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A Lei Rouanet

Filed under: Geral,Sociedade incluído por Leandro Oliveira
Data do post: 18 de janeiro de 2012

Nove bilhões de reais, seis ministros e vinte anos depois, a Lei Rouanet se tornou fundamental. Como aponta Henilton Menezes, o Secretário de Fomento e Incentivo à Cultura do MinC, hoje a Lei é responsável pela manutenção de instituições como o Centro Cultural Banco do Brasil, o Museu de Arte de São Paulo e a Fundação Iberê Camargo, publicações como a Bravo, a Cult ou a Revista de História, a restauração de edifícios como o Theatro Municipal e o Convento de Santo Antônio. Através dela são viabilizados o Festival de Gramado, o Festival de Cinema de São Paulo, a Festa Literária Internacional de Paraty (FLIP), o Festival de Teatro de Curitiba e praticamente todo movimento teatral das cidades do Rio de Janeiro e de São Paulo. Com ela mantém-se o Teatro Oficina, o Grupo Galpão, o grupo “Corpo”, a Cia. de Dança Deborah Colker. A Lei dá uma forcinha nada singela ao Instituto Cultural Itaú, à Academia Brasileira de Letras, ao Rock In Rio, aos carnavais do Rio de Janeiro, de Pernambuco e da Bahia, às festas juninas do Nordeste…

Tudo de uma vez só. É de se pensar o que foi a produção cultural brasileira antes da Lei e a impressão que uma lista como essa nos dá, inevitavelmente, é que antes não havia nada. Muito embora contemos com lembranças melancólicas da atividade operacional da cultura em franco diletantismo, a indústria do cinema em frangalhos, as orquestras sinfônicas miseráveis e de teatros funcionando em guerrilha [link restrito para assinantes do UOL], há hoje, com a lei em vigor, evidentemente algo para lamentar e o mais relevante é que sua penetração na vida cultural cria uma cadeia insólita de artistas que não arriscam ou do sucesso que prescinde de público. E cria a figura curiosa do mecenas que não gasta dinheiro.

Pois é costumeiro, embora inverídico, dizermos por aí que não temos no Brasil a cultura do mecenato. Nossa história conta o contrário, e temos personalidades relevantes no patrocínio das artes no passado recente, em figuras como Paulo Prado, Francisco Matarazzo, Arnaldo Guinle, Octávio Gouveia Bulhões, Osvaldo Riso, João Moreira Salles, Mario Henrique Simonsen, entre outros. Nenhum deles usou a Rouanet. Atualmente poderíamos discorrer uma lista similar com novos nomes, atores significativos que mantém acervos particulares, realizam contribuições regulares ou se lançam em projetos de absoluta relevância cultural e impossível retorno financeiro – e que não estão nem aí para leis de incentivo.

Há uma parcela da crítica cultural que acusa a Lei Rouanet de ter acabado com esta figura quase ingênua do amante que investe em arte – leia-se, artistas. A Lei teria permitido que o investidor seja vilão não do próprio dinheiro, mas do dinheiro público. A Rouanet realizaria essa perversa “democratização” do mecenato, não no sentido em que todos possamos investir em arte mas a de obrigar a todos, querendo ou não, que invistamos em arte. O dinheiro que paga parte da produção das festas juninas, do filme nacional que ninguém vê, e do sucesso da Festa Literária de Paraty é descontado daquele que uma empresa deveria pagar ao governo em forma de imposto de renda; ao invés de dar ao estado, ela direciona ao projeto que lhe convém. Ou seja, ao invés de tornar-se dinheiro público segue sendo dinheiro privado, de uso público (mais ou menos, dependendo do projeto).

Em sua defesa podemos comentar o óbvio: sabemos muito bem da destreza do funcionalismo em investir e podemos imaginar, por inferência, os caminhos que o dinheiro do imposto devido passaria para retornar como investimento em cultura. O pensamento por trás da Rouanet é, portanto, uma forma curiosa de pragmatismo liberal: se temos que pagar impostos altíssimos, e tais impostos são notoriamente mal usados, melhor seria não pagar tais impostos; mas isso seria crime, então, por que não criar um mecanismo que permita ao contribuinte usar diretamente parte do valor do imposto devido? Imagino que se tivéssemos um mecanismo como a Rouanet em outros ambientes que não o cultural, e a empresa ou cada um de nós, ao invés de dar ao governo parte do exorbitante imposto devido, aplicássemos diretamente na escola do bairro, no recapeamento das estradas e ruas… Seria uma solução engenhosa, que criaria outros problemas curiosos, mas certamente não o fortalecimento do funcionalismo.

