Testemunha de um massacre
Data do post: 17 de março de 2011
Há livros que entram na categoria de testemunhos. Alguns deles são verdadeiramente históricos, e isso pode acontecer por dois motivos. Primeiro, porque o autor foi protagonista dos eventos que narra, sendo estes grandiosos e influentes. Um exemplo evidente dessa subcategoria são as memórias de guerra de Winston Churchill ou de De Gaulle, duas figuras de ação, dotadas, ao menos tempo, de uma sólida bagagem intelectual. Contudo, há muito lixo dentre esses testemunhos de protagonistas, porque são também uma forma fácil de ganhar dinheiro, aproveitando-se da própria popularidade e alimentando-a. Daí que políticos e gente famosa adore entrar nesse tipo de empreitada, como Tony Blair, Obama e Sarah Paulin, estes dois últimos contando dos seus sonhos e projetos. Os resultados são muito díspares, e não vou criticá-los, porque não os li, nem tenho interesse em fazê-lo. De fato, é preciso ser criterioso para encontrar aquilo que realmente ajuda e não é um mero panfleto datado.
O outro motivo para um relato desses ser histórico é que os autores, mesmo sendo gente então anônima e sem participação direta nas grandes decisões, possuem qualidades humanas extraordinárias, além de conseguirem descrever com talento e honestidade o que vivenciaram. Para mim, um dos mais importantes livros do século passado é Em busca de sentido – um psicólogo no campo de concentração, de Viktor Frankl, que entra exatamente nesta classe. Juntamos aí um homem brilhante, com enorme sensibilidade e talento literário, sincero e profundo, observando e descrevendo a vida em um campo de concentração durante o holocausto. O resultado não defrauda: é uma obra impactante, enriquecedora, que nos torna mais humanos e, se o permitimos, mais sábios. Acredito que esse livro deveria ser distribuído por todos os lugares, em cópias populares; é uma pena que não tenha a divulgação que merece.
Pois é exatamente com uma citação de Viktor Frankl que se inicia outro livro que incluo nessa mesma categoria: Sobrevivi para contar, de Immaculée Ilibagiza. São as lembranças de uma jovem de vinte e quatro anos, sobrevivente do genocídio de Ruanda, em 1994. Essa moça passou três meses em um banheiro, de aproximadamente 1,20 m2, junto com outras seis mulheres, enquanto o inferno acontecia à sua volta. Nada menos do que um milhão de membros da etnia tutsi foram massacrados em um par de meses. Ela esteve várias vezes a um passo da morte, com as milícias hutus procurando-a incansavelmente e revistando minuciosamente a casa em que ela se encontrava. Um armário diante da porta do esconderijo serviu para despistar os assassinos, o que ela atribui a uma intervenção da Providência.
Não quero adiantar história do livro. Apenas desejo comentar que ler sobre essas situações limite leva a ponderar a própria vida e a enxergar o mundo de uma maneira diferente. A selvageria humana, quando libertada dos seus freios, é algo assustador, que se repete com frequência em lugares e tempos díspares. Amigos e vizinhos, que a recebiam em suas casas, querem três dias depois – literalmente – esquartejá-la. A propaganda falsa e a instilação do ódio possuem uma eficácia diabólica. As centenas de milhares de cadáveres são o mais visível de uma tragédia como essa, e podem fazer com que duvidemos do homem e mesmo de Deus.
Contudo, para mim, esses eventos são uma das melhores provas de que Deus existe e o ser humano tem valor. Porque neles sempre aparecem respostas excepcionais, que dignificam a nossa espécie. A reação de Immaculée é impressionante, e culmina com o perdão aos assassinos da sua mãe e de seu irmão. A evolução espiritual dessa mulher, acontecida em um minúsculo banheiro, no qual ela passava os dias e noites em silêncio, apenas rezando e meditando, mostra que o mais importante é o que passa no interior do ser humano, e que suas ações decorrem disso. Quanto a Deus, se ele não estivesse presente, qual o sentido do sofrimento daquela gente? Interessante que Voltaire, em seu confortável escritório em alguma cidade europeia, escreva palavras indignadas contra Deus devido ao terremoto de Lisboa, enquanto os portugueses, que sofreram na pele o desastre, tenho certeza que rezavam e pediam ajuda à divindade.
A mesma lição traz a ruandesa. Seu testemunho está salpicado de relatos miraculosos, sobre os quais se pode ou não acreditar. O indubitável é a fortaleza de Immaculée, que ela afirma, uma vez e outra, tirar da oração. Lendo o que ela escreveu, é difícil deixar de lhe dar um voto de confiança. Sem alçar os voos psicológicos e mesmo literários de Frankl, ela foi capaz de legar um testemunho tão sincero e poderoso quanto o do psiquiatra judeu. Isso não é pouco! Conhecer a tragédia que se abateu sobre o povo ruandês, e a maneira como essa jovem superou-a, é uma lição valiosa.
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Islã na Encruzilhada dos valores
Talvez seja cedo para dizer, mas tudo indica que as atuais revoltas populares no mundo islâmico terão impacto duradouro. Por décadas ditadores permaneceram no poder sem grande contestação, e agora nenhum deles sente-se seguro. É possível que haja alguma conspiração por trás dessas revoltas; mas pela primeira vez na história não é necessário, como bem argumenta Gary North. As redes sociais, devido a seu baixíssimo custo de entrada, permitem a publicação dos sentimentos e a articulação de movimentos de massa sem organização central. Ela também diminui muito a possibilidade de reação do governo. Se em décadas passadas um regime autocrático não hesitaria em abrir fogo contra os manifestantes, seguros de que poucos fora dali ficariam sabendo, hoje é uma questão de minutos entre o disparo de uma bala e a transmissão da morte de um civil a milhões de computadores.
