessoas estão aterrorizadas; elas estão com medo de dizer o que pensam. O que Gary (Sinise) está fazendo para fornecer ajuda e consolo às vítimas é admirável, e eu o aplaudo por isso” – David Horowitz, falando no Washington Times de hoje sobre o “Friends of Abe” – belo nome -, grupo underground de Hollywood criado para reunir os atores que não rezam segundo a cartilha politicamente correta dos estúdios americanos.
Pouquíssimos participantes admitem publicamente o seu envolvimento, com medo de acabarem blacklisted pelos chefões da indústria. They name names… Pensando em The Front – de longe, o pior filme de Woody Allen –, é quase possível sorrir com a ironia de tudo isso. Via Andrew Sullivan, na Atlantic Monthly.
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Chesterton sobre o politicamente correto
Data do post: 17 de julho de 2008
And the problem for Obama is that people tend to vote for a presidential candidate they feel personally comfortable with. If people aren’t comfortable with humor about Obama - if they’re reluctant to laugh at him for fear of being thought racist, or of crossing some line of political correctness - then some of them probably aren’t comfortable with him, period.
Palavras de Noam Sheiber que me parecem chestertonianas, a respeito das gozações que não deram certo (ao menos no caso da democrata New Yorker, em cuja capa foi publicada uma charge, vamos dizer assim, provocadora - fogo amigo?). Se não podemos tirar sarro, então há alguma coisa errada. Não é que devamos estimular a sátira de mau gosto que tanto se pratica, e muito menos o racismo ou a intolerância religiosa.
O perigo do politicamente correto começa pela ausência de senso de humor. Qual não foi a minha surpresa quando, ao procurar uma passagem de Chesterton sobre o assunto, aleatoriamente, encontrei de cara justamente essa aqui: “It is the test of a good religion whether you can joke about it”?
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