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A união através da realidade

Arquivado em: Cinema incluído por Martim Vasques da Cunha
Data do post: 4 de fevereiro de 2010

Realmente, só Clint Eastwood, com seu Invictus, para me fazer ir ao cinema ver um filme que romantiza a figura de Nelson Mandela, figurinha-chave nos meios socialistas fabianos e, para quem não sabe, chefe de uma organização terrorista na África do Sul na década de 60 (tudo bem, o apartheid é um “genocídio ético”, mas nunca deve se combater um mal com outro mal).

Eastwood mostra que ainda é um mestre nos cinqüenta minutos iniciais, expondo um país desconhecido a todos nós com rápidos movimentos de câmara e um senso muito peculiar da ambigüidade humana. Mandela é retratado como um grande estadista e, se a história do filme for suficientemente verídica, tenho de dar o braço a torcer e assumir que o homem fez um “milagre” – pelo menos em termos políticos.

O “milagre” em questão é unir um povo profundamente cindido entre si, prestes a entrar em uma guerra civil, através de um argumento não-ideológico. O Mandela interpretado por um Morgan Freeman com gravitas moral é um autêntico praticamente da política do ceticismo, mesmo que não saiba. Em uma cena fantástica, os revolucionários africanos querem mudar o nome do time de rugby, o hino nacional e as cores da bandeira, tudo em uma canetada só, como fazem os sovietes do PT nas Confecons da vida. Mandela é avisado da loucura e aparece de surpresa; argumenta que , se eles fizerem isso, será justamente o que a “minoria branca” espera: a cisão completa. “A reconciliação começa com o perdão”, diz ele. Uma de suas assessoras o refuta: “Mas você deve atender às exigências do povo” – e então Mandela responde que não, ele não foi eleito somente para representar o povo, mas também para liderá-lo e, muitas vezes, avisá-lo que está completamente errado.

Exceto por duas cenas realmente constrangedoras para um cineasta do calibre de Eastwood (a saber: a seqüencia da visita da favela e o momento em que o personagem de Matt Damon entrega um ingresso à empregada negra), Invictus pode ser exibido como uma bela aula de ciência política. A moral da história é seguinte: é possível unir um país sem recorrer às ideologias abstratas; basta apenas encontrar pontos em comum que unem a sociedade, interesses que mexam com as virtudes e não com as paixões baixas do ser humano. No caso, o esporte mexe com a competitividade, que pode ir para a inveja ou para a rivalidade saudável. Foi esta última que o Mandela do filme explorou; e a conseqüência prática foi simples: impediu uma guerra civil. Se isso não foi um milagre – mesmo a curto prazo – é a prova concreta de que a única forma de unir as pessoas não são com idéias rocambolescas de igualdade e sim com o respeito ao real, a única autoridade a que um verdadeiro estadista deve se submeter ao governar um país.


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A pureza do desespero

Arquivado em: Cinema incluído por Martim Vasques da Cunha
Data do post: 2 de abril de 2009

Todos sabem que eu acredito que Clint Eastwood é o maior diretor vivo. Escrevi isso uma vez neste blog e alguns acharam minha afirmação um tanto impensada. Talvez sim, talvez não – confesso a vocês que não há uma linha minha que não tenha sido minimamente pensada. Portanto, quando vi Gran Torino, o novo filme dirigido e interpretado por Eastwood (lançado três meses depois do admirável A Troca), achei que tinha cometido algum equívoco.

O motivo foi simples: saí profundamente acabrunhado do cinema depois de tê-lo visto. A minha consorte perguntou o que eu achara e somente respondi que tinha de dar um prazo de dois anos para revê-lo e então decidir qual era a minha opinião definitiva.

Minha tristeza se devia ao fato do filme não apresentar nenhuma catarse emocional – aliás, característica marcante dos últimos filmes de Eastwood, de Bird, passando por Um Mundo Perfeito, até Menina de Ouro. Exceto por Unforgiven, em que a catarse vem por meio do anjo vingador (representado pela figura emblemática do próprio Eastwood, rementendo-nos ao Estranho Sem Nome dos westerns de Sergio Leone), apenas para denunciar o ciclo vicioso da violência, mas não para resolvê-lo, a obra do ex-prefeito de Carmel mostra sempre anti-climaxes, impasses, impotências, desilusões e – sobretudo – renúncias que culminam na auto-destruição. Como fã de carteirinha do homem, já deveria estar acostumado. Mas não fiquei. Talvez pelo fato do filme ser uma espécie de elegia a uma persona que Eastwood construiu na sua carreira, talvez porque tudo indica – afinal, o homem que masca arame farpado tem 78 anos de idade – que falta pouco para seu definitivo adeus, Gran Torino me deixou com um sabor amargo na boca.

Nada disso faz sentido se o leitor não tiver visto o filme e, por isso, saber o final surpreendente que nocauteia o espectador na sua meia hora final. Logo, se você NÃO viu o filme, PARE AGORA PARA NÃO RECLAMAR DEPOIS.

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Clint Eastwood é o maior diretor vivo

Arquivado em: Cinema incluído por Martim Vasques da Cunha
Data do post: 12 de janeiro de 2009

Esqueçam Godard. Esqueçam Manuel de Oliveira. Até abro uma brecha para Paul Thomas Anderson, David Fincher, Michael Mann e  Philippe Garrel. Mas não tenho dúvidas: Clint Eastwood é o maior diretor vivo. Querem provas? Vejam “A Troca” (Changeling), o filme que foi mal vendido só porque tem Angelina Jolie no papel principal. Aqui, Eastwood não é apenas “clássico” – adjetivo que os críticos usam só para querer classificar uma obra que já é permanente. Trata-se simplesmente do cúmulo do experimentalismo cinematográfico. Eastwood subverte nossas expectativas: a princípio parece ser um melodrama, depois torna-se uma denúncia política, vira um filme de terror e, quando ele chega ao fim, temos a sensação que observamos o sofrimento  e a redenção de uma mulher que sobreviveu ao inferno para contar a sua história para nós.

Comparem, por exemplo, a cena da execução de pena de morte de “Changeling” com a mesma situação filmada em “Crime Verdadeiro”, considerado uma obra menor em sua filmografia. A situação é a mesma: um homem será executado pela pena capital. Mas reparem como Eastwood se mantém íntegro na crítica ao Estado – que deseja cumprir o ato o mais rápido possível, sem se importar com os últimos momentos de vida do condenado -, e ainda reconhece que o criminoso é, de fato, culpado pelo crime atroz que cometeu (Em “Crime Verdadeiro”, sabíamos que o condenado era inocente). Como se não bastasse, “Changeling” é um filme complementar àquela obra-prima chamada “Mystic River”. Se naquele filme falaram que Eastwood era niilista, por deixar impune o ciclo de vingança, fica claro com “Changeling” que é possível encontrar uma conciliação interior depois do confronto com a ininteligibilidade do Mal.

E isso não é afinal o que queremos de qualquer obra de arte: que nos ajude a suportar o “pega-pra-capar” que é a vida? Eastwood sempre fez isso conosco e é algo que só um grande artista pode cumprir.


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