A grande questão é o que sairá desses movimentos. Há fortes traços islamistas, o que não impede que cristãos tomem parte (apesar das sempre cautelosas palavras do papa Shenouda III pedindo oração e não-participação; o momento é extremamente delicado). Islamismo não necessariamente significa algo pior ou mais odioso do que o que está no poder agora. É um fato curioso: governos seculares de países islâmicos incentivam a propagação do salafismo wahhabita importado da Arábia Saudita, pois ele nada tem a dizer de política, e portanto apresenta menos perigo imediato ao governo do que islamismos menos fundamentalistas mas mais politizados.
Rashid Ghannouchi, que voltou à Tunísia depois de anos exilado, defende governo secular, direitos das mulheres e poder aos sindicatos. Sua mensagem, embora sempre baseada no Corão, é essencialmente a mensagem de um movimento social por direitos humanos, sem nada do fanatismo de uma Al Qaeda. No próprio Egito, pouco antes dos ataques, foi publicado o “Documento de Renovação do Islã” assinado por diversos intelectuais; seu conteúdo é surpreendentemente moderno. Jihad, por exemplo, só defensiva e em terras islâmicas; convivência entre homens e mulheres aceita em universidades e ambientes de trabalho. Pode parecer pouco, mas se trata de um país onde, devido à influência saudita, o próprio convívio social entre os sexos ia sendo proibido, e no qual as mulheres são constrangidas a usar roupas cada vez mais “modestas”.
A principal característica do Islã saudita é a preocupação exclusiva com a adesão exterior a preceitos legais; todo homem deve ter barba e usar túnica, toda mulher deve estar completamente coberta, todo intercâmbio social entre os sexos é proibido, não se pode ter conta em banco, etc. Recentemente uma mulher perguntou a um doutor da lei em seu programa de rádio o que ela deveria fazer agora que as circunstâncias a obrigavam a trabalhar no mesmo recinto que um homem. O doutor sugeriu que ela amamentasse o colega. Sim, você leu isso mesmo: que ela desse de mamar a ele do próprio peito, e dessa forma seriam como mãe e filho, e portanto livres do risco da fornicação. No limite, o legalismo viola o espírito de suas próprias leis. A reação pública foi geral. A mesma reação que está por trás do documento dos intelectuais e das revoltas populares.
O discurso salafista (do qual o wahhabismo é uma vertente) de se manter fiel às práticas das primeiras gerações parece perder legitimidade entre o povo (ufa! Resta algum bom senso!). O documento dos intelectuais também adota o discurso de se preservar os valores originais do Islã. Só que, para eles, os valores não são a barba e o niqab, e sim “liberdade, igualdade, conhecimento, justiça e ciência”. Se isso tudo estava de fato na origem do Islã eu não sei; mas é bom que os intelectuais advoguem tais coisas.
Ao mesmo tempo em que as revoltas nos dão motivos para ter esperança, elas também trazem algo de preocupante. É o medo de dizer abertamente o que está em jogo, de apontar o verdadeiro valor a ser defendido, que acaba tomando segundo plano para uma outra bandeira que é necessariamente secundária: a democracia. Colocar a esperança na democracia enquanto tal é ingênuo. Ahmadinejad foi eleito democraticamente; seria ele muito melhor que Mubarak? Democracia é uma forma de se organizar o funcionamento da política; ela não traz consigo nenhum conteúdo; será o que a maioria quiser. E se a maioria quiser uma teocracia islâmica na qual cristãos e judeus pagam impostos extras e membros de outras religiões são expulsos ou mortos, é o que terão, democraticamente. O ponto fundamental, o valor que a democracia supostamente defende melhor do que outras formas de governo e por isso deve ser preferida, é o respeito aos direitos individuais. Sem isso, não há governo justo e não há esperança de melhora. Há algo de angustiante em um intelectual cristão animado com o prospecto de democracia no Egito (num dos artigos acima citados), sob a qual a minoria cristã (entre 5% e 10%) poderia ser representada. Mas minoria no governo não significa nada; nem uma maioria significa se não há comprometimento do Estado em fazer valer os direitos individuais, como o Líbano tem mostrado claramente. A bandeira tem que ser os direitos individuais; não a democracia e não o direito das religiões ou das minorias; pois aglomerados não têm direitos, e é perfeitamente possível representar uma minoria oficialmente no governo e ainda assim tratar muitos de seus membros como cidadãos de segunda classe (por exemplo, impondo infinitas restrições à sua fé, como ocorre na Turquia, onde é praticamente impossível conseguir permissão para coisas como consertar o telhado de uma igreja), deixando os representantes oficiais da minoria a choramingar por uma tolerância cada vez menos respeitada. O que realmente importa é o direito individual, que inclui o direito a aderir à religião que lhe parecer verdadeira (e cujo corolário é, portanto, o direito a mudar de religião sem qualquer sanção), até mesmo se ela não constituir uma minoria significativa.
