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Algo extraordinário está acontecendo…

Filed under: Religião,Sociedade incluído por Renato Moraes
Data do post: 7 de maio de 2010

Um dos trechos instigantes da República, de Platão, é o final da alegoria da caverna. Nele, o filósofo prevê que o homem que volta à caverna, depois de ter visto a realidade de fora, poderia não ser entendido pelos que continuaram na escuridão. Estes considerariam que não valeria a pena sair da caverna, e talvez até tentassem matar aquele que os procurava libertar das ilusões. Esse ódio contra quem vê além é, infelizmente, recorrente na história da humanidade.

Recentemente, veio-me à cabeça que a previsão de Platão se confirma, no seu essencial, com o que ocorre em relação ao Papa e boa parte dos seus detratores. Detestam-no porque, de algum modo, percebem que ele é intelectualmente superior. Em outras palavras, o que parece incomodar muita gente em Bento XVI é que ele atingiu a sapiência. E justo ele: o homem que está à frente da Igreja Católica; aquele que, quando auxiliar direto de João Paulo II, era acusado de ser uma espécie de buldogue obscurantista da ortodoxia; a pessoa que denunciou a “ditadura do relativismo” (não conheço expressão mais sintética e precisa para caracterizar a nossa época)!

Quando digo que ele alcançou a sapiência, não falo apenas de erudição, mas de algo bem mais sério. Ele entendeu as coisas, é isso. E entendeu-as a fundo. Não basta estudar para alcançar esse estágio, não é suficiente ler o que o espírito humano produziu de melhor, não adianta meditar durante horas buscando uma iluminação… Em certo sentido, abrange isso e muito mais. Principalmente, exige uma vida moral reta, um desprendimento pleno de si mesmo – no fundo, o orgulho é o maior inimigo da verdade dentro de nós –, e uma inteligência profunda, ampla e meticulosa. E sobretudo contar com a ajuda da graça, pela qual é derramado o dom da sabedoria, essa conaturalidade com Deus através da caridade.

Acredito ser muito difícil conseguir juntar todas as qualidades necessárias para ser um autêntico sábio. Aliás, penso que isso pode ficar sem acontecer por gerações. Nos dias de hoje, não conheço outra pessoa que, como ele, possa dissertar sobre os mais variados assuntos com uma maestria, uma simplicidade e uma profundidade desconcertantes. O que se lê dele sempre traz algo surpreendente, um ângulo inesperado, uma clarificação deliciosa. E isso acontece em teologia dogmática, em ética, em filosofia, em literatura, em arte, em política…

A sabedoria de Bento XVI se manifesta na visão de conjunto que esclarece o sentido de cada uma das partes, dando a elas um colorido diferente e uma compreensão mais aguda. A extraordinária amplitude com que esse homem examina os acontecimentos não prejudica, antes aperfeiçoa, a apreensão do detalhe. Ele une primorosamente o generalista com o especialista. É um autêntico pensador, no sentido de que ilumina tudo o que estuda.

O Papa escreveu dezenas de livros e centenas de artigos. No Brasil, foi publicada uma parcela diminuta. Apesar da pequena quantidade, a qualidade é ótima. Introdução ao cristianismo, Edições Loyola, 2006, e Fé, verdade, tolerância, Instituto Raimundo Lúlio, 2007, são livros para ler e reler: valem mais do que milhares de páginas de outros autores que versam sobre os mesmos temas. Depois, Jesus de Nazaré, Editora Planeta, no qual mesmo a tradução deficiente não impede de perceber que ali está algo excepcional,  uma obra-prima (em breve virá o segundo volume dessa biografia, aguardado com ansiedade). O diálogo com o jornalista Peter Seewald, recolhido em O sal da terra, Imago, 2005, é surpreendente, inclusive duro em alguns momentos, pela clareza com que examina a situação do mundo e da Igreja.

Ao mesmo tempo que temos os livros, sugiro a leitura dos discursos, homilias e aulas de Bento XVI, frequentemente publicados no site do Vaticano. Acredito que não há nada melhor sendo produzido hoje em dia, ao menos que eu conheça. Os discursos para bispos, para o corpo diplomático, para grupos que o visitam, as aulas em seminários, os diálogos com jovens, sacerdotes, crianças e pensadores, tudo isso é um tonificante intelectual e espiritual de primeira ordem.

Apenas como aperitivo, cito um trecho – um exemplo dentre centenas possíveis – de sua homilia da última Quinta-feira Santa: “A vida verdadeira é que Te conheçam a Ti – Deus – e o teu Enviado, Jesus Cristo. Com surpresa nossa, é-nos dito que vida é conhecimento. Isto significa antes de mais nada: vida é relação. Ninguém recebe a vida de si mesmo e só para si mesmo. Recebemo-la do outro, na relação com o outro. Se é uma relação na verdade e no amor, um dar e receber, a mesma dá plenitude à vida, torna-a bela. (…) Na filosofia grega, já existia a ideia de que o homem pode encontrar uma vida eterna, se se agarrar àquilo que é indestrutível – à verdade que é eterna. Deveria, por assim dizer, encher-se de verdade, para trazer em si a substância da eternidade. Mas, somente se a verdade for Pessoa, é que pode levar-me através da noite da morte”.