No entanto, nestes termos específicos, o dilema maior da Rouanet segue sendo exatamente um fato, o de que o mecenas não tira do bolso seu investimento. O imposto é devido, e muito embora possamos fazer críticas severas à alta carga tributária do país e seu mau uso, o fato é que, pelas regras do jogo, aquele dinheiro não deixa de ser dinheiro do governo – ou seja, de todos os contribuintes. A única forma de tornar a Rouanet menos perversa, nestes termos, é diminuindo a carga tributária e, concomitantemente, aperfeiçoando os serviços da estrutura estatal. Alguém vê isso no horizonte?

Não deixa de ser um acaso feliz que tenha sido o meu, o nosso dinheiro a financiar o sucesso do primeiro “Tropa de Elite”, a vinda de Tom Stoppard para a FLIP e a de Peter Brook para o Festival de Porto Alegre, os quentões e salsichões dos arraiais deste Brasilzão de Deus. Não ter desfrutado de tudo daquilo não é realmente um problema; parodio a máxima de Sergei Diaghilev, empresário dos balés russos: afinal, por que perder minha imaginação (e dinheiro) comigo mesmo? Tranquilizo-me pensando que poderia ter servido para coisas piores, como aparentemente servirá em breve, com a aprovação dos games e do gospel como modalidades passíveis de patrocínio… Mas isso é outra história.


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A festa da reflexão irresponsável

Filed under: Geral,Literatura,Sociedade incluído por Eduardo Wolf
Data do post: 17 de janeiro de 2012

Quais são os ingredientes para um debate público de qualidade no Brasil? A reedição das obras de José Guilherme Merquior pela É Realizações é uma boa notícia para quem quer dar uma resposta honesta à questão. Reconhecido por seu trabalho como crítico literário, leitor incomparável de poesia, Merquior desempenhou na vida da inteligência nacional ainda o papel do crítico cultural em sentido mais amplo, essa figura comum nas tradições europeia e americana, como um Walter Benjamin ou um George Steiner. A amplitude dos temas abordados pelo autor é prova mais que suficiente disso, e o leitor poderá conferir por conta própria e com grande prazer à medida que vá lendo seus trabalhos, felizmente de volta ao mercado, agora em edições preparadas pelo professor João Cézar de Castro Rocha, da UERJ.

Merquior acreditava na relevância do artigo de jornal ou revista, no texto de intervenção pontual, dito “atualidade” em outros tempos; sobre o tema, citava, aprovando, Ortega y Gasset, que via nesse tipo de texto “uma forma indispensável do espírito”. Uma lição simples, mas cujos resultados são, ao menos potencialmente, tremendos. Pensada nesses termos, a intervenção pública nos assuntos da hora deixa de ser banal, personalista e inócua, e assume os contornos civilizatórios que por tanto tempo teve em outras terras – na Inglaterra e na França, sobretudo. Se não me equivoco, apenas o intelectual que entra na arena pública tendo aprendido essa lição faz seu trabalho com o senso de responsabilidade moral que a coisa exige.

Com livros como As Ideias e as Formas (1981) voltando a circular mais amplamente, talvez seja possível reconhecer algumas de nossas fraquezas em matéria de vida intelectual, quem sabe mesmo dar-lhes o devido combate. Não me refiro ao eterno “circuito do elogio mútuo”, que impede o atrito autêntico, a crítica em seu sentido mais forte; tampouco à superficialidade e ao baixo-nível que parecem ter triunfado com a mesma força nas bancas de jornais e nas de doutoramento país afora. Refiro-me a traços menos óbvios, mas não por isso menos atuantes em nossos esquemas mentais, e que Merquior, no artigo que dá nome ao livro de 1981 citado acima, mapeou muito bem.

Um desses elementos o autor chamou de “purismo misológico”, uma atitude “intransigentemente hostil à racionalidade da ideia”. Foi em seu Formalismo e Tradição Moderna (1974) que Merquior tentou rastrear essa degenerescência da poética romântica – para usar seus próprios termos – que resultou em nada menos que uma “fúria misológica”, uma variedade muito peculiar de irracionalismo. Mais que anti-intelectualismo, trata-se de um ódio ao conceito: Imagem contra conceito, sintetiza o autor. Um prêmio aos que pensaram em Nietzsche, para quem as ideias são obras de arte… Ao constatar a usurpação da forma pela ideia e escrever-lhe a genealogia, ao atacar a estetização do pensamento, enfim, Merquior parece que falava para nosso tempo:

O irracionalismo ambiente não reclama outra coisa: “insights” em lugar de análises, intuições indemonstráveis, conceitos altamente “artísticos”, em suma: a festa da reflexão irresponsável.