Os direitos individuais são a pedra de toque para saber se uma convivência minimamente harmônica entre Ocidente e Islã é possível. O que distingue o Ocidente das demais civilizações é sua base espiritual, que se concretiza em posições filosóficas: a afirmação da razão humana como eficaz para conhecer a realidade e, como consequência disso, a descoberta de uma moral objetiva. Um dos maiores méritos de S. Tomás de Aquino é exatamente esse: a elaboração racional da ética sem necessidade de fé e não circunscrita a um “povo eleito”. Nossos direitos universais inalienáveis são descendentes diretos da lei natural de S. Tomás. É muito significativo que, nos séculos XVI e XVII, enquanto a Espanha expandia seu império e escravizava povos inteiros, os teólogos de Salamanca afirmassem que os índios tinham direito às suas terras e liberdade, que nada justificava o roubo de suas posses e sua escravização, nem mesmo a recusa em se converter ao Cristianismo. Parece pouco, dado que os crimes ocorreram sem grandes empecilhos práticos? É verdade, ocorreram; mas ninguém duvidava seriamente de que eram crimes, ou seja, violações de uma ordem moral objetiva. No campo do espírito Salamanca venceu, e isso fez toda a diferença.
As grandes conquistas do Ocidente decorrem da afirmação da eficácia da razão humana no plano teórico e dos direitos individuais no plano prático. A ciência, a arte, a riqueza são consequências disso. Os muçulmanos não têm nenhum pudor em se apropriar da tecnologia ocidental (embora incapazes de contribuir eles próprios com ela) e de certas filosofias ocidentais. Marxismo, relativismo, desconstrucionismo; de fato, todas vieram do Ocidente; mas o que as caracteriza é justamente a negação daquilo que nos constitui. A razão humana é incapaz de conhecer o mundo real, e o discurso moral e político não passa de máscara para jogos de poder. Elas caem como uma luva para uma visão de mundo fideísta como é a do Islã convencional (e isso vem de muitos séculos): a razão é impotente, portanto tudo é questão de fé, e portanto ninguém tem como criticar minha fé. Não há certo e errado objetivos, apenas vontades arbitrárias em conflito; portanto, entreguemo-nos à vontade arbitrária de Deus; e ninguém pode questionar as minhas práticas. Como evidência deste casamento funesto apresento este artigo de opinião pós-moderno da Al Jazeera.
A grande questão nas atuais manifestações é se os muçulmanos serão capazes de aceitar (e eu acredito que serão, pois o bom senso natural do homem está do nosso lado) o nosso verdadeiro patrimônio, a idéia de direitos individuais válidos para todo e qualquer homem, que é o que permite que a democracia não degenere na mera vontade tirânica da maioria. A outra possibilidade é bem representada pela queima de uma efígie de Mubarak com a estrela de Davi desenhada no rosto. E daí teremos mais do mesmo: nações pobres espiritual e materialmente por restrições irracionais auto-impostas, violando a dignidade de seus próprios cidadãos e atribuindo suas mazelas a terceiros que não têm nada a ver. Importa se isso ocorre democrática ou ditatorialmente?
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São Tomás de Aquino hoje
O dia 28 de janeiro é a memória litúrgica de São Tomás de Aquino, provavelmente o mais importante pensador cristão – é difícil dizer isso quando lembramos de Santo Agostinho, mas acredito que o próprio Bispo de Hipona subscreveria hoje a minha afirmação –, com contribuições essenciais em todos os campos da filosofia e da teologia. Tendo morrido em 1274, com menos de cinquenta anos, sua extensa obra continua uma fonte inesgotável de sugestões, surpresas e – o fundamental – verdades.
Sua vida foi bem mais movimentada do que parece à primeira vista, tendo em conta a concepção esquemática e falsa que podemos ter a respeito de um frei mendicante da Baixa Idade Média. Basta lembrar que Tomás foi sequestrado pelos irmãos quando jovem; ministrou aulas na Universidade de Paris em um momento agitado, quando as disputas intelectuais geravam paixões intensas, que quase o fizeram ser agredido por uma turba de alunos de professores rivais; defendeu o ideal de vida mendicante, duramente atacado por sacerdotes seculares em uma polêmica aguda; morreu dirigindo-se a um Concílio que pretendia unificar o cristianismo ocidental e oriental, meta até hoje presente na Igreja.
Devo confessar que não apenas admiro o teólogo italiano como um sábio. Tenho uma enorme simpatia por ele, porque era um homem discreto, alegre, humilde, corajoso, amigo e trabalhador. Contudo, é comum que as pessoas o enxerguem como um intelectual sistemático, árido e demasiado lógico, que deixaria de lado aspectos importantes do ser humano, tais como as emoções e a beleza. Um grande amigo, quando critico o que considero a confusão das suas ideias – que normalmente são bastante boas! –, responde-me que sou um “aristotélico-tomista”, e por isso não o compreendo…
Esse tipo de preconceito está bem afastado da realidade. Contam, por exemplo, que quanto Tomás pregava em Nápoles, no final da sua vida, o povo saía da Igreja chorando e batendo no peito, emocionado pelo que ouvira (é verdade que o napolitano não é propriamente fleumático, o que não tira o mérito do santo, ora essa!). Ademais, nosso santo escreveu o ofício do Corpus Christi e o hino Adoro Te devote, obras de arte consumadas, autêntica poesia dificilmente superável.
Hoje, há alguns ótimos livros sobre o Aquinate lançados no Brasil. Vou indicar uns poucos, que podem servir de introdução segura ao estudo do Doutor Angélico. Em primeiro lugar, as duas obras de Jean-Pierre Torrell, OP, publicadas pelas Edições Loyola: Iniciação a Santo Tomás de Aquino – sua pessoa e obra (2ª ed., 2004) e Santo Tomás de Aquino, mestre espiritual. O dominicano francês condensou nelas o trabalho de uma vida dedicada ao estudo do seu confrade, sendo muito bem sucedido. O primeiro livro é uma biografia no sentido clássico, a melhor até hoje existente sobre o santo; o segundo, uma análise da vida interior de Tomás a partir dos seus escritos, uma autêntica jóia, que merece ser estudada com vagar, degustada como o bom vinho.
