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Grandes homens numa hora dessas?

Filed under: Filosofia incluído por Julio Lemos
Data do post: 22 de junho de 2008

As sociedades modernas – pensemos por exemplo na canadense –, altamente diferenciadas e complexas, estão divididas em inúmeros compartimentos: de corporações e instituições públicas a pubs irlandeses e casas de strip-tease, passando pelos cada vez mais raros “lares” nos quais habitam as… famílias, ou o que quer que seja.

Se essa rápida descrição é insuficiente para dar uma idéia da complexidade moderna, ao menos basta para nos levar à conclusão de que nela não há espaço para os “grandes homens”. As razões para isso? Bem, talvez possamos dizer simplesmente que as pessoas não têm idéia do que é um “grande homem” e portanto não sabem por onde começar.

Para Aristóteles – e então voltamos para a Atenas do séc. V a.C. –, um homem que conseguisse unir na prática um ideal de excelência pessoal a uma ação marcante na sociedade civil, mesmo que isso se limitasse a uma influência quase imperceptível sobre os demais homens do seu tempo e espaço – esse homem seria grande.

A pergunta então seria: podemos imaginar um homem magnânimo vivendo no século XXI?

O exemplo dado por Aristóteles é o próprio Sócrates. Mas Sócrates habita um contexto muito distinto do nosso. Não podemos imaginar algo como uma figura “togata” (de toga…) nas ruas de Montréal; isso seria ridículo. Poderíamos dirigir a esse homem hipotético a acusação feita por um personagem de Bernard Shaw em Pigmaleão: “você é um insulto à nossa arquitetura”.

As virtudes são encarnadas num contexto concreto, por uma pessoa determinada, com um nome e uma história de vida particular. Esse contexto pode ser entendido se pensamos no nosso próprio entorno público-privado: nossa família, amigos, instituições que nos influenciam. Se pensamos em nós e na nossa própria situação, o nosso contexto está dado. E a compreensão do que seria um contexto para os outros (na e fora da nossa época e espaço) nos vem imediatamente, e assim podemos aplicá-lo a qualquer pessoa. Cada uma com o seu.

O caminho para a magnanimidade é muito simples: basta imbuir-se seriamente de histórias cheias de homens interessantes e que pensam “grande”, e logo logo estaremos pensando e agindo como eles. E só então poderemos ser grandes dentro das nossas circunstâncias pessoais.

Resolvo o primeiro problema: o das sociedades modernas. Não importa a complexidade na qual estamos inseridos. O modo de atuar do homem continua, essencialmente, o mesmo. Nos comunicamos por meio de uma língua corrente; lemos livros; e, mais importante, conversamos com as pessoas. E ainda temos acesso a um banco de dados imenso de histórias sobre as virtudes mais diversas (o nome disso é “civilização”); todos esses exemplos estão aí para serem imitados, sem medo do politicamente correto e da mediocridade.

É por isso que, vez ou outra, surgem grandes almas como Chesterton, Madre Teresa de Calcutá – veja-a cuidando de aidéticos em Nova York e terá uma idéia clara da magnanimidade, presente em alguém que talvez nunca tivesse lido Aristóteles – e Bruno Tolentino, com o qual pude conversar calmamente enquanto íamos ao… dentista.

E por que só exemplos de homens que já se foram? É a vez de parafrasear o velho Estagirita de novo: só se sabe o que um homem é depois que o ciclo da sua vida se fecha.


Comments (6)

6 Comentários »

  1. Texto límpido, Julio.
    E vem muito a calhar…

    Comentário by Filipe — 22 de junho de 2008 @ 1:53 pm

  2. os homens sao “grandes quando inclusive compreenem o fim do seu próprio ciclo, ainda que continuem vivos. E por isso vou celebrar os 90 anos de Mandela para justificar o que eu digo.Quem quiser celebrar um grande homem, ainda vivo, pode ir para o endereco
    http://www.happybirthdaymandela.com ou entao escrever a respeito dele e publicar aqui. Eis o desafio.abracos,livia

    Comentário by livia — 23 de junho de 2008 @ 6:57 am

  3. Engraçado, Julio, você mencionar justamente hoje as sociedades modernas e citar como exemplo a canadense.
    Hoje mesmo recebi uma notícia a respeito de uma decisão judicial no Canadá em que uma juíza anulou o castigo aplicado por um pai à filha adolescente que desobedeceu suas ordens de ficar longe da internet(publicada no site Espaço Vital). De acordo com a notícia:”A menina processou o pai depois de ser proibida, por ele, de participar de uma viagem escolar, que se realizará nas próximas férias, em agosto. A atitude do pai foi uma punição pela desobediência da filha, que apesar de suas ordens, continuou entrando em saites de bate-papo (que ele já havia tentado bloquear) e colocou fotos “impróprias” na web.”
    Comentei que essa notícia impressiona por revelar a intromissão do Estado, absolutamente indevida e inadmissível a meu ver, em assuntos privados dos cidadãos, demonstrando o que parece ser uma tendência nas sociedades “modernas” em que o Estado vai avançando cada vez mais no âmbito da intimidade das pessoas e das famílias, interferindo em questões e em valores que até então se inseriam exclusivamente na esfera privada sobre as quais havia total respeito, violando a liberdade individual do cidadão até mesmo em assuntos como esse, da educação dos filhos, impedindo o exercício pleno do pátrio poder.
    Parece mesmo um relato saído das páginas de George Orwell em “1984″…
    E, já que você a mencionou, aproveito para cobrá-lo a respeito das informações sobre o livro que fala das cartas da Madre Teresa…Ah, e também aproveito para parabenizá-lo, a você a aos demais envolvidos, pelo site e tudo o mais, inclusive o merecido sucesso!

    Comentário by Ana Luiza — 23 de junho de 2008 @ 5:36 pm

  4. Ser virtuoso hoje é um contrasenso. veja o que já nos dizia o Eclesiastes: “Há um mal, que vi debaixo do sol, e que parece derivar do engano do príncipe: o insensato elevado a uma sublime dignidade, e os ricos (em prudência) postos em baixo” Eclesiastes 10, 5

    Abraço!

    Comentário by rodrigo — 25 de junho de 2008 @ 5:45 pm

  5. A virtude é uma palavra esquecida em nossa sociedade e, infelizmente, até mesmo no contexto familiar. Essa penetração do Estado é um dos aspectos que inviabilizam o nascimento de “grandes homens”, que, antes de tudo, são grandes porque cultivam uma interioridade rica e têm uma consciência muito particular das coisas como são. Lamentavelmente, o resultado óbvio é que vivemos numa época mediocre, onde as pessoas não acreditam que possam ser algo .. e nem querem, pois seus ideais e valores não ultrapassam o limite de seu próprio ciclo de vida. Esse texto vai ao encontro de um outro, O ABANDONO DOS IDEAIS, de Olavo de Carvalho. Sugiro como leitura, caso ainda não conheçam.

    http://www.olavodecarvalho.org/apostilas/ideais.htm

    Parabéns pelo texto Julio!
    Abraços!

    Comentário by Ari — 16 de julho de 2008 @ 6:11 pm

  6. Texto preciso e necessario. Melhor seria esperar o ciclo do seculo terminar. ”O grande homem é aquele que compreende as necessidades fundamentais de sua época e decica a elas sua vida”. Os exemplos estão em toda parte

    Comentário by cauim ferreira — 2 de fevereiro de 2010 @ 3:10 pm

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