Essa ojeriza ao argumento, à análise (por definição algo lógico e racional), enfim, essa “fúria misológica” de que fala Merquior contaminou as mais elementares condições de possibilidade para um debate esclarecido sobre o que quer que seja, com um agravante em nosso tempo: no lugar de um homem de gênio como Nietzsche, enfrentamos hoje pessoas que sequer são capazes de compreender o que seja um argumento ou uma análise. No atual estado do problema, a investigação de Merquior parece ir longe demais, mas tal impressão se dá somente porque o irracionalismo já triunfou, virando moeda corrente tanto nas redes sociais como nas aulas de pós-graduação das melhores universidades, tanto nas palavras inflamadas dos porta-vozes do multiculturalismo como na prática moralizante dos desiludidos à esquerda e à direita no espectro político.

E esta lição, sim, é antiga: sem razão, não há responsabilidade; e “debate público” sem ambas, razão e responsabilidade, é a festa do pensamento irresponsável – com cada vez menos pensamento, aliás.


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Dicta&Contradicta 8 – Lançamento – É hoje!!!!!!

Filed under: Geral incluído por Martim Vasques da Cunha
Data do post: 12 de dezembro de 2011

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Read not the Times. Read the eternities.

(Henry David Thoreau)

Dicta&Contradicta, a única revista do país que realmente se contradiz, resolveu invadir a praia do outro lado e, em um lance improvável, fará o lançamento de seu oitavo número – apelidada por alguns de a Azzurra, apelidada por outros a da “boquinha da garrafa” – na Mercearia São Pedro, localizado na anti-eufônica Rua Rodésia, 34, ambientado na velha Vila Madalena, no dia 12 de dezembro, a partir das 19h30 até o último arroz de festa. Venha bebemorar conosco, como diria Jamelão Joyce, e descubra a patota “inteliquitual” que, entre um copo de cerveja e um bife frito, sabe como ler os nossos tempos, as nossas eternidades, a Folha de São Paulo, a Summa Theologica, a Harper´s Bazaar, os números antigos de Ele&Ela, e, claro, o New York Times.


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Dicta&Contradicta 8 – Editorial

Filed under: Geral incluído por Martim Vasques da Cunha
Data do post: 8 de dezembro de 2011

Read not the Times. Read the eternities.

(Henry David Thoreau)

Não é preciso ser professor para ensinar. O diálogo, e mesmo o debate, franco, honesto e profundo, é um meio de aprendizado. E portanto todo mundo que dialoga, que coloca suas ideias de maneira aberta e apaixonada, além de aprender, ensina. É nesse sentido que buscamos ensinar. E quem ensina obviamente quer ensinar a verdade. Pois se o objetivo de um interlocutor é convencer os outros do que ele considera falso, ele não ensina, mas engana. E se não há distinção entre verdadeiro e falso, mas apenas pontos de vista igualmente válidos, para quê ensinar? Cada um que fique feliz e contente com sua opinião. Se alguém discute, argumenta ou dialoga, e o faz honestamente, esse mesmo ato já manifesta sua crença em algo como objetivamente verdadeiro, e na verdade como algo bom e digno de ser disseminado.

Só que a verdade tem níveis, e é preciso fazer escolhas. Uma coisa são os eventos do dia a dia, a variação do dólar, o “mundo real”, o efêmero; enfim, tudo o que se lê nos jornais; aquelas informações essenciais para se viver e transitar neste mundo. Contudo, se em nenhum momento levantarmos a cabeça para ver além delas, teremos vivido a vida “não examinada” da pesada sentença de Sócrates.

Indo mais fundo, podemos tentar organizar esses fatos cotidianos, selecionando os mais importantes, e tentar desvendar os processos históricos por detrás deles: as ideias e os valores em jogo nos grandes movimentos das sociedades. O que não é fácil, como nos mostra o filósofo Olivier Boulnois. Numa conferência inédita (“O que há de novo na Idade Média?”), ele argumenta, com boas evidências, que um dos lugares-comuns mais repetidos sobre nossa história, o da ruptura entre Idade Média e Renascimento, é na verdade uma simplificação espúria. Será que alguma tese histórica, que não seja trivial, se sustentaria no confronto com os fatos minuciosamente examinados?