Mais simples, sem por isso ser menos profunda, é a biografia escrita por Chesterton, Santo Tomás de Aquino. O escritor inglês é sempre brilhante, e não fugiu à regra ao tratar de seu pensador favorito. Há várias traduções, sendo que costumo utilizar a de Carlos Nougué, ele mesmo um amante do tomismo.
Temos hoje no Brasil bons estudiosos da filosofia e teologia de São Tomás. Em primeiro lugar, preciso reconhecer o trabalho admirável de Paulo Faitanin, professor da UFF, em Niterói. Junto com gente talentosa, como Rodolfo Petrônio, da UniRio, e Daniel Pêcego, da UFRRJ, dá vida ao Instituto Aquinate, cujo site sobre o tomismo é excelente. Publicam com constância e qualidade, com pouquíssima estrutura. Eu gostaria de possuir a disciplina e a seriedade desse pessoal!
Outros professores tomistas são o Carlos Frederico e o Sérgio Salles, ambos da UCP. São influenciados pela linha de Cornelio Fabro, que é uma das mais importantes no tomismo das últimas décadas, e cujos pontos centrais me convencem plenamente. Os dois são jovens, estudiosos e excelentes transmissores de conhecimento, o que permite prever-lhes um futuro brilhante. O mesmo se pode dizer de Omayr José de Moraes, responsável por admiráveis edições dos Comentários de São Tomás sobre o Pai Nosso e a Ave Maria.
Para terminar, gostaria de indicar dois livros não lançados por aqui. O primeiro, The metaphysical thought of Thomas Aquinas (2000), de John Wippel, é para quem tem intimidade com o pensamento tomista, não uma porta para nele adentrar. Acredito que seja o melhor a respeito da metafísica de São Tomás, o núcleo da sua filosofia, e corrige alguns pequenos erros de tomistas anteriores. O outro, Les sources de la morale chrétienne, de Servais-Théodore Pinckaers, OP, representou uma impressionante renovação da ética do ponto de vista do Doutor Comum. Pois é, a volta à fonte é a melhor maneira de se rejuvenescer. Está extraordinariamente bem escrito, um deleite para a inteligência.
Bastantes escritos de São Tomás vieram à luz no Brasil recentemente. A edição da Suma Teológica, da Loyola e da Vozes, é bastante aceitável, apesar de dar a impressão em alguns momentos de ter sido traduzida do francês, não diretamente do latim. Vale a pena esperar para que a Editora Sétimo Selo continue seu serviço de publicar obras inéditas do santo, que começou muito bem.
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Filosofia do terrorismo
Responda rápido: qual o grupo que mais sofre violência e discriminação no mundo? Se você respondeu os cristãos, acertou. E o fato mais alarmante é que a situação tem piorado; onde outrora cristãos e muçulmanos viviam em paz agora vigoram a intolerância e o terrorismo. No Oriente Médio a situação é extremamente grave. O êxodo de cristãos é maciço. Países com grande população cristã tradicional, como Líbano e Egito, têm virado palco de violência constante.
No Egito, particularmente, o fim do ano foi marcado pelos ataques a igrejas coptas (a principal Igreja do Egito, que se separou do ramo maior da Igreja no século V). O jornal Ahram publicou um editorial exaltado, no qual o autor, incrédulo quanto às mudanças de atitude islâmica que ele observa, acusa não só os fundamentalistas, mas também os moderados que, ainda que não partilhem das conclusões, aceitam passivamente as premissas do preconceito que alimenta o terrorismo, e os intelectuais que, embora deplorem a violência, não tomam atitude nenhuma. Resta saber, contudo, qual a “única opção” que o autor tem em mente; seria a resistência armada? O Papa Shenouda III (“Papa” é como o Patriarca de Alexandria – ou seja, o bispo supremo do país – é tradicionalmente chamado), num comunicado algo decepcionante, espera que a solução venha do governo e da lei que torna a todos iguais. Num momento em que as próprias instituições políticas refletem os preconceitos crescentes na sociedade, parece-me ingênuo; seus chamados à calma, à paz e ao diálogo são sensatos e justos, mas só funcionam se o adversário der um mínimo de valor à dignidade humana enquanto tal, o que não é o caso dos fundamentalistas. Por outro lado, mostrando que as palavras do Papa egípcio têm sabedoria, uma iniciativa muito positiva foi tomada por muçulmanos que se comprometeram a servir de escudos humanos nas igrejas para evitar futuros ataques. Isso eleva o cacife do jogo, pois a cada novo ataque tenderá a aumentar a rejeição da população muçulmana normal ao islamismo fundamentalista e político. Isso é o que se espera; na prática, até agora, o discurso fundamentalista tem encontrado mais e mais eco na maioria moderada.
Quais as causas desse crescimento da tensão religiosa? Há um fato observável: o islamismo de tipo salafi, ou fundamentalista (considera que a regra do Islã são as práticas das primeiras três gerações de fiéis; tudo o que veio depois deve ser recusado), tem crescido. Seu principal idealizador foi o sunita Abd-Al-Wahhab, fundador da detestável seita wahhabita. O maior incentivo institucional ao wahhabismo vem da monarquia saudita, que sempre aderiu a essa escola de pensamento, tendo até destruído lugares santos islâmicos (como a tumba do neto de Maomé e a de Fatima, uma de suas filhas) por supostamente incentivarem a idolatria. Que os EUA continuem a ter os Sauditas como aliados ao mesmo tempo em que levam adiante uma guerra ao terror é no mínimo embaraçoso. Mas é claro que o wahhabismo não é a única fonte do terrorismo. É só lembrarmos de Sayiid Qutb (Martin Amis nos introduz à vida e pensamento desse personagem singular, dentre muitas outras considerações sobre o Islã, o Ocidente e a religião em geral neste artigo de 2006), cujo pensamento revolucionário é uma da grande influência dos membros da Al Qaeda. Em comum todas têm o desejo de um Islã puro e sem acréscimos.