O trabalho que Bento XVI está realizando é de importância ímpar. Suas contribuições em relação à liturgia, ao ecumenismo e à preparação da Igreja para o futuro, para não dizer de outros temas, dificilmente podem ser sobreestimadas. Entretanto, as pessoas estão um pouco surdas ao que o Papa vem dizendo em virtude do barulho causado por fatos tristes e lamentáveis, diante dos quais esse gênio alemão agiu sempre de maneira exemplar, firme e sensata, como pouco a pouco vai sendo demonstrado de modo cabal. Todo esse ruído está fazendo com que se perca o fundamental: o que ele está nos indicando, as respostas intelectuais e espirituais que o homem de hoje procura, enfim, a luz que ele conseguiu atingir através da sapiência.

Com candura e gentileza, Bento XVI mostra que as respostas da Modernidade são insuficientes. Ele valoriza o que elas têm de positivo, não é um adversário, e sim alguém que deseja compartilhar com os outros as soluções mais ricas e abrangentes que sabe possuir. Isso humilha os intelectuais, que julgavam o cristianismo uma caveira à espera de ser enterrada e não admitem que nele possa haver tal vigor. E nada irrita tanto quanto mostrar que somos incompletos; preferimos estar rotundamente errados na grandeza, do que estar na mediocridade de quem “não chegou lá”. Por isso, não tenho esperança de que essas censuras injustas terminem tão cedo; se não o conseguirem atacar de uma maneira, descobrirão outra.

Não quero aqui esconder a verdade de algumas censuras a membros da Igreja, inclusive da hierarquia, porque não é disso que se trata. O que desejo ressaltar é que algo maravilhoso está ocorrendo, e as pessoas frequentemente não o percebem. Bento XVI está falando, e de modo sublime. Vale a pena escutá-lo, mesmo que seja para discordar dele; se isso for feito com educação e civilidade, que infelizmente não têm comparecido com a freqüência desejável no atual debate público, um grande bem virá para a inteligência e o coração dos homens.


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Multiculturalismo nigeriano

Filed under: Sociedade incluído por Joel Pinheiro
Data do post: 24 de março de 2010

Joseph Bottum vê e afirma uma verdade óbvia (que é a mais difícil de ser aceita quando o valor máximo socialmente imposto é não ferir a sensibilidade alheia): os confrontos religiosos na Nigéria… têm motivação religiosa.


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A voz judaica no debate religião-secularismo

Filed under: Religião,Sociedade incluído por Joel Pinheiro
Data do post: 27 de janeiro de 2010

Nas disputas intelectuais entre ateísmo e religião, é incomum ouvir a voz do Judaísmo. Pois aqui está ela: num discurso incisivo, o rabino chefe do Commonwealth britânico lida com as principais questões que confrontam a religião: por que ela sobrevive até hoje, tendo sua morte sido prevista tantas vezes no passado, ao menos desde o século XVIII? Qual o lugar dela nas democracias liberais? E qual deve ser sua postura no futuro?

Homem bem versado na cultura ocidental, e que no passado já foi um estudante de filosofia cético, Jonathan Sacks aponta os paralelos entre a cultura ocidental contemporânea e a cultura grega em seu período de declínio. Políbio comentava  no século III a. C., sobre seus conterrâneos: ”O fato é que o povo de Hellas seguiu pelo caminho falso da ostentação, da avareza e da preguiça, e ficaram, portanto, indispostos a se casar, ou, se se casavam, a criar os filhos; a maioria estava apenas disposta a criar um ou dois.” É, algum paralelo há.

The fact is, that the people of Hellas had entered upon the false path
of ostentation, avarice and laziness, and were therefore becoming
unwilling to marry, or if they did marry, to bring up the children born to
them; the majority were only willing to bring up at most one or two.

No final das contas, argumenta o rabino, só a religião dá significado à vida humana. O mercado, o Estado, a ciência e mesmo a filosofia são incapazes de cumprir esse papel. E o homem anseia por significado. É por isso que, mais de dois séculos depois do Iluminismo, editores da The Economist escrevem um livro notando o fato surpreendente (que também surpreendera Tocqueville em suas viagens à América) que “God is back”.

O Judaísmo sempre foi parte da cultura ocidental, mas uma parte à parte: tem suas peculiaridades e traços distintos da cultura cristã. São esses toques (por exemplo – novamente reproduzindo o que diz Sacks – a teologia, que nunca foi muito dependente da metafísica aristotélica, e que portanto não se sente diretamente abalada quando a teoria da seleção natural questiona a idéia de finalidade na natureza; ou ainda a observação de que, para um rabino, é muito mais difícil pregar para judeus do que para gentios, algo que já ocorrera com os profetas) que dão ao artigo um interesse especial, para além da argumentação central do autor, bem embasada em fontes históricas, lúcida e lógica.