Para além da dificílima verdade histórica, que busca captar o efeito (ou a falta dele) das ideias e dos valores na existência humana, está a discussão sobre quais ideias e quais valores merecem nossa adesão. E aí chegamos propriamente nas big questions. O que é verdadeiro? O que é bom? O que é belo? A forma mais convencional de se tratar essas questões, forma da qual nós mesmo usamos e abusamos, é com longos tratados argumentativos. Podemos percorrer a história procurando exemplos claros de certos valores, ou avaliando a consequência das ideias. E daí temos o festival de “ideias que levaram ao nazismo” (alguém ainda tem de fazer uma lista de todas elas), que o editor-chefe invariavelmente corta fora sem dó. A realidade oferece muito poucos testes de ideias, e olhando apenas para ela não dá para tirar nenhuma conclusão acerca do sentido do mundo ou da existência. Quem o faz é porque traz, de outras fontes, estruturas narrativas nas quais os fatos serão encaixados, mas as quais eles nunca poderão refutar.

Felizmente, há um outro caminho para as grandes questões, sem o inconveniente da argumentação ou do teste: a arte. O universo criado pela arte é proporcional a nossas capacidades; afinal de contas, ele nasce delas. E se no mundo real tateamos uma imensa escuridão munidos do palito de fósforo de nossa razão, na obra de arte temos uma salinha bem iluminada esperando nossa visita.

A arte não se importa primariamente com a realidade dos fatos. Claro, uma história pode ser “baseada em fatos reais”, mas não é isso que fará dela uma boa história. A verdade que importa para ela é a do nível mais profundo: a dos valores e das posições existenciais mais básicas. E para se expressar bem nesse plano, as histórias e imagens fictícias, cujos elementos são todos pensados para transmitir uma mesma mensagem, são mais eficazes do que os eventos reais, cujos elementos heterogêneos não apontam para nenhuma direção facilmente identificável e nem denunciam uma origem comum. É sobre essa relação entre arte e realidade que versa o artigo de Nicolau Cavalcanti em nossa seção de filosofia.

Alguém se lembra do editorial passado, seis meses atrás? Prometíamos que, neste número, falaríamos algo sobre como pretendemos ensinar. É este, se assim podemos falar, o tema desta edição: como a ficção, a imagem, o símbolo, enfim, o falso, são, muitas vezes, melhores educadores do que o fato, o literal, o verdadeiro. Pois a arte não parte de premissas verdadeiras nem chega por raciocínio válido a uma conclusão também verdadeira. Sua lógica é outra: ela não argumenta; ela mostra. Ao invés do silogismo, ela emprega o símbolo. A realidade está aí independentemente de nós. Não é o ato humano de interpretação que cria o passado histórico. Muito pelo contrário: toda interpretação, para ser aceitável, tem de se pautar pelos fatos e pelos dados que a observação imparcial descobre. “Ciência ideológica” não é ciência. Ao mesmo tempo, a realidade costuma ser complexa o bastante para que muitas diferentes interpretações, contraditórias entre si, sejam possíveis para um mesmo fato ou período.

Existem símbolos no mundo real? A realidade está aqui para que a leiamos como um livro? Pergunta bastante incerta; o conhecimento da humanidade já foi muito mal-direcionado por causa dessa crença nos fatos e nos seres como símbolos de realidades espirituais. Por outro lado, também não se pode descartar essa possibilidade, ainda mais em face da nossa tendência espontânea de procurar significados. Uma coisa, porém, é certa: a arte tem símbolos. Eles foram colocados lá conscientemente pelo autor. Este é, por sinal, o tema do artigo mais longo da história de nossa humilde revista, escrito por Henrique Elfes. Sua proposta original era analisar a obra de um certo escritor; mas para fazê-lo resolveu esboçar um pequenino preâmbulo sobre a simbologia literária, que cresceu e cresceu até se tornar o tema e chutar o tal do escritor para escanteio – ou para uma próxima edição. E seu artigo deu mais um salto inesperado ao tratar da realidade última para a qual os símbolos apontam: a do espírito.

O que veio bem a calhar já que neste nosso oitavo número inauguramos a seção de teologia. O quê?! Teologia? Seria uma revista cultural o lugar apropriado para aulas de catequese? Permitam-nos explicar a nova adição. Parece-nos que há dois motivos para a existência de uma seção de teologia. Em primeiro lugar, as grandes questões da existência humana acabam invariavelmente tocando o problema da transcendência, da ordem e do sentido do mundo; a filosofia já trata disso, mas sempre, se for boa filosofia, usando a razão para chegar a diferentes respostas ou perguntas. A teologia, embora também use a razão, traz consigo um elemento novo: a fé, ou seja, crenças cuja origem está, de acordo com aqueles que nelas creem, em alguma revelação ou fonte sobrenatural. É impossível escapar de uma questão seguinte: se aceitamos usar, junto da razão, dados e crenças vindos da fé, qual fé escolheremos ou privilegiaremos?