O Cristianismo também tem seu fundamentalismo, seu movimento de volta às raízes supostamente puras pré-institucionais, presente em alguns grupos protestantes. A diferença é que eles, por mais questionáveis que sejam suas crenças e atitudes, não estão explodindo ninguém. Há algo diferente no Islã.
Qual a causa espiritual mais profunda dessa facilidade para o fundamentalismo e a militância violenta (que existe em todas as religiões, mas aqui encontra condições mais propícias)? Algo da resposta pode ser econtrado aqui: The Closing of the Muslim Mind. Na opinião de Robert Reilly, o autor, o problema não é uma consciência revestida do sobrenatural (como argumentaria Martin Amis acima linkado), mas sim o tipo de sobrenatural do qual ela se reveste. O Islã já nos deu grandes mentes. A teologia racional, no entanto, bem como todo o ímpeto científico, foram condenados no berço; houve um período de conflito intelectual, assim como houve no Cristianismo (e a vitória, no Ocidente ao menos, foi para o lado que afirma o valor da razão), mas no final das contas a posição denominada asharita venceu. O que ela ensina? Tudo é vontade arbitrária de Deus e ponto final. Na filosofia da natureza, isso significa negação da causalidade; na ética, negação da lei natural. Na prática, sociedades miseráveis e homens-bomba. Ao homem cabe calar sua razão e se submeter; aniquilar tudo que não a fé. Isso coincide com o que viu e descreveu V.S. Naipaul na sua Wriston Lecture no Manhattan Institute em 1990.
Em dias normais sou um otimista e acredito no que há de sadio, tolerante e belo no Islã. Mas notícias como as atuais acentuam seus aspectos mais sombrios: o vazio interior, a violência, o totalitarismo do sagrado na vida do indivíduo. Resta saber se são aspectos contingentes ou necessários dessa que é a segunda maior religião do mundo e com a qual, querendo ou não, teremos de conviver.
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A chaga do Cristianismo
Data do post: 20 de dezembro de 2010

(É Natal, como todos sabem. Toda vez que chega esta época penso igual a T.S. Eliot em seu poema Journey of the Magi: That this was all folly. Tudo isto aqui é uma tolice só. Seria verdade? O Natal coloca o mundo em sua verdadeira perspectiva – isto é, em absoluto ceticismo que paradoxalmente nos abre para algo maior. Abaixo, um texto antigo que tenta mostrar, talvez mais para mim mesmo do que para o leitor, como o Cristianismo consegue – e conseguirá – prevalecer, independentemente de todas as chagas que o consomem e que são produzidas justamente por seus membros mais devotos.
Ah, sim: entro em recesso a partir de agora. Volto só no dia 20 de janeiro de 2011. Feliz Natal e um Próspero Ano Novo aos leitores e leitoras que me acompanharam neste blog e na revista. Obrigado pela leitura e pelo silencioso apoio.)
“O cristianismo, identificando verdade com fé, deve ensinar – e, adequadamente compreendido, de fato o faz – que qualquer interferência à verdade é imoral. Um cristão com fé nada tem a temer dos fatos; um historiador cristão que estabelece limites para o campo de investigação, em qualquer ponto que seja, está admitindo os limites de sua fé. E, naturalmente, também destruindo a natureza de sua religião, qual seja uma revelação progressiva da verdade. Por conseguinte, o cristão, a meu ver, não deve ser impedido, nem no mais leve grau, de seguir o fio da verdade; com efeito, é, positivamente, fadado a segui-la. De fato, ele deveria ser mais livre que o não-cristão, comprometido por princípio com sua própria rejeição. Em todas as circunstâncias, procurei apresentar os fatos da história cristã do modo mais verdadeiro e mais cru de que sou capaz, deixando o resto para o leitor”.
Paul Jonhson, no prefácio da sua “História do Cristianismo”.
O evangelho de João diz que, depois que Cristo morreu na cruz, soldados romanos quebraram as pernas do primeiro homem que estava ao lado dele, e depois as do segundo. Quando chegaram a Jesus, decidiram, repentinamente, não quebrar suas pernas. Conta o discípulo amado (João 19:34-37): “Em vez disso, um dos soldados perfurou o lado de Jesus com uma lança, e logo saiu sangue e água. Aquele que o viu, disso deu seu testemunho, e o seu testemunho é verdadeiro. Ele sabe que está dizendo a verdade, e dela testemunha para que vocês também creiam. Estas coisas aconteceram para que se cumprisse a Escritura: ‘Nenhum de seus ossos será quebrado’ e, como diz a Escritura noutro lugar: ‘Olharão para aquele que trespassarem’ “.
