A Estranha Magnanimidade dos Inquisidores
Data do post: 21 de agosto de 2009
Não é estranho pensar que 99% dos críticos culturais que agora elogiam o humor politicamente incorreto de Brüno e de Sacha Baron Cohen chamariam de nazi-fascistóide qualquer filme ou série brasileira que fizesse o mesmo gênero de piada sobre tudo e sobre todos?
Ou alguém imagina, a sério, que se pudesse fazer no Brasil – sem patrulha – algo como Borat ou até mesmo Seinfeld e Family Guy? Seria um massacre.
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Em Portugal, 20 anos atrás…
Data do post: 25 de junho de 2009
Somente há pouco tempo conheci a extinta Revista K, editada em Portugal entre 1990 e 1993, com ensaios e artigos de Miguel Esteves Cardoso, Vasco Pulido Valente, Augustina Bessa-Luís, Carlos Quevedo e Francisco José Viegas, entre outros grandes.
Aqui você encontra muitos dos textos originais – alguns engraçadíssimos e politicamente-incorretos ao extremo -, outros comoventes, como este - do MEC – sobre a ingrata profissão dos agentes funerários:
“Percebe-se assim que, para ele, como para os agentes funerários dignos desse nome, a morte é um instante, por onde espreita a verdade que pode haver numa vida. O que comove não é a morte nem a ausência de quem morre – é a incapacidade de aceitá-la (ou acreditar nela) de quem fica. [...]
Mas não se pode fazer sem sofrimento, sem respeito, sem revolta, sem solidão. É por estas razões que os enterros mais bonitos e comoventes são, para os agentes funerários, os das freiras e das crianças. É porque neles a morte é mais evidente. Mais evidente para os homens. E mais evidente para Deus. É quase como uma prova de vida”.
Ou esta entrevista demolidora com Pedro Santana Lopes, Secretário de Estado da Cultura à época, em que o homem é praticamente acusado de analfabeto por não ter lido Proust e Joyce.
Por fim, deixo-lhes o editorial da edição nº 01, publicada há quase vinte anos, que dá bem a ver o espírito da coisa toda:
“Desinformação
Vivemos na idade da informação. Nunca foi tão fácil a tantas pessoas estarem tão bem informadas acerca de tantos assuntos. Óptimo. O pior é aceitarmos acriticamente que a informação é sempre boa, útil e formativa. A verdade é que nunca houve tantas bestas bem informadas. É muito mais fácil uma pessoa informar-se sobre um assunto do que pensar acerca dele. A partir de certa altura, um excesso de informação pode prejudicar a compreensão de dado acontecimento. Hoje, muitas pessoas informam-se em vez de tentar compreender. É a mulher que sabe tudo acerca dos filmes em cartaz, mas não viu nenhum. É o homem que segue cada passo dos acontecimentos na Roménia sem parar para tentar compreender o que se passa. É o jurista que conhece toda a legislação mas é incapaz de ter uma discussão sobre conceitos de justiça.
A informação pode ser brutal ao ponto de prejudicar a comunicação. As notícias, em vez de serem pontos de partida, tornam-se em fins. As pessoas, em vez de discutirem eventos e significados, partilham conhecimentos. Em vez de produzirem argumentos, reproduzem factos. Através da mera partilha de informação cria-se assim uma comunidade artificial.
Não há expressão mais mentirosa do que ‘comunicação social’. Que comunicação existe? Apenas se comunica a – não se comunica com. Isto é, não se comunica. Informa-se. O mal está no facto de não haver reciprocidade.
Claro que os chamados meios de comunicação social não ouvem o público a que se dirigem. O velho lugar-comum do ‘diálogo com o leitor’ é uma treta em que ninguém acredita. O mal é que a indiferença com que se distingue quantidade e qualidade de informação torna cada vez mais difícil ao cidadão médio ter opiniões pessoais acerca do que o rodeia.
Há qualquer coisa de arrogante e insuportável no acto de ‘informar’, tal qual ele se concebe modernamente, cheio de gráficos, sondagens, esquemas e painéis equilibrados. Há uma pretensão de definição e cobertura que, além de ridícula, parece violenta, por não admitir discussão. A discussão já surge ‘feita’. O leitor limita-se a escolher uma das posições.
Esta revista vai ser mais comunicativa do que informativa. O nosso objectivo não é sermos respeitados, compreendidos, seguidos, ou representados ou definitivos – é sermos lidos” (in K, nº 01, outubro de 1990).
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Sobre Saki, Leões e Coisas de Homem
Data do post: 15 de agosto de 2008
Há uma boa passagem, n’O Gattopardo, em que Lampedusa constata, de maneira profética e resignada, que em três gerações o novo regime republicano transformaria os homens em pequenos gatos mansos e domesticados.
Mais de três gerações se passaram e parece que Lampedusa tinha mesmo razão. Submetido a doses cavalares de “paz, amor & ecologia”, o homem pós-moderno é criado completamente indefeso e despreparado para as situações da vida que exigem dele atitudes, bem, atitudes de homem. O politicamente correto de repente transformou a manlitate em algo moralmente errado e o resultado é que a coragem e outras virtudes clássicas passaram a ser vistas com o sinal invertido.