Nosso objetivo é ser plural, no bom sentido do termo. Não no sentido de dizer que todas as “fés” são iguais, o que equivaleria a reduzi-las todas a preferências subjetivas (que é o exato oposto do que todas elas ensinam), mas sim no de dar espaço para que diversas perspectivas teológicas diferentes (cristãs, judias, islâmicas, budistas etc.) mostrem o que têm a dizer e a interrogar do leitor.

O segundo motivo que justifica, a nosso ver, uma seção de teologia, é o fato de que os valores e ideais sobre os quais se fundam nossa civilização têm uma origem teológica, e mais especificamente cristã. Conhecer a teologia do cristianismo, com suas crenças, suas tensões e seus achados, é também conhecer muito do que deu origem ao nosso mundo. Por isso mesmo, nosso artigo inaugural, escrito por Marcelo Consentino, é inspirado na obra de Hans Urs Von Balthasar, teólogo católico suíço de meados do século passado, cuja importância no pensamento da Igreja Católica é inversamente proporcional ao conhecimento de sua obra no Brasil. A imagem que Balthasar tinha do mundo contemporâneo, no qual pedaços do “coração” da Igreja foram preservados ao mesmo tempo em que as sociedades se afastavam de sua instituição e mesmo de sua fé, encaixa-se perfeitamente nessa importância histórica que a teologia tem, ou deveria ter, mesmo para quem não tem fé.

Para fazer a ponte entre teologia e filosofia, entre fé e razão, publicamos neste número um perfil de Søren Kierkegaard, escrito por
Álvaro Valls, maior autoridade brasileira no filósofo luterano dinamarquês. Para complementar o perfil, publicamos em primeira mão trechos da tradução inédita que Valls vem fazendo da obra de Kierkegaard.

Ainda nessa chave teológica cristã, mas com uma visão diferente, vinda do cristianismo ortodoxo russo, Renato Moraes investiga, na obra de Dostoievski, as diferentes faces do ateísmo que tanto preocupava o escritor, e que trariam, segundo ele, a ruína da humanidade.

E numa chave ateológica, terrena, Joel Pinheiro expõe a realidade e a visão exaltada do homem (ou de certo tipo de homem) criadas por Sergio Leone. Resta saber até que ponto essa visão é ou não realista (e voltamos à relação entre arte e realidade), coisa que não cabe ao artista responder. Seu propósito, afinal, não é argumentar, mas mostrar. O que a arte faz é manipular e nos mostrar diferentes visões do mundo e do homem, e permitir que o leitor ou espectador experimente um mundo guiado por aqueles valores, e, fazendo um exercício de correspondência com a sua própria experiência da realidade, decida se o que a obra lhe mostra ressoa ou não em sua alma. A realidade é sempre o fim, mas nem sempre o meio.

Como sempre, é nosso dever agradecer àqueles sem os quais este número da Dicta não seria possível. Queremos dar especial destaque à Febratel pelo apoio a nossa empreitada cultural e a João Lazzarotto, irmão do saudoso Poty, por nos ceder gentilmente as brasileiríssimas ilustrações que embelezam nossas páginas.

O IFE passa por mudanças profundas. Depois de uma mandato de três anos e meio, Guilherme Malzoni Rabello deixa a presidência do Instituto. Seria eufemismo dizer que sem sua liderança o barco sequer teria saído do estaleiro; ou melhor, sequer teria sido construído. Em seu lugar assume o timão Marcelo Consentino. Passar a presidência de um engenheiro a um teólogo… é dessa dialética terra-céu que tiramos nosso vigor. Seja como for, a Dicta segue em frente, banhando-se na glória de autointitular-se “a melhor revista de ensaios do Brasil” (prática consagrada pelos nossos concorrentes). Relevem a evidente ficção desse título e meditem a questão profunda que se coloca: o que ele revela sobre a cultura nacional?