Como tudo na história de Cristo, cada detalhe tem um sentido simbólico intenso, que ecoa através dos tempos. João é o único dos evangelistas que afirma ter visto o cadáver de Jesus ser ferido após suas morte porque, segundo os estudiosos, dos doze apóstolos, ele teria sido o que presenciou a crucificação (é o que também afirma o seu evangelho). Portanto, esta chaga post mortem possui um significado que se traduz no movimento da História, assim como a súbita decisão de não quebrarem suas pernas. Ferem o corpo de Cristo, mas o mantêm intacto. O que isso quer dizer? Compete a nós, que estamos neste presente sombrio (como todos os presentes), avaliar o que aconteceu no passado para entender melhor este fato inusitado – e o que isso tem a ver com nossa vida cotidiana e futura. Leia mais…
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Por que tantas mulheres européias se convertem ao Islã?
Tablóide também tem reportagem boa. Eve Ahmed, que escreve para o Daily Mail, foi criada muçulmana mas abandonou a fé por sentir-se presa e controlada por uma infinidade de regras. Qual não é seu espanto ao constatar que muitas mulheres ocidentais bem-sucedidas escolhem, de livre e espontânea vontade, prestar obediência total e irrestrita a Alá.
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Enquanto isso, no ateísmo militante…
Ateus e secularistas se reuniram em Los Angeles para discutir o futuro do movimento. Em meio a falas de Richard Dawkins e Sam Harris, o debate que ganhou o evento foi: devem adotar uma postura mais cooperativa com os religiosos ou partir para o confronto aberto? Chris Mooney defendeu a posição conciliadoa, e PZ Myers, famoso por ter queimado o Alcorão e desecrado a Hóstia Consagrada, defendeu – com uma postura que lembra mais um menino mimado e birrento do que qualquer outra coisa – o conflito.
Além desse evento, os irmãos Hitchens (Christopher, o ateu, e Peter, o cristão anglicano) travaram um debate amigável em Washington sobre se a civilização pode sobreviver sem Deus. É de certa forma um prelúdio para o debate mais formal – com vencedor e perdedor – entre Christopher e Tony Blair (que se converteu ao Catolicismo depois de deixar o poder), que será realizado em novembro com a pergunta: “A religião é uma força de paz ou conflito no mundo moderno?”.
É uma pena que essa cultura do debate franco com questões claras e posições bem demarcadas não exista no Brasil. Faz falta.
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René Girard – Desejo, Violência e Literatura I
Crédito da foto: L.A.Cicero.
Por Felipe Cherubin
O filósofo, antropólogo e crítico literário francês René Girard, professor emérito de antropologia da Universidade de Stanford, nasceu em Avignon e estudou história medieval de 1943 a 1947 na École des Chartres, em Paris concluindo seus estudos com a monografia A vida privada em Avignon na segunda metade do século 15. Em 1950 obteve seu doutorado em história na Indiana University,EUA com a tese A França na opinião dos norte americanos,1940-1943.
O estilo francês esteve sempre presente na obra e personalidade de Girard e a quase totalidade de suas obras foram publicadas originalmente na língua francesa, embora sua carreira profissional tenha ficado ligada ao mundo acadêmico norte-americano onde ensinou literatura francesa e antropologia cultural na Universidade de Nova York, na John Hopkins e a partir de 1980 em Stanford.
O filósofo Michel Serres apontou Girard como o “Darwin das ciências sociais”, e tudo indica que o diagnóstico de Serres estava correto, pois o impacto do pensamento girardiano é crescente e vem sendo objeto de estudos nas mais variadas áreas: da biologia à economia, da antropologia às ciências políticas. Além do mais, as idéias girardianas desafiam teses basilares da cultura contemporânea como os estudos freudianos sobre o desejo, a interpretação dos mitos de Claude Lévi-Strauss e o determinismo econômico de Marx, abrindo um novo campo de especulações.René Girard foi eleito em 2005 membro da Academia Francesa, fundou em 2008 uma instituição para disseminar suas idéias e fomentar pesquisas, o Instituto Imitatio, que conta com financiadores de peso como o empreendedor Peter Thill, criador do sistema PayPal, ex-aluno de Girard em Stanford.
A tese principal da obra girardiana é a de que o ser humano está essencialmente marcado por um desejo mimético (ou desejo de imitação) que o situa no interior de um circuito de rivalidades caracterizado por soluções “sacrificiais”, em detrimento próprio e de seus semelhantes. O caráter violento desse comportamento caracteriza o fenômeno que estaria, metaforicamente, “oculto desde a fundação do mundo” ou como o psiquiatra Lipot Szondi assinala em seu livro Caim e o Cainismo na História Universal – “Caim rege o mundo”.
Girard compreende o ser humano como uma criatura que não sabe o que desejar e dessa forma se vira para modelos na tentativa de preencher sua mente, imitando o que os outros desejam. O desejo mimético é constitutivo da natureza humana; é o desejo de ter o bem do outro que Girard encontrou como constante antropológica embasando suas conclusões em exegeses de textos das mais variadas culturas. A tese do antropólogo é simples, mas com conseqüências perturbadoras. Primeiro, não somos auto-suficientes ou indivíduos plenos como a modernidade nos ensinou. Segundo, invejamos ou admiramos modelos para nos guiar nos corredores da vida, contudo quando invejamos um objeto, pessoa ou idéia que outros detêm ou também invejam engendramos conflitos que podem irromper num sacrifício, seja ele com a eliminação física como Caim fez com Abel, seja ele por meio de um sacrifício simbólico, colocando um colega de profissão no ostracismo ou por meio do assédio moral e psicológico, por exemplo, fenômenos tão típicos de nossa sociedade.
Assim, todos os sistemas políticos, culturais e econômicos estariam permeados por um sagrado potencialmente violento em que a violência seria um componente natural das sociedades, necessitando ser ininterruptamente exorcizada pelo sacrifício de vitimas expiatórias.
