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Astrologia Criminal

Filed under: Ciência incluído por Joel Pinheiro
Data do post: 9 de janeiro de 2012

Uma nota boba, mas que tem implicações interessantes. A polícia de Chatham-Kent, uma unidade administrativa em Ontario, Canadá, publicou os signos do zodíaco de todos aqueles presos no ano de 2011. E deu “vitória” ariana. Em último lugar deu sagitário, que ou seriam os mais pacíficos ou, na opinião de um astrólogo consultado pelo jornal, mais hábeis em escapar das forças de lei e ordem.

Bom, em primeiro lugar note-se que não houve nenhum esforço de calcular se a diferença entre os signos é significante (a amostra, afinal, não é das maiores: 1986 pessoas foram presas na região ao longo do ano). Independentemente disso, a ideia por trás da pesquisa é boa. Se os signos fazem diferença no caráter dos indivíduos, essas diferenças devem se traduzir em ações. Um signo, digamos, mais impetuoso, terá, em média, mais indivíduos que agem impetuosamente do que outro signo, digamos, mais meditativo.

Portanto, é possível testar empiricamente as afirmações da astrologia. Muitos astrólogos vêem com apreensão esses exercícios; o signo solar sozinho não diz muita coisa, diz um dos consultados pelo jornal. Mas por acaso dizem algo, por menor que seja? Se sim, então será possível medir seu efeito nos grandes números.

O grande problema da previsão astrológica acerca do indivíduo é que ela dá apenas tendências e estruturas básicas de comportamento, que podem inclusive ser contrabalanceadas por tendências contrárias ou pela decisão pontual do agente. É, portanto, impossível testá-la no caso particular, posto que as condições da vida humana não são as de um experimento controlado. Mas nas grandes populações as particularidades dos casos individuais se cancelam e prevalecem as tendências.

Dado que a astrologia tem se colocado como ciência, ou seja, não como um saber arcano e esotérico, os astrólogos deveriam ser os primeiros a querer testar suas previsões. As informações das quais ela tira conclusões são, ademais, perfeitamente observáveis e de fácil acesso (o mapa astral de cada um é função da data, hora e local de nascimento; todos eles presentes nos registros públicos de todo cidadão), não há nenhum empecilho a se realizar testes empíricos.

O bom de estudos estatísticos é que eles prescindem de explicar o porquê. Pode parecer uma deficiência, e é de fato quando queremos descobrir a causalidade que liga dois fenômenos correlacionados. Mas para estabelecer se existe correlação é um método muito apropriado. Seriam as características do signo explicadas pelo efeito gravitacional dos planetas e estrelas? Talvez por alguma outra energia natural não conhecida ou pouco estudada? Quem sabe se trata de algo verdadeiramente sobrenatural? Não importa. Para começar a especular sobre isso é preciso antes saber se existe de fato alguma relação observável entre a configuração celeste no momento do nascimento e o caráter do indivíduo que está nascendo. E isso a estatística nos permite avaliar plenamente.

Um estudo como esse da prisão canadense pode ser refinado: considerar apenas os criminosos violentos, por exemplo, e levar em conta não apenas o signo mas o signo junto do ascendente (ou quantas outras sutilezas astrológicas se quiser). É possível também testar as teses particulares que os astrólogos sustentam. Se Marte é um planeta que induz à violência, então é de se esperar que, tudo o mais constante, as pessoas que têm Marte como planeta relevante em seu mapa astral (confesso minha ignorância ao falar do tema) apresentem, em média, mais comportamentos violentos; algo facilmente testável. Testes semelhantes podem ser feitos para vários outros comportamentos e variáveis, como o desempenho profissional.

A grande questão, contudo, permanece: estarão os astrólogos dispostos a encarar os possíveis resultados negativos de estudos desse tipo? Ou reverterão a uma versão não-científica da astrologia, que depende de intuições e leituras pessoais do próprio astrólogo, e cujas previsões acerca do temperamento e caráter do indivíduo são, na prática, impossíveis de se testar? E, por outro lado, se os resultados forem consistentemente positivos, estará a comunidade científica pronta a aceitar mais uma ciência?