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Dicta&Contradicta 8 – Índice

Filed under: Geral incluído por Martim Vasques da Cunha
Data do post: 6 de dezembro de 2011
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ÍNDICE

O QUE HÁ DE NOVO NA IDADE MÉDIA?
Olivier Boulnois

DROGAS: A SÍNDROME DA MENTIRA
Anthony Daniels

ESPECULAÇÕES SOBRE ALEGORIA E SÍMBOLO
Henrique Elfes

PERFIL

KIERKEGAARD, O PENSADOR INCÔMODO
Álvaro L.M. Valls

FELIZ NOVA DIETA
Julio Lemos

FILOSOFIA

OS MECANISMOS DA MELANCOLIA
Martim Vasques da Cunha

LITERATURA, FICÇÃO E REALIDADE
Nicolau Rocha Cavalcanti

SOCIEDADE

SÍRIA EM TRANSE
Plínio Gomes

TEOLOGIA

VIAGEM RUMO AO MUNDO
Marcelo Consentino

LITERATURA

IMAGINAÇÃO, TEMOR E TREMORES
Rodrigo Duarte Garcia

AS FACES DO ATEÍSMO
EM OS IRMÃOS KARAMÁZOV
Renato José de Moraes

DAVID FOSTER WALLACE E THE PALE KING
Julio Lemos

TEATRO

TOM STOPPARD: TEATRO ACESSÍVEL
A VENDEDORAS COM CURSO SUPERIOR
Pedro Sette-Câmara

POEMAS

TRÊS POEMAS
Silvério Duque

POEMA TRADUZIDO

ALGUMA POESIA DE DURS GRÜNBEIN
Tradução de Érico Nogueira

GENESIS

PÓS-ESCRITO CONCLUSIVO NÃO CIENTÍFICO ÀS MIGALHAS FILOSÓFICAS
S. Kierkegaard

CONTO

EVOLUÇÕES
MoemaVilela

CONTO TRADUZIDO

2 B R O 2 B
Kurt Vonnegut, Jr.

MÚSICA

APRÈS UNE LECTURE DU DANTE
(FANTASIA QUASI SONATA): UMA VISÃO
MUSICAL DA MORTE
Alvaro Siviero

CINEMA

OS DÓLARES DE LEONE
Joel Pinheiroda Fonseca

ANATOMIA DO POEMA
Jessé de Almeida Primo

RESENHAS

OBRAS DE EMIL CIORAN
Rodrigo Gurgel

C., TOM MCCARTHY. LA CARTE ET LE TERRITOIRE
MICHEL HOUELLEBECQ
Vinícius Castro

BOURGEOIS DIGNITY, DEIRDRE MCCLOSKEY
Renato Lima

A CASA DA SABEDORIA, JONATHAN LYONS
Joel Pinheiro da Fonseca

THE CONSPIRATOR
Ricardo Gross

SONS OF ANARCHY
Lucas Mafaldo

DEUS, PÁTRIA E FAMÍLIA, B FACHADA
Nuno Costa Santos

O LANÇAMENTO QUE NÃO HOUVE

SHAME AND NECESSITY, BERNARD WILLIAMS
Eduardo Pohlmann

HUMOR

NOVO TOLICIONÁRIO DA LÍNGUA PORTUGUESA
RuyGoiaba


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Dicta&Contradicta 8

Filed under: Geral incluído por Martim Vasques da Cunha
Data do post: 3 de dezembro de 2011
 

Caros leitores, chegou aquela época do ano… a época da nossa vingança. É com um prazer dos mais sádicos que lançamos sobre nosso público leitor mais algumas centenas de páginas de densa leitura. Tudo bem, daremos uma semana de colher de chá.

Por enquanto, deixemo-los com a nossa nova capa, com a temperante ilustração de Poti, que serve de inspiração para nosso lançamento. Palestra? Debate? Bate-papo descontraído com algum medalhão da cultura nacional? Nada disso! Apenas uma confraternização na Mercearia São Pedro (R. Rodésia, 34, Vila Madalena, São Paulo) a ser realizada na noite de segunda-feira 12/12, das 19:30 até a saída do último arroz de festa.

Depois de termos invadido a Civilização Brasileira, a editora de ninguém menos que Antonio Gramsci, agora invadiremos o tradicional ponto de encontro da intelligensia paulistana descolada e cult, a Mercearia, que além de cerveja em copo americano e bife frito, também oferece discos e histórias em quadrinhos, contará agora também com nossa maçaroca de ensaios, e com a presença da patota menos descolada deste planeta. Quem vier, verá.

(Em verdade vos digo: não há nenhum motivo extraordinário na escolha do lugar, exceto o fato de que fica ao lado da nova sede do IFE, justamente a residência do novo presidente do Instituto, para quem ainda não sabe, o sr. Marcelo Consentino, teólogo consagrado e amante de uma boa chopada.)