A função do sacrifício é, portanto, apaziguar a violência e impedir a explosão de conflitos decorrentes de rivalidades cada vez mais crescentes que paradoxalmente focalizam uma vítima arbitrária cuja eliminação reconcilia o grupo e alcança o estatuto do sagrado. Essa vítima é chamada por Girard de “bode expiatório”, um inocente que polariza para si o ódio universal.
Para Girard, o desejo mimético é um fenômeno exclusivamente humano que não se confunde com a mera imitação que, segundo Roberto Mallet, desde Aristóteles já era reconhecida como fator decisivo no desenvolvimento de todos os animais. As inclinações de cunho biológico como a fome, a sede e o sexo dependem da constituição orgânica do individuo e são espontâneas .Já o desejo mimético no sentido girardiano surge quando todas as necessidades elementares foram satisfeitas e o homem passa a desejar algo que ele não sabe exatamente o quê é. Se o instinto tem uma direção bem determinada essa sensação identificada como desejo não tem objeto específico, não é predeterminado e cria no sujeito um sentimento de privação e uma expectativa de que o outro lhe diga o que ele deve desejar.
Todavia, o homem girardiano não é mero “desejo mimético”, o filósofo afirma incondicionalmente a possibilidade de elevação humana sobre a destrutividade mimética. Essa possibilidade de elevação sempre em aberto havia sido notada pelo embaixador Mário Vieira de Mello em seu livro O Conceito de uma Cultura da Educação quando ao discorrer sobre o tema da educação e da descoberta da liberdade como problema moral, assinala que o ser humano se educa, sobretudo, por meio da imitação de modelos, que em sua dureza se constitui como inimiga da espontaneidade, ou seja, a imitação é uma forma incipiente de liberdade, necessária, mas não suficiente. Essa questão também é tratada pelo filósofo americano Charles Larmore em seu livro As Práticas do Eu, que, seguindo expressamente Girard, propõe uma revisão de ambigüidades em torno da noção de espontaneidade para dar conta de uma teoria de ressonâncias ética e política. Estas questões terão ressonâncias nas noções contemporâneas de individuo e sujeito nos passos iniciados pelo francês Alain Renaut em seu A Era do Indivíduo, que, não por coincidência, escreveu um livro em parceria com Larmore, Débat sur l’éthique, que trata dos fundamentos da ética contemporânea.
Assim, o desejo não podendo ser satisfeito individualmente coloca o homem como dependente dos outros homens, com o duro fardo de assumir seu desejo como produto de uma imitação, para daí transpor o caráter violento que a imitação e a rivalidade primitiva impõem desde sempre.
Esse aspecto havia sido bem assinalado pelo psiquiatra austríaco Viktor Emil Frankl (1905-1997), representante da terceira escola de psicoterapia de Viena (Freud , Adler e Frankl) que entendia que os homens diferentemente dos animais não agem pelo imperativo categórico dos instintos e das contingências especificas. Vivendo sob a égide da modernidade em que a força da tradição e seus valores universais já são incapazes de lhes dizer o que fazer, os seres humanos não sabendo mais o que se tem e o que se deve fazer, mostram algumas vezes não saberem o que eles desejam fazer. Para Frankl, a conseqüência disso é que o homem simplesmente desejará o que as outras pessoas estão fazendo (conformismo) ou fará apenas aquilo que as outras pessoas querem que ele faça (totalitarismo).
A antropologia de Girard revela o homem que vive na dimensão e no dilema moral entre o bem e o mal, entre a violência e a razão. Do cumprimento ingênuo dos preceitos morais passamos para a consciência da obrigação moral como liberdade e responsabilidade, caminho que começa com uma primeira renuncia à violência. As idéias girardianas aproximam-se muito das do filósofo francês Eric Weil (1904-1977), que também entendia o homem como um ser entre a violência e a razão e das reflexões de Jean Nabert que em seu Ensaio sobre o Mal reconhecia o caráter da consciência como uma causalidade impura em que ao respeito à lei mescla-se o interesse, o amor próprio e a vaidade.
Nos livros A Violência e o Sagrado (1972); Coisas Ocultas desde a Fundação do Mundo (1978), A Rota Antiga dos Homens Perversos (1985) e O Bode Expiatório (1986), Girard explicita sua grande descoberta: o mecanismo da vítima expiatória por meio de suas investigações antropológicas e textuais das noções de desejo, violência, sagrado, mito, rito, interdito e bode expiatório.
Em Eu via Satanás cair do Céu como uma Raio (1999), Girard faz uma análise muito interessante da antropologia bíblica, demarcando uma contraposição essencial que já havia sido exposta em outros livros, não só entre a antropologia do novo testamento com a dos mitos antigos e primitivos, mas também com a do velho testamento.
Não obstante, o mais interessante da obra de Girard é seu ponto de partida por meio da literatura. Com a publicação de seu primeiro livro Mentira Romântica e Verdade Romanesca (1961), o autor revelou o mecanismo do desejo mimético na literatura ocidental navegando pelos textos de Cervantes, Stendhal, Dostoievski e Proust. Mas é em sua obra Shakespeare: Teatro da Inveja (1991) que podemos acompanhar uma análise realmente exaustiva de quase toda a obra de um dos gênios da literatura universal para desvendar os meandros da teoria mimética. A importância desse livro não está apenas no fato dela apresentar o ciclo mimético na obra do bardo, mas também por constituir uma espécie de autobiografia, onde Girard em certa passagem quebra o gelo da postura estritamente científica e nos saboreia com confissões de seus demônios internos.