 


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O Inferno de Galileu

Filed under: História incluído por Joel Pinheiro
Data do post: 22 de janeiro de 2011

Galileu, em sua mocidade, deu uma série de palestras sobre o Inferno de Dante. O objetivo do futuro cientista recém-expulso da faculdade de medicina era mostrar como as descrições infernais do florentino eram fisicamente impossíveis. O trabalho era relevante pois diversos intelectuais consideravam o texto de Dante verdade literal e dedicavam-se a exprimi-lo geometricamente; havia até versões concorrentes.

Uma curiosa nota biográfica sem importância? O físico Mark Peterson argumenta, em seu livro Galileo’s Muse: Renaissance Mathematics and the Arts, que foi aí que a física moderna nasceu. Estava feita a primeira grande ruptura com o passado aristotélico-escolástico que engessara o desenvolvimento da ciência (muitas descobertas de Galileu e até de Newton já tinham precursores na escolástica – é só pensar em Robert Grosseteste, que, no século XIII, já defendia que o arco-íris era causado pela refração da luz em gotículas d’água suspensas no ar – mas estavam ainda por demais emaranhadas a uma concepção do universo largamente equivocada).

O assunto Galileu é sempre marcado por controvérsias e propaganda, e por isso não posso deixar de me pronunciar a respeito. Negar a genialidade do homem é tolice, assim como diminuir suas descobertas científicas (chegando, como fez provocativamente Paul Feyerabend, a dizer que Galileu estava errado e as autoridades eclesiásticas que o condenaram corretas). O homem foi um gênio, mas não foi a personificação da razão honesta contra a superstição violenta como muitos fazem crer. Rejeitou, por exemplo, a teoria (correta) das órbitas elípticas proposta por Kepler pelo simples motivo que o círculo é a figura perfeita e que portanto as órbitas tinham que ser circulares; um tipo de submissão da ciência à metafísica que era exatamente a fonte do erro de seus acusadores. Alguns de seus argumentos em favor do heliocentrismo foram notoriamente fracos (como o das marés, que via no movimento das ondas a prova de que a Terra se movia;  Beda o Venerável, no século VIII, estava mais próximo da realidade ao atribuir a causa das marés à lua). E as causas de seu processo na Inquisição têm tanto a ver com a intolerância de inovações intelectuais da época quanto com sua atitude arrogante e prepotente. Nada disso nega sua genialidade; apenas deixa evidente a tendenciosidade de uma história feita para confirmar preconceitos.


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A voz judaica no debate religião-secularismo

Filed under: Religião,Sociedade incluído por Joel Pinheiro
Data do post: 27 de janeiro de 2010

Nas disputas intelectuais entre ateísmo e religião, é incomum ouvir a voz do Judaísmo. Pois aqui está ela: num discurso incisivo, o rabino chefe do Commonwealth britânico lida com as principais questões que confrontam a religião: por que ela sobrevive até hoje, tendo sua morte sido prevista tantas vezes no passado, ao menos desde o século XVIII? Qual o lugar dela nas democracias liberais? E qual deve ser sua postura no futuro?

Homem bem versado na cultura ocidental, e que no passado já foi um estudante de filosofia cético, Jonathan Sacks aponta os paralelos entre a cultura ocidental contemporânea e a cultura grega em seu período de declínio. Políbio comentava  no século III a. C., sobre seus conterrâneos: ”O fato é que o povo de Hellas seguiu pelo caminho falso da ostentação, da avareza e da preguiça, e ficaram, portanto, indispostos a se casar, ou, se se casavam, a criar os filhos; a maioria estava apenas disposta a criar um ou dois.” É, algum paralelo há.

The fact is, that the people of Hellas had entered upon the false path
of ostentation, avarice and laziness, and were therefore becoming
unwilling to marry, or if they did marry, to bring up the children born to
them; the majority were only willing to bring up at most one or two.

No final das contas, argumenta o rabino, só a religião dá significado à vida humana. O mercado, o Estado, a ciência e mesmo a filosofia são incapazes de cumprir esse papel. E o homem anseia por significado. É por isso que, mais de dois séculos depois do Iluminismo, editores da The Economist escrevem um livro notando o fato surpreendente (que também surpreendera Tocqueville em suas viagens à América) que “God is back”.

O Judaísmo sempre foi parte da cultura ocidental, mas uma parte à parte: tem suas peculiaridades e traços distintos da cultura cristã. São esses toques (por exemplo – novamente reproduzindo o que diz Sacks – a teologia, que nunca foi muito dependente da metafísica aristotélica, e que portanto não se sente diretamente abalada quando a teoria da seleção natural questiona a idéia de finalidade na natureza; ou ainda a observação de que, para um rabino, é muito mais difícil pregar para judeus do que para gentios, algo que já ocorrera com os profetas) que dão ao artigo um interesse especial, para além da argumentação central do autor, bem embasada em fontes históricas, lúcida e lógica.

