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Shame e o Valor do Sexo

Filed under: Cinema incluído por Ieda Marcondes
Data do post: 30 de março de 2012

Ao falar sobre sexo, podemos sempre recorrer a Nelson Rodrigues. Para ele, começamos a nos desumanizar quando separamos o sexo do amor, e aqueles que praticam a “variedade sexual”, além de apodrecerem em vida, irão morrer na mais “fria, lívida, espantosa solidão”:

“Comecei a entender[...]uma verdade que havia de me perseguir a vida inteira: – o sexo faz canalhas (nunca houve um santo do sexo).

Nelson nos ensina que quem tem uma tem todas, mas quem tem todas não tem ninguém, e isso é justamente o que se passa com o personagem principal de Shame. Michael Fassbender interpreta Brandon Sullivan, um executivo bem-afeiçoado, solteiro, na casa dos 30, e completamente depravado. Ele não possui nenhuma estratégia específica para conquistar mulheres; elas parecem se interessar naturalmente, sem que ele tenha que se esforçar. Mesmo sem sofrer de falta de mulheres interessadas, ainda sente necessidade de contratar prostitutas, consumir todo tipo de pornografia e se masturbar frequentemente. Há, de início, uma certa glamourização do seu estilo de vida – quem não gostaria de ser bonito e bem sucedido com o sexo oposto daquela forma? O nu frontal, logo no começo do filme, não é totalmente gratuito, pois alguém com aquela aparência (George Clooney, na entrega dos Globos de Ouro, fez piada com o ator, dizendo que quando Fassbender joga golfe ele não precisa de taco) parece ter nascido justamente para o sexo.

Mas com a chegada de sua irmã Sissy (Carey Mulligan), o glamour começa a desaparecer.

Seria simplista dizer que o que perturba Brandon é uma atração reprimida que sente por sua irmã (apresentada ao espectador também nua) ou a impossibilidade de levá-la para a cama, sendo praticamente a única que se encaixaria na categoria de “mulheres impossíveis”. Ela, de fato, cerceia sua intimidade, limitando as práticas sexuais do irmão (sem deixar de experimentar as próprias), mas o que há de realmente perturbador nela para Brandon é o passado e, principalmente, o relacionamento que ela representa, ainda que ocasionado pelo sangue e não por escolha própria, mas ainda um laço afetivo, com direito a desgastes emocionais de todos os tipos.

Ambos parecem ter passado por experiências difíceis que o filme, felizmente, nunca faz questão de esclarecer, pois culpar uma infância repleta de abusos, por exemplo, empobreceria a complexidade das escolhas dos personagens. Sissy é cantora, tem um estilo diferente de se vestir e parece extrovertida, mas é obviamente frágil, instável financeira e emocionalmente, além de possuir tendências suicidas com as quais seu irmão parece já estar familiarizado (quando ambos estão aguardando a chegada de um trem, ela encara os trilhos morbidamente e ele logo manda que ela pare com isso). Brandon, por sua vez, se tornou um homem de carreira, frio e inexpressivo, que não vê sentido algum em relacionamentos, que dirá casamento, família, etc.

Há, na verdade, um bloqueio na atitude de Brandon, pois com as mulheres que poderia desenvolver algo de mais significativo, aquelas com as quais poderia realmente conversar e revelar coisas sobre si próprio, ele não consegue ir adiante com o sexo. O sexo só é possível com prostitutas ou mulheres comuns que ofereçam seus serviços gratuitamente, mas que, como ele, não queiram ou ofereçam nada além. Assim, o sexo logo se transforma em algo penoso, feito para saciar uma necessidade física e psicológica que o mantém a salvo de seus próprios sentimentos, de sua própria consciência. O sexo se torna um vício, como o álcool ou qualquer outra droga, no sentido que vai preenchendo um vazio que aumenta a cada vez que tenta ser aplacado.

Dirigido por Steve McQueen, o filme é um pouco mais longo do que deveria ser, mas trata-se de uma boa experiência cinematográfica que, em momentos, lembra algo de J.D. Salinger (como se Franny e Zooey Glass crescessem de uma forma terrível, mas ainda partilhassem alguns momentos belos de fraternidade). Para alguns, a cena em que Fassbender corre pelas ruas de Nova Iorque  de madrugada pode parecer desnecessária, mas além da beleza plástica da cena, ela serve para mostrar literalmente quão longe ele está disposto a ir para fugir de algo que o atormenta.

Há uma certa redenção para Brandon (depois, é claro, de chegar ao fundo do poço), mas o final é inconclusivo e não sabemos com certeza se ele realmente se regenerou. O que sabemos é que as tentações existem e se apresentam a nós diariamente, mas que há muito a perder quando cedemos a elas. Além disso, como o sexo só faz canalhas e nunca santos, há coisas mais valiosas e gratificantes para se experimentar.


Comments (3)

3 Comentários »

  1. [...] quando se vale de Nelson Rodrigues e J.D. Salinger para sustentar argumentos, como é o caso da resenha de Ieda Marcondes para o blog da revista de ensaios Dicta & [...]

    Pingback by Links cabeça da semana (e copos de plástico) | Blog Cabeça — 30 de março de 2012 @ 6:58 pm

  2. Ieda, vc e incrivel!

    Comment by Caio — 5 de abril de 2012 @ 2:53 pm

  3. A crítica mais lúcida, mais realista que, até agora, li sobre esse filme.

    Comment by Christiano Galvão — 13 de abril de 2012 @ 2:33 pm

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