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Cultura sem Limites – Programação 2o semestre 2011

Filed under: Geral incluído por Martim Vasques da Cunha
Data do post: 18 de agosto de 2011
Cultura sem limites. Cursos na Livraria Cultura.
A cultura como negócio: como transformar a sua ideia em realidade. Ministrado por: Profa. Nancy Silva, Viviane Cristina Pinto, Viviana Pereira e Tatiana Pugliesi
Livraria Cultura Conjunto Nacional. Auditório da loja de artes (esquina da Av. Paulista com a Rua Augusta).
Informações: 11 6900-8151 ou fabio@culturasemlimites.com.br. Inscrições: www.culturasemlimites.com.br
Informações: 11 6900-8151 ou fabio@culturasemlimites.com.br. Inscrições: www.culturasemlimites.com.br

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Dicta&Contradicta No. 7 – editorial

Filed under: Geral incluído por Guilherme Malzoni Rabello
Data do post: 20 de junho de 2011
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É HOJE!

DICTA&CONTRADICTA

Dire la vérité, toute la vérité, rien que la vérité, dire bêtement la vérité bête, ennuyeusement la vérité ennuyeuse, tristement la vérité triste: voilà ce que nous nous sommes proposés. Nous y avons à peu près réussi.[1]

(Charles Péguy, Le Triomphe de la République)

Sete é um número cabalístico. Para os antigos indicava a totalidade, pois era a soma do “mundo” (os quatro ventos, os quatro cantos da terra, os quatro elementos) e da “divindade” (o três, primeiro primo ímpar, representava uma plenitude indivisível). Hoje continua a ter uma multidão de ressonâncias simbólicas, das sete cidades do Piauí aos sete samurais de Kurosawa. E, nessa veia, costumamos ver nos sete anos a chegada da “idade da razão”.

Com este sétimo número a Dicta entra – esperamos – numa certa idade da razão. Nesses quatro anos, deixou de ser a aposta mais ou menos aloucada de um grupo de amigos que gostavam de discussões filosóficas regadas a café para se transformar num empreendimento editorial sólido. Para marcar este passo, como o leitor pode ver, a revista renovou-se na aparência, mas sem mexer uma vírgula no conteúdo: textos de fundo que ajudem a pensar. Todas as mudanças tiveram como meta melhorar a clareza comunicativa de algumas partes – especialmente do índice e da seção de resenhas – e dar mais viveza e agilidade gráfica aos textos.

O leitor terá percebido também outra mudança importante: o selo da Civilização Brasileira na capa, junto ao logo do IFE. Firmamos um acordo com o grupo editorial Record, nada menos que o maior da América Latina. É um exemplo de parceria efetiva: o IFE mantém total autonomia na edição da revista, pois a Civilização Brasileira, num gesto de confiança e magnanimidade, abriu mão de toda a interferência neste processo, emprestando ao mesmo tempo à Dicta seu prestígio e poder de fogo nas áreas de divulgação e distribuição. Ela, por sua vez, passa a contar com uma revista de alta cultura de que ainda não dispunha.

Neste número, em comemoração, por assim dizer, permitimo-nos “exagerar” um pouco. Apresentamos, por exemplo, o “o último poeta da França”, Yves Bonnefoy, numa entrevista exclusiva feita pelo nosso colaborador, o tradutor e crítico inglês Chris Miller, que também assina um artigo sobre Bonnefoy como poeta e ensaísta. Além disso, publicamos traduções inéditas de alguns poemas selecionados da sua obra mais recente, Raturer outre, da mão do tradutor escolhido pelo próprio poeta, o prof. Mario Laranjeira.

A seguir, trazemos um texto inédito do professor da Sorbonne Rémi Brague, que analisa filosoficamente o binômio ateísmo-superstição. Deliberadamente “inatual” – porque “nosso problema mais atual é justamente que nossa sensibilidade está demasiado voltada para as questões atuais, para o aqui e para o agora” –, Brague vai montando nesse artigo um mosaico histórico que ilumina uma multidão de aspectos da modernidade. A título de exemplo, a citação que faz de Rousseau: os “princípios [do ateísmo] não matam os homens, mas os impedem de nascer [...]. A indiferença filosófica se assemelha à tranqüilidade do Estado no despotismo; trata-se da tranqüilidade da morte, que é mais destrutiva do que a própria guerra”. Palavras no mínimo sugestivas num momento em que a natalidade está em queda livre em quase todos os países do Ocidente.