Enfim, aqui está o discurso.

E aqui um pequeno artigo de comentário sobre o discurso, que faz uma boa síntese dele.


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Perguntas Inconvenientes

Filed under: Sociedade incluído por Joel Pinheiro
Data do post: 17 de dezembro de 2009

A conferência sobre o clima em Copenhague já começou. E aí? Está cheio de esperança por um mundo carbon-free? Se você é um economista liberal, como eu, ou um amante da liberdade em geral, deve estar é muito apreensivo com o que aqueles burocratas vão inventar para aumentar seu poder e piorar nossa vida. Contudo, devo confessar, nutro no fundo da minha alma a singela esperança de que, como costuma acontecer nessas reuniões, cada um defenda o seu e no final nada mude. De minha parte, só queria que os ecochatos poupassem o meu ar. E não estou sozinho. É notório que entre os economistas o discurso ambientalista encontra resistência. Não nos dando por satisfeitos em louvar a ganância e oprimir os pobres, fazemos questão de um mundo poluído e desértico. Ciência lúgubre mesmo. Querem saber, na realidade, por que os economistas não aceitam o aquecimento global? É por causa de seu olhar cortante, que vê muito além do lado puramente científico do debate.

Continue a leitura no Instituto Mises Brasil.

E leia também este artigo que, inspirado por Robert Nisbet, afirma que os cientistas dissidentes do presente sofrem mais perseguição e são mais silenciados do que foi Galileu. Parte do problema, argumenta, é que o financiamento da ciência está muito mais concentrado. E quem o concentra? O Estado, claro.

ADENDO: E chequem ainda esta entrevista inesperada do nosso geógrafo Aziz Ab’Sáber indicada por nosso leitor. Com uma figura desse peso da intelectualidade brasileira adotando uma postura que podemos chamar de cética, ou ao menos não-alarmista, talvez a balança fique mais equilibrada no cenário nacional.


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Saber tudo sobre o nada

Filed under: Do lado de lá incluído por Luiz Felipe Amaral
Data do post: 17 de julho de 2008

Newton afirmou que via mais longe porque se apoiava em ombros de gigantes. A ciência moderna utiliza muito bem esse princípio, mas vê mais longe apenas ao custo de focar a visão em áreas cada vez menores.

A evidência é de artigo da Economist que divulga uma pesquisa de James Evans, da Universidade de Chicago. Segundo ele, a disponibilização de artigos científicos online, ao invés de estimular um aumento no número médio de trabalhos citados por acadêmicos, provocou uma diminuição. A explicação plausível é que cada vez menos os pesquisadores “batem os olhos” em artigos de áreas fora de sua especialidade.

A vítima óbvia desse fenômeno é a interdisciplinaridade. A questão que se levanta é: vale a pena saber tudo sobre a menor das partículas se o número de pessoas com esse conhecimento será sempre contado com os dedos da mão?


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A ciência torna a crença em Deus obsoleta?

Filed under: Filosofia incluído por Joel Pinheiro
Data do post: 30 de junho de 2008

O debate entre ciência e fé ganhou força nos últimos anos com a publicação de livros polêmicos que combatem a crença em Deus em nome da ciência. Em resposta, há defensores da religião que denigrem a razão humana e questionam o método científico enquanto tal, o que também tem aprofundado a aparente divisão entre os dois campos.

Outras vozes, na minha opinião mais razoáveis, argumentam que não há incompatibilidade alguma entre ciência e fé; o que não deve ocorrer é que uma tente responder questões próprias da outra.

É para levar à frente esse interessante debate que a Fundação John Templeton convidou importantes cientistas, filósofos e teólogos para dar sua resposta à pergunta: “A ciência torna a crença em Deus obsoleta?”

Entre os convidados estão o famoso psicólogo evolucionista Steven Pinker, o polemista ateu Christopher Hitchens, a filósofa Mary Midgley, o nobel de física William D. Phillips e o cardeal Schonborn, arcebispo de Viena, que tem escrito muito sobre o tema. Confiram os textos de cada um deles aqui.


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