Enfim, aqui está o discurso.

E aqui um pequeno artigo de comentário sobre o discurso, que faz uma boa síntese dele.


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Religião e vida pública

Filed under: Religião incluído por Joel Pinheiro
Data do post: 14 de janeiro de 2010

Tiger Woods deu suas escapulidas extra-conjugais. O fato caiu na boca do povo e agora a reprovação midiática é geral. Numa entrevista casual de rádio, perguntado sobre o que Tiger Woods deveria fazer agora, um jornalista sugeriu que ele se convertesse ao Cristianismo para obter o perdão de seus pecados. A celeuma foi geral.

A maioria das pessoas que tem alguma religião concorda que ela é algo importante em suas vidas; frequentemente o mais importante, que dá sentido e rumo à toda existência. Assim, não é algo que possa ser simplesmente ignorado fora da vida íntima. Um católico continua católico, e um budista continua budista, no trabalho, na política e na vida social.

Mas se o membro de cada religião se sentir mortalmente ofendido com as opiniões contrárias daqueles que não partilham de suas crenças e quiserem proibir suas manifestações públicas, o resultado será exatamente o banimento da religião da vida pública. Leiam a análise refinada (ainda que incitada por um debate um tanto ridículo) deste articulista do New York Times.


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Para começar bem o sábado de manhã…

Filed under: Psicologia incluído por Joel Pinheiro
Data do post: 20 de junho de 2009

…Que tal uma discussão religiosa?

Ou quase isso. Mais um artigo sobre os impactos neurológicos da fé.
Ao que tudo indica, diferentes religiões (ou ao menos diferentes jeitos de se ser religioso) têm conseqüências diferentes para o corpo do fiel.

Só cuidado com o viés da reportagem, bem intencionado mas questionável, segundo o qual o cultivo de boas disposições neurológicas deve ser o objetivo, e a religião apenas um meio.


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The Economist e os filhos do secularismo

Filed under: Religião incluído por Joel Pinheiro
Data do post: 2 de junho de 2009

“…e então, conforme a educação e a ciência progediam, as forças obscurantistas da religião iam retrocedendo cada vez mais, até que, finalmente, com a emancipação final da razão humana, toda forma de crença religiosa desapareceu e os homens iniciaram a verdadeira civilização do amor e da racionalidade e viveram felizes para sempre (no sentido puramente figurado! É óbvio que depois da morte não há nada). The End”

Esse conto de fadas, que ainda encanta os sonhos pueris de muitos filhos do secularismo, tem cada vez mais dificuldades de se manter crível. God is back, escrito por editores da revista The Economist (que não é exatamente um bastião do pensamento religioso), mostra como as religiões vêm ganhando força no mundo, e constituem um fator essencial para se entender as sociedades. Além disso, embora possam sim ser usadas para fins maus, elas são responsáveis por muitas coisas boas e importantes em nossos tempos.

Escrito por um católico e um ateu, com fina análise sociológica e riqueza de dados empíricos, esse livro promete ser um importante estudo, de um ponto de vista não-religioso, do papel da religião no mundo atual, e uma amostra de que esse papel, longe de estar sempre diminuindo, vem ganhando importância. Já encomendei minha cópia. Quem sabe essa leitura resulte uma resenha mais longa.


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Neurologia e religião

Filed under: Religião incluído por Joel Pinheiro
Data do post: 19 de abril de 2009

A neurologia é de Marte; a religião é de Vênus. Água e óleo. Não se olham na cara e falam uma da outra pelas costas.

Que inesperado, então, que travem, de vez em quando, relações amigáveis, como parece ser o caso do novo livro resenhado no Washington Post. Trata-se de “How God Changes Your Brain”, do neurologista Andrew Newberg. Dizem as fofoqueiras que essa relação terminará em casamento…


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A ciência torna a crença em Deus obsoleta?

Filed under: Filosofia incluído por Joel Pinheiro
Data do post: 30 de junho de 2008

O debate entre ciência e fé ganhou força nos últimos anos com a publicação de livros polêmicos que combatem a crença em Deus em nome da ciência. Em resposta, há defensores da religião que denigrem a razão humana e questionam o método científico enquanto tal, o que também tem aprofundado a aparente divisão entre os dois campos.

Outras vozes, na minha opinião mais razoáveis, argumentam que não há incompatibilidade alguma entre ciência e fé; o que não deve ocorrer é que uma tente responder questões próprias da outra.

É para levar à frente esse interessante debate que a Fundação John Templeton convidou importantes cientistas, filósofos e teólogos para dar sua resposta à pergunta: “A ciência torna a crença em Deus obsoleta?”

Entre os convidados estão o famoso psicólogo evolucionista Steven Pinker, o polemista ateu Christopher Hitchens, a filósofa Mary Midgley, o nobel de física William D. Phillips e o cardeal Schonborn, arcebispo de Viena, que tem escrito muito sobre o tema. Confiram os textos de cada um deles aqui.


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