O Pastor Ateu
O Reverendo Klaas Hendrikse é pastor da Igreja Protestante Holandesa, mas suas crenças fogem um pouco do comum. Que o eventual leitor cristão não fique chocado por ele negar a ressurreição física de Cristo. Essa posição é das mais conservadoras, até tradicionalistas, dentre as que o pastor defende.
Pois o Rev. Hendrikse é da opinião que não só a ressurreição, mas a própria existência de Jesus Cristo são eventos simbólicos, mitológicos, assim como (na opinião dele) Sócrates ou Dionísio. Filho de Deus? Bem, para isso ter algum sentido Deus teria que ser uma coisa, existir de alguma maneira. E isso já seria ir longe demais no fanatismo. “Deus não é, de maneira alguma, um ser. Deus não é, de maneira alguma, uma coisa.” Aqui os estudantes de teologia tradicional podem até ver uma esperança, um insight apofático e inegavelmente ortodoxo. Para não dar margem a mal-entendidos, o entrevistador da BBC pergunta, perplexo: “O que é Deus?”, ao que o pastor responde: “É uma palavra para experiência, experiência humana.”
Seu livro “Acreditando num Deus Inexistente” provocou ultraje em setores mais tradicionalistas do protestantismo holandês, mas como suas opiniões são bastante difundidas entre outros pensadores da Igreja, o comitê decidiu mantê-lo em seu cargo. De fato, um estudo constatou que 1 em cada 6 clérigos da Igreja Protestante Holandesa é ateu ou agnóstico. Toda essa inovação doutrinal, missionária e até litúrgica (em outra igreja, os fiéis escrevem em placas coisas que impedem que a terra seja o paraíso – câncer, guerra, fome – e as destroem) tem como meta manter a religião relevante para uma população que vive num livre mercado de crenças e procura alguma satisfação espiritual, embora longe dos conceitos ultrapassados de “Deus”, “existência”, “certo” e “errado”, etc.
A quem espera algum tipo de vida eterna, algo que dê esperanças face à inevitabilidade da morte, Rev. Hendrikse já avisa: “Pessoalmente, não tenho talento para acreditar em vida depois da morte.”
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Encontro de culturas
O embaixador japonês na Santa Sé explica porque o Cristianismo permanece algo “estrangeiro” aos japoneses. Partindo de sua espiritualidade que mistura elementos de Budismo e Xintoísmo, Kagefumi Ueno enumera três pontos principais.
- Diferentes concepções do “eu” (ou “self”): para o japonês, é algo a ser superado e eliminado, para o ocidental, algo a ser afirmado e aperfeiçoado.
- Relação diferente com a natureza: para o ocidental, matéria inferior, para o oriental, algo divino a ser reverenciado.
- modo de encarar os valores: para os ocidentais, valores são absolutos e devem ser afirmados a qualquer custo (sejam os valores da fé cristã, da liberdade de imprensa ou dos direitos dos animais); já os japoneses consideram mais prudente relativizar os valores quando isso evitar a violência.
No fim das contas, a fala envereda para a economia, na qual, apesar das diferenças de fundo, o embaixador reconhece preocupações comuns entre a Igreja Católica e o Budismo.
Não vejo como discordar das idéias apresentadas (ao menos na parte inicial e mais importante), mas ao mesmo tempo fico querendo fazer a pergunta: “Sim, as diferenças culturais são reais; mas então qual das duas responde melhor aos anseios da natureza humana?”
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Uma luta muito antiga…
Data do post: 14 de março de 2010
Neste post esclarecedor, Richard Fernandez explica e comenta as raízes da luta entre cristãos e muçulmanos que desembocou, por exemplo, no massacre de 500 pessoas que ocorreu na cidade de Jos, na Nigéria, há cerca de uma semana – e que foi tratado com desprezo pela mídia e pela casta política (obviamente, se as vítimas fossem muçulmanas e não cristãs, tenho certeza de que a reação seria diferente).
Fernandez se inspira nas observações do prof. Philip Jenkins, que afirma claramente que o futuro do Cristianismo não se encontra mais no Ocidente secularizado e sim no Terceiro Mundo africano. Vejam só um trecho:
The relationship between Christianity and Islam poses a challenge for at least half of the 20 nations expected to have the world’s largest populations by 2050. By present projections, three of these future mega-states—Nigeria, Ethiopia, and Tanzania—will be almost equally divided between the two faiths. In several others, like the Congo, the Philippines, Russia, and Uganda, predominantly Christian nations will have Muslim minorities of 10 percent or more. Mainly Muslim states will coexist with comparable Christian sub-populations in Indonesia, Egypt, and the Sudan. In all of these places, if relations between the faiths do not improve over the next 40 years, prospects for civil order are terrifying. The world’s roster of failed states would have several new members.
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Nietzsche, o Cristianismo e Charles Taylor
Data do post: 11 de julho de 2008
Lendo uma resenha de A Secular Age (2007), última obra do filósofo canadense Charles Taylor, cheguei a uma carta interessante que Nietzsche escreveu em 23 de julho de 1881 ao seu amigo Franz Overbeck. Ela diz o seguinte (trecho selecionado):
Was das Christentum betrifft, so wirst Du mir wohl das eine glauben: ich bin in meinem Herzen nie gegen dasselbe gemein gewesen und habe mir von Kindesbeinen an manche innerliche Mühe um seine Ideale gegeben, zuletzt freilich immer mit dem Ergebnis der puren Unmöglichkeit (“No que diz respeito ao Cristianismo, espero que acredite no seguinte: que, no meu coração, nunca nutri por ele qualquer espécie de desprezo, desde a minha infância, e que muitas vezes lutei comigo mesmo tendo em vista os seus ideais; e que, ao fim, com certeza, essa luta sempre se chocou com a pura impossibilidade”).
Não seria de estranhar que eu encontrasse outras edições dessa carta com partes faltando ou, inclusive, um fragmento mais “quente”, que só pude encontrar em tradução para o inglês:
Christianity… is still the best piece of ideal life which I have really become familiar with.
Se alguém tiver outra edição, pode contribuir com uma cópia na caixa de comentários…
“E agora para algo completamente diferente”, aproveitem para ler a resenha citada, escrita para o excelente MercatorNet por Randal Marlin. Taylor é certamente um dos pensadores contemporâneos mais interessantes. E ainda está vivo.
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