Girard toma a obra de Shakespeare como uma espécie de precursor de sua teoria mostrando a armadilha montada pelo bardo inglês, que, de acordo com o autor estava farto da “tragédia de vingança”, gênero batido que sempre culminava no mesmo enredo; a vingança que alimenta o círculo vicioso da rivalidade, a retribuição mimética, o acirramento da crise e a sucessão de sacrifícios.
Dessa maneira, o filósofo nota que os heróis shakespearianos hesitam o tempo todo e chegam mesmo a demonstrar nenhum desejo de se vingar. Contudo, Shakespeare era um homem de seu tempo: se por um lado colocava em evidência a angustia de seus personagens e segurava a vingança até os 45 minutos do segundo tempo, por outro cedia no final de suas peças aos caprichos de seu público que freqüentavam os teatros sedentos por sua habitual cota de cadáveres, como bem explica João Cezar de Castro Rocha em sua apresentação para a edição brasileira de Shakespeare: Teatro da Inveja, citando o exemplo da peça Hamlet.
No pensamento girardiano, o teatro de Shakespeare encarna todo o drama da teoria mimética, no mundo do bardo onde os outros aceitam sugestões tão facilmente como os gatinhos o leite, podemos traduzir, segundo Castro Rocha, a célebre indagação shakesperiana do “ser ou não ser?” para “vingar ou não vingar: eis a questão”.
Seguindo nosso fio de Ariadne e agora com um espírito mais sintetizador, podemos compreender que a obra de René Girard comporta três momentos fundamentais. Segundo verbete reproduzido no site oficial do Instituto Imitatio, observamos que: 1) O ser humano é constituído por um aspecto comportamental que não afeta apenas seu aprendizado, mas também seu desejo. A busca por modelos é causa de conflitos; 2) O mecanismo do bode expiatório é a origem do sacrifício e mecanismo fundador da cultura humana primitiva. A religião nesse sentido,surgiu como um esforço para controlar a violência humana disparada pelas rivalidades miméticas; 3) A antropologia do novo testamento revela o desejo mimético e denuncia o mecanismo do bode expiatório, colocando a vítima inocente no centro da narrativa, invertendo a lógica presente nos mitos arcaicos e no Velho Testamento mostrando como a partir dessa inversão lógica o mecanismo dos sacrifícios rituais foram perdendo importância e sendo eliminados das sociedades ocidentais.
Portanto, da tragédia grega de Sófocles e Eurípides, das narrativas bíblicas do velho e novo testamento e de Cervantes a Proust passando por Shakespeare, René Girard apresenta a totalidade do ciclo mimético, da sua origem, transformações e questionamentos que ela impõe ao homem do século 21.
Assim, num mundo em que os problemas cada vez mais tomam uma proporção global e exigem que extrapolemos as noções de individuo ou de soberania nacional para uma ação conjunta, notamos ao mesmo tempo uma cultura fortemente narcisista baseada na imitação de estereótipos, como a busca pelo corpo perfeito ou pela riqueza sem esforço, explodindo em verdadeiras epidemias de depressão e suicídios, ou mesmo pelo sacrifício de nossos bodes expiatórios preferidos: seja por sua cor de pele no racismo, seja pela orientação sexual na homofobia, seja esmagando os mais fracos na luta abortista.
Portanto, a equação de problemas globais com cultura narcisista é uma bomba relógio que pode explodir a qualquer momento como, por exemplo, a conotação sagrada e religiosa em torno dos problemas climáticos entre alguns ambientalistas radicais no qual o meio ambiente é o bode expiatório moderno que endeusamos ao mesmo tempo em que o destruímos e destruímos a nós próprios. Nesse sentido, essa sacralização do meio ambiente é compreensível pois ele parece talvez o ultimo objeto disponível que toma um caráter religioso (na acepção clássica de religar) todos os homens em busca de um objetivo comum, que não desperte rivalidades e destruição. Em um mundo cada vez mais global teremos que descobrir o que realmente importa e o que desperta os bons sentimentos de todos os homens, para não vivermos um revival global do teatro da inveja.
Felipe Cherubin é jornalista, formado em Direito e estudou Filosofia na Harvard Extension School.
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Hitchens e Lutero: irmãos gêmeos?
Data do post: 15 de setembro de 2010
Descoberto neste site aqui. Dê uma olhada e visite. Você pode se surpreender.
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Encontro de culturas
O embaixador japonês na Santa Sé explica porque o Cristianismo permanece algo “estrangeiro” aos japoneses. Partindo de sua espiritualidade que mistura elementos de Budismo e Xintoísmo, Kagefumi Ueno enumera três pontos principais.
- Diferentes concepções do “eu” (ou “self”): para o japonês, é algo a ser superado e eliminado, para o ocidental, algo a ser afirmado e aperfeiçoado.
- Relação diferente com a natureza: para o ocidental, matéria inferior, para o oriental, algo divino a ser reverenciado.
- modo de encarar os valores: para os ocidentais, valores são absolutos e devem ser afirmados a qualquer custo (sejam os valores da fé cristã, da liberdade de imprensa ou dos direitos dos animais); já os japoneses consideram mais prudente relativizar os valores quando isso evitar a violência.
No fim das contas, a fala envereda para a economia, na qual, apesar das diferenças de fundo, o embaixador reconhece preocupações comuns entre a Igreja Católica e o Budismo.
Não vejo como discordar das idéias apresentadas (ao menos na parte inicial e mais importante), mas ao mesmo tempo fico querendo fazer a pergunta: “Sim, as diferenças culturais são reais; mas então qual das duas responde melhor aos anseios da natureza humana?”
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