Numa dessas coincidências que na verdade não o são – pois a partir de certo nível todas as áreas do pensamento convergem –, o artigo seguinte, do historiador Michael Burleigh, dialoga com o de Brague e quase que o ilustra. Burleigh traça de um lado o panorama das diversas ideologias atéias que participaram da Segunda Guerra mundial e do modo como pretenderam servir-se da religião, e de outro o de uma moral e uma religião que se prestaram a fazer o papel de ideologias, isto é, superstições.

A seção “Do lado de lá” traz quatro ensaios curtos do cenógrafo, roteirista e polígrafo, ganhador do prêmio Pulitzer e duas vezes indicado ao Oscar David Mamet, dono de um estilo dialógico tão marcante que foi alcunhado de Mamet speak. Este é um dos primeiros benefícios da parceria, pois permite trazer em primeira mão essas seleções do livro Theatre, que será lançado pela Record no segundo semestre de 2011.

Haveria muito mais a dizer, mas precisamos avançar, pois neste editorial pensávamos realizar uma tarefa especialmente importante neste momento de renovação – pois, como sabemos, renovar-se significa acima de tudo voltar às raízes, aos ideais que nos impulsionam. Desde o nosso primeiro editorial, afirmávamos que a revista fora concebida para ser o cartão de visitas do IFE, Instituto de Formação e Educação; é hora, pois, de convidar o leitor a refletir conosco sobre o que pretendemos e sobre como concebemos nossa missão.

Um dos conceitos, ou preconceitos, mais inconscientes e ao mesmo tempo mais arraigados em nossos dias é que a cultura, especialmente a dita alta cultura, é uma espécie de “cerejinha” do bolo social. Muito bem, é bonitinha, confere um toque de acabamento ao conjunto, mas na vida real sabemos muito bem que é perfeitamente dispensável. Não acrescenta nada de essencial. Digamos a verdade: está sobrando.

Leia mais…


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Dicta&Contradicta No. 7 – CAPA e índice

Filed under: Geral incluído por Guilherme Malzoni Rabello
Data do post: 17 de junho de 2011

E não é que a revista está de cara nova? Claro, aproveitamos que estaríamos numa casa nova e demos uma reformulada no visual. Tomara que a mudança agrade. Quase enloquecemos nossos designers para deixarem a revista mais legível, mais dinânica e mais bonita sem perder espaço de textos — afinal, só existimos em função deles.

E vamos ao índice, que dá a primeira idéia do que com certeza é uma das melhores Dictas que já fizemos. Espero que vocês concordem…

Índice

Dicta&Contradicta

Principal
O poeta improvável – Uma conversa com Yves Bonnefoy, por Chris Miller
Ateísmo ou superstição – A inatualidade de um problema contemporâneo, por Rémi Brague
A moral em guerra, por Micheal Burleigh

Do lado de lá
Quatro ensaios sobre teatro, por David Mamet

Perfil
Pelos caminhos tortos de Marshall McLuhan, por Leandro Oliveira

Feliz nova dieta
por Julio Lemos

Filosofia
Linguagem degradada e cegueira pública, por Nelson Boeira
Ainda cabe falar de certo e errado?, por Renato José de Moraes

Sociedade
Quando a política do Oriente Médio invade o Campus, por Andrew Roberts
Cesare Battisti – Memórias de um homem condenado, por Anthony Daniels

Literatura
Yves Bonnefoy: para começar um tríptico, por Chris Miller
Sob a fúria de Netuno: Machado e o mar, por Rodrigo Duarte Garcia
J.D. Sallinger: sete regras simples para desaparecer, por Martim Vasques da Cunha
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Dicta&Contradicta 7 – Lançamento

Filed under: Geral incluído por Guilherme Malzoni Rabello
Data do post: 8 de junho de 2011

Aí está. Quem estiver em São Paulo no dia 20, segunda-feira, não poderá perder esse conversa, que promete ser muito boa. O Roberto foi o primeiro entrevistado da Dicta e agora volta a São Paulo para discutirmos um tema que assombra todos os que querem fazer alguma coisa boa na cultura.

Mas, além da conversa, não vamos esquecer que é para um lançamento que estaremos. E, dessa vez, um lançamento muito especial. A partir de agora, a Dicta&Contradicta passa a fazer parte da Editoria Civilização Brasileira. Essa é uma parceria de que muito nos orgulhamos e, dentre tantas outras coisas, mostra que a Dicta está virando gente grande: já é parceira do maior grupo editorial da América Latina!


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