Acho que foi o Olavo de Carvalho quem recentemente chamou a atenção para esse fato, quando aquele sul-coreano maluco saiu atirando pela Virginia Tech sem que um único aluno ousasse fazer alguma coisa que não correr para salvar a própria pele. Talvez o exemplo ali fosse um pouco extremo, mas a verdade é que essa prostração remete a um fator cultural alarmante.
A propósito do razoável artigo de Cristopher Hitchens sobre Saki, na última Atlantic, Joseph Bottum relembra um de seus grandes contos, The Toys of Peace, que retrata de maneira bastante interessante esse processo. Na história, vemos o que acontece quando um tio resolve comprar aos sobrinhos brinquedos politicamente corretos, ao invés dos bons e velhos soldadinhos e tanques de guerra.
Vejam este trecho (a tradução livre é minha, de maneira que peço desculpas pela qualidade. Mas você pode ler o original aqui):
Uma enorme quantidade de tiras de papel ondulado foi a primeira coisa que chamou a sua atenção quando a tampa foi retirada; os brinquedos mais excitantes sempre vinham assim. Harvey jogou de lado a camada superior e logo apareceu um edifício quadrado, sem nenhum traço característico.
“É um forte!”, exclamou Bertie.
“Não, é o palácio do Mpret da Albânia”, disse Eric, imensamente orgulhoso do seu conhecimento do título exótico; “ele não tem janelas, para que as pessoas não consigam disparar contra a Família Real”.
“É um depósito de lixo municipal”, disse Harvey apressadamente; “todos os resíduos e o lixo de uma cidade são reunidos lá, ao invés de ficarem jogados, prejudicando a saúde dos cidadãos”.
Em um silêncio terrível ele desencravou o pequeno boneco de um homem com roupa preta.
“Este”, disse, “é um homem eminente, John Stuart Mill. Ele foi uma autoridade na economia política”.
“Por quê?”, perguntou Bertie.
“Bem, porque ele quis; ele pensou que seria uma coisa útil de se ser”.
Bertie deu um grunhido expressivo, que transmitiu a sua opinião de que essa seria uma vontade estranha.
Um outro edifício quadrado saiu da caixa, desta vez com janelas e chaminés.
“Um modelo da Associação Cristã da Mulher Jovem de Manchester”, disse Harvey.
“Há lá algum leão”?, perguntou Eric com esperança. Ele vinha lendo história romana e pensou que onde houvesse Cristãos você poderia esperar razoavelmente encontrar alguns leões”.
Se eu fosse o dono de uma editora, “há algum leão?” seria a pergunta eliminatória que eu faria para os escritores que submetessem seus manuscritos. Em caso negativo… Mas divago, porque tudo isso era apenas desculpa para indicar o site The Art of Manliness (via Stefan McDaniel), que trata de mordidas de cobra, caçadas, guias para dar gorjeta como um gentleman, para arrombar uma porta, há perfis periódicos (veja o com Viktor Frankl), enfim, tudo que você precisa saber para não acabar ganhando o Sissy Awards de 2008.
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A Intolerância dos Tolerantes
Data do post: 23 de julho de 2008
“Há um tipo de… terror intelectual nesta cidade. As pessoas estão aterrorizadas; elas estão com medo de dizer o que pensam. O que Gary (Sinise) está fazendo para fornecer ajuda e consolo às vítimas é admirável, e eu o aplaudo por isso” – David Horowitz, falando no Washington Times de hoje sobre o “Friends of Abe” – belo nome -, grupo underground de Hollywood criado para reunir os atores que não rezam segundo a cartilha politicamente correta dos estúdios americanos.
Pouquíssimos participantes admitem publicamente o seu envolvimento, com medo de acabarem blacklisted pelos chefões da indústria. They name names… Pensando em The Front – de longe, o pior filme de Woody Allen –, é quase possível sorrir com a ironia de tudo isso. Via Andrew Sullivan, na Atlantic Monthly.
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Chesterton sobre o politicamente correto
Data do post: 17 de julho de 2008
And the problem for Obama is that people tend to vote for a presidential candidate they feel personally comfortable with. If people aren’t comfortable with humor about Obama – if they’re reluctant to laugh at him for fear of being thought racist, or of crossing some line of political correctness – then some of them probably aren’t comfortable with him, period.
Palavras de Noam Sheiber que me parecem chestertonianas, a respeito das gozações que não deram certo (ao menos no caso da democrata New Yorker, em cuja capa foi publicada uma charge, vamos dizer assim, provocadora – fogo amigo?). Se não podemos tirar sarro, então há alguma coisa errada. Não é que devamos estimular a sátira de mau gosto que tanto se pratica, e muito menos o racismo ou a intolerância religiosa.
O perigo do politicamente correto começa pela ausência de senso de humor. Qual não foi a minha surpresa quando, ao procurar uma passagem de Chesterton sobre o assunto, aleatoriamente, encontrei de cara justamente essa aqui: “It is the test of a good religion whether you can joke about it”?
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